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Lembram do penúltimo guest post, sobre uma leitora que engravidou duas vezes do mesmo namorado e fez dois abortos? A caixa de comentários foi um escândalo, com a maior parte condenando a moça. Bom, no mesmo dia uma leitora muito querida (que prefere se manter anônima) escreveu e me enviou um texto ótimo com algumas de suas reações. Ele é basicamente sobre como e por que ela ensina seu filho de três anos a se familiarizar com a camisinha. Taí o guest post, do qual só discordo da primeira linha.Imagino que todos nós concordamos que a Lola escreve bem melhor do que nós, que somos,
afinal, opinadores não especialistas nesta incrível arte da língua, mas, acho que o escrevalola, mais do que um blog de resenhas e textos, tornou-se uma plataforma de discussão e troca entre os leitores. Assim, a partir da polêmica dos guest-posts sobre o direito ao aborto, fiquei com vontade de compartilhar com vocês minha história.Em primeiro lugar quero dizer que não sou a favor do aborto! Sou a favor do direito da mulher em optar por interromper uma gravidez, de acordo com as situações específicas da sua vida, o que é bem diferente de ser “a favor do aborto”. Mas não é para dar minha opinião sobre a função do Estado na regulação das decisões individuais sobre o próprio corpo que estou aqui.O que eu quero mesmo é falar de outra coisa: de camisinha.Infelizmente nossa cultura, ainda extremamente baseada em ideais românticos, nos im
pede de encarar nosso corpo com mais naturalidade e respeito e a camisinha ainda não tem o lugar que mereceria ter na vida de todas as pessoas sexualmente ativas ou potencialmente ativas.Eu, como a maioria das mulheres, instruídas ou não, tive minha primeira relação sem o uso de preservativo, e continuei usando e não usando esporadicamente, de acordo com o grau de paixão que dava contorno ao meu envolvimento afetivo com o parceiro.Até que me envolvi com um homem que, pela primeira vez, usava a camisinha com imensa naturalidade, e essa desenvoltura tornou-se uma grande revelação sobre minha própria sexualidade. Não tinha vacilo, estávamos sempre protegidos e isso tornava o encontro muito mais divertido, porque era sem medos; éramos responsáveis. Nossa relação durou pouco mais de um ano e se desfez naturalmente por alguma razão, da qual não me recordo.Mesmo depois de
casada (não, não foi com aquele “rei da manipulação de preservativos”), e, mesmo tendo fases em que tentei usar métodos anticoncepcionais hormonais, eu sempre me senti melhor usando a camisinha. Parece que com o preservativo eu sou DONA do meu corpo, dos meus desejos, sem contar a praticidade do negócio.Eu e meu parceiro tivemos um filho, e depois dele continuamos a usar preservativo: hoje, quanto mais os anos passam, mais nossa vida sexual se enriquece e a camisinha é praticamente parte do fetiche e a bandeira da liberdade sexual entre nós (somos monogâmicos, há mais de uma década).
Então, acho que foi praticamente natural que um dia meu filho, de 3 anos, viu uma embalagem coloridinha e perguntou o que era, pediu para abrir. Desde esse dia ele diz que é o “Balão do Papai” e sempre pede para abrir uma para brincar. Ele enche de água, brinca como com qualquer outro objeto. Quando vou na farmácia, meu filho pede pra comprar balão do papai, escolhe pelas embalagens e volta faceiro pra casa com ela. Claro que sempre tem quem fique horrorizado em ver uma criança de 3 anos carregando um pacote de camisinha na mão, mas encaro com naturalidade.Ele não demonstra ainda, como qualquer criança de sua idade, nenhuma curiosidade sobre “de onde vem os bebês”, nem nada parecido. Outro dia me perguntou pra que o papai brincava com aquele balão, e eu disse que era pra por no pinto. E ponto. Falei o tamanho da verdade suficiente, sem criar
tabus, mas sem dizer o desnecessário. O que me interessa é que o uso deste objeto seja pro meu filho algo totalmente banal.Eu conto isso porque acredito que o preservativo deva fazer parte da educação das crianças como um objeto sem tabu. Assim como as ensinamos a escovar os dentes, assim como elas sabem que existe o fio dental, assim como temos molho de pimenta na mesa, ainda que elas não comam. Simples assim. Porque eu quero que o meu filho saiba que o uso do p
reservativo é fundamental para uma vida saudável. Espero, assim, estar contribuindo para menos crianças não planejadas daqui a 15 anos.Tenho certeza que se atitudes simples assim fossem tornadas políticas de saúde pública, poderíamos discutir o direito ao aborto sob outras premissas, que não a da religião, que não a da dominação de gênero.
