domingo, 19 de fevereiro de 2012

CRÍTICA: DAMA DE FERRO / Tá mais pra de carne e osso

Te odiamos, Margaret! Te amamos, Mery!

Dou uma disciplina que lida principalmente com cultura americana, e quando preciso ensinar um pouco de história, recorro a filmes. Faço uma lista enorme de produções que lidam com cada período importante. E, ao fazer essa relação, o que comprovei? Que há pouquíssima coisa sobre os anos 80, a “década perdida” em que Reagan governou os EUA por dois mandatos. E olha que o ex-presidente foi canonizado desde que morreu, em 2004. Mas parece que ninguém quer tocar nesse vespeiro.
Como Margaret Thatcher ainda não morreu (tem 86 anos e raramente aparece em público), ela está longe de ser uma unanimidade. Por isso eu afirmo categoricamente: Dama de Ferro, o filme, jamais teria sido feito se Mery Streep não tivesse assinado seu nome na linha pontilhada. Meryl sim é unânime. Ela é considerada a melhor atriz de sua geração, uma das maiores estrelas da história do cinema. Com 35 anos de carreira e o recorde absoluto de 17 indicações ao Oscar, Meryl continua abocanhando papéis marcantes numa indústria que costuma aposentar atrizes com mais de 40 anos. Ela já está com 62, e nenhuma vontade de parar.
Em entrevistas, ela conta que relutou em aceitar interpretar Thatcher, porque Meryl tende mais à esquerda, enquanto a primeira ministra... Bom, você sabe. Mas aí devem ter falado pra grande atriz pra não temer, que A Dama de Ferro não seria um filme político. E não é mesmo. Assim como Lula, o Filho do Brasil, não é um filme político, por estar pouquíssimo interessado na carreira ou sequer na ideologia de uma pessoa que só entrou pra história por ser político.
Tudo em Dama de Ferro é feito pra humanizar Thatcher, pra gente empatizar com ela. Isso acontece em três ou quatro frentes: primeiro, escalando uma super atriz querida pra interpretá-la; segundo, enfatizando a eterna lua de mel que foi o casamento de Thatcher com seu marido brincalhão; terceiro, mostrando-a velhinha e frágil, com Alzheimer; e quarto, tentando transformá-la em ícone feminista. O que parece meio que uma piada de mau gosto, né? Por mais que Thatcher tenha sido a única primeira ministra mulher em toda a história britânica, e pra chegar a tanto tenha tido que combater muitos preconceitos, nós feministas, de modo geral, não gostamos dela. Justamente por motivos políticos. Quem quer mudar o mundo não aprecia conservadores.
E Thatcher foi ultraconservadora durante toda a sua longa carreira. Seu governo (1979-1990) foi uma tragédia. Ela cortou gastos (em outras palavras, programas sociais foram jogados no lixo), privatizou tudo, reduziu impostos para os ricos, concentrou renda barbaramente, e deixou a fúria capitalista correr solta, sem a menor regulamentação. Como consequência, logo no primeiro ano de seu governo o desemprego dobrou. Inúmeras greves pipocaram -– a dos mineiros, que durou um ano e é retratada em Billy Eliot, foi a mais célebre. Thatcher era tão impopular que Naomi Klein diz que a doutrina liberal de Friedman e outros Chicago Boys parecia impossível de ser implantada numa nação democrática (tudo bem implantá-la em ditaduras, como a chilena). Como, então, Thatcher conseguiu ser reeleita? Isso o filme mostra com fidelidade: foi graças ao patriotismo gerado pela curta, porém eficaz, Guerra das Malvinas. A Grã Bretanha manteve as Falklands, e Thatcher manteve seu governo.
O filme passa por tudo isso correndo. Ele só quer saber de exibir a Thatcher esposa querida e mãe em conflito. Por isso é absurda a controvérsia que o filme gerou na Inglaterra. Muita gente julgou desrespeitoso que Thatcher seja mostrada com Alzheimer. Eles acham isso deselegante. Pelamor! A doença a humaniza, faz com que ela se aproxime da gente.
O filme tem dois enormes trunfos, quiçá os únicos: Meryl, óbvio, e a maquiagem. A maquiagem faz com que Meryl –- que não tem nenhuma semelhança com Thatcher tirando a cor do cabelo –- não só fique bem parecida, mas também desfile por várias idades distintas. E a Meryl/Margaret de 86 anos torna-se tão verossímil quanto a de 36. Torço para que o filme ganhe esses dois Oscars. De resto, não merece nem bom dia.

