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terça-feira, 6 de dezembro de 2022

NÃO AO ESTATUTO DO NASCITURO!

Aproveitando a distração com Copa e eventos de fim de ano, os deputados fundamentalistas querem aprovar às pressas o Estatuto do Nascituro, um projeto ultraconservador que cria mais obstáculos para vítimas de violência sexual abortarem, além de acabar com a possibilidade de pessoas que gestam fetos anencéfalos de realizar o procedimento. 

Isso mesmo, se for aprovado amanhã na Câmara, mulheres que gestam fetos sem condições de sobreviverem fora do útero precisarão passar pela violência psicológica de manter a gravidez.

A votação acontece amanhã, 7 de dezembro, às 10h -- e de portas fechadas. Precisamos ecoar nosso coro #NãoAoEstatutoDoNascituro e exigir que o relator retire o projeto de pauta!

Por isso a Frente Nacional Contra a Criminalização das Mulheres e pela Legalização do Aborto, juntamente com o Mapa do Afeto, o NOSSAS e a Campanha Nem Presa Nem Morta lançam a campanha "Não ao Estatuto do Nascituro". Nosso objetivo é pressionar o deputado Emanuel Pinheiro (MDB/MT) para tirar de pauta um projeto de lei que dificulta o acesso ao aborto legal de meninas e mulheres vítimas de violência sexual.

Pressione o deputado aqui ó!

Envie para todo mundo que conhecer! Vocês podem postar as artes das campanhas em suas redes e nas de suas organizações, todas as artes tão aqui ó:

E aqui vocês encontram sugestões de legendas para diferentes plataformas virtuais.

E amanhã às 9h da manhã entre em nosso Twittaço, você pode acessar aqui o nosso banco de tweets.

Bora simbora que temos menos de 24h para parar esse absurdo!


terça-feira, 6 de setembro de 2022

CASAMENTO É SUBMISSÃO, PREGA ESPOSA DE BANANINHA

Já perceberam como a direita adora usar a palavra liberdade (em vão)? É grito da liberdade, marcha da família com Deus pela liberdade, liberdade acima de tudo (como se alguém fora eles estivesse ameaçando a liberdade)... 

Liberdade é, pelo menos na teoria, um conceito muito caro pra eles. Só que não se aplica às mulheres. Mulheres não são livres, ou melhor, são livres apenas para amar seu marido e seus filhos. Mas mulher tem que ser submissa. Porque Deus quis assim! E não é que ela é inferior! Ela só sabe o seu papel. 

Hoje mesmo pela manha, numa entrevista a Jovem Klan, a única jornalista que não parece ser uma reaça, Amanda Klein, perguntou a seu Jair sobre os imóveis comprados com dinheiro vivo pela família. Bolso respondeu "Você é casada com uma pessoa que vota em mim". O que ele quis dizer com isso? Que o senhor e mestre dela deveria dar um jeito nela (ao ser lembrado que a vida particular dela não estava em pauta, Bolso perguntou: "E a minha está?", esquecendo-se que é uma figura pública. Dizem até que é presidente!).

No sábado a nora de seu Jair participou de um evento em Novo Hamburgo, RS, chamado "Mulheres pela Vida e pela Família" (sem liberdade). Ao lado da terceira-dama Micheque e da ex-ministra Damares, Heloísa, esposa de Dudu Bananinha, discursou que "Casamento é submissão. Não se engane, nenhuma mulher é insubmissa, independente e livre". E, de lambuja, falou mal do feminismo, como toda mulher de direita deve fazer pra tentar ser aceita por misóginos bastante assumidos. 

Uma leitora que prefere ficar anônima mas que usa Matrix como apelido me enviou este texto:

"Casamento é submissão. Não se engane, nenhuma mulher é insubmissa, independente e livre".

Cara Heloísa, li na internet essa descrição que você fez sobre mulheres e casamento.

Na verdade fiquei uns 10 minutos lendo e relendo a sua explanação num discurso em Novo Hamburgo.

Enquanto mulher, casada, livre, autônoma e independente eu, realmente, me questionei se estou fazendo algo de errado no meu casamento que já dura 12 anos, três filhos (eram 4, uma faleceu há 2 anos), uma casa bem organizada, um marido trabalhador, eu professora do ensino fundamental, contas em dia, finais de semana de muita alegria e cada vez mais e mais amor entre nós (sexo em dia) e tudo isso apesar de todo o caos que o Exmo Presidente da República instalou em nosso país.

