segunda-feira, 23 de agosto de 2010

PARA LER O PATO DONALD E ENTENDER A CRISE ATUAL

Lembro que fiquei tão impressionada com o documentário Maxed Out, que vi nos EUA uns três anos atrás, que até anotei alguns dados. Repare que isso tudo é de antes da crise que quebrou boa parte daquele país, principalmente a cidade onde morei por um ano, Detroit.
Os EUA deixaram de ser uma nação que produz coisas para virar uma que compra. As fábricas foram substituídas por shoppings. Dois terços da economia americana vem do consumo. As lojas americanas comportam todas as pessoas dos EUA, Europa e América do Sul dentro delas ao mesmo tempo. Americanos gastam uma hora por semana em atividades espirituais, e cinco em compras. A maioria das crianças até 8 anos não sabe diferenciar propaganda de entretenimento. Em alguns países é proibido anunciar para crianças com menos de 12 anos. Nos EUA gastam-se 15 bilhões de dólares por ano com propaganda pra elas.
Cada família deve, em média, sem contar hipotecas da casa, 18 mil dólares (entre dívidas de cartão e pagamento de carro). Junte a isso a hipoteca, e a dívida total da população é de 7 trilhões de dólares. Uma pessoa de 20 anos deve, em média, 10 mil dólares.
Os bancos gastaram US$ 154 milhões em lobby pra aprovar uma lei que restringe a falência. Bush a sancionou, e todos começaram a lucrar mais, num meio que permitia que bancos tivessem 54% de lucro. Dois meses depois da lei ser aprovada, veio o furacão Katrina, que devastou Nova Orleans. A lei dizia que pessoas não podiam declarar falência por causa de enchentes e outros desastres “naturais”. Precisa continuar?
Opa, um adendo. Talvez eu deva explicar o título do post? Pode ser que vocês sejam novinh@s demais e não conheçam um pequeno livro que fez escola nos anos 70, Para Ler o Pato Donald, dos chilenos Ariel Dorfman, o mesmo de A Morte e a Donzela, e Armand Mattelart. O livro, um pouco datado hoje mas ainda uma delícia de ler (à venda no Submarino), analisa os quadrinhos da Disney para mostrar a lógica do imperialismo. Por exemplo, isso de não existirem pais e filhos nos quadrinhos Disney, apenas tios e sobrinhos. E que os sobrinhos têm tanta proteção social quanto as crianças dos orfanatos de Dickens no século 19. E como num dos gibis da década de 70, bem durante a guerra do Vietnã, um dos personagens dizia “Nada de bom pode sair da Ásia”. Recomendo muito. Faz uns anos, escrevi um artigo comparando a idealização que se faz da infância nos quadrinhos Disney, segundo a ótica de Para Ler o Pato Donald, com aquela que Humbert faz de Lolita no romance de Nabokov. É uma idealização feita para que o predador não se sinta mal explorando, econômica ou sexualmente, as crianças. Para quem quiser ler, tá aqui, em inglês.

21 comentários:

Marcos disse...

Não tem muito a ver, mas tinha acabado de ler essa nota aqui:

http://www.universohq.com/quadrinhos/2010/n23082010_04.cfm

Ah, já a questão da economia americana é um pouco mais complicada. Tem que ver que eles exportaram a produção pra China, Índia, Brasil e outros, mas como o capital ainda é americano eles são remunerados do mesmo jeito. E cada vez mais o lance deles é ganhar dinheiro com propriedade intelectual. Por isso a discussão em cima do ACTA é tão barra-pesada. Enfim, ainda tô simplificando demais, mas acho que é por aí.

Lord Anderson disse...

Caramba, á quanto tempo não vejo esse livro. Ele me lembra de um pequeno "trauma" de infância. ^^

Eu tinha um professor total anti-americano (a beira da caricatura na verdade) que colocou esse livro como um dos trabalhos p/ nota.

