sábado, 30 de novembro de 2002

CLÁSSICOS: O PODEROSO CHEFÃO / Mais sobre o chefão dos filmes

Atendendo a inúmeros pedidos (dois) de quem acha que um clássico da estatura de "O Poderoso Chefão" (1972) merece mais que um textículo, volto ao tema com mais revelações saborosas. O diretor Coppola faz um monte delas no comentário que gravou para o DVD, mas se você, como eu, se acostumou a buscar todas as informações possíveis sobre "Chefão", elas não são tão reveladoras assim.

Por exemplo, tive o prazer de ler pedaços da autobiografia do produtor Robert Evans, um dos maiores inimigos de Coppola. O cara não tem o menor pudor em contar que, enquanto ele se encarregava de atazanar a vida do diretor, sua mulher na época, a atriz Ali MacGraw (de "Love Story"), estava mandando ver com o galã machão Steve McQueen durante as filmagens de "Os Implacáveis". Na festa de lançamento de "Chefão", Evans conseguiu trazer chefes de Estado. A linda Ali foi também, mas Evans relata que, ao olhar pra ele, ela "estava pensando no p** do Steve". E narra problemas de impotência, de envolvimento com drogas – ele abre o jogo mesmo. Porém, sobre o "Chefão", sua estratégia é fazer crer que o crédito é dele, não de Coppola. Tá, a gente acredita. Ele diz que a primeira montagem entregue pelo diretor tinha pouco mais de duas horas e nenhuma substância, e que foi ele, Evans, que ordenou Coppola a editar tudo de novo e acrescentar montes de cenas, o que constituiria um caso raro, talvez único, de um produtor implorando pra alongar uma obra (filmes longos, lembre-se, dão menos lucro pros exibidores, pois rendem menos sessões). Coppola até hoje fica indignado com esse boato. Segundo ele, Evans havia lhe avisado que, se o filme tivesse mais de duas horas, o diretor perderia o controle da montagem. Portanto, ele suprimiu cenas. Evans viu o resultado e pediu pra colocar as cenas de volta, só isso. Mas o produtor foi capaz de adiar a data de lançamento do clássico, o que não é fácil.

Vamos a outros detalhes:

- Nino Rota iria ser indicado ao Oscar por sua bela música. Até que a Academia descobriu que a trilha é igualzinha à de "Satyricon", também dele. Coppola argumenta que não vê nada de errado em roubar de si mesmo.

- O estúdio não queria Marlon Brando nem morto. Mas ele se comportou super bem durante as filmagens. Trouxe bom humor ao set, fazia graça, aplicava trotes e, mais importante, trabalhou uma semana extra de graça. Parece que, na cena em que um capanga lhe faz um discurso nervoso, Brando tinha escrito na testa "F*** you". Chegou ao ponto de James Caan não poder fitá-lo sem morrer de rir. Observe também o gatinho sendo acariciado por Brando no início do filme. Eles o encontraram no set, o puseram no colo do maior ator vivo e ele ficou lá, todo feliz. A maldade de Brando só veio depois, quando ele enviou uma falsa índia para receber seu Oscar e deixou a platéia estupefata.

- Coppola acha estranho que, apesar de vários humanos serem mortos no "Chefão", a cena que gerou protestos foi a da cabeça do cavalo na cama do produtor. Coppola explica que eles não sacrificaram nenhum cavalo, mas que – não sei se a gente precisa saber disso – pegou a cabeça numa fábrica de ração para cães.

- Toda essa seqüência de como a máfia ajuda a carreira de um ator/cantor é inspirada na vida de Frank Sinatra, óbvio, mais especificamente em como ele obteve o papel em "A Um Passo da Eternidade", que reavivou sua carreira. E depois, em como ele fez shows nos cassinos para saldar sua dívida. Pobre Frankie.

- A clássica cena do batismo intercalada com assassinatos só funcionou depois de adicionarem a música de órgão. E o bebezinho é Sofia Coppola, filha do homem.

- Dizem que a busca pelos atores que fariam os filhos de Don Corleone correspondeu a uma busca por quatro Scarlett O'Haras. Al Pacino, James Caan e Robert Duvall foram todos indicados ao Oscar de coadjuvante. Este foi um dos triunfos de Coppola, que conta que, se dependesse do estúdio, "Chefão" traria Ernest Borgnine contracenando com Ryan O'Neal.

Ih, tem muito mais, mas por hoje é só, pessoal.

2 comentários:

Alberto disse...

Pô, falando mal do Ernest Borgnine? Ele é um baita ator. Vide "Wild Bunch" e "Marty", que lhe deu o Oscar de melhor ator.

lola aronovich disse...

Alberto, não estou falando mal do Ernest. Eu gosto dele, assim como gosto do Ryan. O problema é que dificilmente o Ernest estaria tão bem quanto o Marlon Brando como Don Corleone, não acha? Ou imagina o Ryan no lugar do Al Pacino? Seria bem diferente, um outro filme. Coppola também não queria aceitar esse casting porque ele insistiu que vários dos atores tivessem raízes italianas (como ele tinha/tem). Então também havia uma rivalidade entre atores com ascendência irlandesa (como no caso do Ernest e Ryan) vs. atores com ascendência italiana.