Então concluí que, se há algum "erro", certamente não está em nós mulheres mas sim nas escolhas que cada uma de nós faz.

Você escolheu ser submissa, dependente e encarcerada. Não estenda sua escolha a todas nós.

Existe vida dentro de uma união homem/mulher.

Vida LIVRE, AUTÔNOMA e INDEPENDENTE, apenas com amor, cumplicidade, lealdade, respeito e companheirismo.

Não use a sua vida moldada em parâmetros patriarcais ultrapassados, cruéis, imorais por natureza, que fazem da mulher um mero objeto para consumo.

Enfim, não cabe no século XXI, ano 2022, essa sua afirmação medieval e autocrática.

Guarde para você e suas admiradoras tais "opiniões", porque sua fala não é consenso sob hipótese nenhuma.

Ser livre, independente e autônoma é condição primordial para que possamos sobreviver ao patriarcado enquanto mulheres (casadas ou não) e ocupemos nossos lugares onde quer que desejarmos.

Sinto muitíssimo pela sua escolha decadente.

Aliviada por saber que existem milhares iguais a mim.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

CADA UM TEM OS ALIADOS QUE MERECE

Micheque e seu marido Jair estão em plena campanha, empenhadíssimos para reconquistar o voto das evangélicas. 

Como percebeu a socióloga Christina Vidal, especialista em política e religião, a terceira-dama mudou o corte de cabelo e está vestindo roupas mais largas e pudicas, "encarnando o projeto da mulher virtuosa, a 'Mulher V'" (conceito popularizado por uma filha de Edir Macedo que defende uma "mulher moderna à moda antiga", argh). E também apelando para o preconceito religioso (e racista) contra "macumbeiros", lógico. 

Pode até funcionar. Mas, para tanto, o casal precisará aparar umas arestas. Por exemplo, não pegou nada bem eles terem ido a um almoço no domingo em Belo Horizonte com Guilherme de Pádua e sua terceira esposa, Juliana (entre outros casais convidados). Antes foram a um culto na Igreja Batista da Lagoinha, onde Guilherme é pastor há cinco anos. 

Nem todo mundo sabe que Guilherme é bolsonarista de carteirinha (neste vídeo de maio de 2020 ele e Juliana participam de um ato golpista pró-Bolso em frente ao Congresso), mas todo mundo sabe quem é Guilherme, ainda mais agora que está sendo exibido o documentário Pacto Brutal. Trinta anos atrás, o então ator matou com 18 tesouradas sua colega -- a atriz Daniella Perez -- na novela De Corpo e Alma, com a cumplicidade de sua primeira esposa, Paula Thomaz. Foi um crime que chocou e paralisou o Brasil, tirando o foco do impeachment de Collor (hoje aliado a Bolso).

Condenado a 19 anos, Guilherme ficou menos de 7 anos preso. Saiu em outubro de 1999, e já passou a frequentar a Igreja Lagoinha. Sobre ele, o filho do dono da igreja já justificou: "Guilherme cumpriu a pena. Ele é uma bênção. Nenhum de nós somos os mesmos, constantemente somos transformados pela misericórdia de Jesus”.

Poucos ficariam sabendo do encontro de Guilherme e Juliana com Jair e Michelle se não fosse a colunista Fábia Oliveira, do Em Off. Pra piorar, tem uma foto de Ju e Mi posando juntas, sorridentes. Pra piorar mais ainda, pouco depois a primeira-dama fundamentalista cristã deixou um emoji de choro numa postagem da novelista Glória Perez (mãe de Daniella e também apoiadora de Bolso) sobre o documentário. Muita gente a acusou de hipócrita e falsa. 

Como não podia deixar de ser, bolsonarentos estão caprichando nas fake news de que Guilherme apoia Lula (não Bolso, como ele já deixou claro em 2020). Juliana se comprometeu a negar qualquer amizade com Michelle que, segundo ela, nem sabia quem ela era (outro colunista alega que Bolso não estava em BH no dia). E a gente aqui, fã da tag #NuncaFalha (as piores pessoas sempre votam e fazem campanha pro genocida), vê mais um exemplo de como aquele slogan fascista deles (bandido bom é bandido morto) só vale pra quem não é aliado deles.

Após ler essas notícias todas, comentei com o maridão sobre como, para as igrejas evangélicas, um assassino como Guilherme de Pádua é muito mais valoroso do que alguém que nunca matou, porque segue aquela narrativa de redenção através da fé. 

