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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

CRÍTICA: MULHER INVISÍVEL / Beijos de língua no ar

Luana não existe; Selton não desiste.

Desde que voltei de Fortaleza, fui duas vezes ao cinema, o que é incrível, considerando que Joinville tem ocupado suas cinco míseras salas com uma média de três filmes. Uma dessas idas foi pra ver Trama Internacional, e infelizmente não posso falar sobre ele, porque me esqueci completamente. Evaporou-se da minha mente. Acho que tinha uma cena de tiroteio no Guggenheim, e isso é só. Com quem era mesmo? Ah, com o Clive Owen. Depois eu revi Os Infiltrados na TV pra constatar como se faz um ótimo thriller de ação. E na sexta fui ver A Mulher Invisível. É, sei que essa comédia romântica estreou no Brasil faz meses, mas por aqui foi só semana retrasada, tá? E aproveitando que ainda me recordo um tiquinho do troço, lá vai: nem achei dos piores. É bem superior a Se eu Fosse Você 1 e 2. E deve ser melhor que Os Normais 2, que eu não vejo nem morta e ressuscitada. E, em matéria desse gênero de comédia que precisa urgentemente ser reinventado, é mais legalzinho que A Proposta, só pra ficar num exemplo recente. Isso não quer dizer, de forma alguma, que gostei de MI. Apenas que esperava algo muito mais detestável.
A história é sobre o personagem do Selton Mello, que, após ser abandonado pela esposa, se apaixona pela Luana Piovani, que só existe pra ele. Há também uma trama paralela sobre a vizinha (Maria Manoella) do Selton, que é gamadona nele e o considera o marido ideal. Selton é meio chatinho pra ser ideal, mas ela também é. Deve ser falha de roteiro que todos os personagens sejam assim tão rasinhos.
Teve momentos em que MI me fez pensar num filme infinitamente melhor mas que não é comédia romântica, A Garota Ideal (Lars and the Real Girl, 2007), aquele em que o Ryan Gosling quer casar com uma boneca inflável. É interessante como em Garota todo mundo trata o Ryan com carinho, enquanto em MI o Selton é visto como louco desvairado. E aí vislumbrei uma outra hipótese: e se o Selton se lixasse pros amigos (na realidade, ele só tem um, o Vladimir Brichta) e pra sociedade e mantivesse sua relação com a Luana? Ele parece ter um sexo fantástico (que me fez pensar no Woody Allen dizendo “Não fale mal de masturbação. É sexo com alguém que amo”) com ela―que não vemos, porque a censura é pra 14 anos. Bem ou mal, ele encontra tudo arrumadinho no seu apê e recebe comida boa (aliás, se Luana não existe, quem limpa o lugar e prepara as refeições? Ele mesmo? Ou ele não come e o apê é uma zona, e só na fantasia dele é que tá tudo bem? O roteiro não entra nisso). E, de bônus, ele pode fazer o que quiser: sair com o amigo e até com outras mulheres, já que Luana não é ciumenta. Se ele tem uma fantasia tão legal, por que se curvar à realidade?
Ah, porque do outro jeito não haveria filme... Entendi. Selton não é um sujeito bem resolvido. Ele se importa demais com o que o seu amigo lhe diz. Tipo, ele fala pro Selton: “O que você sabe do passado dessa mulher? Nada! Pra quem ela deu?”. Uau, como se isso fosse importante! O que importa o passado sexual de alguém? O que a pessoa (mulher ou homem) fez antes de conhecer o/a parceiro(a) não influi em nada, ué. Uma amiga minha teve que terminar com o noivo porque ele era super ciumento. Não ciumento do presente, mas do passado! Ele estava obcecado com os parceiros que ela tinha tido antes de conhecê-lo. Como se ela devesse ser virgem, ainda mais aos trinta e poucos anos! E além do mais, eu detesto esse termo, “dar”. Odeio mesmo. Nunca usei na vida. E nem “comer”. Porque são termos de acordo com cada gênero, né? Mulher, que é passiva, “dá”. Homem, que é ativo, “come”. Em inglês não existe isso. Por mais que seja muito mais comum pra um homem falar “I f***ed her” e pra uma mulher falar “we f***ed”, não é tão dividido por gêneros. Eu sempre usei “a gente transou” e pronto, ou “transei com ele”. Ok, mas obviamente MI não é o primeiro ou último produto cultural a adotar esse vocabulário de dar/comer.
O que é verdadeiramente detestável e machista é que a Luana é a mulher ideal, que não existe, ou melhor, que é uma criação dele, uma fantasia de tudo que ele procura numa mulher, e aí essa mulher ideal é uma que foi estuprada pelo padrasto aos 13 anos... e adorou?! Que ela curta ver joguinho de futebol da terceira divisão, zuzo bem. Que ela goste de limpar a casa de lingerie, até vai. Mas realmente precisa ter sido estuprada pelo padrasto? Pros homens a mulher dos sonhos é uma que foi violentada na adolescência? Isso não parece um tanto doentio?
Enfim. Toda vez que se critica uma comédia nacional, fala-se de como ela é parecida com o que a Globo faz na TV. E é mesmo. Mas ultimamente não assisto mais televisão, e, pelo que ouço, o que passa lá (crueldade contra animais em No Limite? Hello?) é tão ruim que até uma sessão de Mulher Invisível no cinema parece melhor. Embora tenha me cansado já na terceira vez que vi o Selton dando beijo de língua no ar. Será cedo demais pra deixar de gostar do Selton? Porque pra comédia romântica meu prazo de paciência já se expirou faz tempo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

