E pra você, como foi seu 2023? E o que você espera pra 2024? Torço para que seja um ano incrível! (e lembre-se: hoje e sempre, nada de fogos, por favor! Ninguém precisa de barulho e pólvora pra comemorar alguma coisa).
E pra você, como foi seu 2023? E o que você espera pra 2024? Torço para que seja um ano incrível! (e lembre-se: hoje e sempre, nada de fogos, por favor! Ninguém precisa de barulho e pólvora pra comemorar alguma coisa).
Pessoas queridas, como só restou eu em toda a internet (estou me sentido o Will Smith em Eu Sou a Lenda), porque pelo jeito todo mundo foi viajar pra uma terra sem conexão, vou ficando por aqui em 2013. Tinha escrito uma retrospectiva pessoal do meu ano, mas deixarei pra ser publicada amanhã -- quando continuarei vendo rolos de feno passando na minha frente na internet.
Conheçam a Consuelo, minha irmã caçula (à esquerda, lógico). Ela mora na Califórnia e veio passar três semanas no Brasil, das quais uma em Joinville. Ela foi pra São Paulo (e levou minha mãe) ontem de manhã. Sua breve temporada aqui em casa foi muito legal. Pela primeira vez em muito tempo eu me senti de férias. Papeamos, vimos filmes, jogamos Scrabble (palavras cruzadas) e ela “me deixou ganhar” (palavras dela) não apenas uma, mas todas as três vezes! E no gamão também. Um anjo, essa minha irmã. E pra coroar, vejam o que ela fez:
Não sei se essa foto consegue começar a descrever como essa lasanha de carne e (muito) queijo é fantástica. Vocês não fazem idéia. Ontem eu comi uns pedaços frios, sem requentar, e tava melhor do que nunca. A Consu conta que, pra engrossar o molho de tomate, coloca abóbora, pra dar uma textura especial. Nem dá pra sentir a abóbora, mas realmente fica divino. Que minha mãe não me leia, mas essa lasanha bateu as duas tortas de frango, o bife acebolado (ninguém tirou foto, mas é delicioso também, e vai carne, toda a cebola do mundo, creme de leite, queijo ralado, e noz moscada), o Imperial Cake e, ouso dizer, até o Sacher Torte. Enfim, esse foi O Prato do final de ano.
Reconheceram o Calvin, refastelado entre as peças da mesa de xadrez feita pelo maridão? E o gatinho nem comeu lasanha! Agora preciso tomar jeito, tanto na comida como no andamento da tese, leituras e tal. Mas na próxima reencarnação quero nascer gato.
Último domingo. Decidi sair um pouco porque o maridão, além de mal-humorado, monopolizava o computador. E o tempo estava bom, só um ou dois abaixo de zero. Não pense que gosto de morar num lugar onde a gente se acostuma a achar que zero grau sem neve é tempo bom. Mas o fato de não ter neve ou gelo ajuda. Só havia uns resquícios da última neve, quase nada. Do boneco que o zelador moldou na frente do nosso prédio sobraram apenas os restos mortais, uma nevinha na base. Então lá fui eu, vestida com meus habituais trajes de Abominável Boneco das Neves – gorrinho, luvas, duas calças, casacão imenso comprado por oito dólares no Exército da Salvação, cachecol colorido pro look ficar menos sombrio. O cachecol arco-íris funciona; todo mundo olha pra mim como se eu fosse uma atração turística ou parte de algum desfile de Parada Gay. Mais de uma pessoa no supermercado já falou: “Adoro seu cachecol”. Eu nunca digo que comprei usado por US$1,50. Ah sim, e toda santa vez que o zelador me vê ele comenta como estou bem agasalhada, já que minhas orelhas estão cobertas. Ele diz isso sem gozação, mas outros me fitam como se eu fosse um modelo do exagero ambulante. Eu não me importo nem um pouco. Prefiro passar vergonha do que frio.
Neste meu passeio dominical, aproveitei pra levar garrafas e potes de plástico pra reciclar (acredite, nos pontos de coleta não há lugar pra vidro. E sempre levo pro meu escritório na universidade um monte de papelão e jornal velho. As duas caixas estão transbordando, e não são recolhidas. Sinceramente, acho que ninguém recicla nada por aqui. E não é algo de Detroit. Tive a mesma impressão em Chicago e Washington. O país que mais gera lixo no mundo não parece interessado em reciclá-lo). Levei também um DVD pra colocar numa caixa do correio (não se preocupe, vou escrever uma coluna inteira sobre isso). Peguei a edição mais recente de um tablóide grátis. Saí à cata de esquilinhos perdidos, sem muito sucesso. Voltei pra casa e narrei minha aventura pro maridão, após conseguir arrancá-lo da frente do computador.
- Não tinha uma alma na rua. Nem alma de esquilinho. Não sei por que gastam tanto nos filmes pra esvaziar algumas ruas. Sabe que em “Eu Sou a Lenda” uma só cena de Nova York vazia custou 5 milhões de dólares? Podiam ter filmado tudo aqui, e consertar com efeitos digitais.
- Mas ninguém quer ver Detroit vazia. Querem ver NY vazia.
- Bom, praticamente a única alma que encontrei foi um gato branco. Ele olhou pra mim, eu olhei pra ele. Pensei em jogar um amendoim pra ele. Pensei em tocar nele, mas fiquei com receio que ele me seguisse pra casa. Mesmo assim, antes que eu me decidisse, ele fugiu.
- Como aquela cena em “Eu Sou a Lenda” entre o Will Smith e um morto-vivo.
- Amor, espero que nessa sua comparação eu seja o Will Smith. Ah, sabe o que mais eu vi? A loja nova na esquina que vende bebida colocou um cartaz imenso na calçada: “Open. Liquor”. Dá pra ver o cartaz daqui da janela. Mas tem uma palavra embaixo que só deu pra ler lá perto: “Groceries”.
- E o que é “groceries”?
- De novo?! Não vou traduzir pra você pela terceira vez! Você sempre pergunta isso!
- “Groceries” tem a ver com as atitudes estúpidas da Lolinha?
Aí eu tive que rir durante cinco minutos ininterruptos. Nesse meio-tempo o maridão não deu trégua: “Tem uma segunda definição pra palavra, fora o comportamento lolístico? Por exemplo, quando a Lolinha não tá por perto, o que significa 'groceries'? É como o pessoal da loja trata os fregueses?”. Quando finalmente parei de rir, expliquei que só um completo analfabeto em inglês pode confundir “groceries” com “grosserias” e que “grocery” quer dizer produtos comestíveis à venda, tipo secos e molhados. Continuei minha saga:
- Só na volta vi um esquilinho. Ele estava em duas patas, tentando morder uma luzinha de Natal numa árvore. Eu chamei, e ele não veio, lógico, mas pelo menos virou na minha direção.
- E aí você acertou um amendoim na cabeça dele, pra variar?
- Não, anjo. O primeiro amendoim pousou na frente dele, mas ele não viu. O segundo ele pegou. Ele comeu de costas pra mim. Tão grocery, esse esquilo. E depois eu quase fui atropelada pelo único carro na cidade.
- A única pedestre da cidade atropelada pelo único carro? Minhas saídas não são tão emocionantes como as suas.
Enfim, apesar do atraso, faço minhas as palavras do maridão e desejo a todos um ótimo reveillon, e um 2008 sem groceries.
