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Todos nós cometemos erros, diz a frase corrigida por liquid paper.(Este post eu escrevi muito antes do de ontem, em que eu ria de um comentário em inglês que um leitor do Estadão deixou diretamente pro Robin Williams. Algumas leitoras acharam que eu estava sendo preconceituosa com os brasileiros que não sabem inglês. Expliquei que não, que o que me fez rir foi a tradução atrapalhada do Babel Fish e o
fato de um brasileiro que aparentemente não domina o inglês escrever nessa língua num jornal brasileiro. Bom, espero que este texto esclareça um pouquinho minha posição sobre brasileiros que não falam inglês e sobre preconceitos linguísticos em geral).
Eu tava lendo um post do Bruno sobre quando saiu o resultado do país escolhido pra Olimpíada de 2016. Ele diz que estava no aeroporto de Brasília, e que todo mundo parou, emocionado, pra ver uma declaração do Lula. Lá pelas tantas, Lula disse “esses país”, e um dos espectadores sacaneou o presidente e se pôs a corrigi-lo.É de uma estup
idez sem tamanho fazer algo assim, né não? Independente de quem cometa o erro. No caso do Lula, como fica difícil pros críticos falarem mal de um governo que tantos benefícios trouxe pro país, eles se centram no português do cara. É uma lembrança de sua origem social. É como chamá-lo de analfabeto. É tentar colocá-lo no seu devido lugar. Eu vejo gente usando essa estratégia falida na internet. Ao invés de discutir ideias, tentam desqualificar o que a pessoa está dizendo através de um eventual erro de português. É mesquinho. É preconceito linguístico, como apontou Marco Bagno. (E, antes que alguém fale alguma coisa das minhas colunas sobre as buscas do Google, eu explico: é diferente zoar de um anônimo. E, na maior parte das vezes, eu faço troça de como o Google foi trazer essa busca pra cá, não dos erros de português da pessoa. Sem falar que é uma coluninha de humor).
Acho que todo mundo que fala comete erros. Todo mundo. E falar em público, então, faz com que a gente fique nervosa e cometa mais erros ainda. O maridão sempre acha graça quando criticam o português do Lula, porque ele lembra que o FHC cometia mil e um erros, e ninguém falava nada. Mas isso é realmente importante?Fui professora de inglês durante uns dez anos. E, pra tentar ser boa professora, estudei um pouco. Uma das coisas mais importantes que aprendi foi sobre como e quando corrigir erros de inglês dos alunos. O que os especialistas explicam é que há uma diferença enorme entre um mistake (erro) e um slip (deslize). Por exemplo, se um aluno diz “We is” ao invés de “We are”, é absolutamente inútil um professor interrompê-lo pra dizer “Olha, é We are, viu?”. Porque o aluno tá ca
nsado de saber que é We are e conhece a conjugação do verb to be desde a primeira série. Então cortar seu fluxo de pensamento só atrapalha, além de mostrar que você tá mais interessado em como ele diz alguma coisa do que no quê ele está dizendo. Na vida real, se você for aos EUA (ou à Inglaterra, ou à Austrália), será raríssimo ser corrigido por um native speaker. Eu posso contar nos dedos de uma mão quantas vezes o maridão foi corrigido por um americano durante o ano em que vivemos em Detroit. O que acontecia às vezes é que eles pediam mais esclarecimentos. Eles não entendiam algo e gentilmente pediam pro maridão explicar melhor. Os especialistas consideram grave o erro que interrompe a comunicação ou que gera dúvidas. Assim, se um aluno de inglês está falando de um casal, e de repen
te ele usa He pra se referir à mulher, esse é um erro grave, porque não vamos saber de quem ele tá falando. Mas o We is? For God's sake, né?Eu sempre falava com os alunos sobre correções no início do semestre. Porque todos querem ser corrigidos o tempo todo! Eles acham que é assim que se aprende e que o professor é fraco se não corrige. Aluno fica muito incomodado ao ouvir um erro e o professor não corrigir. Então eu sempre dizia: olha, people, eu sou professora, e pra mim seria a coisa mais fácil do mundo corrigir vocês o tempo todo. Porque professor tem antena ligada e sempre capta erro de aluno. Mas simplesmente corrigir não ajuda. Estudos mostram que as formas mais eficientes de correção são, pela or
dem: self correction (quando você mesmo percebe que errou), peer correction (quando um colega te corrige), e, por último, teacher correction. Portanto, um professor que corrige o tempo todo é no fundo um preguiçoso. É automático pra gente. Difícil é decidir como e quando corrigir. Em geral, os alunos gostavam de ouvir isso. Sempre tinha um ou outro que pedia pra ser corrigido o tempo todo de qualquer jeito. Geralmente eram aqueles tão obcecados em falar tudo certinho que não conseguiam melhorar a fluência. Eles eram accurate, precisos, não fluentes. E pergunta prum professor de idiomas quem ele prefere, um aluno que se arrisca e fala pelos cotovelos, mesmo com erros, ou um que comete pouquíssimos erros, mas que pensa três horas antes de pronunciar cada frase? Quem será mais bem sucedido no uso da língua?
