terça-feira, 20 de julho de 2010

BATA NO SEU FILHO E PERPETUE A BURRICE

Faz tempo que venho querendo escrever contra bater em crianças, e agora que está em todos os jornais o apoio de Lula a um projeto do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) que condena castigo corporal e o vê como tratamento cruel e degradante, vejo que esta é uma boa hora. O presidente, inteligente como é, previu que “muita gente reacionária nesse país” iria chiar. Parece que bater para educar (que vai da palmadinha e beliscão até a surra de cinta) é uma instituição nacional. Lula é rápido em dizer que o projeto não visa proibir, mas ensinar que “é possível fazer as coisas de forma diferenciada”. De fato, fiscalizar o que pais fazem com seus filhos dentro de casa é inviável. Mas por que essa reação tão exagerada até pra discutir se bater é realmente um bom remédio?
Nesse quesito de “educo meu filho como quiser e ninguém tem nada a ver com isso”, os conservadores brasileiros são muito parecidos com os americanos, que têm horror à interferência do Estado nos seus direitos individuais. E, ao que tudo indica, bater no seu filho é um direito individual. É engraçado, porque se um adulto chegar em outro adulto e bater nele (ainda que seja para “corrigi-lo” ou “educá-lo”, ou só crianças precisam ser educadas e corrigidas no nosso mundo?), isso será considerado crime. Mas bater na sua criança tudo bem, porque, afinal, você, diplomado em Pedagogia e com um certificado de Habilidade em Lidar em Situações de Crise, sabe o que é melhor pra ela. Dá pra ver que as leis não são feitas por crianças, né? O sentimento de posse que pais têm pelos seus filhos é enorme, e está na origem de vários problemas.
Por exemplo: uma pesquisa de 2007 apontou que 12% das 55,6 milhões de crianças brasileiras menores de 14 anos são vítimas de alguma forma de violência doméstica. A Unicef diz que uma criança por hora morre queimada, torturada ou espancada pelos próprios pais. Certamente os pais que matam seu filho não partem com a intenção de matá-lo. Aposto como a agressão começa como uma forma de educação ― e aí vai um pouquinho longe demais. E, pra provar como criança ocupa o nível mais baixo de poder, só 1% das denúncias de agressão infantil são feitas pela vítima. Criança não sabe nem que tem o direito de denunciar! É um bicho indefeso, refém da própria sorte e de seus guardiões. E o que seus pais fazem? Batem nela! Com a melhor das intenções, lógico. Aquilo é bom pra ela.
Exceto que... não é. Não é mesmo. Uma pesquisa do ano passado, realizada nos EUA com famílias de baixa renda, envolveu mais de 2,500 crianças. A conclusão foi que bater, mesmo no caso de palmadas, é ruim pra educação das crianças. Crianças que receberam palmadas quando tinham um ano de idade tendiam a reagir mais violentamente quando alcançavam dois anos, e tinham um desempenho pior num teste de raciocínio aplicado aos 3 anos. Como a pesquisa trata de crianças de um ano, pode-se imaginar que elas não eram espancadas com cinta pelos pais (certo? Diga que sim, por favor!). Eram mais palmadinhas e beliscões mesmo. E ainda assim, onde estão as vantagens prometidas? Ou deixar a criança agressiva e burrinha é uma vantagem, e eu que não me dei conta?
Violência gera violência. Este é um conceito tão óbvio! Todas as pesquisas comprovam que crianças que foram vítimas de violência doméstica têm grandes chances de repetir a dose quando forem educar os filhos. E daí por diante: seus filhos educarão os filhos deles desse jeito. E tem gente que acredita que, graças a esse círculo vicioso, estão criando seres humanos de um nível superior aos demais, apenas porque seus pais não tiveram a inteligência de pensar num método menos tradicional de educação! Eu gosto de programas como Supernanny, sabe? Neles (que são uma tendência mundial), a babá quase sempre encontra uma família problemática em que os pais batem nos filhos. E ela os ensina a não bater, ensina a conversar, a recompensar as crianças pelo que elas fazem certo, ao invés de puni-las pelo que fazem errado. Eu não tenho filhos, mas fui educada dessa forma. Meus pais jamais tocaram em mim se não fosse pra me dar carinho. Segundo a cartilha do “tem que bater pra formar caráter”, eu hoje seria uma psicopata. Junte esta falha grotesca na minha criação com o fato de eu ser ateia, e sou uma psicopata sem valores (porque só os religiosos têm valores. Por coincidência, esses também são os que mais batem nos filhos).
Será que esses reacionários esperneando contra o projeto sabem que as leis já são assim há décadas nos países desenvolvidos? Vejamos a Suécia. Você acha que algum sueco bate no filho de cinta? Aliás, será que lá alguém bate no filho de qualquer jeito? E, pelo que contam, parece que lá os índices de criminalidade, corrupção, e desigualdade social são menores que os nossos. Não é possível: eles devem estar fazendo algo errado!
Eu queria saber por que os guardiões da moral e dos bons costumes, que defendem tanto os valores (preconceituosos) da sociedade, e riem do politicamente correto, acreditam que a civilização que temos seja o suprassumo da evolução humana. Sério mesmo que tanta coisa tradicional é boa? Boa pra quem? Quando? Onde?

80 comentários:

aiaiai disse...

Lindo post lolinha. Se as crianças pudesse te ler, tenho certeza de que vc se transformaria na nova IDALA delas...minha vc já é.

Eu tenho um filho e posso te dizer por experiência própria: bater é a pior das estratégias educativas. Numa época em que estava mais difícil conversar com ele, lá pelos 7 anos, eu acabei perdendo o controle algumas vezes e dei tapas. Eram tapas de raiva. Eu dava um e já saia de perto porque percebia na hora o erro.

É uma das coisas que mais me arrependo na minha vida. Além da dor que eu mesma sentia na hora (porque no momento em que vc bate no seu filho você sofre, a menos que você não goste dele), da dor que ele sentia, teve o pior: a sensação de estranhamento, de falta de confiança, de "quem é essa mulher e o que ela fez com a minha mãe?".

Eu consegui perceber que estava perdendo o controle e me conscientizei de que não devia nunca mais bater nele. Essa crise toda durou uns seis meses...na época foi um drama. Hoje, já superamos. De vez em quando ainda conversamos sobre esse período, principalmente quando ele vem me contar dos absurdos que os pais de amigos deles fazem.

Tem um menino que já planejou fugir de casa porque o pai espanca ele de verdade...

Eu dou castigos as vezes duros, mas consegui reverter a situação e nunca mais bater nele.

O que mais funciona? Na minha experiência é a supressão de algum privilégio combinado com recompensa.

Na época da crise eu inventei um quadrinho de pontuação, que ele ganhava pontos sempre que fazia coisas legais e perdia quando fazia coisas que a gente tinha combinado de não fazer. Era todo colorido e ele mesmo gostava de preencher. Foi ótimo.

Hoje, ele está maior e tem como a gente fazer acordos.
Um exemplo: ficar sem videogame durante duas semanas, com possibilidade de encurtar ou alongar o tempo, conforme o cumprimento ou não do acordo.

Umrae disse...

Palmada & afins não são educar, são adestrar, igual fazem com rato de laboratório que toma choque quando não faz a ação esperada e bicho de circo que apanha até aprender o truque (o que já está errado com eles). A criança não entende por que o que ela fez é errado (só entende que não é para fazer quando ela puder ser pega) e ainda fica revoltada ou traumatizada.
Mas vai ser um trabalho muito complicado convencer a população, a maioria dos adultos simplesmente não têm idéia de como fazer de outra forma, acham que aquilo é inofensivo e que é a única coisa que vai funcionar. Vai ser preciso educá-los primeiro.

J.anquevitti disse...

Eu fui muito ingênuo quando pensei que a maioria das pessoas seriam a favor dessa lei, mas me enganei.

A gente procura a respeiro na internet, e encontramos gente reclamando. Dizem que o Estado quer controlar a vida delas, dizem que castigo físico evita que as crianças se tornem "bandidos" no futuro, e mais um monte de baboseira, que lógico, são todas inverdades, criadas por pessoas que não tem capacidade (ou não querem mesmo) pra analisar as coisas...será que eles não lembram da menina Isabela ou do João Hélio? Casos assim começaram porque certas mães e pais achavam correto bater n@s filh@os e a situação ficou fora de controle.

Fiquei muito aliviado com essa lei, odeio todo tipo de violência.

Também gosto muito desses programas estilo "Supernanny", é surpreendente como as crianças podem ser bem educadas as tratando de igual pra igual e com muito respeito. E como podem se tornar adultos maravilhosos, como a nossa querida Lola não é mesmo?

Crescer sem violência é um direito de toda criança. Impor dor física e medo não fazem bem pra psíque de ninguém. A pessoa pode crescer achando que a violência é justificável, e é aí que mora o perigo.

Não acho que só porque uma mãe ou pai às vezes dá um beliscão ou um tapa na criança significa que el@ seja má pessoa, como no caso da "aiaiai", imagino que esteja mal-orientada sobre a maneira correta de educar. Mas ainda digo, acho completamente errado e a aplaudo por se arrepender de tê-lo feito e por ter encontrado maneiras melhores de educar o filho.