41 comentários:

João Bertonie disse...

Pô, Lola, voei.
Você não gostou do filme pelo que ele é ou pela personagem (Tratcher) que ele aborda?

Vitor Ferreira disse...

Ai, eu amo Meryl, mas não queria vê-la ganhando Oscar por esse filme. E a parte da Thatcher com Alzheimer é um porre de tão lenta e chata. Além de especulatória, já que não se baseia em nada concreto. A parte interessante do filme é justamente a que passa correndo.

Meri Pellens disse...

"O filme tem dois enormes trunfos, quiçá os únicos: Meryl, óbvio, e a maquiagem", ri alto com essa frase. Boa, Lola. Excelente postagem.
Beijinho...

Flavia Vianna disse...

Lola, uma perguntinha aqui. Não vi o filme sobre a Thatcher ainda. Mas o mesmo tipo de "acusação" não foi feita ao Bruno Ganz quando ele interpretou o Hitler?

Abraços!

Kaká disse...

Sei que a Meryl é genial, mas nesse filme fiquei com uma sensação de imitação, tipo aquelas do pessoal do Saturday Night Live (sem a graça obviamente), que são excelentes, mas são imitações. Diferente da Helen Mirren quando fez A Rainha.

Maria Bergamo disse...

O grande problema do Movimento Feminista Mundial é que ele foi assaltado por todo tipo de grupo conhecido, desvirtuando o objetivo principal e servindo hoje de fachada para movimentos políticos ideológicos.

Da mesma forma que empresárias são apresentadas como lideranças de extrema direita sob o nome do Movimento Feminista, também vemos propaganda marxista em defesa da promiscuidade em nome do Movimento Feminista. Da mesma forma que as cristãs usam o nome do Movimento Feminista para promover sua fé, também as islâmicas usam o nome do Movimento Feminista para promover o Al Corão. E as atéias e agnósticas usam o nome do Movimento Feminista para culpar Deus dos problemas das mulheres de todo mundo.

O Movimento Feminista deveria tratar de equilibrar o relacionamento entre homem e mulher em todos os países do mundo, garantir acesso ao poder, trabalho, direitos políticos, assim como equalizar e estabilizar o núcleo familiar.

Porém o que vemos é que os marxistas roubaram o nome do Movimento Feminista para justificar a sua ideologia e recrutar novos seguidores. Os capitalistas roubaram o nome do Movimento Feminista para promover as empresárias e estimular o proativismo econômico feminino. Também vemos os grupos evangélicos que roubaram o nome do Movimento Feminista para dizer que a mulher é a líder suprema de um lar segundo as palavras da Bíblia. E da mesma forma as atéias roubaram o nome do Movimento Feminista para atacar as leis dos judeus que são baseadas na vida nômade do deserto de séculos atrás, o chamado Antigo Testamento.

Infelizmente, quem rouba o nome do Movimento Feminista para justificar a sua ideologia sempre acha incompreensível quando alguém de outro grupo usa o nome do Movimento Feminista para divulgar alguma outra ideologia diferente.

Maria Bergamo disse...

Eu gastei uma vez todos as minhas economias para participar do encontro internacional feminista em julho de 2007 na Tailândia, Bangkok.

Interessadas.!!?? O proximo será em junho na Espanha, Barcelona.

Eu sempre fui apaixonada por conhecer esses lugares exóticos, e quando vi que haveria um grupo da Igreja Batista aqui de Nova Iorque saindo para essa conferência em Bangkok, eu fiz as minhas malas. OK..... confesso.... fiz uma programação que durou 11 meses para participar desse evento.

Nesse evento eu vi algumas apresentações memoráveis como: "Empowering Women in the Thar Desert, India" e o "The Wage Costs of Motherhood: Which Mothers are Better Off and Why". E claro a perturbadora apresentação da Suzanne Hodgkin chamada "Women, Getting Older and Caring"

Nas apresentações reinava um tom mais técnico, mais universitário. Grande parte era apresentação de papers e cases. Porém nas reuniões informais e nas conversas paralelas o ambiente era de competição ideológica, onde ficava extremamente evidente que havia uma separação ideológica.

