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quarta-feira, 28 de agosto de 2019

GUEST POST: EU ACUSO

Não é só a professora Esther Solano que não quer perdoar quem elegeu o Coisa Ruim. O jornalista Leandro Fortes escreveu no seu FB no final de julho que nunca se esquecerá dos seus colegas jornalistas que apoiaram este desgoverno (e apoiar, no caso, é também cair na ladainha de que "Lula e Bolso são iguais, só estão de lados opostos, ambos são extremos). 

Todos vocês, coleguinhas jornalistas, que embarcaram no antipetismo feroz que serviu para derrubar Dilma e gestar Bolsonaro, todos e todas, repito, são responsáveis pela merda em que estamos vivendo.
Para puxar o saco do patrão, para fazer média com as fontes, para ser aceito como protagonista em uma sociedade apodrecida pelo preconceito ou para garantir um salário de merda, no fim do mês, não importa. Vocês são culpados e culpadas.
Em maior ou menor grau, vocês emprestaram a credibilidade de vocês e destruíram o jornalismo brasileiro por ação ou omissão, naturalizando absurdos, incensando idiotas, amenizando arbitrariedades, fingindo indignação, dando asas a juízes e procuradores corruptos em nome do combate a uma corrupção que nunca, em tempo algum, lhes causou qualquer reação, antes.
Agora, eu vejo muitos de vocês nas redes em um esforço comovente de se mostrarem democratas genuinamente horrorizados com o fruto podre da árvore que vocês regaram com tanto prazer. Sinto um misto de pena, nojo e vontade de rir.
Eu poderia nomear, sem medo de errar, pelo menos uma dezena de vocês, mas os não citados poderiam sentir um alívio injusto. Cada uma e cada um de vocês sabe o papel abjeto que cumpriu nessa jornada. Essa carapuça irá pairar, eternamente, no ar.
Portanto, não adianta posar de democrata, agora que o circo está pegando fogo. Porque quando só uns poucos tinham coragem de dizer a verdade, vítimas de toda violência que vem junto, vocês estavam disseminando mentiras, cúmplices bem remunerados dessa gente que agora também quer lhes devorar.
Sinto informar, mas, se depender de mim, vocês nunca vão conseguir se esconder.

domingo, 28 de abril de 2019

PRESIDENTE DO BB DEFENDE CAFETÃO MILICIANO: A SOCIEDADE QUER CIDADÃOS NORMAIS

Bolso dá posse aos presidentes dos bancos públicos

Um outro desdobramento do caso de Bolso proibir comercial do Banco do Brasil por causa da diversidade foi a fala de Rubem Novaes apoiando o veto. 
Em entrevista por escrito à BBC Brasil, o presidente do banco alegou que "um povo majoritariamente conservador" rejeitou a "sociedade alternativa" que "os meios de comunicação procuravam nos impor". Para ele, "Durante décadas, a esquerda brasileira deflagrou uma guerra cultural tentando confrontar pobres e ricos, negros e brancos, mulheres e homens, homo e heterossexuais etc, etc. O 'empoderamento' de minorias era o instrumento acionado em diversas manifestações culturais: novelas, filmes, exposições de arte etc, onde se procurava caracterizar o cidadão 'normal' como a exceção e a exceção como regra". 
Quer dizer, só piora. Agora temos um discurso fascista sugerindo que negros e mulheres (maioria da população brasileira) são exceção e não "cidadãos normais". Homossexuais, então, que são minoria de fato, foram para Novaes rejeitados pela sociedade conservadora. 
Esses não são cidadãos normais,
segundo olavetes
Nada que seja tão chocante, pois esse é o discurso oficial de Olavo de Carvalho e todos seus seguidores, como o chanceler Ernesto Araújo e o sinistro da Educação, Abraham Weintraub. É o que a direita no mundo todo "alerta" há tempos -- que haveria uma conspiração internacional financiada pelos "globalistas" (os neonazistas chamam de judeus; já os reaças pró-Israel preferem evitar falar de judeus e miram em figuras como George Soros) para fomentar o "marxismo cultural". É sempre assustador ver este nível de bobagem saindo das bocas dos babacas que estão no poder.
Rubem Novaes foi indicado por Paulo Guedes e, assim como o sinistro, é um "Chicago boy". Em outubro de 2017 ele deu uma palestra tenebrosa que pode ser facilmente classificada como eugenista. Na palestra, ele disse que seres humanos são separados em raças, que algumas são superiores às outras, e que crianças pobres não conseguem aprender porque vêm de "matéria-prima" ruim e que a solução é o "amplo controle de natalidade" dos pobres. 
A palestra chama-se "A demografia perversa" e ainda pode ser lida no site do Instituto Liberal. 
Por incrível que pareça, este desgoverno teima em dizer que não é ideológico. Ideologia é só pros outros, né?