No remake de 2010, a vingança é mais sangrentaI Spit on Your Grave (literalmente, Cuspo na sua Cova) é um filme mais famoso pelo seu título que por qualquer outra coisa. Pra você ter uma ideia, ouvi falar do troço bem no começo da década de 80, quando as locadoras de vídeo engatinhavam e só tinham filmes p
iratas (veja o trailer). Mas só vim a ver o filme alguns anos atrás, quando morava em Detroit. Foi na mesma época em que vi outro famoso exploitation, Ms. 45 (Anjo da Vingança), sobre o qual já escrevi aqui. I Spit é disparado o mais conhecido, tanto que foi refilmado no ano passado, recebendo o título de Doce Vingança (trailer aqui). Primeiro sobre o original, que foi lançado em 78 com o infame nome de Day of the Woman (Dia da Mulher), e que só passou a fazer relativo sucesso quando foi relançado dois anos depois, já com seu título apelativo. Era uma produção pequena, independente, bar
atinha, trash, com atores quase anônimos (se bem que a protagonista, Camille Keaton, tem parentesco com Buster Keaton). O diretor Meir Zarchi conta que decidiu fazer o bagulho depois de auxiliar uma vítima de estupro. Mas, né, vamos admitir: nenhuma produção com esse poster tem a menor intenção de discutir um assunto. Quer mais é explorá-lo, e é por isso que esse tipo de cinema é chamado de exploitation (às vezes, sexploitation). Ele segue uma fórmula: na sua primeira metade, uma mulher jovem, bonita e independente é barbaramente estuprada e espancada por vários homens. Na segunda parte, essa mulher parte pra se vingar dos seus algozes. O público (masculino, que é o público-alvo desse tipo de filme) é encorajado a gostar de ambas as partes. O crítico de cinema Roger Ebert narra que teve a infelicidade de ver o filme num cinema em Chicago daqueles tempos, e que ficou chocado com a reação da plateia. Os
homens riam, gritavam, aplaudiam ― primeiro torciam pelos estupradores, em seguida pra vítima vingativa. I Spit foi proibido em vários países por glorificar a violência contra a mulher. Corta pro século 21. Trinta anos depois, eis que surge o remake, produzido por Zarchi. Os tempos são outros, tempos de Jogos Mortais e similares que receberam a alcunha de torture porn. Ou seja, a violência deve prevalecer sobre o sexo. Portanto, as cenas de estupro na refilmagem são muito mais curtas e suaves que no original. Já as cenas de vingança são detalhadas e sangrentas. Esse des
equilíbrio entre o que a protagonista sofre e o sofrimento que ela inflige é bom e é ruim ao mesmo tempo. É bom porque não explora tanto cenas de estupro (como faz, só pra citar um caso notório, Irreversível, com nove intermináveis minutos de estupro), que são quase impossíveis de assistir para boa parte das espectadoras. É ruim porque o público pode achar que a vítima exagera na vingança, e que o que aconteceu com ela não foi tão grave, em comparação. Esse tipo de opinião lamentavelmente aparece nos fóruns de discussão do imdb. Além de montes de carinhas afirmando que se excitaram (ugh!) com as sequências de estupro e perguntando pras leitoras se a gente gostou, já que essa é, segundo eles, uma típica fantasia feminina, e que é improvável que uma moça bonita seja escritora (indagam eles: por que ela usaria a cabeça se tem um corpo legal?), eles ainda defendem os estupradores, d
