terça-feira, 23 de outubro de 2018

SOBRE A CAMPANHA MAIS SUJA E CORRUPTA DA HISTÓRIA DAS ELEIÇÕES BRASILEIRAS

Na quarta à noite, um dia antes da reportagem da Folha sobre o Caixa 2 de Bolsonaro, eu publiquei um tuíte referente a uma conversa que o maridão teve com um colega de trabalho na escola.
O colega contou que a mãe dele, que sempre votara no PT, só este ano passou a ter WhatsApp. E aí ela viu um vídeo falado em árabe, mas com legendas em português, da Cruz Vermelha com pacotes de dólares sendo distribuídos para o PT comprar voto nas eleições brasileiras. O professor ainda tentou argumentar: "Mas mãe, o PT compra voto no Brasil pagando em dólar?" Não teve jeito: a senhora nunca mais votará "nessa corja do PT".
Pense nas coisas mais ridículas. Tipo: se Haddad ganhar, todas as igrejas serão fechadas, todos os presos serão soltos, sua poupança será confiscada. Pense no maior guru da extrema direita brazuca associando Haddad à pedofilia e incesto. Aí Haddad vai à Justiça exigindo que os 21 posts caluniosos que Olavão escreveu sejam retirados. Pense no ministro negando, alegando que é só "liberdade de expressão".
Pense no mesmo ministro acatando a exigência da campanha de Bolso e forçando o PT a não associá-lo mais à tortura. Estamos falando de um fascista que durante 28 anos fez inúmeras declarações defendendo a tortura e louvando um torturador que enfiava ratos nas vaginas das mulheres que ele torturava. Fazer montagens com camiseta da Manu tá liberado, mas espalhar a verdade sobre Bolso não pode.
Eu sou mais velhinha, então acompanhei de perto as eleições desde 1989, antes da internet, quando tudo era no papel (lembro do inferno que era a apuração dos votos em cédula; levava dias e havia inúmeras fraudes e brigas). Lembro quando eram distribuídos, muitas vezes na boca de urna, os panfletos apócrifos. Eram calúnias e difamações covardes, pois nunca vinham assinadas. Você podia inventar mil e uma mentiras sobre um candidato sem dizer quem você era, quais seus interesses. Isso era crime. É crime ainda.
Na época não existia o termo fake news, notícias falsas. Mas dá na mesma, ou quase. Imagine os panfletos apócrifos multiplicados à enésima potência, como percebeu a jornalista Cynara Menezes. É exatamente o que temos hoje. Milhares de mentiras divulgadas sem parar, todos os dias, durante semanas, meses, inclusive no mesmo dia da eleição. Com uma vantagem adicional. Imagine se aqueles panfletos apócrifos na boca de urna fossem entregues por um amigo seu, parente, vizinho, alguém que você conhece e confia. Você estaria mais ou menos propenso a acreditar nas mentiras impressas naquele papel?
Pois é, é esse o encanto das fake news divulgadas pelo WhatsApp, como explicou bem o Pirula em um vídeo. Aquela notícia não vem de instituições, não vem de um comitê eleitoral, não vem do governo, não vem da mídia. Vem do seu tio, seu pai, sua vó, sua irmã. Traduzindo: as notícias falsas ganham mais força, porque vem das mãos de quem você conhece. As redes se encarregam de desacreditar toda a mídia tradicional. De repente, Veja, The Economist, New York Times, Fox News, enfim, qualquer veículo que ousou falar mal de Bolso é comuna. 
Num vídeo muito didático de um youtuber que eu não conhecia, Slow, ele explica bem o fenômeno de como disparos de mensagens caluniosas podem ganhar eleições (algo parecido ao post famoso sobre sua tia não ser fascista, ela só está sendo manipulada). Foram feitos vários experimentos sociais para ver como enganar as pessoas, e tanto a vitória da direita na Brexit quanto a eleição do Trump são creditadas a essas novas ferramentas. Uma grande base de dados mostra o seu perfil e o o quanto você é suscetível a fake news. E aí eles te bombardeiam. Nos EUA isso só foi descoberto depois das eleições, e você sabe o escândalo que foi. A Cambridge Analytica teve que fechar, e Mark Zuckerberg foi chamado pra depor no Senado. 