Pessoalmente, não conheço nenhum outro orador como o Lula. Eu já estive em vários comícios, já o vi falar ao vivo muitas vezes. E ele é simplesmente brilhante, do tipo que levanta multidões. Multidões compostas de pessoas que também cometem erros. E que nem por isso deixam de se comunicar.
Muito medo nessas horas.Vocês já devem ter visto o trailer no cinema de um dos grandes fenômenos de 2009, o terror Atividad
e Paranormal, que custou a merreca de 15 mil dólares e já rendeu mais de cem milhões só nos EUA, destronando Jogos Mortais Perdi a Conta bem no mês de halloween. E o trailer, que mostra a reação de uma plateia de exibição-teste, me parece totalmente verdadeiro. Na sessão em que estive o pessoal também se comportou assim. Se tivessem colocado uma câmera na minha frente veriam o espetáculo degradante de uma Lolinha pulando da cadeira, gemendo, respirando com dificuldade, e estrangulando o braço do maridão, que se fazia de durão. Eu digo "degradante" porque vocês estão cansados de saber que sou acima de tudo uma cínica. Uma cética. Não acredito em nada dessas coisas ― espíritos, demônios, fantasminhas, anjos, comigo não, violão. Por outro lado, produções de terror bem feitos sempre me pegam. Eu entro no clima mesmo.
Na realidade, o filme foi feito em 2007, com dois atores totalmente desconhecidos (e não lindos no padrão Hollywood!) recrutados através do Craigslist, e por um diretor (Oren Peli) que nunca havia dirigido nada ou feito escola de cinema. As filmagens duraram uma semana. Depois Atividade entrou na rota de festivais específicos, foi oferecido a e recusado por vários exibidores, até cair
nas mãos do Spielberg. Só que a ideia do mestre era refilmar o troço com um orçamento maior. Peli insistiu para que o original fosse exibido para uma sessão teste só pra ver como seria a reação. Quando os produtores viram os epectadores deixando a sessão no meio por puro medo, decidiram lançá-lo daquele jeito mesmo. E, através do boca a boca, o filme foi ganhando seu espaço (é muito eficiente o recado no final do trailer, instigando o público a pedir que Atividade passe na sua cidade). Ah, adoro essas histórias de sucesso! Interessante como o trailer passa uma impressão errada da dinâmica dos personagens. Nele, vemos a pobre Ka
tie insegura, se borrando de medo, enquanto seu namorado, Micah, aparece em controle da situação. O longa-metragem não é assim! A história é a mais simples possível: o jovem casal de namorados mora junto numa casona na Califórnia (ela é estudante de Letras; ele, corretor da bolsa que deve ganhar bem pra chuchu, porque a casa tem piscina e quartos de hóspedes). Katie recebe visitas de espíritos desde que tinha oito anos, tadinha. Micah não a leva muito a sér
io, mas compra uma câmera pra filmar os acontecimentos. Um dos méritos de Atividade é que pouco acontece ― portas se mexem, luzes se acendem e apagam, e o negócio vai piorando num crescendo (pegadas, coisas embaixo dos lençóis, mordidas). Como clima é a alma de um filme de terror, o negócio funciona. Outro mérito é que, graças a deus, não somos brindados com câmeras de mão histéricas à la Bruxa de Blair e Cloverfield. Aqui a câmera fica num tripé em frente à cama do casal na maior parte do tempo. E out
ra coisa positiva: não há sustinhos fáceis, daqueles barulhentos que fazem pular mas não acrescentam nada, como no fraquérrimo O Grito. Atividade não tem trilha sonora ou barulhos desnecessários. E seus personagens se comportam como pessoas bastante normais, não como dois bobalhões que ficam pregando sustos um no outro até que um Jason apareça pra por ordem na casa.Mas não pude evitar de pensar em várias coisinhas não-relacionadas. Primeiro, nessas horas deve ser fantást
ico morar numa quitinete minúscula como a que alugávamos em Detroit. Quanto menos espaço pra espíritos demoníacos ocuparem, melhor. Segundo, ter bichinhos de estimação numa situação dessas é bom ou mau? (Não estou pensando nos bichinhos: pra eles deve ser péssimo, ponto). Penso nisso desde Os Outros. Tem o lado bom de você sempre poder achar que quem tá fazendo barulho no outro cômodo é o seu gatinho, ou do cãozinho fazer xixi no espírito pra marcar território. O la
do mau é aquilo não acabar bem pro bichinho. O maridão reclamou que o casal não acende as luzes quando algo suspeito ocorre, mas acho que tudo é bem iluminado. Só concordo com minha alma gêmea sobre a improvável dificuldade de encontrar um médium especialista que possa ajudá-los. Como disse o meu amor, “Até na época do Exorcista era fácil achar um exorcista. E olha que não tinha internet, celular...”. Ah, eu odiaria estar numa s
ituação dessas do casal do filme com o maridão. Ele não acreditaria em nada que eu dissesse e discutiria o tempo todo. Ainda bem que um espírito demoníaco resolveria logo o seu destino, ha ha ha (risadinha possuída). Agora com licença que vou ter sérios pesadelos.