E é isso algo de positivo dessa lei, desafiar os pais a encontrar maneiras de educar as crianças com dignidade.

Reclamem o quanto quiserem, reaças. Se eu vir algum pai ou mãe batendo na criança, eu vou denunciar mesmo rs!

Beijos Lola

Jonas

Alice Cardoso Brandão disse...

Primeiro, acho que nunca comentei aqui. Leio sempre, sou cadastrada no feed pra não perder nenhum post e AMO. De verdade.

Ontem tive uma discussão feia com a faxineira da agência onde trabalho. Ela veio me perguntar se eu vi a "lei do Lula". Já fiquei meio puta com isso e perguntei qual lei. E ela começou a "menino tem que apanhar" e eu falando que eu nunca apanhei e nem por isso vou por ai matando e roubando, porque a lógica dela era essa, criança que não apanha não aprende. Até dei o exemplo da Super Nanny também, todas as crianças apanhavam antes e olha como ficam depois com os pais começam a conversar, a explicar... Não adiantou.
Em toda discussão ela conta uma história pra me comover e me fazer achar que a certa é ela, e a história dessa vez foi: uma prima tinha um filho de 7 anos. O menino pediu dinheiro, ela disse que não ia dar porque o que tinha era pra pegar ônibus pra trabalhar. Quando ela foi sair o dinheiro tinha sumido. Ela pegou ele, conversou, perguntou (isso a menina me contando, com as palavras que eu havia usado) e o menino jurando que ele não pegou nada. Ai a mãe pediu a mão dele, ele esticou, ela agarrou a mão dele e disse: se você não falar a verdade eu vou colocar sua mão no fogo.
Quando ela disse isso eu surtei, comecei a gritar no meio da agência, que como ela faz isso!? Imagina o que passou na cabeça dele, o trauma que fica! Não, mas ele nunca mais fez nada de errado.
Falei pra ela que a conversa tinha acabado ali, que isso não tem justificativa e sai.

Até agora estou agoniada. Só de escrever me da um aperto. Penso no menino crescendo com medo da mãe colocar fogo nele. Isso não se faz com ninguém. E o pior de tudo é que ela acha que a pessoa que fez isso está certa, que a criança tem que aprender, que "eu acho que é fácil criar uma criança por isso acho errado bater". Não entende que existem outras maneiras de fazer uma criança entender. E daqui a pouco vou pro trabalho e não sei com que cara vou olhar pra ela sem lembrar disso...

Masegui disse...

Lolinha, ótimo post e ótimo assunto. Meu pai nunca encostou a mão em mim, mas tomei muitas palmadas da minha mãe... eu era um pouco sapeca. Desse jeito criei meus filhos. Claro que nunca exagerei, usava o castigo como arma, mas quando a coisa passava do limite eu dava umas palmadas.

Meus filhos são adultos, bem criados (conforme todo mundo me diz) e sempre achei que fiz o certo. Assim, de cara achei que essa lei era uma grande besteira e uma perda de tempo, que eles poderiam usar com coisas mais importantes. Bem, minha indignação baseia-se na proibição da "palmada educativa", pois é uma coisa difícil de fiscalizar e sempre considerei que "não se pode passar disso!".

Fiz até um comentário em meu blog de xadrez, que reproduzo abaixo:
****
... Eles não investem em educação de qualidade, pagam uma miséria aos professores, as escolas estão uma merda e agora querem que os alunos cheguem totalmente compatíveis, só pode ser isto!

Entre indignado e estupefacto com tamanha estupidez, comecei a rir imaginando a cena:

- Alô, é do disque-sapeca? faça o favor de mandar alguém aqui em casa porque meu filho tá na maior birra e não me obedece de jeito nenhum! Ele tem 7 anos, não come verduras, não faz o dever da escola e pra tomar banho é um Deus nos acuda. Mande um especialista, viu? tô aguardando, obrigado.

Não sei quem são os autores desse projeto, mas se eles tivessem levado umas boas palmadas na bunda quando eram crianças agora estariam bolando algo mais útil, com certeza.

Adaptação "poética" de um ditado da vovó:

Criança desobediente e sapeca
que não toma palmada na bunda
é só trocar a fralda por cueca
que vem borrachada na cacunda
****

Bem, tentei dizer o que penso a respeito com um toque de humor(?), mas depois de ler seu excelente texto e os ótimos comentários acima, confesso que balancei.

Diego Hatake disse...

Acho que nesse ponto nós discordamos Lola.
Minha mãe me educou também, tanto na base da conversa quanto das palmadas. Eu NUNCA fui espancado, minha mãe nunca exagerou. Nunca foi com nada extremo feito, sei lá, cintada ou pauladas. As palmadas só aconteceram em casos bem raros em que passei MESMO dos limites. Eu nunca apanhei sem saber porque estava apanhando, sabia que o fiz por ter abusado porque ela me contava. Isso eu acho que é sim educação.
Acredite, eu seria a primeira da fila em defender o fato que "a conversa sempre funciona" se isso funcionasse mesmo, mas na prática eu não vejo isso. Eu tenho primos e vizinhos que foram educados com essa política de nunca bater, sempre conversar... bem, educados eu posso dizer que eles não são, estes abusam dos pais e parentes como bem entendem porque sabem que nunca levarão castigos. É a coisa mais medonha do mundo ver filhos mandando nos próprios pais, e eu vejo que isso acontece. Tem criança que, depois de um tempo, aprende a manipular isso a favor, eu mesmo chorava de modo falso enganando minhas tias (que são adeptas do "Nunca bata") para que não me castigassem. Com minha mãe isso nunca funcionou, aliás, nem tentava porque eu sei que ela não engoliria, e pra não irritá-la era melhor andar na linha. Se isso não é educação, não sei mais o que é. Hoje estamos passando aquele estágio em que a relação está sendo invertida, em que eu tenho de ser a mãe de vez em quando, mas ela ainda mantém a sua moral comigo. Coitadinha dela se ela decidisse nunca me bater! XD
Eu não posso falar por ninguém, nem mesmo por amigos que concordam comigo e fomos criados da mesma maneira, mas nós não somos pessoas loucas ou ultraviolentas por termos apanhado não. É questão de bom senso da mãe de saber se ela está educando ou está somente ferindo uma criança de graça. E acho que, necessariamente, isso deve ser escolha dos pais. Eles que sabem como seus filhos devem ser educados. Se a conversa funciona, ótimo. Se utilizam de palmadas, também.
Espancamento e mutilação é algo condenável sim, mas é igualmente perigoso esperar que a criança crie caráter e educação só na conversa. Falo por experiência própria.
Parabéns pelo blog.

Umrae disse...

Bom, eu apanhei, nunca foi nada exagerado, nunca foi nada para machucar de verdade (mais para assustar ou humilhar, da maneira como eu vejo), eu sabia que estava apanhando por supostamente (quando se é filho único a culpa é sua, assim, default, mesmo quando não é) ter feito alguma coisa "errada", mas nunca me explicaram por que era errado (e argumentos do tipo "por que e o que os outros vão pensar" não são argumentos). E há a questão da agressão verbal também ( e, convenhamos, ela pode ocorrer por causa de uma coisa que não é consenso da sociedade que seja errada, apenas vai contra valores dos seus pais), que não ajuda em nada.
Não sou psicopata, não sou violenta, mas sou sim ressentida com meus pais por causa disso e não confiava neles para conversar sobre coisas sérias também por causa disso, então boa a tática não é.
Mas só porque se usa conversa, não quer dizer que deva-se fazer tudo o que a criança quer, nem que não se deva usar punição (tirar as coisas de que a criança gosta para mim são algo bem válido). Dá para ser sério e firme sem usar violência.
Agora, esse casos de crianças que deitam e rolam em cima dos pais eu estou bem acostumada a ver, e palmada não resolve nesses casos também (principalmente quando os pais batem e depois se sentem culpados e fazem o que a criança quer, estou cansada de ver). O que não dá, por exemplo, é para fazer como gente que eu conheço, cujos filhos não estudam, fazem grosseria com os pais quando eles tentam obrigá-los a estudar, pegam recuperação em tudo e aí os pais dão uma viagem para a Disney no meio do ano porque sabem que no fim não vai dar para ir porque a criança vai estar de recuperação.

garotacocacola disse...

Eu sou a favor do castigo.
Tirar computador, video game, bola, proibir de ir em alguma festa, fazer a criança limpar o que sujou, essas coisas. Isso se parece muito mais com as formas de punição que a pessoa vai receber na vida adulta (multa de trânsito, prisão, etc).
Eu apanhei bastante na infância, nunca a ponto de ficar com marcas nem nada - era o "tapa educativo". Meus pais sim, apanharam muito quando eram pequenos, e por eles não gostarem das lembranças, sempre maneiraram nas 'surras' que me davam. Hoje, adulta, eu converso com eles e digo que melhor seria se eles não tivessem me batido nunca.
Porque sabe, é muito ruim apanhar dos pais, porque mesmo que você seja pequeno, você pode tentar se defender ou revidar. Só que daí o vilão da história se torna você. Uma vez, aos 12 anos, eu já era bem grande; apanhei da minha mãe, mas me defendi, coloquei os braços na frente, e quando ela tentou abaixá-los, eu mordi a mão dela e a empurrei pro lado. Sabe o que aconteceu? Me levaram para psicóloga porque eu estava 'batendo na minha própria mãe'. Vê se pode isso?! Depois dessa, eles continuaram com os tapas educativos, e eu não tentei mais me defender - porque, vejam só, eu jamais poderia bater nos meus pais, mesmo que o "bater" que eles falavam, significava me defender.

