quinta-feira, 3 de março de 2011

POR QUE TANTAS MULHERES APANHAM CALADAS?

Num post que rendeu tantos comentários divertidos de trolls, apareceu também uma dúvida legítima da Carol. Resumo aqui:
"Ontem um amigo me disse que as mulheres gostam mesmo é de um homem que as abuse. E que prova disso são essas mulheres que apanham e são maltratadas pelo marido/namorado mas não largam deles, e continuam amando-os. Eu não sei mto bem como argumentar. Embora eu saiba que tem algo mto errado nessa forma de pensar, eu não consigo colocar meu dedo exatamente no ponto que deveria. Eu mesma já estive numa situação desse tipo, da qual não conseguia me desvencilhar. Ao mesmo tempo que eu sei o que me segurava ali, eu não sei até onde isso pode justificar todos os casos, e não sei exatamente qual a raiz exata desse comportamento. É uma situação mto difícil, q até hoje não me sinto com liberdade para expor aos outros, pq me sinto culpada e responsável, no final das contas, por me deixar cair numa armadilha tão absurda”.

Talvez sua dificuldade em entender por que mulheres são abusadas com seus companheiros e continuam com eles, Carol, venha de uma vontade de querer encontrar uma explicação exata para todos os casos, quando ― arrisco dizer sem ser psicóloga ― isso não existe. A própria Carol deixou um link para um ótimo post da Eliane Brum em que ela trata da autobiografia de Natascha Kampusch, a menina austríaca que foi sequestrada e viveu num cativeiro dos 10 aos 18 anos, até que, num momento de distração de seu algoz, e de coragem descomunal da parte dela, correu para a rua. O rapaz se matou, e a moça, passada a comoção geral, virou persona non grata por insistir em não se comportar como vítima tradicional. Acho que vários trechos do livro de Natascha são completamente pertinentes pra pensar a questão de por que tantas mulheres que apanham não fogem, não denunciam, e, em muitos casos, até perdoam e voltam para seus carrascos:

"Se eu tivesse apenas o odiado, esse ódio teria me consumido e me tirado a força de que eu precisava para sobreviver. Como naquele momento pude captar um lampejo do ser humano pequeno, desorientado e fraco por trás da máscara do sequestrador, pude me aproximar dele. Então, olhei em seus olhos e disse:
– Eu perdoo você, porque todo mundo erra às vezes.
Foi um passo que pode parecer estranho e doentio para muitas pessoas. Afinal de contas, o ‘erro’ dele custara minha liberdade. Mas era a única coisa a fazer. Eu tinha de conseguir conviver com aquele homem, caso contrário não sobreviveria.

"[...]percebi que, em certa medida, também idealizei a sociedade. Vivemos em um mundo em que as mulheres apanham e são incapazes de abandonar o homem que bate nelas, embora, em tese, a porta esteja aberta. Uma em cada quatro mulheres é vítima de violência extrema. Uma em cada duas mulheres sofre assédio sexual durante a vida. Esses crimes estão em toda parte e podem ocorrer atrás de qualquer porta do país, em qualquer dia, e talvez só provoquem um dar de ombros ou uma indignação superficial.
Nossa sociedade precisa de criminosos como Wolfgang Priklopil para dar um rosto ao mal e afastá-lo dela mesma. É preciso ver imagens desses porões para que não se vejam os muitos lares em que a violência ergue sua face burguesa e conformista. A sociedade usa as vítimas desses casos sensacionalistas, como o meu, para se despir da responsabilidade pelas muitas vítimas sem nome dos crimes praticados diariamente, vítimas que não recebem ajuda ― mesmo quando pedem.

Incrivelmente lúcidas as declarações de Natascha, que merece toda nossa solidariedade e respeito, assim como todas as mulheres (e as muitas crianças, e os poucos homens) que sofrem abuso das mãos de seus companheiros, ou de pessoas que dizem (e talvez até acreditem) que as amam. Saiu agora uma pesquisa dizendo que, a cada dois minutos, cinco mulheres são agredidas no Brasil. Ou seja, não é um problema individual, do tipo que não devemos nos intrometer, já que é nóia daquele casalzinho específico ali. É uma chaga de toda a sociedade. Por isso, precisamos urgentemente de uma campanha contra o machismo, como a que o Equador fez e continua fazendo.
Eu penso sempre na Ana, uma menina de 18 anos que publicou um guest post terrível aqui no blog, em junho. Por coincidência, na mesma manhã que saiu o relato dela, eu e minha turma de Inglês Técnico falamos de violência doméstica e assassinatos de mulheres pelos parceiros (um texto que líamos era sobre um marido absolvido por matar a esposa durante o sono). E muitos alunos se mostravam indignados com as mulheres que aceitam tudo caladas, sem procurar ajuda, voltando pros agressores, revoltando-se contra quem tenta auxiliá-las. O depoimento da Ana proporciona pistas valiosas sobre por que isso acontece.
Ana tinha 13 anos quando seu namorado de 21 bateu nela pela primeira vez — um tapa no meio da rua. Uma senhora veio ajudá-la e olhou feio pro rapaz, e Ana sentiu raiva... da senhora que quis ajudá-la. Por quê? Por vergonha, por medo. Ela diz: “O jeito que ele me bateu enfiou na minha cabeça que ele tinha total domínio sobre mim e que eu seria a pior pessoa do mundo se não o obedecesse”.
A menina de 13 anos continuou apanhando quase diariamente durante quatro meses, sem contar a ninguém, nem a seus pais, que a amavam tanto. Em suas palavras: “Acho que o pior era isso, a repressão; eu achava que não havia outra saída, eu só podia me conformar, era a minha sina. [...] Eu desejava que ele morresse e me culpava por isso, e cheguei a achar que merecia apanhar por desejar uma coisa tão horrenda. Eu aprendi a apanhar em silêncio porque ele se empolgava se eu começava a chorar...
Um dia o namorado a chutou forte na bexiga, o que fez com que ela urinasse, e ele riu. Aquilo foi demais: “eu percebi, ainda que por um momento, que ele que era o bosta da história, ele que era um lixo. E no dia seguinte ele passou na minha casa e eu não desci”.
Como aponta Eliane, perdoar seu agressor não é um ato passivo. Não descer, como decidiu fazer Ana, também foi um ato ativo. Agora imagina só, tudo que Natascha tinha que fazer era andar alguns passos e sair correndo pelo portão. Assim como tudo que Ana tinha que fazer era não descer do apê dos seus pais quando o namorado aparecia lá embaixo. Parece tão pouco, né? E mesmo assim as amarras psicológicas são gigantescas. E as duas, apesar de crianças, não tinham dependentes. O que faz uma mulher com filhos numa situação de violência doméstica? Imagina uma mulher economicamente dependente do marido pra viver. Uma mulher que não tenha pra onde ir. Que talvez tenha passado a vida toda acreditando que casamento é a maior realização feminina e que é algo sagrado, para sempre.
Não podemos perder o foco, nunca. A culpa não é de quem apanha, a culpa é de quem bate. A culpa também é de quem ouve tudo e pensa que é briguinha de marido e mulher e por isso não deve meter a colher. A culpa é de quem acha que casos assim não existam, e de quem acha que mulher gosta de apanhar. A culpa é de uma sociedade repressora que ensina aos homens que devem resolver os conflitos através da violência, e que ensina as mulheres a não reagir jamais. A culpa é de um Estado que não garante proteção e assistência àquelas que precisam.
Mas claro que é mais fácil culpar a vítima ou os pais e simplesmente chamar o agressor de monstro do que discutir o que leva alguém a agir dessa forma. Porque não é um ou outro homem que trata a mulher como posse, são muitos. Não é um ou outro que bate na mulher. Não é um ou outro que não aceita terminar o relacionamento, e mata a mulher para se vingar, ou para ela não ser de mais ninguém. São muitos. São dez mulheres mortas por dia no Brasil, todo dia.
E se mesmo nós que somos mulheres feministas, cientes que essas atrocidades acontecem, respondemos passivamente a tantas agressões, se não conseguimos denunciar nosso estuprador, se nos sentimos culpadas de algum modo pelo abuso que sofremos, como podemos não compreender as mulheres que apanham caladas de seus companheiros?
Pois é. Espero, Carol querida, ter te ajudado a entender um pouco melhor a resposta.

60 fala gente fala:

Aline disse...

Sabe Lola, sofrer calada tem mesmo muitos motivos...
Eu fui voluntária em uma ong e vi cada coisa:
Falta de dinheiro, medo, vergonha.