izendo que eles não mereceram a castração, enforcamento, afogamento por ácido, ser comido vivo por corvos etc etc que acontece com eles. Um dos comentaristas ainda diz que estupro é só sexo, e que não acharia nada de mais se quatro ou cinco mulheres o estuprassem. Outro se empatizou com a vítima e profetizou: “O tema principal é a relação do homem com a mulher. O homem quer apenas comer a mulher e descartá-la. Fez-me sentir vergonha de ser homem. Se o homem não mudar a sua postura com relação a mulher, ela o elimina”. Algo que me chamou a atenção no original foi a independência e ausência d
e noção da protagonista. Ela fica numa casa sozinha no meio do nada, vários caipiras se aproximam dela, e não há nenhum traço de temor no seu rosto. Pelo jeito ela nunca ouviu falar em estupro. Não é que a moça dê trela pros rapazes, mas ela podia acordar pra realidade um pouco antes. No remake, ela sabe muito bem o risco que corre desde a hora que um dos caras põe a cara na porta. Em ambas as versões há toda uma subtrama que poderia ser interessante, mas não é desenvolvida: um dos estupradores é um rapaz com leve deficiência mental. E aí, ele merece a pena de mo
rte, como os outros? Ele tem ciência do que faz? O que mais me incomoda na versão de 78/80 é o modo como a vítima inicia sua vingança contra um a um dos estupradores ― seduzindo-os. O primeiro poster, ainda com o título original (ao lado), dizia que ela se vinga “do único jeito que ela pode”. Eca! No remake, ela simplesmente dá uma pancada na cabeça de cada um, o amarra, e o prepara pra segunda parte da sua vingança (que até parece que algum deles vai morrer assim fácil, sem sofrer). No remake a motivação de um dos estupradores é explicada (não justificada). Ele se sente humilhado quando vê a moça pela primeira vez. Além disso, os amigos dele dizem que ele jamais poderia ter uma mulher chique daquelas. Fica claro que o crápula a estupra pra humilhá-la de volta, pelo poder, não pelo sexo. Em compensação, no original, quando a protagonista é deixada para morrer, a câmera fica
com ela. O foco é nela, e a história mostra como ela se recompõe e como arma sua vingança. No remake a vítima apenas desaparece, e a história continua com os algozes. Daí seu ressurgimento parece totalmente implausível, como se ela fosse um fantasma vingador. Em nenhum dos dois filmes a protagonista é vista minimamente gostando do estupro, o que é uma enorme vantagem sobre clássicos como Sob o Domínio do Medo. Nem ela provoca, nem é apontada como culpada pelo que acontece com ela. E a tagline no poster do original diz: "Esta mulher acabou de cortar, quebrar e queimar cinco homens. No entanto, nenhum júri na América seria capaz de condená-la!" (ingênuo, o pessoal). O problema maior é que gang rapes são usados pra vender ingressos. Tem também quem faça uma leitura
feminista do original, mas acho essa interpretação discutível. Penso que uma história dessas só pode ser vista como pró-mulher se a noção que a pessoa faz de feministas for aquele clichê de castradora (literal!) de homens. Um crítico contestou a ideia que I Spit possa ser feminista dizendo que seria o mesmo que considerar luta de galos pró-galo só porque um dos galos costuma sobreviver. Concordo com ele. Controvérsias à parte, I Spit é o tipo de filme que não tem razão de existir. As duas versões foram concebidas só pra ganhar dinheiro (se bem que podemos falar isso de toda produção hollywoodiana). Obviamente ele não foi feito pra alertar as mulheres do perigo d
o estupro (a gente já sabe disso, acredite). Nem pra lembrar os homens do horror do estupro. A tendência é que o público masculino se choque muito mais com a rápida cena da castração do que com as intermináveis sequências de violência sexual. Fazer grana explorando temores leva o nome de exploitation. I Spit é o maior representante do gênero.