Diz Slow: "É óbvio, se você tem em mãos um mecanismo que é capaz de empurrar uma campanha presidencial, mais do que isso, moldar a forma como a população tá pensando sobre algum assunto, é uma ferramenta extremamente valiosa, assim como muito perigosa". Slow diz que sabe que o mundo vive uma onda conservadora, mas "utilizar uma ferramenta tecnológica pra radicalizar as pessoas propositalmente através de notícias falsas e tendenciosas pra fazer com que as pessoas queiram eleger líderes de extrema direita, já tá tropeçando no aceitável das questões éticas". 
Se Bolso tivesse vencido já no primeiro turno, não ficaríamos sabendo de sua campanha suja e corrupta (já que doações por empresas são proibidas, ainda mais sem que isso seja declarado). Lembra como a gente não entendia como Bolso disparou poucos dias antes do primeiro turno? Como ele subiu tanto? O nosso belíssimo movimento #EleNao deu errado? Foi o apoio de Edir Macedo? Que nada, acima de tudo, o que pesou mesmo foram os disparos de mensagens, todos feitas para difamar seu adversário. Uma das fake news que rolou era que, se você votasse em Bolso mas em candidatos de outros partidos para os outros cargos, seu voto seria anulado. Isso pode explicar por que candidatos a senador e governador que apareciam em quarto lugar nas pesquisas acabaram sendo eleitos.
Eleitores de Bolso: tipo este nível
de ignorância
É preciso entender que os eleitores de Bolso realmente são os mais ignorantes. Eles são os que mais se "informam" através do WhatsApp. Os que mais caem nas mentiras. Eles vem recebendo lavagem cerebral há tempos. Não é algo de um dia pro outro, nem trabalho de formiguinha. "Não é possível chegar a tanta gente como Bolsonaro chegou sem uma estrutura forte, com grande financiamento por trás", diz a diretora da agência de fact-checking Aos Fatos
Ontem a maior rede pró-Bolsonaro do Facebook foi excluída após denúncia do Estadão. Eram 68 páginas e 43 contas com nomes falsos controladas pelo grupo RFA (Raposo Fernandes Associados). Só no último mês, essas contas tiveram quase 13 milhões de interações no FB, o que é mais que têm Neymar e Madonna. Imagina o tanto de estrago que essas verdadeiras usinas de fake news já causaram.
Mas por que a demora de seis meses pra desmantelar uma armação tão óbvia? Em abril, a jornalista Helena Borges investigou como a RFA trabalhava. Chegou a ir ao endereço onde a RFA estaria registrada (não existia). Um dos sites especialistas em fake news, a "Folha Política", cria da RFA, tinha suas matérias assinadas por "Lígia Ferreira". A jornalista descobriu que Lígia é uma menina de 5 anos, filha do casal dono da RFA. A reportagem saiu na revista Época em abril. Reportagem de capa. Meio ano pro FB tomar providências!
Ish, será que a campanha do Bolsonaro sabe?
Na sexta, foi divulgado um estudo feito pela FGV que aponta o aumento de robôs pró-Bolso agora no segundo turno. 
Se o número já era absurdamente alto, agora está mais insuportável ainda. De todos os tuítes gerados por robôs, quase 71% beneficiam o fascista. De cada 7 tuítes favoráveis a ele, 5 são escritos por máquinas, não por humanos. Eu sempre dizia que, felizmente, robôs não votam. Mas certamente podem influenciar uma eleição. Se durante o primeiro turno bolsobots foram capazes de colocar e manter um assunto no topo dos TTs do Twitter, agora com o aumento de robôs eles podem monopolizar quase todos os trending topics. Ou seja: eles pautam o Twitter (e o Twitter permite. E o TSE). 
Ontem à tarde teve a coletiva de imprensa do Tribunal Superior Eleitoral. Antes não tivesse acontecido. Vai entrar como um dos grandes momentos de vergonha nacional junto com aquela sessão de impeachment da Dilma em que deputados corruptos votaram "sim" em nome de Deus, da família, de torturador... Era melhor quando a gente se perguntava #EagoraTSE ou "Quem demora mais pra se posicionar: Anitta ou TSE?"
Bolso com um dos seus doadores de
campanha, o dono da Havan
