segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

BÍBLIA PARA MENINAS E PARA MENINOS

No post sobre publicidade infantil nos EUA, eu mencionei de passagem que os experts descobriram que é mais eficaz vender produtos diferentes para meninos e meninas (como batatinha em embalagem rosa pra garotas). A Loy não perdeu a chance e observou:

Ontem eu achei numa coleção de livros uma aberrância relacionada à essa diferenciação de sexos desde tenra idade. Chama-se Biblia para meninos e Biblia para meninas. É para educaçao cristã. Repare por favor nos motivos que diferenciam as capas... para além do óbvio das cores, a capa da Bíblia para meninas traz na capa uma Arcazinha de Noé, que mais parece uma casa. Estática, simétrica, cheia de bichinhos organizadamente dispostos, e uma anjinha em um balanço.
Já a capa da Bíblia para os meninos tem na parte de baixo em destaque uma luneta, um pergaminho e uma concha, e é cercada por cordas, elementos que sugerem movimento e aventura. A arca está sendo construída, o que suponho que queira sugerir que ao homem cabe ser o provedor das estr
uturas da casa. A disposição dos objetos da imagem é toda desordenada, o que sugere que ao homem é dado e possível não ser simétrico (olhaí, eu falando disso de novo), não ser organizado - o que não se espera de uma mulher, pois sua função é ornamental (por isso a capa da Bíblia das meninas é toda ajeitadinha).

Espero que nenhuma comentarista fique com ciúmes, porque eu adoro todas(os) as minhas comentaristas menos os trolls, mas puxa vida, Loy, onde você andou durante toda a minha vida? Sua observação das capas está perfeita.
Nem gosto muito de falar de religião, porque, como não pertenço à nenhuma, não creio que tenha que meter o bedelho. Em compensação, como as religiões se metem na minha vida, pois não permitem que eu viva num Estado verdadeiramente laico, sinto que eu posso me intrometer um pouquinho.
Bom, sinceramente, acho a bíblia um lugar inadequado pra se ensinar tolerância e paz. E pra questões de gênero ela é pior ainda, já que foi escrita por homens com mentalidade de dois mil anos atrás que sentiam-se como se estivessem falando em nome de um deus patriarcal, barbudo, branco, e zangadão. Mas vamos falar só dos dois livrinhos. Há seções no fim de cada história. Na bíblia pra meninos elas se chamam “Tornando-se um homem de Deus” e “A vez da mamãe”. Pelo jeito, ler historinha pra criança é papel exclusivo da mãe. Homem que é homem não se senta com os filhos, é isso?
Na bíblia para meninas, o objetivo é que mãe e filha “compartilhem experiências, emoções e sentimentos, fortalecendo o amor e a cumplicidade entre elas, e estreitando os laços de comunhão com o Pai. O resultado é que, a cada história, mãe e filha vão aprofundando seu relacionamento, enquanto descobrem o plano de Deus para suas vidas”. As mulheres de praticamente todas as religiões sabem muito bem o plano que “Deus” têm pra elas — um dos motivos para que religiosos odeiem feministas, que combatem o plano. Neste post do ano passado, eu falei de um membro da direita cristã americana e seus planos pras mulheres. Uma amostrazinha grátis pra vocês:

A Bíblia, a palavra inspirada de Deus, nos ensina que é a vontade de Deus a mulher se casar, ter filhos, cuidar da casa e não causar problemas. Deus diz que a mulher deve trabalhar em casa. Uma família dá muito trabalho. Crianças precisam ser atendidas e treinadas. Pratos precisam ser lavados. Roupas precisam ser passadas. Refeições precisam ser preparadas. Ser uma mãe em tempo integral exige muito trabalho! [...] Não estou dizendo que é errado uma mulher trabalhar fora de casa SE o seu marido concordar.

Outra das pérolas é que menina até pode praticar algum esporte, desde que não seja muito a sério. Já mulheres adultas, não, pois isso as masculinaliza e toma tempo que elas deveriam estar cuidando do lar. Opa, parece que foi ontem que falamos nisso?
Interessante como, nesses dois livrinhos, só existe a mãe pra cuidar dos filhos. Pai, nessa história, só aquele com letra maiúscula. Aquele que manda.

26 comentários:

Jux disse...

Caraio, Loláxima!!!
Por acaso esses livrinhos não foram escritos/orientados/inspirados pelas idéias da MM???
Na listinha "[...] Crianças precisam ser atendidas e treinadas. Pratos precisam ser lavados. Roupas precisam ser passadas. Refeições precisam ser preparadas [...]" faltou uma pérola clássica "cuecas precisam ser juntadas"!
AH! E estou todos os dias aqui no seu sótão virtual, linda!!! Meio quieta, mas lendo TUDO!!!
BEijukkkasssss

Cynthia disse...

