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quinta-feira, 28 de agosto de 2008

ÚLTIMA CRÔNICA DE DETROIT

Escrevi este texto na última semana de Detroit (um mês atrás), e ele ficou perdido entre milhões de arquivos. Então tá aqui, antes tarde do que nunca.

Voltando da faculdade pra casa, lá pelas 7:30 da noite mas com pleno sol, passei por dois sujeitos, sentados, que falaram, “Good afternoon, young lady”. O young lady me deixou feliz, claro. Daí refleti como os homens de Detroit, em geral, são bem educados. Tudo bem, depende da idade – os mais jovens parecem revoltados, como tantos jovens em tantos lugares. E também não sei como esses dois sujeitos que me falaram boa tarde se comportariam com alguém da cor deles. É que a segregação aqui é tão grande que tenho a impressão que negros não desejam brancas, e vice versa (no momento estou meio amarela, com cabelo black power dos anos 70 pra ninguém botar defeito). Ok, tem os loucos, que são muitos. E digo loucos literalmente. Desses que andam na rua não apenas falando com eles próprios, mas gritando e se auto-xingando. E aí eles se cansam de brigar com eles mesmos e quebram uma garrafa e partem pra cima de você. Já aconteceu comigo. Me contaram, e eu acredito, que vários hospícios fecharam por falta de verba (saúde pública nos EUA é inexistente; veja o fantástico Sicko – SOS Saúde, do Michael Moore). E os internos foram simplesmente jogados na rua. Mas os não-loucos são gentis. Como eu e o maridão andamos de mãos dadas, é frequente alguém passar e falar, sem nenhum sarcasmo, “Ah! That's true love!” (oh, isso é amor de verdade). Pelo jeito somos o único casal caquético do universo a andar de mãos dadas e, às vezes, abraçados (geralmente um se apoiando no outro pra não cair). O zelador do prédio só diz: “Hello, lovers!” (olá amantes/namorados/pombinhos?). A primeira vez que ele falou isso eu pensei: “Ish, será que as paredes do nosso apê são finas demais e calhou de alguém passar no corredor bem quando, no Natal, o título de 'lovers' seria justo?”. Mas agora já me acostumei com o “Hello, lovers!” do zelador.

Eu e o maridão estávamos na principal praça da universidade, alimentando os esquilinhos, quando passaram dois rapazes bonitos. Sorridentes, eles disseram Good afternoon pra gente, a gente respondeu, e eles decidiram falar conosco. Só aí percebi que as roupas formais eram esquisitas pra meninos da idade deles. “Não quero afugentar o seu esquilo”, ele começou, e eu gostei que ele reconheceu que o esquilinho aos meus pés tinha dona, “Mas aqui tem um papel, e com esse papel você pode pedir o livro tal. Esse livro mudou a minha vida”. Agradecemos, e eles foram embora, felizes de ter cumprido o que sua religião manda – não basta acreditar, tem que aumentar o rebanho. Eram mórmons. Eu tive que falar pro maridão: “Por que, ó Senhor, por que fazer dois carinhas tão lindinhos gente tão religiosa? Por que eles não podem ser adeptos do amor livre?”. O maridão ainda estava na parte do “seu esquilo”.

E por falar em esquilos, desta vez pegamos um maníaco. Tão maníaco que, mesmo depois de ter devorado ou enterrado uns dez amendoins, ainda partiu pra cima de outro esquilo que queria um reles amendoinzinho. Eu apelidei o maníaco de Coringa. Esse não tinha o menor medo da gente. Pelo contrário. Se a gente demorava meio segundo pra dar o amendoim seguinte pra ele, ele já ficava em duas patinhas, nos encarando, quase ameaçando subir nas nossas pernas e escalar até as nossas mãos. Todo mundo passava e falava “How cute!”, mas eu sabia a verdade. Tanto que falei pra ele: “Ó, você pode estar fazendo o maior sucesso entre os humanos, mas desconfio que você não seja muito popular entre seus colegas esquilinhos”. Ele não ouviu e exigiu o próximo amendoim. Quando ele pisou no pé do maridão, ele (humano) até teve de dizer: “Cuidado, tá?! Eu sou maior que você!”. Mas ainda assim achamos de bom tom ir embora. Discretamente, pra ninguém captar o terror em nossos olhos.

sábado, 2 de agosto de 2008

QUEM DISSE QUE EU NÃO ME DESLUMBRO?

Há várias coisas dos States que sentirei falta, mas acho que o principal mesmo é o estilo de vida que levei, sem muitos horários ou prazos. Morar perto de onde se trabalha ou estuda representa uma melhora incrível na qualidade de vida, porque a gente não perde tempo ou dinheiro com transporte. É só andar até lá. Portanto, terei saudades da quitinete (que eles chamam de studio) que alugávamos por apenas 385 dólares mensais (barato pros padrões daqui). Além de bem-localizada, ela nos ensinou que dá pra viver bem num lugar pouco espaçoso e sem tantos móveis. Outras coisas que lembrarei com carinho:

- Ausência de insetos – o frio intenso que dura meio ano (do qual certamente não sentirei falta) tem a vantagem de eliminar insetos. Pelo menos essa foi a minha experiência: vi uma só barata (duas, se contar a de Wall-E) em um ano inteiro de Detroit. E era uma baratinha que eu consegui matar sozinha, sem gritar ou apelar pro maridão. De vez em quando apareciam aqueles mosquitinhos minúsculos. Mas, no apê, nada de moscas ou formigas. E, principalmente, nenhum pernilongo. Só numa ou duas ocasiões fui picada num parque, mas, comparado ao banquete que geralmente proporciono aos sanguessugas (eles me amam), isso não é nada.

