quinta-feira, 8 de outubro de 2009

“TÁ PENSANDO QUE MÉDICO CAI DO CÉU?”

Um leitor querido, cansado dos posts sobre Polanski, sugeriu que eu comentasse essa notícia aqui, que saiu anteontem no Globo. Então vamos nós. Eu até já tinha ouvido falar do caso. No final de setembro, uma auxiliar administrativa, Sandra, desapareceu durante cinco dias. Sua família estava desesperada. Seu carro e sua bolsa foram encontrados perto da estação de metrô da Sé, em SP (aliás, já fui assaltada lá, por um grupo de trombadinhas dopados que me ameaçaram com estiletes e ficaram com o meu relógio chinfrim. Um mar de gente passou e viu, ninguém fez nada. Não tenho saudades dos 16 anos que vivi em SP), onde Sandra foi vista pela última vez, falando com um homem. Ela felizmente reapareceu, está bem, e decidiu contar sua história de “amor bandido”. A trama é cheia de detalhes e reviravoltas e deve ser lida com desconfiança, porque sabe-se lá como a mídia está resumindo o que Sandra relatou. O carinha que ela encontrou no metrô, que se identificou como Juan, inventou que era médico, depois assaltante de banco, depois advogado. E disse que sua ex-mulher tinha bloqueado o seu cartão. Ele precisava urgentemente de dinheiro... e escolheu a mulher errada, pelo jeito. Sandra tinha 50 reais no banco. Ela ainda vendeu seu celular pra pagar a diária num quarto de motel. Convenhamos, seu preju foi mínimo. Ah, se todas as nossas aventuras nos custassem apenas 50 reais e um celular...
Os comentários no site do Globo são variados. Muitos defendem a “pobre jovem senhora” (uma mulher de 39 anos?! Eu já tenho 42 e não gosto de ser chamada de senhora) na base do “atire a primeira pedra”. Outros a condenam por ter deixado a filha pra trás: “Como se abandona uma filha de 11 anos em nome de uma aventura? Ele poderia até ser ganhador de um Nobel e mesmo assim não valeria a pena!” (opa, por ganhador de Nobel fazemos qualquer negócio!). Há também o inevitável “Jesus te ama”, e os machistas de plantão, que escrevem recadinhos como “O bicho mais louco que existe é mesmo a mulher”. Ahn, tá. Um sujeito que mente pra ganhar 50 reais é totalmente são; o “bicho louco” é a mulher. Mas há também nos comentários uma linha de pensamento criticando Sandra por ser ingênua. Dentro desse estilo, as que eu mais gosto são “Você acha que um médico cai do céu?!” e “Até parece que um médico vai ficar paquerando no metrô”. Putz, pelo jeito médico tá mais bem cotado que Jesus e ganhador de Nobel. Juntos!
Já o que mais me chamou a atenção no depoimento de Sandra foi isso: “Dormi com ele como marido e mulher”. Nem sabia que as pessoas ainda falavam desse jeito hoje em dia! Isso é código pra “transamos adoidado”? Meu, dá pra ver que Sandra não é casada. Alguém a avise, por favor.
Bom, eu certamente não vou querer linchar Sandra, porque eu sou A Ingênua, aquela que acredita em todas essas coisas. Caio direitinho. Sabe email de expatriado nigeriano pedindo ajuda pra liberar os milhões retidos numa conta na Suíça? Tá, nessa eu nunca caí, mas quase. Quando eu e o maridão estávamos nos EUA, ele começou a dar aulas de xadrez e português, com muito sucesso. Talvez porque em Detroit haja poucos brasileiros, a procura até que foi grande. Big Husband dava dez horinhas de aula por semana na faculdade, perto de onde a gente morava, e conseguia seus 700 dólares por mês, que eram devidamente confiscados por mim praquele esbanjador não torrar tudo em... em... ahn... quer dizer... ah sim, em lunetas! Mas o que isso tem a ver? Voltando: pra anunciar suas aulas, o maridão colocava classificados grátis no Craigslist (que é excelente, e já chegou em algumas cidades do Brasil). E toda semana ele recebia emails de gente que vinha com esse papo: “Tenho um filho que mora com a mãe, mas ele vai passar as férias comigo e eu queria que ele fizesse aulas de xadrez. Passe-me o valor para vinte aulas, que quero pagar adiantado. Porém, peço a sua cooperação: como estou sem talão de cheques por aqui, gostaria que você me passasse os dados da sua conta para que eu possa depositar o dinheiro”. Etc etc. O maridão lia e desvendava na hora: “É golpe!”. Eu lia e falava: “Imagina, amor, as pessoas são boas e a vida é bela. O cara tá cheio das boas intenções, vamos responder. Só não passa o número da sua conta... ainda!”. A gente respondia e, lógico, nunca mais ouvia falar no golpista.
Eu sou um prato cheio pra esses tramoias. Só posso dizer: ainda bem que em Joinville não tem metrô.

