quarta-feira, 16 de março de 2011

POR QUE PECADOS ÍNTIMOS, O FILME, É MELHOR QUE O LIVRO

Jennifer Connelly e Patrick Wilson, casal com filho na cama.

Já falei que adoro Pecados Íntimos (Little Children), filme de 2006 do Todd Field? Já: até o escolhi um dos melhores dramas da década! Cada vez que revejo o filme, mais gosto. Decidi ler o romance do Tom Perrotta, que também é bem acima da média, mas prefiro o filme. O final do livro é totalmente diferente do do filme, e devo dizer que gostei mais da conclusão no cinema. No romance, é exagerado demais. (Spoilers, gente!) Tem gente sobrando no parquinho à noite. Por exemplo, o que Mary Ann está fazendo lá? A explicação que seu casamento está em crise e ela se dirigiu ao playground pra fumar um cigarrinho escondida não convence. Ela não tem nada que estar lá. Só o bando de acontecimentos numa só noite deveria bastar.Olha só: Todd (ou Brad no livro, acho que o diretor/roteirista mudou o nome do personagem pra que não levasse o seu nome, Todd), e Sarah vão fugir, a mãe de Ronnie morre, Ronnie, desesperado, vai ao parquinho, e Larry decide pedir desculpas a Ronnie no mesmo momento. Tudo isso está no livro e no filme. No livro ainda põem a Mary Ann na história. E tem mais: no livro, Ronnie acaba confessando aos três presentes que matou uma menininha alguns anos atrás (que estava desaparecida), porque ela havia ameaçado contar sobre ele. Os quatro fumam um cigarro juntos. E, quando perguntam a Sarah por que ela está lá com a filhinha (dormindo no balanço) à noite, o que é perigoso, ela ri e pensa: estou aqui porque beijei um homem neste mesmo espaço, e essa foi minha maior felicidade na vida adulta, e imaginei que seria uma pessoa especial a ponto de merecer um final feliz.
Antes disso ela imagina virar advogada. Depois, vê que terá que estreitar os laços com sua filhinha.Já Todd se acidenta andando de skate. Ninguém encontra a carta que ficou no seu bolso, e Kathy, sua esposa, não aparece. Ele está bem, e pergunta ao policial (seu parceiro de futebol americano) se ele daria um bom policial. Está aliviado por não ter fugido com Sarah, porque percebe que só a ama no contexto de uma aventura de verão. Ah, Kathy fala com ele sobre Sarah. Ela sabe.
Tá, isso tudo faz parte do final. Resoluções demais prum fim só. Parece novela, né?No filme, olha só como o final flui melhor: Ronnie, desesperado com a morte da mãe, destrói todas as bugigangas decorativas que vemos no começo (nada disso no livro). Ele vai até o parquinho. A conversa entre ele e Sarah é muito mais curta. Nem sinal de vida de Mary Ann. Lucy desaparece, e Sarah entra em pânico e vai atrás dela. Só quando Ronnie está só no parquinho é que surge Larry, e pede desculpas. É um momento bem comovente. Totalmente oposto ao do livro, em que, quando Ronnie vê Larry se aproximando, pensa: “Ah, que ótimo! Agora ele vai quebrar meu outro braço”. E Larry chega mesmo batendo nele.No filme o final transforma radicalmente os dois personagens. Ronnie se automutila, tenta se castrar. Sua mãe lhe pediu para ele ser um bom garoto, e essa é a única forma que ele encontra de resolver seu problema, sua doença (pedofilia). Quando Larry vê o sangue nas calças de Ronnie, o pega em seus braços e o leva, em sua van, com as luzes de emergência, a um hospital. Ele, que foi seu maior antagonista durante o filme todo, vê que salvar Ronnie é sua chance de redenção. Então é como se os dois se redimissem. Ambos se arrependem de seus atos e tentam não repetir seus erros. É muito interessante porque, no livro, Sarah olha pra sua filha, dormindo no balanço, e pensa: se estivéssemos sozinhas, pediria desculpas pra ela. No filme, elas estão sozinhas no carro, e Sarah pede desculpas e chora. E fica claro naquele momento quem é a criança e quem é a adulta. A filha a consola, diz: “It's okay, Mommy”. Gosto dessa parte. A garotinha parece tão madura!Quando vi o filme, tive certeza que Richard, o marido de Sarah, havia sido editado ao máximo. No livro ele aparece mais, mas não muito mais. É só que há uma resolução. Ele vai até a Califórnia conhecer seu objeto de desejo, Slutty Kay. Aquela do site pornô, das calcinhas. E decide ficar por lá. Liga pra Sarah só pra comunicar que vai se divorciar dela, mas que ela pode ficar com a casa e com o carro. Richard é um personagem mais trabalhado no livro, lógico. Porque ele é um viciado em pornografia. Existem muitos casos assim de homens que ficam tão acostumados com a pornografia que não querem (ou não conseguem) mais se relacionar com pessoas de carne e osso. Nem sexualmente nem emocionalmente. Ok, não precisa ser porn. A gente pode se viciar em trocar mensagens na internet e não querer mais contato com a vida real. Mas o vício em porn é uma realidade, e tão frequente que existem grupos de apoio para ajudar a se livrar do vício.No livro não está presente uma cena que eu nunca entendi direito no filme. É a da Jean, a vizinha de Sarah. Jean é uma mulher mais velha que caminha com Sarah e que se dá muito bem com Lucy. Ela some abruptamente do livro, o que considero um defeito. Mas no filme não entendo bem o que acontece. Quando Sarah viaja com Todd (sob o pretexto que ele vai prestar o exame dos advogados ― o livro descreve a fuga dos dois, o filme não), deixa sua filha com Jean. Ao voltar, tenta lhe dar algum dinheiro pra pagar pelo serviço de babá. Jean sente-se ofendida e não aceita o dinheiro. Mas só isso não é suficiente pra explicar seu mal-estar. Ela se zanga com Sarah pelo lance da grana, ou por que notou que Lucy é uma criança fofa e Sarah é não é uma boa mãe, ou por que sabe que Sarah está mentindo e encontrando-se com o amante? Ou todas as respostas anteriores? Não fica claro. Não preciso nem dizer que recomendo muito que você veja ou reveja Pecados Íntimos (e leia o livro). Apesar de tratar de adultos infantilizados, que não sabem lidar com suas frustrações, é um dos filmes mais adultos da década.