- Máquinas de lavar e secar no porão – não posso dizer que tenho amplo conhecimento de causa, já que era o maridão que se encarregava de lavar a roupa. No nosso prédio havia algumas máquinas. Em poucas horas as roupas ficavam limpinhas e secas. Em Joinville penduramos nossos trapinhos num varal pra secarem ao sol, e claramente nossa máquina de lavar não é tão eficiente. Mas, mesmo que fosse e que tivéssemos secadora, é diferente ter todo um aparato à disposição, sem preocupação com consertos, conta de luz ou de água. Era só depositar quatro quarters (moedas de 25 centavos) em cada uma das máquinas e pronto. Com dois dólares lavávamos tudo.

- Esquilinhos – já falei como se identifica um brasileiro nos EUA, né? Se você vir uma pessoa observando esquilos nas árvores durante horas a fio, pode falar em português que deve ser brasileira. Ah, como não ficar boba vendo esses bichinhos tão fofos? Eu poderia acrescentar que é ótimo ter o campus da universidade, cheio de bancos pra sentar e verde, sempre aberto ao público, pois vira um parque a mais na cidade. Mas a verdade é que eu não visitaria os parques com tanta frequência se não fosse pelos esquilinhos.

- Cinemas – apesar de vários multiplexes serem longe e fora de limite pra gente, das salas que frequentávamos levarem duas horas de ônibus pra ir e voltar, e da programação raramente incluir produções independentes e estrangeiras, vimos muitos filmes durante este ano, aproximadamente dois por semana (no cinema). Pensando bem, os 7 dólares que pagávamos, em média, eram mais em conta que muita sala no Brasil. Também vimos vários filmes em sessões para a imprensa. Além disso, havia o cinema de arte, do museu, a três quarteirões de casa. Será que algum dia na minha vida voltarei a morar do lado de um cinema (e de muitos museus)?

- Netflix – vai ser difícil me acostumar novamente com o sistema das locadoras de vídeo. Durante o último semestre, nós simplesmente ignoramos a TV (que é muito, muito ruim – falem o que quiserem, mas mesmo a TV a cabo é péssima. Tem porcaria demais, e muito mais intervalo comercial que programas). Víamos um filme por noite no computador. Podíamos escolher entre mais de 75 mil títulos, e custava 25 dólares por mês. Mais barato que TV a cabo, e quem fazia a programação era eu. Sem comerciais. Com a TV, eu assistia passivamente o que chegava até mim. Com a Netflix, eu escolhia ativamente. Uma diferença gritante.

- Comida chinesa – você pode dizer que isso também tem no Brasil (e provavelmente em toda parte do mundo). Eu sei. Mas duvido que haja tanta opção. Em Detroit havia uns três restaurantes chineses próximos (e estava pra abrir um novo, este coreano/japonês, a um quarteirão de casa). Não dava pra pedir comida por telefone, porque eles só entregavam em casa encomendas acima de 30 dólares. Então a gente tinha que ir lá andando buscar. Um prato grande, pra duas pessoas, custava uns US$ 7,60 e era uma delícia. Mesmo que a gente converta pra reais (o que não se deve fazer, pois o que custa um real no Brasil normalmente custa um dólar nos EUA), não acho que iremos encontrar comida boa e farta a 12 reais em Joinville.

- Luz do sol até as 9:30 da noite – houve alguns dias no longo e tenebroso inverno que durou meio ano (meio ano! E depois eles falam que gostam das estações americanas porque existe “variedade”) em que o sol se punha às 4:30 da tarde. Sério. Escuridão total no meio da tarde. Mas é mais comum ter luz até as 9 da noite, como agora. E isso alonga muito o dia.

- Internet rápida – não quero nem pensar como vamos sofrer com a internet no Brasil. Lá a conexão que temos (banda larga e tudo) é de 250 kbps . Aqui nos EUA, no primeiro semestre, foi de 10 mega. No segundo, de 5 mega. Não deu pra notar a diferença entre uma e outra. E olha que os EUA são considerados lesmas em comparação a alguns países asiáticos. Tô esperando pra ver quando vai ficar barato e ligeiro pra todo mundo, como andam prometendo há uns cinco anos, no mínimo. Tá demorando!

- Jornais e revistas de graça ou muito baratos – lamento dizer que nenhuma publicação que li foi a oitava maravilha, mas, pra gente que adora ler (inclusive nas refeições), era ótimo pegar vários jornais distribuídos gratuitamente. Além disso, recebia grátis a revista gay The Advocate, a Rolling Stone, uma feminina chamada Pink, e várias religiosas da direita cristã, pra contrabalançar e tentar me convencer que os gays vão queimar no inferno. Entre as pagas, a assinatura da Time, semanal, por um semestre, saía por uma parcela única de dez dólares. As outras, por vinte. Mas também dava pra trocá-las por pouquíssimos pontos do banco e recebê-las sem pagar um centavo.

