domingo, 6 de julho de 2008

SOBRE CRÔNICAS JURÁSSICAS E MUDANÇA DE OPINIÃO

Nem me lembrava que Impacto Profundo era com o Frodo-é-froda

Encontrei e já coloquei no blog umas críticas bem antigas, dos meus primórdios mesmo. Uma é de 1998, ano que comecei a escrever pra Notícia (maior jornal de Joinville e segundo maior de Santa Catarina). A crônica tava lá no site deles, e agora tá aqui. É sobre Impacto Profundo, um filme medonho, não sei se vocês lembram. Foi lançado no mesmo ano que Armageddon, outra atrocidade, se bem que um pouco menos pior. Não sei muito bem porquê, mas sempre gostei dessa minha crônica, a começar pelo título, “Mas Será o Fim do Mundo?”, e também pela frase de que Impacto dá novo sentido ao cinema catástrofe - “um filme tão ruim que nada se salva”.

Por falar em produções que não gostei, taí a crônica sobre A Vida é Bela. E também a de Central do Brasil. Ambas foram escritas em 99, na época em que era impossível falar de uma sem falar da outra, porque elas competiram no Oscar. Vida ganhou. E a melhor definição que li sobre a tristeza que foi aquela cerimônia com o Benigni fazendo teatrinho, subindo na poltrona, exagerando no inglês macarrônico e tal, foi de um jornalista americano (não lembro quem) que disse que a Academia provavelmente se arrependeu de ter premiado Vida, e que a ressaca pós-Oscar era como a de uma pessoa que acorda após uma noitada e não reconhece com quem foi pra cama quando estava bêbada. Algo assim.

Sei que Vida tem admiradores. Inclusive, depois que minha crítica foi publicada, o jornal abriu espaço pra um jornalista criticar o meu texto e elogiar o filme de Benigni (o link pra crítica da crítica tá no final do post sobre Vida). Só vi o filme uma vez, mas duvido que eu mudaria de opinião. Até porque depois vi O Trem da Vida, que tem uma temática parecida mas me pareceu bem melhor (se bem que eu tô até aqui de filmes sobre a Segunda Guerra, e 98 foi uma overdose. Além de Vida é Bela, teve O Resgate do Soldado Ryan e Além da Linha Vermelha. Detonei este último aqui, o que também mereceu direito de resposta de algum jornalista inconsolado que tomou as dores do filme poético).

Também tá no blog uma crítica que eu dava como perdida sobre outro vencedor do Oscar, Beleza Americana. Sigo adorando o filme. E olha que esse é um caso emblemático de crítico mudando de idéia. Lembro bem que, quando Beleza foi lançado, a crítica profissional estendeu o tapete vermelho pra ele. Pouquinho depois, um ou dois meses no máximo, esses mesmos críticos já torciam o nariz e diziam que o filme não era aquilo tudo. E hoje eles parecem odiar Beleza. Nunca entendi essa guinada radical. Por isso que às vezes eu me pergunto se minha ídola Pauline Kael não tinha razão: ela raramente revia um filme. Não queria correr o risco de mudar de opinião.- Você ainda vai gostar de mim depois?

sábado, 5 de julho de 2008

RESULTADO DA ENQUETE: O FABULOSO ALMODÓVAR

Olha só o Banderas rapazinho em Mulheres à Beira... (1988)!

Quando coloquei no ar a enquete do melhor filme do grande Pedro Almodóvar, pensei que haveria uma disputa acirradíssima entre Tudo Sobre Minha Mãe (1999) e Fale com Ela (2002), seus dois melhores filmes, na minha opinião. Mas não aconteceu. Fale com Ela largou na frente e se manteve na dianteira durante todo o tempo. E ganhou, com 25% dos votos. Tudo Sobre Minha Mãe só conseguiu diminuir a vantagem no final. Acabou ficando em segundo, com 19%. Eu amo esses dois filmes de paixão, ambos me fazem chorar baldes, e ainda bem que tenho dois computadores pra poder votar nos dois.

Em terceiro lugar, com 15%, veio Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), mais um ótimo Almodóvar, e o que o fez famoso internacionalmente. Acho que até Mulheres ter sido indicado ao Oscar, ou eu não conhecia o diretor espanhol, ou havia visto Matador (1986) sem saber de quem era. Depois vi todos os outros (não tenho tanta certeza sobre O Que Fiz Eu para Merecer Isto?). São bonitinhos e tal, mas imaturos, digamos.