Eu gostei da ideia, mas discordava de muita coisa escrita, e coloquei isso no papel, lembro que fiz com muito cuidado, li uns trocentos livros e anotei como refência, pesquisei jornais, etc.

Tava todo orgulhoso achando que tinha feito um trabalho muito bem fundamentado e ele me deu a nota mais baixa que eu ja tinha tirado em geografia.

Quando fui perguntar pq, ele disse que meu grau de alienação e de rendição ao imperialismo era tão grande que eu não conseguia ver a "verdade" que os autores apontavam.

O mesmo aconteceu com quem não colocou no trabalho que concordava 100% com o livro.

Fiquei com uma puta raiva e reclamei muito, mas não adiantou. Alguns colegas até tiraram sarro, me perguntado seu não tinha percebido que o professor não queria saber da nossa opinião e sim que dissemos que concordamos com ele e ponto final...

Argh.

Felizmente foi um dos poucos professores que conheci que colocavam a ideologia como mote principal das aulas.

L. Archilla disse...

Puxa, Lola, vc escreveu que crianças até 8 anos não diferenciam entretenimento de propaganda e eu lembrei de várias histórias... uma delas envolve uma excursão de avião que a minha escola promoveu na 3a série (tá, tá, eu já tinha quase 9). Na época, ou pouco antes, havia uma propaganda nem lembro de quê, onde uma aeromoça cantava com os passageiros batendo palminhas, e tal... uma coreografia bem infantil... se não me engano, a graça da propaganda era essa, ela tentando animar a galera com aquela música/coreografia ridícula e todo mundo querendo dormir. Bom, o que eu me lembrei era de que, quando soubemos que viajaríamos de avião, a primeira coisa que lembramos foi da música, e desse dia até o caminho para o aeroporto, a nossa maior diversão era cantar e reproduzir a propaganda. Acho que a gente se divertiu mais com isso do que com a viagem em si. Mas não era voltada ao público infantil, então não sei se cabe muito na sua análise.

Bom, na outra história eu era mais nova, devia ter uns 4 anos, acho. Fui tomar sorvete com minha família, e escolhi um Frutilly. Não tinha a menor vontade de tomar um sorvete de frutas, mas comprei crente de que o fantasminha da marca sairia de dentro do sorvete, conforme a propaganda. Minha motivação era: "como será que ele é na vida real?". Dei a primeira mordida, fiquei olhando, e nada. Pensei: "acho que tem que morder de novo, mais forte" - e assim fui, mordendo de várias maneiras, explorando todas as possibilidades do sorvete, até que ele acabou e eu finalmente percebi que o fantasminha SÓ APARECIA NA PROPAGANDA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Puxa, deu até um aperto no peito, agora. Não comentei com ninguém na época, porque me senti a maior idiota do mundo!!! Aliás, acho que é a primeira vez que conto isso pra alguém. Acho que vou falar disso na minha terapia, hoje.

Ah, e morte à publicidade infantil; não tem nada de bom que possa trazer à criança, psicologicamente falando.

Roberta disse...

Lembrei daquele documentario "A Historia das Coisas"fala sobre isso,o consumo exarcerbado e sem sentido é a alma desses americanos.
Eles consomem coisas inuteis nem sabem o porque.O consumo virou tradição,atividade espiritual e diversão

Clara Gurgel disse...

Oi Lola, um "off topic",rapidinho: O seu blog,é o "blog sujinho" mais cheiroso que eu conheço.Para o próximo encontro,acho que deveria haver o "troféu cascuda"(existe sim, é a namoradinha do cascão,rsrs).Com certeza, seu blog "levaria".Pule de dez!KKK

Anônimo disse...

Fazer o que: uns lêem George Orwell, outros lêem Ariel Dorfman e Armand Mattelart, que escrevem livros idiotas com dinheiro do povo. Se vocês não sabem, eles eram funcionários do governo do Salvador Allende e o livro supracitado foi feito com dinheiro público. Coisa da esquerda.

