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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

60 ANOS DE LOLITA, UM LIVRO MARAVILHOSO E POLÊMICO

Em meados de setembro o romance Lolita marcou 60 anos de sua publicação. 
Apesar da trama (o relacionamento sem dúvida abusivo de um homem de quase 40 anos com uma menina de 12), eu amo o livro de Nabokov. Minha dissertação de mestrado, defendida há pouco mais de dez anos, foi sobre como a ironia do romance é transcrita para suas duas versões fílmicas (a de Kubrick em 1962 e a de Lyne em 1997). Não é sobre gênero. Você pode lê-la inteirinha aqui, em inglês
Paula Mesquita, repórter do site Lado M, me contatou para uma entrevista, que publico aqui, na íntegra. A matéria da Lado M está aqui.

- Na sua opinião, qual o valor e a importância do livro de Nabokov para a literatura e para a sociedade, de um modo geral?
Minha resposta: Lolita é uma obra-prima, um livro maravilhosamente escrito. Ele trata de um tema terrível, a pedofilia, mas reduzir o livro a este tema é absurdo. Lolita é narrado pelo pedófilo Humbert Humbert, um sujeito pedante e insano que constantemente fala conosco, leitores e "membros do júri", tentando justificar suas ações. Não convence ninguém. Ou melhor, convence muito pouca gente. 
James Mason, o Humbert de Kubrick
Uma das graças do livro é justamente esse contraste que existe entre o narrador, que se acha tão inteligente e equilibrado e que acredita que todos são inferiores a ele, e o personagem, um verme covarde. O narrador, por exemplo, pensa ser irresistível para todas as mulheres que cruzam o seu caminho. Mas o que vemos no dia a dia de Humbert são várias mulheres, principalmente Lolita, resistindo. Humbert é ridículo, e Lolita sabe disso.
A versão de Adrian Lyne
O incrível é que vários leitores interpretem o que Humbert diz como pérolas de sabedoria. Levá-lo a sério é levar o livro a sério, não como uma das obras mais irônicas já escritas. Respeitando Humbert -- algo que Lolita e Quilty definitivamente não fazem --, o leitor começa a dar importância ao que ele diz, como a definição que ele cria de "ninfetas", meninas demoníacas de até 14 anos que seduzem homens adultos. Este é um pedófilo falando. É óbvio que ele vai querer romantizar o que ele faz e culpar a vítima.

- Lolita é considerado um livro polêmico por tratar do relacionamento de um homem mais velho com uma menina. Por mais que a temática seja, portanto, pedofilia, há quem romantize, tratando-a como uma história de amor. Como você vê essa questão? Você acha que o fato do livro ser narrado do ponto de vista de Humbert influencie a perspectiva do leitor?
Sim, tem quem veja o livro como uma história de amor por causa do final. Humbert é um ser abjeto que passa o livro inteiro explorando Lolita. Ele se casa com Charlotte, uma mulher que ele detesta, só para poder ficar perto da sua filha de 12 anos. 
Ele pensa em dar pílulas para dormir para Lolita para poder abusar dela enquanto ela dorme. Ele dá pílulas para Charlotte, para que ela durma e não o incomode. Ele fantasia matá-la. Ele odeia meninas com mais de 15 anos, quando elas não são mais ninfetas. Ele pensa em engravidar Lolita, ter uma filha com ela para poder também estuprá-la, e largar Lolita quando ela já não for mais ninfeta. Ele paga Lolita por sexo e depois rouba seu dinheiro para que ela não possa fugir. Quer dizer... como esse cara pode ser herói pra alguém? Como pode ser levado a sério e visto como sábio? 
Mas, no fim, ao se reencontrar com Lolita (que fugiu dele), que já tem 17 anos e está grávida, ele implora para que ela largue o jovem marido e fique com ele. Ela recusa. E ele se arrepende do que fez com ela. Mas esse arrependimento é convincente? O narrador passa 300 páginas contando sobre como abusar de uma menina é um paraíso, tentando nos convencer como isso é normal e saudável, e no final há um parágrafo em que ele diz que não deveria ter removido Lolita daquele coro de crianças que ele ouve de longe. 300 páginas versus um parágrafo, e a gente se convence de que aquela foi uma trágica história de amor por causa de algumas linhas?
