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domingo, 8 de fevereiro de 2009

QUEM PRECISA DE TELEVISÃO NO DOMINGÃO?

Alguns passatempinhos agradáveis pra você fazer hoje. Um é dica da Mei, que me enviou o link pra este site muito fofo. Sabe aquele dos coelhinhos animados que parodiam filmes? Eu já tinha ouvido falar dele em algum blog que não lembro, mas não conhecia todas as animações já feitas. Os criadores pegam os personagens de filmes famosos, coelhinhos cutie-cutie da mamãe, e contam a trama em 30 segundos. O resultado é muito bacana. Claro, dependendo do filme, algumas animações são mais inspiradas que outras. Único porém: tem que entender bem inglês, porque eles falam rápido. Mas, se você já conhece o filme satirizado, fica mais fácil acompanhar.
Por exemplo, gostei muito do que fizeram com Cães de Aluguel. Na clássica cena da tortura no policial, um coelhinho com voz idêntica à do Michael Madsen corta a orelha de um outro coelho. Em Tubarão, colocam o próprio monstro com dois dentinhos coelhísticos. O de Duro de Matar também é uma gracinha (eu rio com "Espero que esse [que caiu do prédio e se espatifou no chão] não seja um refém". Quanto a Onde os Fracos Não Têm Vez, o desenhinho do osso pra fora do braço do Chigurh no final é legal, mas eles assumem alguns detalhes que não estão claros no filme, como ele matar a mulher. Ai, mas Crepúsculo tá igual. E eles começaram tudo com uma sátira ao Exorcista.
Bom, quando se cansar de ver todos os esquetezinhos dos coelhos cinéfilos, você pode voltar aqui e ler umas crônicas antigas que estou colocando no blog. É que escrevo pra A Notícia desde 98, mas em outubro de 2000, por aí, meu computador teve vírus e perdi tudo que publiquei entre 98-00, chuif. Alguns textos eu consegui encontrar na internet, mas são poucos. Então, aproveite.
Este artigo sobre o Billy Wilder eu escrevi em fevereiro de 2000, e uns seis meses depois, ele morreu. Mas não sou pé fria! Ele já tinha mais de noventa anos, pô! No texto eu falo mais de Crepúsculo dos Deuses que de qualquer coisa. Eu ainda amo de paixão o Billy, mas tenho que confessar que revi Pacto de Sangue em Detroit e achei meio datado. E é bastante unânime que Farrapo Humano envelheceu mal. De qualquer jeito, fica a dica: nunca viu um filme do Billy? Tá esperando o quê? Ele é um dos gigantes das telas.
Como estamos em tempo de Oscar (e aí, já participou do bolão?), coloco aqui um textículo perdido sobre a cerimônia de 2000, referente aos filmes de 99 (Beleza Americana foi o grande vencedor daquela noite). Aposto como, pra ter estado tão mal-humorada, é porque fui muito mal no bolão.
E, enquanto não disponibilizo um link pra minha tese de mestrado sobre ironia em Lolita e suas duas adaptações pras telas, fique com um texto que escrevi em 99. Acho que eu tinha acabado de ler o clássico do Nabokov pela primeira vez e ficado encantada. Lógico que, naquela época (dez anos atrás!), nem imaginava que escreveria uma tese sobre o livro. No texto há vários pontos dos quais discordo hoje, como dizer que Humbert se preocupa em ser um bom pai (besteira, ele só quer manter as aparências), ou mesmo que Lolita seja uma grande história de amor (é mais o supra-sumo da ironia que qualquer outra coisa). Mas meu texto nada acadêmico, sem teoria alguma, tem ao menos um triunfo: a frase final. Gostei tanto dela que a usei pra fechar minha tese, em 2005. Aí a banca gastou uns cinco minutos falando dessa frase. Foi uma estratégia arriscada usar o que parece um slogan de ex-publicitária - eu estava assumindo demais que um filme seria superior ao outro, e não era esse o objeto da minha pesquisa -, mas acabou dando certo. A banca me deu 10.

terça-feira, 28 de março de 2000

OS PERDEDORES SOMOS NÓS

O maior espetáculo da Terra. Maior em duração, bem entendido, não em qualidade. Assim foi a entrega do Oscar deste ano, que se prolongou por mais de quatro horas. Imagina só, quatro horas para vinte e poucas categorias e duas homenagens especiais. Basta dividir o tempo pra constatar como a Academia de Ciências Cinematográficas não preza exatamente a eficácia.
De onde tiraram que Michael Caine era o favorito ao prêmio de coadjuvante? Não se pode subestimar o poder da Miramax. Eu tinha apostado no Tom Cruise, que é querido e nunca venceu, e várias pessoas estavam certas que o menininho com três nomes ia ganhar. Caine, com sua elegância de costume, foi o ponto alto da noite. Apontou as graças de seus adversários e disse a Cruise que o salário de um coadjuvante é baixo.
Não houve muitos aplausos de pé. Deu pra notar isso quando os convidados se levantaram e bateram palmas para um interminável mix de músicas famosas. Sinceramente, quem você prefere cantando "Over the Rainbow"? A Judy Garland ou a loirinha adolescente da última moda? Foi pra isso que os organizadores decidiram encurtar a apresentação dos indicados a melhor canção, sempre um momento deplorável? Robin Williams cantando "Blame Canada", de "South Park" (que incluía pedaços como "culpe o Canadá, eles nem são um país de verdade mesmo") foi a única salvação.
O lado liberal da academia ficou bem claro nos discursos de Warren Beatty e do diretor polonês Wadja. Vários atores negros apareceram para tentar convencer-nos que não, Hollywood não é racista, imagine. Denzel Washington, forte candidato a melhor ator, não levou a estatueta para casa. O agraciado foi Kevin Spacey, e devo dizer, com justiça. Adoro o Denzel, mas o personagem de Kevin em "Beleza Americana" exigia mais nuances.
De resto, sobram algumas imagens divertidas que nossa memória seletiva se encarregará de deletar, como as piadas de abertura de Billy Crystal. Em Hollywood, tudo pode acontecer. O "winner" é este festival de autocongratulações, e os perdedores somos nós que insistimos em prestigiar uma festinha tão chata.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2000