Hoje em dia eu vejo que meus pais não estavam preparados para ter filhos, mesmo que eu tenha sido um bebê planejado. tenho 20 anos de idade e alguns dias atrás discordei com o meu pai sobre um assunto a respeito de carreira. Brigamos muito feio, discutimos bastante. No fim da conversa eu pude deslumbrar um movimento rápido que ele conteve. Ele ensaiou me dar um tapa. Só porque eu estava discordando dele. Foi aí que eu entendi. Eles nunca tiveram o dom da argumentação. Não sei se pela pouca escolaridade, ou pela educação arcaica que receberam. Mas eles nunca conseguiram dialogar. Falta de paciência? Preguiça de explicar? Não sei. Mas aprendi que quando tiver filhos, a melhor saída é a conversa. É explicar os motivos daquilo ser errado. E não sair batendo e não explicar nada - deixar a criança aprender pela dor, sem entender coisa alguma.

garotacocacola disse...
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Nessa Guedes disse...
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Giovanni Gouveia disse...

Amei.
Só complementando:

1- Não há muito tempo, achava-se que quando acabassem os açoites contra os escravos esses nunca mais iriam querer trabalhar...

2- Bater em criança (sua ou de outrem), é um ato de covardia, não a tôa que se uma pessoa é flagrada batendo em um menor de idade vai pra cadeia, se se trata de uma pessoa com convicções religiosas é duplamente covarde, pois ainda que a criança queira revidar vai queimar no inferno por bater nos pais...

Giovanni Gouveia disse...

Em tempo, apanhei dos dois anos até uns 16 ou 17, isso NUNCA me impediu de fazer o que quisesse, a ponto de uma vez (com notas baixas, perto dos dez anos) ir pegar um cinturão pra trocar o castigo por uma surra (que pra mim era mais vantajoso).
Levava uma surra (do que estivesse mais perto da mão dos meus pais)e ia fazer a mesmíssima coisa, ou coisa pior, logo depois.

Anônimo disse...

Boa tarde lola e leitores do blog.
Sempre leio o seu blog, mas nunca comentei. Resolvi comentar agora devido a uma dúvida quanto a Suécia. É a segunda vez que eu vejo você falar sobre o comportamento dos suecos, primeiro sobre o casamento da princesa sueca e agora sobre bater nos filhos. No post sobre o casamento, você fala sobre a boa posição das mulheres lá, mas, outro dia eu fui parar em nesse site http://www.saberebomdemais.com/ onde a blogueira comenta um pouco sobre o filme THE GIRL WITH THE DRAGON TATOO (tradução da obra original: man who hate women), onde o autor Stieg Larsson levanta uma questão que parece ser bem comum na Suécia, o estupro.
Bom, eu não li o livro e nem vi o filme, também não sei se você já fez isso, mas gostaria que se possível você escrevesse um pouco sobre isso.

L. Archilla disse...

Eu não tenho opinião formada sobre a lei.

Quer dizer, é claro que apanhar não é a melhor maneira de se educar. Taí Supernanny pra nos provar. A questão é se uma lei é a melhor maneira de se levantar essa discussão. Acho que, pra quem tem essa ideia fixa de que sem palmada não tem educação, uma lei só vai gerar mais revolta, que provavelmente vai ser descontada na criança. Por que não se investir em campanhas educativas, panfletos, palestras em escolas, etc?

Além disso, muita gente que conheço não põe limite nenhum nos filhos, porque sabe que bater é errado; só que também não conhece outra maneira de educar (castigos, conversas, etc). Aí acho que é pior do que uma criança que uma vez ou outra, quando passa MUITO dos limites, leva uns tapinhas.

Por último, é legal lembrar que se a criança SÓ obedece com palmada, alguma coisa tá errada na criação dela. E aí é bom procurar um profissional, né?

Patrick disse...

Vou postar aqui o texto da lei pra evitar confusões:

"Art. 17-A. A criança e o adolescente têm o direito de serem educados e cuidados pelos pais, pelos integrantes da família ampliada, pelos responsáveis ou por qualquer pessoa encarregada de cuidar, tratar, educar ou vigiar, sem o uso de castigo corporal ou de tratamento cruel ou degradante, como formas de correção, disciplina, educação, ou qualquer outro pretexto.

Parágrafo único. Para os efeitos desta Lei, considera-se:

I - castigo corporal: ação de natureza disciplinar ou punitiva com o uso da força física que resulte em dor ou lesão à criança ou adolescente.

II - tratamento cruel ou degradante: conduta que humilhe, ameace gravemente ou
ridicularize a criança ou o adolescente."

lola aronovich disse...

Diego, vc diz que parou de chorar para tentar enganar a sua mãe, “e pra não irritá-la era melhor andar na linha”. E arremeta com: “Se isso não é educação, não sei mais o que é”. Educação pra vc é parar de fazer algo errado e enganoso apenas pra deixar de irritar alguém, não porque vc acha que o comportamento é errado? Sério que pra vc isso é educação? Quer dizer que o comportamento errado persiste, mas vc só parou de fazê-lo pra não irritar sua mãe e apanhar? E quando sua mãe não estava presente? Aí vc teria toda a liberade pra não andar na linha. O que é ela “manter sua moral” contigo? Quer dizer que vc ainda tem medo dela, ou receio em irritá-la? Belo relacionamento baseado no medo! “É questão de bom senso da mãe...”. Nessa frase vc já deixa claro quem vc acha responsável pela educação dos filhos: só a mãe. Aí, Diego, quando vc diz que espancamento e mutilação é algo tão condenável quanto “esperar que a criança crie caráter e educação só na conversa”, não sei se dá pra conversar mais. Essa sua declaração é chocante demais pra mim. O que vem a ser “espancamento” tem várias interpretações, mas mutilação tem uma só. Vc está justificando mutilação de uma criança, um ser indefeso, que está sob sua guarda, pra educá-la? Isso parece racional pra vc?

Mariana. disse...

Olha, eu tenho 21 anos e, claro, ainda não tenho filhos.

Mas sou filha (inclusive ainda moro com os meus pais).

Acho que a primeira coisa que devemos fazer é diferenciar o espancamento das palmadas educativas. Espancamento é punível antes da lei, felizmente. A lei quer proibir as palmadas e eu não tenho opinião formada sobre isso.

Quando eu era criança, apanhei os meus pais. Palmadas educativas, mas que disse que palmada - só porque é educativa - não dói? Dói sim, até porque - proporcionalmente - a força do adulto é muito maior do que a da criança, que é indefesa.

Muitas vezes apanhei porque fiz algo errado. Outras, apanhei porque meus pais estavam frustrados com alguma coisa (vida profissional, pessoal, financeira) e descontavam na gente (acontece. eles fazem sem pensar e ficam péssimos por isso). Já apanhei de palmada, de chinelo, de levar puxão de orelha... E bem, dói.

Por outro lado, meus pais nunca deixaram de conversar. depois das palmadas eles iam lá, perguntavam se eu sabia porque eu apanhei, conversavam, diziam que não queriam mais precisar fazer isso, etc.

Eu, também, não me sinto prejudicada com essas sequelas indiretas. Sempre fui a melhor aluna da minha sala, ou estava entre as melhores. Passei no primeiro vestibular, numa federal, pra uma faculdade concorrida... Tal qual a minha prima, que nunca, nunquinha, apanhou dos pais.

Eu acho que, com meus filhos, eu não vou querer fazer isso. Vou tentar conversar, castigar de outras maneiras (privações são as mais eficientes, acho, até porque duram mais tempo - semanas - e não deixam a criança esquecer o porquê está passando por aquilo. enquanto a palmada, só tem efeitos naquela hora). Mas não sei até que ponto as outras pessoas sao obrigadas a agir e pensar como eu...

lola aronovich disse...

Lau, sempre deixando sua propaganda aqui no blog, hein?! Pessoal em Sorocaba, se querem uma ótima psicóloga, procurem a Lauren! (opa, foi de Sorocaba aquele vídeo lamentável da mulher traída conversando com a amante do marido? Eu só vi uns dois minutos daquilo e parei. Onde estava vc nessas horas difíceis, Lau?).