Bom, gosto não se discute, assim dizia a moça que comia coco de nariz.

Oliveira

Anônimo disse...

Clara:

A foto do seu perfil é muito bonita!

Oliveira.

Anônimo disse...

Lola:

Vão ter que escrever um livro como ler macunaima.

Olha como 8 anos de governo lulista fez os bancos ganahrem menos.

Noticia de hoja na UOL.

Bancos ganham R$ 10 bi no 2º trimestre e lideram lucros no Brasil
Da Redação, em São Paulo

Como governo de esquerda sabe distribuir riquezas; entre eles.

Vitor Ferreira disse...

O pessoal aqui realmente gasta demais. Todo mundo na rua desfilando com uma sacolinha com uma marca famosa. é como se a felicidade dependesse disso. Eu às vezes me sinto até deslocado, porque o máximo de compras que faça na semana é o supermercado...

L. Archilla disse...

Não sei por quê, já reparei que na cabeça de gente babaca não passa, por exemplo, que a gente possa ler Dorffman, Mattelart E Orwell...

Carlinha disse...

Como foi o Encontro de Blogueiros, Lola?

Conte pra gente.

Bjs

Carlinha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
joshua disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Insana disse...

Obrigada pela Dica do livro eu amo ler.

bjs
Insana

Anônimo disse...

o livro!
http://www.4shared.com/document/5y0Oq7fX/a_dorfman__a_mattelart_-_para_.htm

Pentacúspide disse...

Eu nunca tinha ouvido falar deste livro, mas estou curioso, pois eis aí mais um ponto de vista para explorar, pois eu sempre pensei que os disneyenses só tinham sobrinhos porque ter filho, naquela sociedade hipocritamente purista, implica forma um casa, e remete a fazer sexo e era disso que eles hipocritamente fugiam.

Já agora, aproveito para recomendar também um livro para entender o estado terciário da sociedade, ou pelo menos, conhecer uma determinada visão; A Grande Ruptura, de Francis Fukuyama, apesar de técnico tem leiura fácil

Anônimo disse...

Lolinha, existe uma propaganda aqui nos EUA que passa no canal aberto que eu acho criminosa. Eh de uma rede de fast food chamada Little Ceasar's (jamais colocarei meus pes neste lugar) onde mostram na primeira cena uma menininha com um prato de salada na frente dela e ela aos prantos nao querendo comer a salada. Na cena seguinte, adivinha: a mesma crianca toda feliz comendo a pizza do Little Ceasar's.
Eh de chorar, viu?

Anônimo disse...

Nao sei porque meus comentarios saem como "anonimo".
Raquel Correa

Anônimo disse...

Lola querida,
teu livrinho enfim fooiii!!! heheh, deculpo a demora, mesmo, mesmo...
posso te pedir um favor? passa meu email p o ollie?? o famoso oliveira...se ele quiser, adoraria onversar c ele, numa boa...nem sou pt!!!nem de esquerda, creio eu!!denisevolpato@hotmail.com beijissimos querida!!

Melody Claire disse...

Lola:

Post interessantíssimo. Teu blog é fantástico, descobri ele hoje e passo a segui-lo! Gostaria de te passar o endereço de um blog em que escrevo, junto com alguns amigos, sobre política, mundo e música:
ideiasnotom.blogspot.com
um grande abraço e parabéns!

Luma Perrete disse...

Vi essa notícia hoje, Lola: "O Conselho Nacional de Desenvolvimento (CNPq) lançou edital no valor de R$ 7 milhões para selecionar projetos de pesquisas sobre relações de gênero, mulheres e feminismo." http://camponews.temmais.com/noticia/6/20956/cnpq_vai_selecionar_pesquisas_sobre_a_mulher_no_campo.htm

Talvez seja uma informação útil para você ou para alguém, que você conhece =)