quarta-feira, 27 de novembro de 2002

CRÍTICA: FABULOSO DESTINO DE AMELIE / La vie en rose

É fácil ser cínica quando se fala em boas ações, como fiz com “Corrente do Bem”. Lembra, né? Era a história de um menininho que decide ajudar três pessoas, cada uma delas ajudaria três pessoas, e o mundo se transformaria num conto de fadas. Meu receio em ver “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” era parecido. Sabia que se tratava da garçonete que auxilia seus amiguinhos a encontrar a felicidade. Mas “Amélie”, graças a Deus, não tem nada a ver com “Corrente”. E não é só por um ser francês, e o outro, hollywoodiano, apesar disso já fazer uma enorme diferença. É que “Amélie” é agradavelmente diferente do que estamos acostumados a ver.

O início do filme narra a infância do personagem-título e é delicioso. Nele descobrimos que o único momento em que o pai de Amélie a tocava era para ouvir seu coração. Com a emoção, seu coração disparava, o que levou seu pai a concluir que ela sofria de problemas cardíacos. Vemos também a tragédia da morte de sua mãe e nuvens em formas de bichinhos. E ouvimos listas das coisas que as pessoas que vão pipocando na tela gostam e não gostam. É esta rápida montagem que dá o tom à comédia que não é bem comédia e ao drama que não é bem drama. Ou seja, é um filme sobre os detalhes do cotidiano. Quer um exemplo do que nossa heroína gosta? De colocar a mão nos sacos de grãos, de observar as pessoas no cinema e de ver nuances que ninguém mais nota, como uma mosca no meio de uma cena de amor. Aparece a mosca circulada, para que possamos notá-la. Ela não gosta de gente que dirige sem olhar para a estrada, tal e qual os motoristas nos filmes americanos. Corta para uma cena ilustrativa. E sabe que estranho? Funciona.

Amélie decifra seu fabuloso destino de ajudar o próximo ao descobrir uma caixinha com objetos de infância. Ela encontra o dono da caixinha, manda o anão de jardim do pai viajar (parece o tourist guy do World Trade Center, mas é anterior), serve de cupido para dois solitários, e se apaixona por um cara que gosta de colecionar fotos 3x4. Mas a seqüência mais comovente do filme ocorre quando ela ajuda um cego a atravessar a rua. Pensei que iria acontecer o básico – que, ao chegar ao outro lado, o velhinho reclamaria que não queria atravessar. Mas “Amélie” surpreende o cego e o espectador e promove um tour, descrevendo tudo que há à sua volta. Nesta hora, eu até chorei. Note o “até”; até parece que nunca choro no cinema. É uma das cenas mais bonitas homenageando a cegueira desde “Marcas do Destino” e “A Prova”. E por falar em “A Prova”, “Amélie” também celebra a fotografia. Sobre a Princesa Diana, constantemente citada, traz um olhar menos benevolente.

Quando li sobre o filme e as gracinhas do roteirista – o porquinho do abajur desanda a conversar com o cachorrinho do quadro; um dos retratados nas 3x4 tagarela com um personagem –, pensei: iiih, isso não vai dar certo. Mas não é que dá? Soa até natural numa película em que a protagonista dialoga direto com o espectador. Assim, o narrador conta que Amélie aprecia adivinhar quantos casais estão tendo orgasmo simultâneos num dado momento. Ela fita a câmera e diz: “Quinze”. E é nessas minúcias que ela nos ganha. A gente se identifica com aqueles tipos. Quem não tem um pouco de voyeur ou de hipocondríaco que atire a primeira pedra. Afinal, muita gente adora fazer ploc naquelas embalagens com bolinhas plásticas. “Amélie” não tem vergonha de ser um filme que nos faz sair mais leve da sessão. A alienação é atraente, e não há nada de errado nisso. De vez em quando.

“Amélie” está recheado de ousadias. O diretor Jean-Pierre Jeunet carrega nas cores pra pintar a Paris que ele quer mostrar, que é a cidade maravilhosa que a protagonista vê. Jeunet fez “Delicatessen”, que eu não gostei, mas que era visualmente estimulante, e “Alien 4: A Ressurreição”, que ninguém gostou, e que não tinha nada de estimulante. Tomara que, depois do sucesso de “Amélie”, ele desista de Hollywood e fique na França mesmo, de onde possa nos oferecer mais pequenos prazeres.

5 comentários:

Lais Pimentel disse...

'(...)Nele descobrimos que o único momento em que o pai de Amélie a tocava era para ouvir seu coração. Com a emoção, seu coração disparava, o que levou seu pai a concluir que ela sofria de problemas cardíacos.(...)'

Como uma pessoa conseque pensar nisso?
É fantástico.

Mei disse...

Só hoje fui ler essa sua crítica e aaaaaaw, que fofa!!! ( nem sei se vc ler esse comment tão atrasado!)

Eu assisti Amélie um bilhão de vezes (um bilhão e um ontem) e não me canso dele. Acho que é disparado o meu filme favorito. A cena do cego é fantástica mesmo, sempre me dá aquele nozinho lá dentro! aaaaw....
Sei lá...acho que no fundo eu me identifico muuuuito, por isso gosto tanto!!!!!
Beijocas, amore.

Lorena disse...

Nunca comento aqui, Lola, mas leio sempre seu blog. Hoje estava procurando por críticas do Oscar passado e na crítica a Amor sem Fronteiras (que por sinal, é muito boa e da qual compartilho suas opiniões) cheguei à essa aqui, sobre Amélie.
Oh, Lola, é meu filme favorito. Não sei quantas vezes assisti, mas não me canso, nunca! (como a moça aqui de cima comentou). Você relembrou alguma cenas memoráveis, como a do ceguinho, mas posso te dizer qual é a cena mais sublime, na minha opinião?? É quando Nino entra no café, e Amélie está escrevendo no quadro, e ela "derrete" ao vê-lo... Pra mim, o Jeunet conseguiu traduzir visualmente com perfeição o sentimento de "melt down", sabe?? Aquilo que a gente sente ao receber a primeira atenção da razão do nosso afeto. Eu AMO essa cena!
Aliás, todas as cenas entre Amélie e Nino, acho lindas, a do trem-fantasma tb é especial...

Enfim. Eu sempre leio, adoro todos os posts, mas não resisti a comentar nesse aqui. :) Abraço!

Lorena disse...

Opa, Amor Sem Escalas, sempre erro o nome desse filme! rsrs

Alexandre Lancaster disse...

Olha, você vai me matar, mas eu adoro Delicatessen e Ladrão de Sonhos (que você não citou, mas é dele – mas eu tenho um fraco por filmes com tranqueiras retrotecnológicas mesmo). Amelie Poulain é o filme de Jeunet que eu menos gosto... e acho que o Alien 4 é bem mais palatável do que o Alien 3 do Fincher.