Mariana, muito interessante o seu relato. Bem lembrado: pais batem nos filhos não apenas pra puni-los, mas tb pra descontar frustrações. Vc termina dizendo “não sei até que ponto as outras pessoas são obrigadas a agir e pensar como eu”. Pois é, só que nesse caso nos esquecemos que crianças tb são pessoas, ou não? Se um adulto quiser se auto-mutilar, bater no próprio rosto, comprar um chicotinho e ficar se chicoteando quando acha que fez algo errado, eu não tenho nada com isso. Acho que a pessoa é livre para fazer o que quiser com seu próprio corpo. Mas uma criança não é uma extensão do corpo de um adulto! Pais não podem fazer o que quiserem com seus filhos, só porque são “seus”. A gente vê como esse sentimento de posse é perigoso pacas em se tratando de marido ou namorado ou ex achando que a mulher é sua, e somente sua. Vc não acha que esse sentimento de posse absoluta tb é perigoso para os pais?

Eliane disse...

Boa tarde Lola e comentaristas!

Lola, adoro o blog, sou sua fã.

Me vejo, às vezes, no meio de conversas, sitando seu blog.
Eu digo que a Lola sabe tudo...rs

Sobre o post:
Eu não tenho filhos. E não apanhei muito quando criança. Mas vi meus irmãos apanharem bastante. Tenho 2 irmãos mais velhos. Meu pai foi "educado" na base da surra, paulada, o que tivesse pela frente, meu avô usava. E minha avó também não era muito boazinha. Então, ele aprendeu a educar dessa forma. Meu irmão mais velho apanhava desde bebê, era espancado mesmo. E se minha mãe fosse defender, apanhava junto. Minha irmã mais velha também apanhava do meu pai. Lembro de uma vez em que ela tinha 12 ou 13 anos e meu pai bateu nela com um chinelo, no rosto e nos seios. E o motivo era banal, estiverámos brincando na rua com as outras crianças, vizinhos, e meu pai disse que ela estava, sei lá, paquerando os meninos, não sei bem o que ele pensava. Até hoje sinto mágoa dele, muita. Acho mais estranho, é que meus 2 irmãos, que apanharam tanto, não sentem, ou não demonstram. O tratam muito melhor do que eu.

Sou totalmente contra bater em crianças. Mas, tenho 2 sobrinhas e não sei educá-las! Elas ficam bastante aqui em casa, e a menor, é bem pestinha. Não me obedece em nada. A única coisa que faço quando ela fica incontrolável é mandá-la embora.

Sei que não estou preparada para ter filhos e acho que nunca estarei, é muito difícil!

O maior problema é que muita gente despreparada têm filhos.

Acho a lei muito válida. Porque abre espaço para a discussão.
E discutir, dialogar é sempre o melhor caminho.

Bjoabraço!

Mariana. disse...

É lola, também não concordo com essa 'posse'. É bem obviamente errado e, se se aplica ao casal, se aplica também nas relações pais/filhos, com a diferença que os pais tem que educar, vigiar, manter sob segurança, etc. Coisa que felizmente os namorados/as não precisam fazer.

Mas sabe.. seu modo de pensar, por algum motivo, não se aplica aos bebês que estão na barriga da mãe. Estes são seres tão independentes quanto um recém nascido, no entanto você se diz a favor do aborto (mas certamente é contra o homicídio de um bebezinho). Eu também concordo que essa opção é da mulher (desde que ocorra nas primeiras semanas, a não ser em caso de estupro e risco de vida), mas nunca sei o que responder quando me questionam assim...

L. Archilla disse...

ahahahaha verdade, meus superpoderes falharam naquela hora!

eu tb não vi o vídeo, acredita? me mandaram o link, fotos, reportagens, e tal... mas ai... francamente.

Anônimo disse...

Lola, sou uma comentarista recorrente aqui, mas para falar deste assunto pessoal decidi comentar como anônima.

Eu apanhei quando era criança. Várias vezes. E não gosto nem de lembrar. Uma vez tive que pedir pelo amor de Deus para não apanhar. Eu tinha quebrado uma janela de casa, pois fiquei trancada para fora de casa. Eu tinha 9 anos. Ah, fiquei trancada para fora de casa porque minha mãe tinha me deixado sozinha em casa e eu fui atrás dela. Repetindo, eu tinha 9 anos. Tive que implorar para não receber um castigo físico.

As agressões físicas deixaram marcas em mim. Eu não sou uma psicopata, nem nada disso...rs. Pelo contrário, tenho uma vida normal, com amigos, namorado, etc.
As marcas que deixaram foi a insegurança e a incapacidade de confiar no meu pai. Eu não consigo ter amor por ele, embora eu tente isso. Eu gosto dele, gosto sim, mas nem com ele e nem com minha mãe consigo ter uma relação de afeto e confiança, não consigo falar sobre tudo com eles. Eu sou insegura, muito insegura.

Eu acredito que a "simples palmadinha" tem esse feito, a longo prazo, de afastar as pessoas. Acredito mesmo! Acho que agressão física é puro descontrole, de pais incapazes de conversar e se comunicar. Eu conheço crianças que foram criadas sem agressões físicas, com métodos semelhantes ao da supernanny e são seres humanos saudáveis. Acredito que as chances de desenvolverem problemas de relacionamento com os pais no futuro será muito menor.

Má disse...

Ou Lola, faz tempo que não comento aqui..
Não li os comentários ainda, mas só posso dizer que essa lei demorou mas finalemente veio a discussão..

Também nunca apanhei em casa, tenho maior orgulho disso, e se tiver um filho sei que nunca irei bater nem deixar o pai fazer isso.

Ahh, são tantas coisas que penso a respeito sobre (o que é educar, o direito de bater como se fosse propriedade etc etc..) , mas sobre isso já devem ter falado e iria ficar mais longo..

Só quero dizer que não bater é MUITO diferente de não educar (como vc comentou , aquele programa da super nanny, me desculpem mas o que os pais não fazem é educar...parece que 'excesso de mimo' e deixar fazer tudo é o que reina, daí quando não tem mais jeito bate..)
Eu nunca apanhei, mas meus pais eram tão chatos no que é "correto e não correto" fazer que sempre pensava muito antes de fazer qq coisa.

Ah,,mas só p ficar mais longo ainda ;) mas o que sempre pensei, e não sei se estou certa (uma psicóloga talvez possa dar outra opinião..) é o fato que o ato de "bater", tenho a impressão que acarreta um certo "prazer" em que faz.
Mesmo que tenha amor para com o seu filho, tenho a impressão que o pai , ou a mãe, ao bater, desconta certa emoção, e acaba traneferindo certo prazer neste ato...
Só posso pensar assim,,,um ato de egoísmo misturado com o não saber lidar com a situação de educar de outra maneira...
Posso estar viajando, mas vejo uma satisfação neste bater sabe..

É isso Lolinha.
Um beijo e desculpe se ficou longo...
Depois vou ler os comentários..

cronicasurbanas disse...

Lola,
comecei a escrever alguma coisa a respeito desse assunto, mas o post ainda está no forno por falta de tempo... As pessoas às vezes falam na disciplina e na correção mas, a meu ver, o mais importante mesmo é o exemplo que os pais dão (e, nesse ponto, tem muito pai/mãe por aí deixando a desejar). Esta campanha australiana (já de alguns anos) mostra muito bem isso.
abraço
Mônica

Carla Mazaro disse...

Bom, Mariana... acho que qdo o feto está dentro da mulher ainda, de fato ele é uma extensão do corpo dela, mesmo q dali alguns meses ele deixe de ser... mas na verdade só pensei nisso por causa de sua pergunta....
Agora, as pessoas q disseram que conversa não adianta, provavelmente não tentaram conversar direito com uma criança... porque, qdo conversamos entre adultos, nós nos olhamos nos olhos e coisas para criança normalmente são gritadas ou ditas como se elas fossem inferiores...
E tbm não adianta querer falar um dia e td vai se resolver como num passe de magica... o dialogo tem que vir desde bebe... e tem que ser firme e não contraditório...
Absolutamente não estou dizendo que é facil... alias, é mais facil "educar" pelo medo,mas acho q é a melhor maneira.
E eu não tenho filhos, mas tenho meus cunhados são pequenos (3 e 8 anos) e me obedecem mais que os proprios pais... que não batem, mas tambem não educam... simplesmente deixam nos fazerem o que bem entendem... e se por acaso eles (os pais) tentam falar não, as crianças abrem o berreiro.. e comigo... bem... pode chorar até cansar... ponho meus fones de ouvido e ignoro mesmo... birra comigo nãoa dianta

lola aronovich disse...

Bom, tô sem tempo nenhum, mas decidi responder alguns comentários.
Aiaiai, obrigada! E obrigada pelo seu relato tb. Eu acho, sinceramente, que boa parte dos pais se arrepende de bater nos filhos. Não posso acreditar que tantos achem que bater “forma caráter”!


Exatamente, Umrae: é adestrar, não educar. Educar com diálogo deve dar muito mais trabalho...

lola aronovich disse...

Jonas, a gente é ingênua mesmo... Acho interessante como o discurso do pessoal contra essa lei no Brasil é idêntico ao da direita cristã nos EUA.