Foi uma tristeza infinita ver ministro dizendo que fake news não influenciou eleição (outro ministro já havia dito isso antes do escândalo), que fake news já existe desde os tempos de Adão e Eva, comparando fake news a fofocas trocadas por vizinhos, e basicamente passando pano pro Caixa 2 do Bolsonaro. Eu ainda acho que o TSE vai investigar as fake news sim. E vai acabar absolvendo Bolso e condenado Haddad por aliar tortura e final do décimo-terceiro salário ao fascista.
Pra ter uma ideia de como tá tudo dominado ("com o Supremo, com tudo"), a ministra Rosa Weber foi perguntada sobre a declaração do deputado Eduardo Bolsonaro. Durante uma aula em junho de 2018, o filho de Bolso disse que, se o STF tentar impugnar a candidatura do pai "por qualquer motivo", é fácil fechar o STF e prender ministro, é só mandar "um soldado e um cabo". A ministra achou apenas a declaração "inadequada".
Se você quer entender como tudo é construído por profissionais, vamos a um estudo de caso. No sábado, no comício em Fortaleza, um homem, aluno da Unilab (uma bela universidade federal em Redenção, CE, criada por Haddad para valorizar a interação entre o Brasil e países africanos de língua portuguesa), deu uma bíblia a Haddad. Eu estava lá e vi a cena. O cara, visivelmente comovido, falou em nome de vários evangélicos, e Haddad recebeu o presente com muito carinho.
Eis que no domingo já tinha um youtuber fazendo um vídeo sobre como Haddad jogou no lixo a bíblia que ganhou. Não era qualquer youtuber -- é um jovem chamado André que foi o deputado estadual mais votado no Ceará. Filiado ao partido de Bolso. Por um mistério divino, ele -- logo ele, um inimigo declarado do PT -- encontrou a bíblia dada a Haddad na praça do comício em Fortaleza, no lixo. 
Era a mesma bíblia, porque estava com dedicatória do rapaz da Unilab.
A campanha de Bolso, da qual André faz parte, pautou que deveriam ser feitos dezenas de vídeos mostrando como aquele comuna imundo do Haddad despreza a bíblia sagrada, a ponto de jogá-la no lixo. Haddad disse em vídeo que a bíblia havia sido colocada dentro de uma sacola que foi furtada no palanque, junto a um celular de um assessor que também estava na sacola.
Imagina o que deve estar rolando no Whats, ou talvez no Telegram, que é pra onde vários bolsominions migraram depois que o WhatsApp desabilitou milhares de contas. A fake news deve ser que Haddad queimou a bíblia no palanque num ritual satânico, suponho.
E aí ontem à noite, o que está em primeiríssimo lugar nos Trending Topics do Twitter? A tag #HaddadNãoÉCristão, alavancando com todo vapor a ladainha da bíblia jogada no lixo. 
E é mera coincidência, claro, que toda essa pauta tenha surgido exatamente no mesmo dia em que Marina (finalmente) declara seu apoio a Haddad. Se Marina ainda tem alguma influência de voto, é justamente junto ao eleitor evangélico. Aquele mesmo que está sendo bombardeado por mentiras de que o comuna Haddad e sua vice Manu vão fechar igrejas e queimar bíblias.
Dá pra começar a ver como o jogo é sujo? De quebra, monopolizar a opinião pública em cima de uma fake news como a bíblia jogada no lixo tira o foco de assuntos espinhosos pra Bolsonaro, como a declaração de seu filho sobre fechar o STF, a desculpa de Bolso, chamando um parlamentar de 34 anos de "garoto", o discurso de Bolso domingo na Paulista dizendo que seus adversários "ou vão para fora ou vão para a cadeia," a descoberta que seu vice foi ele mesmo um torturador (não foi!), e a notícia de que sua equipe econômica quer cobrar mensalidade na universidade pública. 
Desta forma, ninguém discute propostas de governo. Passa-se o tempo desmentindo fake news. E é uma prévia do que será o governo Bolso, se ele ganhar: no dia da privatização da Petrobrás, por exemplo, ele fará alguma declaração absurdamente escandalosa ou acusará Lula de qualquer coisa. E todo mundo vai gastar energia falando sobre isso, e não sobre dar uma empresa nacional de mão beijada pros gringos.
Falta muito pouco pro dia 28, menos de cem horas. Mas acredito que ainda dá pra virar. Precisamos