Ou seja, foi um ano prazeroso, sem dúvida. Sei que o maridão e eu levamos uma vidinha simples e sem grandes ambições e que, inclusive por isso, somos felizes em qualquer lugar. Mas convenhamos: num lugar sem barata cascuda fica muito mais fácil.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

“I'M GONNA GET MEDIEVAL ON YOUR ASS”

Odeio pessoas ricas. De uma maneira geral, elas são grossas, porque estão acostumadas a tratar todo mundo como serventes, ou porque sabem que, perante a lei, elas são mais importantes que as outras. Acabei de ser humilhada pelo dono do prédio onde moro em Detroit. O nome é Mr. Wolf, como o personagem do Harvey Keitel em Pulp Fiction, o que conserta as situações (por sinal, o título deste post, não pude resistir, é o que o personagem do Ving Rhames promete ao estuprador, “Vou fazer o seu c* medieval”, ou algo assim). A minha situação é que eu e o maridão estamos com passagens aéreas pra voltar ao nosso querido Brasil no dia 29 de julho. E, quando alugamos o apartamento, no comecinho de agosto do ano passado, pagamos um depósito de 385 dólares (o valor do aluguel). Como ele tem o depósito e a gente já notificou por escrito que vai embora dia 29, não esperava que teríamos que pagar o aluguel de julho – seria só ele ficar com o depósito. Mas não. O carinha quer que paguemos o aluguel de julho, e depois ele envia um cheque com o valor do depósito pra gente, pelo correio. Claro que descontar um cheque estrangeiro no Brasil (e vice-versa) custa dinheiro. Ainda não sei quanto. Só pra fazer transferência do banco americano pro banco brasileiro custa 40 dólares do Chase e mais 30 do Real. Pensei que, como fomos ótimos inquilinos (nunca atrasamos o pagamento; pelo contrário, pagamos os últimos três meses adiantados), e como as passagens estão na nossa mão, eles aceitariam ficar com o depósito.

Mas o jeito que aquele senhor rico me tratou foi o pior. Sabe aquela pessoa que não se dignifica a desviar os olhos pra olhar pra você? Esse tipinho. Sem me mirar, meu landlord – não é à toa que o nome seja o mesmo desde a Idade Média - perguntou por que estávamos indo embora. Respondi que nossa viagem era mesmo pra durar um ano, e estamos cumprindo o roteiro. Ele fez um ar de “e daí?”, e emendou com um “No seu país vocês têm casas com endereço?”. Detalhe que ninguém guardou que nosso país é o Brasil. O Leslie, o manager (zelador) do prédio, achava que era a Argentina, e a mulher dele continua pensando que é Colômbia. Mr. Wolf disse que muitos inquilinos pedem pra que ele abra mão do depósito, e que não pode fazer isso, porque é a lei, e a lei deve ser igual pra todos (é, a gente sabe como a justiça é cega). E pronto, encerrou o assunto. Passou a falar com o Leslie. Eu continuava lá, sentada. Aí, enquanto ele falava com o Les, também passou a dar bronca em alguém pelo celular. Ao encerrar a conversa no telefone, gritou “Asshole!”. Como eu voltei a falar, ele me cortou com um “Absolutely not”, e ainda emendou que, como ele é honesto, ele vai sim enviar o cheque pro nosso país, ao contrário de muitas firmas por aí. Uau, até então eu nem havia cogitado a possibilidade de não receber o dinheiro. Estava pensando só em todas as taxas bancárias. Quer dizer que existe essa chance, é?

Perguntei o que aconteceria se eu simplesmente não pagasse o aluguel de julho. Ele disse que, em uma semana, começariam os procedimentos legais (e os encargos com advogado ficam por conta do inquilino), e que eu ficaria com o crédito manchado e não poderia retornar aos EUA se quisesse, e que eu provavelmente seria despejada antes de terminar o mês. “Você não quer isso”, disse o Leslie, visivelmente constrangido. Pobre Les. Ele sempre fica muito diferente quando o patrão tá por perto. E Mr. Wolf aparece no prédio uma vez por mês, pra recolher o dinheiro.Bom, o que podia fazer? Paguei o aluguel de julho (que não se paga com dinheiro ou cheque, e sim com ordem de pagamento). No final, Mr. Wolf falou pro Les verificar como está nosso apartamento lá pelo dia 27, pra talvez nos devolver um cheque antes da nossa volta. “Não vou garantir nada,” disse ele ao Les, não a mim. Eu ouvi e tentei insistir pra que ele pelo menos fizesse isso, e lembrei que somos bons inquilinos. E ele: “Porque você é mulher”.

E foi isso. Fui embora com o rabinho entre as pernas. Ele não levantou os olhos nem disse “Goodbye”.

