quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

GUEST POST: ACREDITE NAS CRIANÇAS

Mais uma história de horror que aconteceu com uma leitora quando ela era criança. Embora ela venha de uma classe social bem mais alta que a de outra leitora que foi dada pelo pai para servir de escrava doméstica, os relatos têm bastante coisa em comum. Em ambos, o mesmo desespero de estar sendo abusada por um adulto de confiança, que deveria cuidar delas. A mesma impotência de sentir que não pode fazer nada, de que ninguém acredita no que uma criança tem a dizer. Fique com o relato sofrido - e anônimo - desta leitora. E vamos levar as crianças mais a sério!

Eu venho de uma família perfeita, por assim dizer. Meus pais sempre tiveram um relacionamento tranquilo e estável; eles planejaram meu nascimento com todo cuidado, e o da minha irmã também. Meus avós sempre ajudaram e sempre foram dedicados. Tinha tudo para dar completamente certo, ser uma vida tranquila -- padrão. Eu vivia cercada pelos meus primos mais novos, e cuidando deles feliz. Era tudo tão simples.
Meus pais, sempre apaixonados, deixavam muito eu e minha irmã com meus tios para curtirem um ao outro. Era só mais uma dessas noites, e estávamos todos deitados na cama vendo Cinderela, quando meu tio - que sempre fora carinhoso - passou todo o filme fazendo carinho em minhas costas. Ele sabia que eu tinha dificuldade de dormir, e me pediu, caso eu não conseguisse, para chamá-lo porque ele faria carinho em mim até eu pegar no sono...
Eu devia ter então 8 anos, mais ou menos. E, claro, confiava nele. Então, quando percebi que não ia conseguir dormir com aquela claridade, fui falar com ele. Eu parecia uma bonequinha, e ele puxou assunto sobre minhas aulas de ballet, me desafiando a colocar o joelho na cabeça. Quando eu o fiz -- que criança não gosta de um desafio? -- ele imediatamente esticou a mão e pressionou meu clitoris. Eu tremi, e abaixei a perna, e ele tornou a me dispensar para ver futebol, prometendo que iria lá depois.
Não entendia bem o que estava acontecendo, mas sabia que não era certo. Fiquei assustada, mas o que poderia fazer? Minha tia não estava em casa - trabalhando - e naquela época não existiam celulares. E quem acreditaria em mim? Fui para o quarto, cheia de medo, e chorei até dormir. Eu pensei - tola - que ele fosse me achar dormindo e fosse embora. Mas ele não o fez, pelo contrário, fez questão de me acordar para poder me oferecer todos os carinhos que deveriam ser dados apenas a sua esposa, e tentar me obrigar a lhe dar os mesmos carinhos, entre elogios confusos, intimidações peculiares e ameaças veladas.
Eu não disse nada para meus pais, no dia seguinte. Estava tão cheia de vergonha, e achava que era minha culpa -- que eu estava ajudando-o a ser infiel. Que era minha culpa -- porque o corpo é uma máquina e reage, ao menos enquanto você não tem consciência do que acontece. Lembro claramente, nesta vez, que ele me disse que eu não deveria falar nada ou eu "partiria o coração da sua tia, ser trocada por você". Nunca fui covarde, mas não tinha a coragem necessária para contar para meus pais. Ou a confiança.
Aqui eu faço uma pausa, para explicar: no meu lindo mundo infantil, por volta dos 5 ou 6 anos, eu tinha me decidido apaixonada por um amiguinho. Ele era lindo, e nós nos dávamos muito bem, e eu queria namorar com ele quando chegasse a hora. Juntei toda a coragem necessária para contar para minha mãe como eu me sentia. E quando eu finalmente consegui, ela me respondeu: "Deixe de ser boba, você não tem idade para isso".
Se ela não acreditava no que eu sentia, como iria acreditar no que eu contava?
Então eu fiquei em silêncio e esperei que nunca mais acontecesse nada do gênero. O que, obviamente, foi em vão. Pelos anos seguintes, cada visita era motivo para mais um abuso, em maior ou menor grau. Eu fui entendendo o que acontecia, cada vez melhor, e comecei a reagir, negar, tentar fugir. E as ameaças ganharam novos contornos de terror. Ele mataria meus pais sem deixar rastros, só precisava de uma agulha. Ele contaria a minha tia que eu vinha traindo a confiança dela. Ele faria pior. Mas, aos poucos, essas ameaças deixaram de surtir efeito. Eu me protegia de toda forma que podia até ele achar a ameaça última, aquela que me deixava tão dócil quanto uma estrela do mar estatelada.
"Você não quer? Então tá", disse ele, e se aproximou da minha irmã. Ela é seis anos mais nova do que eu, e isto sim me deixou aterrorizada. Eu nunca a deixaria passar pelo que eu passava -- eu vigiava cada momento para que nenhuma das outras ficasse a sós com ele. Eu já estava completamente na paranoia - devia ter então uns 10 anos. Então eu passei a 'deixar' (antes eu do que ela!), embora fosse ríspida e demonstrasse não querer. Embora meu corpo respondesse, minha boca ficava completamente em silêncio. Eu aprendi a calar o prazer e odiá-lo, porque era forçado e não real.
Meus tios se separaram quando eu tinha quase 13 anos, e de uma forma muito dolorosa. Eu continuei calada, porque achava que meus primos precisavam do pai, que talvez ele só fizesse aquilo com garotas, que talvez eu fosse a grande questão. Assumi para mim a responsabilidade do silêncio, porque nunca seria capaz de destruir uma família por algo que não poderia ser mudado.
Mas, talvez, se eu tivesse falado alguma coisa, as coisas poderiam ser melhores. Talvez, se eu tivesse falado, não teria acontecido por tanto tempo, deixado tantas marcas. Talvez meu primo mais novo nunca passasse por isso. Só que eu fui arrogante, como apenas os muito jovens podem ser, achando que poderia proteger todo mundo. E tudo que eu consegui foi deixar a coisa se disseminar sem que ninguém visse por mais algum tempo.
Eu sempre me pergunto que tipo de horrores eles passaram nas mãos do pai -- se ainda passam -- e se eu tivesse falado daquela primeira vez, ou em qualquer outra, eu poderia ter diminuído o tamanho do problema. Eu tinha medo demais que duvidassem de mim, as crianças geralmente têm. Nós damos sempre mais valor à palavra dos adultos que das crianças, e não falamos nada para elas sobre esses assuntos, porque não queremos estragar sua inocência.
É preciso que a gente denuncie, sim. Mas, primeiro, precisamos ensinar nossas crianças que elas pode e DEVEM falar. Que não importa o que elas sentiram, não tem problema, não é culpa delas. Que nós as escutamos, e acreditamos.