Os tempos definitivamente mudaram, só não tenho certeza se foram pra melhor. Tipo, quando eu era criança, não havia ninguém na minha turminha que tingisse o cabelo. E talvez até fosse divertido encher o
rosto de blush, mas uma coisa era atacar o estojo de maquiagem da mamãe quando não tinha ninguém olhando, outra era ter o seu próprio estojo, e ficar se checando no espelho o tempo todo. Era extremamente raro alguma menininha adotar esse estilo de vida nos anos 70.Já hoje é assim: há spas para crianças, e esses spas incluem, além da dieta obrigatória, tirar sobrancelhas e fazer depilação preventiva (lógico, porque assim como ninguém faz dieta pra ficar bonita, só pra ficar saudável, todo esse ritual da aparência não é visto como uma imposição estética, mas higiênica: é sujo ter pelos). Uma grande rede de supermercados acabou de lançar toda uma linha de maquiagem para meninas de 8 a 12 anos, as chamadas tweens (consumidoras no limiar entre a infância e
a adolescência). Nos EUA, tweens já gastam cem milhões de dólares por mês em produtos de beleza (e olha que não vou nem mencionar essa praga de concurso de miss pra garotas de 5 anos). As meninas não falam mais em diversão como motivo para copiarem mulheres adultas. Hoje elas dizem que querem ser sexy, mas ser sexy pra quem aos nove anos? Pra si? Pra meninos que nessa fase ainda nem têm interesse pelo sexo oposto? Pra pedófilos? Tem mais: as cirurgias plásticas para menores de 18 anos dobraram nos EUA na última década. Mais um dado: em 2005, a média de idade das americanas para começar a usar produtos de beleza era 17 anos. Apenas
quatro anos depois, essa média já tinha caído pra 13 anos. Outro: uma estimativa aponta que meninas entre 11 e 14 anos são expostas a uma média de 500 anúncios por dia. Imagina o que isso faz pra autoestima. Por aqui, segundo um estudo da Universidade Federal do Pernambuco, 90% das brasileirinhas entre 10 e 14 anos se acham gordas e fazem regime. Olha só que idade propícia pra se desenvolver doenças gravíssimas como bulimia e anorexia! A revista Newsweek analisou as últimas tendências de beleza e constatou que uma menina americana de 10 anos, ao chegar aos 50, terá torrado quase 300 mil dólares — só com o seu cabelo e seu rosto! Vamos nos concentrar somente no que uma mocinha gasta com pedicure e manicure, e já dá pra pagar quatro anos de universidade nos EUA (e olha que universidade americana é quase tão cara quanto creminho anti-idade). Se essas meninas já estão
obcecadas com rugas imaginárias aos oito anos, não quero nem pensar no que farão quando chegarem a uma idade em que rugas realmente existam. Pareço exaltada? Pois é. Ainda estou esperando que alguém me explique que isso é bom pras meninas. Tem quem veja minhas queixas como uma tentativa ditatorial de lutar contra o consumismo. As garotas deveriam ter a liberdade de escolher o que consumir, ué. Mas de qual livre arbítrio estamos falando, cara pálida? N
ão há mais opção. Tente encontrar sapato sem salto para sua filhinha de seis anos, e depois a gente volta a conversar.Sabe como lanchonetes de fast food anexam brinquedos aos seus hamburguers para que as crianças se tornem consumidoras pra vida toda? Quanto antes se fisga um cliente, mais fiel ele será ― de preferência, pro resto de sua miserável existência. Como isso é diferente de convencer meninas
de cinco anos que elas não estarão completas se não estiverem usando batom? Vou fazer analogia com cigarro, se me permite. Por que quase todos os países proibiram propaganda que seduzisse os menores de idade a fumar? Porque ela funciona! Por exemplo, nos EUA, o personagem da marca Camel, Joe Camel, teve de ser extinto, por ser popular demais entre as crianças. E por que a indústria do cigarro tenta cativar seu consumidor quando ele é assim tão novinho? Porque ele tem menos acesso a campanhas anti-tabagistas, e menor poder de discernimento. Ele é mais facilmente influenciável. Dessa forma, esse consumidor-mirim crescerá associando os bons momentos da sua juventude com ci
garro. Certo, no cigarro, pra solidificar o vício, os fabricantes incluem nicotina e mil e um produtos tóxicos que fazem deixar de fumar algo muito, muito difícil. Ah, dirá você, mas fabricantes de produtos de beleza, ao alvejarem as menininhas, não se valem de substâncias viciantes. Não mesmo? Centenas de imagens por dia e toda uma associação de beleza com felicidade e aceitação (e, hoje em dia, com saúde e higiene!) não são viciantes? Pra mim isso soa como lavagem cerebral. Ah, mas dirá você novamente, cigarro faz mal pra saúde, já está provado, enquanto usar produtos de beleza, não. Bom, não sei, acho que é péssimo pruma sociedade submeter metade de sua população a uma ditadura da beleza, ainda mais quando essa metade é justamente a que ganha menos, e forçá-la a dedicar enorme parcela de seus rendimentos a produtos sem fiscal
ização, que geralmente nem cumprem o que prometem. Pra ser bonita, tem que consumir (não existe mulher feia, só existe mulher pobre, diz o ditado elitista). Pra ser feliz, tem que ser bonita. Pra ser mulher, tem que ser feminina (leia-se vaidosa). Isso tudo a gente ensina a nossas meninas desde a mais tenra idade. Sinceramente? Esses bombardeios eternos me parecem mais viciantes que uma fumacinha com nicotina.
