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terça-feira, 8 de julho de 2014

GUEST POST: SORORIDADE QUASE NA MADRUGADA

A Lis me enviou este email:

Sou muito fã do seu blog! (você não sabe o quanto ele tem me ajudado).
Dentre os vários assuntos que você já abordou, nunca vi nada sobre o que eu pretendo te perguntar agora, mas é algo recorrente na minha vida agora.
Deixa eu explicar: nunca fui muito crente no conceito de sororidade. Sempre tive a impressão que as diferenças separavam mais que as semelhanças uniam, até que, há poucos meses, passei no vestibular pro curso de História, que é ministrado durante a noite, numa universidade pública na minha cidade. Eu (que estou apaixonada pelo curso) sempre acabo saindo mais tarde da aula, seja para tirar dúvidas com os professores, seja por festas no campus.
Acontece que minha aula termina às dez da noite e eu nunca saio de lá antes das onze, o que já é um horário extremamente deserto durante a semana.
Durante meus primeiros dias de aula, passei por experiências.. complicadas, de ser seguida até o ponto de ônibus, quase ser assaltada no ponto, coisas do tipo.
Até que mais recentemente, as coisas mudaram. Eram onze e meia e estava parada no ponto, até que chegam mais duas meninas, que aparentemente não se conheciam. Nós tivemos o seguinte diálogo:
- Oi, você tá esperando o ônibus?
- Sim.
- Você se importa da gente esperar com você? É que esse horário tem sido muito perigoso aqui.
E eu respondi aliviada que era ótimo ter companhia naquele horário.
E durante algum tempo, eu e as meninas do ponto combinamos de nos encontrarmos antes de ir embora, pra não corrermos o risco de esperar o ônibus sozinhas na rua deserta. Acontece que o que começou com três garotas, agora já são oito! A gente deixou combinado de se encontrar sempre às onze e meia, assim nenhuma de nós ficava sozinha.
Eu ainda acho meio triste uma mulher não poder ficar sozinha de noite sem ter que temer algo muito pior que um assalto (já ouvi essas histórias na universidade, o suficiente pra ficar com medo). É triste que nenhuma reclamação com autoridades tenha resolvido.
Mas por outro lado, eu estou feliz: "proteja suas irmãs", era isso o que vocês (nós, estou pensando em entrar para o coletivo da universidade!) feministas queriam dizer com sororidade?

Meu comentário: Claro, Lis, isso é sororidade, que é o mesmo que fraternidade, só que numa versão feminina. E, na cultura em que vivemos, algo muito mais difícil de se conseguir. 
Mas é o que eu sempre me pergunto: por que mais mulheres não fazem isso que vocês fizeram? Não sei se é porque muitas de nós ainda somos educadas para sermos dependentes dos homens (só um homem pode nos proteger... de outro homem!), ou se é porque uma sociedade misógina repete sempre que mulher não é de confiança, que mulheres não podem ser amigas. Deve ser uma combinação das duas coisas. Isso e mais o fato de vivermos numa sociedade capitalista e individualista, que prega que é cada uma por si, vire-se como puder. 
E você viu como uma conversinha simples pode ajudar. Isso não deveria acontecer só num ponto de ônibus de faculdade, mas em qualquer lugar. Ao descer do ônibus junto com outra mulher, ou ao ver outra mulher andando na rua, à noite, não custa nada perguntar pra ela se vocês podem andar juntas. 
Obviamente que esses simples atos não devem parar nossa luta pelo direito de andar num espaço público (e também no privado, que é muito mais perigoso do que se diz -- 28% das mulheres assassinadas são mortas dentro da casa onde vivem) sem sermos atacadas, e as exigências para que a universidade garanta um campus seguro e iluminado, e o clamor para que toda a cidade seja para todos. Mas são pequenos gestos, que podem impedir maiores abusos. 
E entre sim no coletivo feminista da sua universidade! Tenho certeza que você vai gostar. Juntas somos mais fortes!

segunda-feira, 30 de junho de 2014

ASSENTOS PREFERENCIAIS PARA MULHERES EM ÔNIBUS

Fortaleza como é hoje, exceto sem preferencial para obesos

Na última quarta, a Câmara Municipal de Fortaleza aprovou o projeto de lei 0097/2014, do vereador Carlos Dutra (Pros). O projeto diz que todos os assentos de ônibus e vans na cidade devem ser preferenciais para mulheres, idosos, obesos e pessoas com deficiência. 
Se o projeto for sancionado pelo prefeito, as empresas terão um mês para, logo na entrada do ônibus, colocando uma placa avisando que todos os assentos são destinados, de preferência, para esses grupos. 
Como vocês podem ver, é uma medida pra lá de polêmica. O vereador autor do projeto diz que o caráter é educacional, e que a intenção é coibir abusos sexuais dentro dos coletivos. 
Carlos Mazza, repórter do jornal O Povo, me procurou para uma entrevista, que republico aqui.