A Má Educação ficou em quarto lugar na enquete, com 13%. Pra mim, não se compara a suas duas melhores obras, mas não dá pra negar que seja um filmaço. Eu o colocaria no mesmo time de Volver, mas vocês não pensaram assim. Volver só recebeu 5% dos votos, o mesmo que Carne Trêmula (que eu também amo).

Fiquei surpresa por Ata-me! ter recebido 7% dos votos. Eu não gosto não. Acho que o Almodóvar passou por uma fase difícil na primeira metade da década de 90. Ah gente, não dá pra comparar os filmes que ele fez nesse período (Ata-me!, De Salto Alto, Kika, A Flor do Meu Segredo) com a sua filmografia recente. Ele só criou filmes maravilhosos de 97 pra cá. São cinco maravilhas seguidas: Carne Trêmula, Tudo Sobre Minha Mãe, Fale com Ela, A Má Educação e Volver. Que outros diretores atuais podem ostentar uma obra dessas de cinco acertos consecutivos? E mais: é tudo roteiro original, escrito ou co-escrito por ele. Não são adaptações de peças ou livros. Nada contra adaptações, óbvio, mas numa época em que há tantos remakes, é raríssimo um auteur com tantos roteiros escritos diretamente pras telas. Isso ajuda pra que Almodóvar tenha a sua voz própria, o seu estilo inconfundível.

Mas pouca gente (só 51 pessoas) votou na minha enquete. Não sei se é por não conhecerem direito o Almodóvar, ou pelo Explorer ter dado problemas. Se a baixa votação foi por causa do pouco entrosamento com o diretor, não por isso: todos os filmes mais recentes dele estão em dvd. Assistam, porque Almodóvar é único. E ele tem um blog (um pouco defasado).

Bom, aproveitando a aclamação de Wall-E (vi a animação ontem; publico a crítica semana que vem) e o amor que tanta gente tem pela Pixar, vamulá: qual o melhor longa do estúdio? Saibam que eu não trocaria todos os sucessos da Pixar juntos por um dos grandes filmes do Almodóvar...

Muitas homenagens a Um Bonde Chamado Desejo e A Malvada em Tudo Sobre Minha Mãe

QUANDO OS AMERICANOS COMEMORAM SUA INDEPENDÊNCIA

Ontem foi 4 de julho, uma das datas mais celebradas nos EUA, já que é o dia em que os americanos cortaram os laços com a Coroa Britânica e declararam sua independência. É bom lembrar que os principais fundadores dos EUA eram descendentes de puritanos que vieram ao Novo Mundo para fugir da perseguição religiosa e, em 1776, doze anos antes da Revolução Francesa, exigiram sua independência. Essas eram pessoas extremamente religiosas – que, no entanto, optaram por separar Igreja e Estado, para não haver risco de uma nova perseguição.

Essas origens ajudam a entender porque hoje, enquanto a Europa se seculariza cada vez mais, os EUA permanecem um país muito religioso. Uma pesquisa recente indica que 92% dos americanos acreditam em Deus. E é esquisito: mesmo entre os que se dizem ateus, 21% crêem na existência de Deus ou de um espírito universal. 78,4% da população americana adulta é cristã. Dentro dessa maioria, 51% é protestante, 24% é católica, 1,7% é Mórmon, e 0,7% é Testemunha de Jeová. As outras fés, que não a cristã, representam menos de 5%. E 16% não tem religião, o que inclui ateus e agnósticos. Enfim, para 56% dos adultos americanos, a religião é muito importante em suas vidas – uma alta porcentagem, não encontrada em nenhum outro país desenvolvido. A pesquisa mostra também que a religião afeta a ideologia política. Mórmons e membros de igrejas evangélicas tendem a ser mais conservadores, enquanto judeus, budistas, hindus e ateus são mais liberais. Em questões como aborto e homossexualidade (que a direita cristã chama de “assassinato de bebês e perversão sexual”), isso fica ainda mais evidente. Entre as pessoas que vão à igreja regularmente, seis em cada dez acham que aborto deveria ser ilegal na maioria ou em todos os casos. Entre pessoas que não frequentam a igreja com regularidade, esse número cai para três em dez.