sábado, 27 de abril de 2019

DE CAPETÃO A CAFETÃO

Anteontem foi mais um dia em que o pior presidente da história do Brasil se esmerou em expor suas barbaridades preconceituosas. 
Ao explicar para jornalistas por que o Museu Americano de História Natural de Nova York se recusou em sediar um evento que homenagearia o vizinho e amigo de milicianos (segundo o viralata dos EUA que se diz patriota, como ele é "aliado do Trump", os democratas locais fizeram pressão contra), a imagem que ele tem de ser homofóbico "ficou lá fora". Ele afirmou que essa imagem não prejudica investimentos. "O Brasil não pode ser um país do mundo gay, do turismo gay. Temos famílias. [...] Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade".
A declaração do estrupício sugere que pessoas LGBT não tenham famílias, ou não façam parte de famílias. Mais uma vez ele espalha homofobia! Não dá pra discordar do prefeito de NY, Bill de Blasio, que classificou Bolso como "um ser humano muito perigoso". 
Embratur, 1983. Principal-
mente nas décadas de 1970
e 80, até meados de 1990,
era assim que a propaganda
oficial vendia o Brasil
para estrangeiros
E eis que o capetão virou cafetão! O Brasil luta há anos para derrubar a pecha de paraíso do turismo sexual, de que aqui seria o lugar ideal para se traçar mulheres calientes. Além de ser uma reputação pra lá de machista, ela é péssima pro país, pois incentiva a prostituição, e talvez principalmente a prostituição infantil. Claro que Bolso, que tem um longo histórico de declarações misóginas, racistas e LGBTfóbicas, não teve nenhuma vergonha em oferecer as brasileiras de bandeja para os gringos. Prostituição, de acordo com sua lógica torpe, não é condenada pela família tradicional (e não é mesmo; prostituição faz parte integral do patriarcado). 
Muita gente me perguntou ontem no Twitter: como ficam as mulheres que votaram no energúmeno? Esta é a saída oferecida por ele para o desemprego? Mas é óbvio que as conservadoras não ligam. Elas devem achar que ele se referiu a outras mulheres, não tão "direitas" como elas. Ou então que ele não disse isso, foi apenas uma mentira da imprensa que o persegue, tadinho. 
Parece que a república só mudou de cafetão. Um ano atrás, a imagem mais emblemática da comemoração da prisão de Lula foi o dono de um puteiro expondo uma prostituta, enquanto um bando de reaças convocados pelo MBL celebravam. Ao fundo, uma homenagem a dois juízes. As palavras de Bolso combinam com a foto. 
Bem fez o governador Flávio Dino (PCdoB), do Maranhão. Ontem ele lançou uma propaganda na internet dizendo que "O Maranhão está à disposição dos turistas. A mulher maranhense, não". Touché, governador!
E por falar em propaganda, o paspalho que não passaria no Enem mas se sente perfeitamente à vontade para interferir no exame, 
se meteu com um comercial do Banco do Brasil (veja o comercial). A gente pensaria que um presidente tem coisas mais importantes pra fazer do que exigir a retirada de um comercial, mas aí se lembra que ele escreve tuítes sobre golden shower
O comercial do BB, que divulgava o serviço de abertura de conta corrente por aplicativo no celular (em outras palavras, direcionado para os mais jovens), que já vinha sendo veiculado há mais de uma semana, mostra moças e rapazes de vários estilos, muitos negros, alguns com tatuagens (veja o vídeo do canal Nada se Cria a respeito). Na hora, nem Bolso nem a alta cúpula do banco especificou o motivo da proibição do comercial (que levou à demissão do diretor de marketing do BB). Não ficou claro se foi por homofobia ou racismo ou uma mistura dos dois. 
Só hoje Bolso explicou por que proibiu o comercial: "Quem indica e nomeia o presidente do Banco do Brasil, não sou eu? Não precisa falar mais nada, então. A linha mudou. A massa quer o quê? Respeito à família, ninguém quer perseguir minoria nenhuma. E nós não queremos que dinheiro público seja usado dessa maneira". 
De novo: para o incompetente, "respeito à família" (só existe uma) equivale a banir qualquer um que não esteja no padrão branco e heteronormativo. Vamos esperar os novos comerciais de qualquer empresa estatal (que os reaças "patriotas" estão doidos pra entregar pros estrangeiros) mostrarem jovens bem comportados, à la Gilead de O Conto da Aia
Os movimentos negros se manifestaram rapidamente para repudiar o ataque de Bolso à diversidade. Frei David, da Educafro, disse: "A comunidade negra gastou um tempo imenso para despertar na sociedade o respeito à diversidade. Essa propaganda consolida uma conquista dos excluídos". A Educafro irá entrar com uma denúncia na ONU contra a retirada do comercial. 
Pelo jeito, este é o único comercial do Banco do Brasil que a "nova era" aprova. 
Vale lembrar que Bolso já havia se metido numa ação do BB. Mês passado, o presidente dos ignorantes condenou um curso interno do banco sobre assédio sexual no trabalho e incentivou candidatos de concurso a processarem o banco estatal. 
Pode ser que tudo isso seja apenas mais uma cortina de fumaça para que a gente não fale do pré-sal ou da deforma da previdência ou até da descoberta de uma nova laranja da famiglia. Assim como pode ser mais uma presepada entre tantas outras que este desgoverno nos oferece diariamente. Todo dia um 7 a 1, todo dia um retrocesso. Que fase, Brasil!

