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Niemi é uma comentarista frequente e querida por aqui. Quando a Aoi Ito publicou seu guest post, a Niemi perguntou se podia dar a sua visão. E claro que eu topei.Antes de inicia
r o texto, gostaria de agradecer primeiramente a Lola pelo espaço e em segundo lugar às queridas Larissa, Jac e Mia pelas suas valiosas considerações.As pessoas de modo geral vêem o mundo claramente dividido em dualidades, bem e mal, homem e mulher, certo ou errado; a vida se resume a preto no branco e não há espaços para tons de cinza.No meio de tudo isso está nossa sexualidade. As pessoas entendem que há duas opções a se seguir, homo ou hétero, mas quando alguém se manifesta 'bissexual' essa pessoa parece transgredir a dinâmica de 0 e 1. Numa alusão tosca, imagine um sorveteiro que pergunta se você quer sorvete de mora
ngo ou de chocolate. Ao responder que quer um pouco de cada um, ele se espanta e diz com petulância: “Como assim? Não tem como você gostar dos dois! Você precisa escolher um”. [Nota da Lola: essa conversa me lembra a cena deletada de Spartacus sobre gostar de ostras ou escargot]. Ser bi é ser guloso, desejar mais do que se tem para oferecer. A bissexualidade (ou biafetividade?) na maioria das vezes é percebida como a indecisão de alguém que só quer chamar a atenção, mas será mesmo?Desde que me descobri biafetiva aos 14 anos, quando tive coragem para me declarar para a primeira garota, passei a me perguntar se isso não era apenas curtição, um ato de rebeldia adolescente. O tempo passou e eu percebi que não.Creio que para a maioria das pessoas independente da sua orientação sexual o que importa mesmo em
uma relação é a companhia da pessoa com quem você está; sexo é um complemento (muito bom aliás, mas não é tudo num relacionamento). A necessidade de se sentir amado e amar alguém é que nos atrai, isso não muda.No meu caso que sou mulher, tenho que enfrentar a diminuição da minha sexualidade por homens que a reduzem a um fetiche. Eles pensam que beijo outras mulheres para ganhar pontos, mostrar que sou safada e que topo tudo, tudo para agradá-los. Fica difícil entenderem que a minha biafetividade é algo para mim. Eles ignoram a minha individualidade e acham que estou beijando outra mulher para atender a sexualidade deles. Quando o homem se diz compreensivo, a dita compreensão vem quase sempre acompanhada de um interesse. O companheiro que se acha dono deixa claro: “Eu, seu dono, deixo você ficar com mulheres porque não fere meu orgulho de macho alfa e ainda satisfa
z a minha sexualidade”. Outros perguntam se você topa uma brincadeira a três. Claro, ser bi é nunca dizer não, afinal, se está na dúvida, por que negar? Experimentar, experimentar, experimentar.Isso sem contar que muitas vezes a pessoa biafetiva carrega a imagem de alguém que é promíscua e tem tendência a ter relações ‘clandestinas’. Não basta querer morango e chocolate -- enganar o sorveteiro e levar um pouquinho da calda de menta é a regra se você é bi. Mas essa confusão da parte dos homens é culpa daquela visão de que a sexualidade feminina não existe, ou existe para ser objeto da sexualidade masculina. Para eles a vagina é um acessório que deve estar sempre acompanhada de um pênis. A nossa cultura mesmo fortifica isso demonizando meninas que sentem vontade de descobrir seu corpo. Uma bi resolvida com seu corpo e sexualidade para alguns machos é vista como uma mulher que aprendeu a gostar de sexo igual homem, já que mulher nunca descobre por si mesma que sexo é bom ,
né? (e uma vez que ela aprendeu que gosta de sexo, automaticamente quer fazer sexo com qualquer pessoa, como um homem faria). A idéia de que bi é promiscua vem daí.Deveríamos ter o direito de levar nossa vida sexual do jeito que bem entendermos, sem esse julgamento soberbo. Não importando nossa afetividade.Nas baladas da vida há meninas que beijam esporadicamente outras meninas. Para algumas pessoas, essas meninas querem apenas provocar os homens, e aceitarão de bom grado se algum deles quiser se juntar na brincadeira. Não digo que algumas não estejam de fato experimentando, se descobrindo ou então fazendo isso por pressão social, acreditando que serão mais procuradas por rapazes, e isso as agrada. Na minha humilde opinião não adianta ficar taxando essas garotas de falsas. Elas se envolvem com quem quiserem. Se a pessoa em questão procura uma relação séria, hétero ou homo, que seja, com uma mulher e detecta que a outra está apenas de curtição, acho que cabe o bom senso de seguir seu caminho. Falso ou verdadeiro é muito subjetivo e não serão esses