Eu achava que era fácil, vai e denuncia e pronto, mas aprendi que não é bem assim, existe todo um condicionamento por trás e só quem está muito próximo a isso pra saber...

bjs

Aline

Lord Anderson disse...

Lola, semp piadas hoje.

Eu não costumo falar disso, mas já vivi toda essa violencia domestica em familia quando criança.

Mãe, tias, eu vi muitas sofrerem agressões, e todas imersas num contexto que tornava dificil a fuga.

Famias do interior, trabalhadoras agricolas, longe de qualquer ajuda especializada, dependente dos maridos, preocupadas com os filhos, sofrendo a pressão social e religiosa de que casamento não pode acabar e que "brigas" eram assunto do casal... etc

Só uma tia conseguiu reunir toda a força e fugir para dar um basta naquilo...e é claro se tornou a mal falada da familia, a ingrata, a vagabunda, e tudo o mais...

Só com o passar do tempo, com o aprimoramento das leis e da tomada de consciência das mulheres esse quadro mudou.

Mas, eu, minhas irmãs, meus primos crescemos sobre esse estgma, mas conseguimos quebrar o ciclo.

E acredite, ninguem da minha geração acha a menor graça quando algum imbecil diz algo do tipo "mulher gosta de apanhar", ou isso é assunto deles, etc.

Por isso eu dedico todo o apoio que posso a luta para o fim dessa violencia.

Desculpe p comentario enorme, é que revolta ver o quanto essa praga ainda é tratada como coisa menor.

Ana Carolina disse...

Complicado demais, mas tem grande base na nossa cultura machista, também. Cansei de conhecer mulheres que aceitam agressões físicas e psicológicas porque "homem é assim mesmo e assim são as coisas", sem contestar. Outras, jovens como eu, que aceitaram apanhar de namorados/maridos, serem acintosamente traídas e aceitarem, pois "homens são assim".
Claro, também tem o poder que o opressor acaba por exercer sobre a vítima (e curioso notar como essas duas palavras estão no gênero masculino e feminino) e a impede de reagir, apenas de aceitar, mas essa cultura do "homem é assim mesmo" precisa acabar. Homem não é assim mesmo, mulher não é assim mesmo, e só a gente pode mudar isso.

Thaís disse...

Eu vou ser sincera: eu acompanho seus posts mas muitas vezes eu me sinto constrangida de comentar, eu não tenho uma senhora bagagem para conseguir fazer um comentário bacana e interessante, e diversas vezes seus posts me deixaram incomodada por eu achar que você se mostrou radical demais...

Mas no geral eu adoro seu blog, ele joga luzes sobre determinadas questões que eu não conseguiria perceber sozinha (além dos links incríveis que você coloca, obrigada mesmo por todos eles).

A dúvida da Carol sempre foi um problema pra mim, eu também não conseguia responder isso quando alguém colocava a questão da violência doméstica dessa forma. Discuto esse assunto com meu namorado muitas e muitas vezes, nenhum dos dois conseguindo entender porque mulheres que sofrem um casamento marcado pelo abuso e pela falta de respeito continuam com os maridos.

Não sei se cabe, mas eu também pensei no peso religioso do casamento, coisa que você comentou por cima (ou não cabia comentar mais no texto, enfim). Já ouvi que se um casamento não dá certo, por exemplo porque o marido bate na esposa, que a culpa é "dos dois" que não se esforçam para construir essa união "divina". Mas a culpa sempre recai na esposa, que não cuida da casa, que desagrada o marido, que faz mil coisas que se tornam justificativa para o abuso. Isso também é uma pressão, muita gente ainda considera o divórcio um absurdo, como fugir disso mesmo quando não existe como consertar um casamento?

Lola, desculpa o comentário imenso, devo ter falado muitas asneiras, mas obrigada por esse post. Não sei se a Carol sentiu que a dúvida dela foi respondida, mas me ajudou muito a refletir.

Carol disse...

Lola, muito obrigada por falar sobre isso num post.
Eu acho que é isso: os laços psicológicos, a dependência que é criada no relacionamento, tudo isso é meio que subestimado e negligenciado ao fazer um julgamento sobre uma situação dessas.

As pessoas acham que é simples, que é só terminar tudo e pronto. Ir embora e pronto. Que se algo tá fazendo mal, o mais lógico é cair fora. E se vc não cai fora, é pq não tá fazendo mal, é pq vc tá gostando.

Por isso q é tão complicado. De entender, e de lidar com isso.

Eu acho que geralmente o começo desses relacionamentos é meio maravilhoso. Os homens se mostram maravilhosos, encantadores. Te tratam bem, te mimam, se mostram apaixonados.
Quando os abusos começam, a gente se sente culpada. Do tipo, "estava tudo tão bom, e eu estraguei tudo". Aí a gente se coloca "a serviço" dele. Pra tentar consertar tudo, pq a gente acha q a culpa é nossa, por ter estragado algo tão bonito. A gente se entrega primeiro por estar apaixonada, e depois que a gente já se entregou, não consegue se tomar de volta.

Aí é aquele turbilhão, como o q a Ana contou no terrível guest post que vc linkou... medo, vergonha, um sentimento de q vc não se pertence mais e não tem esse direito. E até afasta pessoas q querem te ajudar, e defende o cara, pq como vc acredita que a culpa é sua, vc não quer que ninguém mais saiba dessa sua vergonha. Vc não acha que merece ser ajudada. E vc quer defender o agressor pq no fundo acredita que a culpa é toda sua, e é quase como se ELE fosse a vítima de suas ações tão terríveis, que estragaram tudo oq vcs tinham de bonito. Vc fica pisando em ovos. Vc só quer aquela paixão feliz de volta, que fique tudo bem, e se esforça, mas quando menos espera comete um deslize que nem vc percebe. E é punida. Pq vc merece.

Isso pode durar meses ou anos e com alguma sorte algum "click" vai te fazer ver a merda que vc tá metida e tomar rápido uma atitude, que é das coisas mais difíceis de se fazer depois de se criar tantos nós no relacionamento, tanta dependência. É duro se encontrar de volta no estado que vc está e saber que terá todo esse trabalho pela frente. E ainda sempre sobram feridas abertas e cicatrizes, e vc ainda tem q cuidar disso.

Meu amigo ainda diria que as mulheres BUSCAM esses relacionamentos e GOSTAM desse tipo de homem. Eu não sei. Não sei se realmente as mulheres tendem a se atrair por homens dominadores, mas terminam caindo na armadilha pq elas querem a paixão, a dominação "consentida" e não a filha da putisse dos caras. Tipo, é lógico que nenhuma mulher numa situação dessas tá feliz. Se ela tá feliz, ela não tá sendo abusada. Eu fico mto triste qdo as pessoas afirmam esses tipos de coisas, pq parece q todas as mulheres que estão em situações como essa não merecem simpatia, não há esperanças. "Estão lá pq querem", fim.

Aff, escrevi um post aqui.

Marcely disse...

Sabe, Lola, lendo o relato da Ana, por incrível que pareça eu me identifico. Incrível porque eu nunca namorei um cara que batesse em mim, mas tive um irmão 7 anos mais velho que eu que sempre me tratou com abuso. O sexual quando eu era pequena e o físico/verbal até ele sair de casa. Também nunca fui capaz de culpá-lo totalmente pelo que fez, a sensação até hoje é a de que eu estaria muito errada se não perdoasse, afinal ele não faz mais nada disso/finge que nada aconteceu, é familia...
Mas essa sensação de medo, vergonha que os outros intercedam por nós, como se nós fôssemos o errado, culpa do abuso... sei como é. É um círculo vicioso em que a gente confirma para os outros nossa culpa pela violência enquanto eles nos confirmam isso baseado nessa superfície da nossa atitude. É algo assim "como ocorreu o abuso sexual? Só porque você permitiu", uma lógica bem machista mesmo.
A vergonha de um abuso sexual, então, é fulminante. De qualquer forma, imagino que não seja muito menor do que ser vítima de um cara que bate na gente, é um estigma, uma vergonha, "uma coisa de gente pobre, desequilibrada" (pelo menos o que a sociedade dá a entender é que ricos nunca apanham, têm relações mais maduras e "cultas", afinal "são mais inteligentes e letrados").
Hoje em dia eu assumo publicamente o que passei, tive que lidar com isso. A hora que me abri, escancarei de vez. Mas não foi nada fácil admitir. A forma como ele me batia (não eram tapinhas, era brusco, violento), a forma como ele me humilhava verbalmente, me faziam sentir pequena, burra, inútil, errada. Acho que é essa sensação de humilhação, por ser fraca, que nos prende de admitir, de fugir, e nos faz sentir merecedoras da violência. É uma espécie, digamos, de automutilação, uma forma de libertar-se ainda sofrendo, sem ter de admitir e lidar com a dor de ser estigmatizado, hostilizado por todos.

aiaiai disse...