Eu: "Se a gente se convertesse, ia ser exemplo de qual superação, a gente que nunca cometeu nenhum pecado muito sério? Que nunca matou, nunca roubou, nunca usou drogas, nunca foi alcoólatra, nunca se prostituiu? A gente iria dizer o quê, que não acreditava em deus e agora pagamos 10% de tudo que ganhamos pra pastores milionários?"

Maridão: "Eu já joguei a Leningrado".

Eu: "O que é isso? O que tem a ver?"

Maridão: "Pro pessoal do xadrez, jogar a defesa Leningrado é um pecado muito grave".

Eu: "Pelo menos a gente nunca votou no Bolsonaro". 


UPDATE em 14/8Numa das lives que duram horas para um canal reaça, Bolso confirmou que esteve sim, por poucos minutos, no almoço (depois do culto em que ele e Michelle discursaram) com pastores da Igreja Batista Lagoinha, em BH, da qual Guilherme de Pádua faz parte. A esposa atual (Juliana, não Paula Thomaz, que foi cúmplice de Guilherme no assassinato de Daniella) tirou foto com Michelle. Guilherme é apoiador de Bolso há anos. Cadê a fake news? A propósito, depois o trecho da entrevista sumiu da live. Quanto vocês querem apostar que Bolso não vai processar a colunista que falou desse encontro?

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

MELHOR PERGUNTA DO DIA

Sei de uma pessoa que, quando perguntada o que impede que ela pegue covid, aponta pra cima e diz "Deus".  Ela realmente acha que se vacinar é morte certa, então ela pediu a um médico um atestado falso dizendo que tem uma doença que não permite que seja vacinada. E anda por aí sem máscara, um perigo para tds nós.

Lógico que essa pessoa é bolsonarista fanática, não preciso nem dizer. Acha que o principal problema do Brasil não é a fome, a miséria, o custo de vida, a inflação, a corrupção. É a homossexualidade, porque vai contra as leis de Deus. Ah, e essa pessoa não é evangélica. É católica.

Um leitor me mandou a imagem da camiseta acima com uma excelente pergunta: se você não precisa de uma máscara porque Deus vai te proteger, por que você precisa de uma arma? 

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

O DEMÔNIO A SER EXORCIZADO É O MACHISMO

Reproduzo aqui este excelente artigo que Simony dos Anjos publicou na Carta Capital. Simony é quem basicamente me apresentou ao feminismo cristão. Tenho enorme admiração por ela, que é evangélica, cientista social, mestra em educação e doutoranda em economia. É da Rede de Mulheres Negras Evangélicas e articuladora da Coalizão Evangélica contra Bolsonaro. Foi candidata à prefeita de Osasco pelo Psol no ano passado. 

Recentemente, o pastor brasiliense Anderson Silva escreveu nas redes sociais que a mulher tem um ‘potencial demoníaco’. Segundo ele, a sociedade olha apenas para a agressão que um homem comete contra uma mulher, mas não para os meses de tortura psicológica ao quais a mulher supostamente submeteria o homem.

Ora, esse discurso é criminoso e o autor deve ser responsabilizado na justiça. Culpabilizar mulheres por sofrerem a violência reforça a ideia de que elas merecem apanhar e encoraja os homens a cometer abusos contra suas companheiras, sejam elas psicológicos, financeiros, sexuais ou físicos.

Silva, que tem centenas de milhares de seguidores nas redes sociais, é idealizador de projeto chamado Machonaria, que busca resgatar os valores patriarcais na sociedade. Esse tipo de postagem não é raridade. Tenho visto dezenas de perfis que discursam sobre uma masculinidade violenta, que submete mulheres à vontade de homens a custo da integridade emocional e física de suas esposas. Esses perfis falam que mulheres são obrigadas a fazer sexo com seus maridos, mesmo sem vontade; que o fato de querer ter filhos é uma decisão do casal e não da mulher – a partir da ideia de que, para por DIU ou usar anticoncepcionais a mulher deve ter, primeiro, a permissão do marido; de que o dever da mulher é cuidar dos filhos e do marido e que mulheres são frágeis e devem ser protegidas por homens, dentre outros absurdos.

Não entendo como as redes sociais, como Facebook e Instagram, permitem que eles publiquem esses discursos diariamente e que nós, as feministas, tenhamos que rastrear uma a uma dessas postagens e denunciá-las para que saiam do ar.