23 comentários:

Somnia Carvalho disse...

hahaha... Lolinha saudade!

andei de visita da sogra e provas e ta ta ta.... bom voce se assutaria se dissesse que nos cursinhos onde dei aula por 8 anos os alunos chegavam no inciio do ano com uma ideia mais ou menos parecida sobre o que seja ser um medico.

80%, sem brincadeira, das salas queriam ser medicos ou medicas. E queriam passar na USp, claro...

dai dia vai dia vem eles iam percebendo - com minha ajuda craro - que ser medico não era o o do borogodo assim...

agora esses casos malucos que voces descobrem sao tao engracados! haha... vai ver a Sandra era alguem que sonhava em ser medica, pasando na usp, como meus alunos quando ela tinha 18 anos... dai ano veio e ano foi e ela ficou com a ideia libidinosa de que medico era tudo que ela queria mas nao podia ter... dai que ela pluft! caiu na tentacao quando encontrou - ou nao! - um no metro!

haha... no metro de sao paulo aparece de tudo! tudo! isso se a gente ainda nao comecar a falar dos trens de la!

hehe bom dia!

mudando o assunto:_

hoje fiquei meio depre... tem vezes que ao ver que algumas pessoas percebem a merda de mundo preconceituoso, autoritario e tal que vivemos eu fico com uma ponta de animo.. dai vem alguem e muitos alguens e so dizem merda... e ainda acham que a gente e que esta errado e atrasado... dai eu brocho... e ainda penso em voce Lolinha! haha

Masegui disse...

Ah, é mesmo! como ficou o caso da luneta? o CM trouxe? tá usando? (estou com preguiça de pesquisar no blog).

Quanto ao amor bandido: a moça estava entediada, carente, à perigo. O cara além de bandido safado é bom de conversa. Nasceram um para o outro!

Andrea Cristina disse...

Oi Lola, eu não sou tão ingênua assim pra maladros. Mas meu irmão já caiu em alguns trotes. Sabe aquele que te ligam do presídio (a cobrar - nem disso ele desconfiou) e te pedem para comprar não sei quantos produtos de tal marca e alguns cartões de celular para ganhar X prêmios. Pois é... o menino caiu... Eu e meus pais estávamos fora de casa e quando ele ligou para o pai dizendo que meu pai precisava comprar isso e aquilo num prazo X de tempo para ele ganhar um computador novo... Uhm... Levou tanta bronca tadinho... por ter atendido ligação a cobrar, e por ser tão ingênuo. E acho que nesse tempo ele já tinha seus 18-20 anos.

Mei disse...

ai, que boboca ela foi!!! Tenho dó.

Junior disse...

Obrigado pelo "leitor querido" Lola :)


Também acho que Sandra estava muito carente, e acabou ficando mais vulnerável a esse tipo de golpe. Também acho que ela teve sorte de não ter sido tão lesada quanto poderia ocorrer num caso desses.

Anônimo disse...

Oi, Lola... eu sei que o post sobre isso é logo abaixo, mas eu acho melhor postar aqui para ter certeza que você verá esse vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=7uknl0tgufU

Descrição:

"Vídeo denunciando a perseguição sistemática a caucasianos de todos os tipos, no Brasil e no Mundo. "

Boas risadas!
- Manu

Bruno Stern disse...