Falo deste anúncio francês totalmente azul mais embaixo, no post.Hoje é Segunda Vermelha, um dia que vários blogs feministas vão falar de um assunto que envolve quase t
odas as mulheres em idade reprodutiva: a menstruação. Geralmente não gosto muito de blogagens coletivas, mas reparei que mal tenho tocado na questão da menstruação no blog. Acho que falo tão pouco nisso porque, pra mim, não é algo que interfere muito. Parei de ter cólicas (que nunca foram nenhuma dor excruciante) com trinta anos. Minha TPM é fraquinha. Eu fico mais sensível, mais pré-disposta a chorar, mas não é nada de mais. O maridão discorda. Nem ligo pro que ele diz, porque ele, que não tem TPM, costuma ter in
finitamente mais variações de humor do que eu, que estou sempre bem humorada. Ah sim, meu intestino nunca costuma funcionar direito, mas uma semana antes de vir a menstruação ele simplesmente trava. E durante a menstruação ele trabalha que é uma beleza. Que mais? Tenho a impressão que meu desejo sexual aumenta durante a menstruação, mas, como o maridão não me dá nem bom dia durante minha semana vermelha, não posso fazer muito a respeito. Não vou dizer que adoro ficar menstrua
da, mas não é nada traumático. Gosto do meu sangue, e sei que em breve entrarei na menopausa, então preciso aproveitar. Além do mais, nunca conheci uma mulher que, pelo menos em algum instante da sua vida, não tenha ficado super aliviada porque a menstruação chegou. (Em compensação, também nunca conheci uma que não tenha tido problema com alguma mancha indiscreta em público, principalmente na adolescência. Mas uma gravidez indesejada é um problema muito mais sério do que alguém saber que, ooohhh, estou sangrando. Dane-se. Lide com isso. Faz parte da vida).
Como menstruação é um assunto tão não-assunto pra mim, decidi incluir aqui alguns anúncios brasileiros e estrangeiros sobre o tema. Porque pense só: se nosso sangue de todo mês é tabu entre a gente, dá pra imaginar como ele é (mal)tratado pela mídia. Há três regras de ouro em (quase) toda a publicidade de absorventes internos e externos: 1) branco é a única cor de todas as roupas disponíveis (Groelândia Fashion Week, nas palavras do genial Laerte); 2) qualquer líquido jamais será vermelho -- geralmente é azul; e 3) toda mulher menstruada é um poço de felicidadade. Atriz em comercial de absorvente não anda –- levita! Por exemplo, veja e
ste comercial da Intimus Gel. A mensagem é: use absorvente para que os homens possam continar olhando pra sua bunda na rua. Porque é só isso que eles gostam na gente. E isso vindo de uma marca que nos entende. A única mulher que aparece no comercial está rebolando, não falando, ao contrário dos homens. Vou usar minha intuição feminina pra jurar que o comercial foi feito por um time de criação totalmente masculino...
Outro comercial, pelo jeito na mesma linha da campanha, pergunta “Por que as mulheres têm que ter tanta paciência?”. Porque precisamos aguentar muita coisa, responde o troço. Segundo o comercial classista (sai pra lá, motoboy! Se toca!), menstruação é uma cruz, assim como o trânsito e os motoboys. E sim, a marca que entende as mulheres sabe que todas nós deixamos sempre um pacote de absorventes bem à vista de todos, fora da bolsa. No final uma voz diz: “Intimus é com
o você, porque ele tem que aguentar muito mais”. É, eu acabei de ser comparada a um absorvente descartável assim, na cara dura.Este é de uma marca chamada Única. Qualquer comercial que comece com generalizações babacas como “Toda mulher é...” ou “Toda mulher gosta de...” deveria ser abolido. Este repete montes de vezes “Toda mulher é vaidosa / romântica / confusa / delicada / sensível / decidida”. Mas não, eles não estão generalizando! Porque cada mulher é esses clichês todos do seu jeito. Somos únicas. Tão únicas como o nome do absorvente, que vem com extrato de camomila, porque, apesar do clima zen do comercial (todas usa branco!), precisamos nos acalmar.