37 comentários:

Lord Anderson disse...

Nojento, revoltante...terrivel.

É dificil explicar como me da odio essas historias.

Penso nas minhas crianças, na possibilidade de algo assim acontecer...

é terrivel.


Minha solidariedade a leitora que é mais um sobrevivente desse tipo de monstruosidade.

Anônimo disse...

Lola, ja venho acompanhando vc ha tempos e hj particularmente fiquEI AINDA MAIS MEXIDA... concordo quanto a culpa...pois é assim q me sinto: culpada após quase 30 anos depois dos abusos... A unica diferenca é que eu tentei contar. Falei a minha mae, que simplesmente achou "que eu tinha serios problemas ja que fantasiara algo tao serio". Era o segundo casamento do meu pai e eu tinha 2 meio irmaos bem mais velhos. UM deles acabou com grande parte da minha infancia. Fui tachada de louca, falaram que era ciume,sofri dos 4 aos 10 anos e ate hj nao tenho certeza se alguem acreditou em mim... Isso só parou quando mudamos de cidade. Hoje ainda tenho pesadelos com tudo. E me pergunto: sera q ainda hj com toda a informacao os pais ainda duvidam do sofrimento de seus filhos perante abuso sexual? Observem suas criacas, escutem e sobretudo averiguem... por que é uma dor que nao passa, uma ferida que nao sara. obrigada pelo especo Lola.. Ha 30 anos queria fazer este desabafo.

Cynara disse...

Vc é o máximo mesmo.Obrigada sua linda!

Eduardo Marques disse...

Muito bom post. Essa realmente foi uma história de terror.

livia disse...

Este depoimento encoraja. AS pessoas (mães ,pais,familiares)precisam ouvir suas crianças.Infelizmente,TARADO está em qualquer lugar:na família,nas escolas,igrejas! A Lei de proteção a infância e adolescente protege bem mais.Mas é preciso observar mudnças:o isolameno, medos,insânias,tristezas,baixo rendimento escolar;medo do contato natural fisico;falta de apetite;marcas no corpo e no emocional.Revoltante . Os pedófilos atacam sem pena. O abuso leva a abusos.Tambem tive esta experiência (tinha 6 anos),era um amigo de família.Os argumentos são os mesmos:a falsa amizade,carinho e depois os toques,e ameaças.è o terror.Contar ,era a dificuldade.Quem acreditaria?Hoje há informações,Leis,câmaras afim de maior proteção. Toda sexualidade invadida,violentada é CRIMINOSA,seja de que gêneros for a pessoa,idade. A lesão corporal e emocional que ocasiona pode significar um estrago humano para toda a vida! Livia.Abraço.