CRÍTICA: A PROPOSTA / “Mostre a ela quem é o chefe”

Ajoelhou, tem que pedir a mão.

Detestei A Proposta com todas as minhas forças, e estou chegando à conclusão de que terei que boicotar comédias românticas. Ou seja, daqui a pouco deixo de ir ao cinema. E eu amo filmes. Mas pô, ver o mesmo desfile de piadinhas machistas sem graça e estereótipos de gênero pela centésima vez é demais. As pessoas nem notam: Proposta é o maior sucesso da Sandra Bullock em vários anos. Mas é um besteirol sem tamanho. Ela faz uma editora de livros mandona que é chamada de “vadia” apenas por ter poder. E, obviamente, como ela é bem-sucedida no trabalho, ela não tem amigos, bichinhos, e oh-meu-deus-como-ela-sobrevive namorado. Aliás, ela não tem vida pessoal, ponto. E por isso, por estar faltando algo tão importante em sua vida (homem, filhos), ela é infeliz e antipática. O clichê todo. Daí dá um problema no seu visto, porque ela é canadense, e será deportada da Terra Prometida, os EUA. E ela tem a brilhante ideia de se casar com seu secretário, Ryan Reynolds, que a odeia. Para manter as aparências, eles têm que passar um fim de semana juntos numa mansão no Alasca, onde a família rica de Ryan mora, e... e após dez minutos de filme, todo mundo sabe como termina a história. Que dez minutos, qual! Basta dar uma olhada no cartaz!
E até que a trama poderia ser minimamente sexy, mas não é. Pra variar, é extremamente conservadora. Compare com Aconteceu Naquela Noite, em que o Clark Gable e a Claudette Clolbert precisam dividir um quarto de hotel. Naquela cena há tensão erótica, e olha que o filme é de, deixa eu ver, 75 anos atrás. E Crepúsculo, então? A Bela come o vampirinho albino com os olhos. Aqui, Sandra e Ryan parecem nem se conhecer. Primeiro, qual o problema em dormir na mesma cama de casal? Eu já dormi com amigas na mesma cama e foi uma tarefa árdua, mas a gente resistiu às tentações. Eu durmo com meus gatinhos na mesma cama, e mesmo assim não sou chegada à zoofilia. Eu durmo com o maridão na mesma cama, e pergunte se rola sexo todo ano, digo, todo dia? Mas segundo, qual o problema de Sandra e Ryan transarem? Ambos são livres e desimpedidos. Ela diz que não faz sexo há um ano e meio; ele não diz faz quanto tempo tá sem. Eles estão lá, no mesmo quarto, e tem até lareira - por que não aproveitam? Não, não pode: em comédia romântica americana o casal principal só transa com uma aliança no dedo e muito amor no coração. Eu fico impressionada.
E tem uma cena em que os dois, nus, se chocam um contra o outro, completamente sem querer (não pergunte). E o clima é de ó meu Deus, cubram-se! Porque cruzes, a Sandra provavelmente nunca viu um pênis antes! E o Ryan nunca viu uma mulher vestindo macacão cor de pele pra cobrir sua nudez! Quer dizer... Isso eu também nunca tinha visto, ao menos não tão evidente. Aliás, a cena da Sandra “nua” no banheiro concorre na categoria Piores Efeitos Especiais com uma outra em que uma águia pega um cachorrinho (não pergunte parte II). A próxima vez que alguém falar que Os Pássaros do Hitchcock tá malfeito, vou mencionar o pássaro grandão de A Proposta.