P.S.: Devo admitir que na noite de sexta, após ver o filme (e escrever esta crônic
a), eu dormi mal pacas. Minto: eu nem dormi. Isso que é pavor. Imagine se eu acreditasse nessas coisas.
P.S.2: Comentei com o maridão, que dormiu como uma pedra, sobre a minha noite insone, e ele não perdeu a oportunidade de me criticar: "Eu sonhei que alguém desligou a TV, ligou o ventilador na minha cara, e jogou um lençol em cima de mim. Um espírito maligno!".P.S.3: Na noite seguinte (a de sábado), dormi com uma gata preta nas minh
as pernas e o medo se foi. Acho que gatos, independente da cor, têm o dom de negociar com espíritos. Como disse minha mãe, "Como assim, você não acredita em paranormalidade?! Gatos são paranormais!".
- Na minha mocidade, eu preferia poeira à rachadura!A est
a altura todo mundo já sabe da piadinha de mau gosto que o Robin Williams fez sobre o Rio no programa do David Letterman. Ele disse pra Oprah e Michelle Obama não ficarem chateadas por Chicago não ter sido escolhido para sediar as Olimpíadas de 2016. Afinal, não foi uma competição justa: enquanto Chicago levou a Copenhague Oprah e Michelle, o Rio levou meio quilo de pó e cinquenta strippers. Ha ha. De repente foi até um elogio, visto que o ator e comediante já foi viciado em cocaína.
Bom, não creio que o governo deva pedir esclarecimentos ou nada do tipo. É só ignorar. Tampouco concordo com a claque que diz “É só uma piada!”. São os mesmos que gritam “é só um comercial”, “é só um filme” etc, impedindo que se analise qualquer coisa. Eles podiam só dizer “é só a manutenção do status quo” ou “é só o velho preconceito de sempre”, que daria na mesma. Mas, enfim, eu não ia dar um só pio sobre o assunto (que não é muito relevante)... até ver os comentários dos leitores do Estadão. Ah, os leitores do Estadão!... Suas pérolas de sabedoria são mais engraçadas que cem Robin Williams clonados juntos.Lógico que a m
aior parte desses leitores concorda inteiramente com o ator e começa seu comentário com “A verdade dói!”. E aí põe-se a falar mal do governo, do Rio, e do Brasil. Como de costume. São esses brasileiros que gostam tanto do Brasil. Mas o que me fez gargalhar alto foi o comentário de um dos poucos chateados com o Robin. Um que imagina que o ator lê o Estadão. Logo, o incauto leitor decidiu mandar um recado pro ator em inglês. Aparentemente, sem saber inglês muito bem. Não sei se ele usou um tradutor automático da internet, desses que traduzem “I'm your number one fan” por “Sou seu ventilador número um”. Mas taí. Tentem fazer o caminho inverso e descobrir o que o leitor quis dizer em português: “Mr. Robin Williams.I'm disappointed. Once I had that as one of the most beloved actors. Comment asshole. Are ostracized? Are old? Gaga perhaps? I never thought I would hear of your mouth that comparison. Besides, who are the largest consumers of "dust", crack, and ecstasy of the planet? For it is Mr. Williams, your country and we know that these cocktails do not come from BRAZIL. We have beautiful women, yes we have. Those who may not even the film industry, with millions of special effects succeed, never produce. And we live in throughout the country, while you, poor, are content to go to a program for comment, with wretched words and bizarre comparisons of why we lost the Olympics to Rio Know that everything is fleeting. Until such a program OPRAH. You then ... At your death, will play "POWDER" AMERICAN in your coffin”.
