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sexta-feira, 15 de abril de 2022

QUE TAL UMA MOUSSE DE CHOCOLATE PRA PÁSCOA?

Como é páscoa, e páscoa pra mim é sinônimo de chocolate, hoje o maridão e eu preparamos uma linda mousse de chocolate que vai durar o fim de semana inteiro.

A receita é do meu irmão e minha irmã, e a gente já fez outras vezes. Mas nunca deu tanto. Não sei o que aconteceu. A espuma do ovo se manteve. 

Já tentei fazer várias outras receitas de mousse de chocolate (por exemplo, uma mais simples, com 4 ovos, 2 barras de chocolate ao leite, 4 colheres de manteiga, 2 colheres de açúcar, 1 caixinha de creme de leite. Essa tem que derreter o chocolate junto com a manteiga, acrescentar as gemas misturando bem, bater as claras em neve, misturar tudo delicadamente e assar por 10 minutos a 180 graus. Ficou muito líquido e doce). 

A vantagem da receita dos meus irmãos é que não precisa separar gema da clara e nem levar ao forno. Então vamos aos ingredientes:

500 gramas de chocolate (comprei cinco barras de 90g cada de chocolate meio amargo e, pra completar as 500 g, incluí café, cacau, baunilha, e um pouquinho de licor.

6 ovos

1 caixinha de creme de leite

2 colheres de açúcar (ficou um pouco amargo, que eu gosto, mas pro padrão brasileiro, ponha o dobro de açúcar)

6 colheres de água

Derreta o chocolate em banho-maria. Eu faço no microondas, mas minha irmã me mata se souber. Misture o creme de leite até ficar um creme bonito e homogêneo.

Numa panela em banho-maria, coloque 6 ovos inteiros, sem casca, óbvio, 2 colheres de açúcar (pode pôr mais de você for uma formiga), e 6 colheres de água. Leve ao fogo e misture sempre, se não os ovos cozinham e vira um omelete doce (não fica legal, já aconteceu com a gente). Meu irmão usa um fouet. Quando chegar no ponto certo (espumoso, aerado), tirar do fogo e bater com a batedeira um tempão, tipo 15 minutos, pra ficar mais espumoso ainda. 

Misture nessa bacia aerada dos ovos o creme de chocolate. Só que tem que ser colher por colher, aos poucos, acrescentando aos poucos para preservar as bolhas. Coloque em taças ou vasilhas fechadas e leve à geladeira por várias horas antes de servir.

Normalmente quando a gente faz dá pra umas cinco taças, mas desta vez deu oito e mais um pote! Semana retrasada meu irmão fez e disse que foi a melhor mousse da sua vida. Vamos ver se conosco será igual. 

domingo, 1 de abril de 2018

FELIZ PÁSCOA!

E o sentido cristão da nossa feliz páscoa?
Claro que eu não sou religiosa. Mas sei que muitos do que dizem seguir o barbudo o mandariam pra Cuba se ele aparecesse hoje.
Páscoa pra mim é dia de comer chocolate.
E nunca mais foi a mesma depois que meu amado pai morreu em pleno domingo de páscoa, 25 anos atrás.
Na realidade ele teve um ataque cardíaco fulminante no domingo, eu e minha mãe o levamos ao hospital, lá ele foi mais ou menos ressuscitado (já estava com morte cerebral), e morreu de fato dois dias depois. Uma dor imensa. Muitas saudades sempre. 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

PISANDO EM OVOS

Meninos só podem comer o coelho à esquerda

Hoje mesmo a Anna fez uma pergunta muito interessante, e difícil de responder. 

