Bora escrever sobre o 8 de janeiro antes de chegarmos ao segundo aniversário desse dia trágico que envergonha a história do Brasil, mas que não pode ser esquecido.
Segunda-feira marcou um ano da tentativa de golpe dos bolsonaristas, quando centenas de terroristas invadiram e destruíram instituições em Brasília. Vou começar citando as palavras de um especialista, o ministro da Justiça e da Segurança Pública em exercício,
Ricardo Cappelli. Ele teve um papel marcante no dia e nas semanas seguintes, pois foi nomeado por Lula interventor da segurança pública do Distrito Federal:
"O dia 8 de Janeiro não começou no dia 8 de Janeiro. Foram quatro anos do ex-presidente atacando as instituições, incitando a população contra as instituições, e essa situação se agravou após o resultado do segundo turno, quando foram montados aqueles acampamentos em frente aos quartéis-generais do Exército. Não há precedente na história do Brasil de acampamentos golpistas montados em frente aos quartéis-generais do Exército.
A gente não está falando de uma barraquinha, mas de cozinha industrial, de fileiras de banheiros químicos, verdadeiras cidades montadas em frente aos quartéis do Exército. Para quem ainda tem dúvidas sobre isso, eu sugiro que tente montar uma barraquinha em frente ao quartel-general do Exército agora para ver quantos minutos fica naquela área de segurança nacional.
Então, jamais aqueles acampamentos teriam sido montados sem que houvesse a conivência ou a permissão do comandante em chefe das Forças Armadas de então, que era o senhor Jair Bolsonaro.
O 8 de Janeiro é fruto de um processo de ataque às instituições, mas ele se agrava. A escalada começa no dia seguinte às eleições, com a montagem dos acampamentos. E todos os eventos que aconteceram em Brasília passam pelo acampamento. Ou eles são planejados no acampamento, ou começam no acampamento ou acabam no acampamento."
Pois é, falar dos bolsonaristas que acamparam em frente a quartéis por todo o país durante dois meses é essencial, já que mostra que houve muito planejamento e financiamento para tentar dar o golpe.
Em sua coluna na Folha de SP na sexta, Celso Rocha de Barros resumiu o que aconteceu:
"Em 8 de janeiro de 2023, os soldados rasos do bolsonarismo defecaram no STF, esfaquearam uma tela de Portinari, rasgaram exemplares da Constituição e vandalizaram as sedes dos três Poderes.
Fizeram tudo com a complacência da polícia do governador bolsonarista Ibaneis Rocha, cujo secretário de segurança pública era o ex-ministro da justiça de Bolsonaro, Anderson Torres.
O 8 de janeiro foi o clímax de dois meses de agitação golpista após a derrota de Bolsonaro. Bloqueios de estradas, acampamentos em frente a quartéis, conflitos de rua às vésperas da diplomação de Lula, uma tentativa de atentado terrorista na véspera de Natal, tudo isso tinha o mesmo objetivo do vandalismo na Praça dos Três Poderes: criar um clima de caos que servisse de pretexto para um golpe militar.
Quando os militares não apareceram, os soldados rasos foram presos.
Mas ainda falta prender muita gente.
Os vândalos do 8 de janeiro não eram cidadãos comuns em uma explosão de radicalismo: eram soldados rasos de um movimento político organizado com extensa e bem financiada rede de desinformação, bancada parlamentar própria e quartel-general no Palácio do Planalto."
Em seu excelente texto, Barros ainda cita um "intensivão do golpe", dirigido pelo senador Eduardo Girão (uma das maiores vergonhas do Ceará), realizado no Congresso em 30 de novembro de 2022. Os convidados pediam a "intervenção militar" (eufemismo para golpe militar), e um deles, o deputado José Medeiros (PL-MT), contou orgulhosamente que já havia entrado com pedido de GLO (Garantia da Lei e da Ordem, que convoca as Forças Armadas para reestabelecer a ordem). Colocar os tanques nas ruas seria o pontapé pra um golpe de Estado. Pra isso, valia qualquer coisa, como planejar um ato terrorista que poderia matar dezenas de pessoas no aeroporto de Brasília. George Washington de Souza, um dos que por muito pouco não explodiram um caminhão cheio de combustível no aeroporto semanas depois, estava presente no "intensivão".
No dia 8 de janeiro, a primeira-dama Janja foi a primeira a dizer "GLO não!" Ela imediatamente viu que Lula não poderia dar chances pros milicos. Lula e Janja estavam em Araraquara, SP (para se solidarizar com a população pelos estragos da chuva na região), com o prefeito Edinho (PT) quando o ministro da Defesa José Múcio ligou e contou o que estava ocorrendo em Brasília. Ele sugeriu que Lula baixasse um decreto de GLO. Ao ouvir isso (a ligação estava em viva-voz), Janja, inteligente que só ela, disse: "GLO não! GLO é golpe! É golpe!" De fato, era tudo que os golpistas queriam -- que o Exército entrasse na história, obviamente não para estabelecer qualquer ordem, mas para instalar um Estado de exceção, tirar Lula, fechar o Congresso e o STF, enforcar Alexandre de Moraes, e por aí vai. Não estou dizendo que, se não fosse Janja, Lula iria baixar o GLO. Só creio que temos que registrar os instintos políticos dessa mulher incrível.
