quinta-feira, 28 de novembro de 2002

CRÍTICA: FALE COM ELA / Um olé no cinemão

Querido espectador que gosta de cinema de qualidade, pode parar de tapar o nariz ao passar em frente às salas de exibição. Em contrapartida ao lixo que invade nosso circuito, estreou "Fale com Ela". Mas o prazo para respirar aliviado é curto. Já já o cinemão dos blockbusters volta ao cartaz. Portanto, corra. Ah, mas é tão emocionante ver um filme desses aqui em Joinville. E um filme falado numa língua estrangeira (espanhol), ainda por cima! Com todo respeito à "Cidade de Deus", "Fale com Ela" é, sem dúvida, o melhor filme do ano.
À certa altura da trama, um personagem declara que seu relacionamento com uma mo
ça é melhor que a maioria dos casamentos. Detalhe: a moça tá em coma profundo. É uma das típicas espetadas almodovarianas às sagradas instituições. Como o próprio título já diz, "Fale com Ela" é uma ode à mulher, realizada por alguém que conhece muito bem as mulheres – mesmo que não biblicamente. É provavelmente um dos filmes mais heteros do genial diretor espanhol, talvez só perdendo pra "Carne Trêmula" no quesito do convívio entre os homens.

Vamos por partes. O drama traz duas histórias paralelas que acabam se cruzando. Um enfermeiro cuida de uma dançarina em coma com total dedicação. Narra os balés que vê pra ela, vai a festivais de cinema mudo porque era disso que ela gostava, conversa com ela o tempo todo porque, afinal, não dá pra saber se pacientes em coma não escutam. Ele adora o que faz, tanto que descreve seus cuidados como os melhores quatro anos de sua vida. Não é um cara lá muito certo, mas a gente se envolve com ele no ato. A outra trama inclui um jornalista que se apaixona por uma toureira também em coma. O enfermeiro recomenda a ele que fale com ela. Há flashbacks diversos e Almodóvar segue seu ritmo particular, dando-se ao luxo de praticamente interromper a trama pra mostrar um show do Caetano ou exibir um filme mudo em que um homem vai encolhendo, encolhendo, até adentrar a vagina da amada para sempre. Ahn, quantas chances existem de Hollywood algum dia focalizar uma vagina gigante? Nenhuma, né? Mas estamos falando de Almodóvar, um cara que não tem que passar por screen tests (pré-avaliações) antes de lançar um filme, que lida com um público menos infantilizado, que não tem medo de ser sentimental.

Gosto do Lynch, gosto do Cronenberg, mas posso imaginá-los inserindo cenas surrealistas de vaginas gigantes só pra chocar. Com Almodóvar, isso ganha outro significado. Tudo está dentro do contexto, nada acontece por acaso em "Fale com Ela". Nenhum outro diretor ama mais seus personagens que Almodóvar. Essa paixão pelo cinema transborda da tela e nos emociona. Se eu chorei? Bom, dizer que chorei seria eufemismo. Eu tive convulsões.

Mesmo a seqüência com a tourada – que eu abomino, não quero nem saber se tourada faz parte da cultura espanhola, eu tava torcendo pro touro – é tratada com uma certa delicadeza. Ou ao menos é curta. E "Fale com Ela" tá cheio de rituais, como mostrar a toureira sendo vestida. Na cena mais linda de todas, vemos a troca de lençóis e de roupa da paciente em coma, focalizada de cima.

Claro, a gente pode ficar horas discutindo se "Fale com Ela" é uma obra-prima maior ou menor que "Tudo sobre minha Mãe". E eu sei lá? São filmes completamente diferentes de um cineasta no auge da sua forma e de sua maturidade, de um dos últimos autores da atualidade, um que não tem receio algum em se renovar. Na comparação, Almodóvar faz com que o cinema hollywoodiano pareça estar em coma permanente.

2 comentários:

Navegadores da Razão disse...

Meu Deus, que silêncio aqui porque ninguém comentou?
Ui!
Mas entendo que se está aqui no blog, pode, né?
BEm, eu estava lendo o blog do Almodovar, (que massa ter acesso a gente q adimiramos!!!!!!) e voltei pra o teu catando críticas sobre os filmes dele...achei o máximo q vc as tenha um arquivo e agente possa participar da crítica comentando, (eu continuo achando estranho esse vazio aqui...) enfim q emoção...ual
Acho q é o filme mais emocional de Almodovar, eu nunca vi uma paixão tão bem interpretada como a cena na arena com a música cantada pela Elis ao fundo.

Tive um professor catalão a anos atr's e numa conversa falavamos das touradas espanholas, e nós estavamos, claro, malhando o pau...uma barbaria, etc, etc, etc...ele com toda a paciência nos explicou o que significava para o espanhol a tourada, Lola vc não sabe! Os olhos desse homem brilhavam, ele parecia q não estava ali, que falava de uma amante antiga.
Passado esse tranze continuamos a malhar o pau kkkkk, não tem jeito, não!
A questão é q a imagem do touro e o (a) toureiro é perfeita e vale por tudo!
Gd abrço

lola aronovich disse...

Não estranhe o silêncio não, Navegadores. É que, na realidade, este bloguinho só começou em janeiro do ano passado. Tenho umas 500 críticas anteriores, mas elas estavam num outro site, onde não havia espaço para comentários. Tive que colá-las aqui uma por uma. O pessoal não costuma comentar nos arquivos mais antigos. Eu amo Almodovar!