Se o livro fosse narrado por algum dos três outros personagens principais (Lolita, Charlotte ou Quilty), ele seria completamente diferente. Lolita certamente não descreveria o que viveu do jeito que Humbert descreve. Mesmo através da narração não confiável de Humbert, vemos Lolita chorando toda noite antes de dormir, vemos Lolita tentando fugir. Dificilmente Lolita seria um livro tão deliciosamente engraçado se fosse narrado por ela. É possível amar o livro sem amar Humbert. E mais ainda -- sem endossar a pedofilia.
Você lê Psicopata Americano, por exemplo, de Bret Easton Ellis, narrado por um milionário playboy que gosta de torturar e matar pessoas, principalmente mulheres e, a menos que você tenha sérios problemas, você não vê Patrick Bateman como um herói ou um modelo a ser imitado. Não sei como tanta gente interpreta Lolita como um convite à pedofilia, um embate entre puritanismo e liberdade. Puritanismo é não querer que meninas de 12 anos sejam exploradas sexualmente por homens adultos? De qual liberdade estamos falando? Liberdade para quem? 

- De que forma você vê o estereótipo da ninfeta, como a Lolita que Nabokov criou nos anos 1950, sendo perpetuado na sociedade nos dias de hoje? De onde você acredita que venha essa atração de homens mais velhos por mulheres jovens?
O estereótipo da ninfeta realmente pegou, o que pra mim é inacreditável, porque é toda uma sociedade se baseando nas opiniões de um narrador fictício, um pedófilo, e dando-lhe razão. O próprio Nabokov não ficou feliz com a popularização do termo ninfeta: “Fora do olhar maníaco do senhor Humbert não há ninfeta. Lolita, a ninfeta, só existe através da obsessão que destrói Humbert. Esse é um aspecto essencial de um livro singular que tem sido distorcido por uma popularidade artificial”.
Brooke Shields e Susan Sarandon em
Pretty Baby, 1978
Mas a popularidade do conceito de ninfeta já foi maior. No final da década de 1970 e até o começo dos anos 80 tivemos vários fotógrafos lançando livros com fotos eróticas de meninas de dez, treze anos. Tivemos filmes que, embora muito bons por outros motivos, seriam impensáveis hoje, como Menina Bonita, de Louis Malle, que mostrava uma Brooke Shields de 12 ou 13 anos nua, ou mesmo Lagoa Azul, Quando as Metralhadoras Cospem, e Taxi Driver, que erotizavam meninas. 
Natassja Kinski, aos 15 anos, foi um dos maiores símbolos sexuais da década de 80. Luciana Vendramini posou para a Playboy com 17 anos em 1987. Hoje isso não seria permitido. A pedofilia só passou a ser mais combatida nos anos 90, e aí a mentalidade mudou. Hoje continuam fazendo editoriais de moda com meninas púberes em poses sexuais, mas essas representações são muito criticadas.
A atração pela ninfeta, pela Lolita, ainda existe hoje, decerto, mas creio que é vista mais como perversão que como algo aceitável. Lembro de um episódio de A Sete Palmos em 2004 em que Nate, um dos protagonistas da série, conversa com um amigo de infância, que agora tem quase 40 anos e é pai de uma adolescente. E esse amigo lhe conta como sente-se atraído pelas amigas da filha, meninas de 13, 14 anos. Nate (e a série) tratam o sujeito como alguém deplorável, não um modelo a ser seguido. E é estranho que homens interpretem Humbert como um modelo.
Vejamos Beleza Americana, filme de 99 que dialoga muito com Lolita. O próprio nome do protagonista, Lester Durham, é um anagrama de "Humbert learns", Humbert aprende. Então Lester flerta com a ninfeta -- a irmã da filha, que na realidade não é uma ninfeta, e sim uma adolescente de 16 anos --, mas no final, ao saber que ela é virgem e que a imagem de adolescente experiência que ela tenta passar é só aparência (o tema do filme é como os EUA são um país hipócrita de aparências), não faz sexo com ela. E isso é visto como amadurecimento do seu personagem. 