A impressão que fica da história é que o cara, quando percebeu que não tiraria nada da moça, resolveu curtir o fim de semana com ela.

Juntando o caso a um bom motivo para o cara estar fugindo/se escondendo daria um bom filme.

Fabiana disse...

Ah, eu sei que as pessoas ainda idealizam um médico. Meus alunos ainda me perguntam: "a senhora não trabalha, só dá aula?". E acham que professores ganham bem porque têm carro. Enfim, eu não duvido de nada...

L. Archilla disse...

Ai, na boa, posso parecer preconceituosa, mas... curtir uma aventura com 39 anos??? Essa mulher não teve adolescência?

Fora a irresponsabilidade de largar a filha e não dar notícias pra família, q devia estar preocupada!

Qto a ela ser ingênua, e o cara? Não passou pela cabeça dele q ela pudesse ser uma psicótica em surto e ter um canivete na bolsa?

No entanto, a vida é deles, o pobrema é deles e minha vida não é afetada em NADA com isso... :)

Ana Paula disse...

Concordo com a L. Archilla, não tanto pelo fato dela ter 39 anos pq existe sim, muitas pessoas ingênuas até mais velhas que ela, mas pelo fato dela largar filha e não se comunicar com a familia.

Meu irmão, que tem 33 anos, só pq é solteiro e mora sozinho, se achou no direito de ir passar 1 mes na Indonésia nos dando só isso de informação, que ia ficar um mes lá. Nào deu um telefone, um nome de hotel, roteiro de voos de qdo ia, qdo voltava, que cidades ia ficar. Aí acontece o terremoto e ele tava lá e a familia inteira desesperada, tentando entrar em contato com ele. Até amigas dele me acharam no orkut pra me pedir informação sobre ele. Aí finalmente ele me manda um email me chamando de irmazinha querida e agradecendo a preocupaçào. Da próxima vez que encontrar com ele, ele vai ver com qtos paus se faz uma "irmazinha querida"!!! E já falei que vou confiscar o passaporte dele e daqui pra frente ele só viaja depois que eu tiver todas as informações e roteiro da viagem.

E Fabiana, achei hilário a frase :"a senhora não trabalha, só dá aula?". Tipo, dar aula é lazer não é trabalho???

Bjo Lola

Silvana Nunes .'. disse...

Maravilha.
Excelente espaço para reflexão.
Certamente voltarei mais vezes.
Convido a conhecer FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... em http://www.silnunesprof.blogspot.com
Saudações Florestais !

Bípede Falante disse...

Lola, essa história está mal contada, a dela, não a sua, que você escreve para lá de bem. Sinceramente, ou ela é interditável, ou ela já tinha um lance com o subway doctor e, agora, por uma razão, está tentando se fazer de vítima, o papel favorito de quase todo mundo.

Samantha disse...

Ri tanto de "dormimos como marido e mulher" = "transamos a doidado". hahahaha

Eu ja fui abordada tantas vezes no metrô, por homens com cantadas e tal. Sempre dispensei e os mais insistentes eu inclusive começava a falar alto para q chamasse a atenção dos outros q o cara estava me incomodando. Não acredito nesses contos de fada "achei meu amor no metrô".

O paulistano passa mto tempo no metrô (e meios de transporte em geral). Deve ser por isso q essas conversas surgem e situações assim acontecem.

Alba Almeida disse...

Ola, Lola.

Será que a “jovem senhora” num sempre desejou viver uma grande e louca aventura???

Sabe Lola, eu tenho 4.4 e também num me considero senhora, agora... essa coisa de viver uma aventura, vou te contar dirijo desde os 11 anos, adoro!!!, ... confesso que entre outros, sempre desejei muito dá um “cavalo de pau”(assim que se chama quando você está em alta velocidade e puxa o freio de mão, para o carro rodar,..rsrsrsrsrssrsrs...) E minha querida, eu r e a l i z e i!!!!! Que coisa boa pra minha vida, certamente não voltarei a fazer, isso era uma das coisas que faltava da minha adolescência.
Acho que foi isso que a “jovem senhora” fez... de qualquer forma, que coisa bobinha ou louca, né???
Pô, até o cara!?!?!?... 5o contos... que falta de sucesso de ambos.
Beijos...