1) A reserva de assentos de coletivos para mulheres é uma forma adequada de combater abusos sexuais nos ônibus e vans? Caso sim; por quê? Caso não; que medidas seriam mais adequadas?
Eu: Não tenho opinião formada sobre isso. A questão de, por exemplo, vagões e ônibus especiais para mulheres, é polêmica entre as feministas. A maior parte dos coletivos feministas são contra, porque não são a favor da segregação. Além do mais, em lugares onde há vagões exclusivos, como nos trens do Rio de Janeiro, a lei não é respeitada. 
Quanto aos assentos preferenciais, creio que uma medida mais adequada seria fazer campanhas institucionais, com a colaboração da grande mídia, principalmente das redes de TV, contra os abusos sexuais. Muita gente ainda não sabe que esses abusos são crimes. Seria interessante ter uma campanha explicando isso, encorajando as mulheres a denunciar e a reagir, pedindo a colaboração da população em geral para coibir isso. 
O objetivo seria conscientizar as pessoas que esse tipo de comportamento é totalmente inaceitável socialmente. Também seria interessante que houvesse treinamento de motoristas e cobradores para que eles soubessem como agir quando um abuso é detectado. Porém, sem a melhoria do transporte público de modo geral, a situação não mudará a contento. É fácil abusar num ônibus lotado.
Sem falar que com as leis de hoje já há muita gente que não respeita. Uma pesquisa da revista Pais e Filhos mostrou que 61% das mulheres entrevistadas ficam em pé no ônibus, porque ninguém cede lugar. Apenas 27% disseram ter a sorte de encontrar um lugar para sentar do início ao fim da gravidez. 24% das pessoas fingem dormir para não ceder lugar às grávidas. 
Não há dúvida que o abuso sexual é uma constante no transporte público, e algo traumático para milhares de mulheres todos os dias. Mas não sei se reservar assentos é a solução. Há mulheres que são abusadas mesmo sentadas, com homens que se esfregam (e até ejaculam) nelas. E também não sei como fica a questão do assento preferencial. Se uma pessoa com deficiência quiser sentar num assento ocupado por uma mulher, a mulher deve ceder, certo? 
Certamente uma mulher grávida precisa muito mais do assento que uma mulher não grávida. Um idoso deve ter prioridade sobre uma mulher sem deficiências. Essas prioridades estão previstas no projeto? É estranho também um projeto que não prevê sanções.

2) Você, como autora de um blog feminista de grande visibilidade, costuma receber reclamações ou denúncias sobre este assunto, de assédios em coletivos? Por que esses casos acabam sendo tão comuns?
Eu: Sim, muitos. Casos de abuso são muito comuns, se bem que, desde que comecei o blog, em 2008, fiquei sabendo de um tipo de abuso que sequer imaginava: abuso sexual de meninas e mulheres que dormem em longas viagens de ônibus, como em viagens intermunicipais.e interestaduais. E acordam com um homem que as bolina ou que está se masturbando do lado delas. 
Não sei por que casos de abuso são tão comuns. Acho que é porque a impunidade reina. Ainda há uma aceitação social grande acerca disso, ainda é tratado como piada -- é só ver o quadro do programa humorístico Zorra Total, que há anos mostra duas amigas num metrô, uma delas dizendo pra outra "aproveitar" por estar sendo encoxada, já que é uma oportunidade pra ela. 
Também acho que as mulheres deveriam reagir mais. Sei que a primeira reação é se culpar e ficar com vergonha, mas é preciso criar um ambiente de solidariedade feminina. A esmagadora maioria das mulheres já passou por isso, então por que se calar? Tem que botar a boca no trombone! 
Eu gostei que um coletivo feminista fez um ato numa estação de metrô de SP por causa da onda de "encoxadores", e distribuiu apitos para as mulheres. A ideia é ótima: é que todas as mulheres comecem a apitar quando houver um abusador num ônibus.