Aya Kiguchi com 13 anos
Mas ainda segue firme na pornografia a ideia de transar com cheerleaders (mais velhas que ninfetas), e no Japão temos o fenômeno das Lolicons. Realmente não entendo essa fantasia tão masculina de querer fazer sexo com meninas. Pode ter a ver com um ideal de pureza, de querer ser o primeiro na vida de uma menina. O padrão de beleza da sociedade também é muito jovem. É aceitável que homens tenham parceiras muito mais jovens, mas não menores de idade, pelo menos hoje em dia na sociedade ocidental. 
E no entanto o tráfico de meninas e a prostituição infantil são frequentes, porque há uma clientela enorme pra isso. Não dá pra entender. Eu vejo um menino de 13 anos como ele é, um menino, não um potencial parceiro sexual. Só posso concluir que essa atração sexual de homens mais velhos por meninas é um sintoma de que algo vai mal no modelo da masculinidade.

quarta-feira, 23 de março de 2011

QUEM QUER LER MINHA TESE SOBRE IRONIA EM LOLITA?

Faz um tempão que estou pra escrever um (ou mais) post sobre a minha tese de mestrado, defendida em 2005. Gosto dela porque trata de temas queridos pra mim: cinema, literatura, Nabokov, Lolita, Kubrick, ironia, narração em off, essas coisas. Você pode lê-la na íntegra aqui, em inglês. Mas, pra que você possa se situar um pouquinho (e porque sei que não é todo mundo que tem tempo ou vontade de ler uma tese de cento e poucas páginas, por mais interessante que ela seja — e, sem falsa modéstia, minha tese ficou bem interessante), vou falar dela um tiquinho.
Então, a tese recebeu o título de “What have they done to Lolita? The transposition of irony from Nabokov's novel to Stanley Kubrick's and Adrian Lyne's film versions” (“O que fizeram com Lolita? A transposição de ironia do romance de Nabokov às versões fílmicas de Stanley Kubrick e Adrian Lyne”). Essa primeira parte do título é uma referência ao trailer do filme de 62, que perguntava algo parecido, “como fizeram um filme de Lolita?”.
O livro do Nabokov é hoje considerado um clássico indiscutível, mas, claro, nem sempre foi assim. Em 1955, quando o escritor russo tentou publicá-lo, foi recusado por várias editoras. Quando finalmente conseguiu, virou uma espécie de sucesso-escândalo, e foi censurado em muitos países. Eu só vim a lê-lo quando adulta, e fiquei imediatamente hipnotizada por ele. Nem tanto pelo tema, mas pelo estilo. Lolita é um dos romances mais lindamente escritos que já li. Nabokov é um exemplo pra qualquer um que pensa que jamais vai dominar uma língua estrangeira. O inglês (Lolita está escrito em inglês) não foi nem sua segunda língua, mas sua terceira, depois do russo e do francês. E, no entanto, são poucos os autores americanos, ingleses, canadenses, australianos, sul-africanos etc (qualquer autor de país que tenha inglês como língua nativa) que têm um inglês tão rico quanto o de Nabokov. Lolita é praticamente uma declaração de amor à língua inglesa.