rótulos que vão fortificar o movimento LGBTTT. Se pessoas héteros que se passam por bi contribuem para uma imagem estereotipada de lésbicas, cabe a nós continuarmos vivendo da nossa maneira e mostrar que somos diferentes do que nos pintam. Combater o nojo enrustido que as pessoas têm do sexo seria muito mais eficaz do que ir atrás de uma “falsa lésbica”, acreditem.Agora contando um pouco da minha própria experiência como bi. Quando me relaciono com outras mulheres, costumo ouvir a constante ameaça: “ou você para de sair com homens ou nosso namoro acaba”. Vejo nessas palavras a dedução de que eu como bi não consigo controlar meu desejo insano, já que devo amputar minha gula. Infelizmente, vejo muita lésbica preocupada demais com extremismo, que não enxerga que só reforça a heteronormatividade copiando a sua dinâmica de ‘pureza’.Muitas ainda acham que se estou em um relacionamento com uma menina não posso depois sair com um rapaz, pois iss
o significaria que mudei de lado e não apoio mais o “movimento”. Espera ai, não é porque uma pessoa biafetiva decide ter um relacionamento com alguém do sexo oposto que ela vai deixar de ter empatia pela causa LGBTTT e que vai esquecer todos os pesadelos que ela e outras pessoas vivem por conta do preconceito! Estamos apenas procurando afeto, carinho, atenção, sexo. Para ter empatia por alguém, acho que não é preciso necessariamente viver a mesma situação, correto?Algumas pessoas biafetivas podem acabar estabelecendo uma relação hétero duradoura. Elas sabem que isso representa uma série de privilégios, acreditem. Mas a biafetividade não pode ser considerada algo ruim por representar uma zona de conforto para elas. E quem é definitivamente homoafetivo e não tem coragem de ‘sair do armário’? ‘Conforto’ é uma palavra de significado complicado neste contexto; tenho certeza que a pessoa não se sente realmente confortável em nenhuma dessas duas situações. Vamos culpá-las?
As pessoas não têm coragem ou vontade de discutir a biafetividade porque o próprio termo ‘bi’ parece surreal demais para ser discutido. Preferem inventar termos toscos como “Flex” do que se perguntar qual é a necessidade que leva uma pessoa a amar homens e mulheres.Vão por mim: há pessoas que não têm dúvida alguma de que gostam de meninos E meninas.
Estou indignada, mas vou me esforçar para não parecer tão indignada. Ontem, como vocês viram, publiquei um post mandando o CQC pra PQP. Isso foi no título. No texto em si eu estava muito mais comedida, e expliquei porque é misoginia ter nojo da anatomia femin
ina (principalmente quando esta anatomia não está a serviço dos homens adultos e héteros, como no caso da vagina no parto e dos seios na amamentação). Por que fiquei tão revoltada? Por uma questão de princípios. Não sou mãe, nunca quis ser mãe, e agora, prestes a completar 44 anos na próxima segunda, definitivamente não serei mãe. Portanto, nunca amamentei. Também nunca fiz aborto, e no entanto sou 100% a favor da legalização do aborto. Assim como não sou lésbica, mas comemorei quando a união homoafetiva passou no Supremo. Não sou negra, mas faça uma piadinha racista perto de mim. E por aí vai. Eu não defendo apenas as causas que me beneficiam diretamente. Já faz tempo que eu e muitas, muitas pessoas não engolimos as asneiras “politicamente incorretas” (código para “posso falar o que quiser e não aceito ser contestado”) de Rafinha Bastos, Danilo Gentili, e do C
QC em geral, entre tantas outras celebridades e seus programas. Mês passado foram dois casos: Rafinha, numa revista, defendendo com todos os dentes piada de estupro (é um favor uma mulher feia ser estuprada, estuprador merece um abraço etc), e Danilo twittando que entende porque os judeus de Higienópolis são contra a construção do metrô — porque, da última vez que entraram num vagão, foram parar em Auschwitz. No segundo caso, a Band exigiu retratação do seu contratado, e Danilo rapidamente tirou o tweet do ar e pediu desculpas. No caso de Rafinha, nada. Parece que não é bacana fazer piada com judeu, mas com mulher, zuzo bem, tá liberado. Afinal, somos apenas 52% da pop
ulação. Mas eu me ofendo. Sou feminista desde os 8 anos de idade, e pra mim é ponto pacífico que a mulher tenha liberdade sobre seu corpo. Portanto, quando vem um bando de marmanjo ridicularizar mulheres por amamentarem em público, vejo isso como uma intervenção no corpo da mulher. É dizer que ela não pode amamentar na frente de outras pessoas, que existe apenas um tipo de seio que pode ser exposto. Isso num momento em que os mamaços se intensificam por todo o país, porque as mães não são bobas: elas sabem que vem crescendo no Brasil um conservadorismo que é contra a liberdade feminina (e também contra a liberdade de todas as outras minorias).