Mas pra mim o maior mistério do filme é o que o Ryan Reynolds tá fazendo lá. Sei não, pra um cara ser bonito, na minha opinião, tem que ter alguma personalidade. No rosto do Ryan parece estar escrito "Aluga-se". Vago. Não tem nenhuma expressão. Como que esse cara se torna um galã? Um protagonista de filmes? Eu só posso usar a frase do maridão: Alguém faltou? Eu olho pro Ryan e me lembro do Bush quando jovem. Isso é perturbador. E olha, acho legal que a Sandra faça par romântico com um cara doze anos mais novo. Mas, na vida real, alguém não mencionaria a diferença? E sabe por que o personagem do Ryan não pode ser interpretado por um ator mais velho, né? Porque como que um carinha de 45 anos seria secretário? E de uma mulher, ainda por cima?! Não! Seria um fracassado. Aí fazem dele um cara jovem, e, pra compensar, de família rica.
As outras pessoas no elenco tem papéis sem relevância. Coitado do Craig T. Nelson, que faz o pai do rapaz! Lembra dele em Poltergeist? E a Mary Steenburgen, de um filme que eu adoro, O Tiro que Não Saiu pela Culatra? Em Proposta ela interpreta a mãe do Ryan. E mãe de galã em comédia romântica só tem dois tipos: zero à esquerda ou megera. Ponha um xiszinho na primeira opção. Ah, e só descobri que o carinha que faz o garçom/stripper/balconista (enfim, o único que trabalha no filme. Deve ser coincidência que ele seja latino) é o Oscar Nuñez, do The Office. Mas alguém me explica por que é tão engraçado um bando de mulheres assistirem um striptease masculino. Quando aparecem homens vendo mulheres fazendo striptease, geralmente eles não estão morrendo de rir, muito menos as strippers. Mas parece que mulher não pode ver homem fazendo striptease sem cair na risada. É por que ela tá subvertendo o modelo tradicional? E isso é tão divertido?
A única piada do filme é uma sobre internet discada. Dura dois segundos. De resto, fico feliz que uma mulher, Anne Fletcher, possa estar dirigindo um filme (e eu gostei pacas do anterior, Vestida para Casar. Talvez eu tenha sido a única). Mas tem que entregar uma comédia romântica idêntica às porcarias que os diretores homens fazem? E não estou exagerando quando digo porcaria. (Spoiler:) No final, enquanto o casal apaixonado se beija no escritório, todas as moças-figurantes fazem Ohhhh, e carinha enternecida. Patético. E os marmanjos fazem gestos de macho. Blergh. Mas o pior, pior mesmo, é que algum colega de trabalho grita pro Ryan: “Mostre a ela quem é o chefe!”. A câmera fica no Ryan e Sandra se beijando, e vem a frase. Porque é essa a moral da história, né? Você têm muita sorte de eu não falar palavrão. Mas o que eu acho deste filminho rima com Proposta.