Alice, que horror isso que vc conta. Uma mãe que ameaça queimar a mão do filho! Como é que pode? É sempre um choque pra uma criança quando os pais fazem algo muito errado, porque os pais são os modelos, a autoriade, e, pra maioria das crianças, imagino, a maior fonte de segurança e carinho. Aí vc tem a pessoa que mais te ama no mundo ameaçando te queimar? É pra pirar mesmo. Não sei, acho que temos que aproveitar um diálogo assim pra mostrar que há outras maneiras de educar. Pergunta pra essa pessoa que defende essa mãe como ela reagiria se essa mesma ameaça fosse feita ao seu filho por outra pessoa. Por uma professora, por exemplo. Ela não iria denunciar?

Carla Mazaro disse...

Uma coisa que não tem a ver com o post, mas está no comentario da Mariana (acho)... é que ela fala que tem 21 anos, e claro não tem filhos.... rsrs achei engraçado, pq a idade não é uma boa premissa para ter ou não filhos... rsrs e mtas estatisticas provam isso

lola aronovich disse...

Mario, que bom que fiz seu coração antiquado balançar um pouco!


Umrae, mais um ótimo depoimento! É verdade, além da agressão física há a agressão verbal, que pode ser tão violenta quanto. Mas essa poucos defendem, né? Bater no filho, dar palmada, até usar cinto, faz parte do senso comum dos pais brasileiros. Mas creio que boa parte condenaria pais que chamam seu filho de “verme rastejante” ou algo assim (não sou muito boa pra insultos, esse é como eu chamo o maridão). Bom, defender que não haja punição física ou verbal contra uma criança é totalmente diferente de querer que não haja punição, ponto. Castigos, privações, broncas e sermões, tudo isso eu acho válido e necessário. Toda criança (e adulto) precisa conhecer seus limites. O que me espanta é como as pessoas pensam que só dá pra estabelecer limites através da violência!

lola aronovich disse...

Garotacocacola, também sou a favor do castigo. Incrível isso que vc conta: defender-se de uma surra dos pais não é nem considerado auto-defesa! É caso psiquiátrico! Putz, nessas horas eu fico com muita, muita pena das crianças. E acho fascinante como vc conseguiu ver no movimento rápido do seu pai a mesma falta de argumentação que ele usava pra te bater quando vc era criança...


Gio, pois é, tb pensei em açoites contra escravos. É tão fácil transformar um filho seu em escravinho, né? Pô, vc apanhou até os 17 anos?! Acho que bater só deixa a criança mais revoltada. E, inclusive, com raiva dos próprios pais.

lola aronovich disse...

Anônimo que perguntou sobre The Girl with the Dragon Tatoo, nunca ouvi falar desse filme, mas vou tentar vê-lo e falar sobre isso aqui. O que eu falo sobre a Suécia é puro “achometro”mesmo, porque nunca fui pra lá. Mas sempre tive grandes amigos suecos, já que minha escola era internacional, e na sétima série houve uma invasão de suecos. Tudo muito boa gente, sempre. Agora, em nenhum momento vou dizer que estupro não existe na Suécia. Estupro existe em TODO lugar. Imagino que em sociedades mais iguais ele ocorra menos que, sei lá, na África do Sul, que é um dos países recordistas em estupros, principalmente gang rapes (estupros em grupo). Lá muitos homens veem o estupro como uma prática pra “educar” e “corrigir” as mulheres, sobretudo as lésbicas.


Patrick, obrigada por postar a lei. De fato, fica bem mais claro!

lola aronovich disse...

Eliane, quase todo pai que bate nos filhos apanhou quando criança. É isso que perpetua a violência. Espero que seus irmãos consigam romper esse ciclo! E sabe, eu adoraria ver estatísticas. Esse pessoal que comete os piores crimes, serial killers, goleiros que mandam matar a amante etc – tenho a impressão que todos apanharam bastante... E parece que não funcionou muito a formar caráter, né? Tb acho que é difícil educar os filhos. Mais um ótimo motivo pra se pensar muito antes de decidir tê-los...


Mariana, pra começar, eu não sou a favor do aborto. Ninguém é. Aborto é algo horrível. O que eu e praticamente todas as feministas (ao menos não conheço feminista que não seja) somos é a favor da legalização do aborto. São coisas diferentes. Aborto sempre existiu e vai continuar existindo. Então, ao menos, que se faça em condições higiênicas, que não cause a morte do feto E da mãe. O negócio é que defendemos que o corpo é da mulher. Ela tem o direito de decidir o que faz com seu corpo. E, até que o bebê nasça, ele está dentro da mulher. Os reaças contra o aborto geralmente defendem o contrário: acham que o feto é algo sagrado, que a mulher é sempre um bicho perigoso, pra ser fiscalizado com desconfiança. E dão toda a atenção ao feto... até ele nascer. Nasceu, não é mais com eles. Aí dane-se que a mãe não tenha como sustentar a criança, que não existam creches pra ela poder deixar o bebê enquanto trabalha... Ah, e ninguém defende aborto pra gestantes com mais de 4 meses, até porque é perigoso pra elas.

Mariana. disse...

Claro, claro. A favor da legalização do aborto, não do aborto. =) E não sou a favor da legalização para depois dos TRES meses só porque é risco pra mãe, mas também porque a partir de um tempo (não sei quando, tenho que perguntar pra algum médico), o feto passa a sentir dor. Acho que se algo precisa ser feito, tem que ser antes disso. Dignidade. Mas nem é esse o assunto do post, deixa pra lá.


haha carlos, eu nem me dei conta quando escrevi o 'claro' ao falar que tenho 21 e não sou mae. Se tivesse pensando não falaria, porque isso é mais comum do que se imagina. É que minhas amigas, da msm idade que eu, tbm nao tem filhos. Aprendi a achar isso normal.

Carla Mazaro disse...

HEY!! eu sou menina!!!
rsrs
minhas amigas não tem filho e eu tbm achava isso (não ter filhos) a coisa mais normal do mundo... agora q eu vi q não é bem assim

lola aronovich disse...

Comentarista recorrente agora anônimo, que bom que vc tenha a maturidade pra analisar as marcas que as agressões físicas te deixaram. Sinceramente, não sei se a palmadinha afasta as pessoas. Certamente não as aproxima. Podem existir filhos que apanharam muito e que adoram os pais, assim como pode haver filhos que nunca apanharam e não são próximos dos pais. Nos casos que eu conheço, de amigos meus com pais muito autoritários, que batiam, há respeito, mas não amor.


Má, outra que não apanhou, welcome to the club! Acho incrível como as pessoas só vejam os extremos, tipo não bater é dar todos os mimos e todas as liberdades, sem estabelecer limites (e notem que eu não estou falando de extremos: não estou falando de espancar as crianças, mas de dar palmadinhas mesmo. Suponho que a maior parte dos pais não espanca os filhos!). É, nesses casos eu acho programas como Supernanny muito educativos pros pais... Sobre isso de ter prazer batendo, aí eu já não sei, fica sádico... Imagino que os pais adotem essa postura de “dói mais em mim do que em você”, e até se arrependam depois. Não consigo imaginar que pais sintam prazer em infligir dor aos filhos. Confio que os pais, mesmo os que batem, realmente amam os filhos. Só são limitados na forma de educá-los...

lola aronovich disse...

Concordo plenamente, Mônica! Exemplo é tudo sim. Acho hipócrita cobrar dos filhos um comportamento que os pais não têm, nem se importam em ter.


Carla, legal o seu exemplo com as suas cunhadas... Quer dizer, criança birrenta é um atraso de vida mesmo. Eu me pergunto se toda criança é birrenta, se eu já fui assim, de fazer escândalo no meio de um supermercado... E, realmente, ninguém está dizendo que é fácil educar uma criança. Mas ir pelo caminho mais fácil e mais popular, que é bater, é coisa de quem se recusa a refletir e procurar outras alternativas.

Carla Mazaro disse...

Acho que não é uma questão de prazer, mas de extravasar a raiva... porque por mais que se ame alguem é impossivel que não se tenha raiva uma hora ou outra

Natália disse...

lembro q a inglaterra estava discutindo banir o tapa em crianças tb. não me lembro o q saiu.

Anônimo disse...

Acho que a lei é importante sim!
Assim como foi a do cinto de segurança ou a lei seca.
Na época parecia impossível de funcionar, mais as leis levantaram questões e hoje são totalmente aceitas pela sociedade.
A lei pode não fazer com que os pais parem de bater nos seus filhos hoje, mas com certeza está levantando essa questão, então é totalmente válida.
Quem sabe muitos pais que não tinham tanta informação vão pensar sobre isso e eles podem começar a procurar outras maneiras de educar seus filhos que não seja a "famosa", e espero que um dia infame, palmada educativa.
Conversa, respeito, carinho e atenção são as melhores formas de educação!
Rosângela

aiaiai disse...

fora do assunto mas achei importante e tem tudo a ver com o que sempre discutimos:
Frei Betto fala sobre violencia contra a mulher no brasil
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?boletim=1&lang=PT&cod=49491

Juliana disse...

lola e pessoal, não sei o que está melhor, o post ou a conversa gerada a partir dele.

olhem, a coincidência: acabode chegar de um dia inteirinho passeando com meu primo de 4 anos e leio esse post da lola.

enquanto estava com meu primo, fui me dando conta da trabalheira que é lidar uma criança,mas que tb é muito fácil fazer com que eles te entendam. A gente tá acostumado a tratar criança como se elas não fossem pessoas, indivíduos. A gente já fala assim generalizando, no coletivo: Crianças.