Este anúncio não sei bem de quando é, mas tem a maior pinta de ser dos anos 50 ou 60. “Ela é moderna, ela sabe viver”, diz o título. O texto começa: “É uma líder –- nas ideias, no vestir, no viver. Em proteção higiênica, ela exige Modess”. Meio estranho porque, apesar da suposta modernidade da moça, não é ela que vai dirigir um carro, é um homem que abre a porta pra ela, e ela se veste da forma mais retrô possível (e de branco, lógico). Mas o que chama a atenção é que, lá no cantinho, tem uma mulher infeliz olhando pela janela, e reforçando o velho clichê de que mulheres são rivais. Tadinha, a da janela não é moderna. Essa não deve usar Modess, e por isso não é convidada pra sair. Pior: fica o dia todo presa em casa, esperando a menstruação passar.
Este é um anúncio bem conhecido da década de 70 da OB, feito na ocasião da Olimpíada de Montreal, em 76. A grande vedete dessas olimpíadas foi a ginasta Nadia Comaneci. A propaganda se vale desse fato pra mostrar uma ginasta usando o uniforme oficial da publicidade menstrual (branco), de pernas totalmente abertas, num movimento de total agilidade e equilíbrio. O texto adivinha que metade das atletas mulheres naquela olimpíada esteve menstruada, e nem p
or isso deixou de competir. Super eficaz, né? Neste anúncio atual pra vender absorvente norturno, o treco vira uma cama. E pelo jeito dormimos a céu aberto, com estrelas cadentes. Um tanto bizarro dormir em cima de um absorvente gigante, mas confesso que o anúncio passa tudo que preciso saber sem ter que ler nada: cama, absorvente, noite, absorvente noturno. “Seja feliz também naqueles dias”, diz o slogan, como se menstruação fosse algo pra deixar as pessoas infelizes. Mas temos aqui um ponto espinhoso: a propaganda não cria nada. Ela reflete o lugar comum. Portanto, deve haver montes de mulheres que detestam ficar menstruadas. E de homens que detestam que as mulheres fiquem menstruadas. É pra se pensar o que causa tamanho desconforto.Ao longo do post, coloquei alguns anúncios internacionais (clique neles para ampliá-
los). Lá em cima, no topo da página, temos um francês da Tampax, cheio de significados. Primeiro que lembra muito o clássico Tubarão (em que não havia o menor indício que a primeira vítima estava menstruada). Mas a gente sabe que tubarões são atraídos por sangue a quilômetros de distância, e aqui temos uma moça nadando no meio deles, que a ignoram completamente. Gosto do humor e da simplicidade. É a gente quem tem que decifrar tudo: aquele absorvente interno é tão incrível que não sobra
uma só molécula de gotinha de sangue pra atrair os tubarões. (Aviso: não tente testar essa hipótese. Sei por experiência própria que cães, por exemplo, sempre sabem quando estamos menstruadas. Aliás, mais de uma vez meu finado Hamlet, o nojentinho, invadiu a cesta de lixo do banheiro e mastigou um absorvente usado). Este do lado da tenista Serena Williams não dá pra entender direito. A Tampax americana refere-se à menstruação como “o presente mensal da mãe natureza”, e é por isso que a mulher de verde, suponho, está segurando um pacote. E aí Serena, com sua sacada potente, fura o pacote. Hmmm... O photoshop tá tão mal feito que, olhando bem, podemos ver que a raquete que Serena segura não tem a parte de cima. Ela quase podia ser uma cheerleader.
Este, também da Tampax, eu levei um tempão pra entender. O título é: “Mãe natureza, por favor, o quarto já está pago”. Sabemos que estamos num anúncio de absorvente pela marca e porque o c
ara veste branco. Acima do slogan a Tampax deseja um feliz Valentine's Day (Dia dos Namorados pros americanos), e há vários signos nesse sentido, como rosas e uma caixa em formato de coração. Pela janela, vemos uma placa de motel. O quadro na parede, espertamente, mostra um vasto oceano (só que em preto e branco, claro). Mas o que me distraiu foi a colcha em cima da cama, que eu confundi com uma toalha. Pensei que o cara de terno branco estivesse rezando pra que sua parceira, menstruada, não sujasse a cama durante o sexo e eles tivessem que pagar por algum eventual estrago no quarto. Tá, sou ingênua.