Anônimo disse...

Comigo aconteceu situação semelhante. Eu tinha alguns vizinhos que eram amigos de infância. Eles eram alguns anos mais velhos do eu. Numa brincadeira que despencou para o bullying me obrigaram a fazer sexo oral numa menina. Eu fiquei muito envergonhada, mas eles me ameaçavam físicamente, me humilhavam. E eu acabei por obedecer...

Eu deveria ter por volta de uns 5 anos de idade. Lembro-me de ter contado para a minha mãe, que não só ouviu horrorizada, como me castigou, bateu, xingou e me proibiu de ter qualquer contato social. Hoje eu percebo... Ei, eu era a vítima!

Depois disso a coisa só piorou, pois eu tinha medo da minha família e me sentia sozinha, incompreendida, isolada. E para piorar a situação, um primo mais velho (adolescente) se aproveitou disso tudo. Lembro-me que quando ficávamos sozinhos em casa ele logo se aproximava. Eu fugia dele, mas ele sempre se aproximava e como todo covarde me ameaçava. Dizia que iria contar para a minha mãe se eu não fizesse o que ele queria. Que destruiria a minha família. E eu acabava obedecendo... Lembro-me de ao terminar, ir correndo ao banheiro escovar meus dentes, tomar banho, porque eu me sentia enojada.

E tive muitos problemas (e tenho até hoje) com toque. Não suporto cumprimentar pessoas. Tenho medo da minha sombra. Obviamente eu nunca contei isso para minha impiedosa mãe que nunca me protegeu na vida, só me culpou.

Então, Lola, é linda a sua campanha sobre ouvir as crianças. Não confunda a imaginação infantil com a verdade. O problema que ouvir a verdade é que essa pode destruir essas famílias "perfeitas". Como no depoimento minha família também era assim "perfeita". Então é mais fácil para os pais "mascararem esses monstros" do que enfrentá-los para proteger seus filhos.

Anônimo disse...

Anônimo,eu imagino o quanto vc deve ter sofrido.Mas os culpados foram os abusadores não sua mãe.Não foi ela a abusadora,a responsável.É difícil e dolorosa essa realidade.Provavelmente ela pensou que fosse invenção.Então é cÔmodo sentir raiva de quem não conseguiu nos proteger.Porém ñ ela foi a causadora do trauma.Pq ñ tenta se aproximar dela?Seria mais fácilpra vc.Melhoras na sua vida,força e um grande beijo.

Roberval disse...

Meu deus gente, eu quase chorei com essas histórias dos leitores. Minha mãe desde pequena nos avisava frequentemente de que qualquer toque estranho de um adulto deviamos falar a ela. Nunca nos deixava com outro homem adulto, e mesmo meu pai, que jamais faria algo, ela ficava desconfiada. Hoje vejo que todo o medo dela tinha fundamento, nunca, nem eu ou meus irmãos (irmão mais velho e mais nova) sofremos disso. Os pais tem que alertar desde muito cedo sim! Minha mãe sempre disse que NENHUMA criança inventa uma historia de terror como essa. E muitos pais ignoram justamente para não desfazerem essa "família perfeita". Silenciar uma criança quando essa conta o que aconteceu pode ser a solução mais facil, mas a mais cruel.
E eu também não sei se perdoaria meus pais se eu contasse algo assim e eles fingissem que está tudo bem.

Anônimo disse...

Essas histórias deixam marcas que nunca mais se apagam.
Eu tenho um primo (muito mais velho) que uma vez num churrasco alisou meu peito por baixo da blusa (nem seios eu tinha aos 9/10 anos) e eu sabia que aquilo não estava certo. Na casa da minha tia, eles tinham mania de tratar as crianças como se elas não tivessem um mínimo de privacidade, se a gente não levasse um biquíni por exemplo e tivessem armado a piscina queriam que entrássemos na água só de calcinha como as crianças menores, mas não viam como esse idiota e o outro irmão não tinham olhos assim tão inocentes. Eu nunca fui boba e passava o ridículo de entrar de roupa e tudo, e ainda ser ridicularizada por isso.

Esse imbecil que me passou a mão hoje em dia toda a vez que me vê faz questão de tocar em mim. Ele tem o hábito de abraçar as primas, dar beijinhos, vir com intimidades, e todos acham normal. Mas eu sempre tive nojo dele e, ao mesmo tempo, vergonha de falar algo na frente da minha tia e prima e também da mulher dele. É como se fosse um bloqueio, sabe? Eu, com 30 anos de idade, vivendo como se tivesse 8, 10 anos. Vergonha de mim mesma.