sábado, 20 de outubro de 2018

VEM PRUM DEBATE CHAMAR ELEIÇÃO DE FRAUDE, SOLDADINHO DE ARAQUE

Ontem anotei um monte de coisa sobre a Caixa 2 do Bolsonaro, mas acabei não escrevendo nada. Hoje estive no magnífico comício do Haddad (com Boulos também) aqui em Fortaleza. Num discurso duro, Haddad chamou Bolso de "covarde" e "soldadinho de araque" e o desafiou a falar na cara dele num debate as mentiras que ele espalha no Whats.
Amanhã escrevo mais, prometo! Por enquanto, fiquem com o ótimo cartum da Maíra Colares

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

APOIADO POR PROJETO NEOLIBERAL, BOLSONARO É O HORROR DA IGNORÂNCIA E DO AUTORITARISMO

Apareceu a pontinha do iceberg respondendo à pergunta que faço há meses -- quem está financiando a campanha de ódio e de mentiras de Bolsonaro? 
A Folha revelou um esquema de #Caixa2doBolsonaro: cada contrato de empresários (entre eles o dono da Havan, aquele que demite quem não vota no candidato dele) paga R$ 12 milhões para disparar fake news contra o candidato do PT. A doação não é declarada, o que é ilegal. 
Aproveito para publicar hoje o excelente artigo que João Paulo Jales dos Santos, estudante do curso de Ciências Sociais da UERN, escreveu pra este bloguinho.