3) Nas redes sociais, muita gente comenta que a lei pode ter “efeito inverso”, gerando mais atitudes de preconceito contra usuárias de transporte público. Você concorda com essa opinião? 
Eu: Não concordo. Essa "ameaça" do efeito inverso sempre é feita quando se tenta corrigir alguma injustiça. Na questão das cotas raciais para ingresso nas universidades públicas, por exemplo, falou-se muito em "efeito inverso", que as cotas gerariam ainda mais racismo, e não foi isso que aconteceu. Qual seria o efeito inverso no caso dos assentos preferenciais para mulheres? Alguns homens passariam a abusar ainda mais delas? Não creio. 
O que pode acontecer é que a lei não seja respeitada. De todo modo, acho que há uma falta de campanhas de conscientização sobre diversos assuntos, entre eles como se comportar no transporte público. Aqui em Fortaleza há o costume de se oferecer para segurar as bolsas ou pacotes de quem está em pé ao seu lado? Eu não sei porque não pego muito ônibus. Tenho o privilégio de poder ir andando pro trabalho. 
Como eu demorei pra responder, Carlos teve que publicar a matéria sem as minhas respostas. Depois ele editou e incluiu parte do que falei.
Não fiquei satisfeita com as minhas respostas, então perguntei à ativista Ana Eufrázio como os coletivos aqui de Fortaleza têm se posicionado sobre o assunto, e ela respondeu:
"A tendência dos coletivos é de achar que a medida é uma espécie de machismo. No entanto, ainda não há nada fechado com relação a isso. As meninas questionam a medida porque acham que isso não se tornará fator impeditivo ao assédio. Além disso, o pessoal está dizendo coisas como 'é como se eles colocassem a mulher como deficiente",  "mas na real a medida não vai evitar o assédio, os caras se esfregam nos nossos braços, não acho que assim resolva alguma coisa mesmo, só faz reforçar o estereótipo da mulher que precisa ser cuidada, por ser frágil', 'tal atitude não evita e tampouco diminui abuso e/ou assédio sexual, pelo contrário, gera um forte recorte de gênero. É muita conversa pra boi dormir achar que essa atitude irá combater opressões no transporte coletivo', 'O que eles precisam entender é que queremos direitos iguais e não uma palhaçada dessas'."
Ana continua: "minha opinião a respeito é que esse projeto é um desserviço ao movimento feminista. Cria privilégios para a mulher e reacende a discussão sobre as diferenças entre os gêneros (tipo fragilidade, protecionismo, incapacidade de se defender sozinha). O que ocorre é que o setor de transporte não quer resolver o problema das lotações nos transportes públicos e através dessa manobra tenta resolver um problema cultural. 
"Uma manobra como essa não resolve o problema do assédio no transporte público, até mesmo porque sabemos que a medida não vai provocar uma mudança cultural desse porte. Acho que os homens não vão se sentir obrigados a ceder os assentos para as mulheres, nem se sentirão constrangidos de se masturbarem ou se exibirem para nós. 
"Esse tratamento desigual abre margem para outras medidas que, de repente, a partir da construção desses estereótipos, podem provocar a cassação de direitos femininos (como por exemplo a inserção ou participação feminina na construção civil), ou a acirrar a briga entre os sexos. A questão pode ser usada como um privilégio feminino em detrimento aos direitos masculinos."
Como vocês veem, não há qualquer tipo de consenso. É preciso discutir muito mais o assunto. E eu insisto na necessidade de conscientização e educação. É preciso mudar a cultura. 

sábado, 22 de março de 2014

GUEST POST: O TRANSPORTE PÚBLICO E AS MULHERES

Geralmente, quando se fala de transporte público, não se dedica atenção especial às mulheres, mesmo que elas sejam a maioria das usuárias. O Coletivo Tarifa Zero, de Goiânia, que faz parte do Movimento Passe Livre, tenta contornar essa falha. 
Ano passado publiquei um guest post do Coletivo Feminista Pagu Baixada Santista sobre o tema, e agora publico este do Coletivo Tarifa Zero.