sábado, 15 de novembro de 2008

CRÍTICA: EU, MEU IRMÃO / Crítica pouco inspirada sobre filme menos ainda

- Você já leu este livro? É mais memorável que muitos filmes por aí.

Estreou faz duas semanas no Brasil Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada, que vi há treze meses nos EUA (em outubro de 2007), com o título de Dan in Real Life. Confesso que a gente não perderia muito se essa comédia romântica fosse direto pra dvd. É sobre um tal de Dan, colunista de família e assuntos do coração, que não consegue pôr em prática o que prega na teoria. Ou melhor, é sobre o Steve Carell se apaixonando pela Juliette Binoche, a namorada do seu irmão (Dane Cook). E isso é tudo que você precisa saber. Quem gosta do Steve e da Juliette deve dar uma espiada no filme. Já os outros...
Steve é muito versátil. Seu papel aqui é totalmente diferente do que ele faz tão bem em The Office, que é diferente do que ele fez em Agente 86, que é diferente do que ele fez em O Virgem de 40 Anos, que é diferente do que ele fez em Pequena Miss Sunshine. O cara é realmente bom. Mas me chame de distraída, só que nunca tinha notado o tamanhão do nariz dele.
Juliette é mais ou menos o símbolo sexual dos intelectuais. Ela tá mais bonita agora do que antes, e é sempre simpática e inteligente. Mas seu papel é ingrato. É do tipo que vai rir de todas as piadas sem graça que seu amor faz. O Steve diz “Oi”, e ela gargalha. Já notou como nessas comédias românticas nunca é o contrário? Que quando entra uma musiquinha pra combinar com as imagens, nunca mostram o homem achando algo que uma mulher diz engraçado? É o homem que deve ser divertido. A mulher precisa ser atraente e rir das piadas, pra provar que tem senso de humor. Mulher não pode ser engraçada, porque pra ser engraçada tem que ser ativa - falar, escrever, fazer cócegas. Rir é um ato passivo, se bem que mexe vários músculos faciais que depois deixam linhas de expressão e a gente vai gastar os tubos em cremes pra disfarçar essas linhas. E tem a parte de entender a piada. Ou de fingir que entende. E também tem o fato que homem não é criado pra ouvir. Então se o homem não vai ouvir a piada, como vai rir? Melhor pular direto pras cócegas.
Mas, sobre o filme, o grande enigma é o Dane Cook, que personifica o irmão do Steve. É verdade que até pouco tempo eu nunca nem tinha ouvido falar do sujeito. Aí vi na TV um show de stand-up comedy que ele fez num auditório lotado em Boston, e de cara percebi que ele é engraçado e sexy. Outras pessoas devem achar o mesmo, porque ele tá se aventurando no cinema. Mas seu papel em Eu, Meu Irmão... é um zero à esquerda. O cara não tem agente não? Não dá pra imaginar que alguém que deseja se tornar o novo Jim Carrey aceite um personagem tão bobo e secundário. Ele não tá nem bonito (obviamente, essa era minha opinião antes do Dane estrelar Maldita Sorte - que pulei - e o abjeto Amigos, Amigos, Mulheres à Parte. Eu ainda não sabia que Eu, Meu Irmão... seria o ponto alto de sua carreira).
Outra no departamento dos desperdiçados/desesperados: Dianne Wiest. No caso dela até dá pra entender, já que os papéis pra mulheres depois dos 40 rareiam. Tadinha. Ela faz a mãe do Steve. Na vida real, é apenas 14 anos mais velha que ele... Mas chegou aos 60 e pode fazer papel de mãe até os 65. Depois, só avó.
A única surpresa, pra mim, foi a Emily Blunt. Como aquela moça feinha de O Diabo Veste Prada (a assistente invejosa) se transforma tanto, fisicamente falando? (é que vi esta comédia antes de Jogos de Poder e Clube de Leitura Jane Austen).
No fundo, Emily faz uma das várias personagens coadjuvantes que poderiam desaparecer sem deixar saudades, porque não acrescenta nada à trama. Que, aliás, é simplérrima: Steve se apaixona à primeira vista por Juliette, que conhece numa livraria (como em Harry e Sally), sem saber que a mulher é a namorada de seu irmão. Quando Steve e Juliette se reencontram, pra um fim de semana em família, ficam se encarando o tempo todo. Um fica pasmado na frente do outro... e ninguém nota! Até eu que sou a pessoa mais sem simancol do mundo y sus arrededores teria percebido. O roteiro sempre encontra uma brecha pro casalzinho ficar junto sem mais ninguém em volta, e o que se segue, entre montes de músicas pra cobrir a falta de história e os diálogos fraquinhos, é totalmente previsível. É óbvio que ela vai optar pelo Steve, até porque não dá pra entender como o mala do Dane pode conquistar alguém.
Opa, esta crítica tá 100% sem inspiração, né? Isso que dá escrever sobre um filme nada marcante visto há mais de um ano. Eu tinha minhas anotações, claro, se não estaria perguntando “Eu vi mesmo essa comédia?”. Quer ver como é esse sentimento? Vou perguntar pro maridão, que foi comigo ao cinema.
- Amor, você lembra de um filme que a gente viu em Detroit, Dan in Real Life?
- Hmm... Fala qualquer coisa que vou lembrar.
- Tinha o Steve Carell e a Juliette Binoche.
-Steve Carell e Juliette Binoche. É, conheço os dois. O que que tem?
- Eles ficam juntos, mas ela namora o irmão dele.
- Tem certeza que eu vi isso?
- Viu. Queria saber suas memórias sobre o filme.
- Tá falando com elas.
Assim caminha a humanidade.

domingo, 26 de outubro de 2008

CRÍTICA: AMIGOS, AMIGOS... MULHERES À PARTE / Parte 2

Primeira parte da crítica aqui.
- Oh my God! Não acredito que a Lolinha vai pichar o nosso filme... de novo!