O Daniel, vulgo Zed (outro personagem de Pulp Fiction), que tem uma loja de roupas vintage e paga aluguel também ao mesmo landlord, disse que Mr. Wolf tem muitos prédios em Detroit e em outras cidades e que é milionário (acho que ele disse bilionário, mas vamos nos contentar com os milhões). E que, apesar da fortuna, é profundamente infeliz. E que realmente multiplicou sua fortuna não com o mercado imobiliário, e sim com os investimentos nos bancos. Ele e outros no clubinho receberam informações privilegiadas de exatamente quando os EUA iriam iniciar a Guerra do Golfo, e puderam assim aplicar dinheiro na bolsa. Segundo Zed, Mr. Wolf lhe disse ter feito mais dinheiro em uma semana que na sua vida inteira. Mas meu landlord ainda finge acreditar que a lei é igual para todos.

Eu já tive inquilinos (e problemas com inquilinos), mas sempre os tratei com respeito. Não sei se, se eu fosse rica, desceria ao nível do Mr. Wolf e seus colegas milionários. E não sei se rico no país mais rico do mundo é mais asqueroso que rico em país pobre. Só sei que meu mantra de hoje vai ser “I hate rich people. I hate rich people. I hate rich people”.

domingo, 8 de junho de 2008

FESTIVAL DE ARTES: QUERO UM TODO FINAL DE SEMANA

Midtown Detroit, que é bem onde a gente mora, está com um Festival de Artes muito lindo. É bom ver tanta gente na rua. O único ponto negativo é que meus amigos esquilinhos desaparecem. Agora tá quente e o maridão, que passou seis meses reclamando do gelo, quer saber: “Cadê o Canadá que não se manifesta?”.Aqui em cima crianças e artistas não-profissionais fazem arte na calçada. Fiquei um pouco espantada ao saber que tem que pagar pelo seu seu pedacinho de chão: cinco dólares. Mas você pode levar o que restou do giz pra casa.

Já uma rua interditada no meio foi toda ocupada por artistas profissionais, que pintaram maravilhas como esta. A maior parte da rua não está rachada como esse pedaço, mas a pintora não deu a mínima.

Não me pergunte o que é isso, porque não sei. Não tenho nem certeza se é mosca ou formiga, ou como os artistas faziam pros bichos se mexerem. Mas é bonito, de um jeito de ser que habitará meus pesadelos.

O que mais me impressionou, fora o preço da comida nas dezenas de barraquinhas (cachorro quente por quase cinco dólares?), foi esta criação magnífica. Feita em areia! Dá pra acreditar? Dedico a foto (que tá ruim; clique nelas pra ampliá-las) a dois queridos leitores: Ricardinho, que tem um anão desses no banheiro da sua casa, e Pedrinho, que quer contratar quatro anões pra cantar músicas de Hobbit pra mim.

Aqui um detalhe da escultura em areia: a bruxa malvada da Branca de Neve. Tem montes de detalhes que a câmera não capta. Sou capaz de passar horas olhando pro troço e maldizendo minha falta de talento pras artes. Ah, e sexta à noite teve uma tempestade curta mas violenta, e pensei que aquele seria o fim do belo castelo de areia. Não foi, não. Ele continua lá, inteiraço. Pra todo mundo ficar babando em cima.