Quando se propõe tarifa zero, pensa-se a partir de uma perspectiva de direito à cidade. Enquanto sujeitos que a reconstroem cotidianamente, devemos ter pleno acesso a ela, a seus locais de cultura, lazer, estudos. Até para nos organizarmos politicamente necessitamos deste acesso. 
Por conta da mercantilização do transporte público, este direito à cidade só é dado plenamente a quem possui transporte próprio (ainda que estes tenham que enfrentar longos engarrafamentos e trânsito lento, resultado direto do foco de investimento do poder público no transporte individual, ao invés do transporte público). Usuárixs do transporte público, que são sobretudo da classe trabalhadora, têm acesso restrito à cidade, principalmente pelo deslocar-se estar atrelado ao ter ou não dinheiro.
A catraca é um impedimento ao direito à cidade, uma vez que ela seleciona quem pode ou não pode locomover-se. A catraca, portanto, é um símbolo que representa tudo aquilo que impede nosso acesso: a tarifa, a superlotação, os atrasos dos ônibus, as más condições, enfim, tudo que se relaciona com a lógica mercantil do transporte público.
Embora todos os usuárixs sofrem com a péssima qualidade, com a tarifa e outras catracas que limitam nosso direito à cidade, a vivência, demandas e prioridades possuem particularidades, pois não falamos de indivíduos abstratos e sim de indivíduos que pertencem a uma classe, gênero, cor, entre outras questões. De forma que às vezes os mesmos problemas são enfrentados de formas diferentes, tendo consequências distintas.
Analisando a questão do transporte a partir do recorte de gênero, têm-se uma realidade histórica em que o direito à cidade é negado às mulheres. Seu papel é reduzido ao âmbito privado, ao lar, enquanto o âmbito público, é encarado como lugar legítimo dos homens. Mesmo com os avanços resultantes de muita luta, principalmente do movimento feminista, esta questão ainda não se alterou de forma significativa, pois até hoje entende-se que há locais e horários em que as mulheres não devem circular, sendo que, caso aconteça algo, como um estupro, coloca-se a responsabilidade na mulher. Logo:
Se aventurar na rua, sob o ponto de vista feminino é desobedecer a avisos, se arriscar a enfrentar situações para as quais foram diversas vezes alertadas, lidar com ameaças, com o medo (mais uma vez o medo). (…) Entre essas consequências e regras de se andar em territórios alheios, que variam em intensidade e formas, uma das mais comumente enfrentada são as 'cantadas', que compõem o que chamo aqui de assédio de rua. Este tipo de assédio é peça chave na constante lembrança do não pertencimento feminino à rua de forma que, nos espaços públicos, elas são, ao mesmo tempo, invisibilizadas enquanto sujeito e hipervisibilizadas enquanto objeto".
Esta objetificação se dá por meio do entendimento que o corpo da mulher quando presente em um espaço público, também se torna público. É dado o direito, principalmente aos homens, de observá-lo, de apalpá-lo e em casos mais extremos, de se apropriar dele, como é o caso do estupro. Isso é tão naturalizado, que recorrentemente, responsabiliza-se a mulher por tais casos, fala-se de suas vestimentas, do horário em que estava na rua, de provocação por parte dela e até admite-se que ela gostou do abuso. Essa situação cria uma atmosfera de medo e insegurança, levando a própria mulher a limitar sua mobilidade pela cidade, principalmente à noite. 
Assim, quando se tem uma frota muito baixa em horários noturnos, pontos distantes uns dos outros, pontos em locais mal iluminados, questões que, além de causar incômodo, cansaço, medo de assalto, para a mulher causam, principalmente, medo de ter seu corpo violado. Mesmo que nada aconteça, os minutos de caminhada, as horas de espera, constituem-se em momentos de angústia, o que se agrava quando os ônibus não circulam de madrugada, como é o caso em Goiânia, em que os ônibus param à meia noite, exceto o eixo, que passa em certas regiões, de uma em uma hora. E se a usuária perder o último ônibus para ir para casa? Só de pensar nessa possibilidade já se cria uma situação de pânico. Tais situações de intensa angústia causam desestímulo, por vezes fazendo com que a mulher deixe de sair de casa por conta do medo.