Agora que estou grávida de uma menininha resolvi contar tudo pra minha prima porque não quero ser uma mãe banana e nunca vou deixar que ele se aproxime. Já avisei que se ele chegar perto de mim de novo eu vou falar o que penso na frente de quem quer que seja. E tenho certeza de que minha filhinha não vai passar pelo mesmo que eu porque terá alguém para contar e confiar. Eu, como fui órfã, não tive isso, e sentia a mesma insegurança desta moça do texto.

Amer H. disse...

Ok, eis o que eu penso: qualquer abominação que abusa de uma criança devia morrer de uma forma horrível.

Gente assim não faz falta no mundo.

Anônimo disse...

Casos horríveis,os canalhas abusadores deveriam levar uma sova bem dada.Muito nojento isso.E essas mulheres irão colecionar traumas e distúrbios vida afora.Mas é aquela frase das nossas avós:"Menina,não sente no colo do tio.";elas estavam certas.

ALINE

Anônimo disse...

A todas as freqüentadoras do blog que tenham tido uma trajetória semelhante da mencionada no post eu desejo muita força,energia e garra.Eu sei que é difícil,mas vocês não devem sucumbir e desistir de procurar e fazer justiça.Devem denunciar e colocar a boca no trombone,não há mudanças no silêncio.

Quem não conhece um caso desses?

Um beijo e um abraço a todas,coragem.
ALINE

Túlio disse...

O que comentar depois de uma história dessa?

LEBE disse...

Além de acreditar nas crianças tem que estar atento as mudanças de comportamento que podem indicar abuso.

Anônimo disse...

eu passei por algo semelhante. O marido da minha tia - eu me recuso a chama-lo de meu tio, sempre se aproveitava quando estavamos na casa dos meus avós para ficar me tocando. Ele nunca chegou tão longe ao ponto de tocar nos meus seios ou na minha virilha, mas eu sentia que era um carinho estranho, algo esquisito, que eu não queria e ao mesmo tempo me sentia culpada. E depois de algum tempo, quando ele parou com isso, porque eu estava mais velha - uns 10 anos, eu simplesmente bloqueei o que tinha acontecido. Só depois de anos consegui realmente analisar e compreender o que tinha acontecido. E eu tenho um nojo profundo dele. Nunca contei para ninguém - nem família, nem meu marido. Tenho muita pena da minha tia, dos meus primos, que são absolutamente maravilhosos. E o meu sonho é dizer para ele quando ele estiver morrendo que ele vai arder no inferno.

Um alguém!!!! disse...

Já faz um tempo que acompanho o seu blog, acho incrivel!! Essa é mais uma historia de horror vivida na infancia mas que se segue por resto da vida, não passei por isso e nem tenho a real noção do que é sofrer abusos, porém esses exemplos estão me ensinando a escutar os pequenos, a ouvir com atenção o que eles falam.
Não quero que isso aconteça aos meus futuroa filhos!!!

Laurinha (Mulher modernex) disse...

História muito triste.
Esse tio é um monstro, abuso físico, psicológico. Ela era uma criança, não tinha como se proteger.
Triste pensar que tem gente assim.

Anônimo disse...

O agressor faz passar por 'natural' a sua agressão. Ele tenta convencer a criança que não é nada de mais o que está fazendo. A criança sabe que tem algo errado mas entra em conflito porque os próprios adultos agem como se não estivessem vendo maldade nenhuma.

A propósito, acho que realmente deve ser muito difícil encarar que um filho, marido ou irmão faz uma coisa horrível dessas, mas acho que a honestidade e dormir com a consciência limpa de noite vale mais a pena do que se enganar.

Jáder disse...

As vezes eu fico pensando: é se eu tivesse uma filha e tivesse que deixá-la com outro adulto?

Será que se alguém abusasse de minha filha isso poderia passar batido por mim? Será que não deixaria nenhum sinal pra suspeita?

Poxa, a criança muda de comportamento, podendo ficar com medo de estar sozinha com certos adultos, e ninguém nota?

Se uma criança fala que não gosta de ficar sozinha com "Tio Fulano", ninguém acha estranho?

Será que um relato de abuso pode assim passar como "fantasia", "loucura" ou "imaginação"?

E até que ponto uma criança inocente e sem malícia pode guardar isso em segredo sem levantar suspeita? Será que os pais dessa criança podem dizer com a cara mais lavada do mundo que "jamais poderiam suspeitar"?