E só piora... Leia a declaração do presidente do BB defendendo o veto. 

quarta-feira, 10 de abril de 2019

QUASE ONZE ANOS SEM ELOÁ

Anteontem vi na TV Record um programa sobre o caso Eloá, uma menina de 15 anos que em outubro de 2008 foi morta pelo ex-namorado Lindemberg. 
Creio que qualquer brasileiro com mais de vinte anos se lembra do caso, que paralisou o país. Lindemberg, 22 anos, invadiu o apartamento num conjunto habitacional em Santo André onde morava sua ex, Eloá Pimentel. Durante quatro dias, a manteve em cativeiro, dois deles com a amiga Nayara. Ele agredia e ameaçava Eloá, ela pedia calma pela janela, ele dizia para a polícia "Se ela tá passando por isso, é porque ela merece". E o Brasil acompanhava tudo ao vivo. 
O caso Eloá foi tão escabroso que virou case internacional nas faculdades de comunicação e de segurança pública. Num caso inédito, a polícia permitiu que uma refém libertada, Nayara, voltasse ao cativeiro -- uma menina de 14 anos foi enviada para negociar a rendição de Lindemberg. Ele não cumpriu a parte do acordo, e a pegou como refém novamente. No fim, ele atirou nela, na boca. Felizmente, Nayara sobreviveu.
A atuação da mídia foi tão desastrosa quanto a da polícia. Vários programas sensacionalistas telefonaram para o apartamento de Eloá e conseguiram falar ao vivo com o sequestrador. Ele, sabendo que o país inteiro estava assistindo, perguntava "Tá na televisão? É ao vivo?" 
O programa de Sonia Abrão dedicou inúmeras horas ao caso. Numa dessas horas, enquanto a tragédia ainda estava na metade, chamou um advogado, doutor Ademar, para "nos orientar assim sobre o que vai acontecer daqui pra frente". E o sujeito respondeu: 
“Bom, eu sou muito otimista, né? Eu espero que isso termine assim em pizza, né, e num casamento futuro entre ele e a namorada, a apaixonada dele, né? Ele tá passando uma fase momentânea, né, e ele tem a motivação de viver, porque um rapaz jovem, quando se apaixona muitas vezes se desequilibra, no caso radicaliza, mesmo. Mas isso vai terminar realmente em final feliz, graças a Deus, eu tenho plena certeza e convicção disto".
Aqui vai um adendo. Aliás, dois. Muitas vezes nas minhas palestras eu cito o caso Eloá, porque ele marcou o meu primeiro encontro indireto com mascus, quando meu blog não tinha nem um ano de idade e eu ainda não sabia da existência deles. Fiquei sabendo na época de comunidades hediondas no Orkut que saudaram Lindemberg como herói e celebravam o assassinato de uma menina de 15 anos. Uma delas era "Eloá virou presunto". 
Eu nem sabia que masculinistas brasileiros existiam (só vim a saber uns dois anos depois), mas já fiquei chocada com os comentários do fórum. Num deles, esses misóginos debatiam sobre a cor do caixão em que Eloá seria enterrada. Não podia ser branco, segundo eles, porque ela era uma vadia. Um deles concluiu: “Que se f*da a cor do caixão, o importante é que ela vai ser comida embaixo da terra”.
Sempre que eu lembro ao público das palestras o que o advogado disse no programa sensacionalista de TV ou conto o que a comunidade mascu no Orkut falava sobre Eloá, há um choque. As pessoas ficam genuinamente aterrorizadas. Não conseguem crer que homens possam realmente proferir essas palavras. 