Observando os comentários, li, infelizmente, uma mulher agredida pelo marido dizer que sabia porque tinha apanhado, e que merecia isso. Outros tantos apoiam a ideia de que mulheres que não seguem o que se espera delas devem ser penalizadas com violência. Em segundos, esses perfis põe em xeque o esforço de décadas em defesa dos direitos das mulheres comandarem suas vidas, de viverem em relacionamentos saudáveis e respeitosos. Esforços que com grande articulação nacional culminaram na Lei Maria da Penha são enfraquecidos e combatidos por homens que pregam desonestamente uma ideia de família que apenas favorece a eles.

Não preciso dizer que esses perfis têm forte apelo religioso, baseados na tríade família-tradição-propriedade (sem esquecer da defesa de posse de armas).

Quando vejo um machista que prega a submissão da mulher e a posse de armas, me arrepio. Contra quem essas armas serão usadas, senão contra as próprias mulheres? A quem interessa que mulheres vivam para os homens, anulando seus desejos e vontades? A quem interessa usar a religião para pregar tanta violência contra a mulher?

Sou evangélica de berço, amo minha comunidade, irmãs e irmãos, e me sinto bem entre eles e elas. Vivo diariamente essa realidade que muitas pessoas apenas veem de fora. A igreja é um espaço onde se ama, onde se acolhe, onde eu tenho amigos muito queridos. Mas a igreja pode ser também um espaço que silencia e que se acostuma com a violência.

Sabem por que me “tornei feminista”? Eu tinha 15 anos quando percebi que uma irmã da igreja apanhava. Ela faltava a muitas reuniões, até as marcas sumirem do rosto e do corpo. Aos 15 anos, soube que uma comunidade inteira aceitava que uma mulher apanhasse, e achava que isso não era da conta de ninguém. Afinal, em briga de marido e mulher…

Isso ainda acontece em milhares de igrejas espalhadas pelo Brasil. Sustentados pelo machismo, homens reafirmam diariamente em púlpitos que mulheres devem ser submissas, mesmo que isso custe suas vidas. Nas redes sociais — com uma tatuagem aqui, um coque samurai ali e uma prancha de surf acolá — esses discursos alcançam milhões de pessoas.

Se uma mulher publica a imagem de um parto ou de um seio descoberto amamentando, imediatamente as redes derrubam a postagem. Mas quando um machista escreve que mulheres devem sexo ao marido, é necessário a denúncia para que essa postagem saia do ar. Por isso falamos de um machismo estrutural, que rege os algoritmos e estrutura a religião e a economia.

O perfil do machonarista tem 117 mil seguidores, ou seja, é um perfil lucrativo para as redes. Movimenta dinheiro, movimenta público. A pergunta que faço é: a custa de quem? De nós, mulheres? Ainda mais nós, mulheres negras, que somos submetidas à violência doméstica dupla: dos maridos e dos patrões.

O pensamento colonial que se sustenta na ideia de que o homem branco é um sujeito de todos os direitos, enquanto as demais pessoas são propriedades é regurgitado o tempo todo nesses perfis – a lógica do bandido bom é bandido morto, a ideia de que mulheres são objetos e tantas outras ideias que reforçam os privilégios de raça, gênero e classe.

Sim, esses perfis são de homens brancos, que defendem o capitalismo e as armas. Toda a lógica colonial brasileira sendo reiterada bem embaixo do nariz dos donos dessas mídias sociais. Penso eu, essas plataformas não devem ser responsabilizadas? Podem livremente veicular discurso de violência e ódio contra as mulheres, sem regulação alguma? A naturalização da submissão das mulheres se dilui em meio à dancinhas, likes e bichinhos fofos.

Entretanto, prestem bem atenção: nós feministas expulsaremos o demônio do machismo do Brasil. É pela vida de todas as mulheres que estamos nas trincheiras contra a lógica patriarcal que faz com que o Brasil seja o quinto país do mundo a matar mulheres cis e o primeiro a matar mulheres trans. Basta de violência contra as mulheres, seja nos púlpitos, seja nas mídias sociais. Não permitiremos mais.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

O AFEGANISTÃO TAMBÉM PODE SER AQUI

Reproduzo o texto da Cepia (Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação) e do Católicas pelo Direito de Decidir sobre a situação das mulheres quando a política é dominada pela religião:

Confinadas ao espaço doméstico, proibidas de sair às ruas, estudar, trabalhar, participar da vida política, de frequentar serviços de saúde, submissas e submetidas à violência doméstica, ao casamento precoce, ao estupro, à mortalidade materna. É assim que o regime Taliban tratou mulheres e meninas quando detinha o poder no Afeganistão, poder que recuperou agora com a falência da ocupação americana no país.  