Os highlights pra mim são “comment asshole” (imagino que o leitor queria dizer “comentário babaca”), “dust” (poeira) ao invés de pó, e “poor” soltinho assim, pra pobre. Gosto também dessas frases: “Know that everything is fleeting. Until such a program OPRAH. You then”, que só podem ser (chutando): “Saiba que tudo é passageiro. Até um programa desses, Oprah. Até você”. Mas essa sentença continua uma incógnita pra mim: “Those who may not even the film industry, with millions of special effects succeed, never produce”. Minha criatividade limitada não permit
e interpretá-la.Não sei, talvez o leitor não tenha pensado originalmente em português e daí usado o Babel Fish pra traduzir pro português. Porque o Babel Fish começa com “Sr. Pisco de peito vermelho Williams”. E crack vira rachadura. Ah, vocês não ficam felizes em saber que nossos empregos como tradutoras-intérpretes estão garantidos até o final do século? UPDATE: Perguntei pro meu querido blogueiro americano do That's Right Nate o que ele achava da piadinha do Robin Williams. Ele nem estava por dentro, e respondeu: “Eu honestamente não sabia que Robin Williams ainda era convidado a participar de shows que as pessoas assistem”. Mas prometeu investigar.
Como mencion
ei Um Grande Garoto no post anterior, melhor colocar logo o trecho a que me referia. É do romance About a Boy de Nick Hornby, que virou um filme fofo com o Hugh Grant. A tradução pobre é minha, mas, se vocês procurarem na Submarino clicando aí do lado (vamulá, gente! Sabem quanto vendi até agora? Zero vírgula zero!), certamente vão encontrar uma versão em português decente (putz, pior é que só encontrei o livro à venda em inglês). Will às vezes pensava — não com muita frequência, porque especulação histórica não era algo que ele fazia com muita frequência — como pessoas como ele teriam sobrevivido sessenta anos atrás. (“Pessoas como ele” era, ele sabia, algo como um grupo especial; na realidade, não poderia ter havido alguém como ele se
ssenta anos atrás, porque sessenta anos atrás nenhum adulto teria um pai que ganhava dinheiro daquela forma. Então quando ele pensava em pessoas como ele, ele não queria dizer pessoas exatamente como ele, apenas pessoas que não faziam nada o dia todo, e não queriam fazer muito). Sessenta anos atrás, todas as coisas das quais Will dependia para passar o dia simplesmente não existiam: não havia TV no horário diurno, não havia vídeos, não havia revistas lustrosas e portanto não havia testes, e, mesmo que provavelmente houvesse lojas de discos, o tipo de música que ele ouvia ainda não havia sido inventado. (No momento ele estava ouvindo Nirvana e Snoop Doggy Dog, e você não podia ter encontrado algo que soasse como eles em 1933). Sobrariam os livros. Livros! Ele teria que arranjar um trabalho, quase certo, porque ficaria louco de
outra forma.