O outro adendo é que, no início de 2015, meu blog deu um furo de reportagem ao denunciar o passado de stalker de um participante do Big Brother Brasil. Um produtor do programa da Sonia Abrão me ligou pedindo para ir a São Paulo ser entrevistada sobre o caso BBB. Respondi: "Sonia Abrão, aquela do programa que entrevistou o assassino de Eloá ao vivo? Não, obrigada". Ele nem tentou argumentar antes de eu desligar. Parecia acostumado com esse tipo de resposta. 
Mas voltando ao programa da Record anteontem. A reportagem não trouxe qualquer autocrítica da mídia sobre como agiu no caso Eloá. Houve críticas à polícia, mas não à mídia. Por que não?
Uma das críticas à polícia é por que um sniper no prédio em frente não recebeu a ordem de atirar em Lindemberg, já que ele frequentemente aparecia na janela. O coronel responsável pela operação justificou na época: "Era um garoto de 22 anos, sem antecedentes criminais, em uma crise amorosa". 
O que mais se viu foram comentários como esses. Ele era um bom rapaz, só estava passando por uma fase ruim porque Eloá não queria mais falar com ele. Ele era trabalhador, esforçado, um garoto. A culpa recaía toda sobre Eloá aos olhos da mídia, algo que o excelente documentário Quem Matou Eloá? (realizado pela ECA USP em 2015) mostra muito bem. 
O "bom rapaz" deu dois tiros em Eloá, um na cabeça, outro na virilha, numa ação bastante característica de misóginos em geral (eles atacam partes do corpo relacionadas à feminilidade). A mãe de Eloá doou sete de seus órgãos, que fizeram outras pessoas viverem. 
A reportagem da Record, apesar de limitadíssima na autocrítica, traz alguns dados interessantes que eu desconhecia. Por exemplo: Nayara foi indenizada pelo Estado em R$ 150 mil (a sentença é justa, mas o valor, a meu ver, não: a menina perdeu todos os dentes com o tiro, teve que reconstruir sua boca), mas a família de Eloá não recebeu um centavo. A Justiça não considerou que o Estado teve culpa na morte de Eloá, o que é absurdo. 
Lindemberg, que nunca manifestou arrependimento, foi condenado por júri popular a 96 anos de prisão. Sua defesa recorreu e a pena caiu para 39 anos. A defesa, ainda insatisfeita, recorreu novamente. Se a pena permanecer em 39 anos, Lindemberg já poderá pedir progressão de pena em regime aberto a partir de 2022. Ou seja, ele pode ficar menos de 14 anos na cadeia por matar uma menina e atirar em outra, não sem antes mantê-las em cativeiro durante dias.
Eloá e Nayara
Quero acreditar que bastante coisa mudou de 2008 pra cá. Desde 2015 temos um termo para substituir o ridículo "crime passional", que é feminicídio. Se a ação criminosa de Lindemberg acontecesse hoje, ele seria condenado também por feminicídio, o que aumentaria sua sentença. Quero acreditar que, se acontecesse hoje, tanta gente não trataria o assassino como um coitadinho apaixonado. E que, se acontecesse hoje, Eloá sairia daquele apartamento viva. 

quarta-feira, 3 de abril de 2019

A LUTA VALE A PENA: "VOCÊS NÃO ESTÃO SOZINHAS"