Quando Rafinha desdenhou do mamaço (e do beijaço), ele sabia o que estava fazendo. O CQC sabia. E aq
ui admito que errei numa informação no meu texto, como me informou uma leitora: não foi na TV que esse lamentável diálogo (veja aqui) aconteceu. Foi no CQC 3.0, que passa na internet após o programa televisivo. Mas faz muita diferença? Os participantes são os mesmos. Os temas, pelo que me contam, são os mesmos. O nível de estupidez é o mesmo. Se a gente considerar que integrantes do CQC estão ligados ao programa até quando falam numa revista ou no twitter, imagino que o que eles digam num troço pra internet chamado CQC 3.0 conte como parte do CQC, ou não? De todo modo, ontem mais ou menos no almoço recebi um email do Marcelo Tas, curto e grosso, querendo saber onde e quando ele se posicionou contra a amamentação. Eu respondi, com a mesma educação que me foi dispensada, que nem ele nem o CQC se opuseram à amamentação, e sim à amamentação em público, como está claro no meu texto.
E que eu só citei o Tas uma vez, num parênteses sem referência à amamentação em si, em que eu dizia que é claro que a sociedade gosta de seios (desde que direcionados a sua função única, a de fazer babar os homens) porque a TV não sobreviveria só de Rafinhas ou Marcelos Tas. Mas ele me mandou um outro email, subindo o tom, pedindo retificação imediata, porque ele não se disse contra a amamentação em público, ele não disse nada daquilo, e ele não é misógino. Comentei no Twitter que eu tinha recebido email do Tas e, mais tarde, publiquei nos comentários do meu post esses dois emails curtinhos como resposta dele, como um “outro lado”. Recebi outro email em seguida, em que ele diz: “Você vai aprender através de um processo por calúnia e difamação a ser mais responsável com o que publica, esta troca de e-mails documenta a minha tentativa de dialogo com voce antes de tomar o caminho da Justiça”. Quer dizer, o que foi isso? Ameaça de processo, certo? E isso me deixa indigna
da. O CQC tem o direito sagrado da liberdade de expressão para caluniar todas as mulheres, mas eu não tenho a liberdade para criticá-los? Então me parece que essa tal liberdade é meio relativa. Eu, por exemplo, dona deste humilde bloguinho com suas 90 mil visitas e 150 mil pageviews por mês, jamais ameacei ninguém com um processo. Sou contra a censura. Em todas as minhas críticas aos machistas, misóginos, homofóbicos e racistas de plantão (e são muitas críticas em 3,5 anos de blog com atualizações diárias), nunca exigi que alguém se calasse ou que algo fosse tirado do ar ou da internet. No caso do Rafinha fazendo piada com estupro, não divulguei nem o que seria totalmente legítimo — que passássemos a boicotar os anunciantes do CQC, programa que o emprega. É engraçado que o Tas queira me processar porque, como lembrou a Srta.Bia, no caso do Danilo, quando a PinkyWainer perguntou ao Tas se ele apoiava o tipo de humor danístico sobre judeus e o metrô de Higienópolis, ele respondeu:
Engraçado também que o CQC e demais programas são os primeiros a gritar “Censura! Exijo liberdade de expressão!” quando recebem qualquer crítica, mas são tão rápidos no gatilho pra ameaçar com processo quem os critica. Eu até entendo. Por coincidência, estava lendo uma matéria da Lúcia Rodrigues na
Caros Amigos de maio. Chama-se “As Novas Táticas da Repressão Política” (trecho aqui) e fala justamente sobre como processos jurídicos são movidos para intimidar os ativistas. É o que está em alta atualmente. O MST incomoda? Não basta só jogar a polícia em cima, mete também um processo! Processo é usado pra calar qualquer um que se oponha ao status quo. E Tas e seus colegas de CQC, apesar de posarem de moderninhos, representam, com seus preconceitos ultrapassados, esse status quo. Seu exército de advogados, sempre prontos para defender os integrantes de qualquer processo, também serve para intimidar. Mas se alguém achar que difamei o Tas, peço para que leia o post, do qual não troquei uma só vírgula. Como disse o Bruno, “se esse post é calúnia, o CQC é formação de quadrilha”. Tas em nenhum momento criticou o que seus colegas disseram, ou as outras besteiras que vivem dizendo. Mas se irritou porque eu o chamei de misógino. É, fui injusta. Gostaria de acrescentar que, além de considerá-lo um m