Resumindo: por causa do machismo!

Se vocês pararem para pensar, por traz de cada justificativa (medo, dependência financeira, proteção aos filhos, crença no casamento eterno, certeza de que "homens são assim mesmo", etc) está o machismo. Por isso que a grande causa nossa - homens e mulheres que conseguem enxergar isso - deve ser destruir essa cultura machista, construindo em seu lugar uma sociedade que veja mulheres e homens como seres humanos. pronto, nada mais.

acrescento ao debate uma pesquisa divulgada pelo senado:

http://migre.me/3YXK3

Teresa Silva disse...

Há pouco tempo saiu em um jornal que em uma rua da zona sul do Rio de Janeiro (não devia se tratar de pobres e iletrados) uma mulher estava apanhando do companheiro. As pessoas em volta saíram em sua defesa e chamaram a polícia. Quando a polícia chegou, a mulher disse que não ia dar queixa e foi embora de mão dada com o cara, deixando todos espantados.

Outra história que eu escutei foi de uma delegada de delegacia da mulher. Ela atendeu uma mulher vítima de violência do marido que só foi até lá levada pelos amigos e resistia a dar queixa. Conversando com a delegada, ela contou que cresceu vendo a mãe apanhar do pai e por isso achava normal que ela apanhasse do marido.

Anônimo disse...

A QUESTÃO NÃO É "PQ ALGUMAS MULHERES NÃO DENUNCIAM?"!

EXISTEM INÚMERAS JUSTIFICATIVAS PARA TAL:A PRÓPRIA LEI É INEFICIENTE,MEDO DE SER AGREDIDA MAIS AINDA,MEDO DE SER ASSASSINADA(MUUUITAS RECEBEM AMEAÇAS),SENSAÇÃO DE IMPOTÊNCIA(COMPLEXO,QUE VAI DESDE A AUTO ESTIMA QUE É ESTRAÇALHADA PELO AGRESSOR AO MEDO DE FICAR SEM A AJUDA FINANCEIRA DELE).SEM CONTAR A PRÓPRIA COAÇÃO MACHISTA,NO ESTILO"ELA PROVOCOU",ASSIM COMO ELA PROVOCOU O ASSÉDIO,O ESTUPRO.ELES USAM TAL JUSTIFICATIVA ATÉ PARA RELAÇÕES PEDÓFILAS E INCESTUOSAS.PARA ELIMINAR SUA CULPA,CULPAM A VÍTIMA.É UM ABSURDO QUE UM POST SOBRE ISSO PRECISE SER FEITO!ISSO É O CÚMULO.
VCS MESMAS QUESTIONAREM ISSO?

ESTES HOMENS SÃO MANIPULADORES E PERVERSOS,CORROEM E INDUZEM O SENSO CRÍTICO E O AMOR RÓPRIO DELAS EM PROL DELES.DÁ A ENTENDER QUE AS SENHORAS CAÍRAM NA COVARDE EXPLICAÇÃO DESTES ORDINÁRIOS.É O HOMEM QUE BATE.ISSO NÃO VAI ACBAR COM DENÚNCIAS.SÃO OS HOMENS QUE PRECISAM MUDAR E SOMENTE MUDARÃO QUANDO OS COLOCAREM EM UM CABRESTO!

RIDÍCULA A DÚVIDA PRIMÁRIA DA LEITORA.PARECE QUE A RESPONSÁVEL É A AGREDIDA.RIDÍCULO.TOMEM CUIDADO COM SUAS OPINIÕES.
ESTOU REVOLTADA!

Anônimo disse...

É INVÁLIDO QUESTIONAR ESSA PASSIVA REAÇÃO!INVÁLIDO!
PARECE QUE O PROBLEMA É A QUE APANHA,NÃO O QUE BATE,QUE ESTE SÓ ASSIM REAGE POR COMPLACÊNCIA DA OUTRA PARTE.
NÃO É A VÍTIMA,MAS O OPRESSOR QUEM DEVE MUDAR!MANTENHAM O FOCO,POR FAVOR!

Carol disse...

"Anônima", absolutamente ninguém está dizendo que a culpa recai de forma alguma sobre a vítima por complacência.

A minha dúvida era sobre entender esse comportamento, e não afirmar que a culpa é da vítima de nenhuma forma.
Como eu disse, já estive em uma situação do tipo, e ainda tenho dificuldade em entender pq me mantive nela por quase 3 anos. Ainda me culpo.

Não estamos questionando a reação, ou falta de reação. Estamos procurando compreender o PQ de acontecer isso, pra saber como lidar com isso.

Lord Anderson disse...

Anonima

Não acho que seja invalido questionar. Pelo contrario, o questionamento ajuda a perceber melhor a dinamica de machismo e dominação que cerca todas as familias.

Ao apontar os varios motivos (coisa que vc tb fez) ficam mais claros tb os pontos p/ reivindicação e luta.

Os agressores são so responsaveis e deve parar, ninguem sequer pensa em negar isso.

Mas uma das maneiras de se combater isso é ajudando a vitima a sair do seu dominio.

Dando todo o apoio emociona, psicologico e emocional que elas precisam.

Essa luta tem varias frentes.

Anônimo disse...

A LEI É FRÁGIL,FALHA E O ATENDIMENTO EM DELEGACIAS É RUIM.INÚMERAS QUEIXAS NÃO CONSEGUEM SER COMPROVADAS,POIS A FAVOR DA VERIDICIDADE DO CASO,VIRA-SE A MULHER DO AVESSO.
POR POUCO ELA NÃO TEM QUE CATAR O BRUTAMONTES E LEVÁ-LA CONSIGO.DAQUI A POUCO É ISSO QUE EXIGIRÃO!

QUE ABSURDO!

QUANTA INCOERÊNCIA...

Pedro.. disse...

Que a culpa é do agressor é evidente. É ele quem deve ser punido socialmente.

Mas mapear o culpado e a vítima é só o passo inicial de entender como agir. E na prática a porca torce o rabo. As coisas são mais complicadas do que resoluções teóricas.

Essas relações são sobre poder, sobre dominação, e também sobre vício.

A vítima muitas vezes não tem só o sentimento de medo, mas se vê num estado totalmente castrado, a ponto de talvez não ver vida fora daquela situação.

A questão PRÁTICA é: o que fazer sobre isso?

Às vezes você socorre a pessoa uma, duas, três vezes (já que na maior parte dos casos é reincidente). E então a pessoa continua retornando para aquela situação, seja de maus tratos psicológicos, físicos, ou ambos. Não é algo raro de acontecer da vítima retornar para o agressor, como se estivesse completamente presa a ele.

Assim como o caso que a Teresa citou, de cidadãos terem chamado a polícia: "Quando a polícia chegou, a mulher disse que não ia dar queixa e foi embora de mão dada com o cara, deixando todos espantados."

É uma questão PRÁTICA e muito problemática, que qualquer um pode ter vivido em casa: a partir de que ponto a vítima se torna a responsável por sua situação trágica?

Quanto de ajuda - e que tipo de ajuda - é que deve ser prestada para romper essa dominação? E se não adiantar?

COMO AGIR NESSE TIPO DE CASO?

Samara L. disse...

Olha, eu não sou psicóloga. E a única vez que sofri uma ameaça de coação sexual, bati de volta porque sou uma mulher muito grande e forte fisicamente e consegui contornar a situação e evitar um estupro (o que não me livrou da sensação de sujeira e de vergonha depois, enfim, longa história). Enfim.
Mas acho que antes do machismo, antes da questão de contexto social, uma coisa que leva as pessoas a suportarem quase indefidamente situações assim é uma autoestima mal construída que as leva a acreditar, em algum lugar dentro de si, que merecem ou são responsáveis por esse tipo de tratamento.
Já me envolvi em situações de maus tratos psicológicos dessa forma e já vi acontecer com muitas mulheres - que até tinham condições materiais de se libertarem mas seguiram acorrentadas psicologicamente. Bom, se essa situação se estabelece no campo meramente verbal, a agressão física traz um tipo de humilhação ainda mais primitiva e difícil de lidar.
Difícil, não sendo profissional, detectar as causas disso. Mas chutaria que tudo começa na primeira infancia, na formação da personalidade - ser exposta e ver pessoas que respeita sendo expostas a humilhações e maus tratos, ouvir desde de muito nova que não é boa o suficiente e que felicidade é questão de um merecimento que você nunca obterá. Uma espécie de tortura psicológica passada de geração em geração, corroborando a posição da mulher - mulheres traumatizadas e confusas criando meninas traumatizadas e confusas e meninos permissivos.
Solução - acho que reflexões como essas ajudam as pessoas a se conscientizarem de padrões, pensarem profundamente a respeito e começarem a agir para minimizar esses comportamentos.
Apesar dos masculinistas e trolls, acho que ainda sou ingênua o suficiente para acreditar no progresso do ser humano.
Grande abraço.

