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terça-feira, 21 de março de 2023

QUEM AMEAÇA TEM DIREITO À PRIVACIDADE?

Juliana dal Piva, uma das melhores jornalistas investigativas do Brasil, que fez podcasts e publicou um livro sobre as inúmeras rachadinhas da familícia Bolsonaro, em julho de 2021 recebeu uma mensagem de Frederick Wassef mandando-a pra China: 

"Faça lá o que você faz aqui no seu trabalho, para ver o que o maravilhoso sistema político que você tanto ama faria com você. Lá na China você desapareceria e não iriam nem encontrar o seu corpo".

Wassef era advogado de Jair e Flávio. Foi também na casa desse homem tão próximo ao ex-presidente que escondeu-se Fabrício Queiroz. Wassef alegou que não sabia que Queiroz estava na sua casa. Nenhum dos dois (ou três) foi condenado ainda. Mas a boa notícia é que Queiroz e Wassef se candidataram a deputado federal em 2022 e não se elegeram. O chefe deles tampouco. 

Sabendo que estava lidando com milicianos, Juliana processou Wassef pela ameaça. O juiz Fábio Junqueira, do TJ-SP, condenou Wassef a indenizar a jornalista em R$ 10 mil. Mas também optou por condenar Juliana por divulgar a ameaça que recebeu. Dessa forma, ela teria "ferido a privacidade do réu". Ela levou o caso à segunda instância. O TJ-SP deve julgar isso ainda este mês. Segundo as jornalistas Katia Brembatii e Bia Barbosa, existe jurisprudência do STF de que mensagens privadas podem ser divulgadas se houver interesse público ou como estratégia de proteção. 

Se já é um absurdo que uma jornalista não possa expor a ameaça recebida, vamos abrir para todas nós: ao nos depararmos com uma mensagem intimidatória, agressiva e misógina, podemos expor essa ameaça ou isso fere a privacidade da pobre alma que nos ameaçou? 

Não é o cúmulo ter que fazer essa pergunta?! Como vocês sabem, eu sou alvo de centenas de ataques e ameaças de morte e estupro (estendidas a minha mãe e marido) há no mínimo doze anos. A maior parte dessas ameaças é de covardes anônimos. Muito de vez em quando eu decido publicar algumas dessas ameaças. Acho que existe interesse público pra isso, acho que as pessoas precisam saber como feministas são tratadas no Brasil. 

É também uma estratégia de defesa. Os caras que me ameaçam vivem falando de contratar um matador de aluguel pra me eliminar (já fizeram até vaquinha com esse fim!), e os matadores estipulam um preço de acordo com a visibilidade da pessoa. É muito mais barato matar uma mulher desconhecida. Dá pra fazer parecer um latrocínio ou um lamentável acidente e ninguém vai desconfiar. 

Então a visibilidade acaba sendo uma forma de proteção para ativistas. Agora imagina se um misógino me processa por eu divulgar uma ameaça de morte e estupro que ele me mandou? 

Nem preciso imaginar muito. Quatro dos oito processos a que respondi vieram de mascus que me atacaram e ameaçaram durante anos. Em três desses casos os misóginos abandonaram as ações. Num deles eu tive que fazer acordo e dei ao floquinho de neve especial um direito de resposta no meu blog. Detalhe: eu nem tinha citado o nome completo dele! Outro detalhe: o mesmo cara continuou me atacando e ameaçando mais dois anos depois disso!

É, o Judiciário realmente tem muito contra as mulheres. Minha sororidade a Juliana dal Piva!

quarta-feira, 15 de março de 2023

TODA SORORIDADE A SCHIRLEI ALVES, JORNALISTA ALVO DE ASSÉDIO JUDICIAL

Hoje mais de vinte organizações divulgaram uma nota coletiva em apoio à jornalista Schirlei Alves,  que responde a seis processos judiciais e a três ações criminais, o que é conhecido como assédio jurídico ou processual. 