isógino de marca maior, também o vejo como um tucano enrustido e um babaca arrogante. Isso é calúnia e difamação? Ou é a minha opinião? Se não tenho direito a minha opinião, então, Tas, me processe. Pela demonstração de apoio que recebi ontem, suponho que bastante gente ficará do meu lado, a favor da liberdade de expressão. Acho que na hora muit@s de nós nos levantaremos gritando “Eu sou Spartacus”, sabe? Você deve saber a força de uma mobilização online. Fico no aguardo de você começar uma lu
ta de Davi e Golias contra mim. Ao contrário de você, eu não tenho um dos maiores grupos de comunicação do país me dando apoio. Tenho apenas a minha consciência, e esta precisará de mais de um processo pra ser calada. Eu sou mulher, sou feminista, tenho peito, não tenho medo. Pra mim “aquilo roxo”, balls, cojones, nunca foram sinônimo de coragem. Coragem é enfrentar todo um sistema que insiste em perpetuar preconceitos.
Rafinha, que nunca viu um rocambole, engasga ao dizer mamaçoEu não vejo CQC, mas leitoras me contaram da última do programa da Band em geral, e do Rafinha Bastos (que adora contar piadas sobre estupradores merecerem um abraço) em particular. Dá pra ver aqui. Raf começa lendo carta de uma leitora que lhe pe
de pra falar sobre o mamaço, a manifestação promovida em frente ao Itaú Cultural depois que uma mãe foi impedida de amamentar seu bebê em público. Note como ele diz mamaço, com a maior cara de asco. Não fica claro se seu nojo é pelo ato de amamentar ou pela audácia de pessoas protestarem. Ele exemplifica falando do beijaço, que seria “pra promover o beijo, sei lá”. É, é pedir demais que um carinha, numa concessão pública que é a TV, se informe minimamente antes de falar diante das câmeras. Beijaço não é pra promover beijo. É uma arma do povo LGBTTT para lutar contra a homofobia. Porque, assim como pessoas como Rafinha não aceitam v
er uma mulher amamentar em público, também acham horrível um casal gay se beijar. Do jeito que Raf menciona beijaço e mamaço, ele deixa transparecer o que acha de protestos: ativistas são pessoas fúteis sem nada pra fazer na vida além de reclamar. Revolucionário e profundo é o CQC. Reproduzo um pouquinho o diálogo. Raf: “Por que cargas d'água tem aquela mãe que enfia a teta nas caras das pessoas na rua, véio? Mano, vai prum banheiro, c*ralho, porque a gente olha, não tem como.”“Joga um lencinho em cima,” diz um outro neandertal. “Às vezes dá até um constrangimento” [é, o constrangimento é deles! Não das mães com um cara babando em cima delas!]
Raf: “Não precisa tirar aquele mamilo, que mais parece uma, que parece um rocambole. [...] [Definição rafística pra mamaço:] Todo mundo lá mostrar as teta. [...] Não pode proibir, é um direito da pessoa [note que ele não diz “da mulher”], mas pô, dá uma protegida”.Aí vem o outro energúmeno dizer que amamentar é um pretexto, porque no fundo o que a mulher quer mesmo é mostrar os seios. Claro, né? Afinal, a primeira coisa que tá na mente de toda mulher, inclusive as que estão com um bebê chorando nos braços, é atrair a atenção sexual do macho. É instinto! O problema, segundo o filósofo Rafinha Bastos, não é que a mulher queira se mostrar (isso pode
na nossa sociedade! Imagina se não pudesse, a TV ia viver do quê? Só do talento de Rafinhas e Marcelos Tas?), “é que quem quer mostrar a teta é quem não deveria querer mostrar. Nunca é aquela gostosa. Geralmente é aquela mãe com aquelas buchibas”. E os três machos lamentam que nunca viram a Giselle Bundchen amamentar, apenas aquela mulher “que não precisa de um sutiã, precisa de joelheira”. Essa conversa entre compadres tão moderninhos me revolta, porque é difícil ver três marmanjos do alto do seu privilégio falar de um assunto que não lhes diz respeito.