Observem só como a luta é necessária e vale a pena!
Semana passada a jornalista Amanda Audi publicou matéria no The Intercept Brasil mostrando um absurdo. Denian Couto, comentarista reaça e um dos maiores destaques da Joven Pan e da TV Record do Paraná, foi acusado de ameaçar de morte a ex-noiva Giulianne Kuiava, colega dele na emissora. A matéria trazia uma gravação em áudio, cheia de ofensas de Denian a Giulianne. A gravação já havia sido levada ao grupo RIC (o conglomerado de comunicação dono dos veículos), que nada fez. 
Além disso, Denian também é acusado de agredir física e/ou verbalmente outras quatro mulheres. Ele, óbvio, nega. No entanto, se não fosse a matéria de Amanda, e o protesto do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado (Sindjor) na frente da emissora, Denian continuaria lá, com total impunidade. Anteontem ele foi demitido.
Reproduzo aqui o texto que a jornalista Giulianne (Giuli) publicou na sua página no Facebook no dia 28 de março. É um texto corajoso, de uma mulher que, apesar de ouvir do ex-noivo "Eu vou te matar se você não calar a sua boca", não se calou. 
Esse é um texto sobre violência doméstica, ameaça, abuso psicológico e omissão. E não, hoje não vou falar sobre nenhuma história que acompanhei como jornalista. Hoje vou falar sobre a minha história. 
Se você passa por algo parecido, esse texto é pra te ajudar. Ou, se você conhece ou desconfia que alguém do seu ciclo já passou por alguma dessas situações, faça essas palavras chegarem até essa pessoa. 
Vivi um relacionamento abusivo. Descobri mentiras doentias, fui xingada dos nomes mais baixos que vocês possam imaginar. Palavras que nenhuma mulher no mundo, sob hipótese alguma, deveria ter que ouvir. Fui ameaçada. Sim, ele disse -- com todas as letras -- “eu vou te matar”. 
Isso tudo foi por ligações. Não sei qual a sua crença. Sei que naquela noite, acredito que Deus desviou minha rota. Eu, que estava indo pra casa do homem em questão, não cheguei até lá. Por sorte. Por fé. Por ter lembrado da reportagem que fiz no dia anterior, sobre a morte da Daniela. Uma moça linda, jovem, cheia de vida, que levou dezenas de facadas do próprio marido, pai da filha dela. Uma criança de apenas dois anos com a qual ele tirava fotos e dizia que amava. Mas, fez a pequena assistir a morte da própria mãe. 
Quando recebi a primeira ligação ameaçadora, me veio na cabeça a imagem da cortina rasgada, dos respingos de sangue na parede. E foi como se em câmera lenta eu pudesse ver o sangue da Daniela escorrendo pelos dois degraus da casa dela, onde eu estive. Eu vi o sofrimento da mãe e do padrasto da Daniela. A família dela nem sabe. Aliás, pouquíssimas pessoas sabiam até agora. Mas, a Daniela me salvou. 
Hoje eu entendo muito sobre a dificuldade que as mulheres que vivem esse tipo de situação tem de expor o que passaram. Eu faço depois de quase dois meses do ocorrido. Faço porque assim como a Daniela me salvou, esse texto pode te salvar. Ou salvar alguém que você conhece. 
Voltando um pouco... No começo ele era o cara mais incrível do mundo. Me mandava vídeos de declarações de amor. Fez um churrasco pras minhas amigas e falava aos quatro ventos que eu era a mulher da vida dele. Fui pedida em namoro em uma semana. Em casamento, com pouco mais de um mês de relacionamento. Me assustei com a velocidade das coisas. Mas eu merecia alguém assim, né?! Ele dizia que meu espanto era normal já que -- segundo ele -- eu nunca tinha sido assim tão amada. Manipulou meus sentimentos. Identificou minhas fraquezas e sonhos. Me assumiu no trabalho. Íamos juntos em todos os lugares. No parque, no shopping, em bons restaurantes. Nunca foi nada escondido. 
Como desconfiar?! Ele queria que eu engravidasse. Mas as mentiras mais sórdidas começaram a ficar aparentes. Mentiras envolvendo uma criança. Mentiras envolvendo família. Mentiras envolvendo os mais diversos tipos de situação. Terminávamos. Ele sempre invertia o jogo. Usava do meu bom coração pra mentir, de novo. Dizer que precisava da minha ajuda pra lidar com os problemas dele. Eu voltava. Até que voltei pela última vez. Descobri a última mentira dele pra mim. Traições sórdidas, que na verdade atingiam mais as outras envolvidas -- que têm vínculos mais fortes com o fulano -- do que a mim. Fiquei chocada de como ele poderia fazer isso com elas. Como ele poderia fazer isso comigo? Quem era de verdade o cara por quem me apaixonei?! Eu perguntei isso pra mim mesma. E a resposta, teria na sequência. 