O futuro presidente do Brasil provavelmente será um sujeito desqualificado, medíocre, incompetente, e com uma pauta de governo contra as minorias. Sim, Bolsonaro tende a vencer a eleição no dia 28. Não se trata de ser pessimista, mas realista. Por mais que se diga que o 2º turno é uma nova eleição, não é bem assim. O 2º turno parte de bases políticas, sociais e eleitorais formadas no 1º turno. Bolsonaro colocou sobre Haddad uma diferença de cerca de 17% dos votos válidos, um número expressivo, que dá ao medíocre deputado um favoritismo para ser o próximo presidente. 
Antes de Haddad ser escolhido o candidato oficial do PT, as pesquisas indicavam que Lula tinha cerca de 40% das intenções de votos, segundo IBOPE e Datafolha. Haddad não conseguiu herdar todos os votos lulistas, ficou distante quase 11% de alcançar os dois quintos do eleitorado que manifestava preferência por Lula. Há um considerável número de eleitores que são simpatizantes de Lula e que não estão preferindo Haddad, e sim Bolsonaro. Este é um pleito atípico, onde um candidato moderado e centrista como Haddad praticamente não possui chances, porque a atmosfera eleitoral pende de sobremodo para o extremismo de direita. 
Para vencer, Haddad teria que ganhar em todos os estados do Nordeste, tarefa relativamente fácil. Conquistar os quatro estados do Norte que desde 2010 vem votando no PT, Amazonas, Amapá, Pará, Tocantins; mas no 1º turno, Haddad somente venceu no Pará. E o Norte é a região com maior número proporcional de evangélicos, que vêm sendo radicalizados contra o PT graças aos pastores fundamentalistas. Nessas condições, Haddad vencer no Norte, como o PT vem fazendo desde 2002, se torna uma tarefa complicada. No Sudeste, Haddad precisaria vencer ao menos em Minas Gerais, mas até mesmo em Minas uma vitória é complicada. Estado que em 2014 deu vitória a Dilma, o Rio de Janeiro é um fiel território bolsonarista; contar com o voto do eleitorado fluminense nesse momento, não dá para a candidatura de Haddad. 
No Centro-oeste, Bolsonaro conta com o voto extremamente ideologizado do agronegócio, setor de forte base econômica na região. E no Sul, a região desde 2006 vem se firmando como a mais fiel opositora do petismo. Além de Minas Gerais, os outros dois estados fora das regiões Norte e Nordeste que menor porcentagem de votos deram a Bolsonaro foram Espírito Santo e Rio Grande do Sul, colégios que já votaram no PT em outras ocasiões, mas que na atmosfera política deste pleito, são fiéis campos bolsonaristas. A formação de uma coalização regional pró-Haddad, pelas circunstancias da atual campanha, é tarefa complexa. Só com algum fato atípico poderia Haddad vencer nos colégios eleitorais que precisa para derrotar Bolsonaro. 
A direita estabelecida pensou que ao aplicar um golpe disfarçado de impeachment em Dilma Rousseff levaria esta campanha. Ledo engano. Ao fomentar o ódio e a raiva, a direita tradicional perdeu terreno para uma direita bolsonarista. Direita esta que ascende do ódio sepulcral contra o PT, contra as minorias e a ascensão social dos excluídos. Uma direita politicamente despreparada, que através de canais do Youtube e de páginas de redes sociais, principalmente no WhatsApp, fomentou um discurso odioso, e que as sementes da discórdia plantadas desde 2014, geraram frutos agora, com êxito nas urnas.  
A direita bolsonarista não possui preparo técnico-legislativo e nem noções de gestão e política pública. É uma direita que não respeita as instituições democráticas liberais, e que nem discernimento sobre o que de fato é o liberalismo político e econômico possui. É uma direita que ética e moralmente é muito mais depravada do que a direita que alocou Temer na Presidência.  
O PSDB, a mídia tradicional, o mercado financeiro e o grande empresariado pensaram que ao despachar o PT da Presidência em 2016, levariam facilmente esta presidencial. Erraram ao achar que estava tudo sob controle. Ao fim e ao cabo, criaram uma monstruosidade político-social, que revelou sua face nitidamente no último dia 7. Não que já não se sabia quem era a extrema-direita brasileira, mas para não haver mais nenhuma dúvida, o 7 de outubro foi a cristalização do horror ético e social que é a direita bolsonarista. Uma direita imbuída dos valores fundantes do Brasil, uma direita que usa o discurso do antipetismo como um véu para disfarçar o que de fato é contra. 
Porque esta direita, na realidade, é anti mobilidade social, anti ascensão social dos negros e excluídos, anti direitos das mulheres e direitos civis igualitários para as pessoas LGBTQ+. Uma direita que não suporta ver a institucionalização das cotas étnico-raciais, que não aguenta ver a entrada dos pobres nas universidades, que não é capaz de compactuar com dignidade de cidadania e condições materiais para aqueles que sempre foram tratados pelo sistema opressor como os restos humanos da sociedade -- a canalha, na visão da elite, que tão somente merecia ocupar os espaços subalternos que lhe foram devidamente reservados pelo racismo e pela exclusão e desigualdade de classes do sistema capitalista.