Lamento dizer que Lolita é também dos romances mais divertidos que li. É chato atestar isso (faz com que eu pareça uma sádica insensível), porque o livro trata de mil e um assuntos trágicos, principalmente do abuso infantil. Pra quem não conhece a história, quem a narra é um professor de 38 anos chamado Humbert Humbert. Humbert é um pedófilo. Só se interessa sexualmente por meninas com menos de 12, 13 anos. Ele atribui sua predileção a uma paixão de infância, quando ele era um garoto e se apaixonou por Annabelle. Só que ele cresceu, e suas obsessões, as ninfetas (termo inventado por Nabokov), seguiram na mesma idade. Ele vai parar nos EUA, onde aluga um quarto numa casa. Lá mora Charlotte, uma mulher que ele considera vulgar, e que ele topa tolerar pra ficar perto de sua filha, Dolores, ou Lola, ou Lolita, uma menina de 12 anos. Ele fantasia colocar remédio pra dormir na bebida das duas, pra poder abusar de Lolita sem que ela perceba. E até se casa com Charlotte, pra ficar perto de seu objeto de desejo. Logo ele descobre que o plano de Charlotte é mandar Lolita pra um colégio interno. Charlotte lê o diário de Humbert e, entre enojada e revoltada (com justiça), sai de casa. Na rua, é atropelada e morre. Humbert aproveita para mentir para seus poucos conhecidos jurando que, na realidade, é o pai de Lolita. E vai buscá-la no acampamento de férias. Logo Humbert está transando com Lolita e viajando com ela pelos EUA, sem perceber que um outro pedófilo, Quilty, os segue.
Quer dizer, contando a história assim, é horrível, eu nem discuto. Mas não dá pra cruficificar um autor, um livro, um filme, pela sua trama. Na vida real, Nabokov não era um pedófilo. Sua obra-prima não serve pra validar toda uma cambada de estupradores. O pior que o livro fez foi criar termos como Lolita e ninfetas, usados para que homens adultos babem de desejo por meninas menores de idade — o que simplesmente deveria estar fora de cogitação pra qualquer pessoa consciente. Mas o incrível do livro não é tanto do que ele fala, mas como está narrado.
Seu narrador e protagonista, Humbert, é um monstro, não há dúvida. Não apenas por transar com uma menina, mas por pagar-lhe, de vez em quando, para que ela aceite transar com ele (e depois roubar-lhe o dinheiro), e por se aproveitar de que ela não tem lugar pra ir. E, pior, se é que pode ser pior, por pensar no que ele fará quando Lolita completar uma idade (lá pelos 15, 16 anos) que ele não acha mais desejável. Ele cogita até engravidar Lolita para que ela lhe dê uma filha que ele também poderá estuprar!
E como isso tudo é engraçado? Bom, pois é, é o jeito como está contado. Humbert se leva a sério, mas no fundo é um paspalhão. Em inúmeras passagens, Lolita soa mais esperta que ele — o que é estranho, já que a narração é todinha de Humbert. Ele se acha um poeta apaixonado, e justifica seu desejo por ninfetas citando outros loucos, como Edgar Allan Poe e Dante, que também tiveram suas Lolitas (mas Humbert omite que eles eram meninos quando se apaixonaram por suas meninas). Além disso, o livro começa com o (falso) testemunho de um psiquiatra, que decide publicar os diários de Humbert, morto num hospício. Em várias ocasiões, Humbert se refere a nós, seus leitores, como “senhoras e senhores do júri”, e tenta convercer-nos que o que ele fez foi por amor. O tom do romance, do início ao fim, é totalmente irônico. Lolita é frequentemente usado para ilustrar um modelo de ironia. Kubrick, tão gênio na sua área quanto Nabokov na dele, decidiu transformar Lolita em filme em 1962. Deu tudo errado. Hollywood ainda adotava a auto-censura imposta pelo Código Hayes, e Kubrick teve que reescrever o roteiro um monte de vezes. Foi obrigado a transformar Lolita numa garota de 15 anos (interpretada por Sue Lyon, que pode parecer mais velha), e a descartar qualquer trecho menos sutil. Sem falar que, em 62, Kubrick ainda não era o monstro sagrado que se tornou após fazer Doutor Fantástico, 2001, Laranja Mecânica, Iluminado e Nascido para Matar. Era o início de sua carreira, mesmo que ele já fosse respeitado por dirigir O Grande Golpe, Glória Feita de Sangue e Spartacus. Mas Kubrick admitiu depois que, se soubesse dos obstáculos que teria que enfrentar para fazer Lolita, não o teria feito.