E quando os pais saem de casa e voltam? Não passam pela cabeça a idéia de perguntar se ficou tudo bem, se foram bem tratadas, Se fulano cuidou delas direitinho?

Queria muito entender a dinâmica de uma família onde uma coisa horrorosa dessa possa acontecer...

Anônimo disse...

É muito comum o homem que comete tais abusos projetar a culpa na vítima,afirmando que ela provocara,que desejara,sentira prazer;em suma sempre o mesmo discurso.

lola aronovich disse...

Gente, só uma coisinha pra não gerar incômodos. Quando li o comentário sobre culpar a mãe, pensei que a pessoa estivesse se referindo à mãe da autora do post. Só depois me dei conta que era a uma outra anônima que, nos comentários, disse ter passado por algo parecido. Essa outra anônima contou o abuso pra mãe, que não acreditou nela e a acusou de ser doente por imaginar coisas assim. E teve uma outra anônima que, aos 5 anos, foi forçada a fazer sexo oral com uma outra menina e, quando contou pra mãe, essa mãe bateu nela! E não há dúvida que essas duas mães agiram de forma horrível. Sinceramente acho quase impossível que uma criança minta sobre essas coisas. Quase todos os psicólogos dizem o mesmo: se uma criança reclama de algo assim, é porque aconteceu ou está acontecendo. Não é invenção, não é mentira. Por isso o apelo do título: vamos acreditar nas crianças.
Mas, apesar dessas duas mães (não estou falando da mãe da autora do post) terem agido de forma muito errada, não foram elas que abusaram de uma criança. Não vamos mudar o foco. O abusador/estuprador/pedófilo é o único culpado. Mas imagino o que deve ser pra uma criança dizer alguma coisa pros seus pais e eles falarem que não acreditam nela. Pode ser muito traumático tb.
E a mãe bater na filha que foi abusada é terrível, mas ao mesmo tempo é tão comum, não é? Parece ser a primeira reação dos pais. Sabe quando o filho leva um tombo e se machuca? Os pais dão a maior bronca! Eu sempre ficava brava com meu pai quando ele fazia isso. Eu me machucava e ainda levava bronca, quando eu só queria solidariedade e carinho. Mas essa reação é tão comum...


Jáder, acho que todo pai/mãe pensa nisso de “se acontecer com meu filho/a, eu vou perceber”. Mas o pior é que acontece direto e ninguém percebe! Espero muito que esse quadro esteja mudando.

Talita disse...

Querida, de forma alguma você foi arrogante. Você fez o melhor que pode, sempre!

Crianças e adolescentes não tem capacidade nem obrigação de resolverem esse tipo de situação sozinhas!

É um problema causado por adultos, e os adultos que são responsáveis por ela tem o dever de respeitá-las e protegê-las.

Espero que hoje você esteja recebendo ajuda para superar esta violência que você sofreu, para que você possa ser feliz e desfrutar de tudo de bom nesta vida.

Abraço solidário!

Talita disse...

Lola,
Concordo com você. Mais uma vez agradeço o espaço que você abre em seu blog para discussões fundamentais, espaço que não vemos por aí.

Penso que esclarecimento sobre sexualidade para todos é o que falta em nossa sociedade.

A "mecânica" da coisa todo mundo sabe; a pornografia impera;

No entanto, reflexões sobre a necessidade de respeito que deve existir em toda e qualquer relação sexual, e sentimentos envolvidos, são deixados de lado como algo piegas.

Não quero que me entendam mal, pois acredito que pedofilia e todas as formas de violência sexual são extremamente complexas, e com múltiplas causas.

Mas a falta dos fatores que citei faz com que a sociedade em volta tenha dificuldade de prevenir e evitar o abuso/pedofilia/violência sexual, tanto contra crianças como entre adultos.

Você está fazendo sua parte, Lola!

Mulher/34anos disse...

Minha historia eh do outro lado, tenho um primo que abusou de uma crianca! Um monte de gente ficou contra mim pq eu fiquei DE CARA contra ele...
Qd a historia surgiu a familia queria "esconder" ele ate a poeira baixar e tal. Eu (e meu pai e minha mae, q moramos em outra cidade e fomos requisitados p ajudar) fomos contra, nem aceitamo-os em nossa casa, e dissemos q se soubessemos onde ele estava o denunciariamos.
Pode parecer loucura "condenar" sem ter "certeza", mas na nossa cabeça, como (como?!) uma menina que era sobrinha da mulher dele, vizinha, que vivia na casa dele, brincava com as filhas dele, etc, INVENTAVA uma historia dessas do nada?!
Clarooooooo que alguma coisa aconteceu, claro!!! Mas a familia eh pobre, nunca nada ficou provado contra ele, ele nunca foi preso e ate hoje tem jente que acha q a mulher dele era "louca" por se separar do marido p uma historia de uma crianca de seis anos "inventou".
Eu acho ela certissima! Ela vivia com ele e certamente sabe o que ele era capaz de fazer.
EU nunca mais o vi, nao faco questao e se sei q ele esta num lugar nao vou.