A pesquisa me deu uma pontinha de esperança, pois mostra que a imensa maioria dos americanos acredita que há mais de um caminho para a salvação. Eles não acham que só a religião deles contém A Verdade, e isso pra mim é sinal de tolerância. Mas então, por que tantos seguem falando como se só a Bíblia fosse a luz, usam o livro sagrado para justificar seu racismo e homofobia, e agora concentram toda sua artilharia na destruição de Barack Obama? Numa carta com o título “Exponha Obama”, a direita cita um discurso que Obama deu em maio: “Não podemos dirigir nossas caminhonetes [SUVs], comer o quanto quisermos, manter nossas casas aquecidas o tempo todo, e esperar que os outros países concordem”. Pra direita, uma declaração dessas equivale a ser anti-americano e a dizer que os EUA não são mais uma grande nação e que não merecem dominar o mundo e usá-lo como sua bomba de combustível. A questão do merecimento é essencial, já que tem raízes religiosas. Quando nós, brazucas, falamos que Deus é brasileiro, estamos brincando. Mas muitos americanos realmente acreditam ser o povo eleito. Só que americano não diz que Deus é americano. Os lemas deles são outros: “In God we trust” (“Em Deus confiamos”, estampada inclusive nos dólares) e “God bless America” (Deus abençoe a América). A confiança em Deus é pra que Ele siga “abençoando” a América. Quando acontece um furacão Katrina, a direita cristã prega que Deus está punindo o país por estar se afastando de sua religiosidade. Muitos evagélicos crêem que o Katrina serviu pra impedir que uma parada de orgulho gay se realizasse lá. E como boa parte da direita cristã é racista, veio a calhar que 80% de Nova Orleans fosse negra. Não eram só os gays que deviam ter pecados pra pagar.

A direita fica possessa com essa declaração do Obama e lembra que, na década de 70, com a crise do petróleo, outro democrata, o Jimmy Carter, pediu pra população usar menos o carro e manter as casas menos aquecidas. Isso é ultrajante para um povo que sempre fez o que quer e pensa que essa é a vontade de Deus. Eles chamam carros pequenos de “armadilhas de morte”. É incrível: se você não tem uma pick-up, você está correndo risco de vida ao dirigir um carro menor. Como se os carros se mexessem sozinhos, sem um motorista por trás. E como se fosse possível ter um mundo auto-sustentável com um país em que apenas 1% dos produtos comprados ainda é usado após seis meses de vida. Muitos americanos associam a cultura do desperdício ao American way of life.

Mas, felizmente, para cada membro da direita cristã que escreve que “Deus nunca disse que a escravidão de negros era errada”, e “Homossexualismo é como cuspir nos olhos de Deus”, existe algum americano mais liberal que vem com uma sacada dessas: “Eu acredito em Deus; é o fã-clube dele que me assusta”. Sem dúvida, trata-se de um país dividido, que nem o 4 de julho consegue unir.

Às vezes me parece difícil crer que os EUA, tão dependentes do petróleo e de um consumismo exagerado, ainda tenham alguma independência pra comemorar.O operário diz ao elefante, símbolo do Partido Republicano: “Não sou o cara mais liberal do mundo, mas é óbvio que vocês estão usando o casamento gay como uma manobra política barata”. O elefante responde: “Manobra política barata?! Você tá de gozação? Você não viu as faturas dos nossos consultores de campanha, viu?”

sexta-feira, 4 de julho de 2008

SUPER-HERÓI BEBUM CONTRA PANDA E BONECA

E põe problema de imagem nisso...