lucii disse...

teve gente que ficou revoltava, mas o que eu senti dessa mulher foi uma grande pena. li a reportagem em outro jornal em que ela detalhava bem como foi o encontro, o que ele dizia, as msgs no celular dela etc etc. e eu pensei que, para uma mulher abandonar uma filha, para uma mulher que estah perto dos 40 anos (uma idade em que as pessos costumam alcançar ou desenvolver a maturidade) sair loucamente atras de um homem que ela tinha acabado de conhecer, soh posso concluir ("pre-julgar") que ela eh uma pessoa muito solitaria, daquelas que realmente devem passar as tardes sonhando com o "homem dos seus sonhos". e pelo desenrolar da historia, acho que o homem dos sonhos dela nao era la essas coisas. espero que ela encontre alguem que valha a pena, seja advogado, medico, assaltante...

luci disse...

soh uma coisa, lola. eh INCRIVEL como essa coisa de ser medico é prestigiada! nossa! se eu dissesse la em casa que eu ia fazer faculdade pra medicina, acho que meus pais iam me colocar num altar. mas como eu me formei em historia... sou de vagabunda pra baixo. :)

Bruno disse...

hahaha... Adorei isto:“Dormi com ele como marido e mulher”. Nem sabia que as pessoas ainda falavam desse jeito hoje em dia! Isso é código pra “transamos adoidado”?" . Sensacional!

L. Archilla disse...

ai, Alba, não tem comparação dar cavalo de pau com o q ela fez, né? ;)

lola aronovich disse...

Oh my God, fui escrever um comentário mas ficou meio grandinho. Lá vai mais um post.


Mario, nem me fala: ontem gastei meia hora procurando no meu blog um post sobre a saga da luneta do maridão, e não encontrei nadinha. Será que foi algo que a gente só falou nos comentários?

Masegui disse...

Pô, Lolinha, cê tá parecendo minha patroa, respondendo minha pergunta com outra pergunta!

Acho que sim, o caso da luneta ficou apenas nos comentários. É provável que estejam num post referente à sua condição de "economicamente responsável", he he he!

Ainda aguardo notícias da luneta que quase causou um divórcio...

lola aronovich disse...

Mario, a luneta, como vc sabe, custou apenas 15 dólares e foi comprada numa farmácia americana. Não era pelo preço que eu era contra o maridão comprar a luneta, mas porque ele não iria usá-la. E tb porque ia ser difícil transportá-la pro Brasil. Mas, claro, o maridão ficou choramingando sobre comprar a luneta durante MESES, até que eu me cansei e disse: "Vai! Vai! Compra a luneta! Mas vc vai ter que arranjar outro motivo pra reclamar da sua vida depois!". Bom, como vc sabe, ele comprou a luneta, e foi um sufoco colocá-la na mala. Eu certamente tive que deixar alguma coisa pra trás pra que a maldita luneta coubesse na mala. E onde está a luneta agora? No quartinho. Acho que já foi usada, em um ano e meio, umas duas vezes. E por insistência da minha mãe! Teve um dia que teve eclipse lunar ou algo assim e eu disse: "Que bom que a luneta vai servir pra alguma coisa!". E o maridão nem queria usar a luneta... Agora pára de corporativismo de gênero e me diga, Mariozinho, se, mais uma vez, eu não estava certa.

Masegui disse...

Lolinha,

Senti uma certa ironia nesse "Mariozinho" (help, CM, help), mas...

Tá, eu não tenho a sua rapidez de raciocínio e nem seu poder de argumentação, but... give me some time e eu arranjo alguma coisa pra provar que "nós" estamos com a razão.

Teresa Silva disse...

Coincidência, vi ontem As noites de Cabíria em DVD. Felizmente o prejuízo da Sandra não foi grande como o da Cabíria.
Estranhei: por que ela não vendeu o carro pra dar dinheiro pro sujeito? Penso se foi por que ela manteve um tiquinho de lucidez e só deu ninharias que pudessem sustentar esse romance fora do comum.
Explicação em duas palavras: solidão e carência. Como dizem aqui no Rio, te fazem chamar urubu de meu louro.