quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

CRÍTICA: O LUTADOR / Bem-vindo de volta, Mickey

Eu torço por ele.

O início de O Lutador é simplesmente brilhante, e mostra como seu diretor, Arren Aronofsky (do excelente Réquiem para um Sonho), entende do ofício: ainda nos créditos, vemos dezenas de posters e panfletos do grande passado de um lutador de luta livre, Randy the Ram. Corta pra um homem de costas curvado numa cadeira. O primeiro som que ouvimos é sua tosse. Só isso, a tosse e a postura do sujeito, já demonstra que ele não é o mesmo de vinte anos atrás. Outra grande jogada é demorar tantos minutos até enfocar o rosto do Mickey Rourke por inteiro. Até lá, já observamos o cara andando, se mexendo, até falando. Quando seu rosto maltratadíssimo aparece, ele já não choca tanto.Ao contrário de seu rosto, porém, as cenas de luta livre chocam. Na segunda luta os participantes grampeiam o próprio corpo e se golpeiam entre cacos de vidro e arame farpado. Mais tarde, uma personagem menciona A Paixão de Cristo, e foi justamente no filme do Mel Gibson que pensei quando Aronofsky dá um close num arame cortando a carne. Eu detesto luta livre, detesto boxe, e tenho certeza que, se vivesse alguns séculos atrás, detestaria os gladiadores romanos. Porque convenhamos: é tudo a mesma coisa. Os caras continuam se matando e mutilando nos ringues de hoje. Qual é a graça de ver dois marmanjos se espancando até sair sangue? Desculpe, mas tenho tanto respeito por fãs de luta livre quanto por rapazes que jogam videogames simuladores de estupro. Inclusive, não duvido que seja o mesmo público. É toda uma mentalidade frat-boy (universitários americanos que adoram strippers e bebida e associam masculinidade com violência) que eu desprezo. No entanto, gostei do personagem do Mickey. Achei que ele é doce na maior parte das vezes. E todo o esquema da luta livre é tratado como uma grande performance, cheio de golpes combinados. Esse circo é exposto de forma meiga. Até o traficante de anabolizantes, cocaína e Viagra é uma flor de pessoa. Randy tem uma filha (Evan Rachel Wood, de Across the Universe) que o odeia. Nem dá pra entender direito porquê, já que ele é tão boa gente. Ele se dá bem com crianças, com os outros lutadores, e é um cordeirinho no supermercado onde trabalha meio-período - até com o supervisor que é rude com ele. (A palavra ram, apelido de Randy, tem dois significados: um carneiro não-castrado, e um bate-estacas. Imagino que pra um lutador o segundo significado é o que conta, mas às vezes Randy parece um carneirinho de tão querido). Ele é um cara solitário que mora num trailer e frequenta um clube de strip tease, onde tem olhos para apenas uma stripper, Marisa Tomei. Ela também não é a mesma de vinte anos atrás, e seus fregueses começam a recusá-la (quer dizer, ela parece ótima, e não sei como, naquela escuridão de bar, os clientes conseguem reparar que ela não é mais uma menina). O filme é todo bem simples, e mais da metade é sobre Randy tentando se conectar com essas duas únicas mulheres de sua vida (surge uma outra que lhe diz: “Meu irmão tinha o seu poster no quarto dele”). E, como a história inteira é focada nele, no seu ponto de vista, e o estilo câmera na mão cria essa intimidade entre Randy e o espectador, as mulheres parecem estar sendo injustas com um carinha tão cheio de amor pra dar. A gente fica sem o contexto de por que Randy foi um pai tão ruim, ou por que a stripper não quer um relacionamento amoroso com um freguês (bom, esse contexto é mais fácil de imaginar: você, leitora, teria um relacionamento com alguém que frequenta bares de strip tease e lutas livres? I rest my case). Randy precisa parar de lutar após um ataque cardíaco, mas os fãs são a sua família, num ringue ele se dá bem, e é no mundo aqui fora que ele quebra a cara. Eu torci como uma condenada para que ele desse certo na vida real. Durante um tempo, ele trabalha bem servindo os clientes de um supermercado. O que há de tão errado em não ser mais um astro da luta livre e ter que ser empregado de um mercado? Várias profissões dependem da juventude e do auge físico (atletas, modelos, atrizes de Hollywood). Um jogador de futebol inteligente sabe que sua carreira vai terminar com 30 e poucos anos, e se prepara pra isso. Mas aí é que tá: Randy não parece ser muito inteligente. Ele abraça um passado que não volta mais. Nos seus tempos de glória havia um videogame com o seu nome. Hoje os meninos só querem saber de joguinhos onde homens são mortos com mais tecnologia. Randy vive tão no passado que ainda lamenta os anos 90. Se a gente fosse o Mickey Rourke, faria a mesma coisa: consideraria os anos 80 os melhores anos de nossas vidas e os 90, os piores. Coitado, taí um que arruinou sua carreira. Vamos ver como, mais tarde, ele vai julgar 2008/9. O Lutador é mesmo sua ressurreição, e ele está maravilhoso. Merece o Oscar. O problema é que o Sean Penn e o Richard Jenkins também merecem. Eu gostaria que desse empate. Pode ser que Mickey esteja interpretando a si mesmo, ou pode ser que o efeito seja esse porque ele deixou o ego de lado e se entregou ao papel. De qualquer jeito, chorei bastante com ele. Quando chega a cena final, que dialoga com a primeira, e entra a bela canção do Bruce Springsteen (criminosamente renegada pelo Oscar; veja o trailer e ouça a música aqui), eu já estava totalmente convencida: Lutador é um dos mehores filmes do ano, e o Mickey é um ator e tanto. Engraçado. Eu não pensava assim nos anos 80.