Invisíveis dentro de burcas, as mulheres e meninas têm morte civil no regime Taliban.  Elas serão regidas por uma interpretação radical e fundamentalista pela sharia, conjunto de leis derivadas do Corão.  

Mesmo se esta situação é um exemplo extremo da submissão das mulheres, alertamos para o fato de que não se trata de um ponto fora da curva pois, em diversos países, inclusive no Brasil, mulheres e meninas são constantemente ameaçadas de perder direitos em nome de uma cultura patriarcal amparada na interpretação de textos sagrados como a Bíblia, ou os Evangelhos. 

Mulheres e meninas são sempre as principais vítimas quando religião e política se misturam em regimes conservadores que advogam o cerceamento de seus direitos, e questionam sua plena igualdade no casamento, seu direito a uma educação norteada pela igualdade de gênero, e não respeitam a sua autonomia sexual e reprodutiva. Isto está acontecendo hoje no Brasil, onde avança a combinação tóxica de religião e política. 

O Afeganistão também pode ser aqui. 

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

A DERROTA DOS EUA, O TALIBÃ DE VOLTA, E O DESESPERO DAS AFEGÃS

É terrível ver o que está acontecendo no Afeganistão. As imagens de pessoas desesperadas correndo para o aeroporto para tentar fugir do país agora que o Talibã tomou a capital Cabul são assustadoras. Pior ainda quando lembramos o que o Talibã representa para as mulheres e outros grupos considerados minoritários, como LGBT ou gente de outras religiões que não a muçulmana.

Mas vamos por partes. Vou tentar reunir neste texto um pouco do que andei lendo sobre a situação desse país da Ásia Central com cerca de 34 milhões de habitantes. Mesmo pequeno, ele fica próximo a potências mundiais como China, Rússia, Irã e Índia. Logo, o que acontece lá pode afetar toda a (des)ordem mundial.

Não vou nem tentar resumir a história do Afeganistão, mas vale lembrar que esses vinte anos de ocupação militar americana (no mês seguinte ao 11 de Setembro de 2001, os EUA invadiram o país) não foram novidade. Durante a Guerra Fria, em que EUA e União Soviética disputavam cada território como se estivessem num tabuleiro de War, os soviéticos invadiram o Afeganistão. Entre 1979 e 1989, os soviéticos dominaram os afegãos. Enquanto isso, a CIA treinava e armava rebeldes e milícias para derrotar os soviéticos.  

Por incrível que pareça, esse período da dominação soviética foi aquele em que as mulheres afegãs tiveram mais igualdade em sua história. Durante essa era, os direitos das mulheres eram apoiados tanto pelo governo afegão quanto pelos soviéticos, que eram contra véus e burcas e a favor da educação compulsória para todas as meninas (incluindo as da zona rural). Foi nessa época que foi criado o Conselho das Mulheres Afegãs. Não estou apoiando a invasão e ocupação soviética, assim como não apoio a americana, só descrevendo um fato. 

Pouco depois dos soviéticos saírem, começou uma guerra civil. Os talibã (que significam estudantes) surgiram em 1994, para implantar a sharia, a lei islâmica. Em novembro daquele ano tomaram Kandahar, a segunda cidade mais importante do país. Seus primeiros decretos atingiam diretamente as mulheres: forçadas a usar burcas, foram proibidas de trabalhar fora de casa, de ir a escolas, de serem atendidas por médicos homens (o que, na prática, queria dizer que não teriam atendimento médico, ponto), de usar sapatos, de fazer barulho ao caminharem etc. A penalidade para calcanhares descobertos era o chicote. Para sexo fora do casamento, morte por apedrejamento. 

Em setembro de 1996, o Talibã -- que exige que as famílias entreguem meninas e mulheres solteiras para se tornarem esposas de seus combatentes -- capturou a capital Cabul. Seu governo foi reconhecido por somente três países (Emirados Árabes, Arábia Saudita e Paquistão). Assim que tomaram o poder, proibiram todas as mulheres de trabalhar. Imaginem o caos: um quarto dos serviços civis de Cabul, todo o ensino e grande parte dos serviços de saúde dependiam das mulheres. 