quarta-feira, 26 de março de 2008

UM MENININHO PERDIDO E UM CASAL IDEM

Outro dia encontrei um menininho perdido no meu prédio quando cheguei em casa. Ele tinha passado da primeira porta (a que deixa o frio pra fora) e estava no lobby, sem saber o que fazer. Perguntou-me por qual porta eu iria entrar. É que tem duas, mas ambas dão mais ou menos pro mesmo lugar. Eu disse que qualquer uma tava bom, e qual ele queria. Subimos, e eu quis saber o que ele tava fazendo sozinho. Confuso, o lindinho me contou que tava esperando a avó dele, que já tava pra chegar. Então tá. Entrei no meu apê, ainda preocupada, e falei pro maridão que havia um menino desorientado lá fora. O maridão não parece, mas ele tem coração. E imediatamente se preocupou também. Decidi sair dois minutos depois, pra ver se a vó tinha chegado, e lá estava o menininho, aos prantos, tadinho. Agora, essa é uma situação complicada. Aqui não é o Brasil. Aqui é um país em que acusações de abuso sexual pululam. Eu já li que, se você é homem, e tá num elevador, sozinho, e entra uma criança, você deve sair, pra evitar problemas. É um absurdo, eu sei, mas vivendo aqui, a gente começa a pegar os traumas deles. E tem a questão racial. O menininho em questão era negro, mulato, sei lá. O maridão é branco, com toques rosados, e eu me considero meio amarela. No Brasil eu nunca, jamais, de forma alguma, consideraria a cor do guri. Mas nos EUA a segregação é enorme, e a gente acaba pensando nisso sem querer. Passou pela minha cabeça: e se eu convido o menino pra ficar em casa enquanto a avó não chega, e ela não gosta porque a gente é branca e amarela com degradês rosas? Outros pensamentos passaram pela minha cabeça. A mais séria foi: e um menino vai fazer exatamente o quê lá em casa? Poucas casas no mundo, imagino, têm tão pouca coisa pra criança como a nossa. Nada de brinquedos. Neca de revistinha em quadrinhos. Tem uma TV usada não muito colorida, mas o que uma criança assiste às 7 da noite? Bom, decidimos tentar localizar a avó dele. Primeiro fomos com ele até o porão, onde tem as máquinas de lavar roupa. Havia a possibilidade d'ela estar lá, disse o garoto. Não estava. Então tentamos ligar pro número dela através do nosso celular. Essa parte foi bastante constrangedora, admito, porque eu e o maridão odiamos celular, nunca tivemos um no Brasil (tá, eu sei, muita gente me pergunta: “em que século você vive?”), e só compramos um bem baratinho aqui nos EUA pra não precisar adquirir uma linha telefônica fixa. A gente usa tão pouco o celular que não se arrisca a afirmar que sabe usar. O menininho reparou que estava em maus lençóis quando teve que nos dar instruções sobre como fazer a ligação. Finalmente conseguimos ligar, e, lógico, o telefone da mulher tava desligado. Então o garoto disse que talvez a avó estivesse na loja de conveniência em frente. O maridão começou a se agasalhar pra ir lá procurá-la, mas eu tive dúvidas: “E como você vai reconhecer a mulher, amor?”. Admiti nossa incompetência e tratei de procurar ajuda. Fui bater no apartamento do zelador, o manager, que odeia ser incomodado depois do horário, com razão. Mas pra mim aquilo era uma emergência. Enquanto ele foi procurar a chave-extra, conversamos mais com o menino. Ele tem 7 anos e se chama DeNiro. Algo assim. Pode ser “Denero” também. Um nome pra lá de esquisito. O manager perguntou como ele chegou ao prédio sozinho (seu primo o trouxe), abriu o apê da avó pra ele, e falou pra ele esperar quietinho, vendo TV, que ele, o manager, iria subir de vez em quando pra ver como ele estava. E foi o final da nossa saga. Acho que a avó chegou pouco depois. Eu, de minha parte, me senti bem inútil. Inepta. As sábias palavras que o maridão disse um dia, brincando, quando o filho de uma amiga sugeriu morar conosco, vieram à tona: “A vigilância sanitária não permitiria que uma criança vivesse em casa”. Esquilinho pode?

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

EU SOU UMA CÂMERA

Sei que tá fora de foco. Foi o maridão que tirou...

Finalmente fomos a um musical aqui em Detroit! E os preços não foram proibitivos como os da Broadway, até porque a peça tinha pouco a ver com Broadway. Pagamos 18 dólares cada um pelo ingresso, mais 3 por comprar com o cartão de crédito (!), por telefone. O musical em questão era “Cabaret”, produzido por um grupo chamado Stagecraft
ers. Eu e o maridão tivemos a sorte de sentar ao lado de um casal velhinho simpaticíssimo que é membro do grupo há vinte anos, então eles nos contaram tudo. Este grupo tem 300 membros, praticamente todos lá de Royal Oak, um subúrbio charmoso de Detroit. No começo da década de 80, o teatro Baldwin, que é divino, encontrava-se abandonado, quase condenado pela prefeitura. Os membros se juntaram, compraram o teatro, fizeram uma reforma geral, mantendo todos os detalhes do original, e apresentam lá suas montagens desde então. O que é surpreendente é que a companhia nunca entra no vermelho. As peças se pagam, e olha que “Cabaret” tinha um elenco de 16 atores, orquestra ao vivo, cenários e figurinos simples mas bonitos...

Eu vi “Cabaret” em São Paulo muitos anos atrás, em 1989. Tinha o Diogo Vilela como mestre de cerimônias e a Beth Goulart como Sally Bowles. O que mais me lembro é do número do “The Money Song”, bem criativo. Logo, não fiquei comparando essa versão de Detroit com a superprodução de São Paulo. Mas não compará-la com o filme foi missão impossível! O musical de 1972, vencedor de vários Oscars, não é um filminho qualquer. Pra mim e pro maridão, é um dos maiores de todos os tempos, que a gente ama de paixão. E imediatamente percebi que o papel mais difícil é o do mestre de cerimônias, não o da Sally, porque não dá pra esquecer a interpretação do Joel Grey. O ator do Stagecrafters até que se esforçou, mas só conseguia tentar imitar o Joel. De qualquer jeito, adoramos a montagem, que apresentou um monte de coisas diferentes do filme. Por exemplo, na obra-prima do Bob Fosse, o casalzinho apaixonado que não pode se casar - porque a mulher é judia, e eles vivem na Alemanha, bem no momento da ascensão do nazismo – é jovem. Na montagem que vimos, o casal já passou da meia idade, e o fato de que dois solitários precisam morrer sozinhos só por causa de uma irracional perseguição religiosa comove ainda mais. Esse casal tem tanta importância quanto Sally e o estrangeiro que testemunha tudo (e, por ser de fora, é o único que percebe a histeria coletiva tomando conta da Alemanha. Não por coincidência, a peça original, antes de virar o musical consagrado, chamava-se “Eu Sou uma Câmera”).