Anônimo disse...

Não parece que estão auxiliando a vítima!
Ouço inúmeras grotecidades por aí,de brutos utilizando-se da dúvida.Mais ainda da afirmação:"mulher é masoquista".
Não ha´questionamentos subjacentes,estes demônios usam-na com o fim de aplacar sua responsabilidade e alçar a vítima à algoz.Por isso,considero perigosíssimo pautarmos triste realidade.Sim,é inválido sim,nós já conhecemos as razões.SEMPRE É USADA PARA O BEM DO AGRESSOR!SEMPRE!

KALI, desesperadamente humana. disse...

Existe uma confusao muito grande entre agressividade e violencia. Agressividade eh um impulso que nos move em direcao a acao,e por tanto, eh construtiva. Eh a forca para a mudanca, para se jogar na vida. Jah violencia seria a face ruim da agressividade. A agressividade desesperada, covarde, destrutiva.

O problema na sociedade machista sao os estereotipos. Se diz que homens sao naturalmente agressivos/ativos e mulheres sao naturalmente passivas/pacificas. Nao, a agressividade eh vital a qualquer ser humano, mas como temos esta parte da nossa psique reprimida, nos tornamos seres passivos, incapazes de iniciativa. Leoas amordacadas. Eh feio uma mulher agressiva, que vai a luta, que se joga. Ela acaba com ma fama, e logo comecam a duvidar da sua sexualidade (quantas mulhers "retadas" jah nao foram chamadas de "sapatao"? Duplo preconceito contra as mulheres ativas e as lesbicas).

Eh isso, devemos educar nossas filhas a reconquistarem sua agressividade natural (o que nao tem nada a ver com incitar a violencia). Se voce aprende desde pequena a se defender, voce cresce sabendo que tem o DIREITO a isso. Mas ainda somos educadas a sermos defendidas por terceiros. Uma lastima, pois sao esses mesmos terceiros que nos batem.

Anônimo disse...

Carol,

Se a vítima não é a causadora,então pq sentiu-se culpada quando passou por situação semelhante?Acha que se desse um ultimato,o cretino iria parar com as agressões?ELE e NÃO VC QUE DEVERIA SENTIR PESO NA CONSCIÊNCIA.

Pedro.. disse...

Entendo a revolta do(a) Anônimo.

O fato de admitir que a vítima tem algum poder sobre a situação pode ter sido usado por algumas pessoas para aliviar a Culpa do agressor.

Mas estamos debatendo num nível mais inteligente que esse. Ninguém está afirmando isso. Ninguém está aliviando a culpa do agressor.

Acho que a ideia da Carol é apenas entender a psicologia da vítima, e como ela se vê sem forças de sair daquela situação, e porquê. Ignorar que existe esse lado é deixar de entender uma parte da realidade.

E a questão não é que o agressor "devia" sentir peso na consciência. Isso seria lindo na teoria. Mas, na prática, como agir sobre as coisas que acontecem de fato?

Como ajudar vítimas que se recusam a aceitar ajuda, castradas que estão, e a agressores acostumados com essa dominação?

Rita Gomes. disse...

Tenho uma prima distante que sabe o marido a trái sempre. e apesar de ela nunca ter falado sabemos que ele já a agrediu fisicamente (inclusive qd estava grávida!) como nao somos proximas apesar de ter curiosidade de conversar com ela nao tenho coragem de perguntar, mas qd surgiu o assunto um dia ela falou que simplesmente nao quer que as filhas fiquem sem pai (q a proposito nunca foi um bom pai e bate muito nas criancas) e que acha que a missao dela é ter paciencia porque ela crê que ele é um perdido e que ela tem que ajuda-lo e que vai confiar em deus... (detalhe, ele nem é tao religiosa)
apesar de eles serem de classe média baixa, os dois trabalhos e ele já ficou meses desempregado com ela pagando as contas, alem disso a casa em q moram é da familia dela que sempre a ajudariam... é uma escolha mesmo.. acho que ela se sente como uma mártir...
ps: ela se casou aos 17 anos e hoje tem 26...

L. Archilla disse...

Excelente post, Lola. A única coisa que eu tenho a acrescentar é que, além dos inúmeros fatores psicológicos e culturais que levam uma mulher a aceitar a agressão, tem o seguinte: existem homens E mulheres que mantém relações doentias apesar de estarem sendo prejudicados. Assim como algumas mulheres apanham e vão embora de mãos dadas com o agressor quando a polícia chega, tem caras cuja esposa/namorada faz da vida deles um verdadeiro inferno e mesmo assim eles se mantêm na relação. Assim como tem casais que arruinam a vida um do outro mutuamente. A questão é que a mulher NÃO É educada pra bater. Ela agride de outras formas, mas rarissimamente a ponto de espancar ou matar o sujeito (até porque somos fisicamente mais frágeis). Então, enquanto um estiver estragando emocionalmente a vida do outro, seja a mulher a do homem ou o homem a da mulher, ou os dois, é uma questão de foro íntimo. A partir do momento que envolve risco físico, é questão do Estado. E, por conta da luta feminista e das pequenas conquistas que temos alcançado, os casos trazidos à tona são os das mulheres que apanham caladas, e não dos caras que suportam atitudes absurdas em prol de um relacionamento falido. Aí fica essa coisa de "mulher gosta de sofrer". Aliás, vale lembrar que, estatisticamente, na grande maioria das vezes quem pede o divórcio é a mulher. E, pelo menos no meu círculo de contatos, a grande maioria dos namoros tb são terminados pela mulher. Então isso de que mulher gosta de sofrer, tem uma tendência natural à passividade, etc, é uma grande besteira.

Nefelibata disse...

Opressão social é isso: não se trata de uma mera agressão física ou psicológica, trata-se de uma situação em que a vítima encontra enormes dificuldades, de variadas ordens, para por o pé para fora do buraco.

Por exemplo; não é fácil contrariar o conjunto de valores com o qual crescemos e fomos construídos. E se quisermos contrariar esses valores, isso não passa por uma decisão, mas por várias decisões, reiteradas, todos os dias uma reafirmação, e cada decisão continua tão dolorosa quanto a anterior. Essa dor só passa se, e somente se, com o tempo, a vítima conseguir se acostumar com os novos valores em que apostou, e puder evoluir dentro deles. Mas até aí, foi uma odisseia, que é inimaginável para quem nunca teve que mudar radicalmente seu próprio ser durante a vida (maioria da galera, essa é que é a verdade).

Mudar radicalmente o próprio ser é algo que só gente de determinação forte consegue. Mas é injusto que os de personalidade mais fraca vivam oprimidos. Por isso, cabe a todos nós que enxergamos a opressão lutar com o que tivermos e pudermos para mostrar para essas vítimas que, sim, outra realidade é possível.

Por fim, ainda que a vítima seja incapaz de se convencer que pode ou deve se libertar, não muda o fato objetivo da agressão direta do opressor. E quando isso acontecer, deve ser combatido. Nesse sentido, há, p. ex., o mérito da lei Maria da Penha, por exemplo, que proibiu a retirada da queixa nos casos de violência contra a mulher.

aiaiai disse...

mais um caso de sofrimento por causa do machismo http://bit.ly/hrBXuM
vejam que o machismo não é só do ex-marido mas também do judiciário brasileiro. Tiraram o filho do convivio com a mãe primeiro porque ela é atriz e agora porque ela está doente...absurdo total!

Ricardo disse...

Porque gostam.

adelia disse...

a primeira pergunta nonsense num caso desses eh: "o que sera que ela fez para merecer essa surra?". desagradou o marido/namorado/pai/dono de tal forma que ele se irritou demais. fico puta na mesma proporcao em que tenho muita pena de nos.

lola aronovich disse...