As escolas femininas foram todas fechadas. Mulheres não podiam sair de casa sozinhas, sem a companhia de um parente homem. As janelas tinham que ser pintadas para que ninguém enxergasse as mulheres dentro da casa. Até a burca afegã é ainda mais restritiva que as outras -- a rede que cobre os olhos é mais apertada. Televisão, cinema e esportes também foram banidos. Todos os dias eram anunciadas novas proibições. Todos os homens tinham que usar barba, por exemplo.

Assim como na Arábia Saudita (eterna aliada dos EUA), foi criada a polícia de "Prevenção do Vício e Promoção da Virtude". Uma das funções era fiscalizar o único hospital em Cabul em que as mulheres podiam ser tratadas, sempre acompanhadas de um parente homem. Os médicos homens não podiam tratar ou examinar as mulheres, e as médicas mulheres haviam fugido. 

Por causa de tantas guerras, havia mais ou menos 30 mil viúvas em Cabul. Elas perderam a pensão. Sem parentes do sexo masculino, viraram mendigas. Até 2018, havia pelo menos meio milhão de viúvas no país todo. Hoje, são 2,5 milhões. Num país que considera que mulheres dependem dos homens, as viúvas constituem um dos grupos mais vulneráveis. 

Depois do ataque às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001, as tropas dos EUA invadiram o Afeganistão para tentar capturar Osama Bin Laden. Foi fácil derrubar o Talibã. Tanto que o presidente Bush Jr decidiu invadir também o Iraque, que nada teve a ver com o 11 de Setembro. Com isso, o Talibã se infiltrou na fronteira com o Paquistão, reagrupando-se principalmente a partir de 2004. 

Os EUA prometeram que sua maior intenção com a invasão era restaurar a democracia e os direitos humanos no Afeganistão. Não era, óbvio. Era pegar Bin Laden. E os EUA fracassaram até nisso. Só em 2011, dez anos depois da invasão ao Afeganistão, o terrorista foi assassinado -- no Paquistão. E nem assim a Al Qaeda acabou.

Os atentados terroristas promovidos pelo Talibã continuavam, com a alegação de serem contra a "corrupção moral, mistura de sexos e promoção dos valores ocidentais". Na época, um porta-voz do Talibã em Catar negou violação dos direitos das mulheres. Ele disse que o grupo defende que as mulheres tenham "todos esses direitos dentro dos valores islâmicos e afegãos". Ou seja, zero de direitos.

Os EUA, cansados da mais longa guerra de sua história (a do Vietnã, que eles também perderam, durou oficialmente onze anos), em 2018 começaram negociações de paz com o Talibã. As feministas afegãs (sim, é lógico que existem feministas no Afeganistão; existem feministas em todo lugar) foram afastadas das negociações de paz por imposição do Talibã. Elas acusaram as negociações de excluírem direitos das mulheres, direitos humanos, ou sequer a preservação da Constituição do país, que garante direitos iguais. E isso que estudos da ONU provam que, quando mulheres participam de negociações de paz, um acordo tem 35% mais chances de ser cumprido. As feministas afegãs sempre avisaram que as condições das mulheres iriam se agravar se o Talibã voltasse. 

A RAWA (Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão) afirmou: "as conversações de paz com os Talibãs são insignificantes, hipócritas e simplesmente ridículas. Temos os talibãs de um lado, que são criminosos medievais, do outro, o regime fantoche composto pelos irmãos de credo dos Talibã, e o terceiro ator, os EUA, que é o criador de ambos". 

"É muito importante termos a paz, mas um tipo de paz que vai nos ajudar a continuar, não ao custo de perder o que conquistamos até agora", já dizia uma feminista afegã em 2018. "Não estamos pedindo para os EUA lutarem a batalha por nós. Estamos pedindo que os EUA nos apoiem enquanto nós lutamos para proteger nossos direitos", disse outra, três anos atrás. Onde estavam as prioridades americanas? Não na melhora da vida das mulheres, seguramente. Até o final de 2019, os EUA haviam gastado quase mil vezes mais em suas ações militares do que no auxílio para os direitos das mulheres.

