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quarta-feira, 28 de março de 2018

GUEST POST: NÃO COMPARE O PREÇO DA BARRA COM O PREÇO DO OVO DE CHOCOLATE

Gostei muito desta thread que Jana Bianchi publicou no Twitter. Chegou até mim e eu achei interessante reproduzi-la aqui, até porque eu sou dessas que sempre dizem pra não comprar ovo e sim barra de chocolate porque é tudo a mesma coisa. Ela mostra que não é.

Disclaimer: apesar de ser engenheira de alimentos (ou talvez POR ISSO), não venho defender a indústria, até porque não ganho com isso. A indústria como um setor é cruel, aproveitadora e preocupada unicamente com o lucro —  ou seja, uma entidade capitalista em sua forma pura. Mas isso já sabemos, né? A importância de um sistema de produção em escala suficiente pra alimentar os mais de sete bilhões de pessoas que atulhamos nesse planeta é discussão pra OUTRO tópico, mas nessa thread eu quero sim partir do princípio que a indústria nos manipula.
OK, dito isso: pelo amor da lógica, parem de comparar um quilo de chocolate com um quilo de ovo de Páscoa. Sério. O chocolate é mais caro do que deveria? Claro, e o que não é nesse país insano em que os impostos são majoritariamente cobrados sobre o produto e não sobre a renda?
A indústria se aproveita das crianças que querem o f*cking ovo do Frozen e do espírito pascoalino (?) pra enfiar a faca? Claro, os culpados são basicamente a sazonalidade e a lei da oferta e da procura, e nem de longe essa é uma mecânica exclusiva do preço de ovo de Páscoa.
Mas comparar um quilo de chocolate com um quilo de Páscoa é tão inteligente quanto comparar um quilo de aço com um quilo de uma Ferrari. Ou um quilo de papel com um quilo de livro. Ou um quilo de plástico com um quilo de brinquedo. Vocês entenderam.
No caso específico do ovo de páscoa: em termos econômicos, produzir chocolate em forma de ovo é provavelmente uma das ideias mais estúpidas que já se viu. Fazer é uma merda, embalar é uma merda, estocar é uma merda, transportar é uma merda.
Tudo começa na necessidade de adaptar uma planta inteira para a produção desse formato, que só é produzido em uma determinada época do ano (meses antes da Páscoa). Trocar moldes de linhas de envase geram custos de tempo de planta parada, energia e engenharia.
Depois vem a hora de embalar os ovos. A embalagem, geralmente, é manual. O que significa mais gente na linha de produção só pra fazer isso, o que qualquer pessoa que já tentou ter uma empresa sabe que é uma pancada de gasto adicional. E mesmo que exista uma máquina de embalagem: essa máquina (que obviamente seria gigante pra comportar a vazão dos ovos) ocuparia um espaço corno no chão de fábrica se ficasse instalada pra sempre (e, portanto, vazia em parte do ano). E uma fábrica não é uma casa de Lego que você pode montar e rearranjar em dez minutos.
Pra instalar uma máquina nova dentro de uma planta tem todo um trabalho imenso de procurar por interferências, quebrar parede (ou vocês acham que a máquina passa pela portinha?), reinstalar linhas de energia, ar, água e outras utilidades...
Então acho que já convenci vocês que o custo de embalagem já justifica o ovo custar mais que a barra, né? 