Meu primo é muito bem-educado, obediente e nunca apanhou. Meus tios têm o hábito de conversar com ele. Não é que funciona? Explicar as coisas pro filho, estabelecer regras coerentes, ter paciência quando a criança fica fazendo pirraça me parecem atitudes possíveis.
Vejo minha tia "arrancar os cabelos" de vez em quando, mas como ela mesma diz ter um filho foi a escolha dela e é ela que tem educar direito.
O que vejo tb com amigos meus é o mesmo que alguém já comentou aqui: pais que não dão um pingo de limite pra criança e tb não oferecem nenhum exemplo. é um absurdo exigir de um filho aquilo que vc não pode fazer. A criança não pode bater no coleguinha da escola e leva um tapa pra aprender que não pode bater? pra mim, isso não faz sentido.

Eu me convenço cada vez mais que as pessoas têm filho por muitos motivos e nem sempre é só pra amar.

Pra variar, lola, um tema muito bom!!

Ah, sobre experiências de infância, me lembro de que a unica vez em que apanhei foi por um motivo injusto. eu disse a verdade, mas minha mãe não acreditou. Lembro que fiquei com muita raiva da injustiça.

quanto à lei, acho que é muito boa. claro que não sera possível regular e fiscalizar todas as mães e pais,mas , pelo menos, há uma ferramenta de proteção às crianças.

Geovana disse...

Olá Lola, recentemente me formei no curso de direito, e enquanto era estudante fazia pesquisa cientifica na area de direito da criança e do adolescente e esse assunto da proibição das agressões fisicas educatitivas é um assunto tão dificil de se lidar quanto o fato de que criança não deve trabalhar. Dentro do discurso conservador a palmada e o trabalho são ótimas formas de educação e são institutos usados sem limites alguns pelos pais. Sou a primogenita da minha família, tenho duas irmãs,e aliando a pesquisa a minha própria experiência, acredito sim que as palmadas não são a solução. Meus pais foram educados a maneira conservadora e com o tempo foram aprendendo que não precisavam das palmadas para educar seus filhos, nesse processo eu acabei levando algumas. Lembro-me até hoje a sensação que eu tinha quando apanhava, o meu medo não era da dor que as palmadas provocavam, que sempre foram moderadas e nunca surras, e sim do profundo sentido de insatisfação que meus pais transmitiam naquele momento. Eu tinha medo de desagrada-los e não das palmadas. Quando fui crescendo comecei a me insurgir contra certas decisões dos meus pais e isso foi provocando as conversas e as coisas foram mudando, minhas irmãs podem se orgulhar de não terem levado um quarto das palmadas que levei e também da rigorosidade excessiva que os pais demonstram com os primogenitos. Por tudo isso sou totalmente a favor dessa lei, porque como tudo no campo do direito da criança e do adolescente, primeiro foi preciso construir o marco legal para depois fomentar as mudanças culturais e isso já é um grande passo. Falando especificamente do Presidente Lula tenho orgulho de ver que esse presidente rescusitou diversos assuntos que estavam sepultados, e todos esse ligados aos direitos humanos.

Fernanda disse...

Lola, uma pergunta sem maldade implícita: você convive com crianças com frequência?

Ághata disse...

"Espancamento e mutilação é algo condenável sim, mas é igualmente perigoso esperar que a criança crie caráter e educação só na conversa."

...
Gente, é sério, olha o absurdo. Dá pra responder algo sério pra um comentário desses?

Muito legal o depoimento da garotacocacola.

Em tempo, não me lembro de numa criança que apresentasse problemas - do tipo, agressividade, autor de bullying -na escola que não recebesse "palmadinhas educativas" - olha só que nome bonitinho pra algo tão covarde - da mamãe ou do papai.

lola aronovich disse...

Gente, estou amando essa discussão e os depoimentos de vcs! Vou escrever um outro post sobre o assunto, se me permitem. É que ainda tenho mais pitaquinhos pra dar acerca de um assunto que não me afeta diretmente...


Fernanda, não vi maldade alguma na sua pergunta. Não, não convivo com crianças. Não tenho filhos, nem sobrinhos, nem priminhos, e hoje em dia só dou aula na educação superior. Aliás, convivi pouquíssimo com crianças na minha vida. Dei poucas aulas de inglês pra crianças. Lembro do meu estágio em Pedagogia, dando aula pra crianças na 1a, 2a, 3a e 4a série (a 3a série foi a que mais gostei; tenho até saudades dos aluninhos!). Ano passado, pro estágio em Letras (curso de graduação a distância que eu estava fazendo, e larguei quando passei no concurso), dei algumas aulas pra alunos de 5a série, e foi uma experiência muito legal. Eu sempre me dei bem com crianças e adolescentes, talvez por tratá-los de igual pra igual. Minha maior convivência com crianças na vida foi durante o mestrado, quando eu ficava na casa de uma amiga maravilhosa que tinha um filho. Aprendi mais com aquele menininho que com todo o curso de pedagogia! Meu coração sempre vai guardar um lugar praquele fofo, que já nem é mais tão pequeno.

Diego Hatake disse...

Lola, eu não defendi mutilação de criança. Há uma boa diferença entre espancar e palmada, castigo.
Na verdade acho que não me expressei de um jeito muito claro, e acho que na verdade não vai adiantar muito já que a sua posição é clara. Mas é pra isso que blog, na minha opinião existe, pra dialogar. Já dei minha posição, e a mantenho.

**Dre** disse...

Amei! Obrigada!

Sempre tenho em mente essa questao...
se um adulto chegar em outro adulto e bater nele (ainda que seja para “corrigi-lo” ou “educá-lo”, ou só crianças precisam ser educadas e corrigidas no nosso mundo?)

Sem mais!

Eduardo Braga disse...

Minha mãe era neurótica, me batia até quando eu sofria um acidente e ficava machucado! A partir disto, sempre quando me ralava ou me feria nas brincadeiras passava a esconder o ocorrido e me tratar com methiolate escondido! Saia mais vandajoso para mim do que ir reclamar com minha mãe que me machuquei! Apanhava de sandália quando fazia travessuras ou "mal-criação" (e como eu era respondão!!!). Bem, não fiquei traumatizado! Mas sempre achei as reações exageradas da mamãe! Como não tenho paciência com crianças e não pretendo ser pai, sobrinhos já me bastam, não sei como reagiria com "birras" de filhos! Bater acho que não, talvez colocar de castigo! O maior risco seria gritar com a criança que também acho contraproducente!

Umrae disse...

Tem autor de bullying que nunca apanhou sim (mas normalmente são aqueles que não tem limites em casa, os pais se sentem culpados em dizer não e tal), já conheci. Até porque bullying não é só violência física também. Para aprender a inventar apelidos degradantes para os colegas, espalhar boatos e tal a criança não precisa necessariamente de exemplos de violência física.
Mas é claro que apanhar só aumenta as chances.

Eduardo Braga disse...

Pra completar, quando meu sobrinho, hoje com oito anos, começa de frescura para comer nas horas das refeições, só de assistir a cena o sangue começa a ferver e me dá vontade de jogá-lo pela janela junto com meu irmão (o pai), então concluo que é melhor eu não ser pai mesmo! Não tenho perfil para a "profissão" de pai. Não tenho paciência em tomar conta de crianças... Me basta brincar com meu sobrinho algumas horinhas sem compromisso de educá-lo!

Ághata disse...

Ah, com certeza, Umrae. Há muitos casos de bullying em que não há agressão física (vide o cyber bullying), então, o autor nem 'agressivo' é.
Mas os casos que acompanhei eram de crianças violentas - com colegas e professores - e entre estes, não achei nenhum que não apanhasse em casa.
Claro que o grupo que os acompanhava não falava em "palmada educativa", mas em "violência doméstica contra crianças".

Anônimo disse...

Bom, tb quero dar meu depoimento anonimamente, tudo bem né Lola? =)

Eu apanhei qdo criança sim, levava tapa na cara da minha mãe em público, beliscões disfarçados em público(pra ng perceber q eu estava sofrendo um castigo físico), tapa na bunda(e ficava ardendo dps, inclusive), etc...uma coisa q ela me falava era "se contar a verdade vc não apanha!!" mas falava isso já num estado alterado, eu lembro que a expressão no rosto dela era algo bizarro, tipo, akele ser NÃO era minha mãe, não podia ser.

E dps de bater ela berrava pra eu sair de perto e chorava, chorava, e dps vinha me pedir desculpas, chorávamos abraçadas, ela dizia q me amava e tal. Só que com o passar dos anos eu comecei a não aceitar mais as desculpas e falei algo do tipo "ah ta, vc fala isso agora, mas da próxima vez vai ser a mesma coisa, não kero mais saber de vc!" E com isso diminuiu...mas só parou mesmo, no dia em que sem querer eu derrubei meu aparelho ortodôntico na privada, e qdo contei pra ela, morrendo de medo(ja sabia q apanharia), na hora q ela levantou a mão eu ja saí correndo e chorando, mas eu dei 3 passos só, e voltei e falei, bem humilde: "vai, pode bater." e fiquei parada esperando(afinal,na minha cabeça, eu merecia apanhar). Ela me olhou com uma cara MUITO perplexa e não me bateu nunca mais.

