quarta-feira, 27 de novembro de 2002

CRÍTICA: MINORITY REPORT / Olho nos olhos

Não sou do tipo que detesta o Spielberg porque ele é rico, ou que despreza o Tom Cruise porque ele é divinamente lindo. Tampouco odeio filme americano só porque é americano. Isso posto, posso declarar com todas as letras que gostei um monte de "Minority Report – A Nova Lei", mais um título não-traduzido a entrar no panteão da pronúncia errada dos brasileiros que não falam inglês. Estarei chutando alto se imaginar que 95% do pessoal se referirá ao filme como "Minóriti Rêpórti", oxente?

É interessante ver Spielberg e Tom enfim juntos, mas se "Mainority" (pronúncia correta) funciona, é por causa de outro nome: Philip K. Dick. É dele o conto em que o longa é baseado, assim como são de sua autoria as idéias por trás de "Blade Runner" e "O Vingador do Futuro". Uma coisa em comum nos heróis desse escritor morto em 1982 é que eles sempre desconhecem algo relevante da sua própria personalidade. Outra coisa é que, mais que heróis, eles são homens comuns. Aí chega Hollywood e quem ela escala pros papéis de homens comuns? Ué, Harrison Ford, Schwarzza, e agora Tom Cruise. Porém, se as três produções citadas estão bem acima da média, isso se deve à criatividade de Dick. E a sua obsessão por temas fascinantes como, ahn, olhos.

"Mainority" já começa a todo vapor, com o detetive Tom prevenindo um crime microssegundos antes que ele ocorra. Nessa seqüência eletrizante, ouve-se repetidamente "não posso ver sem eles". A gente ainda não sabe se estão falando de olhos ou óculos, mas o mote é claro. A visão será lembrada durante o filme inteiro. Bom, acho que é tradicional nesse ponto contar um tiquinho da história, pra quem não viu o trailer não ficar perdido. Estamos em 2054, em Washington. Não acontece um só assassinato na cidade há seis anos, desde que três "precogs" (mistura de profetas e cobaias de laboratório) foram colocados numa espécie de piscina para prever crimes. Daí, os policiais vão até o local e prendem o acusado antes que ele possa matar sua vítima. O Tom trabalha lá e acredita no sistema – até que os precogs anunciam que ele precisa ser detido antes de matar um cara que ele nunca viu antes. Ele passa o resto do filme fugindo, só que fugir não é nada fácil numa época em que a identificação se dá através da íris. Por exemplo, não parece assustador entrar numa galeria e ouvir os telões, painéis, outdoors e outras parafernálias publicitárias falando o seu nome e oferecendo produtos? "Lola, não deixe de comprar o novo celular que cabe no seu dedo". É um horror esse futuro. A única boa notícia é saber que viveremos num mundo sem óculos escuros. Ah, e tem os carros também, que andam sozinhos. Mulheres, ainda este século não teremos mais problemas pra estacionar!

Há outras cenas de tirar o fôlego, como a da cirurgia do Tom, a das aranhinhas invadindo o prédio, a da fuga no shopping... Tudo vai super bem até a derradeira meia hora. Diria que não gostei do final, mas alguém poderia me perguntar: "qual deles?". Pois é, precisa ter tantos fins? Será a síndrome de "Inteligência Artificial"? Meu Deus, o que aconteceu com o Spielberg que sabia terminar um filme?! "Mainority" é bárbaro enquanto os temas discutidos são "vale a pena sacrificar as liberdades individuais pela eficiência do estado?", ou "como uma pessoa pode ser considerada assassina antes de assassinar?", ou mesmo um negócio que ninguém menciona, que é a reabilitação dos condenados. No entanto, quando a idéia central passa a ser "precog também é gente", a história se perde. E piora quando um personagem que nem sequer existia surge do nada pra salvar o herói, né?

Mas "Mainority" tem inúmeras qualidades e deve ser visto, nem que seja pra presenciar uma enfermeira realizando o sonho de metade da humanidade (traduzindo: pegando no bumbum do Tom), ou pra gerar uma bela polêmica num grupo de bar mais tarde. Só não recomendo pra quem esteja com a cirurgia pra miopia marcada ou pra quem tá aprendendo a usar lente de contato. Tem olho demais no admirável mundo novo dickiano.

3 comentários:

Bruna disse...

Gostei muito do teu blog, Lola, cheguei aqui por conta da questão do mamaço e do CQC e não saí mais...
Sei como é difícil expurgar o preconceito da nossa fala e que muitas vezes é involuntário sair uma besteira ou outra, mas "Minóriti Rêpórti", oxente "? Penso que não precisa ser nordestino pra não saber falar inglês, então imagino que não seriam só os nordestinos a errar a pronúncia, não é?
Preconceito linguistico também é preconceito, que São Bagno nos livre!

Leio Lola Leio disse...

Acabei de assistir o filme. Como não o vi com a disciplina que o cinema exige, perdi algumas cenas e pretendo revê-lo. Procurei uma opinião sua sobre ele e cá estou. Ocorreu o mesmo pensamento que o da Bruna e esperava que haveria algum comentário sobre muitas questões, entre elas a de gênero. Veja, num momento as mulheres são fortes, mas parece que biologicamente, para que seja "a que guarda a memória". Mas, no filme inteiro, as mulheres não agem, elas sugestionam o herói, elas não agem. A guardiã das memórias/ vidente/ experiência genética não consegue sequer se locomover, depende absolutamente do herói e só sugere como ele deve agir, não cabendo para si ação alguma. A esposa também, deve aguardar e atender as sugestões que lhe são dadas. Aí tem uma cena no meio do nada (desculpe, como disse, preciso rever o filme do começo e sem os cachorros na sala) na qual a esposa traz um chá e sugere que o marido beba, do contrário ela derramará o chá nele, ela age feito uma mãe autoritária e controladora que para fazer o filho "se alimentar" usa esse tipo de argumento. Quer dizer, haja estereótipos femininos (ou seriam arquétipos?). Vim com muita sede pensando que você diria algo do tipo, mas você diz simplesmente que no filme o futuro é constituído por automóveis que se dirigem e ainda fala que isso seria um SONHO para AS MULHERES?! Acho que estou sem senso de humor hoje.

Bruno Nascimento disse...

Boa crítica! Por sorte perseverei, por ser pernambucano e ter lido o trecho "Minóriti Rêpórti', oxente?", e lu até o final! Apesar da imbecilidade expressa logo no primeiro parágrafo, boa crítica.