E tudo tem que ficar registrado, pois Bolso e seus asseclas tentam criar sua própria narrativa. São extremamente contraditórios, lógico, mas o bom de ser de direita é que as teorias da conspiração não precisam fazer qualquer sentido. Eles falam que foi uma "armadilha da esquerda", que nunca que aqueles cidadãos de bem quebrariam alguma coisa, que era tudo petista infiltrado, que a invasão toda foi criada e executada pelo governo Lula para derrubar o governo Lula. É absurdo que tenhamos uma guerra de narrativas para algo que está tão óbvio e documentado. Os próprios golpistas bolsonarentos se filmaram destruindo tudo e colocaram as imagens em suas redes sociais. Bolso passou os quatro anos de seu desgoverno pregando o golpe. Ele já está inelegível por causa disso.
Uma pesquisa Quaest de agora revelou que 9 em cada 10 brasileiros reprovam a invasão dos prédios dos Três Poderes. 85% dos eleitores de Bolso são contra. Mas são contra porque mentem descaradamente, contra qualquer evidência e todas as provas, de que a tentativa de golpe não foi um ato convocado e comandado por Bolsonaro, mas por Lula.
Na segunda, Paulo Pimenta, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação, fez uma série de perguntas no Twitter: “Não existe dúvida de que essa organização criminosa que forjou a tentativa de golpe em 08 de janeiro tinha uma cadeia de comando vertical e hierárquica. Quem foi responsável por atacar a democracia, o TSE e o STF? Quem criou uma narrativa para desacreditar as urnas eletrônicas e o processo eleitoral? Quem se recusou a reconhecer o resultado da eleição e a dar posse ao vencedor? Quem impulsionou e possibilitou o financiamento de acampamentos golpistas e a chegada de criminosos em Brasília? Quem fugiu do Brasil e se refugiou nos EUA para assistir ao golpe bem confortavelmente? Responda essas perguntas e descubra quem é o cérebro dessa gangue que atacou a democracia e a Constituição Federal".
Também é fundamental chamar as coisas pelo nome. O 8 de Janeiro foi uma tentativa de golpe de Estado explícita. O doutor em Ciência Política Caio Barbosa ensina por que o dia infame foi sim (óbvio!) uma tentativa de golpe. É absurdo que isso precise ser explicado, mas os bolsonaristas dizem que não foi, porque tava cheio de velhinhos. E Ciro chamou de "vandalismo e depredação" (pra não usar a palavra golpe) e Aldo Rebelo, hoje venerado pela extrema-direita (esteve no último congresso do MBL, por exemplo), disse que chamar aquilo de golpe é "fantasia para legitimar a polarização". Segundo Caio, o golpe era o objetivo, como provam as chamadas nas redes ("tomada de poder"). Muitos dos manifestantes foram treinados (por quem? Quem custeou?) e estavam armados, mas o que eles queriam era forçar uma intervenção militar. Queriam o GLO, os tanques nas ruas, não para tirá-los dos prédios dos Três Poderes, mas para tirar Lula do poder e reinstalar Bolsonaro.
A vereadora Luna Zarattini (PT-SP) explica bem alguns acontecimentos de 8 de janeiro, como o bate-boca entre Flavio Dino e um general que não aceitava que os golpistas fossem presos
O secretário nacional de Políticas Digitais, João Brant, analisa que as plataformas de redes sociais e de aplicativos, as chamadas big techs, contribuíram para a tentativa de golpe e não fizeram nada para combater a difusão de mentiras contra a democracia desde então. Brant tem razão: "Não se explica a adesão ao 8 de janeiro sem três ondas de desinformação, entre 2021 e 2022, que sustentaram e disseminaram a ideia de uma eleição 'fraudada' aproveitando 'falhas de segurança' das urnas eletrônicas e de 'manipulação' do TSE".
Na segunda houve manifestações em várias cidades do país rechaçando a tentativa de golpe. Não houve celebrações dos golpistas. Lembram que os vereadores de Porto Alegre instituíram em julho do ano passado o 8 de janeiro como o Dia do Patriota, para comemorar o golpe? O STF depois revogou a lei, e o vereador bolsonarista autor dessa aberração foi cassado (não por isso, mas por abuso de poder econômico).
Num ato político intitulado Democracia Inabalada em Brasília na segunda, Lula discursou: "Todos aqueles que financiaram, planejaram e executaram a tentativa de golpe devem ser exemplarmente punidos. Não há perdão para quem atenta contra a democracia, contra seu país e contra o seu próprio povo. O perdão soaria como impunidade. E a impunidade, como salvo conduto para novos atos terroristas".
Até agora, a Suprema Corte condenou 30 pessoas por participação direta na tentativa do golpe. 150 acusados aguardam julgamento, e há 1.345 processos em aberto contra os participantes do ato. Porém, provando como a Justiça é lenta, nenhum dos peixes grandes foi punido. Eu ainda tenho fé que serão. Cada dia que Bolsonaro permanece solto é uma risada de escárnio na cara da democracia brasileira.