Sabe como tem muita gente que acha que homem não deve dar pitaco sobre aborto? (e ainda assim 77% de quem comanda as campanhas anti-aborto são homens). Então. Também não deve se meter em amamentação. Porque homem não entende de amamentação. Pra entender, teria que parar de pensar com o pênis e pensar um tiquinho com a cabeça. Toda a questão é que seios não são apenas órgãos sexuais, assim como mulheres não são objetos sexuais. Mulheres existem independentemente do que os homens acham delas. Seios existem, independente do que os homens acham deles. A atitude do CQC deixa claro, em cada linha, que mulheres e seus seios deveriam ter apenas um propósito na vida: servir aos homens. Tenho certeza que Rafinha pensa assim. Aquilo não é um personagem, é ele mesmo, seus pensamentos. Esse pessoal tem muito em comum com o Bolsonaro. É toda uma maneira fascista/mimada de ver a vida, de achar que algo que não os serve não serve pra nada. Mas não são apenas
os reaças que pensam assim. Lembro quando vivia em Detroit e vi o Bill Maher, que nos EUA é tido como liberal, discursar longos minutos contra amamentação em público (veja aqui, é de 2007). Ele acha que mulheres que amamentam em público são preguiçosas, porque não planejam com antecedência quando o bebê terá fome. E ridiculariza as queixas das ativistas: “Não é lutar por um direito, é lutar pelos holofotes. Pare de se achar especial porque você teve um bebê. É algo que um cachorro pode fazer”. E, óbvio dos óbvios, compara amamentar com se masturbar. Todo mundo que é contra amamentar em público fala uma asneira dessas, e nem fica vermelho. As pessoas se masturbam (e, por algum motivo estranho, parece que apenas os homens têm vontade de se mastubar em público, geralmente na frente de alguma me
nina indo pra escola) para obter prazer pra elas mesmas. Amamentar, embora possa ser um ato prazeroso, é alimentar um outro ser, inclusive um ser indefeso, que depende da mãe (ou ao menos de um adulto) pra sobreviver. Como há inúmeros estudos provando que amamentar é melhor pro bebê, já que leite materno é feito especialmente pro bebê humano, e por isso o protege contra doenças, essas cretinices que alguns homens dizem não condenam a amamentação como um todo, apenas a amamentação em público. Mas dá na mesma. Pregar que uma mulher não pode amamentar em público equivale a dizer que ela não deve sair de casa, que ela deve viver pro bebê, deixar de trabalhar e de curti
r a vida pra unicamente servir ao bebê. E isso por quê? Ah, porque homens são seres que não conseguem se controlar ao ver um peito de fora (quem diz isso são eles, não eu!). Mulheres devem deixar de vestir certas roupas e de amamentar porque homens são tarados. Quer dizer, os homens é que têm um problema, e a mulher é quem deve resolvê-lo, abdicando da sua liberdade.Porque olha, não são as mulheres que têm problemas com mamilos. São os homens. E não me venha com essa de que, imagina, homem hétero adora mamilo de mulher! Primeiro que homens mal reconhecem que eles têm mamilos! É zona erógena pra homem héter
o também, sabia? Lembra de todo o carnaval feito em cima da armadura com mamilos de um Batman aí? (escrevi sobre isso). Quem armou todo o auê, homens ou mulheres? Eu me recordo de quando algumas mulheres, no início da década de 80, quiseram fazer topless em praias cariocas. Elas quase foram linchadas. Precisaram de escolta policial pra sair. Quem quase linchou? Homens ou mulheres? Eu nunca ouvi um homem dizer “Ué, não teria problema algum se as mulheres saíssem sem roupa” sem o adendo “mas só as gostosas, mulher feia nem deveria poder ir à praia”. Então não estamos falando de liberdade, né? Estamos falando de homens ditarem pras mulheres quando, quem e onde elas podem fazer o quê com o corpo delas. A ofensiva contra a amamentação em público é uma coisa recente, iniciada nos EUA. Não existia com tanta força até
poucos anos. Agora se alastrou, e como adoramos importar o que não presta dos países desenvolvidos (só o que não presta, como algemar criminosos), importamos mais esta barbaridade pro Brasil. Tá se alastrando. Precisamos lutar contra mais essa barbárie.Os machos do CQC terminam com outro exemplo de como a anatomia feminina é asquerosa, principalmente quando não está a serviço de sua função primordial (satisfazer o homem). Um deles fala de uma tia que mostrou o vídeo do parto. Eles quase vomitam ao
mencionarem vaginas gigantes e sangrentas. Ahn, dica. Gente, tem um nome pra quem diz que anatomia feminina é nojenta, algo do qual as mulheres deveriam se envergonhar: misógino. O substantivo é misoginia. Vocês devem ter ouvido falar. Afinal, é isso que vocês fazem pra viver. Aprendam, homens: seios têm mais finalidades que vender cerveja.