Anna: "Oi Lola, tudo bem? Acompanho o seu blog há mais ou menos um ano e sou feminista graças a você, muito obrigada! Tenho uma pergunta.
Durante a páscoa minha irmã vende ovos e eu ajudo na produção quando tenho tempo. Quando chega a dúvida de que cor por nas embalagens, eu comentava (mais brincando do que querendo gerar uma discussão) 'estereótipo de gênero não tá com nada' e coisas do tipo, até que ela provavelmente se cansou e argumentou que trabalha com pessoas e que não se sabe se a pessoa vai gostar do filho ganhar ovos de embalagem rosa, ou que um papel azul claro não é unissex o suficiente. 
Sei que existem pessoas que não gostam de verde por serem corinthianas (que coincidência, meu pai!), por exemplo, mas fico pensando se a ignorância das pessoas vai a esse ponto, sendo que o cliente não especificou de que cor queria as embalagens. Será que o que importa não é o chocolate? Mesmo com detalhes pequenos as pessoas que ajudam aqui ficam com essa neura, sendo que os produtos são bem feminilizados (segundo o estereótipo), com fitinhas, lacinhos e todas essas coisas.
Excluindo os mascus, será que as pessoas seriam capazes de devolver um ovo rosa que iam dar para um menino ou não comprar mais com a gente por esse motivo? Será que nós não deveríamos dar o exemplo por trabalharmos 'com pessoas' (esse argumento foi bem enfatizado no debate)? Até que ponto vai o estereótipo num assunto como embalagem de ovos?"

Minha resposta: Bom, pra começo de conversa, nem entendo por que as pessoas compram ovos de páscoa, já que são muito, muito mais caros que uma barra de chocolate. Ok, entendo que é uma comemoração, que é uma vez por ano, até que a consistência (e talvez até o gosto) de um ovo de chocolate seja diferente, mas nada que justifique o preço absurdo se se pagar por um chocolate em formato oval com uma embalagem colorida. Como não convivo com crianças, felizmente não preciso me preocupar com ovos de páscoa.
Por outro lado, sei que é uma época do ano em que muita gente aproveita pra fazer algum dinheiro, fabricando ovos caseiros, artesanais. E acho isso ótimo, inclusive porque muitas vezes esses ovos caseiros saem bem mais em conta que os de marca. Acabam sendo uma opção pra muita gente.
Você pergunta sobre a que ponto chega a ignorância das pessoas. Será que elas realmente se incomodam de dar um ovo embalado com papel rosa pra um menino? Desculpe estragar o seu dia, mas creio que a resposta é sim, muitas vão se incomodar. A gente sabe que isso é uma total estupidez, que chocolate não tem gênero, que rosa não faz ninguém "virar gay", mas às vezes não adianta muito saber essas coisas. O mundo que a gente quer é um, o mundo em que a gente vive é bem outro.
Já li e ouvi na academia algumas feministas dizendo que estamos numa época pós-gênero, em que o binarismo (masculino/feminino) não existe mais. Olha, só se for nas esferas que estudam gênero nas universidades, porque na vida real, nunca estivemos tão genderizadas, tão divididxs por gênero. "É menino ou menina?" continua sendo a pergunta mais feita, e a resposta a essa pergunta-clichê (hoje feita cada vez mais cedo, com poucos meses de gestação) continua determinando as expectativas, o tratamento, as oportunidades, que a pessoa terá. A ansiedade em saber o sexo alheio ainda é gigantesca.
Em outras palavras: eu, você, e muitas pessoas com quem temos a sorte de conviver podemos achar o máximo que o Facebook (em inglês) hoje ofereça 50 opções de gênero pra gente se definir, e não mais apenas as duas opções limitadoras e binárias de sempre. E claro que este é um diálogo corrente que eventualmente afetará, e talvez transformará, toda a sociedade (os setores religiosos já estão se mexendo para brecar a "ideologia de gênero"). Mas o que fazer até lá?
Creio que sua irmã pode adotar cores de embalagens "neutras", digamos, que não sejam nem azul nem rosa. Embalagens mais coloridas, com uma grande variedade de cores. Mas também não sei que opções ela tem. Ela ainda é refém dos papéis e embrulho que encontrar no mercado. 
E que bom que ela não comercializa ovos de páscoa com presentes-surpresa dentro deles, ou senão sua dor de cabeça seria maior! Ano passado houve alguns protestos tímidos de feministas se opondo ao Kinder Ovo para meninos e para meninas. De fato, é uma babaquice sem tamanho separar até comida (como salgadinhos) por gênero. 
Brinquedos são pedagógicos sempre, não só quando vêm acompanhados do rótulo "brinquedo pedagógico". Brinquedos ensinam às crianças o seu papel. E como esperar que os homens passem a colaborar com o trabalho doméstico se ensinamos meninos a detestar brincar de casinha, trocar fralda de boneca, fazer comida? Nós feministas temos sim que dar o exemplo e criar filhos e educar crianças para uma vida menos castradora, em que um garoto não tenha que explicar ao seu pai que, ao brincar de boneca, não está virando gay -- está virando pai. 
Então eu, se tivesse filhos, se comprasse ovos de páscoa, certamente não seria consumidora de Kinder Ovos e afins que perpetuam a segregação de gênero. Mas o que eu faria se fosse a proprietária da Kinder Ovo? Porque o que a marca recebe são reclamações como essa, que li hoje:
"Venho através desta deixar minha indignação a respeito de ovos de páscoa, pois ao comprar um ovo para meninos, meu filho ao abrir teve sua maior decepção, dentro tinha brinquedo para meninas, o mesmo ficou moado o dia todo por causa desse ovo, esperou a semana toda para ganhar o presente e ansioso para ver o brinquedo de dentro e lá estava um estojinho para meninas".
Bom, eu provavelmente colocaria brinquedos que fossem mais neutros, nem estojinho de maquiagem, nem bonecas, nem armas (imagino que isso já não existe?). E também colocaria algum indicativo na embalagem, algo do tipo "brinquedos para todas as crianças". Mas outras marcas que segregam por gênero ganhariam essa parte da clientela que nunca parou pra pensar na vida (ou, pior ainda, que parou, pensou, e decidiu que quer mesmo criar um machistinha ou uma donzelinha).
Uma marca com visão poderia se aproveitar do capitalismo e vender um ovo de páscoa diferenciado, com brinquedos originais e sem gênero, que atraíssem consumidoras feministas, que tal? Afinal, mais de 30% das brasileiras se assumem feministas. Não é pouca coisa. Não é brinquedo não. 
Sua irmã conhece a clientela que tem? Podia ser interessante fazer uma pesquisa para medir sua satisfação e abordar algumas questões de gênero (como isso da embalagem). Claro, pisando em ovos, porque o mundo ideal ainda está muito distante do mundo real. 