CRÍTICA: BELEZA AMERICANA / Merece o favorititismo no Oscar

O Oscar bate à porta dos catarinenses

Que comecem as apostas. Depois de O Sexto Sentido e O Talentoso Ripley, outros fortes concorrentes ao Oscar desembarcam no Estado. Os favoritos Beleza Americana e O Informante entram hoje em circuito, e Regras da Vida tem pré-estréia neste final de semana. Esses três, junto com O Sexto Sentido, concorrem à estatueta de melhor filme do ano. O quinto candidato, À Espera de um Milagre, entra em cartaz na semana que vem.

Beleza Americana começa com uma adolescente pedindo para que seu pai seja assassinado, pois ele só lhe traz vergonha. Corta para a narração em off do pai (Kevin Spacey), que vai nos relatar os últimos dias dos seus 42 anos. Kevin, em um papel sob medida que lhe rendeu a indicação para o oscar de melhor ator, vive num típico subúrbio americano de classe média alta, onde a única família feliz parece ser a de um casal homossexual. Como Kevin mesmo diz, o ponto alto de seu dia é a sua masturbação matinal no chuveiro. Ele não tem um bom relacionamento com a esposa, com quem não transa há tempos, nem com a filha, que mal lhe dirige a palavra. Em evidente crise de meia idade, Kevin conhece duas figuras que vão tirá-lo do marasmo. Uma é a amiguinha de sua filha, por quem ele baba, e a outra é o novo vizinho adolescente, que lhe fornecerá maconha.
Kevin decide fingir que tem dezoito anos novamente, quando ainda era alegre e tinha a vida toda pela frente. Assim, larga o emprego numa agência de propaganda e passa a trabalhar meio período num lugar onde ele tenha a menor responsabilidade possível, isto é, preparando hambúrgueres numa lanchonete. Adquire o carro que dirigia na juventude; faz musculação para entrar em forma e poder seduzir a femme-fatale adolescente.
Enquanto isso, sua filha se envolve com o vizinho que, na falta de uma vida própria, adora filmar a dos outros. A patroa (Annette Bening, também concorrente ao Oscar, à beira de um ataque de nervos), uma corretora de imóveis dependente de fitas de auto-ajuda, passa a ter um caso com um colega e, para descarregar a tensão, aprende a atirar. As vidas de calado desespero de Chekh
ov estão prestes a berrar.
Há montes de rosas nesta obra-prima. A flor que aparece no cartaz chama-se "beleza americana", uma rosa linda, s
em espinhos... e sem perfume. Uma ótima metáfora não apenas para o filme, mas também para a nossa sociedade de consumo. Há uma outra passagem ilustrativa. O vizinho mostra a imagem mais bela que já filmou: um saquinho de plástico sendo levado pelo vento. Pois é, não é uma cachoeira ou um arco-íris. Para o rapaz, símbolo de liberdade é uma sacola de supermercado voando.

Beleza Americana é o grande filme de 1999 e conta com oito indicações para o Oscar. É o favorito, apesar de ser raríssimo a Academia premiar uma comédia. Funciona perfeitamente bem, com um ritmo invejável que não deixa a peteca cair um momento sequer, graças a um elenco magistral, e a um roteiro e direção que asseguram situações muito divertidas. É um filme altamente criativo que consegue fazer rir e pensar, e nos cativar para uma beleza que não é só americana, mas universal.
Se bem que todos os elementos caros aos americanos estão lá: as animadoras de torcida (
é hilário quando a filha carrancuda de Kevin faz suas coreografias), as meninas populares da escola, que costumam ser teasers (sua função é meramente ilustrativa: atrair e mais nada), fuzileiros navais fanáticos por disciplina, o fascínio por armas, o desejo de vencer a qualquer preço. Porém, o que torna o filme universal é uma fala-chave de Kevin. Ao largar o emprego, ele diz: "sou um cara comum sem nada a perder". Sua existência já é uma tragédia; pior é impossível.
Talvez uma frase dessas comova mais os americanos, que transformaram a palavrinha "loser" ("fracassado") no maior insulto da língua inglesa. Se você quiser realmente ofender um ianque, não tem erro: chame-o de "loser". Na sociedade mais bem-sucedida do planeta, cuja tecnologia e poder prometem mundos e fundos, qualquer um que não se encaixe no sistema - que não levar a sua parte - só pode ser um perdedor.
Honest
amente: existem diferenças gritantes entre o way of life americano e o da classe média de outros países? Acho que não. As ambições são as mesmas, os objetos de consumo e os ídolos de barro são parecidos. Tudo que a classe média alta brasileira quer é ser americana. Ela até já se sente primeiro mundo, e não gosta que a mídia internacional aponte a miséria que ela própria faz tanto esforço para não ver.
Beleza Am
ericana nos conclama a dar valor a cada momento precioso desta vidinha besta que levamos. Nós também não temos o que perder. Neste jogo de aparências, estamos fadados ao fracasso. Então, que tal nos divertirmos um pouco para, pelo menos, morrer com um sorriso no rosto?