8 comentários:

Pili disse...

não conheço o filme,
só passei mesmo pra te desejar melhoras. =)

Lord Anderson disse...

Eu preciso mesmo ver esse filme.

Muito boa suas colocações.


E desejo de melhoras p/ vc e o CM.

Marcello disse...

Você destrói sonhos...

Marussia de Andrade Guedes disse...

Não gostei deste filme. Para mim é um clichê. A velha defesa do mito da monogamia e da exclusividade sexual. Só mesmo gente infantil para tratar seus desejos levando em consideração estas imposições ridículas da sociedade.

Marussia de Andrade Guedes disse...

Relacionamento extraconjugal é erro, pecado, algo que merece um pedido de desculpas? Ridículo! Coisa de moralismo religioso. Quem tem que pedir desculpas é quem acha que deve privar os outros de satisfazerem seus desejos!

Jéssica disse...

Não vi o filme, mas pelo que entendi o Marussia está defendendo o direito de trair.

A não ser que o acordo entre o casal seja a ausência de monogamia, traição é puro egoísmo com a outra parte do relacionamento.

Pequenas histórias cotidianas disse...

Não vi o filme, mas pra mim a monogamia não é o problema, mas sim a obrigatoriedade dela. As pessoas a seguirem pensando que é a única coisa viável num relacionamento. Vou ver o filme! Aliás, tenho que ver um monte indicados aqui.

Akane-Chan disse...

Na boa, se alguem não consegue se satisfazer com uma única pessoa, então para que casar? Se não curte monogamia, não casa, fica só no rolo. -.-