Pra quem não sabe ou não lembra, Schirlei foi a jornalista responsável por relatar o que estava acontecendo no caso Mariana Ferrer longe do público (a influenciadora Mari denunciou ter sido dopada e estuprada no Café de La Musique de Florianópolis em 2018; o acusado foi absolvido em primeira e segunda instâncias por “falta de provas”, num caso em que o que não falta são provas). 

Schirlei já tinha mais de doze anos de atuação como jornalista quando cobriu o caso Mari Ferrer. Pouco depois de seu artigo sair (sem o vídeo da audiência) no pequeno jornal catarinense Nd+ e ter repercussão nacional, ela foi demitida. Foi aí que publicou a matéria no Intercept, com o vídeo de uma audiência online em que Mari foi ofendida e humilhada pelo advogado de defesa Gastãozinho, sem que o juiz ou o promotor fizessem qualquer coisa para impedi-lo. 

Os artigos de Schirlei em 2020 usavam a expressão “estupro culposo”, que a extrema-direita (que até hoje faz campanha contínua contra Mari Ferrer e muitas outras vítimas de estupro) classificou de fake news. Mas a sentença que absolveu o acusado usa como exemplo o caso de homens que se relacionaram com meninas menores de 14 anos (considerado estupro de vulnerável pela lei) “sem saber” que elas eram menores! Em outras palavras: o cara estuprou, mas sem intenção. Uma passação de pano para todos os pedófilos. 

Essa justificativa foi usada no caso Mari Ferrer. Está nos autos. E chama a atenção que o pessoal ficou revoltado com a expressão "estupro culposo", não com a justificativa em si. O promotor (que deveria defender a vítima, não o acusado) argumentou que o acusado não sabia que Mari estava dopada. Não existe condenação na justiça brasileira por estupro culposo (sem intenção), só para estupro doloso (com intenção). Aos olhos leigos de quem tem certeza que a Justiça protege a elite, criaram uma artimanha para absolver um empresário rico.

A campanha contra Mari (feita à base de muitos robôs, não sabemos pagos por quem) virou também uma campanha contra Schirlei, que foi atacada de todas as formas na internet. Em dezembro de 2020, mais de 50 entidades que defendem a liberdade de imprensa repudiaram as ameaças contra Schirlei.

O trio formado por juiz, promotor e advogado de defesa ficou furioso porque a audiência do julgamento foi vazada. Parece que o judiciário não quer transparência. Quer que vítimas de estupro e assédio sejam tratadas como culpadas pelos crimes que sofreram. O segredo de justiça segue sendo usado como ferramenta contra as vítimas, e contra quem apoia as vítimas. 

O juiz Rudson Matos e o promotor Tiago Carriço de Oliveira, de Santa Catarina estão pedindo, respectivamente, R$ 450 mil e R$ 300 mil do Intercept (em ação conjunta contra Schirlei). Não sei quanto Gastãozinho quer. Mas o assédio judicial tem como objetivo o silenciamento através da asfixia financeira

Olha, tá tudo dominado. Tudo isso ocorre num estado que, de tão conservador, vem sendo apelidado de "Texas do Sul". Um estado cuja Câmara de Vereadores da capital, pela segunda vez, recusou dar o título de cidadão honorário a Gilberto Gil.

Um dia antes, a mesma Câmara havia acabado de aprovar que a deputada estadual mais bolsonarista do Estado, Ana Campagnolo, receba a medalha Antonieta de Barros. A Câmara ainda vai homenagear outras deputadas de extrema-direita. Filha de escravos, a professora e jornalista Antonieta foi a primeira mulher negra eleita no país. Uma medalha em sua homenagem foi instituída em 1997. Hoje ela é usada para premiar deputadas misóginas, antifeministas, anti-movimento negro, anti-direitos humanos.  