A direita bolsonarista alia duas características marcantes da sociedade brasileira: a desigualdade social como elemento para dar continuidade ao projeto excludente da elite, e a violência do autoritarismo moral e do poder constituído do Estado. Com esses dois elementos ainda vivos no tecido social, juntamente com a aguda crise econômica, institucional, ética e de segurança que abala o país, possibilitou-se trazer à tona os sentimentos primitivos de ódio que estiveram escondidos nessas últimas três décadas de inauguração da ‘Nova República’. 
Usar o moralismo como item número 1 da agenda nacional não é estratégia nova para o projeto neoliberal. Nas décadas de 60 e 70, o capitalismo usou da moralidade anticomunista para financiar regimes militares autoritários na América Latina. Não foram Margaret Thatcher nem Ronald Reagan que inauguraram o renascimento do liberalismo econômico clássico, o neoliberalismo, e sim a ditadura de Augusto Pinochet no Chile. Regimes autoritários são um chamariz e tanto para que o establishment neoliberal leve a cabo seu projeto social privatizante. A direita monta redes de influências social, política e econômica que hoje transcendem os territórios nacionais soberanos, são redes globais, que tinham por objetivo romper a influência social dos movimentos libertários e socialistas que marcaram as décadas de 60 e 70. 
Feministas passaram a ser tachadas de “matadoras de bebês”, segundo Rush Limbaugh, originando assim o grotesco termo feminazi. Comunistas e socialistas comprometidos com igualdade e justiça social tiveram reforçados seus estigmas sociais. A luta por direitos civis igualitários para minorias ganhou a alcunha de “uma guerra cultural pela alma da América”, nas palavras de Pat Buchanan na Convenção Nacional do Partido Republicano no ano de 1992. 
Os termos são importantes, porque servem como uma forma usada pela direita religiosa e extremista para despejar farsas que não correspondem à realidade objetiva, visando alcançar os valores conservadores arraigados nas sociedades. Fazer uso das artimanhas moralistas dos valores morais para ganhar eleições e assim implantar o projeto neoliberal na vida social e econômica dum país, eis a estratégia usada por Jair Bolsonaro. 
Num momento delicadíssimo como o que passa o Brasil, com uma massa de milhões de desempregados, sucateamento dos serviços públicos, constantes retiradas de direitos sociais e trabalhistas, um rombo fiscal enorme nas contas do governo, um medíocre e incompetente Jair Bolsonaro assumindo à Presidência, é assertivo afirmar que o país caminhará ainda mais para o fundo do poço. Num momento que o país precisa de equilíbrio e consenso para sair da profunda crise social, tende a ganhar à Presidência um demagogo e populista de extrema direita comprometido com um projeto privatizante ainda mais radical do que o implementado por Temer. 
Será que gostariam aqueles que votam em Bolsonaro copiar estritamente o modelo americano em que as universidades são pagas, onde não existe um sistema público universal de saúde, em que os trabalhadores não desfrutam das garantias de proteções trabalhistas como as asseguradas pela CLT? Sim, porque esse é o projeto de Bolsonaro, copiar o modelo neoliberal americano de previdência e rede de seguridade social para implementar tal qual no Brasil. 
Um governo Bolsonaro será instável, de frágil governabilidade, com um gabinete ministerial incompetente, resultando num verdadeiro caos financeiro e administrativo. Caminhamos, talvez, para a deterioração da institucionalidade da ‘Nova República’. Se vencer, Bolsonaro implodirá de vez o sistema jurídico-institucional que há três décadas vigora no Brasil.  Caso o calendário eleitoral seja mantido, daqui a dois anos haverá eleições municipais, um momento crucial para que a esquerda assuma o comando de centenas de Prefeituras Brasil afora. Se o resultado da eleição de 2016 foi um indicativo do cenário que viria nesta eleição, 2020 pode sinalizar uma reorganização da esquerda para vencer no próximo pleito presidencial. O movimento progressista e democrático caminha para perder agora e ganhar depois. Com o descalabro que será o governo Bolsonaro, quem colherá os frutos políticos e eleitorais será exatamente o polo de centro-esquerda que, por ora, tende a perder na atual conjuntura. A política é feita de ciclos, há 16 anos Lula vencia e chegava ao comando do governo central. Caso Bolsonaro ganhe agora, um novo ciclo, favorável à esquerda, virá adiante. 
Representando o horror da ignorância aliado à violência do autoritarismo moral, a ascensão meteórica de Bolsonaro é o esgarçamento do sistema político e judiciário. Num país onde juízes não respeitam a Carta Magna de 1988, com uma elite comprometida em ampliar seus privilégios e manter um modelo social excludente, Bolsonaro é a fidelidade de um Brasil tomado por um ressentimento de preconceito racial e de classe. É o horror da ignorância, representado na inconsistência argumentativa de armar a população. 
Num país que optou por um modelo de segurança pública repressivo, com uma bandidagem que não teme o braço armado estatal, a polícia, e consequentemente não temerá uma população armada, o eleitor bolsonarista não quer aceitar o fato de que armar a população aumentará substancialmente o número já alto de homicídios. Além do fato de que para se manusear uma arma, necessitasse de um treinamento especializado, aliado a um preparo emocional e psicológico, que a imensa maioria das pessoas não detêm. É a violência do autoritarismo moral, com repressão social brutal à humanidade das minorias, solidificada no discurso farsante moralista da tradicional família brasileira, mergulhada numa opressão patriarcal que vai de encontro a todos os ditos valores que diz defender. 
O Brasil de 2018 é o projeto reacionário da elite levado às últimas consequências. O bolsonarismo é o reflexo de um país comprometido com mazelas sociais, que sepulta de vez os mitos oficiais de pacificidade e harmonia social que tanto marcaram um tipo de sociedade, que como se pode ver e comprovar hoje, nunca existiu. 

