O início de
O Lutador é simplesmente brilhante, e mostra como seu diretor, Arren Aronofsky (do excelente Réquiem para um Sonho), entende do ofício: ainda nos créditos, vemos dezenas de posters e panfletos do grande passado de um lutador de luta livre, Randy the Ram. Corta pra um homem de costas curvado numa cadeira. O primeiro som que ouvimos é sua tosse. Só isso, a tosse e a postura do sujeito, já demonstra que ele não é o mesmo de vinte anos atrás. Outra grande jogada é demorar tantos minutos até enfocar o rosto do Mickey Rourke por inteiro. Até lá, já observamos o cara andando, se mexendo, até falando. Quando seu rosto maltratadíssimo aparece, ele já não choca tanto.
Ao contrário de seu rosto, porém, as cenas de luta livre chocam. Na segunda luta os participantes grampeiam o próprio corpo e se golpeiam entre cac
os de vidro e arame farpado. Mais tarde, uma personagem menciona A Paixão de Cristo, e foi justamente no filme do Mel Gibson que pensei quando Aronofsky dá um close num arame cortando a carne. Eu detesto luta livre, detesto boxe, e tenho certeza que, se vivesse alguns séculos atrás, detestaria os gladiadores romanos. Porque convenhamos: é tudo a mesma coisa. Os caras continuam se matando e mutilando nos ringues de hoje. Qual é a graça de ver dois marmanjos se espancando até sair sangue? Desculpe, mas tenho tanto respeito
por fãs de luta livre quanto por rapazes que jogam videogames simuladores de estupro. Inclusive, não duvido que seja o mesmo público. É toda uma mentalidade frat-boy (universitários americanos que adoram strippers e bebida e associam masculinidade com violência) que eu desprezo. No entanto, gostei do personagem do Mickey. Achei que ele é doce na maior parte das vezes. E todo o esquema da luta livre é tratado como uma grande performance, cheio de golpes combinados. Esse circo é exposto de forma meiga. Até o traficante de anabolizantes, cocaína e Viagra é uma flor de pessoa.
Randy tem uma filha (Evan Rachel Wood, de Across the Universe) que o odeia. Nem dá pra entender direito porquê, já que ele é tão boa gente. Ele se dá bem com crianças
, com os outros lutadores, e é um cordeirinho no supermercado onde trabalha meio-período - até com o supervisor que é rude com ele. (A palavra ram, apelido de Randy, tem dois significados: um carneiro não-castrado, e um bate-estacas. Imagino que pra um lutador o segundo significado é o que conta, mas às vezes Randy parece um carneirinho de tão querido). Ele é um cara solitário que mora num trailer e frequenta um clube de strip tease, onde tem olhos para apenas uma stripper
, Marisa Tomei. Ela também não é a mesma de vinte anos atrás, e seus fregueses começam a recusá-la (quer dizer, ela parece ótima, e não sei como, naquela escuridão de bar, os clientes conseguem reparar que ela não é mais uma menina). O filme é todo bem simples, e mais da metade é sobre Randy tentando se conectar com essas duas únicas mulheres de sua vida (surge uma outra que lhe diz: “Meu irmão tinha o seu poster no quarto dele”). E, como a história inteira é focada nele, no seu ponto de vista, e o estilo câmera na
mão cria essa intimidade entre Randy e o espectador, as mulheres parecem estar sendo injustas com um carinha tão cheio de amor pra dar. A gente fica sem o contexto de por que Randy foi um pai tão ruim, ou por que a stripper não quer um relacionamento amoroso com um freguês (bom, esse contexto é mais fácil de imaginar: você, leitora, teria um relacionamento com alguém que frequenta bares de strip tease e lutas livres? I rest my case).
Randy precisa parar de lutar após um ataque cardíaco, mas os fãs são a sua família, num ringue ele se dá bem, e é no mundo aqui fora que ele quebra a cara. Eu torci como uma condenada para que e
le desse certo na vida real. Durante um tempo, ele trabalha bem servindo os clientes de um supermercado. O que há de tão errado em não ser mais um astro da luta livre e ter que ser empregado de um mercado? Várias profissões dependem da juventude e do auge físico (atletas, modelos, atrizes de Hollywood). Um jogador de futebol inteligente sabe que sua carreira vai terminar com 30 e poucos anos, e se prepara pra isso. Mas aí é que tá: Randy não parece ser muito inteligente. Ele abraça um passado que não volta mais. Nos seus tempos de glória havia um videogame com o seu nome. Hoje os meninos só querem saber de joguinhos onde homens são mortos com mais tecnologia. Randy vive tão no passado que ainda lamenta os anos 90.
Se a gente fosse o Mickey Rourke, faria a mesma coisa: consideraria os anos 80 os melhores anos de nossas vidas e os 90, os piores. Coitado, taí um que arruinou sua carreira. Vamos ver como, mais tarde, ele vai julgar 2008/9. O Lutador é mesmo sua ressurreição,
e ele está maravilhoso. Merece o Oscar. O problema é que o Sean Penn e o Richard Jenkins também merecem. Eu gostaria que desse empate. Pode ser que Mickey esteja interpretando a si mesmo, ou pode ser que o efeito seja esse porque ele deixou o ego de lado e se entregou ao papel. De qualquer jeito, chorei bastante com ele. Quando chega a cena final, que dialoga com a primeira, e entra a bela canção do Bruce Springsteen (criminosamente renegada pelo Oscar; veja o trailer e ouça a música aqui), eu já estava totalmente convencida: Lutador é um dos mehores filmes do ano, e o Mickey é um ator e tanto. Engraçado. Eu não pensava assim nos anos 80.