Várias vezes me perguntaram a que grupo eu pertencia. Eu explicava que estava no evento de forma independente e era assediada para conhecer a ideologia "secreta" do grupinho.

Eu acho que isso faz parte do mundo, mas não deveria estar dentro do Movimento Feminista.

Arlequina disse...

@Maria Bergamo

Eu fiquei bastante interessada nesse encontro. Tentei jogar no google, mas não achei mais informações. Será que você podia me linkar um site com a data e o local, direitinho? Sabe se tem alguma taxa?

Mais importante: valeu a pena o último? Adoraria saber mais das suas impressões.

Teresa Silva disse...

O fotoshop na quarta foto está escancarado.

Lola, vi um filme muito bom, A fonte das mulheres. Recomendo a você qualquer dia desses assistir e comentar. Recomendo também às comentaristas.

Tem quem chame qualquer mulher que se destaque por suas atitudes de feminista, por que não sabem o que é feminismo. Soube que até a soldado do exército americano que foi fotografada torturando presos iraquianos (Lynndie England) foi chamada de feminista pelo que fez.

Carol disse...

Concordo com a Maria Bergamo que o movimento feminista em muito é uma panaceia que acabou abrigando muitas outras coisas que não os direitos femininos.

Eu particularmente acho isso ruim. Não sou propriamente o que se entende "de esquerda", nem "de direita". Aliás, acho o tal do political compass bem melhor para medir essas coisas e o meu sempre dá "libertarian", ou seja, eu seria de "direita" em termos de economia e de "esquerda" em termos de liberdades civis (aborto, direitos das mulheres, casamento, gay, etc.) Marine Le Pen, pelo que já li, estaria no meu extremo oposto, por exemplo.

Por isso eu acho que menosprezar a Tatcher e seu legado não é uma escolha interessante. Para começar, ela acabou virando um model de imagem para muitas outras políticas e outras mulheres em cargos de poder. Vejam só nossa Dilma: cabelo armado, tailleur, colar de pérolas, "descolamento" dos políticos tradicionais (indicando pessoas de carreira na Petrobrás, cobrando resultados, figura gerencial), severidade no trato com seus ministros, até um bocadinho de autoritarismo (go, Dilma! Acho que ela está mandando muito melhor que o Lula)

Além disso, é engraçado como houve uma demonização de certas coisas. Como se privatização fosse sempre ruim... Não é. Acabamos de privatizar (podem chamar de concessão à vontade) os nossos aeroportos (go, Dilma! de novo) e isso vai ser bom. Privatizar a Vale foi bom para o país (hoje ganha-se muito mais em impostos do que ganhava-se na época com a empresa e se houver prejuízo, o risco não é mais do governo). Vamos comparar as ferrovias inglesas gerenciadas pela Virgin e as italianas gerenciadas pelo estado...

Combater greves também não é necessariamente ruim. Muitas vezes greves são motins (caso dos policiais agora na Bahia) e causam o caos. Muitas vezes greves podem ser por pessoas pedindo por benefícios que quase se configuram em privilégios e isso é muito normal no setor público. Precisa ser enfrentado.

A Tatcher, goste-se ou não dela (eu acho que ela levantou a Inglaterra em muitos aspectos... Sem ela, talvez a Inglaterra se parecesse mais com a Itália e ainda com a comida ruim) tinha uma coisa que muitos políticos de hoje não têm: convicção das suas ideias. E as pessoas apoiaram essas ideias durante 11 anos, goste-se ou não das mesmas. Ela não foi um ditadora, ela foi colocada no cargo democraticamente.

Aliás, no Madame Tussauds, o museu de cera de Londres, ela é uma das figuras políticas mais populares (baseando-se na sua posição de destaque, na frente do Churchill, por exemplo).

Foi uma figura política relevantíssima e acho que a coisa deveria ser melhor discutida antes de riscar a Tatcher de uma discussão entre feministas.

Em tempo: filme mediano, Meryl maravilhosa, merecendo muito o Oscar.

Sara disse...