Puxa, Lord, que barra ver isso acontecer com tantas mulheres da sua família... Fico feliz que o quadro tenha mudado (mesmo que muito tardiamente, depois de tanto sofrimento e impunidade), e que vcs, de outra geração, já cresceram com uma visão muito mais crítica. E que não achem a menor graça nas piadinhas e slogans (porque parece slogan, né? É propaganda de qualquer jeito) do “mulher gosta de apanhar”, “um tapinha não dói”, ou “não são todas as mulheres que gostam de apanhar, só as normais”, by Nelson Rodrigues, que o pessoal ouve e repete sem questionar, como se estivessem citando a bíblia...


É verdade, Ana. Essa cultura do “homem é assim mesmo”, “é assim que as coisas são”, é terrível. Cria uma inércia incrível. Esse é outro mantra que as pessoas entoam sem pensar no que estão dizendo.

lola aronovich disse...

Carol, pois é. Eu já vi alguns telefilmes americanos sobre violência doméstica e eles são sempre iguais. No começo o relacionamento é uma maravilha, o carinha é super legal, prestativo, romântico, cavalheiro. A moça se apaixona por ele, ele se apaixona por ele, tudo lindo. Aí pouco a pouco a situação muda. Começa com coisinhas: o cara cria mais e mais obstáculos para que ela saia com amigas (amigOS, nem pensar!), o ciúme vai se manifestando, ele faz tudo para afastá-la da família dela. Enfim, ele a isola. O ciúme vai crescendo, o isolamento também, cria-se um sentimento de posse. E aí qualquer conflito conjugal (o que é muito comum entre a maior parte dos casais) passa a ficar mais e mais violento, até vir o primeiro golpe. E o tubrilhão todo de medo, culpa e vergonha.
Sobre seu amigo que diz que mulheres buscam esse tipo de relacionamento: acho um discurso extremamente perigoso. É culpar a vítima mesmo. Por outro lado, há algumas mulheres (e eu acho que são bem poucas), que subconscientemente podem buscar reproduzir esse padrão. Muitas vezes são mulheres que viram ou sofreram violência doméstica quando criança (assim como boa parte dos agressores cresceu vendo o pai bater na mãe). Mas mesmo essas mulheres que, repito, acho que são bem poucas (a maior parte cai num relacionamento desses por azar mesmo, ou por aceitar um modelo de dominação que é aquele vendido pela sociedade), não gostam disso. Isso eu tenho certeza. É horrível alguém dizer que uma mulher numa situação de violência doméstica esteja gostando. Pô, é uma total falta de empatia dizer algo assim. Avisa o seu amigo!

lola aronovich disse...

Thaís, muito legal seu comentário. Que bom que vc continua me lendo, apesar do meu “radicalismo” (coloco entre aspas porque, assim como tem gente que me acha radical, tem quem me ache molinha pra caramba). Sem dúvida, o peso do casamento fala alto. A gente cresce ouvindo essas historinhas de “e foram felizes para sempre”, e acredita! E, num divórcio, a gente não tá se separando apenas do cônjuge, mas de toda uma tradição, de uma instituição que tantas religiões consideram sagrada e divina. É besteira negar que isso exista, e que é forte.


Marcely, que horrível o que vc conta. Mas fico feliz que vc decidiu assumir essa sua história de abuso e lutar contra ela de frente. Acho que é um ato de grande coragem.

Lord Anderson disse...

Lola, isso aconteceu a mais de 2 decadas, em areas ruais, onde radio e TV mal chegavam.

Sem uma instituição que pudesse dar apoio e incentivo e com todo mundo dizendo que as "coisas são assim mesmo", é hiper-comprensivel pq elas tiveram de suportar tanto tempo.

Levou muitos anos até sequer ouvirem falar de uma Delegacia da Mulher.

E nem é para dizer que elas eram passivas , pq dentro das possibildiades elas lutavam, tentavam proteger os fihos, dar apoio uma as outras ,etc

Elas usavam os recursos que tinham. E ensinaram os filhos e as filhas a não aceitarem isso p/ si.

E não que minha geração seja toda de pessoas esclarecidas e não machistas.

Todos nós crescemos tb com ideias pre-estabelecidas de homem tem esse papel e mulher tem aquele outro.

Tivemos nossos preconceitos mais ou menos sutis, e muitos se envolveram em pessimos relacionamentos.

mas pelo menos p/ esse tipo de abuso, soubemos dar um basta.

nenhuma irmã ou prima aceitou um parceiro que as ameaça-se e nenhum primo , até onde eu sei, jamais abusou fisicamente de uma mulher.


Está longe do ideal, mas pelo menos acredito que nenhum de nós vai fechar os olhos p/ um crime desses.

e nossos filhos vão aprender que isso não tem nada de "normal" ou "aceitavel".

lola aronovich disse...

Anônima, compreendo sua reação (e o Pedro já respondeu muito do que eu queria dizer). Como eu disse no post, não podemos perder o foco. A vítima é quem apanha, não quem bate. Isso é óbvio. Mas é um questionamento que muitas pessoas têm (como citei no post: logo no dia em que publiquei o guest post da Ana, meus alunos universitários perguntavam “Por que as mulheres ficam com caras que batem nelas?”). Muitas de nós, mesmo feministas, perguntamos isso também. E este post foi apenas uma tentativa de refletir sobre essa questão. Não adianta a gente simplesmente se revoltar com a questão, sem tentar respondê-la. Concordo com tudo isso que vc diz sobre a lei ser frágil, sobre a dificuldade em comprovar a queixa, sobre o péssimo atendimento nas delegacias e, principalmente, sobre a violência doméstica estar quase sempre ligada a uma ameaça real de morte. Uma pessoa que apanha tem motivos de sobra para acreditar que essa ameaça pode se concretizar. E a ameaça é sempre “conte pra alguém que eu te mato,” “procure a polícia que eu acabo com vc”, “se vc se separar de mim eu te mato e depois me mato” etc etc. É uma prisão, e é dificílimo sair dela. Pra maior parte das pessoas, falta empatia pra entender pelo que passa uma vítima de violência doméstica. Pra mim, que sou uma pessoa forte, independente, que nunca apanhou nem dos meus pais, é difícil compreender por que alguém se sujeita a um inferno desses. E eu digo que eu não me sujeitaria, mas vai saber. As pessoas também esquecem que muitas vezes as mulheres amam esses caras. A nossa mente não é tão linear assim, de bateu, me machucou, parei de gostar de vc. Muitos fatores fizeram essa mulher casar com esse cara, e muitos desses fatores continuam, mesmo depois do inferno começar. Criança que apanha dos pais não os odeia automaticamente. É terrível, mas é verdade. Enfim, acho uma discussão válida. Falar sobre tudo isso não é culpar a vítima.

lola aronovich disse...

Rita, acho que no caso da sua prima muito desse comportamento passivo pode ser explicado pela idade. E pela religião. E por toda uma educação machista. Acho difícil que ela continue nessa situação depois dos 30. Algum dia ela vai se tocar, vai ter uma gota d'água, ela vai dar um basta. E aí ela tb correrá perigo, pq o marido não vai aceitar uma separação tão facilmente.


Mais uma vez, a L. Archilla disse o que eu queria dizer. É isso mesmo: se 80% dos pedidos de divórcio partem das mulheres (é isso que os masculinistas querem dizer quando acusam feministas de acabarem com o casamento), então não tem cabimento dizer que mulher gosta de sofrer, que fica num casamento assim por que gosta. E sim, há mulheres que são cruéis com o marido, que humilham. Só que não temos em nenhum lugar do mundo 10 homens sendo mortos todos os dias, quase todos pelas companheiras ou ex-companheiras, levadas por um sentimento de posse. Temos muito mais que dez homens assassinados no Brasil todos os dias, mas não por motivos domésticos, e sim criminosos (tráfico de drogas, violência policial, acerto de contas, assaltos, acidentes de trânsito etc). Se vc não for um criminoso, a sua expectativa de vida automaticamente sobe. Se vc dirigir com cuidado, e jamais beber antes de dirigir, vc vai viver mais (a maior faixa de risco no Brasil é entre homens jovens, de 18 a 25 anos, e é só ver como esse pessoal dirige pra entender porquê). Agora, o que vc faz se é mulher pra sair da estatística das 5 mulheres que são agredidas no Brasil a cada 2 segundos? Deixa de ser mulher? Não se casa? Vive trancada?

lola aronovich disse...