Daniela disse...

Temas de abuso sexual me deixam doente, com crianças então...
Leio bastante sobre o tema para poder identificar quando uma criança que conheça esteja passando por uma situação do tipo, pois se com estranho já me sinto mal por não ter feito nada, acho que se fosse com uma criança conhecida entraria em depressão profunda.
Ou seja, anônima, você não teve culpa e não poderia mudar nada, não fique pensando no que poderia ter feito para evitar o que aconteceu, e muito menos pelo que houve com seus primos - se entendi bem, o seu tio abusava dos próprios filhos também? Não se martirize mais.
Os adultos são responsáveis pelas crianças, e elas nem precisam verbalizar o que ocorre, alguns sinais de que algo está errado são óbvios, alguém sempre percebe, mas acha que é coisa da cabeça.

Espero que você tenha recebido ajuda para lidar com tudo isso e fico "feliz" que você tenha se aberto conosco, pois sua história pode ajudar alguma criança que tenha passado ou esteja passando por algo parecido.


UM MEGA ADENDO:

Vale lembrar aqui que se alguém tiver alguma suspeita de que uma criança ou adolescente esteja sofrendo abuso sexual ela pode denunciar anonimamente pelo DISQUE 100.
Nunca ache que é coisa da sua cabeça, não fique calada, pois a criança/adolescente pode não ter para quem pedir ajuda, ou não pode pedir simplesmente, mas sempre, sempre, apresenta sinais dos abusos.
E o mais triste de tudo, em torno de 80% dos casos de abuso sexual infantil, o molestador é alguém conhecido da criança, então não pense que é coisa da sua cabeça porque um pai/tio/avó/primo/vizinho/amigo não faria uma coisa dessas.

Anônimo disse...

Eu cheguei a estudar a questão do abuso infantil - porém não muito aprofundado...

Mas o que vi foi que muitos casos de pessoas que são abusadas de alguma forma na infância, quando se tornam adultos, ficam 'cegas' quando o abuso se repete com as filhas. Não é regra, mas é uma verdade da maioria - o abuso se torna uma maldição que passa de geração em geração.

O assunto de 'culpar a mãe' me fez lembrar disso. Mas não afirmo de jeito nenhum que seja o caso!

Hoje é visível como a coisa está ficando diferente. Quem foi abusada - como até falaram aqui - quer proteger os filhos ao máximo, mas isso nas classes mais conscientizadas. Classes que não tem acesso à informação continuam na onda da submissão...

Eu também sofri experiências bem ruins na infância.

Eram 2 adolescentes de 15 e 17 enquanto eu tinha 5 anos. Eu bloqueei muitas coisas da minha memória, e não sei até hoje a que ponto as coisas chegaram, porque as lembranças se apagaram em partes "cruciais".

Acho que de certa forma isso me ajudou a "superar". Falo sobre isso com amigas próximas e namorados... mas nunca contei pros meus pais e nem familiares.

Não contei quando criança pelos mesmos motivos: medo de não me levarem a sério, e a certeza que a culpada era eu!

Hoje meus pais são idosos já, estão nos 70, e eu tenho 22 anos. Fico pensando o desgosto que seria se eles soubessem que não puderam me proteger... porque eu acredito que eles teriam feito de tudo por mim, se eu tivesse tido coragem pra contar!

Por isso prefiro que eles nem imaginem como foi...

Mas é reconfortante ver que tanta gente já começa a colocar a boca no mundo e contar seus casos. Sinal que a maldição não vai passar pras próximas gerações.

LIVIA disse...