Campagnolo, que tem como advogado o mesmo Gastãozinho que processa Schirlei, já declarou que mulheres devem ser submissas aos seus pais e maridos e não trabalhar fora. Aí a gente fica sem entender o que ela está fazendo ali na assembleia. Mas é fácil saber: a bolsonarenta foi a principal responsável pela abertura de uma CPI feita sob encomenda para punir as jornalistas do Intercept e do Portal Catarinas, que publicaram matérias sobre uma menina de 11 anos grávida que foi mantida num abrigo por uma juíza e promotora para não poder abortar

Sem dúvida processos são uma forma eficaz de intimidar a imprensa. A nota de hoje diz: "As entidades confiam que os casos serão apreciados com imparcialidade e à luz da liberdade de expressão e de imprensa. E que não há outro caminho que não a rejeição das queixas criminais movidas contra a repórter. É inadmissível que uma jornalista no exercício da sua profissão, relatando um assunto de interesse público, seja considerada responsável por ofender a honra dos funcionários públicos e do advogado envolvidos no caso".

Se não fossem as corajosas jornalistas do Catarinas e Intercept, a menina de 11 anos teria sido mantida presa num abrigo até parir. Nós nem saberíamos do caso. Se não fosse Schirlei Alves (e, lógico, toda a luta incansável de Mari), não teríamos hoje a lei no. 14.425/2021, a Lei Mariana Ferrer, que impede que vítimas de crimes sexuais sejam humilhadas em audiências. A lei é importantíssima e vem sendo usada em todos os cantos do país desde sua aprovação. 

Eu fui uma das que assinei as notas em apoio a Schirlei em 2020 e agora. Espero que possamos comemorar juntas quando essa injustiça flagrante, esse ataque misógino à liberdade de imprensa, seja finalmente arquivado.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

OS ATAQUES A VERA MAGALHÃES TÊM MANDANTE

Anteontem à noite, no fim de um debate com os candidatos ao governo de SP, o deputado bolsonarista Douglas Garcia se aproximou da jornalista Vera Magalhães e passou a gritar fake news em forma de perguntas. O objetivo imediato, óbvio, era filmar tudo e coletar material pra alavancar sua candidatura à reeleição. Entre bolsonarentos, atacar mulheres e jornalistas rende voto.

Mas parece que o tiro saiu pela culatra. Assim como o fato mais marcante do debate da Band foi o ataque de Bolso a Vera, o fato mais marcante deste debate acabou sendo o ataque de Douglas a mesma jornalista. Mais uma vez, uma atitude misógina e troglodita mostrou o que apoiadores de Bolso pensam das mulheres e da liberdade de imprensa. Nacionalizou um debate que era pra ser regional. Fez os bolsonaristas baterem cabeça. Pode levar à cassação de Douglas (é o que espero). E rendeu uma onda de solidariedade a Vera. 

Por mais que eu discorde de muita coisa que a jornalista falou (tipo chamar Sérgio Moro de enxadrista, pedir para a Folha cancelar a coluna de Guilherme Boulos, ou dizer que Lula transformou o velório de Marisa em comício), não tem como não ficar do lado dela nesse caso. O outro lado é a barbárie. Vai contra a lei, a ética, o bom senso que um presidente de um país não só ataque jornalistas mulheres, mas que coloque todo seu Gabinete do Ódio para atacá-las, e incite seus seguidores (muitos dos quais colecionam armas) ao ataque. Simplesmente não é aceitável. 

Vale lembrar que não é de hoje que Bolso ataca Vera. Seus seguidores a chamam de "datilógrafa" e "Verba Maugalhães" há anos. Isso vem desde antes do "imbroxável" virar presidente, mas atingiu o ápice em fevereiro de 2020, quando a jornalista publicou que o próprio Jair usava o WhatsApp para convocar seus seguidores para participar de atos golpistas contra o Congresso. Bolso a xingou numa live, e o Gabinete do Ódio passou a atacá-la com ainda mais afinco. Por exemplo: inventaram uma troca de mensagens entre ela e o ex-presidente FHC, e divulgaram imagens de seus filhos. As fake news sobre seu salário na TV Cultura são também dessa época. 

Portanto, não foi tão surpreendente quando Bolso a escolheu como alvo no debate da Band. O presidente disse em rede nacional no fim de agosto: "Vera, eu acho que eu não podia esperar outra coisa de você. Acho que você dorme pensando em mim. Você tem alguma paixão em mim. Não pode tomar partido num debate como esse. Fazer acusações mentirosas a meu respeito. Você é uma vergonha para o jornalismo brasileiro". Pra quem patina na intenção de votos das mulheres, não parece ser uma estratégia racional atacar mulheres. Mas acho que é mais forte que ele.