A maior estréia de hoje nos EUA, no Brasil e no mundo é sem dúvida Hancock (cujo trailer já cri-critiquei aqui, e as críticas do filme estão aqui e aqui). O Will Smith chega pela oitava vez consecutiva pra liderar o mercado no verão americano. E chega cheio de confiança, achando que a aventura de ação sobre um super-herói que precisa melhorar sua imagem com o público será a maior bilheteria de sua carreira. Será? Os críticos americanos andam falando muito mal. O Metacritic tá dando nota 49 (e os leitores do site, até agora 78 deles, um pouco menos rigorosos, aumentam a nota pra 58, ainda assim nenhuma maravilha). Achou ruim? O Rotten Tomatoes dá nota 36. Em 100! Já o blog brasileiro Antigravidade, que costuma refletir o gosto do público, considera Hancock um dos melhores filmes de super-heróis de todos os tempos. Eu vou ver o treco hoje, 4 de julho, dia da Independência Americana, e depois conto pra vocês. Vou sem opinião formada - porque não li nenhuma resenha, só vi os índices de desaprovação.

Obviamente Hancock não tem concorrente neste final de semana. Mas também entra nas salas daqui uma comédia com a Abigail Breslin (a gracinha de Pequena Miss Sunshine) baseada numa boneca, Kit Kittredge: An American Girl. É, lembra quando os roteiros adaptavam um livro ou uma peça de teatro pras telas? Hoje adaptam bonecas, videogames (Tomb Raider), parques temáticos (Piratas do Caribe), e histórias em quadrinho (mais fácil citar qual filme do verão não é baseado nos comics). Mas o que me chama a atenção em Kit é que acabei de ler o resumo oficial e eles não falam em nenhum momento que a história se passa nos anos 30, durante a Grande Depressão. Isso não cheira à propaganda enganosa?

Não tenho vontade de ver Kit, por mais que eu goste da Abigail. Mas outra estréia eu quero conferir. É Savage Grace, em que a Julianne Moore faz uma mulher rica que tem um caso incestuoso com o filho. Só tá numa sala de Detroit.

No Brasil, além de Hancock, é a vez de Kung Fu Panda disputar a posição de “filme de férias pra criançada” com Wall-E. Tá, como se Hancock fosse um programa pra adultos... Bom, Panda já arrecadou 180 milhões de dólares em quatro semanas em cartaz nos EUA, num ano em que tá duro pros arrasa-quarteirões ultrapassarem a marca dos 100 mi. E tem gente falando bem. Eu tô fora, óbvio. Mas prometo que vou conferir Wall-E e escrever uma crítica (é que semana passada só vi Procurado. Não vou dar um pio sobre ele até o final de agosto, quando será lançado em terras tupiniquins).

Também estréiam hoje no Brasil, em salas limitadas, imagino, o francês O Escafandro e a Borboleta, que concorreu a quatro Oscars (minha crônica sobre ele tá aqui), o turco/alemão Do Outro Lado, e o italiano Meu Irmão é Filho Único.

Puxa, relendo este texto dei pra pensar: será que vou encarar três filmes neste final de semana? E sem maridão? O sortudo tá em Filadélfia, jogando xadrez. Chique!

CRÍTICA: O ESCAFANDRO E A BORBOLETA / Com escafandro não tem tsunami

- Repita comigo essa palavra difícil: s-a-l-a-m-a-n-t, ops, quero dizer, e-s-c-a-f-a-n-d-r-o.

Eu deixei O Escafandro e a Borboleta escapar no cinema por não ter gostado do trailer, e admito que, se o filme não estreasse no Brasil hoje, também não o teria visto em dvd. É o tipo de programa que eu imaginava que causaria um novo tsunami com minhas lágrimas, eu que sou um farrapinho humano. Foi assim com os divinos Mar Adentro e Fale com Ela, e com o intrigante mas insatisfatório Johnny Vai à Guerra, ambos com temas parecidos. Mas estava enganada. Escafandro não quis meu dilúvio, porque não é um melodrama. É um filme “artístico”, com as vantagens e desvantagens que este termo implica.

Chato falar mal de Escafandro. Chato e perigoso, porque é uma dessas histórias que, pelo tema, não se pode ser contra. É sobre Jean-Dominique Bauby, editor da Elle francesa e que, aos 42 anos, sofreu um derrame e ficou três semanas em coma. Quando acordou, viu que teve uma doença rara chamada locked-in syndrome (sem idéia de como traduzir isso), que o impedia de mexer qualquer parte do seu corpo, exceto um dos seus olhos. E assim, piscando pra uma assistente que ditava o alfabeto pra ele, escreveu um livro que foi um sucesso. Ou seja, se eu desdenhar dessa trama de elevação do espírito humano, serei considerada uma insensível. E fora isso, o filme ganhou vários prêmios, foi indicado a quatro Oscars (não levou nenhum), foi elogiado por montes de críticos famosos. É óbvio que só posso estar errada.