Achei o comentário da Carol bem sensato, com excessão da guerra das malvinas, não acredito que o governo da Tatcher tenha sido tão ruim, e a definição do que é um governo ruim é muito questionavel.
De resto admiro Meril Streep sempre, não entendo nada de oscar pra opnar, mas se é um premio pra quem faz cinema, apesar de não ter visto o filme, mas se tiver oportunidade verei, pra mim ela merece sempre o Oscar.

LUIZ AUGUSTO PENNA disse...

Lamentável seu comentário.
Vc pôs na frente sua ideologia idiota.
Filme maravilhoso e interpretação magistral!

Maria Bergamo disse...

Arlequina

Basta colocar no google IAFFE :-)

Em todo o caso segue o link:

http://www.iaffe.org/pages/conferences/conference-archives/2012-conference-archives/2012-annual-conference/

A incrição até que está de bom preço, essa de Barcelona está na base de US$400 para quem não é sócia da IAFFE. Mas o evento é ótimo. O problema maior são os custos de viagem e hospedagem. Mas para passar alguns dias na Espanha extremamente bem acompanhada vale a pena. O evento é muito técnico e reune gente do mundo todo. Tem todas as tendências por lá. E da Espanha basta pegar um trem para ir até Paris, França ou para Lisboa, Portugal. Outra opção bacana é pegar um avião e ir para o Marrocos conhecer o deserto do Saara e até mesmo Casablanca.

cronicasurbanas disse...

Lola, vi o filme hoje mas ainda não escrevi sobre ele no blog. Não chega a ser um filmaço, mas é melhor do que eu esperava.

Concordo que ele tenta 'humanizar' a figura de lady Thatcher (não vejo isso como algo necessariamente ruim, é apenas mais um ponto de vista) e deixa um bocado de fatos importantes como pano de fundo, mas discordo de você em 2 pontos: não acho que a escolha de Meryl Streep tenha sido por ela ser uma 'super atriz querida', como você mencionou, mas simplesmente porque não existe nenhuma outra atriz capaz de fazer esse papel tão bem (e é claro que a diretora sabia bem disso). E não vi nenhuma tentativa, no filme, de transformar Thatcher num 'ícone feminista'. O grande mérito do filme vai mesmo para Streep, que consegue não só reviver Thatcher com uma precisão impressionante, mas também fazer uma mulher frágil (muito além da maquiagem perfeita, os gestos, o olhar e a voz são de uma velha de 86 anos, não de uma mulher de 62). Torço por ela na premiação, já passou da hora dela levar pra casa a terceira estatueta...
abraço e bom carnaval!
Mônica

Milady Carol disse...

Fora da questão do filme, acho uma grande injustiça diminuir o papel de Thatcher no feminismo por ela ser de direita. Ela comandou uma nação democrática, foi criticada pelos seus atos políticos, conseguiu se fazer respeitar como mulher de Estado. Se concordo ou não não importa, ela foi uma das primeiras chefes de Estado de fato mulheres. Sem ser militante feminista, ela marcou as mentes mostrando que uma mulher podia SIM ser chefe de Estado, podia mandar, podia inclusive ser outra coisa que a "mãe", a "madona misericordiosa", a "pasionaria" ou a "donzela guerreira" imagens que vejo sempre por aí, associadas a mulheres na política. Não preciso concordar com a linha dela para ver isso.

Matheus disse...

Lola,

Gostei da sua análise, mas vou discordar de um ponto. Na minha concepção, o filme tem caráter político, sim.

Ao tentar humanizar Margaret Thatcher (o que nem é necessário, já que ela é um ser humano como todos nós, mas com interesses políticos divergentes dos do seu povo), busca-se fomentar um sentimento de compreensão para com o que ela fez quando estava no poder, sob a justificativa de que ela estava lutando pelos interesses dos britânicos e do Reino Unido.

Embora os britânicos não elejam o próprio Chefe de Governo, é muito difícil dissociar a figura da primeira ministra da do seu partido, então cria-se o sentimento de que "ela, apoiada pelo partido, pode até ter errado, mas deu o melhor de si por nós". E o filme insinua, sim, que ela foi defensora de direitos sociais, vide a cena das escolas sem calefação.