domingo, 8 de abril de 2012

FATIAS DE TORTAS DE CHOCOLATE. EU QUERO TODAS

Perfeição em forma de bolo

Como não sou religiosa e não tenho filhos pra brincar de procurar o coelhinho ou sei lá o quê, páscoa pra mim não significa nada além de um feriado mais longo (e prestes a acabar, chuif) e uma época para se comer muito chocolate (sem culpa!). Não recomendo -- falar isso agora, no domingo à tarde?! -- que se compre ovo de páscoa, que custa uns 300% a mais que uma barra de chocolate da mesma marca, e que já não é barata. Já falei que nas Europas tinha chocolate de boa qualidade por 40 centavos de euro a barra de 100 gramas? E por aqui nosso chocolate é caro pacas. Hoje também é um dia um pouco triste pra mim desde que meu amado pai teve um ataque cardíaco e morreu bem no domingo de páscoa. Hoje faz 19 anos, um tempão, mas quem disse que a gente esquece? Vou colocar algumas fotos de bolos e tortas de chocolates tiradas deste tumblr recomendado pela Dri, que obviamente não é uma boa pessoa, porque se fosse, não ficaria mandando links satânicos. O que tem nessas imagens não é de deus, gente. Sabe quando você sente que engorda só de olhar? Pois é (essa de baixo me lembrou Bastardos Inglórios).Só queria dizer que faz muito tempo que ninguém me dá um bolo de chocolate. Obrigada. E feliz páscoa!