Adelia, exatamente. Tem aquele provérbio, não é? O homem pode não saber pq está batendo, mas a mulher sabe pq está apanhando. Sabedoria popular pra nenhum misógino colocar defeito!


Aiaiai, é, vc tem razão: direta ou indiretamente, é sempre o machismo que está por trás da violência doméstica.


Ricardo, procure tratamento.

Priscilla disse...

Que linda sua explicação Lola. É esta a capacidade que falta em algumas pessoas, de articular tão bem, questões estruturantes da relação entre homens e mulheres com o cenário micro da via conjugal.
Ambas se permeiam e se retroalimenta constantemente.
Parabéns pelo lindo gesto de socializar com visões com as meninas que se indignavam com o problema da violência contra mulher, mas não compreendiam estas interfaces.
Quem sabe assim a gente vai ouvir menos por aí a frase cruel que dispara "mulher apanha porque gosta".
POr isso que hoje no carnaval do Recife já é tradicional o Bloco Nem Com uma Flor que parafraseia ó frevo popular do compositor Capiba que previne a violência contra mulher.
Sugiro que todas e todos busquem no google esta canção da década de 30, no qual o grande compositor dizia que "em mulher não se bate nem com uma flor, que acabou-se o tempo de que mulher dizia só xô galinha, cala boca menino, ai, ai não dê mais não!"
O bloco é promovido pela Secretaria da mulher da Prefeitura do recife há 10 anos.
Parabéns à todas que levantam esta bandeira pelo fim da violência contra mulher.

Edson Bueno de Camargo disse...

Não importa muito a reação da vítima, temos que ser solidários a ela e buscar a punição severa do agressor.

São sete mil anos de história de opressão á mulher, e muito pouco tempo de libertação, com profundas feridas ainda abertas.

enquanto dá disse...

O que tenho achado medonho, pavoroso mesmo, é ver - nem é perceber - muitas, mas muitas mulheres que são machistas. Conheço muitas mulheres que são instruídas, capazes, que não dependem dos homens para viver mas simplesmente não sabem viver sem um homem. Não sei se coincidentemente ou não, muitas delas vivem ou já viveram com parceiros grossos, absurdamente machistas. Existe entre nós mulheres, infelizmente, muito machismo sendo passado à frente, sendo ensinado na maternidade, na amizade. Os agressores nesse cenário, tem muitos cúmplices e não só do seu próprio gênero.

Lidiany CS disse...

Lola,se puder leia esse artigo!
http://www.nytimes.com/2011/02/28/business/media/28carr.html?_r=2
^^

Anônimo disse...

Obrigada pelas respostas Carol e Lola.

Anônimo disse...

Eu já me revoltei várias vezes com uma amiga que está sofrendo abusos diariamente por parte do companheiro.

Da última vez ela tinha me dito que iria embora da cidade, mas depois comentou que havia ficado e estava esperando um novo teste de gravidez - sendo que ela tinha poder e instrução para evitar uma gestação, principalmente porque mal tinha se recuperado de um aborto espontâneo (ao qual eu infelizmente - e com dor admito - me senti feliz por ter acontecido, pois eu sabia que ela jamais iria embora com um filho. Ela largou os estudos e sei que nunca vai voltar se continuar com essa idéia de "família").

Claro que tive raiva. A considerei burra. Quis ir lá em sua casa - o que não posso fazer pois o companheiro a isolou dos amigos - e não salvá-la a força, mas gritar, dar bronca. Sei lá.

É duro demais ver de fora, por mais que eu tente entender. Por mais que eu tenha lido livros sobre relações abusivas. Por mais que eu seja feminista. A situação concreta dói demais.

No fim eu sei que não posso salvá-la. Me faltam instrumentos e me falta a colaboração dela. Ela só me procura para chorar quando ele a ameaça expulsar de casa, mas quando ele a traz de volta ela finge que nunca me viu na vida.

Ela acha que o ama. Mas só a vi chorar de ódio até agora.


[Prontofalei. Precisava falar pra alguém. Alguém que não me mande "largar aquela burra quieta no canto dela" e me recrimine quando quero desabafar.]

Anônimo disse...

Anônima das 19:55,
já pensou em enviar o link desse post pra ela? Talvez faça ela analisar melhor a situação....

- Manu

Claudinha disse...

Infelizmente não consegui ler todos os comentários sobre este post (pq são riquíssimos em depoimentos e impressões pessoais) e portanto não tenho a pretensão de debater, concordar ou discordar de alguém. Mas sou uma estudiosa da dinâmica familiar, que é nossa primeira escola de cultura e "civilidade". Não sou nem nunca serei expert, mas vos digo, o grupo que primeiro nos ensina é a família - seja qual formatação tiver. É nela que podemos aprender por observação como tratar o outro, as situações cotidianas, os animais, a dar importância ou não para esta ou aquela ação ou palavra. Qdo os comportamentos divergem do aceitável temos que por a culpa em alguém. Quem? Sei lá, vc decide. Mas cabe lembrar que esse alguém (e não estou defendendo homem ou mulher, até pq já soube de relatos onde as ações supracitadas eram de mãe para filho) aprendeu a tratar os outros pq assim foi tratado, ou por um desvio de conduta, talvez. Há muitos estudos onde se percebe que agressores e/ou abusadores foram as vítimas muito cedo. Nem é uma questão de gostar, é por um raciocínio torto, mas que a pessoa valida por não saber estratégias diferentes de vida e então ela aceita, pensando que aquela é a forma de convívio, de tratamento ao qual ela deve se submeter. Alguém há de dizer: "mas se os pais a tratavam bem e com amor..." bueno... somos seres cheios de nuances, de cores misturadas, verdadeiros caleidoscópios de sentimentos, pensamentos, emoções e nenhum de nós consegue enxergar o mesmo que o outro, quanto mais explicar a forma como vemos as relações de afeto ou desafeto sobre o prisma da cultura vigente.

vivi disse...

lola,li seu post e nem sei se ha alguma relevancia o que eu vou contar aqui. Ha dois dias passei por uma situa cao que ainda deixa minha cabeca em orbita... minha companheira tentou o suicidio tomando remedio controlado - 2 cartelas, misturada a bebida e cocaina. nna mesma data ela foi ameacada pelo ex marido de morte e no msn ele falou babaridades impublicaveis sobre ela PARA FILHA ... nada justifica o que ela fez... eu sei e alem de td no afa de acalma-la e tentar fazer com que ela vomitasse (ela estava surtada, querendo se matar e acreditando que ela era td aquilo que ele falou dela) ela me agrediu.. quebrei um dedo da mao dois do pe, luxei o cotovelo.. mas nao posso abandona-la,entende? sei que a gente se ama e preciso ajuda-la... eu a amo e nao posso deixa-la agora... mais uma vez obrigada pelo especo sempre tao democratico. obrigada por 'ouvir'meu desabafo... beijos

Aline disse...

Minha avó sofreu muito com o meu avó.. Quando ele bebia, ficava violento, chegou a ameaçá-la com uma faca qndo ela estava grávida do meu pai, chegou a ir embora com outra mulher e mesmo assim ela o aceitou de volta e ficou casada com ele até ele morrer, em 1996. Eu amava meu avó e na época não entendia muita coisa, mas NUNCA vi ele ser violento com minha avó ou com qualquer outra pessoa. Ele passou 9 anos sem beber e o machão que aparecia quando ele bebia desapareceu.
O Irmão do meu pai, bateu muito na mulher, nas filhas(inclusive com elas grávidas) e sempre foi um vai e volta. Uma delas ficou grávida e se casou aos 18 pra fugir do pai. Se deu bem na vida e conseguiu tirar a mãe e a irmã de perto dele. Ele morreu sozinho, sem as filhas falarem com ele.
Muitas e muitas vezes elas ficaram escondidas na minha casa e PASMEM minha avó tentava convencer as netas e a nora a voltarem pra casa do filho-agressor. A mesma mulher(minha avó) disse pra minha tia no dia do casamento que ela não deveria se casar com meu tio e jogava na cara que ela tinha avisado, mas que agora que estava casada era pra sempre. Lembrando que ele ficava violento quando estava bebado(igualzinho ao meu avô, só que meu tio não conseguiu mudar).