14 comentários:

asnalfa disse...

Amo esse filme... achei estranho indicar frost/nixon e nao O lutador pra categoria principal...E votei no bolao pro Mike ganhar... amei a cena dele cortando muçarela e metendo o dedo lá e sujando a cara de sangue depois...

Chris disse...

Caramba, Lola...
nem assim você vai me convencer a assistir Mickey Rourke + wrestling... Não dá rsss


Beijos

Suzana Elvas disse...

Eu sempre gostei de Mickey Rourke, e sempre o achei um grande ator que teve o azar de ser lançado com "9 1/2 semanas de amor". Ficou marcado como galã, quando na verdade é um grande ator - acho o trabalho dele em "Coração satânico" e "Selvagem da motocicleta" um primor.

Vitor Ferreira disse...

Eu até gostei do filme, mas sei lá, não faz meu estilo. Nem acho que o trabalho dele foi tão magnífico porque ele fez alguém muito parecido com ele, como o Sean Penn e o Brad Pitt fizeram. Acho que o único que eu não acho que mereça levar seja o Frank Langella (colocaria o Leonardo DiCaprio fácil no lugar dele), mas se o Mickey levar, eu vou ficar com aquela sensção de que ele não merecia. Continuo torcendo e apostando no Sean.

Vitor Ferreira disse...

Quanto as canções, esse ano foi tão catastrófico quanto 2006... Naquele ano torci pela Dolly Parton... Esse ano eu torcia pela Norah Jones pela música de Um Beijo Roubado ou pela Mariah Carey por Tennessee. Mas nenhuma delas foi indicada, então torço pela de Wall-E. As indianas são um pavor!

Leo disse...

Adorei o filme! ADOREI!
Gostei muito da cena dele jogando nitentendo com menino. Gostei também das piadas internas, como na hora em que ele está cantando Guns e glorificando os anos 80 e diz que depois veio o Kurt Cobain e destruiu tudo! E que ele detestou os anos 90! hehehe
Achei um dos melhores filmes do ano também. E foi um absurdo a música não ter entrado na disputa!

cavaca disse...

Ai ai Lola, ainda não participei do bolão....ainda não vi todos os filmes e na categoria melhor canção estou completamente por fora. Mas vi o lutador e também acho que o Mike merece leva o prêmio. Para mim a cena em que ele chora com a filha foi uma interpretação pura e comovente. Acho que é o tipo de filme que o Clint gostaria de ter dirigido, não é?
Eu também não gosto dessas lutas, mas os nossos seguranças aqui do restaurante, todos eles, praticam boxe, e já vi eles fazendo horrores com clientes sacanas. Mas são todos boas pessoas, e quando partem para a porrada é porque tentaram todas as alternativas com o cliente e não deu certo.
De qualquer maneira é violência e é deprimente.
Mas vendo o filme eu pensei que a realidade tem mais facetas do que a gente pode imaginar e nós também torcemos para que ele ganhe nas lutas...o que é o mesmo que torcer para o outro perder.

Débora disse...

Também adorei esse filme, embora minhas fichas vão para Sean em Milk.

Eu já vi vídeos da liga principal dessas lutas nos EUA, uma multidão acompanha e torce nessas lutas, mesmo sabendo que é tudo encenação.

olhodopombo disse...

não gosto de filmes de historia de boxeadores,,,

Mica disse...

Estou quase sendo convencida a assistir este filme.
O problema é o preço dos cinemas. Inviável. E já baixo tanta coisa que não sei se tenho mais banda para baixar filmes completos...Mas estou curiosa com os comentários positivos.

Mary Lelly disse...

Lola, eu duvido você ficar um post sem usar os termos machista, machismo e estupro. É sério... Seu blog que já foi um instrumento de boas críticas, hoje se tornou uma metralhadora de asneiras, reverberadas incessantemente post after post. Assim não tem quem aguente... vai procurar um psicólogo amiga right now!

Tina Lopes disse...

Putz, tanta coisa boa pra ver e tão pouco dinheiro no bolso. Adoro o Mickey, torci muito nos 90 pro Tarantino "redescobri-lo" (porque John Travolta de volta, me poupe). Vou tentar ver logo. Não entro no bolão, mas vou tentar acertar mais filmes que o Rubens E. Filho, como sempre.

h e r i c k y × disse...

por favor me diga ke ele fica vivo no final. porke depois do Menina de Ouro, filme de luta = morte. naum kero chorar litros porke um touro morreu sem que a striper casasse com ele.. *medo*

agora, tu vai me desculpar, mas uma stripper é um sonho. eu iria no clube de strip só pra ver ela. HAUHAUAH.. %)

joao~grando disse...

Primeiro vez que visito o blog.
Gostei da análise (embora esta palavra às vezes soe meio estranha) dos filmes e das coisas, espontânea, ainda que baseada em um conhecimento já adquirido.
Enfim, gostei, mas, como discordar faz parte da parada, devo dizer que não acho Requiém... um excelente filme (aliás achei-o até meio bobo, feito somente de embalagem e sem assumir isso - porque não haveria problema nenhum).
E, falando numa boa, sua visão sobre lutas me parece um tanto preguiçosa, é quase o mesmo que dizer que todos os blogs são iguais e lê-los é coisa de quem é nerd e não tem o que fazer na vida real (ou seja, não tem nada que ver).