Pois bem, agora é que vem a treta. Vocês já imaginaram o quanto custa a mais pra GUARDAR e depois TRANSPORTAR um troço gigante e desajeitado que ainda por cima é quebradiço? O Brasil é reconhecidamente um dos piores países do mundo pra se transportar coisas. Nossas estradas são uma merda, o combustível é caro, não tem trem, não tem hidrovia, tem pedágio caro e pra piorar o país é quase um continente.
Aí imagina que se pra transportar uma tonelada de chocolate em barra você precisa de X caminhões, pra transportar uma tonelada de chocolate em forma de ovo você precisa de MÚLTIPLOS xis (não vou chutar um valor, mas é só olhar uma barra e um ovo que dá pra entender).
Detalhe: tomando cuidado extra porque uma barra dentro de uma caixa é difícil de quebrar, e mesmo quebradinha de boa, dá pra comprar. Um ovo quebra fácil, e quebrado ele certamente não vai vender (talvez só lá no saldão pós Páscoa).
Se estivermos falando daqueles ovos com alguma porcaria dentro, tipo um brinquedo e tal, acrescenta aí o valor do brinde, das pessoas pra colocar esse treco manualmente dentro do ovo, etc.
Além disso tudo, temos que contar com uma coisinha que se chama: valor agregado. Ele pode vir tanto da simples transformação de um produto em outro (um pedaço de madeira e uma tábua de carne têm preços diferentes majoritariamente por isso) quanto de aspectos externos.
Aí entra marca (uma roupa qualquer e uma "de marca" têm valores diferentes), trabalho/ tempo pra fabricação (uma colcha qualquer e uma de fuxicos costurados à mão têm valores diferentes), sazonalidade que já mencionamos, licenciamento (produtos com franquias e personagens), etc.
Em resumo: não, um quilo de ovo de Páscoa não custa o mesmo que um quilo de barra de chocolate, simplesmente porque isso não faz absolutamente NENHUM sentido dentro da economia que vivemos. Agora: devemos achar isso normal?
Não. Aí já é outra história. Primeiro: compra quem quer. Tem gente que dá valor pra simbolismos diversos, ovo de Páscoa seria só mais um deles. Eu não compro ovo de Páscoa há um tempo porque pra mim não é importante, e beleza. Conheço muita gente que também pensa assim.
"Ah, mas se eu não comprar meu filho vai chorar/ sofrer bullying": aí já são outras questões, como marketing focado em crianças (o que é proibido em alguns países), cultura do consumismo (que bosta de mundo é esse em que uma criança sofre bullying porque não ganhou ovo?), etc.
Mas nunca a questão vai ser que o quilo de barra de chocolate é muito mais barata do que o quilo do ovo. São reclamações muito "maiores", vê? Não conhecer da onde as coisas vêm e como as coisas são feitas limitam muito o nosso poder de reação.
Enquanto a gente acha que alguém-sem-rosto fala: "hum, deixa eu pensar, coloca a barra a R$2 e o ovo a R$75" e reclamando disso é que as coisas vão mudar, a gente tem uma sociedade doente sendo alimentada por processos doentes dos quais a indústria é apenas uma pecinha.
Vale finalizar dizendo que o maior protesto que você pode fazer é simplesmente NÃO COMPRAR. Lembra da lei da oferta e da procura? Então. A indústria é tudo, mas não é burra. A hora que fazer ovo não for mais produtivo, as indústrias vão simplesmente parar.
Compre a barra, compre ovos de produtores artesanais locais e VALORIZE esse trabalho (até porque provei aqui por A + B que é um trampo desgraçado) e seja feliz. Mas não compare o preço da barra com o preço do ovo de chocolate. 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