Ainda assim, o Lolita de Kubrick é uma graça. James Mason emprega o toque de humor negro no seu Humbert, Sue está muito bem, e Shelley Winters rouba todas as cenas como Charlotte. Mas o meio que Kubrick escolheu para driblar a censura e contar a história foi dar mais destaque a Quilty, aqui interpretado por Peter Sellers, a lenda. O que concluo na minha tese é que, embora o Lolita de Kubrick não seja fiel ao livro no que se refere à trama, ele capta o espírito irônico do romance de Nabokov. É péssimo falar em fidelidade e espírito, porque a gente cai na tentação de crer que uma obra contem uma essência que deve ser seguida (e não de ser uma obra sujeita a interpretações múltiplas). Os estudiosos de cinema dizem que é errado insistir em fidelidade. Mas, ao mesmo tempo, continuam comparando filmes e livros e falando em fidelidade. Não é fácil escapar.
Em 1998, 26 anos depois de Kubrick, Adrian Lyne quis fazer o seu Lolita (veja o trailer). Lógico que Lyne nunca teve um décimo da reputação daquele que é elencado como o segundo diretor mais consagrado da história do cinema (geralmente atrás apenas de Hitchcock). Pelo contrário, Lyne é mais conhecido por sucessos comerciais (e polêmicos) como Flashdance, 9 ½ Semanas de Amor, Atração Fatal, e Proposta Indecente. Ele viu Lolita como sua chance de redenção, de fazer um filme de arte, que fosse levado a sério. Não conseguiu muito. E, tal como Kubrick, também teve problemas com a censura. Os anos 90 foram marcados pela luta contra a pornografia infantil. Clinton havia acabado de proibir que qualquer filme usasse uma criança numa relação sexual, mesmo que fosse um dublê. O Tambor (vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 79), por exemplo, mostra uma cena de sexo implícito entre duas crianças. E foi recolhido em algumas locadoras nos EUA nos anos 90. Por causa de toda essa atenção, que em casos como o do Tambor beiravam à histeria, Lyne penou até encontrar uma distribuidora. Lolita foi lançado nos EUA oito meses depois de passar na Europa, o que fez Lyne reclamar: “Se eu estivesse fazendo um filme sobre uma menina de 13 anos que é cortada em pedacinhos por um canibal, eu não teria problemas com a censura”.
O Lolita de Lyne é sério até a medula. Narrado em off por um Jeremy Irons atormentado (e arrependido pelo mal que causa a Lolita), com Melanie Griffith como Charlotte, Frank Langela (de Frost/Nixon) como Quilty, e Dominique Swain como Lolita (ela tinha a idade de Sue Lyon, mas parece mais nova, e Lyne a veste com trancinhas e aparelho nos dentes), o filme segue as mesmas palavras e ações do livro. A diferença, gritante, é o tom. O Lolita de Lyne não é irônico.
Adoro essa citação que peguei de uma revista eletrônica chamada Suck (minha tradução): “[no livro] cada perversão, cada abuso, cada dia que Humbert mantem Lolita prisioneira é visto como poesia de Keats. O livro nunca condena Humbert; ele o celebra. É o que se chama ironia, grande como um celeiro, e Lyne não entendeu isso de um modo tão gritante que a gente não sabe como um cara com tão pouca visão pode ser habilitado a dirigir um carro”.
Mas, pra falar de como o livro e o filme de Kubrick são irônicos, e como o filme de Lyne não é, antes preciso tratar de ironia. Num outro post, pois este já tá quase tão longo quanto a minha tese.
Leia aqui: 60 anos de Lolita, um livro maravilhoso sobre um tema terrível.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

PARA LER O PATO DONALD E ENTENDER A CRISE ATUAL

Lembro que fiquei tão impressionada com o documentário Maxed Out, que vi nos EUA uns três anos atrás, que até anotei alguns dados. Repare que isso tudo é de antes da crise que quebrou boa parte daquele país, principalmente a cidade onde morei por um ano, Detroit.