Hoje em dia meio q já perdoei, mas nunca vou eskecer do medo, da dor(mais psicológica do ke física) e da mágoa =(

Meu pai só me bateu uma vez(e doeu bem), e pede desculpas até hoje.

elaine disse...

por que no brasil nunca podemos prestar atencao em outros assuntos alem do 'problema de educacao' e a 'pobreza'? que coisa, tantos aspectos para se melhorar. cuidando de um nao significa se esquecer dos outros.

Umrae disse...

"por que no Brasil nunca podemos prestar atencao em outros assuntos alem do 'problema de educacao' e a 'pobreza'?"
Acho que é porque a maioria não aguenta encarar um problema quando sabe que tem parte da responsabilidade por ele. Com esses dois, ninguém acha que tem culpa, e acha que é obrigação "só do governo" resolver.
Em um problema como punição física das crianças, o "cidadão comum" é diretamente responsabilizado e cobrado.

L. Archilla disse...

Verdade, Umrae e Elaine... e tem mais: "precisamos investir mais em educação" é um clichê que sempre funciona, já que ninguém vai falar: "não, não precisamos!". O fato é que essas pessoas não se perguntam COMO fazer esse investimento. É melhorando os salários dessa área? Contratando mais professores? Melhorando a formação dos professores? Instituindo cotas? Pondo dois professores em cada sala, que nem o Serra propunha há um tempo? Quer dizer, resolver o problema todo mundo quer... discutir como são outros 500...

Sorry, fugi totalmente do assunto, mas não resisti.

Anônimo disse...

Levei muita surra quando criança, tanto tapas como chineladas. Tanto meus pais como meu irmão, 14 anos mais velho, me batiam. As mais violentas eram as do meu irmão. Hoje sequer consigo olhar pra cara dele (não por isso, mas porque ele é um fracassado mesmo).

Lembro-me que quando criança, eu era agressiva. Lembro-me de quando batia em uma amiguinha quando eu era contrariada. Eu tinha de 05 a 06 anos de idade.

Eu sei que eu não aprendi a abraçar a minha mãe. Hoje, com 26 anos de idade, não tenho tanta proximidade com ela. Não sei se é por isso, mas creio que seja um forte fator, pois lembro-me de que após a surra, ela me pegava no colo e me afagava. Talvez seja algo inconsciente, sei lá.

Mas também, não importa, isso já passou. Tenho boa relação com meus pais, apesar de não tão próxima quanto a que a sociedade impõe. Mas cada um é cada um, não é mesmo?

Eu não sei se dar porrada nos filhos ajuda a educá-los, só sei que eu batia na minha amiguinha e hoje sinto-me um pouco triste por isso. Não só, mas eu era agressiva tbm, gritava com ela. Hoje, não sou agressiva e procuro evitar confusão com qualquer pessoa. Não que seja trauma, mas é porque não tenho saco pra ficar discutindo.

E é isso. Bater só prejudica as relações pai-filho, irmã-irmão, criança-criança. Nos mais extremos, a criança não aprende a se relacionar de forma saudável. Passei muito tempo da minha vida calada e tímida, com medo de me expôr, medo do que as pessoas iam pensar de mim, sofrendo humilhações na escola (uma porque não sabia expô-las a meus pais, outra porque se as expunha nada acontecia).

Fui criada em um ambiente de desleixo e um pouco violento, em que ninguém sabia escutar ninguém. Somente quando deixei esse ambiente pude formar-me como um ser humano decente e finalmente definir a minha personalidade, antes condenada.

Não tenho raiva dos meus pais. Não tenho raiva do meu irmão. Mas eu sei muito bem o que aquelas atitudes causaram. E as consequências não são nada legais.

Cangaceiro disse...

A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota.

Jean-Paul Sartre

elaine disse...

culpar o governo e nao assumir a responsabilidade, bem dito, acho que por ai mesmo.

elaine disse...

e sim, na hora de regacar as mangas ficamos com preguica!

Fabi disse...

Tantos relatos horríveis nos comentários de gente claramente traumatizada (não 'tá em discussão o nível do trauma) com as violências de que foi vítima bastam pra ilustrar o argumento do post.

Muito bem articulado, muito eloquente.

lola aronovich disse...

Também acho fascinantes todos esses relatos, Fabi. E o mais incrível é que nenhum deles descreve uma situação de grande violência doméstica. São as tradicionais “palmadinhas educativas / pedagógicas”, mesmo. E olha só quanta tristeza elas produzem... O que me parece bem perigoso do ponto de vista de trauma é isso que as leitoras falaram de mãe bater, e em seguida abraçar. Sorry, parece um comportamento meio doentio pra mim. Abraça e não bate, ué! Desse jeito, parece muito com chantagem emocional. Não sei, só sei que não passa uma mensagem boa.
Escrevi um outro post sobre o assunto, usando alguns desses relatos, e, ahn, alguns comentários que selecionei de leitores do Estadão sobre o projeto de lei. Acho que dá uma comparação muito interessante...

Má disse...

Oi Lola, nossa, muito bom os comentários. Quantas histórias, que embora confinadas no âmbito da família, privada ao público, acabam se tornando uma história coletiva e semelhante em tantas pessoas né...

Pensando hoje, recordando a minha pré-adolescência, lembrei que minhas amigas que apanharam, que tinham aqueles pais que eram rigidos demais, proibindo várias coisas (sem discussão sobre o assunto)eram as que mais saíam escondido de casa, que "aprontavam" coisas que os pais reprovavam escondidas etc..
Eu, a que não apanhei (que teve pais que foram hippies etc..), mas que tinha pais que eram muito rigorosos no que é justo, no que é certo e errado, com mil discussões,mas com muita liberdade, era a que mais acabou sendo certinha demais (no bom sentido hehe) p aprontar coisas escondidas....Sempre era um peso enorme pensar " mas o q minha mãe vai achar do que estou fazendo?"....
rsrsrs , não sei se tem a ver o não apanhar, mas a discussão que era feita em casa tinha um peso muito maior na hora de escolher os atos talvez...


Essa discussão me fez lembrar disso tudo...

Beijo Lola.

Flavio Moreira disse...

Oi, Lola.
Vou me arriscar a discordar só um pouco do seu excelente argumento e, de certa forma, repetir um pouco o que ocorreu em alguns comentários, só para mostrar que nem sempre a chamada "palmada educativa" é condenável.
Sou totalmente contra espancamento de crianças (ou de pessoa de qualquer idade, qualquer que seja o motivo), contra a humilhação, principalmente em público - já senti muita vergonha alheia por pais que humilharam seus filhos na rua - e toda e qualquer violência contra outro ser humano.
Isso posto, gostaria de dizer que eu apanhei de minha mãe quando era criança. Eu aprontei bastante. Não sou filho único, mas fui o único dos cinco que minha mãe pôde criar: todos os outros foram retirados dela pelo marido (sou filho da segunda união dela). Cresci sob a tutela de minha mãe e de minha avó, já que meu pai nos abandonou quando eu tinha dois anos. Tive, das duas, o mais incondicional e imenso amor que alguém pode receber. Mas minha mãe era egoísta comigo. Queria que eu ficasse sempre com ela. Ela trabalhava fora. Precisava se virar insanamente para poder sustentar a casa, minha avó e a mim. Trabalhava como telefonista e, por lei, tinha turno de 6 horas de trabalho. Por isso, chegava em casa sempre lá pelas 2 ou 3 da tarde. Detestava me ver na rua e normalmente era onde eu estava, porque eu gostava de brincar, como toda criança. Eu entendia os limites que minha mãe queria impor, mas não podia controlar o desejo de brincar com os amiguinhos da vizinhança depois da escola. E, às vezes, eu aprontava, feio. Aí eu apanhava. De cinto, de chinelo ou até de vara (tenho duas histórias de surra de vara memoráveis, mas conto depois). Mas eu sabia porque apanhava. Minha mãe nunca me deixou sem explicação para as punições que eu sofria. Eu nunca levantei a voz para minha mãe quando criança - só depois de adulto, quando eu ainda morava com ela. Na rua era conhecido como "o filho que todo mundo queria ter". Sim, eu era um "filhinho da mamãe", mas não era mimado. Ao contrário: um dos mantras de minha mãe era "a vida não é um mar de rosas". Comecei a trabalhar aos quinze porque precisava ajudar nas despesas de casa e no custeio de minha própria educação. Eu era uma criança preguiçosa para estudar - cheguei a apanhar de caderno certa vez por não ter copiado os deveres da escola.
Não me tornei um psicopata, não me tornei um assassino, não virei um monstro. Minha liberdade era controlada, eu tinha severas restrições de horário e até de amizades. Mas não me tornei um revoltado. Eu compreendia minha mãe. E a respeitava, apesar das minhas "doidices" de criança. Sou a favor da surra? Não. Como disse antes, sou contra violência. Mas acho que, às vezes, uma palmada quando a conversa não surtiu efeito pode ajudar a reestabelecer os limites. E a conversa a partir da palmada pode ser mais eficaz. É uma fórmula? Não. Não existe fórmula para isso. Não há um "manual do usuário" para pais e filhos. Conheço histórias de pessoas criadas em famílias equilibradas, inteligentes e carinhosas que se tornaram egoístas, violentas e mesquinhas - alguns até se voltaram para a criminalidade. Então, Lola, como determinar o limite? O limite talvez esteja na própria compreensão e educação (no sentido de formação, mas não só intelectual) dos pais. Se eles não estão emocionalmente amadurecidos, não têm inteligência (não confundir com cultura) para perceber as dificuldades que é educar e contornar essas dificuldades com sagacidade, como fazer?
Enfim, meu depoimento é só para dizer que nem sempre a palmada gera seres brutalizados e brutalizantes. O espancamento, a humilhação, a desmedida, essas, sim, são extremamente perniciosas. E são mais facilmente visíveis. E devem ser denunciadas, sim.
Um grande abraço.

diego disse...