Leia Liberdade relativa: Marcelo Tas quer me processar.
Olha só a coincidência: no mesmo dia (sexta-feira) fiquei sabendo de duas medidas arbitrárias, imagino que comandadas por dirigentes esportivos homens (aliás, uma coisa que me chateia é como tem treinador, técnico, dirigente homem pra comandar equipes femininas em qualquer modalidade esport
iva, enquanto a gente nunca vê uma técnica mulher numa equipe masculina). Ambas envolvem uniformes femininos usados nos esportes. A primeira foi esta: a Federação Mundial de Badminton agora está obrigando as jogadoras a vestir saia ou vestido durante as partidas, e não mais shorts, como a maior parte costuma usar. Os dirigentes admitiram que a medida visa atrair mais público (os comentários no artigo da Folha são, pra variar, os piores possíveis: além do racismo característico –- causado porque as duas fotos escolhidas na m
atéria são de atletas asiáticas -–, vem um bando de marmanjo dizer que atleta mulher tem que usar saia mesmo, “de preferência sem calcinha”). As atletas reclamaram, e tentarão recorrer da decisão unilateral (update: a medida foi anulada, mas voltará à pauta em dezembro, quando serão ouvidos "os interessados", que não são as jogadoras, mas os fabricantes de roupas esportivas!).Ainda na sexta, o Daniel Neves, do UOL Esportes, me enviou um email perguntando o que eu achava sobre a federação europeia de basquete feminino exigir que todas as atletas da Euroliga adotassem um modelo de uniforme colado ao corpo. Sim, você adivinhou certo: a razão é pra chamar mais atenção pro campeonato (pelo menos eles nem disfarçam mais os motivos). A verdade é que a sexualização dos uniformes femininos tem piorado bastante nos últimos tempos. Se analisa
rmos uniformes masculinos e femininos das Olimpíadas de 1984, por exemplo, veremos que há poucas diferenças entre o que homens e mulheres vestiam. Com o backlash, a reação conservadora que teve início nos anos 80, a situação mudou, e atletas mulheres tiveram que voltar a ser, antes de tudo, objetos sexuais. Escrevi um post há três anos falando de alguns uniformes ridículos para mulheres. É lógico que se o critério de adoção para os uniformes justos e diminutos usados por equipes femininas fosse a melhora do desempenho esportivo, os homens t
ambém os usariam. Só que não tem nada a ver com performance. Tem a ver com fazer as atletas mulheres se encaixarem num padrão palatável para o olhar masculino. Em outras palavras: é o olhar masculino que rege como atletas mulheres devem se comportar, o que vestir, como jogar, como posar para fotos de autopromoção... Não sei se você lembra, mas no basquete feminino a seleção australiana era das poucas que utilizava o uniforme colado, aquele estilo macaquinho. As brasileiras o usaram durante 2000 e 2006, mas não gost
aram e os dirigentes tiveram que voltar atrás.Pra mim não resta dúvida: é um claro sinal de machismo que as atletas tenham de pagar este tipo de “pedágio” para poder competir. Pelo jeito, se elas não forem atraentes pros homens, elas não podem jogar. É revoltante que essas profissionais, que vivem para treinar e competir, tenham que se sujeitar a serem sensuais para atrair público. Não deveria ser a beleza ou a “femininidade” das atletas que está em questão, e sim seu talento para o esporte que praticam (e isso vale para todas as profissões).