DENUNCIAR!!!LEMBARANDO DO DISQUE 100! lOLA,INTRIGA :OS MOTIVOS DE TANTOS ABUSADORES SEREM DO SEXO MASCULINO SE DEVE A CULTURA MACHISTA,O EXCESSO DE PORNOGRAFIA E EROTISMO ONDE A MENINA,A MULHER É(SAO) VISTA(S) COMO UM OBJETO SEXUAL? o ESTIMULO SEXUAL GERA ISTO.oU O ABUSDADOR TEM MESMO UM CARATER PERVERSO? o MACHISMO SE ARVORA NO DIREITO DO ABUSO.hOJE TMOS lEIS QUE CRIMINALIZA,FALTA A DECISAO DOS OFENDIDOS GRITAREM ALTO E DE SEREM OUVIDOS.sAIU DIAS DESSES A CONFISSÃO DE UM SENADOR AMERICANO DE TER SOFIDO NA INFANCIA ABUSO SEXUAL. nAS ESCOLAS ESTA QUESTAO ASSIM COMO AS DROGAS,DOENÇAS SEXUAL ,A PEDOFILIA DEVERIA TER A MESMA ATENÇAO.a GENTE SE DEFENDE QUANDO SABE COMO E QUEM SÃO OS AGRESSORES OU SEUS COMPORTAMENTOS.TIPO:CARINHOS,CARICIAS,PRESENTINHOS,AMEAÇAS...pPARA OS PAIS,INDICAR O COMPORTAMENTO DA CRIANÇA,ADOLESCENTE:ARREDIO,TRISTE,AGRESSIVO,MEDOS,INSONIA,FALTA DE APAETITE,BAIXO RENDIMENTO NA ESCOLA.MARCAS NO CORPO...ESTA PREVENAÇO,NUM MUNDO DE VIOLENCIA E ABUSOS PASSA A SER NCESSARIOS.sENAO,SÓ UMA PSICANALISE PARA TE RECUPERAR DO TRAUMA.

Anônimo disse...
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lola aronovich disse...

Anônima das 23:49, eu deletei seu comentário porque queria publicá-lo como guest post em março (como anônimo, claro), se vc permitir. Se quiser me dar a permissão (ou a probição) em particular, me mande um email, ok? É lolaescreva@gmail.com
Ele traz alguns temas que ainda não exploramos bem aqui no blog.
Querida, fique bem!

Bárbara Dayrell disse...

Eu sou muito agradecida por nunca ter acontecido nada assim comigo. O mais próximo de uma abuso foi quando dois sobrinhos de uma tia me mostraram o pênis e pediram para eu mostrar a minha vigina, o que eu nao fiz. Tinha uns 6 anos, e eles 8 e 7. Fui esperta e nao deixei a coisa avancar.
Hoje fico pensando de onde esses meninos tiraram essa idéia, e se eles nao sofriam algum tipo de abuso. Sinceramente, acredito que sim, porque crianca alguma inventa esse tipo de brincadeira, eles copiam do que fizeram com eles.
Vamos manter os olhos bem abertos e ensinar aos nossos filhos a manterem seus olhos abertos, e que nos contem qualquer comportamento estranho de qualque pessoa. E o mais importante a Lola já disse. Devemos acreditar neles!!!

g. disse...

Também passei por uma situação dessas quando tinha uns 7 anos de idade. Era um vizinho, "amigo" da família. Felizmente não durou muito pq minha família se mudou, mas também nunca consegui criar coragem para contar. Mesmo sabendo que talvez minha mãe acreditaria - lembro de ela ter me alertado desde cedo para nunca permitir que um adulto me tocasse de forma inadequada - era confuso demais para mim, pois ela era muito amiga dele, e também me sentia muito culpada - como se tivesse "permitido" ou "provocado" isso. No início, sempre que ele me via ele dava um jeito de passar a mão no meu peito - que na época era praticamente liso, mas a sensação era igualmente invasiva. Um dia, fui na casa dele (com intenção de brincar com a filha dele, que eu gostava muito), mas ele estava sozinho, me convidou para assistir televisão. Aceitei, e ele começou aos poucos a passar a mão nas minhas pernas, depois em áreas mais íntimas... Lembro da sensação de ter ficado com muito medo, até pela própria "reação" prazerosa que tive num primeiro momento, mas que logo se transformou em terror. Levantei e saí correndo dali. Não tinha ninguém na minha casa, minha mãe tinha ido ao mercado, fechei tudo e fiquei sozinha, chorando. A pior sensação do mundo. Comecei então a evitá-lo ao máximo. Consegui a partir daí não ficar mais sozinha com ele, evitar ao máximo estar presente quando ele ia lá em casa. Logo nos mudamos, e me vi livre daquele sujeito asqueroso. Mas nunca consegui denunciar. E isso que ele nunca me ameaçou explicitamente nem nada. O próprio abuso feito uma única vez já era suficiente para que eu fantasiasse esse tipo de coisa, de que ele ia me acusar, me dizer que eu era uma mentirosa, ou tinha provocado, ou iria me bater, ou sei lá. É uma experiência muito dolorosa. Acho que hj até consegui superar isso, entendo que não tive culpa nenhuma, eu era a criança ingênua na situação. No entanto, posso garantir que nunca mais fui a mesma. Passei a ser uma pessoa mais isolada, mais reservada e mais desconfiada.