Ah, quando acabou a peça, o casal que sentou-se do nosso lado nos ofereceu uma carona até em casa. Viu que amor? E eles moram lá em Royal Oak, pertinho do teatro, daria pra ir andando. Vieram de carro até lá porque, como Sandy (a senhora) me explicou, “Somos americanos”. E a peça que ela está dirigindo, “Frozen” (“Congelados”), estréia no início de março! Certamente estaremos lá.

E, como esse casal conhece todo mundo, acabamos conhecendo todo mundo também. Inclusive o diretor, uma figura muito divertida e entusiasmada. Eles nos apresentavam como “o casal que veio do Brasil ver a peça!”. Eu era a aluna de doutorado em Shakespeare, e o maridão, um campeão de xadrez (é incrível como uma pessoa sobe no conceito das outras por jogar xadrez, e como “jogador de xadrez” vira “campeão de xadrez”, a profissão mais glamurosa do mundo, em questão de segundos!). Descobri que o diretor da peça está encrencado pela mensagem que publicou no programa. Também, pudera. Olha o que ele escreveu (perdoe minha péssima tradução): “'Cabaret' nos permite presenciar um tempo e um povo, e nos ajuda a entender como, por que e quando uma nação inteira ficou tão degradada, tão desesperada, a ponto de estar disposta a trocar sua liberdade por segurança, prosperidade e a ilusão da invencibilidade. Vejo o que a América está se tornando, sob a cumplicidade silenciosa de tantos, e tenho medo. Não medo de terroristas, mas medo do futuro do nosso país. Muitos podem dizer, 'Isso nunca aconteceria aqui'. Ao que eu respondo: era isso que os alemães diziam”.

Uau! Muita gente do próprio grupo se opôs à mensagem, como era de se esperar. Mas fico feliz que existam americanos corajosos e perspicazes como esse diretor. Ele é a câmera.

Interior do Teatro Baldwin em Royal Oak, subúrbio de Detroit

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

INCÊNDIO EM DETROIT

Nosso prédio em Detroit no verão, quando tudo era mais bonito

Um prédio inteiro de 4 andares bem pertinho do meu apê aqui em Detroit pegou fogo ontem de madrugada. Perda total. Uma pessoa morreu e duas ficaram feridas. Parece que um inquilino de 47 anos tentou se suicidar pondo fogo no seu apartamento (mas que jeito insano de se matar é esse?). Ainda não se sabe se foi ele a vítima fatal. O que se sabe é que o fogo começou às 3 da manhã e só foi controlado pelos bombeiros às 8. E que os managers do prédio (espécie de zeladores) impediram uma tragédia maior, porque perceberam o incêndio e alertaram os moradores, batendo de porta em porta. Moravam no edifício (de 1904, o que também fez o fogo se alastrar mais lentamente – eu pensava que era o contrário, mas construções antigas são mais resistentes) vários alunos, a maioria atletas, de Wayne State University, a universidade em que estou pesquisando.

O que mais me chamou a atenção ao ouvir o nome do prédio, Forest Arms, é que eu quase aluguei um apê lá. Antes de vir pra Detroit, no final de julho, eu e o maridão encontramos na internet alguns lugares pra alugar, e anotamos telefones e endereços. Queríamos algo bem perto da faculdade, na faixa de 350 a 500 dólares por mês. Assim que chegamos, liguei pra quase todos, agendamos visitas, vimos não mais que quatro prédios, e optamos por este em que estamos, que é muito bom. Pagamos um aluguel de US$ 385, o que inclui água e calefação (indispensável neste frio). Mas certamente liguei pro Forest Arms, e acho que não havia vagas na ocasião. Ainda bem...

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

PEDAÇO DO PENÚLTIMO DIA DO ANO EM DETROIT

Último domingo. Decidi sair um pouco porque o maridão, além de mal-humorado, monopolizava o computador. E o tempo estava bom, só um ou dois abaixo de zero. Não pense que gosto de morar num lugar onde a gente se acostuma a achar que zero grau sem neve é tempo bom. Mas o fato de não ter neve ou gelo ajuda. Só havia uns resquícios da última neve, quase nada. Do boneco que o zelador moldou na frente do nosso prédio sobraram apenas os restos mortais, uma nevinha na base. Então lá fui eu, vestida com meus habituais trajes de Abominável Boneco das Neves – gorrinho, luvas, duas calças, casacão imenso comprado por oito dólares no Exército da Salvação, cachecol colorido pro look ficar menos sombrio. O cachecol arco-íris funciona; todo mundo olha pra mim como se eu fosse uma atração turística ou parte de algum desfile de Parada Gay. Mais de uma pessoa no supermercado já falou: “Adoro seu cachecol”. Eu nunca digo que comprei usado por US$1,50. Ah sim, e toda santa vez que o zelador me vê ele comenta como estou bem agasalhada, já que minhas orelhas estão cobertas. Ele diz isso sem gozação, mas outros me fitam como se eu fosse um modelo do exagero ambulante. Eu não me importo nem um pouco. Prefiro passar vergonha do que frio.