Mas, você nunca desconfiou? Não é possível. Como pode ser tão inocente? Tão trouxa?!
Antes dele, eu fui casada. Com uma pessoa incrível. Mantivemos a civilidade depois do término. Meus relacionamentos anteriores eram saudáveis, com brigas, é claro. Mas nunca com falta de respeito. Eu não conhecia o mal. Até então. 
Ele já dava indícios de agressividade, sim. Fui alertada por várias amigas, que já tinham passado por relacionamentos abusivos. Mas eu? Tão 'esperta’. Ele? Tão inteligente, bem sucedido. Um cara de opinião forte, de discurso convincente. Admirado por tantos que o escutam e replicam suas ideias. Ele?! Não. Como poderia ter dentro de si duas faces tão diferentes?
Sim, ele. Eles. Vários. Tantos que estão por aí. Tantos que eu ajudei a noticiar. 
Mas, quando chegou a minha vez, eu me escondi. Contei pros meus pais. Falei pra alguns colegas mais próximos, da minha convivência. Tive que pedir ajuda. Ir pra casa de uma amiga por medo. Tirar minhas cachorras de casa por uns dias. Mas do resto, me escondi. Por medo. Por insegurança. Tentaram me “aconselhar” a não fazer o boletim de ocorrência. Por ser ele. Quem sou eu perto dele? Você é peixe pequeno. Ouvi. E era... Mas isso tudo me fez ser maior. 
Não teremos como te defender. Disseram. Estamos num mundo machista. Disseram. 
Tinham razão. 
Mas o mundo não é só machista. Os homens não são só ruins. 
Hoje eu entendo a dificuldade que as mulheres têm pra denunciar. Eu demorei uma semana. Por medo, por insegurança. 
Chorava, tinha crises de falta de ar só de pensar que poderia encontrar com ele. Porque sim, essa possibilidade existia, e ainda existe. Ainda choro. Eu. Que sempre fui tão forte. Ele poderia ficar ainda mais exaltado com a denúncia. Estava prestes a viajar, poderia me agredir e ir pra longe. Mas, quem poderia garantir que ele não voltaria a me procurar se eu não fizesse nada? Ninguém. Mas pelo menos, com a denúncia, ele se sentiria menos à vontade pra tentar qualquer coisa. 
E logo eu? Que já vi tantas ameaças se concretizaram não denunciaria? Mesmo eu sabendo da importância disso, nunca quis agir por vingança. Mas sim, agir por segurança. E justiça. Iria contra tudo o que sou não denunciar. Contra tudo o que eu acredito. Contra tudo o que eu prego. Denunciei. 
E vc, deve denunciar também. É preciso quebrar o ciclo da violência doméstica. Quem fica impune, se sente a vontade de repetir a agressão. Uma, duas, três, várias vezes. Até que o pior acontece. A ameaça pode se concretizar. 
Eu sofri e sofro com a omissão de muitos. Se vc sabe de alguém que está nessa situação, não seja omisso. Ajude. Acolha. Pegue pela mão. 
Com esse texto, me exponho. Corro riscos com isso, por conta daquele mundo machista que tanto me avisaram que existe. 
Também me avisaram sobre a justiça dos homens, que muitas vezes é falha. Concordo. Muitas vezes erra, e muitas vezes acerta. Na dúvida, eu prefiro confiar que no final a verdade vence. E que a justiça de Deus… Ah, essa não falha. 
Hoje me sinto um pouquinho mais forte. Ainda estou em tratamento. Ainda tento entender o porquê (se é que existe um) estou passando por tudo isso.
Mas, hoje sou maior. Maior o suficiente pra encarar o que estou passando. Maior o suficiente pra compartilhar minha história tão -- e somente -- a fim de ajudar a quem possa estar passando por algo parecido. E, talvez, ser uma Daniela pra alguém.
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Escrevi esse texto há quase um mês. Não sabia se um dia publicaria. Tinha vontade, mas não tinha certeza sobre a exposição. Sobre como ficaria, principalmente minha família. Agora, que a questão veio a público e descobri que eu não fui a única vítima, espero que com esse texto eu possa ajudar mais mulheres que estão passando pelo o que eu passei. Força. Vocês não estão sozinhas.