Meu pai nunca bateu na minha mãe, mas como alcolatra(isso é de familia) ele agride verbalmente, iclusive a nós os filhos e eu sempre digo que minha relação com ele melhorou 1000% depois que sai de casa. Ele é machista, faz umas coisas que eu acho absurdo(como bater o copo na mesa e esperar que minha mãe encha, ou ser servido por ela), mas muitas vezes nós revidamos.
Sempre perguntei a ela por que ela não largava dele, nós dariamos um jeito, mas ela como é muito religiosa dizia que se casou com ele pra sempre.
Uma vez ela disse que ainda gostava dele e tinha esperança que ele parasse de beber.
E que se ela não estivesse do lado dele, ele iria beber até morrer.
Ela se sente na obrigação de cuidar dele. E hoje eu entendo ela.

é isso meninas e meninos.

Beijos.

Aline

Aline disse...

Vivi, deixe claro que não aceitará ser agredida, NUNCA e por motivo nenhum e faça ela ir a um psicologo e vá vc também...

lola aronovich disse...

Vivi, espero que vc e sua companheira fiquem bem. Que bom que vc conseguiu salvá-la. Agora é denunciar esse ex que a ameaçou, se proteger bem, e sanar as feridas. Boa sorte, querida.


Aline, pois é, é incrível como alcoolismo está ligado à violência doméstica. É por isso que aquela campanha do Equador contra o machismo fala bastante de álcool, lembra? O álcool é um veneno mesmo, e o que ele faz com uma família é pior que as drogas, imagino, porque é tão mais comum. Quando cheguei em Joinville, fiz muita amizade com um vizinho mais ou menos da minha idade. E ele sentia muita raiva do pai (meu vizinho tb), porque esse pai bebeu a vida toda, ficava violento, e descontava em toda família, principalmente nesse meu amigo. O pai já tinha entrado no AA e parado de beber havia muitos anos (eu nunca o vi bêbado), mas essas marcas no meu amigo ficarão para sempre. E felizmente esse amigo nunca repetiu os erros do pai, mas seria fácil repetir, né? Se essa é a educação que a pessoa recebe... Por isso que não basta criminalizar pais e maridos violentos. É preciso investigar as causas, e ajudá-los a se livrar desse comportamento detestável.

sheyla disse...

Lola, a cada dia respeito mais suas opiniões. Vc demonstra lucidez, inteligência e coerência seus posts. Tenho aprendido muito com seu blog! Obrigada.

Barbara O. disse...

Lola: nao da para nao ler

excelente postagem! Estas duvidas levantadas pela Carol sao tao, tao, mas tao comuns, elas precisam ser discutidas a fundo. Ainda bem que temos este espaco aqui. O que voce falou sobre investigar as causas e fundamental. Mas ai eu eh que fico com uma duvida: como eh que voces diferenciam, se eh que diferenciam, o agressor nitidamente mau-carater daquele que foi "condicionado". Onde voces tracam a linha entre a reproducao do modelo e a escolha pessoal? Abraco,

Barbara

EneidaMelo disse...

Preciso parar de ler esses posts no trabalho. Fica difícil disfarçar a vontade de chorar.

Ulisses Adirt disse...

Obrigado, Lola. Seu post me ajudou a entender melhor o meu próprio post (http://incautosdoontem.opsblog.org/2011/02/13/clava-na-cabeca/).

Jampa disse...

Oi Lola, gostei muito do texto. É a primeira vez que comento aqui, apesar de não ser nem de longe o primeiro post que leio seu. Tenho cada vez mais pensado a respeito dessa atenção constante que precisamos ter em relação a nossa própria socialização. Publiquei algo a respeito dessa preocupação depois de diálogo trocado com uma professora que vem dialogando bastante com a reflexão feminista (ver link): http://quecazzo.blogspot.com/2011/01/tentativa-de-autoanalise-jampa-e-o.html
Acho esse auto-policiamento fundamental para que possamos cada dia melhor diagnosticar e lutar com mais eficiência contra todo tipo de violência que,também já incorporada, reproduz-se de maneira a causar dores que passam por naturais e suportáveis, dadas também a frquência e recorrência com que ocorrem. O feminismo tem um papel fundamental nisso. Eu me sinto sempre fustigado ao melhoramento de percepção e prática do dia a dia por minhas amigas feministas. E isso graças a provocação salutar do feminismo que me mostra a posição estrutural de dominação da qual faço parte como homem, mostrando assim como faço parte do mecanismo de reprodução das desigualdades de gênero.Eu agradeço as feministas por isso. Essa consciência, ou melhor dizendo, essa tomada de consciência, só é possível em razão da crítica feminista(é meu ponto de vista aqui) que chega como uma espécie de benção espistemológica inrompendo o dado comum de uma situação de dominação aceita como natural. Posição a qual preciso entender sua importância de perspectiva, é a partir dela que vejo o mundo, para agora sim, defendendo um mundo mais justo e igualitário, possa ser um real agente nessa grande e ardua tarefa de mudar a cultura machista que hoje nos performa como sociedade. Valeu Lola, por mais esse post. Acho que o ponto forte do post é esse mesmo: não basta dizer que calar é fraqueza. Existe algo complexo que precisa ser decifrado. Como diria Lula: a luta de Lola e a nossa continua companheiros!

Aline disse...

estava lendo um blog de humor e me deparei com isso: http://testosterona.blog.br/2010/12/27/porque-o-feminismo-estragou-o-mundo/#comment-97175

O problema não é o texto, que como eu disse está em um blog de humor, mas os comentários, sexistas, machistas, preconceituosos...

fiquei com raiva...

bjs

Aline

Anônimo disse...

Estamos passando por isso com uma amiga, que tem tudo para se livrar do do companheiro dela, recentemente a familia dela descobriu que ela havia sido espancada e asfixiada, não até a morte ainda, mas ela simplesmente disse que o problema entre eles já estava resolvido, estamos nos sentindo de mãos atadas.
Porque ela tem um filho do primeiro casamento e a mãe dela está pensando seriamente em pedir a guarda, é uma situação muito delicada, mas o que faz uma menina com tantas opções querer continuar nesse cativeiro; ontem a mãe dela foi lá disposta a discutir com o covarde, porém a covardia dele foi tão grande que ele nem saiu do quarto. Isso sim é esquisito, porque ele bate na filha dela e ainda tem medo do confronto, é talvez porque ele sabe que está errado e que é um mostro. Será que passa na cabeça dele e se isso acontecesse com a minha filha?
Enfim, todos temos infelizmente histórias para contar, gostaria de ter o poder de livrar essa minha amiga/irmã disso, mas como você disse ela ainda não quer ser salva, só peço a Deus a oportunidade de poder salvá-la a tempo, quando ela se der conta que não precisa ser assim.

Melina disse...

Eu vivo uma situação muito desagradável.
Uma grande amiga minha tem um namorado que é um monstro. Se já aconteceu alguma agressão física, não sei, mas verbalmente as repreensões, demonstrações de desprezo e humilhações são constantes, e eu nunca havia dito nada, porque ele é parte do nosso "grupo".
Confesso que apenas no dia em que a agressão chegou até mim, resolvi abrir os olhos: tenho uma visão caricaturada por parte de muita gente porque tenho um "problema" nos meus relacionamentos; na verdade, eu apenas não aceito homens que tentem me diminuir de qualquer forma(tentando me proibir de fazer coisas que eles fazem, impondo regras que não valem para eles, me agredindo e humilhando e o etc que você conhece bem), e como a cidade onde eu moro este tipo é maioria, antes só que mal acompanhada.
Bem, o fato é que estávamos em uma reunião de amigos, e eu estava brincando o cachorro da casa. Então, ele solta a pérola: "-Tenho uns vídeos aqui no celular que vão te dar ótimas ideias do que fazer com esse cachorro."
Nem preciso detalhar a insinuação horrenda, o que ele quis dizer com isso. E por quê? Porque eu me assumo como uma pessoa que gosta de sexo. Na cabeça dele, a sexualidade não existe, mulheres só fazem sexo para agradar o homem, e como não sou assim eu teria que topar tudo, sou doente mesmo.
Na hora eu não fiz nada, até por respeito pelo anfitrião(tenho horror a discussões inúteis que geram barracos como sei que aconteceria com esta). Eu ri e mudei o foco da conversa para uma coisa mais "elevada", algo que já notei que o irrita muito.