No dia 31 de agosto, bolsonaristas adulteraram e espalharam um vídeo em que uma jornalista do Uol, Fabíola Cidral, dizia que Simone Tebet havia feito uma pergunta para deixar Bolso nervoso no debate de 28/8. No vídeo falso, Fabíola diz que foi Vera Magalhães (não Tebet) que lhe confidenciou: "eu sabia que ele ia ficar nervoso. Eu fiz até de propósito para mostrar quem ele é". A emissora oficial do bolsonarismo, a Jovem Klan, chegou a passar e comentar o vídeo falso em um de seus programas.

Em 1 de setembro Vera pediu para que denunciassem ao Twitter uma ilustração que a mostrava dormindo com Bolso, uma referência à fala misógina de Bolso ("você dorme pensando em mim, tem alguma paixão por mim"). 

Durante o ato de 7 de setembro no Rio, convocado e organizado por Bolso, um trator exibia um cartaz com a foto de Vera e ofensas a ela. Na ocasião, Vera quis saber: "Quem pagou o guindaste em que penduraram minha foto e uma mensagem ameaçadora? Personalizando um ataque por uma pergunta sobre vacina num debate? Por que a virulência? Porque o desgaste para Bolsonaro pelo que ele respondeu, não o que eu perguntei, foi grande". 

E agora mais este ataque, protagonizado por um deputado fascistinha (mesmo: antes de ser eleito, ele esteve em ato dos Carecas do ABC). Está longe de ser um ato isolado. É um ataque orquestrado, que tem o presidente da república como chefe. Pra mim, isso é um escândalo. 

A repercussão tem sido gigantesca, o que levou Dudu Bananinha, no auge da sua hipocrisia e cinismo, a classificar a atitude de Douglas de "lamentável": "O que ocorreu ontem após o debate dos candidatos ao Governo de SP é lamentável por muitos motivos. Em primeiro lugar, não há justificativa para provocar uma jornalista e tentar constrangê-la gratuitamente no seu local de trabalho, sem que ela tenha dado qualquer motivo para isso". Reparem no "sem que ela tenha dado qualquer motivo pra isso". Seu pai fez muito pior durante o debate da Band (constrangeu a mesma Vera no seu local de trabalho), mas, aparentemente, ela deu motivo (fez uma pergunta pro Ciro sobre a queda de vacinação para crianças!). 

Na verdade, foi assim: o advogado da campanha de Bolso, um outro Tarcísio (Vieira, ex-ministro do TSE) viu que a atitude de Douglas poderia levar a um processo judicial não só contra o candidato bolsonarista ao governo de SP, mas contra Bolso. Pensou-se em fazer Jair repudiar Douglas, mas, né, não ia colar. Então pegaram Dudu, que já havia brigado com Douglas dois anos antes, quando o deputado estadual, que havia feito um dossiê de mil páginas expondo antifas (ou seja: quem combate fascistas é o inimigo), envolveu o filho do presidente no negócio. 

Se o repúdio de Dudu a Douglas não foi convincente, Ciro Nogueira, sinistro-chefe da Casa Civil, preferiu defender o deputado estadual neste episódio do debate. Pra ele, o jornalista Leão Serva ter arremessado o celular do parlamentar (yay!) é "mil vezes mais grave" (Douglas se desesperou e correu atrás do celular em modo avião, gritando "jonazistas", o que, vindo dele, deve ser um elogio). Paulo Figueiredo, neto de ditador e comentarista da Jovem Klan, foi na mesma linha. Mas, em geral, bolsonaristas odiaram que o candidato Tarcísio tenha pedido desculpas a Vera. Isso fez dele um frouxo. Ser ogro é nunca ter que pedir desculpas. 