Para os homens que não veem nada de mais em exigir que atletas usem roupas menores, mais justas, mais sexy, fica a pergunta: e se fosse com eles? Por exemplo, mulheres vão muito pouco a estádios de futebol. E se de repente, para atrair mais o público feminino, a FIFA obrigasse os jogadores a usar sunga? Seria justo? PS: A matéria para a qual fui “entrevistada” foi publicada no UOL no sábado, e Daniel utilizou uma boa parte do que falei. Ficou boa. Só não gostei de um trecho do que disse um especialista em marketing espo
rtivo, que é contra os uniformes colados porque “nem todas as jogadoras têm um corpo legal” e, assim, poderiam ficar envergonhadas em usá-los. Ahn, o que é um “corpo legal”? Ainda mais pruma atleta? Devemos lembrar que atletas, e pessoas em geral, vêm numa variedade grande de formatos.Até agora há poucos (e melhores) comentários.
Gabourey Sidibe, estrela de Preciosa, é branqueada em capa de revistaQuando a Natalia no Twitter me enviou uma mensagem perguntando se eu tinha visto o artigo de uma revista explicando “objetivamente” por que negras são menos atraentes que mulheres brancas, eu respond
i no ato que isso daí tinha a maior pinta de ser mais uma das teorias malucas da psicologia evolucionista. E não é que eu tava certa? O post, intitulado “Por que Mulheres Negras São Fisicamente Menos Atraentes que outras mulheres?”, foi publicado no dia 15 de maio no site da conceituada (pelo menos entre os títulos pop) Psychology Today que, aparentemente, não viu nada de racista em fazer uma pergunta dessas. A revista deve até ter se surpreendido com o volume de emails e tweets que chegaram, e logo tirou o artigo do ar. Mas, claro, alguém já o havia copiado, então você pode ler esse pedaço de cocô (pra ser delicada) aqui, em inglês. Não se preocupe não que vou resumir já já. O que não me surpreendeu é que o autor do post racista é um velho conhecido meu, Satoshi Kanazawa. Já falei das incríveis descobertas do Satoshi: ele crê que os homens realmente preferem as loiras, e isso desde o tempo das cavernas, quando a gente nem sabia que loiras existiam (ou, se é pra usar nossa
evidência empírica, como fazem os psicólogos evolucionistas, você já viu algum desenho de uma mulher das cavernas loira?). Isso porque, segundo Satoshi, todo mundo nasce loiro, só que, com o passar dos anos, nosso cabelo vai escurecendo. Portanto, o cabelo loiro seria a prova irrefutável que a mulher é jovem (nenhuma palavra sobre o homem loiro). E todo homem quer uma mulher o quanto mais jovem possível, porque ela teria uma vida reprodutiva mais longa, e isso, ao contrário do que juram os mascus, é tudo que um homem quer: espalhar sua sementinha. Os psicólogos evolucionistas, também chamados, não com muito respeito, de evo psychs (vou traduzir pra psiquevas) e de fundamentalistas científicos, explicam tudo com base na reprodução de nossos genes. Não existe cultura pra eles, só biologia (e desc
onfio que eles existam antes de Darwin, a julgar por essas pérolas de 1500 e bolinha sobre mulheres). Tudo que fazemos é em busca do nosso instinto para uma melhor reprodução (eugenia feelings pra você também). Por isso, homens procuram jovens lindas e loiras, enquanto mulheres selecionam o macho mais poderoso (nisso os mascus concordam). E danem-se os homossexuais, né? Ou quem é infértil. Ou as pessoas que preferem adotar a ter bebês. Ou essa aberração da natureza que eu represento, a mulher que não quer ter filhos. Nós não existimos. Vamos nos recolher a nossa insignificância, ô legião de desqualificados!Significante mesmo é o Satoshi, um psiqueva que dá aulas numa universidade britâ
nica. Não é um carinha que acordou um dia e decidiu explicar por que, pra ele, que é hetero, as mulheres são atraentes e os homens não. Nada disso. Ele é um cientista. Tem pelo menos um livro publicado, com o científico nome de Por que as Pessoas Bonitas Têm Mais Filhas (note: filhas). Os leitores que chegam aqui pedindo que eu respeite essa ciência machista, racista e homofóbica (e não à toa, a mais divulgada pelos meios de comunicação nas últimas três décadas, desde o início da reação conservadora nos anos 80), e pregando que existem psiquevas sérios, me lembram os mascus que pedem que eu leia blogs mascus respeitáveis. Só que eles são todos iguais. Pode haver diferença no tom, na linguagem, mas não no que eles querem passar: que o homem é superior à mulher e que isso é absolutamente natural (mais um ponto de convergência entre esses dois grupos machistas). E que as feministas estão prestando um desserviço à hum
anidade ao lutarem contra o “é assim que as coisas são”. Como pega mal (até pra um psiqueva!) afirmar categoricamente que ele está certo em não achar mulheres negras bonitas, Satoshi menciona todo um estudo pra mostrar que o seu gosto é justificado. Ele enche o post de gráficos e também joga no meio da receita uma dose de gordofobia (já que mulheres negras em geral tem um Índice de Massa Corpórea um pouco maior que o de brancas). E finalmente ele arrisca uma explicação: negras teriam mais testosterona que outras raças. É apenas um jeito infeliz de dizer que negras seriam mais másculas, e que Satoshi gosta de suas mulheres bem femininas.