Agora, no entanto, era fácil. Havia quase coisas demais pra fazer. Você não tinha mais que ter vida própria: você podia só olhar por sobre a cerca para a vida de outras pessoas. [...] O Will de vinte anos teria ficado surpreso e talvez desapontado ao saber que ele chegaria à idade dos trinta e seis sem encontrar uma vida para si próprio, mas o Will de trinta e seis anos não estava particularmente infeliz a respeito; havia menos bagunça desse jeito. Voltei! O romance do Hornby foi publicado em 1998 e, em alguns pontos, está datado (vídeos? E note que ele nem menciona a internet!), mas se passa num período es
pecífico: em 1993, próximo do suicídio de Kurt Cobain. Isso não tem muita importância na trama. Mas gosto muito do trecho, e sempre o usei nas aulas de inglês, porque o vocabulário é simples e o tema rende um bom debate. Como vocês podem ver, Will é um cara de 36 anos (não sei se tão lindo quanto o Hugh Grant) que vive sozinho, não trabalha (vive de renda; seu pai compôs uma música que fez sucesso), e é vazio e fútil. Ele não é de maneira alguma um herói. Liv
ro e filme, na verdade, falam do relacionamento dele com um menino pré-adolescente. Um relacionamento que, convenhamos, seria impensável hoje: um menino passar horas sozinho na casa de um aduto com quem não tem parentesco? Com todo o medo que se tem da pedofilia? (como insinua uma personagem em Towelhead, é suspeito um adulto fazer amizade com uma criança). Mas Will divide seu dia em unidades de tempo, e arranja meios de “gastar” e
ssas unidades. Ver um filme gasta duas horas, ler uma revista, uma hora, preparar e comer uma refeição, uma hora, e por aí vai. Hoje ele estaria nas nuvens com a internet, que permite que se gaste um dia inteiro sem reparar. Eu até me identifico um tiquinho com o Will porque, bem no ano em que se passa a história, eu vivia em SP e tinha um trabalho que durou poucos meses como assessora de imprensa num sindicato (pra você ver como me envolvi no emprego, juro por tudo que é sagrado que não me lembro o quê/quem o sindicato representava! Só que ele era do tipo em cim
a do muro. Os dirigentes nunca eram contra ou a favor de alguma coisa, muito pelo contrário. Não era fácil assessorá-los: eles nunca tinham nada de relevante pra dizer, porque não queriam se comprometer). Eu era novinha e preguiçosa e ficava a tarde toda trancada num escri. E eu devia estar passando por algum tipo de crise, porque ao invés de levar livros pra ler durante aquelas longas horas sem fazer absolutamente nada, eu descobri num armário do escri uma coleção da Fórum. Sabe aquela revistinha erótica da Penthouse (acho) com relatos sexuais dos leitores? Uma que continha as palavras “membro entumecido” em todos os relatos? Essa aí. Devo ter lido a coleção inteira por puro tédio. Hoje a internet proporcionaria esquemas pra matar tempo infinitamente superiores, óbvio. Mas é pra isso que serve um emprego? Não só pra receber salário, mas també
m pra manter as pessoas ocupadas? Inclusive, seria pra isso que serve a internet? Pra nos entreter enquanto gastamos nossas unidades de tempo? Vemos os Big Brothers e demais reality shows para podermos assistir à vida dos outros, ao invés de ter que pensar na nossa, como faz Will? Ficaríamos loucos sem ter o que fazer? (não preciso nem dizer o quanto esta é uma discussão burguesa, visto que a maior parte da população mundial não pode nem sonhar em não ter que trabalhar. Mas discutam, please!).
No final de 2008, descobri um blog americano que me serviu de inspiração por um tempinho. Inspiração para poupar dinheiro, bem entendido. O blog é pra quem quer se aposentar jovem, ou seja, bem antes dos 60 ou 70 anos com que as pessoas normalmente se aposen
tam (se é que conseguem fazer isso). É criação de Jacob, um dinamarquês de seus trinta e poucos anos que vive na Califórnia (não é esse da imagem!). Jacob tem doutorado, mas já parou de trabalhar. Agora só trabalha como free lance, e só pra fazer o que realmente quer. É o que se chama de ser financeiramente independente, não depender de trabalho pra viver. Seu segredo não é ter ficado rico. Certo, ele guardou uma boa grana (mais de 80% do que ganhava por mês) durante os anos em
que foi assalariado. Mas a possibilidade de se aposentar tão cedo é mesmo ele gastar tão pouco. Jacob gasta menos de 7 mil dólares por ano para todas as suas despesas. Isso dá 580 dólares por mês (esqueça que é dólares e pense em reais, porque é quase a mesma coisa. O que vale um dólar lá geralmente vale um real aqui). Como que ele faz? Ele não tem carro, anda de bicicleta apenas, nunca come fora, aliás, só faz uma refeição por dia, mora num trailer, nunca vai ao cinema nem nada. Ele é casado, mas calcula seus gastos separados dos da esposa (que não é tão miserável quanto ele). Eu gostei mesmo de um dos seus lemas, “Pare de gastar dinheiro”. No fundo,