domingo, 24 de abril de 2011

FELIZ PÁSCOA, DE NOVO

Quinta à noite tive uma enorme surpresa. Fui convidada pra jantar na casa da Hilma e do Igor, dois físicos e professores da UFC que conheci durante a minha posse, faz um ano. Hilma tomou posse na mesma cerimônia que eu, e de vez em quando nos cruzamos nos eventos de estágio probatório. Com o Igor eu costumo falar mais via Twitter. Enfim, os dois são muito queridos e acompanham o blog, e já vínhamos querendo nos encontrar faz tempo, mas nunca dá, porque professor universitário não tem fim de semana livre. Aproveitamos o feriado prolongado e marcamos pra quinta à noite. Chegando lá, uma das primeiras coisas que vemos é uma linda cesta cheia de barras de chocolate. Presente de quem? Da minha leitora fiel Aiaiai! A Ai eu conheci alguns meses atrás, quando ela esteve de passagem por Fortaleza e aproveitou pra me visitar. Agora eu, o maridão, a Hilma e o Igor sabemos o nome da lindona por trás do pseudônimo! Bom, a Ai, muito ardilosa, viu que o Igor é daqui e encomendou a compra da cesta com ele. E os chocolates chegaram até mim e estão devidamente sendo devorados. Muitíssimo obrigada, gente! Vocês são uns amores (só não estou saltitante de felicidade na foto porque ela foi tirada à uma da manhã).
(Isso eu escrevi antes de quinta:) Eu sou adepta das barras de chocolate. Ovos de páscoa não entram aqui faz tempo, pois estão caros demais. Vi no supermercado um dia desses que um ovo que eu costumava ganhar do meu pai, de uma marca conhecida, com meio quilo, custa 50 reais. É ridículo. Uma barra de chocolate de 170 gramas ainda pode ser encontrada por quatro reais ou menos. Ou seja, a mesma quantidade de chocolate do ovo ficaria por no máximo R$ 12, se é que eu sei fazer contas de cabeça. Então por que pagar quatro vezes mais? Certo, a embalagem é bonita (embora ecologicamente incorreta ― pense quanto papel e plástico foi usado pra embrulhar aquele ovinho, e quanto tempo o material levará para se decompor). A consistência do ovo talvez seja um pouco mais gostosa (ou talvez seja psicológico). E ele é redondo, ou melhor, oval. Mas nada disso justifica pagar um preço tão abusivo.
Eu sempre fico na dúvida se o preço dos ovos aumentou tanto nas últimas décadas ou se minha família que era rica nos anos 80. Sim, porque meu amado pai (ironicamente morto de ataque cardíaco bem no domingo de páscoa, dezoito anos atrás) dava três ovos desses de 500 gramas cada ― a gente comemorava uma semana inteira de páscoa ― pra mim e pros meus dois irmãos. Imagina só, ele gastava R$ 450 num feriado? Não pode ser, não pode ser.
Ok, este post tá tão atrasado que a esta altura todo mundo já comemorou a páscoa. Mas aceite meus desejo
s de feliz páscoa, com muito chocolate. Só posso agradecer pelo carinho das pessoas e leitor@s que importam: vocês me fazem ter vontade de tocar o blog. Já os trolls... Ao lado tem um coelhinho pra eles. Tradução: "Vá embora e morra agora".