Não há dúvida que mulheres negras (e homens negros também, mas como ser bela é uma imposição pras mulheres, e apenas um bônus pros homens, o peso é diferente) são desvalorizadas na nossa sociedade ― em todos os campos, inclusive no estético. Aqui onde moro, no Ceará, as estatísticas dizem que 64% da população é negra ou parda. No entanto, quando eu ligo a TV, abro uma revista, ou vejo um outdoor, tenho a impressão de estar na Suécia. De modo geral, tem muito mais loiro de olho claro na mídia que negro. Isso se repete em todo o Brasil, e é um dos sinais que sim, somos um país muito racista. Pele escura não tá dentro do padrão de beleza. As raríssimas modelos e atrizes negras que porventura aparecem na mídia tê
m traços brancos ― são mais claras, têm nariz fino, cabelo liso. Duvido muito que quando alguém considera feia uma negra ele tá pensando, “Hmm, testosterona demais, eca!”. O que a gente considera bonito e feio é ensinado, muda de lugar pra lugar, e de época pra época. Não tem nada de universal nisso (e o que os psiquevas tentam provar é que há inúmeras coisas universais). Ninguém nasce achando que olho azul é mais bonito que olho castanho. Aliás, se houvesse qualquer fundamentação biológica nessa preferência, a gente defintivamente não acharia olho claro bonito, já que geneticamente ele tem mais chance de ser míope (ou seja, seria uma desvantagem evolutiva). Pele escura seria uma van
tagem evolutiva, pois o risco de câncer de pele é muito menor! Mesmo no campo estético, pele escura deveria ser tido como qualidade, não defeito, pois costumamos associar beleza à juventude, e quem tem pele escura está menos exposto aos danos do sol e têm menos rugas. Eu tô chutando tudo isso, não sou bióloga, mas pelamor, é muito óbvio que achar traços negros pouco atraentes é uma construção social. E só porque esse padrão racista existe faz séculos não o torna mais natural e menos cultural.
Só um exemplo que está na minha cabeça: este anúncio de creme da Dove. Perceba como a mulher negra está no campo do “antes” (de usar o tal creme), enquanto as brancas estão no “depois” (e claro que a negra é mais cheinha que as brancas, lembrando a gente do típico antes e depois d
a propaganda das dietas). Não venha me dizer que foi sem querer, que o anúncio passou por centenas de publicitários e clientes e ninguém percebeu. Racismo é lucrativo, e a indústria cosmética é uma das que mais ganham dinheiro com isso. Todas as marcas de cosméticos vendem cremes para clarear a pele. Você conhece muitos cremes pra escurecer a pele (bronzear é outra coisa)? Cremes branqueadores rendem bilhões em países com mulheres marrons e amarelas, como Japão e Índia. Todas essas marcas ganham os tubos vendendo alisadores de cabelo. Em outras palavras: fazer que mulheres não-brancas sejam mais brancas dá muito dinheiro. Só que, pra fazer com que mulheres não-brancas queiram ser brancas, é preciso espalhar a mensagem que white is beautiful. E só white.Por coincidência, no mesmo dia em que Satoshi fez (mais) esta pataquada, meus alunos de Poesia leram e interpretaram um lindíssimo poema de Langston Hughes, escritor americano nos anos 1920 que foi peça fundamental na Renascença Negra. Chama-se “I, Too” (Eu ta
mbém). As últimas linhas são: “Eles verão quão lindo eu sou / e ficarão com vergonha. / Eu também sou América” (leia e ouça o poema aqui, é curtinho. Na maior parte das versões o "verão como sou lindo" está escrito no singular). Algum dia, espero, o pessoal que faz parte da classe dominante entenderá que ter um só padrão de beleza é limitador, sinônimo de ignorância. Este padrão é construído e, como tal, pode ser desconstruído. Depende de nós. Logo logo vocês se sentirão envergonhados, senhores.