Em um período em que grande parte do mundo desenvolvido sofre com o desmantelamento do Estado de Bem-Estar Social e com o retorno de políticas neoliberais, o apelo individualista de que "só basta querer" cai de maneira muito oportuna, e a Margaret Thatcher do filme se traduz exatamente nisto.

Carol,

Do ponto de vista econômico, seu comentário foi bem direitista.

Thatcher foi uma política conservadora, de família conservadora e religiosa, então era de se esperar que ela se vestisse de maneira conservadora. A grosso modo, eleitores esperam que políticos transmitam a imagem de estabilidade e seriedade, e é por esta razão que se vestem discretamente.

Seguindo a sua linha de raciocínio, seria possível dizer que Lula se inspirou em Ernesto Geisel ou Fernando Henrique Cardoso apenas porque todos usavam terno quando estavam em ofício? A julgar por toda a história política de Dilma, duvido muito que ela veja Margaret Thatcher como exemplo.

Você está insinuando que indicar pessoas para gerenciar empresas estatais e cobrar resultados dos seus ministros foram exemplos herdados de Thatcher? Não seriam atribuições do cargo - algo que se espera de todo Chefe de Governo?

Quanto à Vale, ela já era uma das líderes em mineração - sobretudo em exportação de ferro - desde a década de 1970. Também é de conhecimento público que o valor de mercado da Vale era muito maior (perto dos 100 bilhões de reais, se não me engano) do que o que foi pago pelo consórcio vencedor da privatização (menos de 4 bilhões de reais). Sem contar que já que a Vale tem dado tantos lucros, o risco (que o setor privado, muito inocente, coitadinho, assumiu de bom grado) é mínimo em relação aos dividendos. Privatização boa para o país? Acho que não, hein?

Sim, algumas greves têm o intuito de gerar motim e desestabilizar governos, mas muitas são legítimas, como são as que reivindicam melhores condições de trabalho, pagamento de salários e benefícios atrasados, ou até mesmo melhores salários.

Quanto às ferrovias... Que tal comparar as ferrovias estatais francesas, administradas pela Société Nationale des Chemins de Fer Français (SNCF), com as britânicas? O EuroStar, franco-belga-britânico, é mais rápido na França porque o lado britânico tem uma malha ferroviária muito velha, que não comporta a velocidade máxima do trem. O Pendolino da Virgin Trains só pode andar a, no máximo, 200 km/h porque a malha ferroviária não oferece segurança para uma velocidade maior. E a quantos km/h o TGV já chegou mesmo, nas ferrovias estatais francesas? 574.8 km/h.

Vestir-se de maneira discreta, efetuar privatizações e combater vandalismo disfarçado de greve são ações que podem e devem ser executadas se necessário, mas defendê-las cegamente e sem examinar o contexto histórico nem os fatos pode se tornar muito perigoso e resultar em condenações vazias, sem qualquer conexão com a realidade.

Matheus disse...

Margaret Thatcher iniciou o desmonte do Estado de Bem-Estar Social britânico, sobrepôs interesses privados a públicos, ajudou a desregular o sistema financeiro internacional (que foi o responsável pela atual crise econômica global), entregou de bandeja riquezas do povo britânico a mãos privadas e acirrou ainda mais os desequilíbrios socioeconômicos, na Inglaterra, entre o sul enriquecido e o norte empobrecido, e entre a Inglaterra e as demais entidades subnacionais do Reino Unido. Por tudo isto eu critico o seu legado.

Milady Carol disse...

Eu também critico o governo de Thatcher, que está muito longe das minhas convicções. MAS isso não me impede de achar que ela foi muito importante na mudança do ponto de vista da sociedade sobre a mulher no poder.

Matheus disse...

Uma das minhas melhores amigas, que é feminista e me apresentou ao blog de Lola, teve uma sacada genial quando lhe perguntei se considerava Margaret Thatcher feminista:

"Se ela [Thatcher] não se preocupou com as desigualdades sociais [do Reino Unido], iria se preocupar com as desigualdades de gênero?"

Ramon Duarte disse...

Vi o filme ontem e ri. Ri muito. Gargalhei durante toda a sessão porque esse filme é uma comédia. Não tenho mais nada a dizer que não tenha sido dito pela Lola e pelo Matheus (brilhante explicação, a propósito).