Por que eu, amiga da namorada dele, fui alvo disso? Foi aí que eu notei o tamanho da troglodice e o quanto minha amiga precisa de apoio para tirar o cara da vida dela.
O lado bom é que todos meus amigos homens se horrorizam com isso, e dizem que "se seguram" para não falar nada. Da próxima vez, vou estimular para que eles falem, porque no meu caso, ah, no meu belo caso, soaria como recalque de mal-comida(acho que até para ela, tadinha, hahaha), sabe como é, né?
Eu gostaria muito de ajudá-la, mas quando estamos a sós, ela fala dele mantendo uma ilusão penosa: que ele vai ser bom pai (com esses valores, jura mesmo? cê vai acabar mãe solteira casada, me ouve), que ele proíbe ela de sair com as amigas mas ela não se importa, embora ele saia sempre, beba sempre... que tudo de desagradável acontece é porque esles tiveram educações muito diferentese por aí vai.
Acho que o que eu posso fazer é estimular estes meus amigos a terem uma conversa "de homem pra homem", mas queria uma opinião, porque ver ela assim me entristece muito, nem preciso dizer que qualquer pessoa em uma situação desgastante como essa deixa de ser quem é, né?
beijos, Melina

Rogério Santos disse...

Uma vez, aqui em Salvador, em um dia 1º de janeiro (não lembro de que ano), um cara estava voltando de uma festa de Réveillon quando viu um casal brigando no meio da rua. A briga era feia mesmo, com direito ao homem colocar o dedo e dar um tapa na cara da mulher. O cara, ao ver isso, interviu, tentou apaziguar, disse que 1º de janeiro era dia da confraternização universal, que não era dia de briga... O marido briguento parou, sacou a arma, deu dois tiros no sujeito (que morreu na hora), e fugiu junto com a mulher que estava brigando com ele na rua.

Depois dessa, eu resolvi não me meter mais em briga nenhuma. O máximo que eu posso fazer é ligar para a Polícia, comunicar o caso e esperar que a força policial tome as providências necessárias. Mais do que isso, eu não faço.

denise disse...

"Eu tinha de conseguir conviver com aquele homem, caso contrário não sobreviveria.”
Acho que essa frase resume muito bem o porque , de muitas mulheres suportarem viver com homens violentos ou que as ameaçam, as leis , o estado nunca conseguirão nos proteger, a prova esta ai , nos jornais todos os dias, com mulheres morrendo as pencas segurando boletins de ocorrencia nas mãos, tendo seus filhos e familiares, amigos sofrendo ou morrendo junto tambem.
É muito facil criticar e não entender, dizer que a mulher é covarde, minha familia mesmo vive dizendo pra que eu largue meu marido, que minha historia ira acabar mal, talvez acabe mesmo, tudo indica que sim.
Mas eu tenho alguma chance se continuar suportando, mas não vejo chance nenhuma se eu o deixar.

moderata disse...

eu apanhei durante 6 anos surras violentas carrego marcas no meu corpo dessas agressoes e o que eu reparei e que logo assim que as pessoas sabem dessas agressoes elas sentem pena de vc mas com o passar do tempo e elas percebem que vc ainda aceita aquela situaçao vc de vitima passa a ser tambem tao safada quanto o seu agressor.tenho 37 anos estou separada a 1 ano e ainda nao me recuperei meu filho de 16 anos se tornou um adolecente rebelde e violento comigo ele era enteado,não consigo me ralacionar com ninguem ñ tenho auto-estima ñ sou feliz sei que fracasei e ñ tenho forças pra me reerguer.

disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sheila Nazarela disse...

Sensacional seu post...eu sempre enfrento esse conflito, e me revolto contra as mulheres que se deixam levar pela falta de coragem de enfrentar o problema de frente! Identifico o problema muito ele na própria vítima, que geralmente tem muito medo de enfrentar a vida, se acomodando em um sentimento doentil e na maioria das vezes a dependência financeira, o agressor dificilmente muda sua personalidade, cabe a vítima conviver ou não com uma pessoa assim!
Sou Terapeuta ocupacional e lido muito com problemas de violência doméstica!

Liana disse...

"Não importa muito a reação da vítima, temos que ser solidários a ela e buscar a punição severa do agressor."

Pois é, né. Para mim, isso é claro como a água pura. Acho muito estranha essa necessidade impierosa que quase todo mundo tem de dissecar a mente da mulher agredida, de entender cada mínimo detalhe de sua queda, de questionar cada pormenor da vida dela e quantificar suas dores.

Arrisco a dizer que o problema (que não é uma curiosidade meramente individual, isso também é fruto de um contexto) não é entender a inércia da vítima, mas sim por que a própria pessoa se incomoda com a inércia da vítima, por que precisa de uma racionalização perfeita das motivações daquela mulher em não sair da situação de abuso.

Acho válido a dúvida e a busca por resposta, mas isso NÃO anula o fato de que quase tudo fica centrado na vítima, seja para acusar, para defender, para falar "coitadinha", para rir etc. É a vítima isso, a vítima aquilo, a vítima, a vítima... É uma curiosidade que não finda.

Liana disse...

Como o caso da Eloá. Muita gente é capaz de lembrar o nome dela, mas poucos se lembrarão do nome do agressor, provavelmente não reconheceriam nem por foto.

É assim que funciona. Colocamos mulheres na berlinda. Mesmo quando "só quero entender". Isso também faz parte das táticas do machismo para manter mulheres em posição de medo e desconforto. Quem quer ser alvo da curiosidade de uma população inteira e que em sua maioria não vai fazer absolutamente nada para te ajudar? É melhor ficar quieta. A população gasta um tempo ENORME se perguntanto mais porque ELA apanha e nem tanto porque ELE bate ou qual o papel da sociedade nisso tudo.

Nós não precisamos entender porque uma pessoa é vítima de assaltos consecutivos, não é relevante, não ficamos com raiva do assaltado, se deter neste assunto seria até estranho por se desnecessário, mas precisamos que alguém nos explique por que uma mulher é (se deixa ser) vitimada. Isso é o mais importante e desconcertante para nós, mais até do que a própria agressão, mais do que o agressor. É claro que tudo isso é inconsciente.

NÓS enquanto sociedade, criamos esta situação, seja de forma ativa, seja por omissão, seja por ignorância. O que deve DOMINAR o discurso é este questionamento, não o problema individualmente e muito menos a incapacidade das vítimas em se defenderem. Notem que eu não disse que não se deve falar dos outros assuntos, mas que isso não deve DOMINAR a abordagem deste assunto, enquanto sociedade.

Su Anonima disse...

Qdo se está de fora, msm conhecendo alguém próximo que ja tenha passado por uma situação de agressão, não é possível entender o que se passa na mente da pessoa (no caso aqui da mulher) agredida. A questão da culpa que a mulher sente, e que muitos aqui tentaram explicar e outros simplesmente corroboraram com a idéia mesmo qdo tentam amenizar, talvez seja a maior razão para a reincidência dos casos e para a permanência da mulher ao lado do seu agressor. Não tem só a ver com mulheres com uma autoestima baixa, mas sim com mulheres cujo parceiro, aquele que deveria ser o seu maior incentivador é o seu "incapacitador", não tem só a ver com mulheres que dependem financeiramente do marido, sempre haverá um emprego, um amigo para socorrer. A dependência está na família, nos amigos e acreditem ou não, no próprio parceiro. Sempre após um momento de agressão, existe um momento de calmaria, que leva a crer que o primeiro não se repetirá, e assim começa um circulo vicioso. Nos momentos de calmaria o homem volta a ser o príncipe encantado, aquele que abre a porta, te acha a mulher mais inteligente e mais linda do mundo.. e qdo acontece de novo, o mundo desaba de novo e vc não pode contar com as pessoas mais próximas, seja por vergonha ou por medo de como vão reagir.. vc não quer ouvir as pessoas discutindo sua vida, julgando, e mais do que tudo vc não quer acreditar que o seu príncipe virou um sapo. Nesse momento vc só quer que o tempo passe.. que acalme seu coração. E a Culpa? ela vem mais do medo e de como permanece nesta situação mas como o parceiro muitas vezes é mais forte e no momento que se está sendo agredida se sente mais vulnerável e frágil ele se aproveita ainda mais da situação, ele sabe que está errado, mas não pode conviver com isso, se está agredindo é porque não sabe lidar com suas emoções, então coloca a culpa na mulher para diminuir sua própria culpa, justificar seu ato (injustificável) para si mesmo. A autoestima baixa na verdade é dele, a insegurança é dele.. de alguma forma ele precisa se impor, pq sabe que o domínio quem detem é a mulher e ele não pode deixar ela saber. Então toda agressão termina com uma ameaça de que aquilo pode se repetir caso o ato que o levou a o cometer se repita. Agressão física e mental, uma corroborando com a outra e mantendo esse “silencioso” circulo vicioso.