Anônimo disse...

Bárbara,o fato dos seus primos terem mostrado o pênis e pedido para ver sua vagina quando eram crianças,não significa que os próprios eram abusados!A questão é que nessa idade os pequenos são curiosos e não possuem muito discernimento sobre privado e intimidade.E crianças são sexuaisMas,evidente tem um limite.

Anônimo disse...

Ninguém está seguro.

Anônimo disse...

Olha gente,eu fui muito abusada quando criança e na adolescência fui estuprada por diversas vezes.
Nunca contei a meus pais por ter CERTEZA que a culpa era minha :(
Nunca fui ameaçada pelos agressores,mas eu não consigo lembrar pq eu ficava absolutamente entregue,tremia de medo e ficava muda.Sempre tendo certeza que a culpa era minha.
Inclusive quando eu ainda era virgem aos treze,(antes do primeiro estupro)eu não sabia.Eu pensava que não era desde criancinha,quando começaram os abusos.
Teve uma fase na minha vida que para eu fazer sexo,tinha que parecer estupro.Pra mim,quanto antes acabasse melhor.
Até hoje que sou casada meu relacionamento é muito difícil.Tenho 42 anos e minha primeira vez de verdade,com prazer foi aos 30 anos.
Só que,ó o que acontece:(
Acho que troco todos os sentimentos por sexo.Ex:Se meu marido não quer fazer sexo(ocorre normalmente) eu sofro muiiiito e pareço uma criancinha, me sinto rejeitada e acho que não me ama.Algumas vezes falo pra ele,outras dou um jeito para que role.Só assim volto ao normal,sinto-me viva.
Quando ele só quer me beijar e abraçar,fico também magoada pq ele não ' fez o serviço completo
E todas as vezes que conhecia um rapaz e ele não me convidasse para 'os finalmentes' eu achava que não era interessante.E se acontecia, eu tinha certeza que nós íamos namorar e sermos felizes.Não!não acontecia.
Eu procurava \ procuro por amor,carinho,afeto, através do sexo e é claro que as coisas não são assim.
Acho que fui confusa...é que é muita informação e não quero me alongar.
Resumindo.Tenho certeza que tudo isso é resultado de tudo que sofri (calada) por toda a infância e adolescência.
Lola.Muito obrigada pelo espaço.Foi bom ter lido este depoimento,entendo perfeitamente o que ela passou.

Crianças e Jovens disse...

E triste como é que a palavra inocente de uma criançã não é valorizada.

felizmente que tudo tem uma solução na vida apesar de um inicio tortuoso

Joana disse...

EIS O ERRO MAIS REVOLTANTE NISSO TUDO:
" e não falamos nada para elas sobre esses assuntos, porque não queremos estragar sua inocência."

Por que fazem isso com a gente?

Passei por algo assim quando minha família foi morar no interior dos EUA. Um pedófilo fugiu da prisão e assediou várias crianças do meu bairro,inclusive eu. Eu tinha 5 anos ou menos e lembro de tudo até hoje. Mas não chegou a ser tão grave e doloroso quanto esse relato. Por sorte, eles enviaram psicólogos pra orientar as famílias e insistir que as crianças contassem o que aconteceu.
Minha mãe disse que eu demorei muuuito tempo pra contar e olha que foi bem leve perto disso. Imaginem o quanto é difícil e humilhante passar por isso e depois contar.

Anônimo disse...

Ontem minha filha de 15 anos me ligou desesperada pra me falar que desde setembro o primo de 24 anos vem tentando beijar ela. E ontem ele gravou um vídeo do site pornográfico com uma garota que se parecia com ela e fez ela assistir o vídeo e ela disse que nunca fez o vídeo e que não era ela. E ele mostrando o vídeo tentava beijar ela. E ela saía fora dele e aí ele começou a ameaçar dizendo que ia mostrar pro pai caso ela não aceitasse beijar ele. E ficou fazendo pressão pessoalmente e depois por mensagens. E a minha outra filha hoje com 22 anos me contou no início de 2015 que  quando foi morar com o pai e tinha 15 anos de idade acordou com o primo levantando sua blusa. E se mudou da casa do pai e até hoje passa por problemas de relacionamento. Tentei conversar com o pai das minhas filhas e ele não fez nada. A avó paterna está contra minha filha ter me contado e dizendo que  está mentindo, porém tenho gravação dos áudios e das mensagens de whatsapp ele ameaçando ela.
Fiz B.O.
Tenho medo de represália após feito B.O.
A família já estão contra nós.