O Lutador é simplesmente brilhante, e mostra como seu diretor, Arren Aronofsky (do excelente Réquiem para um Sonho), entende do ofício: ainda nos créditos, vemos dezenas de posters e panfletos do grande passado de um lutador de luta livre, Randy the Ram. Corta pra um homem de costas curvado numa cadeira. O primeiro som que ouvimos é sua tosse. Só isso, a tosse e a postura do sujeito, já demonstra que ele não é o mesmo de vinte anos atrás. Outra grande jogada é demorar tantos minutos até enfocar o rosto do Mickey Rourke por inteiro. Até lá, já observamos o cara andando, se mexendo, até falando. Quando seu rosto maltratadíssimo aparece, ele já não choca tanto.
Ao contrário de seu rosto, porém, as cenas de luta livre chocam. Na segunda luta os participantes grampeiam o próprio corpo e se golpeiam entre cac
os de vidro e arame farpado. Mais tarde, uma personagem menciona A Paixão de Cristo, e foi justamente no filme do Mel Gibson que pensei quando Aronofsky dá um close num arame cortando a carne. Eu detesto luta livre, detesto boxe, e tenho certeza que, se vivesse alguns séculos atrás, detestaria os gladiadores romanos. Porque convenhamos: é tudo a mesma coisa. Os caras continuam se matando e mutilando nos ringues de hoje. Qual é a graça de ver dois marmanjos se espancando até sair sangue? Desculpe, mas tenho tanto respeito
por fãs de luta livre quanto por rapazes que jogam videogames simuladores de estupro. Inclusive, não duvido que seja o mesmo público. É toda uma mentalidade frat-boy (universitários americanos que adoram strippers e bebida e associam masculinidade com violência) que eu desprezo. No entanto, gostei do personagem do Mickey. Achei que ele é doce na maior parte das vezes. E todo o esquema da luta livre é tratado como uma grande performance, cheio de golpes combinados. Esse circo é exposto de forma meiga. Até o traficante de anabolizantes, cocaína e Viagra é uma flor de pessoa.
Randy tem uma filha (Evan Rachel Wood, de Across the Universe) que o odeia. Nem dá pra entender direito porquê, já que ele é tão boa gente. Ele se dá bem com crianças
, com os outros lutadores, e é um cordeirinho no supermercado onde trabalha meio-período - até com o supervisor que é rude com ele. (A palavra ram, apelido de Randy, tem dois significados: um carneiro não-castrado, e um bate-estacas. Imagino que pra um lutador o segundo significado é o que conta, mas às vezes Randy parece um carneirinho de tão querido). Ele é um cara solitário que mora num trailer e frequenta um clube de strip tease, onde tem olhos para apenas uma stripper
, Marisa Tomei. Ela também não é a mesma de vinte anos atrás, e seus fregueses começam a recusá-la (quer dizer, ela parece ótima, e não sei como, naquela escuridão de bar, os clientes conseguem reparar que ela não é mais uma menina). O filme é todo bem simples, e mais da metade é sobre Randy tentando se conectar com essas duas únicas mulheres de sua vida (surge uma outra que lhe diz: “Meu irmão tinha o seu poster no quarto dele”). E, como a história inteira é focada nele, no seu ponto de vista, e o estilo câmera na
mão cria essa intimidade entre Randy e o espectador, as mulheres parecem estar sendo injustas com um carinha tão cheio de amor pra dar. A gente fica sem o contexto de por que Randy foi um pai tão ruim, ou por que a stripper não quer um relacionamento amoroso com um freguês (bom, esse contexto é mais fácil de imaginar: você, leitora, teria um relacionamento com alguém que frequenta bares de strip tease e lutas livres? I rest my case).
Randy precisa parar de lutar após um ataque cardíaco, mas os fãs são a sua família, num ringue ele se dá bem, e é no mundo aqui fora que ele quebra a cara. Eu torci como uma condenada para que e
le desse certo na vida real. Durante um tempo, ele trabalha bem servindo os clientes de um supermercado. O que há de tão errado em não ser mais um astro da luta livre e ter que ser empregado de um mercado? Várias profissões dependem da juventude e do auge físico (atletas, modelos, atrizes de Hollywood). Um jogador de futebol inteligente sabe que sua carreira vai terminar com 30 e poucos anos, e se prepara pra isso. Mas aí é que tá: Randy não parece ser muito inteligente. Ele abraça um passado que não volta mais. Nos seus tempos de glória havia um videogame com o seu nome. Hoje os meninos só querem saber de joguinhos onde homens são mortos com mais tecnologia. Randy vive tão no passado que ainda lamenta os anos 90.
Se a gente fosse o Mickey Rourke, faria a mesma coisa: consideraria os anos 80 os melhores anos de nossas vidas e os 90, os piores. Coitado, taí um que arruinou sua carreira. Vamos ver como, mais tarde, ele vai julgar 2008/9. O Lutador é mesmo sua ressurreição,
e ele está maravilhoso. Merece o Oscar. O problema é que o Sean Penn e o Richard Jenkins também merecem. Eu gostaria que desse empate. Pode ser que Mickey esteja interpretando a si mesmo, ou pode ser que o efeito seja esse porque ele deixou o ego de lado e se entregou ao papel. De qualquer jeito, chorei bastante com ele. Quando chega a cena final, que dialoga com a primeira, e entra a bela canção do Bruce Springsteen (criminosamente renegada pelo Oscar; veja o trailer e ouça a música aqui), eu já estava totalmente convencida: Lutador é um dos mehores filmes do ano, e o Mickey é um ator e tanto. Engraçado. Eu não pensava assim nos anos 80.