O que o cara realmente está pedindo aos céus é, por favor, faça com que minha namorada não fique menstruada logo hoje (porque, pelo jeito, ele é que nem o maridão, que mantém distância de mulheres menstruadas. Homens assim podiam fundar um clube de machões com nojinho de fluxo menstrual. Traje obrigatório: terno branco). Também não entendo como, se a namorada estiver ou ficar menstruada, Tampax vai ajudá-la na hora do sexo -- ainda mais se ela tiver um parceiro bocó que tem asco de sangue.Procurei algum a
núncio sobre a nova geração de protetores higiênicos, que são os menstrual cups, ou coletores menstruais, mas não encontrei. Sei muito pouco sobre eles: só que são ótimos pro meio ambiente (cada coletor, que custa em média 30 dólares, dura entre cinco e dez anos e não é descartável), e que a mulherada que testou tem aprovado (aqui tem um vídeo e dá pra encomendá-lo, a R$ 65 cada; algumas blogueiras, entre elas a Déborah, já escreveram sobre o copinho).Torço pra que algum dia a propaganda para produtos relacionados à menstruação sej
a feita por quem entende do riscado, que são as mulheres. Desconfio que, até hoje, a maior parte dos criadores dos comerciais tenha a mesma mentalidade do homem do terno branco aí de cima. Mas seria ótimo se nós mulheres enxergássemos a menstruação como algo não relacionado ao martírio. Faz parte do nosso show.
Até os supers precisam descansarNada melhor pra comemorar o Dia do Trabalho que descansar. Não que exista a mais remota possibilidade de eu fazer isso, já que preciso escrever um paper pra uma palestra esta semana. Mas eu tô acostumada (e não estou feliz). Espero que pelo menos vocês descansem. Pra ajudar, tentei encontrar algumas cenas de filmes que levem ao sono profundo. Não consegui.
De 2001, Uma Odisseia no Espaço busquei a cena em que os astronautas estão em seus caixões-cama, hibernando enquanto não chegam ao seu destino. Adoro aquela cena
porque o HAL acaba com várias vidas em questão de segundos. Não há sangue nem sofrimento, só o aviso de “Life functions terminated” (“sinais vitais desativados”, se se pode traduzir assim). Em Alien os astronautas também dormem, né? Ok, ok, em nenhum desses casos dormir acaba bem. Mas a imagem acima de 2001 nem é tão asssustadora. É só vocês ignorarem o monolito negro no meio da sala e dormir.
E esta cena? Olha só que calma, que paraíso, uma cama flutuante no meio de um oceano azul... Hiper relaxante! A menos que vocês reconheçam que ela vem de O Bebê de Rosemary. É como
começa o sonho da pobre moça que foi escolhida (sem que ela saiba) para ter um filho do coisa ruim. Como o ato sexual ocorre sem o seu consetimento, e como ela é drogada (comendo uma mousse de chocolate) pra capotar, é um estupro. “This is really happening!”, diz Mia Farrow no meio do seu sono agitado.Essa foto ao lado, mostrando uma gracinha de menino dormindo, enquanto um adulto mal-humorado o encara, é do remake de A Profecia. Pouco depois o pai, desconfiado que seu filho é o capeta, estará freneticamente buscando indícios de 666 no couro cabeludo do guri.
Pessoas vendo outras dormirem nunca é algo relaxante. Confesso que morri de medo em Atividade Paranormal, e até hoje, quando acordo no meio da noite (ou melhor, quando vou pra cama às 5 da manhã, o que tá cada vez mais frequente), e encontro o maridão dormindo o sono dos injustos, essa cena me vem à mente. Alguém observando outra dormir raramente tem boas intenções. Convenhamos: Edward Cullen é bem creepy. Coisa de stalker mesmo.
Putz, só consigo associar cenas de sono a filmes de terror. Esta é de Coma, um quase-clássico de 1978 em que pessoas vão fazer cirurgias de rotina num hospital e acabam como na foto acima. Adoro todos
esses filmes que dizem que, se a gente dormir, coisas terríveis podem acontecer. Invasores de Corpos, Esposas de Stepford, A Hora do Pesadelo... Todos eles lidam com a paranoia de não poder fechar os olhos e fazer uma das nossas atividades mais básicas e vitais. Enfim, pessoas, descansem, repousem bastante hoje, porque por mais que um Freddy Krueger possa atacar, ou que vocês possam ser substituídos por clones enquanto cochilam, a opção pra quem não dorme também não é das melhores. 