Já pro resto da população, Tarcísio apenas reforçou sua imagem de mentiroso, algo absolutamente normal entre qualquer apoiador de Bolso. Ao ligar pra Vera, ele disse sobre Douglas: "Mal conheço esse idiota". As imagens o desmentem. Douglas estava lá a convite de Tarcísio. E premeditou tudo. Já sabia que iria acusar a jornalista de receber grana para falar mal de Bolso. 

Mas quem é, afinal, Douglas Garcia? Acho que eu nunca tinha ouvido falar dele antes do ataque que ele fez em 2019 a Erica Malunguinho (Psol), primeira deputada trans de SP. Depois de um discurso de Erica, Douglas afirmou que tiraria a tapas e chamaria a polícia pra levar presa uma mulher trans que usasse um banheiro feminino onde estivesse sua mãe ou irmã. 

Quando passaram a ameaçar divulgar imagens de Douglas com homens (e também após ser denunciado ao Conselho de Ética pelo discurso transfóbico), ele teve que se assumir homossexual, sem, claro, defender qualquer bandeira LGBT. Muito pelo contrário: ele é um dos muitos que associam gays à pedofilia. Mas Douglas ficou mais ou menos conhecido em 2018, ao criar o bloco de carnaval Porão do DOPS, para homenagear torturadores. O bloco foi impedido de desfilar pela Justiça. 

E, logicamente, engana-se quem pensa que os ataques de Douglas a Vera começaram anteontem. Já em 2020, Douglas e Gil Diniz, o "carteiro reaça", ambos deputados estaduais bolsonarentos, usaram o plenário da Assembleia Legislativa para difamar Vera. Os dois alegaram que ela recebia meio milhão de reais por ano da Fundação Padre Anchieta para atacar Bolso. Ela mostrou um trecho do contrato no Twitter e avisou que os processaria. A TV Cultura também se manifestou: disse que o salário seguia um teto estabelecido e era pago não com dinheiro do Estado de SP, mas com a verba gerada por anúncios. 

Não adiantou. Os dois parlamentares continuaram insistindo, e a TV Cultura respondeu, entregando exatamente qual era o salário de Vera. E o que os dois deputados fizeram? Divulgaram o valor de dois anos de contrato (R$ 528 mil) como se fosse anual! 

Na época, a TV Cultura lançou uma nota pública: “Em tempos de crise de saúde em todo o país, os dois usaram a sede do Legislativo e tempo de seus mandatos, estes sim pagos com dinheiro dos contribuintes, para caluniar e difamar. E como sempre, preferencialmente, jornalistas mulheres. A TV Cultura mais uma vez se solidariza com sua companheira e lamenta que as milícias do presidente Bolsonaro sigam dando mostras de descolamento da realidade que os cerca. Enquanto o Brasil se preocupa com a maior epidemia dos últimos 102 anos, eles se ocupam em abusar da paciência do País”. 

Em outras palavras, anteontem, quando Douglas foi atacar Vera, ele só estava repetindo o que fez dois anos atrás. Ele já tinha visto o contrato dela, já tinha espalhado a mentira que ela ganhava mais de R$ 500 mil da TV Cultura (e não os R$ 264 mil/ano que recebe), provavelmente já está respondendo a processo, e foi lá dar seu showzinho grotesco pra lembrar seus eleitores que existe e conseguir ser reeleito. E, tipicamente prum misógino, ele não pediu desculpas a Vera, e sim a Tarcísio

Mas Douglas é só um peão nesse tabuleiro. Seu mandante todos nós sabemos quem é. O que é incompreensível pra mim é que um presidente que está há quatro anos atacando jornalistas mulheres vai terminar seu mandato e ainda tenha chances de chegar ao segundo turno. 

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

LULA, SENSACIONAL NO JORNAL NACIONAL

A expectativa era imensa, e Lula não decepcionou: deu uma entrevista formidável ontem ao Jornal Nacional, depois de dezesseis anos de muita espera (aqui, na íntegra).

O âncora Bonner, que passou anos condenando o ex-presidente por crimes dos quais foi absolvido, abriu a entrevista afirmando que Lula não deve nada à Justiça. Quase deu pra ouvir o soco no estômago dos bolsonarentos e de um certo ex-juiz! 