Devo confessar que nunca tinha ouvido falar no Dane Cook antes de morar nos EUA. No meu primeiro semestre lá, assinei TV a cabo, e vi um show de stand-up comedy que ele apresentava pra um auditório lotado (veja um pedaço divertido sobre ir ao cinema aqui, só em inglês). Ele tem um tipo de “energia maníaca”, não muito diferente do Jim Carrey, mas com um humor mais agressivo e arrogante. Eu até gostei daquele show, e meio que achei o Dane bonitinho. Aí descobri que o fã clube dele é tão grande quanto seu hate club (gente que o detesta). E, ao ver mais coisa dele, consegui entender melhor seus detratores. Não que eu o deteste, nada disso. Mas ele está tentando fazer carreira em Hollywood, e os veículos que escolheu pra deslanchar são os piores possíveis. Primeiro ele fez um papel secundário no também secundário Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada (que estreou sexta no Brasil, um ano depois de passar nos EUA. Ele faz o irmão do Steve Carell). Depois veio um lixo que não me atrevi a ver, Maldita Sorte, com a Jessica Alba (a premissa é que todas as mulheres que dormem com o Dane conhecem um cara sério pra se casar logo em seguida). E agora Amigos, Amigos... Mulheres à Parte. Desta vez, a premissa é que ele é tão estúpido com as moças que elas voam pros seus ex-namorados depois de saírem com ele. Dane até que tá bem interpretando um ser repulsivo.
Lembro também de ter visto na TV americana (cuja programação não é muito melhor que a brasileira) uns pedaços de um programa chamado Date from Hell (Paquera do Inferno?). Uma moça saía com um rapaz contratado pela produção, que a faria ter o pior encontro de sua vida. Acho que às vezes a pegadinha era contra os homens também. Enfim, americano faz muito filme sobre “dates” (primeiros encontros, tipo sair pra jantar), porque essa é uma instituição deles. Eles geralmente conhecem pessoas pela internet e daí marcam um encontro. No Brasil não é tanto assim, é? (pergunto porque faz muito, muito tempo que estou fora do mercado).
Na primeira saída de Dane com Kate Hudson em Amigos, ele a leva pra um clube de strip tease, o que, imagino, equivale a levar o alvo das atenções pra ver um filme pornô, como
acontece em Taxi Driver. Aliás
, americano é tão conservador que o padrão continua sendo o homem levar a mulher pra um lugar, nunca o oposto. E pobre Kate! Ela vem se especializando em comédias românticas ruins. Fala-se bastante da sua bunda, tanto que no filme somos brindados com um close dela (tá no trailer). Será que eu sou a única que acha que a Kate tem cara de velha? Ok, não tanto quanto o Alec Baldwin, mas sei lá, é como se a cara da Kate não pertencesse àquele corpo. E ela consegue a proeza de exagerar mais que o Dane, num típico exemplo de interpretação over (overacting).
uma cena que me fez rir na comédia, e não é uma cena inteligente. É quando o Jason Biggs tá no cabeleireiro e sem querer perde uma de suas sobrancelhas. Só que aí aparece um cabeleireiro gay que não tem absolutamente nada a ver com a história, a não ser fomentar a homofobia presente no filme. Além de um personagem se “xingar” de gay várias vezes (no contexto da comédia isso é um insulto), há inúmeras falas de “homem não faz isso, isso é coisa de gay”. Mais tarde, um assistente de casamento dá em cima do Jason, só pra receber o repúdio do público. Interessante como esses filmes que maltratam mulheres costumam também maltratar gays. Homofobia e misoginia caminham sempre juntos, não apenas por representarem ódio contra minorias, mas por serem uma forma de martelar o padrão dominante (homem, branco, hétero) como o único desejável. Pois é, não há nada de “à parte” no tratamento dado a mulheres e gays em Amigos, Amigos.
Posso perder o amor próprio fazendo um filme desses, mas não perco a sobrancelha!

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

CRÍTICA: AMIGOS, AMIGOS, MULHERES À PARTE / Enquanto isso, na ficção, homem é pago pra aterrorizar ex-namoradas

Porta aberta e sorriso Colgate pro terrorista emocional.