A atuação da Meryl Streep foi genial, como já era de se esperar. O ingresso valeu só por causa disso.

Carol disse...

Matheus, eu não discuto esse negócio de privatizações, porque, para muito gente, a coisa é vista de um ponto de vista moral, não pragmático (ou seja, pelas consequências que acarretam), então, só deixo a pergunta para você fazer a você mesmo (eu já fiz essa análise antes com dados da Bovespa): de onde veio esse número de valor de mercado e como ele foi calculado? Ou ainda, o que é valor de mercado? Se tiver interesse, olhar o que é EVA, FCF e outros métodos de valuation.

Sobre a questão da inspiração, então, é isso mesmo: o Lula não se inspirou em Geisel ou FHC porque ele teve um gama imensa de pessoas em quem se inspirar antes e porque ser um líder político homem é o padrão.

Margareth quebrou um padrão. Assim como outras líderes políticas estão quebrando. Ainda faltam imagens nas quais se inspirar. Há poucas, porque houve poucas mulheres no poder. E nesse sentido, Margareth acabou sim criando um primeiro padrão de líder política ocidental no qual muitas acabam se inspirando, mesmo quem se diz contrário a ela.

francismarys disse...

So discordo de uma coisinha: por não mostrar a política que a historia tradicional contou, que estamos acostumados a apoiar (no caso do Lula) ou a odiar (no caso da Tatcher), um filme sobre uma personalidade politica deixa de ser político? Acho que não. Aliás, ele torna-se potencialmente mais político por isso, não?

Ramon Melo disse...

So discordo de uma coisinha: por não mostrar a política que a historia tradicional contou, que estamos acostumados a apoiar (no caso do Lula) ou a odiar (no caso da Tatcher), um filme sobre uma personalidade politica deixa de ser político? Acho que não. Aliás, ele torna-se potencialmente mais político por isso, não?

Na verdade, esse filme se aprofundou na política sim, mostrando a atuação da Thatcher durante a Guerra das Malvinas. O que ele não mostrou foram os múltiplos fracassos da política econômica dela, isso sim.

Gabriel Nantes de Abreu disse...

O feminismo é um movimento que se auto-enfraquece, sempre se preocupa mais com briga de Direita x Esquerda em vez de perceber na historia de Tatcher a luta de muitas outras mulheres do mundo.

Eduardo Pinha disse...

A Guerra das Malvinas foi em 1982 e a Tatcher ficou no poder até 1990, ou seja, não foi a guerra que a manteve no poder. Foi o sucesso da sua política economica, que levou o Reino Unido a um crescimento sustentado de mais de uma década com baixo desemprego.

Ramon Duarte disse...

Claro, claro, os trabalhadores entraram em greve, o heavy metal compuseram canções, a população exigiu mudanças e o próprio partido passou a perna nela porque havia prosperidade demais.

É lógico que a Guerra das Malvinas, que aconteceu numa eternidade antes da reeleição, não teve absolutamente nada a ver com isso, foi só coincidência.

J. BRUNO disse...

Olá Lola, eu acredito que o filme tem sim um forte viés político, talvez esta até não seja uma conotação buscada pelo roteiro, no entanto ele funciona como uma grande ironia à atual crise financeira na Europa, tentei aprofundar um pouquinho neste meu ponto de vista no meu blog, gostaria que se possível você desse uma olhada...

http://sublimeirrealidade.blogspot.com/2012/02/dama-de-ferro.html

lola aronovich disse...

Hi hi, Eduardo! Vc é engraçado! Não sei a qual Grã Bretanha vc está se referindo. Deve ser um outro país num universo alternativo, porque até os conservadores concordam que Thatcher teve os piores índices de aprovação da história, e que ela só foi reeleita para um segundo mandato por causa da Guerra das Malvinas.
Allan Patrick, que esteve na Inglaterra recentemente, escreveu como a privatização britânica dos anos 80 prejudica Londres até hoje.

Sobre não ser um filme político, creio que me expressei mal. Tudo é político. Fazer um filme sobre uma política e concentrar-se em aspectos não-políticos de sua vida (a doença, o casamento) É uma decisão política, sem dúvida alguma. Eu quis dizer mesmo "político" no sentido que se costuma usar, mais ligado à política partidária mesmo.