Foi também uma deixa de que o clima seria pacífico e sem hostilidades (bem diferente do clima com Bolso na segunda). É incomparável o preparo, a experiência e a habilidade de Lula com o Coisa Ruim. A cada sabatina, a cada debate, mais o povo vê o abismo entre Lula e o Bobo da Corte (os advogados de Bolso já estavam prontos para entrar com processo se o petista o chamasse de genocida, então Lula jogou um "bobo da corte", indicando que Bolso não manda nada, quem manda no país é Artur Lira). 

Falando em Congresso, e lembrando que o mensalão foi brincadeira de criança se comparado ao orçamento secreto, Lula ainda jogou uma lição útil para os brasileiros: "O Congresso Nacional é o resultado da sua consciência política no dia das eleições". É preciso eleger deputados e senadores de esquerda, que governem com o povo, não com lobistas bilionários. 

Renata Vasconcellos gastou tempo demais com uma pergunta sobre a lista tríplice para escolher o procurador-geral, e Lula não quis se comprometer. Ela ainda insistiu que era um tema importante, pro desdém de milhões que assistiam à entrevista e esperavam perguntas como, por exemplo, o combate à fome e à miséria, assuntos em que Lula é craque.

À Renata também coube a ingrata tarefa de defender correndo o agronegócio, que tanto anuncia na Globo pra gente acreditar que o agro é pop (em vez da gente associar o agronegócio automaticamente com desmatamento, queimadas e agrotóxicos). Imagino que na entrevista de hoje com Simone Tebet haverá várias perguntas e respostas de louvor ao agronegócio. 

E a Globo continuou tentando criminalizar o MST, como toda a grande mídia faz há décadas. Lula convidou Renata a visitar uma cooperativa e constatar como o MST é o maior produtor de arroz orgânico do Brasil (e esse tema foi um dos campeões de buscas. Compare com o assunto mais procurado sobre a entrevista de Bolso: falta de ar). 

Ainda assim, uma das coisas que saltou aos olhos foi o carinho e respeito que Lula dedicou à Renata, sempre falando com ela, olhando nos olhos. Uma diferença gritante com o jeito que Bolso (e Ciro também, em menor escala) trata as mulheres, principalmente as jornalistas. As espectadoras notam isso, e muitas se recusam a reeleger um misógino de carteirinha como o pior presidente de todos os tempos.

A jornalista Leilane Neubarth escreveu no seu Twitter: “Poderia citar muitas diferenças, mas me chama atenção o respeito de Lula pela Renata. Ele o tempo todo coloca ela presente e participando da entrevista. Homem que respeita mulher é outra coisa”. Já a Janja, que chegou poderosa à emissora junto com Lula, fez uma graça na sua conta após a entrevista: "Desconfio que meu marido não vai querer jantar hoje. Já está satisfeito".

Lula repetiu que quer ser melhor que ele já foi, e olha que ele saiu com 87% de aprovação. Mas ele é realmente um exemplo: teria motivos de sobra pra guardar rancor e buscar vingança, depois de ter sido caluniado e passado 580 dias na prisão. E, no entanto, ele está mais Lulinha paz e amor do que nunca. Também teria motivos para, aos 76 anos, se aposentar e curtir a vida. Escolheu ser presidente pela terceira vez.

Sinceramente, se eu fosse a Simone Tebet, eu aproveitava o JN de hoje pra pedir desculpas pelo que ela e seu partido (MDB) fizeram com a Dilma, assumir que o fundamental agora é derrotar o fascismo, sair da disputa e apoiar o Lula já no primeiro turno. Claro, não vai acontecer. 

Mas a entrevista com o Lula foi tão incrível que parece que até o coração do Dom Pedro voltou a bater.

E pra gente, que ama e quer reconstruir o Brasil, se essa sabatina já no encheu de esperança e aqueceu nossos corações, imagina como a gente vai estar em outubro com Lula eleito! Imagina no dia 1o de janeiro, na posse! Seremos um novo Brasil! Vamos voltar a sorrir.