sábado, 23 de abril de 2011

MEU PAVÊ DE PÁSCOA

Feliz páscoa, gente! Pra mim a páscoa começa na quinta e vai até domingo, no mínimo, ou até quando durar o chocolate. Desta vez espero que vá longe. Eu fiz um belo pavê anteontem, como você pode ver nas fotos. Já é o terceiro que faço desde que eu e o maridão, dengosos, estivemos no hospital pra fazer um dos cinquenta exames de sangue, e o maridão disse que sentia saudades de comer pavê (lógico que ele também disse que não podia mais comer pavê, que comia quando era criança, que a irmã mais velha fazia pra ele, e todo esse tipo de chororô que o maridão desfere contra meus pobres ouvidos). Eu sabia que ia ter que esperar um pouco até que meu fígado se recuperasse. Mas pavê é muito bom, fácil e barato de fazer (deve custar uns dez reais no total). Não me conformo porque outro dia vi uma receita num jornal, e ela mencionava raspas de limão, ovos, bater claras em neve e sei lá que outra frescura. Qualquer receita que inclua separar gema da clara, e aí ainda por cima bater as claras, é um martírio pra mim (e aquelas que dizem pra gente usar apenas as claras? Fico revoltada!). Então não, o meu pavê é a coisa mais simples do mundo. Vai uns dois pacotes de biscoito maisena (sei que o tradicional é com biscoito champanhe, mas a gente não encontrou no supermercado, e biscoito maisena é muito mais barato. E, por incrível que pareça, biscoito maisena de chocolate é mais barato que o de maisena comum, o que me faz evitar pensar no tipo de chocolate que colocam no tal biscoito, e não venha me dizer que maisena é com z, porque o meu computador, que não corrige absolutamente nada, corrigiu o z pelo s automaticamente, e eu procurei no Santo Google e só o da marca registrada é com z, o que obviamente não é o caso do biscoito hiper baratinho que a gente compra. A foto aí é do pavê visto de baixo). Ahn, voltando: além do biscoito, vai uma lata de leite condensado, uns 400 ml de creme de leite, e dois chocolates meio amargos. Pronto. Acabou. Ok, também um pouco de leite pra molhar os biscoitos antes de colocá-los na forma, em camadas. Mas acho leite condensado doce demais, e por isso decidi misturar duas colheres de café em pó dentro da latinha. Quebra um pouco o sabor enjoativo que só você, brasileir@-formigão, aprecia, e fica muito mais gostoso. Nos primeiros dois pavês eu ainda tinha um pouquinho de baunilha, mas acabou e este ficou sem, e lamento dizer que eu não conseguiria distinguir um pavê com e sem algumas gotinhas de baunilha. Eu gostaria de ter algum tipo de licor pra misturar no chocolate, mas o maridão tem ignorado este meu pedido. Bom, depois de derreter o chocolate em banho maria e misturar o creme de leite (se eu fosse uma ditadora interplanetária, creme de leite e chocolate amargo seriam a base para 95% das receitas de sobremesa no mundo; os 5% restantes poderiam ser divididos entre quindins, tortas de morango, pudins de leite, e Patricia, te dedico, receitas com limão siciliano, porque eu sou assim, democrática, e deixo espaço até para aquel@s que não têm o meu bom gosto), é só ir molhando os biscoitos no leite, formando camadas, e intercalando essas camadas com o leite condensado (com café) e o creme de leite com chocolate amargo. Dá umas vinte porções generosas. Serve uma pessoa.
Infelizmente, o pavê já está chegando a sua reta final, mas graças a uma surpresa que recebi também na quinta (adianto com uma foto), e da qual falarei amanhã, minha páscoa terá muito chocolate. Estou negociando hora extra com meu fígado.