Anônimo disse...

“Por mais que Thatcher tenha sido a única primeira ministra mulher em toda a história britânica, e pra chegar a tanto tenha tido que combater muitos preconceitos, nós feministas, de modo geral, não gostamos dela. Justamente por motivos políticos. Quem quer mudar o mundo não aprecia conservadores.”

— Quem lê isso tem a impressão de que é IMPOSSÍVEL ser feminista sem ser marxista, ser feminista sem ser socialista e/ou, no caso brasileiro, ser feminista sem ser petista. Para ser feminista é preciso participar dum coro esquerdista uníssono? Tudo que é conquista feminina que é feita fora dos cânones esquerdistas-marxistas deve ser desprezada e condenada?

“Seu governo (1979-1990) foi uma tragédia. Ela cortou gastos (em outras palavras, programas sociais foram jogados no lixo), privatizou tudo, reduziu impostos para os ricos, concentrou renda barbaramente, e deixou a fúria capitalista correr solta, sem a menor regulamentação. Como consequência, logo no primeiro ano de seu governo o desemprego dobrou. Inúmeras greves pipocaram -– a dos mineiros, que durou um ano e é retratada em Billy Eliot, foi a mais célebre. Thatcher era tão impopular que Naomi Klein diz que a doutrina liberal de Friedman e outros Chicago Boys parecia impossível de ser implantada numa nação democrática (tudo bem implantá-la em ditaduras, como a chilena). Como, então, Thatcher conseguiu ser reeleita? Isso o filme mostra com fidelidade: foi graças ao patriotismo gerado pela curta, porém eficaz, Guerra das Malvinas. A Grã Bretanha manteve as Falklands, e Thatcher manteve seu governo.”

— Se o governo Conservador foi tão TERRÍVEL assim, o que explica a vitória eleitoral de Thatcher em 1987 ( http://en.wikipedia.org/wiki/United_Kingdom_general_election,_1987 ), depois do fim da longa greve dos mineiros e sem nenhuma guerra por perto?

— E se o governo Conservador foi tão TERRÍVEL assim, o que explica o fato de que os Trabalhistas britânicos ficaram continuamente de fora do poder em Londres de 1979 até 1997?

Anônimo disse...

'O problema com o socialismo é que vc acaba esgotando o dinheiro dos outros'
M. Tatcher.

Os esquerdinhas odeiam porque é a mais pura verdade.

Anônimo disse...

O mais notável é que os indicadores sociais e econômicos pioraram durante o governo Thatcher. Em 1978, a taxa de desemprego do Reino Unido era 5,5%. Durante o governo Thatcher, o desemprego bateu recorde na história da Grã-Bretanha, superando os 11% (antes da Thatcher o desemprego nunca superou a mara dos 5,6%).

Se tiverem dúvidas é só olhar a tabela:

http://www.statistics4u-uk.com/html/unemployment_rate.html

Unemployment
Rate
16+

Unemployment
Rate
16-64

Anônimo disse...

Isso porque ela (Tatcher) era uma liberal de fachada.
http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1234

Anônimo disse...

Pelo menos você não esconde que é uma porca comunista.

Ledo Bittencourt disse...

Ótimo filme, bom diálogo quando aborda a questão do Pensamento."As pessoas não pensam mais, elas sentem" ou então:" Somos governados por pessoas que se importam mais com sentimentos do que com pensamentos, idéias.
E o lembra artífice das palavras, ações, hábitos, caráter e o próprio destino.
"O que nós pensamos nós nos tornamos".
Grande Marga.

Anônimo disse...

Não entendi. Afinal a atriz aceitou o papel como oportunidade de criar brilhantemente um personagem, ou pelo fato de não perder a oportunidade de interpretar um personagem brilhante.

Anônimo disse...

Subistituir a palavra "dou" por "ministro" fica melhor

Anônimo disse...

Cara Lola, você deve entender muito de literatura, mas de política vi que não sabe nada. Poupe-se a comentar sobre o que lhe cabe.

AngieB disse...