Eu tenho essa bíblia pra meninas!! Não sigo religiao nenhuma, mas eu ganhei esse livro qdo eu tinha uns 8 anos! Além de tudo isso q foi dito no post, as histórias dentro da bíblia das meninas só contas as históras das mulheres que aparecem na bíblia comum... que não são muitas, né?

Loy disse...

Lola!
AAH, que demais!
Obrigada por falar disso!

E olha que coincidencia, quando eu conheci teu blog, e eu passei horas nele lendo freneticamente post depois de post, justamente indaguei sobre meu lugar no mundo: "onde eu estava que não tinha lido o que essa mulher escreve antes?"

hehe ;)


É fogo mesmo falar de religião, especialmente quando se fala como nós falamos, como quem está "de fora". e eu concordo totalmente com voce: nossa sociedade é pautada por um montão de conceitos, valores e padrões que a tradição cristã "fez o favor" de perpetuar, acho que na verdade estamos mais dentro do que gostaríamos. Temos o direito de falar disso sim.

Também porque essa diferenciação entre sexos na educação - no caso, religiosa -- hoje tem tudo a ver com marketing. Se por um lado ele é relacionado a esses valores tradicionais de diferenciação de papéis, tão antiga quanto o Antigo Testamento (livro que deveria vir com esse aviso: http://tinyurl.com/2gzrja) ele também tem tudo a ver com dinheiro. Por que afinal perpetuar a dominação de um grupo de pessoas sobre outro, com base em argumentos biológicos e psicológicos, também é beeem lucrativo. As pessoas adoram uma "identidade", adoram se definir como alguma coisa, e que vão gastar o que for possível (tempo e dinheiro, pra dizer o mínimo) para marcar o seu "eu". Assim é a identidade feminina né? Então é isso: ganha-se dinheiro, mantém-se a mulher estática, e ela ainda acha bom. Aliás, é fundamental que ela ache bom, porque estraga o sistema se ela se aborrecer com isso. Aí é que entra a chave de todo o esquema: muitas mulheres "compram" esta visão do que é a mulher (baixinha e de salto, magra, cabelo liso, maquiagem, cheirando a morango), porque essa identidade possui uma determinada linha de conforto, na qual ela pode ter uma arcazinha estática construída pelo Noé que ela habilmente conquistou com seu cheiro de morango.
Ganha-se alguma coisa com esta identidade, mas o caso é que não se pesa o custo X benefício desta compra (igualzinho quando se compra um batom vermelho que custa 50 reais. Pelamor!)

Lola, adorei vc ter feito este post. Obrigada mesmo,o carinho que você tem com seus leitores é incrível.

beijo

André Gonçalves disse...

depois criticam o Alcorão.

Loy disse...

só para esclarecer:
nao to querendo dizer que a posição da mulher na sociedade é confortável e exige menos, e por isso ela voluntaria e alegremente se coloca aí (argumento malvado que muitos homens usam para evitar que a mulher pense uma saída do que é na verdade um tipo de prisão). Não é isso.
Acho que há um nível de aceitação deste papel, porque ele traz elementos que ensinou-se que trazem felicidade - como ter um marido (noé), uma casa (arcazinha estática sob raios de sol simétricos rsrs), uma família (criancinhas bonitinhas no balanço e bichinhos organizadamente dispostos).

Ensinando-se que isso traz felicidade, mostrando o "jeito" de obter isso (que jeito hein?!), coloca-se a mulher buscando algo, que até pode conter coisas boas, mas que tem altissimo preço para ela. Para nao falar da contradição: da imaginação da casinha perfeita e do marido ideal até a obtenção possível daquilo que é real (afinal, nada no mundo é perfeito), passa-se por um choque, que causa sofrimento. Se à mulher for imposto "não causar problemas" fica mais fácil para os outros, afinal, ela vai sofrer em silêncio, em nome do bem estar e da harmonia do lar. E Viva a Virgem Maria.

Carla Fernandes de Oliveira disse...

Nossa, que absurdo! O que me deixou mais de queixo caído foi ler "Para mães e filhos". Quer dizer que só as mães podem passar esse tipo de educação pros filhos, só elas podem compartilhar essas experiências e emoções?
Absurdo demais que dá raiva!

Adwilhans disse...