Neste meu passeio dominical, aproveitei pra levar garrafas e potes de plástico pra reciclar (acredite, nos pontos de coleta não há lugar pra vidro. E sempre levo pro meu escritório na universidade um monte de papelão e jornal velho. As duas caixas estão transbordando, e não são recolhidas. Sinceramente, acho que ninguém recicla nada por aqui. E não é algo de Detroit. Tive a mesma impressão em Chicago e Washington. O país que mais gera lixo no mundo não parece interessado em reciclá-lo). Levei também um DVD pra colocar numa caixa do correio (não se preocupe, vou escrever uma coluna inteira sobre isso). Peguei a edição mais recente de um tablóide grátis. Saí à cata de esquilinhos perdidos, sem muito sucesso. Voltei pra casa e narrei minha aventura pro maridão, após conseguir arrancá-lo da frente do computador.

- Não tinha uma alma na rua. Nem alma de esquilinho. Não sei por que gastam tanto nos filmes pra esvaziar algumas ruas. Sabe que em “Eu Sou a Lenda” uma só cena de Nova York vazia custou 5 milhões de dólares? Podiam ter filmado tudo aqui, e consertar com efeitos digitais.

- Mas ninguém quer ver Detroit vazia. Querem ver NY vazia.

- Bom, praticamente a única alma que encontrei foi um gato branco. Ele olhou pra mim, eu olhei pra ele. Pensei em jogar um amendoim pra ele. Pensei em tocar nele, mas fiquei com receio que ele me seguisse pra casa. Mesmo assim, antes que eu me decidisse, ele fugiu.

- Como aquela cena em “Eu Sou a Lenda” entre o Will Smith e um morto-vivo.

- Amor, espero que nessa sua comparação eu seja o Will Smith. Ah, sabe o que mais eu vi? A loja nova na esquina que vende bebida colocou um cartaz imenso na calçada: “Open. Liquor”. Dá pra ver o cartaz daqui da janela. Mas tem uma palavra embaixo que só deu pra ler lá perto: “Groceries”.

- E o que é “groceries”?

- De novo?! Não vou traduzir pra você pela terceira vez! Você sempre pergunta isso!

- “Groceries” tem a ver com as atitudes estúpidas da Lolinha?

Aí eu tive que rir durante cinco minutos ininterruptos. Nesse meio-tempo o maridão não deu trégua: “Tem uma segunda definição pra palavra, fora o comportamento lolístico? Por exemplo, quando a Lolinha não tá por perto, o que significa 'groceries'? É como o pessoal da loja trata os fregueses?”. Quando finalmente parei de rir, expliquei que só um completo analfabeto em inglês pode confundir “groceries” com “grosserias” e que “grocery” quer dizer produtos comestíveis à venda, tipo secos e molhados. Continuei minha saga:

- Só na volta vi um esquilinho. Ele estava em duas patas, tentando morder uma luzinha de Natal numa árvore. Eu chamei, e ele não veio, lógico, mas pelo menos virou na minha direção.

- E aí você acertou um amendoim na cabeça dele, pra variar?

- Não, anjo. O primeiro amendoim pousou na frente dele, mas ele não viu. O segundo ele pegou. Ele comeu de costas pra mim. Tão grocery, esse esquilo. E depois eu quase fui atropelada pelo único carro na cidade.

- A única pedestre da cidade atropelada pelo único carro? Minhas saídas não são tão emocionantes como as suas.

Enfim, apesar do atraso, faço minhas as palavras do maridão e desejo a todos um ótimo reveillon, e um 2008 sem groceries.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

ANDAR DE ÔNIBUS É UMA AVENTURA

Entrei no ônibus e uma moça (negra, como 90% da população que anda de buzum em Detroit) estava sentada num assento do corredor, bloqueando a cadeira ao seu lado. Como havia outros lugares, eu nem liguei, mas ela me encarou feio. Daí entrou uma senhora, que pediu licença pra sentar ao lado da mocinha. A menina olhou feio pra ela e fez que não com a cabeça. Pra evitar confusão, apontei um outro lugar pra mulher sentar. Mas a essa altura eu já havia notado que a moça era uma bomba relógio, prestes a explodir. Um parênteses: é comum em Detroit uma só pessoa tomar o assento do lado colocando uma mochila ou algo assim em cima. O que acontece é que quando alguém diz “Excuse me”, o anti-cidadão desocupa a cadeira. Em Chicago essa falta de educação não existe, porque lá há uma cultura de uso de transporte público. Provavelmente lá não tiveram que enfrentar décadas de lobby de empresas automobilísticas barrando qualquer tentativa de melhorar o que chamam por aqui de “mass transit”. Mas voltando ao meu buzum. Um rapaz entrou, viu o assento vazio ao lado da mocinha bomba relógio, e pediu pra passar. Ela fez o que tinha feito com a senhora, negou com a cabeça. O cara insistiu, ela negou, e ele disse: “Olha, eu vou sentar nessa m**** de lugar”. E foi passando por cima. A motorista (há várias motoristas mulheres), ao ouvir o palavrão, chamou a atenção dos dois. Mas aí já era tarde, porque a mocinha gritava: “Não me toque! Não encosta em mim, seu fdp!”. A motorista mandou os dois saírem do ônibus e, como ninguém se mexeu, ela encostou na beirada, pediu o celular de alguém emprestado, e chamou a polícia, que chegou rápido. A moça já tinha ido pra trás do ônibus e berrava com todos sentados por lá. O policial – branco, diga-se de passagem; só tem negro na cidade mas a polícia é branca – quis saber o que havia acontecido, e todos defenderam o carinha. Só que todos falavam ao mesmo tempo, e ele elegeu uma só alma (eu! Por que eu era a única branca ou por ser tranquila?) pra relatar os fatos. Tiraram a moça do ônibus, pediram pro carinha prestar queixa, e em seguida o policial voltou pra avisar que a menina tava portando uma faca de seis polegadas (a única coisa que conheço em polegadas é televisão), e que ela seria presa. Já eu acho que ela precisa de tratamento psiquiátrico, não de cadeia.