Em fevereiro do ano passado, EUA e Talibã assinaram um tratado para "trazer a paz". Isso incluía a retirada das tropas americanas e da OTAN, a promessa do Talibã de impedir a Al-Qaeda nas suas áreas, e conversações entre Talibã e governo afegão. Desde abril deste ano, quando Joe Biden anunciou a retirada de todas as tropas, o Talibã foi conquistando mais e mais distritos. No final de junho, já controlava 157 dos 398 distritos do país. Ontem, tomou Cabul (a CIA previa que o Talibã entrasse em Cabul em três meses. Foi antes mesmo dos EUA retirarem suas tropas). Agora, quer proclamar a ditadura teocrática totalitária islâmica do Emirado Islâmico do Afeganistão. 

Toda a ação dos EUA nos últimos anos foi desastrosa, culminando na retomada do Afeganistão pelo Talibã. Vinte anos de guerra e um trilhão de dólares depois, Joe Biden declarou: "Fui o quarto presidente a presidir com tropas americanas no Afeganistão -- foram dois republicanos e dois democratas. Eu não iria, e não irei, entregar esta guerra para um quinto".

A Nobel da Paz Malala Yousafzai manifestou sua preocupação com o que acontecerá com as minorias do Afeganistão com a volta do Talibã. Ela não é afegã, mas paquistanesa. Ainda assim, foi vítima de um atentado realizado pelo Talibã em 2012, um tiro na cabeça ao voltar da escola de ônibus. Seu crime: defender o direito das meninas à educação. A primeira prefeita mulher no Afeganistão, Zarifa Ghafari,  já avisou q o Talibã vai matá-la. Uma das notícias mais comentadas foi a de professores e professoras se despedindo das alunas universitárias, sem saber o dia da amanhã. 

Um porta-voz do Talibá já prometeu: "Na nossa sharia é claro: para quem tem relações sexuais e não é casado, a pena é de 100 chicotadas em público. Quem rouba deve ter as mãos cortadas". E: "Se não renunciarem à cultura ocidental, teremos que matá-los". Como alguém, de esquerda ou de direita, pode comemorar a vitória de um grupo fundamentalista? Ponham-se no lugar das meninas, mulheres e LGBT do Afeganistão. É puro Gilead. 

As mulheres e os LGBT que vivem no Afeganistão certamente devem estar comemorando o fim da opressão

O Afeganistão é um país miserável. O PIB aumentou durante a ocupação americana, mas isso não quer dizer grande coisa. Só que mais gente com dinheiro estava no país. Ao sair, levam o dinheiro. A condição das mulheres, e da população em geral, é horrível. Mas claro que houve avanços nesses vinte anos (apesar dos 241 mil afegãos mortos na guerra). A Universidade de Cabul foi reaberta após a queda do Talibã (só que agora em maio, bombardeios do Talibã a escolas de meninas em Cabul mataram mais de 85 pessoas, já indicando que os acordos de paz não seriam cumpridos). 

As conquistas que agora estão sob ameaça com a volta do Talibã são muitas. Na política, atualmente, 27%  da Câmara é dedicada às mulheres. Mulheres podem votar, dirigir carros, e participar das Olimpíadas. Também existem mulheres ministras, mulheres diretoras de ONGs, mulheres juízas, milhares de mulheres chefes de família. 3 mil postos de saúde foram criados, e a mortalidade materna caiu 40%.

Mulheres conseguiram incluir seus nomes nas certidões de nascimento dos seus filhos. Essa foi uma conquista das mulheres afegãs apenas no ano passado, através de uma campanha internacional chamada #WhereIsMyName (onde está meu nome?). 100 mil mulheres conseguiram chegar à universidade. 

Mas, como o país patriarcal que é, a violência doméstica e os "crimes contra a honra" continuam. Mesmo proibidos em 2016, os testes de virgindade continuam sendo realizados. Dependendo do resultado, a mulher pode ser presa ou executada. O Afeganistão não deixou de ser um dos piores países para ser mulher.  

Cinco meses atrás, no dia 8 de março, a RAWA acusou os EUA de impedirem "o estabelecimento de uma democracia, os direitos das mulheres e a independência e progresso do nosso país. [...] Esta traição do governo americano, embora custosa para as pessoas do Afeganistão, também tem seu aspecto positivo: nosso povo percebeu que a promessa dos EUA para instalar democracia, direitos das mulheres e progresso em qualquer país, incluindo o Afeganistão, é uma mentira descarada". 

Toda a torcida e sororidade as nossas irmãs afegãs para que consigam vencer as opressões de uma vez por todas.