Os EUA deixaram de ser uma nação que produz coisas para virar uma que compra. As fábricas foram substituídas por shoppings. Dois terços da economia americana vem do consumo. As lojas americanas comportam todas as pessoas dos EUA, Europa e América do Sul dentro delas ao mesmo tempo. Americanos gastam uma hora por semana em atividades espirituais, e cinco em compras. A maioria das crianças até 8 anos não sabe diferenciar propaganda de entretenimento. Em alguns países é proibido anunciar para crianças com menos de 12 anos. Nos EUA gastam-se 15 bilhões de dólares por ano com propaganda pra elas.
Cada família deve, em média, sem contar hipotecas da casa, 18 mil dólares (entre dívidas de cartão e pagamento de carro). Junte a isso a hipoteca, e a dívida total da população é de 7 trilhões de dólares. Uma pessoa de 20 anos deve, em média, 10 mil dólares.
Os bancos gastaram US$ 154 milhões em lobby pra aprovar uma lei que restringe a falência. Bush a sancionou, e todos começaram a lucrar mais, num meio que permitia que bancos tivessem 54% de lucro. Dois meses depois da lei ser aprovada, veio o furacão Katrina, que devastou Nova Orleans. A lei dizia que pessoas não podiam declarar falência por causa de enchentes e outros desastres “naturais”. Precisa continuar?
Opa, um adendo. Talvez eu deva explicar o título do post? Pode ser que vocês sejam novinh@s demais e não conheçam um pequeno livro que fez escola nos anos 70, Para Ler o Pato Donald, dos chilenos Ariel Dorfman, o mesmo de A Morte e a Donzela, e Armand Mattelart. O livro, um pouco datado hoje mas ainda uma delícia de ler (à venda no Submarino), analisa os quadrinhos da Disney para mostrar a lógica do imperialismo. Por exemplo, isso de não existirem pais e filhos nos quadrinhos Disney, apenas tios e sobrinhos. E que os sobrinhos têm tanta proteção social quanto as crianças dos orfanatos de Dickens no século 19. E como num dos gibis da década de 70, bem durante a guerra do Vietnã, um dos personagens dizia “Nada de bom pode sair da Ásia”. Recomendo muito. Faz uns anos, escrevi um artigo comparando a idealização que se faz da infância nos quadrinhos Disney, segundo a ótica de Para Ler o Pato Donald, com aquela que Humbert faz de Lolita no romance de Nabokov. É uma idealização feita para que o predador não se sinta mal explorando, econômica ou sexualmente, as crianças. Para quem quiser ler, tá aqui, em inglês.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

QUEM PRECISA DE TELEVISÃO NO DOMINGÃO?

Alguns passatempinhos agradáveis pra você fazer hoje. Um é dica da Mei, que me enviou o link pra este site muito fofo. Sabe aquele dos coelhinhos animados que parodiam filmes? Eu já tinha ouvido falar dele em algum blog que não lembro, mas não conhecia todas as animações já feitas. Os criadores pegam os personagens de filmes famosos, coelhinhos cutie-cutie da mamãe, e contam a trama em 30 segundos. O resultado é muito bacana. Claro, dependendo do filme, algumas animações são mais inspiradas que outras. Único porém: tem que entender bem inglês, porque eles falam rápido. Mas, se você já conhece o filme satirizado, fica mais fácil acompanhar.
Por exemplo, gostei muito do que fizeram com Cães de Aluguel. Na clássica cena da tortura no policial, um coelhinho com voz idêntica à do Michael Madsen corta a orelha de um outro coelho. Em Tubarão, colocam o próprio monstro com dois dentinhos coelhísticos. O de Duro de Matar também é uma gracinha (eu rio com "Espero que esse [que caiu do prédio e se espatifou no chão] não seja um refém". Quanto a Onde os Fracos Não Têm Vez, o desenhinho do osso pra fora do braço do Chigurh no final é legal, mas eles assumem alguns detalhes que não estão claros no filme, como ele matar a mulher. Ai, mas Crepúsculo tá igual. E eles começaram tudo com uma sátira ao Exorcista.
Bom, quando se cansar de ver todos os esquetezinhos dos coelhos cinéfilos, você pode voltar aqui e ler umas crônicas antigas que estou colocando no blog. É que escrevo pra A Notícia desde 98, mas em outubro de 2000, por aí, meu computador teve vírus e perdi tudo que publiquei entre 98-00, chuif. Alguns textos eu consegui encontrar na internet, mas são poucos. Então, aproveite.