MULHERES SÃO CONSUMISTAS?

A Tania me enviou este email:

Primeiramente, admiro muito o seu trabalho e acompanho o seu blog. Tenho uma filha de 3 anos e depois que a minha filha nasceu, abri ainda mais os meus olhos para as questões de gênero, afinal, quero educá-la de uma forma diferente da educação que eu recebi. Sou grata a você por escrever informações tão valiosas para nós.
Tenho um blog materno onde abordo muitas questões polêmicas e escrevi um post sobre consumismo infantil. Lendo sobre o assunto na internet me deparei  com um post antigo em outro blog que me deixou indignada, ao ponto de fazer um comentário.
Sei que você já escreveu sobre o assunto, mas nunca é demais lembrar que as mulheres são vítimas da publicidade.
Dizer que as mulheres são consumidoras compulsivas em potencial é uma afirmação um tanto quanto simplista e  preconceituosa. Dizer que a mulher é consumista por natureza é um pensamento ultrapassado que faz parte do senso comum. A publicidade estuda o comportamento humano e detecta as motivações que levam uma pessoa a consumir. Isso é muito injusto para nós consumidores, que na correria do dia a dia, nem sempre prestamos atenção ao que nos motiva a fazer uma coisa.  As estatísticas mostram que as mulheres consomem mais, porém, esses são dados quantitativos.
Se formos analisar os dados qualitativos, poderemos compreender melhor que as decisões de compra das famílias são delegadas às mulheres, porque são elas que administram os gastos familiares. As mulheres assumem muitos papeis e muitas vezes enfrentam uma jornada dupla, trabalhando e cuidando da família, por isso consomem produtos para elas mesmas e para toda a família.
Velhos clichês sobre
mulheres (e depressão)
Para a maioria dos homens, o único papel que lhes é delegado é o de provedor, e às vezes este nem sequer precisa se preocupar em administrar o seu salário, deixando essa tarefa para a esposa.
Para o mercado, a criança é um consumidor em formação, que exerce forte influência nas decisões de compra da família. A criança ainda é imatura pra compreender as relações de consumo, por isso mesmo é o 'alvo' mais fácil e sofre um verdadeiro bombardeio publicitário. A maioria das mulheres passa muito mais tempo com os filhos do que os homens e acabam sofrendo as consequências desse bombardeio publicitário. Além de racionalizar suas decisões de compra, ainda lhes é atribuída a responsabilidade da educação dos filhos. No meu ver essa é uma carga pesada demais para carregar.
O problema do consumismo é mais grave e profundo do que se imagina e em muitos casos foge ao controle dos próprios consumidores. Na maioria das vezes se transfere a responsabilidade para os cidadãos, sem considerar que todos nós somos assediados pela publicidade em todos os ambientes que frequentamos, inclusive dentro de nossas próprias casas. Pode-se dizer que esse é um problema de ordem ética, econômica e social. 