Obrigada por este post Lola,cansei de tentar explicar esta posiçao e ouvir que o filme é feminista. E foi como vc pos os pontos que planejaram para voce simpatizar com a Thatcher, e ai voce termina o filme com um gosto amargo na boca. Pois minha familia é chilena e eu sei muito bem o quanto ela foi conivente com o governo do Pinochet. Cade isso no filme? Cade o apoio ao massacre humano que foi a ditadura chilena? E o dinheiro publico que foi lavado por bancos ingleses em troca do apoio a guerra das malvinas? Sem o territorio chileno como base inglesa, eles nao teriam ganhado a guerra. Thatcher como bff de Augusto nao deve lugar. Isso que eu acho terrivel. Ate mesmo para uma biografia que se respeite. Gosto do ultimo filme que foi feito sobre Edith Piaf, a atuaçao da Marion é tao brilhante e tem esta magica de idades tao verossivel e legitimo, mas eles nao escondem os erros, as falhas, os vicios da Edith. Ela está la como foi, e mesmo assim voce termina o filme vendo a mulher forte e revolucionária que foi. A Thatcher foi a unica mulher a governar a Gra Bretanha, sim, é uma vitoria feminina num ponto, ela lutou por sua causa. Mas nao era uma causa feminista em sentido algum, e ela apenas governou por ter uma mente conservadora e machista, de direita e tradicional. Sim, ela enfrentou o machismo por ser mulher, mas ela nao fez nada quando no puder pela diferença de genero. Ela nunca nem deu uma entrevista falando disso, criticando isso.
E estou cansada de nos darem series e filmes com o principio da Smurfettte e sejam felizes com a representaçao de voces, e de produtos "culturais" com um markentig foda para vender que é algo feminista, como este filme, como esta trilogia 50 shades, como aquele filme Sucker Punch e voce le e assisti, e tem vontade de "picar los ojos" (como dizia minha amiga mexicana). Da vontade de gritar por esta manipulaçao, e o que voce faz quando ve um numero gigante de amigas comprando esta historia, nao parando para pensar um segundo no contexto, nos valores, nos simbolos, do que isso difere, no que isso objetifica, no que isso muda do que somos tratadas. Eu fiquei feliz quando achei esta critica da Anita sobre o Sucker Punch http://www.feministfrequency.com/2011/04/zach-snyders-sucker-punch-is-a-steaming-pile-of-sexist-crap/

É triste ver como hoje machismo é mascarado e manipulado como feminismo, e posiçoes misoginas sao mascaradas como bom humor e liberdade de expressao. E por que ainda aceitamos isso?

Anônimo disse...

O que interessa mesmo é que o filme é chato, apela, quer deixar você triste e não continuei assistindo pois não quero tristeza hoje. Meryl é ótima, mas o filme é muito chato mesmo. Só isso.

daniel disse...

Primeiro, entenda o filme retrata uma época muito machista, achei o filme ótimo! Achei que ele retratou bem a história de Margaret Thatcher, acho ela uma mulher genial, já que anos 80 não era luxo para nenhuma mulher ter um grande poder na mão, se ver, na parte dos protesto, só havia homens, seu governo, foi feito sobre muitas críticas e baixas, porém ela manteve firme, mesmo com as crises do seu poder, quanto a atriz... Isso é uma afirmação, ela é obrigada a seguir o roteiro, esse filme para mim retratou uma biografia, bom esse filme é ótimo vale a pena assistir

Patty Kirsche disse...

Não achei o filme feminista, nem pretensamente feminista. É claro que a Thatcher enfrentou muito preconceito, e isso aparece no filme explicitamente. E ela se mostra bastante conformada, na verdade. É o jeito de direita de ver as coisas.

Minha ex-analista (de direita) costumava dizer: "Uma coisa é a realidade machista, outra é como vc se coloca dentro dela". Essa gente acha que cada uma deve cuidar de si ignorando a discriminação, porque conforme a gente for mostrando serviço, uma hora o preconceito vai acabar magicamente. Besteira.

Acho que o filme mostra a Thatcher tratando mal os colegas de trabalho, sendo extremamente grossa, caindo naquele estereótipo de que mulher precisa ser "masculina" para vencer. E fica bem claro o quanto ela era conservadora, algo familiar pelo que entendi. Imagina, tirar o direito das pessoas fazerem greve?