Este artigo sobre o Billy Wilder eu escrevi em fevereiro de 2000, e uns seis meses depois, ele morreu. Mas não sou pé fria! Ele já tinha mais de noventa anos, pô! No texto eu falo mais de Crepúsculo dos Deuses que de qualquer coisa. Eu ainda amo de paixão o Billy, mas tenho que confessar que revi Pacto de Sangue em Detroit e achei meio datado. E é bastante unânime que Farrapo Humano envelheceu mal. De qualquer jeito, fica a dica: nunca viu um filme do Billy? Tá esperando o quê? Ele é um dos gigantes das telas.
Como estamos em tempo de Oscar (e aí, já participou do bolão?), coloco aqui um textículo perdido sobre a cerimônia de 2000, referente aos filmes de 99 (Beleza Americana foi o grande vencedor daquela noite). Aposto como, pra ter estado tão mal-humorada, é porque fui muito mal no bolão.
E, enquanto não disponibilizo um link pra minha tese de mestrado sobre ironia em Lolita e suas duas adaptações pras telas, fique com um texto que escrevi em 99. Acho que eu tinha acabado de ler o clássico do Nabokov pela primeira vez e ficado encantada. Lógico que, naquela época (dez anos atrás!), nem imaginava que escreveria uma tese sobre o livro. No texto há vários pontos dos quais discordo hoje, como dizer que Humbert se preocupa em ser um bom pai (besteira, ele só quer manter as aparências), ou mesmo que Lolita seja uma grande história de amor (é mais o supra-sumo da ironia que qualquer outra coisa). Mas meu texto nada acadêmico, sem teoria alguma, tem ao menos um triunfo: a frase final. Gostei tanto dela que a usei pra fechar minha tese, em 2005. Aí a banca gastou uns cinco minutos falando dessa frase. Foi uma estratégia arriscada usar o que parece um slogan de ex-publicitária - eu estava assumindo demais que um filme seria superior ao outro, e não era esse o objeto da minha pesquisa -, mas acabou dando certo. A banca me deu 10.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A GENTE QUER MESMO ESSA NORMALIDADE?

Um leitor resumiu bem meu texto da semana passada, que comentava o ótimo artigo de Lennard J. Davis, “Construindo a Normalidade”:Oh meu Deus! A normalidade foi inventada por pessoas racistas! É tão engraçado quando a gente lê coisas assim... Parece que a gente se dá conta de que sempre soube disso mas não se tocou porque ninguém falou antes”. Pois é, eu também me senti assim ao ler o texto de Davis pela primeira vez.
Não sei se por que ironia em Lolita foi tema da minha tese de mestrado, mas sempre que penso em normalidade me vem à mente um monólogo brilhante que não existe no romance de Vladimir Nabokov, apenas no filme de Stanley Kubrick (de 1962; nem procure esse trecho no dramalhão Lolita de 98 de Adrian Lyne, que é sério demais pra essas coisas). Lolita não é um romance “normal”, já que fala de um tema tenebroso, pedofilia, mas a gente se pega rindo ao ouvir as estripulias verbais do narrador e protagonista Humbert Humbert, que baba pela ninfeta Lolita (e, aproveitando que descobrimos que palavras como normal e norma só passaram a fazer parte das línguas europeias em 1840, termos como ninfeta e lolita foram criações de Nabokov, em 1955). Mas Humbert faz mais do que babar - ele se casa com Charlotte, a mãe de Lolita, apenas para ficar perto do seu objeto de desejo. Ainda na lua de mel, Charlotte avisa que vai mandar aquela pré-adolescente insuportável prum colégio interno. Charlotte convenientemente morre num trágico acidente, e o resto do livro segue com Humbert passeando (ou fugindo?) com Lolita pelos Estados Unidos. Um outro pedófilo, Quilty, que eventualmente vai “roubar” Lolita de Humbert, se encontra sem querer com ele num hotel. Humbert está fingindo ser o pai de Lolita, e Quilty, no filme de Kubrick, finge ser um policial. Ele saca na hora que Humbert não é o pai da menina. E aí ele diz (minha tradução, muito pobre, sorry):
Não pude deixar de notar quando você se registrou aqui hoje à noite. É parte do meu trabalho. Eu notei o seu rosto, e eu disse a mim mesmo quando te vi, 'Este é um cara com o rosto mais normal que eu já vi na vida'. Porque eu sou um cara normal e seria ótimo se dois caras normais como nós pudéssemos nos sentar e - falar sobre os assuntos do mundo, você sabe, de uma maneira normal”.