Foi um bafafá no ônibus. Todos só falavam nisso. A jovem do meu lado relatou tudo pra uma amiga pelo celular, acrescentando que é a quarta vez que a polícia prende alguém num ônibus.

Pra mim foi a primeira, mas o que não falta por aqui é gente com parafuso solto. Muitas criaturas falando sozinhas, inclusive com violência. E claro que tem os surtados dos celulares. Outro dia uma moça brigou publicamente com o namorado pelo celular, pra todo mundo ouvir. Ele tava pondo as coisas dela pra fora da casa, e ela o xingava de tudo quanto é nome. E o pessoal no ônibus ouvindo tudo, ora constrangido e incomodado (meu caso), ora torcendo e aplaudindo!

Tem os que parecem mais calminhos, só aguardando uma chance pra manifestar suas neuroses. Faz pouco tempo uma moça (esta branca) aproveitou o tempo no ônibus pra começar uma conversa comigo. Em questão de minutos o papo virou um monólogo ininterrupto de meia hora, em que a garota narrou seu romance não-correspondido com um homem casado e as tentativas de seus pais em interná-la. Ahn, eu só tô nos EUA há dois meses e meio, e ando de ônibus poucas vezes por semana. O que mais vou encontrar pela frente?

Uma hipótese pra tantos perturbados é que, com o colapso do sistema público de saúde (como mostra o excelente documentário do Michael Moore, “Sicko”), essa gente toda não tenha como se tratar. De qualquer jeito, juro que tenho muito mais medo de um louco sacar sua metralhadora num ônibus e atirar em todo mundo do que em ser assaltada.

Placas Incompreensíveis

Ganha um cachorro-quente quem decifrar a placa do meio aí em cima. Já perguntei pra várias pessoas dentro do ônibus e ninguém soube responder. “Não fumar” e “Não ouvir música alta“ até são fáceis, símbolos praticamente universais. Mas a do meio eu só descobri porque uma outra companhia de ônibus põe as coisas por escrito, e tá lá: “Proibido comer no ônibus”. Só então entendi que a placa tem um hot-dog e um copão de refrigerante atravessados por uma faixa. Viu? Não é “Proibido arrancar o motor do ônibus”, como chutou o maridão.

sábado, 11 de agosto de 2007

PRIMEIROS DIAS

Ainda estou tentando entender Detroit, que não é tão diferente de várias cidades americanas. Ou seja, os subúrbios sao brancos e ricos, e a cidade em si é meio pobre. No que eles chamam de “Metro Detroit” vivem cerca de 900 mil habitantes, 80% deles negros. É óbvio que só essas pessoas andam de ônibus, porque quem mora no subúrbio precisa de carro pra chegar lá. Essa enorme segregação já existia, e piorou após uma revolta da população negra em 1967. Os brancos fugiram pros subúrbios e, com eles, os impostos que pagavam. As escolas suburbanas arrecadam mais, e, consequentemente, são muito melhores que as de Metro Detroit. Mas acho que a área em que estamos, que é a cultural, a da universidade (e também o centro), é vista como uma área boa da cidade. Aqui é lindo, muitas árvores, arquitetura antiga, tudo plano, calçadas limpas e inteiras... Mais pra frente, e até chegar ao grande divisor que é considerado 8 Mile (do filme com o Eminem), a situação já é bem pior. E depois de 8 Mile vem a opulência dos subúrbios. Pra mim e pro maridão é estranho viver num lugar tão segregado, mas todos nos tratam muito bem. Aqui todo mundo fala “Excuse me” (“Com licença”), segura as portas (pesadíssimas, pra barrar o frio do inverno), agradece se você segura porta, aperta o botão do elevador pros outros, diz “Have a nice day”, pára e responde quando pedimos informações, e, na maioria das vezes, se houver contato visual, dispara um “Good morning” ou “Good Afternoon”, essas coisas. Um amigo nativo disse que o pessoal é mais politicamente correto do que propriamente educado ou simpático. Nao sei o motivo de tanta cortesia, mas só posso apreciar esse tipo de comportamento, ué. Muito melhor que em Moscou, por exemplo, onde ninguém segura porta pesadona nem pra mulher com bebê de colo, e todos esbarram nos outros, sem jamais pedir desculpas! E no Brasil? Se é pra generalizar,vou dizer que brasileiro é mais simpático que educado.