no fundo, a gente só precisa gastar pra comer e pra ter um teto pra dormir. Suas dicas são pra jogar fora a TV, porque só isso já te dá quatro horas a mais por dia. É verdade. Mas eu tenho usado cada vez menos tempo pra ver TV e cada vez mais pro computador. E nem pensar que vou jogar o meu laptop fora. Com esse tempo extra, aprenda a fazer as coisas. Arrumar o seu próprio telhado, ou desentupir seu banheiro. E ele faz a provocante pergunta: quantos banheiros a gente realmente precisa? Pois é, faz dezesseis anos que eu e o maridão vivemos com um. Às vezes o segundo faz falta. Lá em Detroit era um também e, como muitas vezes saímos de casa no mesmo ho
rário, um tinha que acordar antes do outro pra tomar banho. Mas não é algo de vida ou morte. As casas que a gente tá começando a ver em Fortaleza tem três suítes, o que soa beeem desnecessário.Outra coisa, que eu estou cada vez mais radical a respeito, é ter o mínimo possível de coisas. Quantos pares de sapatos eu preciso? Dois dá, e mais um par de chinelos? Quantas blusas e calças? Quantos sutiãs? Pra calcinhas, sete já não seriam suficientes – uma pra cada dia? Tá, oito, se a gente ficou com preguiça de lavar roupa naquela semana? A gente acumula muita coisa inútil. Não dá pra falar com o maridão sobre isso, porque ele fica histérico. Sério, histérico mesmo. Tem um termo pra isso em inglês, anal retentive. É parecido
com o nosso bolo fecal isso de ter medo de jogar coisas fora. Agora tô lembrando de um diálogo entre o Woody Allen e a Diane Keaton em Noivo Nervoso, Noiva Neurótica. O Woody diz: “Não posso ver um filme que já começou porque sou anal”. E ela: “Esse é um termo educado pra descrever o que você é”. Meu problema é com os livros. Tenho muitos, e desses eu raramente me desprendo. Nisso a regra do “se você não usou tal coisa por mais de dois anos, livre-se dela” não funciona. Mas o problema é que não tenho bibliotecas boas por perto. A maior parte dos meus livros é em inglês, e eu moro no Brasil. Quando (se?) todos os livros estiverem disponíveis na internet e bolarem um jeito legal de ler textos da internet sem a tela do computador, ter todos esses livros não será essenci
al.Mas realmente, é necessário ter tanto que a gente tem? Chega uma hora em que pagamos pra simplesmente manter o padrão que temos, e esse padrão nem é tão alto assim. É preciso sacrifícios. Se ter um home theater é importante pra você, você terá que seguir trabalhando pra comprar e manter esse equipamento. Porque não é só o home theater em si, é o gasto a mais com eletricidade, a manutenção dos aparelhos... Eu não poderia ter um na minha casa. Nossa TV de 29 polegadas já é meio grande demais pro quarto. Precisaríamos ter uma casa maior pra ter uma TV maior.
Mas, voltando ao Jacob, ele comprou uma espécie de trailer, um mini-ônibus com cozinha, banheiro e quarto. Nos EUA é possível viver num desses, e muitos aposentados velhinhos e conservadores fazem isso, só que com trailers mais caros e luxuosos. O maior problema é onde estacionar, e eles geralmente param no Wal-Mart. Vi um documentário inteiro sobre isso ― muito chato, por sinal. Mas, enfim, o que o casal jovem quer é diferente. Primeiro que eles não pretendem viajar, e sim deixar o trailer estacionado. É pra não gastar em aluguel, que na Califórnia custa uns 1,400 por mês. No Brasil seria impossível viver assim, num tailer. Não apenas as es
tradas são ruins, como assaltos seriam um problema. Lá nos States não há esses dois percalços.E vale frisar que Jacob é louco. Por exemplo, ele come apenas uma refeição por dia (sem variar o cardápio), o que não é aconselhável de jeito nenhum. Ele reutiliza desodorante usado. Ele é obcecado pela forma física. Ele é homem, e em vários posts já provou que não consegue ver além do seu privilégio masculino. Essas coisas. Mas, em outros sentidos, nesses de gastar pouco, eu me sinto praticamente sua alma gêmea. Tenho que concordar com ele: “Liberdade financeira é a maior forma de liberdade numa sociedade capitalista”. A ideia é buscar alternativas de como se viver. Porque pra viver do jeito tradicional é fácil: é só seguir imitando os outros. Este post do Jacob é ótimo. Fala sobre como é viver nos EUA (e no Brasil, pra classe média), e como ninguém precisa trabalhar pra pagar uma dívida a vida toda.
Pra muita gente, trabalho é uma maneira de manter a sanidade mental. É não ter que se preocupar com o que fazer com tanto tempo livre. Como o protagonista de Um Grande Garoto sente que precisa fazer pra ocupar o seu tempo. O trabalho compulsório pode nos impedir de pensar no que realmente queremos da vida.