Meus comentários: Concordo com o que você escreveu. Mas, de fato, grande parte das mulheres (e dos homens, óbvio) é consumista. Como já dizia Germaine Greer nos anos 70, nós mulheres devemos deixar de ser as maiores patrocinadoras do capitalismo.
O capitalismo depende das compras das mulheres, e depende também de vender a ideia de que somos consumidoras descontroladas, dessas que se veem em comédias românticas quando alguma loja de sapatos faz liquidação. Sabe, uma moça batendo na outra pra disputar quem fica com o último par de sapatos de salto alto com potencial para deformar seus pés? Não tenho certeza de que na vida real isso existe -- pelo menos não com a frequência que a mídia quer nos fazer crer. E também não sei se isso é exclusividade feminina. Qualquer loja com promoção de forçar pessoas a fazer fila na entrada sabe que os homens tampouco são comportados nessas horas. 
Todos nós humanos somos alvos da propaganda, e estamos sujeitos a sua influência (lógico que enganar e manipular crianças é muito mais fácil). O capitalismo sobrevive transformando produtos que não precisamos em coisas que não podemos viver sem. Cria uma necessidade imaginária para vender de tudo. E, com as mulheres, a propaganda ensina que existe um padrão de beleza, que estamos longe dele (porque é um padrão excludente e inatingível), mas que não há problema -- se a gente gastar muito, conseguirá se enquadrar, ou pelo menos morrerá tentando.
Portanto, a mídia ensina que nós mulheres devemos nos odiar, odiar nossos corpos, nossa aparência, e que seremos odiadas por quem mais importa numa sociedade patriarcal -- os homens -- por não estarmos no padrão desejado. É tudo mentira. Primeiro que dane-se o que os homens acham dos corpos das mulheres. Dane-se não conquistar um homem. Segundo que a esmagadora maioria das mulheres (e homens) no mundo está fora do padrão que a mídia vende, e nem por isso deixa de transar, namorar, casar. É só sair às ruas para ver que pouquíssimos casais parecem pertencer aos comerciais. O que se vê é uma gigantesca diversidade.
O capitalismo sempre está a serviço do patriarcado, e vice versa. Por exemplo: com o fim da Segunda Guerra, os países ricos precisavam mandar de volta a suas casas as mulheres que tinham trabalhado (e gostado) durante a guerra. E, mais ainda: precisavam fazê-las consumir sem parar, para sustentar os EUA, uma potência que só crescia. Para tanto, a mídia passou a veicular a ideia de que uma mulher realizada era aquela que tinha marido e filhos e cuidava do lar com esmero, sempre com a ajuda de eletrodomésticos. A propaganda valorizava imagens de donas de casa que posavam, orgulhosas, ao lado de seus fogões novinhos, geladeiras e máquinas de lavar. Elas estavam sendo patriotas ao comprar aqueles produtos (e também a casa própria). 
Não foi muito diferente em 2001, quando os EUA foram atacados em casa. Qual foi o pedido de Bush Jr. aos americanos (tanto homens quanto mulheres) em seguida ao 11 de setembro? Foi: COMPREM. 
Mudando só um pouquinho de assunto, esses dias ando revoltada porque a televisão da minha mãe, que tinha menos de quatro anos, quebrou. Eu sou da época que TV durava a vida toda, ou pelo menos algumas décadas, pô! Levamos ao conserto e o técnico disse que não valia a pena consertar, que ficaria caro demais, que o negócio era comprar outra e se conformar que hoje as TVs duram três anos em média. 
Três anos?! Como que um trambolho daqueles pode durar tão pouco?! Imaginem os depósitos de lixo que estamos criando: TVs cada vez maiores com prazo de validade cada vez menor.
Fui a uma loja de departamento e compartilhei minha indignação com um vendedor muito sábio que me alertou que não eram só as TVs, não -- que hoje todos os eletros duravam três anos. E ele lembrou que não fazia tanto tempo que algumas marcas vendiam aparelhos com garantia de uma Copa do Mundo para a outra (ou seja, quatro anos!). Isso tudo acabou, disse ele.
Olha, sei que isso tem nome -- obsolescência programada, ou obsolescência planejada, que é justamente fazer produtos que durem pouco para que sejam descartados logo e o consumidor precise comprar outro (recomendo o documentário espanhol Comprar, Tirar, Comprar). Mas gente, três anos?! Que droga é essa? Eu não quero trocar de computador, TV, fogão, a cada três anos, catzo! É caro, é inútil, e causa danos irreversíveis ao meio ambiente. Como permitimos que produtos considerados duráveis durem tão pouco? E quando chegamos a essa loucura dos três anos?
Fugi um pouco do tema, eu sei. A questão é que o capitalismo vende produtos diferentes para homens provarem sua (frágil) masculinidade e para mulheres se alienarem na sua dita feminilidade. Estamos cada vez mais mergulhados no gendered marketing, ou marketing de gênero (brinquedos, por exemplo, estão muito mais divididos por gênero hoje do que há 50 anos). Lançam produtos quase idênticos pintados de rosa (lembram da caneta Bic For Her? Porque mulher aparentemente não pode usar uma caneta comum), vendidos como essenciais pras mulheres. E, pra piorar, esses produtos destinados a nós costumam custar muito mais. 
Eu faço o possível pra não ser enganada. Pro capitalismo pegar meu dinheiro, tem que suar muito. Mas não sou uma eremita. Também gasto. Só não caio nos golpes que insistem que tenho que comprar aquilo porque sou mulher e mulher não vive sem isso. Eu vivo sem um monte de coisa, até sem celular. E definitivamente sobrevivo bem sem maquiagem e salto alto. 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

UMA HISTÓRIA DE RACISMO MUITO COMUM

Vi esses dias uma moça que não conheço, Sulamita, contar o que se passou com ela pertinho aqui de casa, nas Lojas Americanas do Shopping Benfica, em Fortaleza. 
É uma história típica de racismo, que já aconteceu e continua acontecendo com a grande maioria dos negros: ser olhado com desconfiança ou seguido ao entrar numa loja, e várias vezes acusado, detido e revistado, às vezes com violência. 
Em tempo: eu já fui mal atendida nessa mesma loja quando comprei lá uma barra de chocolate que tinha vermes dentro, e os gerentes levaram um tempão até aceitarem me devolver o dinheiro e ainda disseram que não se responsabilizavam pelo que vendiam. Nada a ver com racismo no meu caso, mas eu boicoto a Americanas desde 2010. 
Fiquem com a história da Sulamita:

Abordada, constrangida, racismo. Três palavras que resumem um pouco da minha noite de ontem, 20/12/2016, na Loja Americanas do Shopping Benfica. Fui comprar lembrancinhas de fim de ano e cartões de natal, cheguei na loja, dei várias voltas, e percebi que um dos seguranças sempre estava por perto. Tudo bem, afinal eu ia comprar e o fato dele estar ali não era problema pra mim. Comprei o que tinha que comprar, passei no caixa e paguei. Ao colocar meus dois pés para fora da loja, o segurança me abordou e pediu que eu me dirigisse a um local mais no canto para verificar minhas sacolas. Fui sem reclamar, afinal, em época de Natal as lojas têm vários casos de furto e não vi problema. 
Fui em direção à mesa do atendimento ao cliente e ele pediu mais uma vez para continuar andando e me dirigir para um local mais recuado. Chegando nesse local, estavam lá as duas gerentes da loja. Nisso, pego o cupom fiscal e começo a abrir as sacolas das Americanas. Mas não era isso que ele verificar. Fui "convidada" a abrir minha mochila e outra sacola de madeira que carregava comigo e despejar tudo o conteúdo. 
Já estava achando a situação estranha, inocentemente não tinha percebido do que aquilo se tratava até o segurança dizer: "Tá vendo? Tudo produto da loja". Os produtos aos quais ele se referiu eram de uma cesta natalina que eu havia ganhado naquele mesmo dia no trabalho. Isso foi o que tentei argumentar. Você acha que alguém acreditou? 
O segurança seguia com o tom de ironia: "Cesta? Do seu trabalho?! Eu vi você pegando esse salgado e colocando na sacola". Pedi para ver as filmagens onde eu estaria supostamente furtando o produto, tem várias câmeras lá, ninguém me mostrou nada, sequer cogitaram olhar. 
Repeti a história da cesta de Natal várias e várias vezes, até que eu disse que ligaria para uma companheira de trabalho que poderia confirmar minha história e dizer inclusive tudo o que tinha na cesta. Ao terminar a ligação, comuniquei que minha amiga estava vindo com o cupom fiscal da compra dos produtos e que uma advogada estava sendo acionada. 
A partir daí, o segurança mudou de postura, disse que não me acusou de nada, e as gerentes tentaram argumentar que em nenhum momento houve constrangimento, que era política da empresa, que na verdade foi um mal entendido e que nem houve agressão, já que o segurança não fez contato físico comigo. O segurança, depois desse momento, entrou coincidentemente em intervalo de trabalho e não voltou mais, mesmo eu passando ainda uma hora na loja. Minhas companheiras de trabalho chegaram e deram todo o apoio. 
As gerentes, ao perceberem que realmente as providências seriam tomadas, pediram os códigos dos produtos. Imagino eu, numa vã tentativa de formar prova contra mim e pensando depois com calma, era algo que elas poderiam ter feito desde o começo para verificar se o produto era ou não da loja.
Toda essa situação, meus amigos e amigas, é racismo. Eu não era a única pessoa saindo daquela loja lotada naquela hora da noite, mas fui a única abordada. Não me mostraram filmagens ou apresentaram qualquer prova concreta do meu suposto furto. O argumento do segurança aceito pela gerência foi: eu tinha passado muito tempo andando na loja, pegando produtos e descartando, Eu tinha uma sacola com produtos semelhantes aos vendidos na loja e ele supostamente me viu colocando um desses produtos na minha sacola pessoal, Eu ainda tive a audácia de inventar uma história de cesta natalina do trabalho. 
Então... Eu não poderia estar em dúvida quanto aos presentes e demorar para escolher? Eu não poderia entrar com mochila e outra sacola que não fosse da loja? Eu não poderia ter comprado produtos semelhantes aos da loja que não fossem de lá? Quer saber, Eu poderia ter feito todas essas coisas. O problema, meus amigos e amigas, é que isso foi feito por uma NEGRA. 
Se você puder compartilhar essa história e ajudar a espalhar minha voz, eu agradeço de coração. Se você quiser duvidar, isso é um problema seu. Ainda tô sentindo a dor desse constrangimento e dói muito.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