Para piorar, os livros indicados foram escritos por uma MULHER (não sei se merece as maiúsculas...), Carolyn Larsen. Registro ainda que a cultura massacrante não é um "privilégio" ocidental, muito pelo contrário.

J.anquevitti disse...

Aff, fiquei com nojo desses livros, não preciso nem ler pra saber que não prestam...

Jonas

Gabriela disse...

Toda vez que vejo minha sobrinha de 11 anos falando sobre Deus e bíblia me da um nó na garganta. Estudo psicologia e sei (pela teoria do piaget) que crianças de até 12 anos mais ou menos ainda nao tem o pensamento crítico, nao conseguem visualizar opções não "táteis". Aí te pergunto, com que idade se coloca na catequese? Obvio, antes dessa idade, pra que as crianças engulam toda essa merda sem pensar no que tao fazendo... é um crime.

Alcyone Coelho disse...

Lola e caros colegas comentaristas! Eu acredito que as observações do post têm fundamentação, menos na parte em q Lola, e vcs ratificam aqui, q só a mãe pode ter aquele tempo com as crianças... Parece até q vcs não entendem o marketing meu povo! "Esse" livro é para mães e filhos (as), mas isso não quer dizer q não haverá outra "pais e filhos" e tal. E, convenhamos, vcs acham que o papel da mãe e do pai na vida de uma criança é igual?!
Lola (isso é até uma susgestão de post, tá?!)eu vi essa reportagem na TV falando das diferenças da maneira de que os filhos sao tratados/educados pelo pai e pela mae e a influência disso na vida adulta deles. Tipo: o pai joga a criança p o alto (e a faz perder o medo das coisas), enquanto a mãe jamais faria isso por achar perigoso... etc.
Bom ano novo p todos!

Alcyone Coelho disse...
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Alcyone Coelho disse...

Ahhhhhhhh, já ia esquecendo, Lola, todos nós sabemos q a imprensa é parcial, gostaria que vc comentasse o TAL caso SEan. Vc leu alguma coisa publicada aqui nos EUA? A diferença no enfoque? E o q vc acha do assunto?!

Haline disse...

Lola, acho que vc não é meio lésbica ... é TOTALMENTE. rssss brincadeira. Eu acho tão complicado essas idéias ainda serem disseminadas sabe. Mas acho também que tem gente q vive a religião de uma maneira diferente. Mas isso é privilégio de poucos, que conseguem fazer parte e ter senso crítico.

Junior disse...

Cada vez mais triste com esse mundo em que vivemos sabe?
A luta contra o preconceito é inglória demais.

Felina disse...

nem vou falar do tal livrinho, o que mais me irrita são esses brinquedos, pq pra menina tem q ser boneca, casinha, cozinha, ferro de passar e todos outros apetrchos domésticos e meninos recebem brinquedos super estimulantes, que realmente desenvolvem funções motoras e a uma criatividade pra lá de imaginativa, menina só pode sonhar em ser mãe e dona de casa? ainda bem que não tenho filhos, porque eu não ia aceitar essas determinações sexistas.
bj e feliz 2010, com mais evolução na cabeça do povo.

Jux disse...

Minha mãe e meu pai nunca deram esses brinquedos hediondos para nós - e olha somos três mulheres e um homem. Ela sempre ODIOU esses "apetrechos" do tipo "kit escravinha" com vassourinha, rodinho, baldinho e outros inhos pra "formatar" as supostas futuras funções femininas. E meu pai nunca teve problemas em brincar com coisas de "meninos" com as filhas (meu irmão é temporão): andamos muito de carrinho de rolimã e ele nos ensinou a fazer/empinar pipa/papagaio/pandorga. Lá na casa da mãe e do pai, nós todas sabemos lidar com as coisas que "supostamente" só homens fazem: trocar pneus, fazer consertos, etc. Além de as três mulheres terem feito cursos técnicos (no ensino médio) nada "femininos": minhas irmãs são técnicas em mecânica e eu, em edificações. Nunca houve esse esquema de "coisa de homem" ou "coisa de mulher". Hoje sei o quanto tivemos sorte em ser educadas assim. Beijukka!

Marussia de Andrade guedes disse...