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

A HETEROSSEXUALIDADE MASCULINA É MAIS FRÁGIL QUE UM FLUXOGRAMA

Clique para ampliar

É um fluxograma humorístico e eu não sei quem fez. Mas vale a pena pra cutucar quem tem que se provar macho man o tempo todo (aqueles que são super machões até ter que enfrentar um debate. Aí foge como o maior covarde que é). 
Ah, e precisamos sempre lembrar que homem gay segue sendo homem. Aliás, olha a coincidência: ontem mesmo eu estava lendo o livro Desejos digitais: uma análise sociológica da busca por parceiros on-line, de Richard Miskolci (ed. Autêntica, 2017), e me deparei com este trecho na página 87:
Raewyn Connell palestrou na Facul-
dade de Educação da USP sobre
descolonização do gênero em 2013
"Desde fins do século XIX, discursos psiquiátricos, jurídicos e artísticos -- construídos todos sob uma perspectiva heterossexista -- disseminaram o estereótipo de que os homens que se interessam por outros homens seriam alocados inevitavelmente na posição de uma 'mulher', daí a ideia de que seriam menos masculinos que um homem que se relaciona sexualmente com o sexo oposto. Como observou a socióloga australiana Raewyn Connell: 'A cultura patriarcal interpreta os homens gays de forma muito simples: lhes falta masculinidade' (2005, p. 143)."
Só uma pequena e interessante reflexão. Ou você pode ler este post e se perguntar: fluxograma numa hora dessas?! 
E aproveitando pra divulgar: hoje começou a XII Semana de Humanidades da UFC, com uma excelente programação. Minha contribuição 
(com a ajuda dos meus magníficos alunos e alunas do curso de extensão) será hoje, às 14h, no Auditório de História, CH2, com a mesa-redonda "Discutindo questões raciais e de gênero no cinema: Mulher Maravilha e Pantera Negra". 
Amanhã, também começando às 14h, mas na sala 6 do Bloco Noturno, CH1, eu e minha turma da pós-graduação ofereceremos o minicurso "Utopias e distopias feministas na literatura". Apareçam!
E amanhã à noite vou participar de uma live com a incrível Kah Dantas.