GUEST POST: O PLANO DAS OPERADORAS PARA ENCARECER E LIMITAR NOSSA INTERNET

Desde que a internet entrou na minha vida, em 1997, eu ouvia que, em breve, ela seria rápida, barata, e acessível a todos. Esse dia nunca chegou.
O Brasil já tem uma das piores conexões de internet do mundo, e as operadoras estão com um plano de encarecer e limitar ainda mais o que é parte fundamental da nossa vida. Quase vinte anos depois do meu primeiro fascínio com a internet, corremos o risco de voltar atrás.
Nesses últimos três dias, a internet aqui de casa tem estado uma desgraça. Ela cai a cada dois minutos, volta, cai de novo. Eu pago (caro) a GVT, que costumava oferecer a melhor conexão de Fortaleza. Desde o anúncio que ela foi comprada pela Vivo, os problemas começaram. Perguntei pro pessoal do Twitter se alguém podia me apontar uma boa alternativa, já que ficar com uma conexão tão ruim não é uma opção. Responderam que tá essa terra arrasada em todo o país.
Um leitor antigo que gosto muito, e que preferiu se manter anônimo, me enviou um email com suas preocupações. Entre elas, a de que quem mais está se mexendo contra esse golpe das operadoras é o 55chan, um fórum anônimo ocupado por misóginos (como quase todos os chans). Além disso, como eles são todos anônimos, acabam tendo menos força.
Outra preocupação do meu leitor, muito legítima, é que as pessoas de esquerda parecem não estar se incomodando com este retrocesso das operadoras. Isso é incoerente: afinal, os pacotes de dados afetariam diretamente os mais pobres. Além do mais, quando a esquerda não se atrela a uma causa, deixa as portas abertas para que essa causa seja sequestrada pela direita oportunista.
Mas tudo isso ele falou por email, não no texto abaixo, que é informativo e direto ao ponto:

Recentemente algumas das principais operadoras de internet no Brasil anunciaram um retrocesso gigantesco: uma mudança em seus planos de internet, feita sob medida para prejudicar quem utiliza esses serviços, sem que a maioria perceba o problema da situação. Com a situação política do país ocupando os noticiários e a atenção das pessoas, essa mudança até agora estava passando quase despercebida.
Até recentemente os planos de internet eram baseados apenas em velocidade. Agora operadoras como NET, Oi e Vivo estão implantando uma franquia, um limite de quantos dados por mês a conexão pode acessar, semelhante às conexões de internet móvel. Após ultrapassar esse limite, a velocidade será drasticamente reduzida, ou pior ainda, a conexão será cortada até o mês seguinte, ainda que o Marco Civil estabeleça como direito do usuário “não suspensão da conexão à internet, salvo por débito diretamente decorrente de sua utilização;” (ou seja, só pode ser cortada por falta de pagamento).
Os planos anunciados até agora são insuficientes para grande parte das pessoas, talvez a maioria. São planos de 100 GB, 50 GB, e alguns até mesmo de 10 GB. POR MÊS! As implicações desses limites são muitas, e talvez não tenha ficado claro em um primeiro momento o quanto isso pode afetar cada pessoa que use a internet. Quem usa a conexão para trabalho, estudos, lazer, redes sociais, ouvir música, pesquisar etc tende a gastar mais do que essas franquias em poucos dias. Vale lembrar que não é só o computador que usa banda da conexão, mas celulares, tablets, videogames e smart TVs também.
O site TecMundo publicou uma reportagem bastante completa sobre o assunto, para quem quiser saber mais detalhes.
Quem sairá no prejuízo? Como disse antes, uma parcela muito grande das pessoas que usam a internet, talvez a maioria. Desde estudantes que precisam da conexão para pesquisar ou assistir video-aulas, até profissionais que utilizam a internet para trabalhar, passando por gamers, youtubers e famílias que utilizam a internet para o lazer. Microempresas que não tenham como contratar planos empresariais e utilizem muito a internet também podem ser afetadas.
Quem sairá no lucro? As operadoras.
Uma das motivações para fazerem isso é que a estrutura da internet no Brasil é precária, e já não dá mais conta de todo o volume de tráfego utilizado. Continuando no mesmo ritmo, as operadoras seriam obrigadas a ampliar a estrutura, o que significa investir. Limitar o uso é uma forma de aliviar a estrutura atual para adiar a necessidade de investimento.
Há ainda uma outra motivação. As mesmas empresas que estão implantando as franquias também vendem o serviço de TV por assinatura. Recentemente a Netflix se estabeleceu como uma forte concorrente das TVs por assinatura, pois fornece um serviço muito melhor e mais barato. Essa limitação parece feita sob medida para encarecer e dificultar o acesso à Netflix e a serviços similares, como o Crunchyroll e mesmo o YouTube.
O que pode ser feito com relação a isso?
Em um primeiro momento, não aceitar de maneira alguma mudanças, “atualizações”, “migrações” e “combos” nos planos de telefonia e internet. As operadoras tentam convencer a aceitar planos novos, feitos para parecerem vantajosos, mas que trazem junto a limitação. Se você já tem um plano sem limitação que está sendo suficiente para seu uso, tente mantê-lo. Caso precise mudar, procure se informar se não há provedores menores na sua região, que ainda não utilizem o sistema de franquia.
Caso a operadora altere o plano de forma unilateral, pode-se fazer uma reclamação no Procon. Elas já são campeãs de reclamações no Procon, o que pode fazer a gente pensar que não adianta, mas ainda é melhor do que não fazer nada e aceitar em silêncio.
Existe um abaixo-assinado no Avaaz, a ser entregue para Vivo, GVT ,OI, NET, Claro, Anatel, e Ministério Publico Federal, “Contra o Limite na Franquia de Dados na Banda Larga Fixa”. Acho que devemos assiná-lo.
Há uma página no Facebook do Movimento Internet Sem Limites. É um movimento apartidário, formado por usuários anônimos da internet, com o objetivo de esclarecer e chamar a atenção para esse problema, além de incentivar ações para pressionar as autoridades e as operadoras. Em apenas 4 dias, a página já tem mais de 200 mil likes. O movimento também tem um perfil no Twitter, @netsemlimites.
A Anatel, que regula o setor, não apenas está permitindo a mudança como seu superintendente de competição ainda declarou que ela pode ser “benéfica” (haja aspas). 
Por outro lado, o Ministério Público Federal instaurou um processo para investigar os limites de consumo de internet na banda larga fixa alegando que serviços como YouTube, Netflix e Spotify, que consomem mais dados, “estão amplamente disseminados na cultura atual da internet e torná-los onerosos é retirar um enorme contingente de usuários do livre acesso à rede” e “reflete planos comerciais abusivos, com o propósito disfarçado de encarecer os custos de utilização da internet pelo usuário médio”.
Nós que usamos a rede para nos comunicarmos, para trabalhar, para estudar, para jogar, para buscar informação, para lazer, para divulgar causas, movimentos, ideias, assim como quem produz conteúdo, quem tem blogs, sites, ou canais no YouTube, quem faz streaming e transmissões online -- todos temos muito a perder se essas limitações se concretizarem. As operadoras são muito boas em marketing e sabem esconder os problemas relacionados a essas mudanças, ou até mesmo em fazer parecer que essas alterações são positivas.
É importante divulgarmos essas informações e conscientizar o máximo de pessoas sobre o que está acontecendo. Só assim teremos força suficiente para nos organizarmos, no sentido de pressionar as operadoras e autoridades para reverter essas mudanças e impedir que a internet no Brasil fique ainda pior do que já é. Com exceção de pouquíssimas pessoas que pretendem lucrar muito, nós estamos no mesmo barco.