A ironia é que não há nada de normal nesses dois. Ambos são pedófilos. O pior é que Humbert passa o livro inteiro tentando convencer a nós, senhores e senhoras do júri (como ele nos chama, para tentar nos cativar), que é normal um sujeito de meia-idade estar sexualmente atraído por uma menina de 12 ou 13. Ele menciona os gregos e grandes figuras literárias como Dante, Petrarca e Poe para defender seu caso. Quilty é bem menos hipócrita e parece não querer convencer ninguém. Seus únicos propósitos são atormentar Humbert e conquistar Lolita. A ironia de Kubrick, com ênfase na palavra normal, salta aos olhos. Nesse trecho, pelo menos, ele aperfeiçoa a prosa já perfeita de Nabokov.
Essa busca pela normalidade também me lembra um outro filme que adoro, Trainspotting (1996, do diretor Danny Boyle, agora na crista da onda por causa de Quem Quer Ser um Milionário?, que concorre a dez Oscars). O protagonista, intepretado por Ewan McGregor, abre a trama com um monólogo da “escolha da vida”, que em inglês, choose life, remete à questão do aborto. Embora ele nunca use a palavra normal, fica claro que este viciado em heroína associa normalidade a consumo. No final da história, ele para de se drogar, mas também engana seus amigos e rouba dinheiro. Seu último monólogo é este, que se refere ao primeiro:
A verdade é que sou uma pessoa ruim, mas isso vai mudar, eu vou mudar. Esta é a última vez que faço esse tipo de coisa. Eu vou ficar limpo e seguir em frente, me endireitar e escolher a vida. Já estou ansioso com o que virá. Serei que nem você: o emprego, a família, a porcaria de TV grande, a máquina de lavar, o carro, o CD e abridor de lata elétrico, boa saúde, colesterol baixo, seguro odontológico, hipoteca, primeira casa, roupa casual, malas, terno, faça você mesmo, game shows, comida rápida, crianças, passeios no parque, horário padrão, bom no golfe, lavar o carro, escolha de suéter, Natal em família, aposentadoria, isenção de impostos, limpar o esgoto, se sair bem, olhar adiante - pro dia em que morrerei”.
(Fique com a versão original, mais poética: “The truth is that I'm a bad person, but that's going to change, I'm going to change. This is the last of this sort of thing. I'm cleaning up and I'm moving on, going straight and choosing life. I'm looking forward to it already. I'm going to be just like you: the job, the family, the f**** big television, the washing machine, the car, the compact disc and electrical tin opener, good health, low cholesterol, dental insurance, mortgage, starter home, leisure wear, luggage, three-piece suite, DIY, game shows, junk food, children, walks in the park, nine to five, good at golf, washing the car, choice of sweaters, family Christmas, indexed pension, tax exemption, clearing the gutters, getting by, looking ahead, to the day you die”).
Ele não diz normal, mas diz “se endireitar”, e na afirmação que será igualzinho a nós (nós! Eca!), ele transparece que tentará ser normal, mesmo que a normalidade seja equivalente a uma vida tediosa. Uma vida em que ter é muito mais importante que ser, e onde valemos as bugigangas que acumulamos. Esta normalidade está muito mais próxima da gente que aquela de Humbert, claro. Mas pense bem - tanto a “tudo bem ir pra cama com uma menina de 13 anos” quanto a “você é o que você compra” não poderiam ser abolidas?