domingo, 12 de abril de 2009

DIVAGAÇÕES SOBRE A MINHA PÁSCOA

Eu queria escrever sobre Páscoa, mas a verdade é que nem sei o que dizer. Como Páscoa pra mim nunca teve conotação religiosa, vou escrevê-la com letra minúscula. Então. Eu me lembro que, quando morava em São Paulo, não trabalhava na quinta. Quinta era tão feriado quanto sexta. Porque era semana santa, não dia santo. Aqui no Sul, não sei porquê, o pessoal insiste em trabalhar na quinta. Quando eu dava aula de inglês numa escola, a gente abria normalmente na quinta. E vinha um terço da turma, se tanto.
Não como peixe, e desconfio que bacalhau seja peixe. Nunca cheguei muito perto de um pra confirmar. Não passa pela minha cabeça não comer carne vermelha na sexta-feira santa. Quer dizer, ultimamente ando comendo pouquíssima carne, só quando como fora, porque aqui em casa ninguém prepara mais. Mas é por motivos ecológicos de consideração com os bichinhos, não por motivos religiosos. Aliás, acho que é mais por preguiça mesmo. E por total falta de inspiração na cozinha.
Páscoa sempre me lembra meu pai, porque ele era um grande entusiasta. Ele devia gastar fortunas com ovos de chocolate para seus três filhos. Acho que rolava um quilo de chocolate pra cada um durante os quatro dias de páscoa. Não lembro direito, mas imagino que cada filho recebia dois ovos de meio quilo. De minha parte, esse quilinho, que representa metade do consumo per capita brasileiro, era devorado nesses quatro dias (nunca entendi as pessoas que guardam o ovo durante meses, às vezes até a páscoa do ano seguinte). Como eu era jovem, meu fígado ainda estava nos trinques e eu raramente passava mal.
Mas aí meu pai morreu bem no domingo de páscoa e tudo isso acabou. Eu tinha 25 anos e ele teve um ataque cardíaco assim, na minha frente. Chegou morto no hospital; eles o ressuscitaram. Mas já havia a realidade de morte cerebral e de coma profundo. Felizmente, meu pai não ficou anos em coma irreversível. Morreu dois dias depois. Mas o que marca pra mim a sua morte é o domingo de páscoa. Faz 16 anos hoje.
Depois disso, minha páscoa ganhou um sabor bem menos doce. Não que eu deixe de comemorá-la no quesito chocolamental, mas devo ter ficado mais economicamente responsável, porque passei a dispensar os ovos. Acho que não foi algo imediato, de um ano pro outro, e sim um reconhecimento que chocolate é parecido, seja no formado redondo, seja em barra. E o preço pra estar na moda simplesmente não compensa. Li que os ovos este ano ficaram 8 a 12% mais caros que no ano passado. E isso que eles já estavam pela hora da morte. Suponho que, pra quem tem criança em casa, deve ser difícil escapar. Não dar ovo é meio como esquecer o presente no natal. Mas eu sou adulta. Ainda consigo comprar (até quando?) uma barra de chocolate de 170 gramas por três reais. O que fizeram com as barras foi um abuso, sem dúvida. Agora só a Garoto tem barra de 180 gramas, todas as outras ficaram com 170 pra baixo, e muitas caminham rapidamente pros 140. O preço, óbvio, continua o mesmo. Eu sou da época em que todas as barras de chocolate tinham 200 gramas, pô! Mas também sou da época em que rolo de papel higiênico tinha 60 metros.
Tá, mas vamos dizer que no supermercado que você frequenta o preço de uma barra esteja mais pra R$ 3,50. Seis barras de 170 gramas dá um total de 1 quilo e 20 gramas. Sai por 21 reais. Não exite nenhum ovo de um quilo no mercado que esteja por esse preço. Estou com um catálago aqui na minha frente. Um ovo Ferrero Rocher de 250 gramas custa 26 reais. Ou seja, 104 o quilo! Um Nestlé Alpino de 700 gramas está mais em conta: apenas 37 reais (já vi por quase 50). Legal, mas por esse preço dá pra comprar dez barras de chocolate de 170 gramas (1 quilo e 700 gramas no total). Ah, mas vamos comparar o mesmo peso. Um Garoto Baton de 180 gramas custa 14 reais. Uma barra da mesma marca sai por 3,50.
Não vou dizer que o gosto do chocolate é exatamente o mesmo numa barra e num ovo, porque não é. O ovo, pelo menos na pesagem que meu pai costumava comprar, era mais grosso, e dava a sensação de ser mais gostoso. Ou talvez fosse o fato de que chocolate eu comia sempre, e ovo de páscoa, só no feriado. Mas é bem parecido. Vale a pena gastar quatro vezes mais num produto por causa da sua embalagem? Uma embalagem muito anti-ecológica, diga-se de passagem. Sobra papel demais pra jogar fora (os potinhos de plástico eu sempre aproveitava pra dar de comer aos meus gatinhos). E lá nos EUA, que pra classe média brasileira é padrão de civilização absoluta, ovos de chocolate praticamente não existem. Há ovinhos minúsculos, coelhinhos e até cruzes de chocolate, mas nada que chegue perto dos nossos tetos de supermercado tomados por bolas brilhantes. Como que americano, que é o povo mais consumista do planeta, consegue ignorar esse potencial de comércio? Eles precisam vir fazer um estágio no Brasil.
Ano que vem não terei mais assunto pra páscoa.