Sempre descrevo a quadrilha misógina que denuncio há tantos anos não só como odiadora de mulheres, mas também de neonazista. Eles realmente são fascistas e racistas e creem na superioridade ariana (apesar de alguns membros serem pardos).
Na realidade, não sei se já conheci algum misógino que não fosse também racista e LGBTfóbico. É um combo de preconceitos que vem junto, com ligações muito óbvias com a extrema direita.
Atenção: constatar que praticamente todos os reaças são misóginos não é o mesmo que dizer que pessoas de esquerda não são preconceituosas. Muitas são. A diferença que eu vejo é que na direita o preconceito é exibido com orgulho, enquanto que na esquerda a pessoa tem vergonha em ser desmascarada.
Meu querido Flávio Moreira encontrou e traduziu este texto de Tracy E. Gilchrist publicado na revista The Advocate. Apesar de descrever a realidade dos EUA, tem muito a ver com a nossa.
Para aqueles familiarizados com o ambiente tóxico dos grupos de direitos dos homens [que aqui no Brasil chamamos de mascus] ou que têm prestado atenção às notícias de homens que se acham merecedores de privilégios atirando em grupos de pessoas ou passando por cima delas com um carro porque não conseguem o que querem das mulheres, a ligação entre supremacia branca e misoginia não choca. Agora, um novo relatório da Liga Anti-Difamação (Anti-Defamation League – ADL em inglês) faz a conexão direta entre os dois.
“A ADL considera a misoginia um componente perigoso e subestimado do extremismo, e este relatório marca o início de um esforço continuado para investigar as maneiras pelas quais as pessoas na órbita da supremacia branca, dos incels e dos MRA (Men’s Rights Activists, vulgos mascus) alimentam e incentivam entre si o venenoso ódio às mulheres”, de acordo com o relatório, que foi primeiro publicado na revista Cosmopolitan.![]() |
| "É assim que começa", diz cartaz |
O relatório em oito partes faz um mergulho profundo nas ligações entre nacionalismo branco e odiadores de mulheres em capítulos intitulados “O Movimento Alt-Right tem um Problema com Mulheres”, “Celibatários Involuntários – Ressentimentos Mortais”, “Homens Brancos Adotam uma Narrativa Vitimista”, entre outros. O relatório oferece vários exemplos da polinização cruzada entre a supremacia branca e o ódio às mulheres.
“Homens que odeiam mulheres -– escondendo medo, insegurança sexual ou devoção ignorante à misoginia ideológica –- são ruidosos no movimento alt-right, que desfruta de uma ligação sinergética com movimentos extremistas mais especificamente misóginos como incels e MRAs”, afirma o relatório antes de dar exemplos. “Alek Minassian, que matou 10 pessoas, oito delas mulheres, em um ataque com uma van em Toronto em 2018, e o neonazi Andrew Anglin, estão entre os mais visíveis exemplos desse tipo de ódio -– mas estão longe de serem os únicos”.
A ADL aponta para tipos de supremacistas brancos virulentos como Christopher Cantwell, que ganhou alguma notoriedade durante os protestos iluminados por tochas de bambu em Charlottesville, Virginia, no verão de 2017. Antes da confusão de Charlottesville, ele postava com frequência em um grupo online pelos direitos do homem. O relatório afirma, porém, que ninguém tipifica mais o híbrido supremacista branco/ misógino do que F. Roger Devlin, um acadêmico nacionalista branco cuja tese é a de que o movimento feminista foi prejudicial para a raça branca porque mulheres brancas têm escolhas e, portanto, menos probabilidade de procriar e perpetuar a raça branca.
Quanto a Anglin, que o relatório descreve como um neonazi, ele alegou que “Mulheres desejam homens que as chamam de estúpidas e dizem que elas não deveriam ter quaisquer direitos. Elas também desejam ser amarradas, espancadas e estupradas”.
Este mês mesmo ele escreveu: “Veja, eu odeio mulheres. Eu acredito que elas merecem ser espancadas, estupradas e trancafiadas em celas”.
A autora do relatório da ADL, Jessica Reaves, aponta para a perda de status e poder do homem branco como parte do tecido que conecta a supremacia branca à misoginia, e acrescenta que o ódio pelas mulheres deve ser levado mais a sério.
“Há um sentimento crescente de ressentimento entre certos grupos de homens, especialmente homens brancos, contra mulheres, no que eles enxergam como roubo de seu poder e status”, disse Reaves à Cosmopolitan. “Violência, assédio perverso e outras formas de misoginia são uma ameaça enorme às mulheres em todos os lugares. Queremos que as pessoas entendam que a misoginia é perigosa e que, ao ampliar a compreensão de todos em relação a essa ameaça, possamos reduzir os riscos”.
Embora o relatório seja um fascinante, ainda que aterrador, estudo das ligações entre o ódio a raças não-brancas e a mulheres, ele também fornece recomendações para lidar com o problema que cresce cada vez mais. Essas recomendações incluem pressionar os legisladores para aprovar leis que criem proteções contra a violência de gênero e que acelerem a classificação de crimes de gênero como crimes de ódio.
Várias das recomendações estão relacionadas à tecnologia e às mídias sociais, considerando que espaços online são aqueles em que tanto ódio se proliferou.
“Empresas de tecnologia devem continuar a melhorar seus termos de serviço, especialmente em relação à misoginia. Esse compromisso deve incluir a criação de proibições fortes e robustas de conteúdos que repercutam a misoginia em movimentos extremistas mais amplos”, diz uma das recomendações.
“As plataformas devem ajustar suas abordagens ao lidar com esse tipo de extremismo e tomar atitudes claras contra o comportamento misógino como uma forma ódio cibernético direcionado".
“As plataformas devem ajustar suas abordagens ao lidar com esse tipo de extremismo e tomar atitudes claras contra o comportamento misógino como uma forma ódio cibernético direcionado".
Não há tempo a perder na aprovação de mudanças em relação à tolerância e à resposta ao ódio de gênero, de acordo com Reaves.
“Levando em conta como os supremacistas brancos estão ativos no momento e as contínuas ameaças de violência pública contra mulheres, achamos que é realmente importante para as pessoas entenderem que esses grupos de ódio não existem no vácuo -– eles se alimentam uns dos outros e se incentivam mutuamente”, diz Reaves.







