Concordo que os primeiros trinta, quarenta minutos são muito bons. A câmera segue o ponto de vista do personagem principal. Quando ele chora, ela fica embaçada. Ela só vê o que ele vê. E é terrível quando lhe costuram um olho, já que a câmera tá lá dentro. Em geral, as imagens são belíssimas (tirando essa do olho!). Só que depois, quando passamos a ver além do seu ponto de vista, a peteca cai demais. A gente já conhece o bastante sobre o sujeito pra não gostar dele, e não há história comovente que nos envolva envolva. Até porque o carinha é arrogante e não trata muito bem as mulheres de sua vida. É um pouco de novidade uma vítima de uma doença tão cruel não se tornar uma pessoa melhor depois do coma. Bauby continua sendo machista até seu último suspiro. Mas gosto da cena em que uma especialista em fala diz pra ele que as modelos na revista estão cada vez mais magras e parecem-se com meninos. Ele não se defende nem em pensamento! (sim, a gente pode ouvir o que ele pensa).

É esquisito que os melhores momentos aconteçam quando estamos dentro da cabeça dele, e no seu relacionamento com médicos e fonoaudiólogas. Essas cenas são muito superiores às que ele passa com a família, nos flashbacks ou na atualidade. Mesmo que o filme não tenha mandado, eu chorei na cena em que Bauby dita pra fonoaudióloga que quer morrer, e ela se zanga. Mas foi só nessa parte, que é, de longe, a mais memorável de Escafandro. Talvez essas sequências funcionem mais porque podemos nos colocar no lugar dele, e pensar “O que eu faria se fosse comigo?”. Ainda assim, um tiquinho mais de suspense viria a calhar. Em Johnny Vai à Guerra (clássico de 71), o soldado sem braços, pernas, boca e olhos demora um tempo até descobrir quais partes de seu corpo estão faltando. É horrível, e ele vai descobrindo pouco a pouco (meio como o Ronald Reagan – ator – vendo que suas pernas estão ausentes e gritando “Where's the rest of me?!”, “Onde está o resto de mim?”, em Cada Coração um Pecado). Também demora pra que alguém pense numa forma de se comunicar com ele. Em Escafandro, é tudo mais fácil. Assim que Bauby desperta do coma, os médicos lhe explicam que ele está completamente paralisado, e já lhe ensinam como deve se expressar. Fico feliz que ele tenha uma vasta equipe trabalhando pra sua melhora, mas não pude parar de pensar que, se ele fosse pobre, seria diferente.

O filme tem vários méritos, claro. Ele nunca é monótono e tem bastante movimento, o que é uma façanha louvável numa história sobre um homem que só pode mexer uma das pálpebras. Só que fiquei imaginando como um personagem secundário – um homem que troca de lugar com Bauby num vôo que é sequestrado, e passa quatro anos como refém em Beirute – daria um filme mais interessante. E também, por que esconder? Não gosto do título. Eu mal sei o que significa escafandro, e preciso de uma fonoaudióloga só pra pronunciar a palavra (que me lembra salamantra). Entendo o nome: escafandro é porque Bauby sente-se preso numa armadura dentro do mar, e borboleta porque representa liberdade de movimentos e metamorfose, como se estivesse num casulo e fosse sair a qualquer momento (se bem que não consigo mais pensar em borboleta sem rir depois que o maridão, sem querer e muito sério, chamou The Butterfly Effect de The Borbolate Effect. Tá, sou uma insensível).

Talvez meu maior problema seja que não sou grande fã do diretor, pintor e escultor Julian Schnabel. Eu me recordo quase nada de Basquiat, e só lembro mais de Antes do Anoitecer porque o Javier Bardem é inesquecível em tudo que faz. Nenhum desses dois filmes eu veria de novo. Mas Escafandro pode ser inspirador pra mim por um único motivo: se o Bauby consegue escrever um livro com um olho só, por que eu não seria capaz de escrever a minha tese com duas mãos, uma boca, e aproximadamente metade de um cérebro? (a outra metade já está irremediavelmente comprometida).