Fico pensando se odiaria tanto Amigos, Amigos... Mulheres à Parte (My Best Friend's Girl) se eu estivesse passando por uma fase menos feminista, agora que estou meio radical e muito revoltada mesmo. Mas acompanhe esta minha crítica, veja o trailer, confira o filme, quiçá, e me diga se esta não é a comédia mais misógina dos últimos tempos (uma honra e tanto, considerando a vasta concorrência). É a história de um rapaz meigo, mas totalmente chatinho (Jason Biggs, de American Pie), que se apaixona pela Kate Hudson (filha da Goldie Hawn, e ainda não entendi o que mais ela fez pra merecer uma carreira. Ah, sim: Quase Famosos). Como Kate quer ser apenas amiga dele, Jason contrata seu primo e melhor amigo, Dane Cook (de Maldita Sorte, e o irmão de Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada, que estréia hoje no Brasil), pra traumatizá-la tanto que ela vai voltar correndo aos seus braços. Esse é o trabalho de Dane: praticar “terrorismo emocional” com as mulheres, pra que elas percebam que os paspalhos com quem namoram são na realidade carinhas incríveis.
Apesar de Amigos ser uma comédia romântica, gênero que tem o sexo feminino como público-alvo - e foi triste ouvir várias espectadoras morrendo de rir no cinema -, o filme não foi feito apenas para mulheres. Tá cheio de iscas pra homem. As cenas num bar de strip tease, por exemplo, não estão lá só pra humilhar a Kate, mas pra satisfazer o público masculino.
Há também um grande merchandising de cigarro que deve incomodar ambos os sexos. Quando aparece a
companheira de quarto da Kate, a câmera desce, um pouco fora de foco, pra mostrar o maço de cigarros de onde vem aquelas baganas que os personagens vão usar incansavelmente. Não dá pra ver direito, mas até eu, que não só não fumo como sairia por aí cortando cigarros, entendi qual marca é. E ninguém fuma em vão num filme. Tem um lobby tremendo da indústria tabagista por trás de cada cena e de cada personagem que dá umas tragadas, como provou Obrigado por Fumar. Aliás, acabaram de descobrir que já rolava dinheiro na época em que o cigarro estava associado apenas a glamour. A indústria pagava mais de cinco milhões de dólares por ano para que Humphrey Bogart, Lauren Bacall, Bette Davis, Joan Crawford e tantos outros fumassem em todos os seus filmes.
Mas voltando a Amigos. A comédia inteira é machista, porque promove que mulheres adoram cafajestes (uma idéia amplamente difundida, que tenta justificar o comportamento de muitos homens, invertendo a lógica: não são os homens que não prestam, são as mulheres que não prestam por gostarem de homens que não prestam), que amizade de verdade só existe entre homens, que relacionamento entre mãe e filha não é nada, perto do de pai e filho. Mas a enorme ofensa - essa pra entrar pro Guinness - vem do personagem do Alec Baldwin, que faz o pai do Dane. Tudo bem incluírem um velho mulherengo. O problema foi a profissão que encontraram pra ele: professor de uma universidade conceituada. E professor logo de quê? De Women's Studies! Já deve fazer uns quarenta anos que Women's Studies se tornou um curso importante nas universidades americanas. Lá se discute feminismo, problemas de gênero, autoras etc. Nem sei se existem professores homens nos EUA dando esse curso. A enorme maioria é mulher, e feminista, lógico. Aí no filme temos um nojentão mulherengo dando o curso?! E todas as alunas são gostosonas jovens que aparentemente só aparecem nas aulas pra transar com o professor (uns 40 anos mais velho que elas)?! E a assistente dele (um cargo prestigioso nos EUA) só tem importância por fazer sexo com ele? Não sei se estou conseguindo transmitir como tudo isso é agressivo. É meio que tentar jogar no lixo 40 anos de feminismo.
Mas, claro, isso é fichinha se comparado ao que deve ser a cena mais perturbadora que eu vi numa comédia recente. É a do Dane dizendo como vai ficar a namorada do Jason depois que ele aprontar com ela: não vai conseguir dormir, vai ter ataques de choro constantes, e (ele imita o gesto) vai tremer durante horas debaixo de um chuveiro, tentando se lavar. Ao que o Jason responde: “Weird, but sweet” (“Esquisito, mas doce”). Esses sintomas que Dane descreve são típicos sabe de quê, né? De vítimas de estupro. Ah, os homens vêem graça em cada coisa! Eu também queria viver num mundo em que estupro fosse uma piada, não uma ameaça. E olha o slogan do filme: “It's funny what love can make you do” (é engraçado o que amor te faz fazer). Estranho, “engraçado” não é exatamente a palavra que me vem à mente quando penso no que o “amor” fez Lindemberg fazer com Eloá.