quarta-feira, 27 de novembro de 2002

CRÍTICA: O MISTÉRIO DA LIBÉLULA / Libélulas selvagens atraídas por arco-íris

Convidei um amigo pra ir ao cinema e ele não quis. Disse que nem a pau iria ver um filme com o Kevin Costner chamado "O Mistério da Libélula", porque ele é espada. Em sua homenagem, adotarei a linha do estudioso que afirmou que "Matrix" é a produção mais gay já feita, e jogarei uma luz, ou melhor, umas luzes sobre "Libélula".

Antes, a história. O Kevin e a mulher são médicos. Emily, sua esposa, morre num acidente na Venezuela, e nosso herói passa a receber mensagens paranormais. Os créditos iniciais ainda estão rolando quando uma missa anuncia que a distinta médica foi "um crédito à raça humana". Sei, assim como foi o Kevin em "O Mensageiro" e "Waterworld". Sinceramente, se você tivesse câncer, gostaria de ser tratado por uma moça que coleciona objetos em forma de libélulas? E ela é vista como a melhor da equipe!

Coitado do Kevin. Nada tenho contra ele. Até o perdoei por jogar beisebol com fantasmas em "Campo dos Sonhos". Mas a verdade é que, desde que a Madonna simulou que iria vomitar ao encontrá-lo no documentário dela, a carreira dele nunca mais foi a mesma. O pobrezinho hoje tá capengando.

Não será "Libélula" que vai tirá-lo do purgatório. Acredito que algumas pessoas possam olhar pra este filme e exclamar "que meigo!". Outras se deixarão iludir por dois ou três sustinhos e o encararão como suspense. Eu fui mais na linha de um casal que saiu gargalhando da sessão. Sua atitude me lembrou "Corra que a Polícia Vem aí", onde um par de pombinhos chorando de rir deixa abraçado o cinema e a câmera sobe até revelar a comédia em cartaz: "Platoon". Não dá pra levar "Libélula" a sério.

Agora vamos às pistas que este é um filme gay. Tudo bem, fora o título. Não sei por que este inseto serve de sinônimo pra homossexual aqui no Brasil. É como o Bambi; nada a ver. Certo. O Kevin tem uma vizinha, interpretada pela Kathy Bates, que é lésbica. Sua única função na trama é cuidar do papagaio do Kevin e tirá-lo da cadeia. Já a única função do Louro José é gritar "Querida, cheguei!". Dois menininhos contam pro Kevin que conversaram com a Emily enquanto estavam mortos (acontece todo dia naquele hospital) e que ela quer que ele vá ao arco-íris. Vamos ter a participação do Kevin na próxima parada do Orgulho Gay? É provável, pois, em outra cena, o Kevin é deixado pra cuidar de um gordo já falecido. Segue-se este divertido diálogo entre a vizinha e o Kevin. Vizinha: "Você disse que um cara com morte cerebral falou contigo?". Kevin: "Não! Eu disse que a Emily falou comigo". Quer dizer, o Kevin começa a olhar pra cadáver de barbudo e ver a Emily. Daí a chamar papagaio de meu louro é um passo. Logo adiante, o Kevin se desespera e é agarrado e jogado no chão por dois negões. Policiais o param na rua, essas coisas. Confuso, Kevin até procura um convento. Porém, ele retorna pra casa, mexe nos vestidos da mulher, e entra e sai do armário, sempre obcecado por imagens de libélulas e arco-íris. Finalmente, Kevin decide aceitar seu destino, que é andar de avião com um latino que o leva a uma cachoeira e berra: "Não posso voltar sem você!". Kevin quase morre e, na sua visão, sonha com Emily – mas acorda nos braços do bigodudo. O filme termina com o Kevin feliz, cercado por homens com lanças em riste.

Tô mentindo? Se tiver coragem, vá assistir ao "Mistério da Libélula" pra ver se tudo não acontece de acordo com meu relato. Quem adorou "Patch Adams" deverá gostar de "Libélula". É do mesmo diretor, Tom Shadyac. Nunca vi "P.A." porque fui quase manipulada às lágrimas já no trailer, e também porque fujo de subtítulos como "O Amor é Contagioso". De contagioso já basta a gripe!

Ai, numa das seqüências de "Libélula", uma freira conta ao Kevin que, ao sermos sedados, um anestesista só nos leva ao décimo nível de consciência, mas que há mais de cem níveis. Bom, ao sair da sessão, meu cérebro tava tão sonolento que ele deve ter chegado ao vigésimo nível, no mínimo. Vou terminando antes de ouvir piadinhas como "ele continua lá".

2 comentários:

Leandro Lesina disse...

Não sei se você ainda está ativa neste blog, mas a crítica é por demasiado ácida e injusta. O filme se desenvolve bem, prende a atenção, intriga o público e termina de uma forma surpreendente.

Talvez você não goste da mensagem espiritualista e otimista, mas não descarregue sua raiva no filme, é no mínimo de bom nível, eu lhe daria quatro estrelas.

Lívia Freitas disse...

Eu não entendi nada. Kkkklk