Lola, não entendo quando você diz que não gosta de falar de religião porque não gosta de meter o bedelho. Acho que temos que meter o bedelho sim. Esse respeito pela religião é totalmente indevido. Nada é tão maléfico para a mulher quanto a religião. As violações dos direitos humanos das mulheres são constantes e inúmeras! Já vi, neste blog, críticas severas a esta busca pela beleza, mas nunca vi críticas severas às religiões que são muito mais danosas. Como eu queria ver uma mulçumana exibindo um batom, um brinco, etc!
Ao invés disso, cobrem-se inteirinhas. São prisioneiras em todos os sentidos, pois nem direito
à educação tem. E Loy, pelo menos no mundo ocidental, as mulheres já tem as armas para mudarem sua realidade, apesar de ainda serem educadas de maneira diferente da dos homens. A mulher ocidental é sim responsável pelo papel que desempenha. Já não somos mais escravas da procriação, já temos acesso à cultura e a educação, etc.
Mais uma vez eu digo que é não producente nos fazermos de vítimas.
Se as crianças são educadas lendo livrinhos como estes, que poderemos esperar delas? Mas se não criticamos as religiões como esperar que estes livrinhos não sejam usados? Pensem nisto!

Devathai disse...

Da hora que a criança nasce até a hora em que ela coloca as mãozinhas num livrinho desses, a exposição à essa coisa de papéis é tanta e se dá tão frequentemente que, sinceramente, não há muita esperança. Porque uma família que dá um livro desses a uma criança já passa o atestado de que está construindo o gênero de suas crias com base em tradições arraigadas/ultrapassadas desde o berço. =/

E MORRIr com o link da bíblia que a Loy postou =D

Fabiana disse...

Oi, Lola.

Eu achei mais fácil explicar pra minha filha de onde vêm as crianças do que explicar o significado do Natal.

Então, achei esse link de um fotógrafo que anda por aí tirando fotos das crianças e seus objetos, é assustador:

http://www.jeongmeeyoon.com/aw_pinkblue.htm

Laura disse...

So de ver as cores ja deixa a gente meio perturbado. Esse negocio que rosa é pra menina e azul pra menino me da uma preguiça, pois qdo era criança lembro dos coleguinhas ganharem coisas que eram azuis ou vinham em caixas azuis e eram sempre tão mais interessates. Coisas para serem montadas, jogos que exigiam raciocinio.... o que vinha dentro do pacote rosa sempre foi tão "passivo". A boneca, as panelinhas, as maquiagens... enfim, o mundo azul é tão mais animado ne!!!

Lola, eu sei que nao tem muito haver com o post o que vou ter perguntar, mas vc sabe de alguma personagem feminina "forte" em algum filme de mafia.. gangster e derivado??

Bjss

Gaúcho disse...

Cada vez que leio sobre algo assim, eu lembro de agradecer à minha saudosa avó (que rompeu com a igreja ainda adolescente, depois de ter sido humilhada em público pelo pastor por usar brincos) e ao meu pai (que rompeu com a igreja depois de ter sido cobrado em público pelo pastor por faltar a algum culto). Assim, eu cresci livre para fazer as minhas próprias escolhas espirituais...

Cris disse...

haha haha
To aqui rindo. Pq se fosse pelo meu pai eu mal teria começado a andar de tanto medo q ele tinha deu cair. E, com a minha mãe, eu já subi árvore, fiz "skybunda", etc.

Nem preciso dizer, então, o que eu acho sobre "rosa pra meninas" e "azul pra meninos" e todas essas convenções ridículas.

Diêgo Cesar disse...

Cara, mas que coisa. É muito estranho essa bíblia segmentada circular por aí. Gosto de mulheres do séc. XXI, aquelas que querem sim um cara bacana ao seu lado, mas que de jeito e maneira vão desistir de seus sonhos, aquelas que vão à luta, trabalhar, crescer, conquistar coisas, terem poder. Minha mãe me criou sozinha e foi ótima; admiro todas as mulheres, pois sei que todas têm essa força interna. Quanto à religião, é por esse caráter "abestalhador" qu'eu me incluo fora dela. Quando for pai, pode deixar qu'eu vou estar por perto, afinal não tive um e quero ser o melhor possível. Só falta arranjar uma que me queira rs!!!

Laura disse...

O blogspot tá horrível, Lola. Abre uma hora sim, noutra não. Um horror. É só aqui comigo?

FEliz ano novo pra ti :)

Masegui disse...

Laura,

O problema não é só com você. Coloque no google a pesquisa "problemas para acessar o Blogger" e você verá um caminhão de reclamações.

Este problema, para grande parte do país, vem desde 23/12 à noite.

Patricia disse...

Essa divisão entre produtos para mulheres e produtos para homens me horrorizou ultimamente, vi água para mulheres no mercado, água! Nada mais é do que uma água mineral com embalagem rosinha chamada 'women'. Sério mesmo, Lola, quando eu vi isso conclui que ultrapassaram todos os limites do ridículo.