A superlotação, que é uma realidade em todas as cidades, cria uma situação extremamente desconfortante, por conta do calor, do mau-cheiro, da falta de mobilidade, do aperto, e ainda cria um agravante para a mulher: o abuso. Infelizmente, são comuns os relatos de homens que se aproveitam desta lastimável situação para se esfregarem nas mulheres, para encoxá-las e mesmo para apalpar seus corpos
Esta situação é tão banalizada e naturalizada, que um famoso quadro humorístico da televisão reproduz estas situações, afirmando que as mulheres deveriam apreciar tais violências. Mas se a superlotação é um problema, o transporte vazio não é menos intimidador, pois dá maior liberdade de exposição ao agressor. São frequentes os relatos de homens se masturbando ou sentando próximos às mulheres para tocá-las. A situação chegou a tal ponto, que os próprios agressores abrem páginas para compartilhar suas agressões dentro do transporte público.
Outro entrave nessa intensa luta pelo direito à cidade é a tarifa. A tarifa é um problema para todxs, pois é o símbolo máximo da mercantilização do transporte, em prol dos lucros milionários das empresas, em que os usuárixs não possuem nenhuma forma de controle do transporte público. O ter ou não dinheiro torna-se imperativo para poder locomover-se. Se este é um problema para todxs, para as mulheres a questão se torna ainda mais problemática, pois, devido à desigualdade de gênero, pelo simples fato de ser mulher, ganha-se um salário menor, nas mesmas condições de trabalho. 
As mulheres recebem apenas 73,7%. do salário do homem, sendo que 33% delas recebem até um salário mínimo, com média mensal de R$ 1.238, enquanto a média do salário dos homens é de R$ 1.698. 9% das mulheres são empregadas sem remuneração, somente com benefícios, enquanto 4,9% dos homens trabalham em tais condições. O dinheiro gasto com a tarifa leva embora uma fatia mais significativa do salário da mulher, impedindo ou ao menos restringindo sua mobilidade, ou seja, seu direito à cidade. 
Além do salário menor, os afazeres domésticos também são delegados à mulher: quase 90% das mulheres que trabalham fora também cuidam da casa, contra 46% dos homens na mesma situação, sendo que enquanto eles gastam em média 9,2 horas por semana, elas comprometem 20,9 horas semanais, isto é, a carga horária feminina de afazeres domésticos equivale a ter um segundo emprego de meio período sem receber nada
Tal realidade cria uma situação de desgaste e cansaço mais intenso para a mulher. Desta forma as situações já deploráveis do transporte, como o longo tempo de espera, a competição para conseguir entrar nos ônibus, o tempo perdido nas rotas deliberadamente longas para possibilitar a superlotação, são sentidas por boa parte das mulheres como ainda mais desgastantes, pois boa parte do seu dia é gasto com trabalho, fora e dentro de casa. 
O ter filhx(s) contribui para a utilização maior do transporte público, pois é necessário ir aos locais junto a eles, ônus que recai sobre a mulher. Quando os filhos ficam doentes são as mães que cuidam, em 90% dos casos, em oposição a 15% dos pais; 89% delas levam os filhos ao médico ou dentista em contraposição a 22% dos pais; 78% delas vão a reuniões na escola, em oposição a 21% dos pais. 
Sendo assim, o transporte público se torna um fardo ainda maior para a mulher, que não somente tem que lidar com esta situação sozinha, como também tem de acompanhar os filhos. Se pensarmos em uma mãe solteira, que tem que bancar tais deslocamentos, seu e do(s) filho(s), a situação se torna mais preocupante ainda, pois como exposto, a situação econômica da mulher é mais precária.
Os problemas agravados pelo fato de ser mulher no transporte -– e fora dele -– são muitos, e são de ordem econômica, sexual, de trabalho. Abordamos aqui a questão da mulher, de forma geral, mas também caberia a questão dos negros, das pessoas trans, dos deficientes, dos idosos, das pessoas com problemas mentais, e tantas outras vítimas da mercantilização do transporte público. Esperamos que este texto contribua para o debate sobre a relação da mulher e do transporte público.
A luta pelo transporte é também a luta por melhores condições para a mulher, assim como a luta da mulher é também a luta por outra lógica de transporte público. Somente caminhando juntxs, entendendo a totalidade que enfrentamos enquanto usuárixs do transporte, mas sem negar as particularidades deste enfrentamento, é que avançaremos efetivamente na luta não só por um modelo de transporte diferente, mas também por outro projeto de sociedade.
Pelo fim da catraca do machismo!
Pelo direito à cidade a todas e todos!