Bom, gostaria de compartilhar minha experiência com vcs ja que alguns colegas compartilharam as suas, eu tenho 26 anos e desde muito cedo sempre apanhei do meu pai, as vezes era de cinta, borracha de mangueira e o que ele achava pela frente, não esqueço uma vez em que por uma bobeira de criança que eu falei ele me jogou na cama e começou a me dar tapas na cara com muita força, e o pior é que minha mãe sempre presenciava os fatos e aceitava dizendo que eu tinha que ficar calado. Hoje em dia colho os frutos do que me fizeram na infância pois por causa dos maus tratos sempre tive complexo de inferioridade, depressão, vivia izolado das pessoas e evitava pessoas mais velhas, não consegui terminar o 2° grau na escola pois tive problemas de aprendizado e fiquei até os 24 anos tentando terminar o estudo até que desisti, sou uma pessoa bipolar e desde os 15 anos tento me suicidar, os poucos amigos que consegui fazer na minha vida perceberam que eu era problematico e a maioria se afastou de min, atualmente tenho 4 carteiras de trabalho pois nunca parei em emprego algum tendo passado por mais de 20 empregos sempre tendo algum problema neles pois eu nunca soube conviver socialmente com as pessoas sempre eu sendo o centro dos problemas, agora a pouco que completei 26 anos é que começei a refletir sobre minha vida e descobri que a horigem dos meus problemas e fracassos está na minha infãncia, nos maus tratos que sofri hoje posso dizer que minha vida está desgraçada em todos os sentidos pois não tenho a menor condição psicologica de formar uma familia, tenho problemas para estudar e sou bipolar e costumo entrar em crizes tanto de depressão como de formigamento e ardência no meu corpo todo principalmente nas mãos. o pior é que contei tudo isso ao meu pai e a resposta dele é que eu sou maluco e que ele não tem culpa de nada que aconteçe comigo pois ele é um servo de ´´deus`` (ele é da igreja, sempre foi da igreja) atualmente não vejo outra opção senão curtir a vida, me divertir e quando eu estiver la pra casa dos 30,35 anos vou me suicidar pois eu sou diferente das outras pessoas e é dificil pra min conseguir conviver com esses problemas, imagina quando eu estiver velho e não tiver a ninguem a não ser a min mesmo, não quero ficar sozinho e continuar sofrendo.

lola aronovich disse...

Que horror, Diego! Olha, minha solidariedade a vc. Mas, por favor, não desista da sua vida desse jeito. Acho que tudo tem solução. Procure ajuda, vá ao psicólogo, ou psiquiatra. Vc pode ser ajudado.
Alguns dias seus pais vão se arrepender dos erros que cometeram, e vão reconhecer. Mas, por enquanto, pare de pensar neles. Pense em vc. Abraço e tudo de bom!

Carol disse...

Diego, vc tbm tem minha solidariedade e gostaria de dizer que não existe problema que não possa pelo menos melhorar. Há centenas de alternativas de coisas que vc pode fazer, ajuda que vc pode buscar. Como a Lola disse, procure um psicólogo, psiquiatra, terapia, até mesmo auxílio espiritual - o que servir pra vc, não importa, contanto que funcione no quesito de te fazer sentir melhor. Não desista da vida. Mesmo com problemas, há muita coisa bonita pra se ver, fazer e sentir aqui. Faça arte, música, escreva, transforme suas dores em algo. Faça um bolo, leia livros, aprenda algo, crie algo. As suas alternativas não estão esgotadas, o mundo é imenso, e quando a gente se sente sem saída, está enganado. Pense nisso, tá?

Menina disse...

Diego, coisas horríveis nos acontecem. Por coisas que aconteceram ao longo da minha vida, como já contei aqui.
Eu sofri abuso quando tinha 12 anos. Apanhei dos meus pais sim, mas nem lembro disso, perto das outras coisas da minha vida.
Quando tinha 17 fui estuprada, machucada.
Fiquei grávida, passei por uma aborto. Passei um tempão fazendo exames pra DST e AIDS, por causa de janela imunológica.
Eu era magrinha. Engordei 30kg. Sofri bullying no trabalho por causa disso. Pessoas regulando o que eu comia a ponto de eu comer escondida no banheiro.
As vezes, acordo com vontade de morrer. Não quero me levantar da cama.
Mas eu ainda tenho vontade de viver, na maior parte do tempo.
Muitas pessoas passaram por coisas ruins. Quando já sabemos qual é o problema, fica mais fácil correr atrás para solucionar.
Tenha força.

Barbie Furtado disse...

Ai, gente, vou discordar completamente aqui! Não quero ser reacionária, e MUITO MENOS a favor a violência infantil. Acredite, já passei por muita coisa na minha vida, muita mesmo, a maiora das pessoas nem imagina, e tenho ódio de violência contra criança e adolescente, ódio. Mas sou a favor da palmada. PALMADA!

Não tou falando nenhuma outra forma de punição física, nem cinturão, nem chinela, nem nenhuma outra coisa. Só palmada mesmo, a boa e velha mão na bunda, que, na verdade, só adianta até uma certa idade. Mas eu vejo por experiência própria mesmo.

Eu levei palmada. Eu era uma criança danada, e, de vez em quando minha mãe me batia. Eu realmente não lembro se doia, mas eu sei de uma coisa: adiantava. Eu ficava bem boazinha, e a danação não se repetia. Ela nunca me espancou, nunca me machucou de verdade, mas deixou bem claro que não, aquilo não se faz. E pronto. Por outro lado, minha tia, sempre foi bem pedagógica. Nunca esqueço, meu primo com 8 meses de idade, jogando comida da mesa, e ela, "Mas meu filho, a gente já conversou sobre isso." Respeito a ideia. Mas não acho que seja a melhor forma de lidar com isso não.

Meu irmão também levou umas palmadas (menos que eu, ele era bem mais quieto). Mas o mais interessante de isso tudo, é que a gente vai exatamente contra o que diz esse post. Eu sou uma das pessoas mais pacíficas que eu conheço. Eu não brigo nunca, praticamente nunca tenho raiva. Não brigo nem com meus irmãos. Meu irmão, também não é nada violento. A gente fica chocado quando outros irmãos falam como brigam, porque a gente mal discute, temos mais "arguments", nos quais defendemos pontos de vistas diferentes, com argumentos válidos e fundamentados. Enquanto isso, os filhos da minha tia, a pedagógica, rolam no chão, puxando os cabelos uns dos outros, quase se matando, gritam.

Ah, eu também não sou burra. Parece arrogância, mas sempre tive a inteligência acima da média. Sempre me dei muito bem na escola (melhor do que qualquer criança sem palmada da minha família), entrei em três faculdades (não gostei, troquei, fico experimentando (quem sabe, um dia, Lola, eu seja tua aluna, se não largar a Letras na UFC antes de ter a chance). Mas, não, não sou burra. Inclusive, na época que levava palmadas, queria me pular de turma na escola porque eu sabia ler e escrever com 4 anos, mas minha mãe não deixou porque eu era muito nova.

Quando eu era pequena, tá, eu reagia violentamente, mas só quando me intimidavam, mas não porque eu não sabia reagir de outra forma, mas porque eu aprendi quando eu era criança que se um bully vinha te intimidar porque você era pequena e magrinha, se você tacasse umas porradas nele no meio do parquinho, não só ele como mais ninguém ia implicar contigo.

O que eu quero dizer é, hoje eu tenho 23 anos, e as palmadas que eu levei não me danificaram, não me deixaram burra, não me traumatizaram, não me deixaram violenta. Elas me ensinaram que se eu corresse de uma vez no batente da casa do meu avô eu podia cair e me machucar, e outras coisas que, tenho certeza, foram imporantes em algum momento.

Acho que deve ter uma lei contra bater em crianças como forma de educação? ACHO!!! Claro!!! Porque tem doido aí pra tudo. E alguém tem que proteger as crianças. Agora, acho que palmada emburrece, que não ajuda a educar, que é adestramendo, como alguém falou nos comentários? Não, acho que tem seus métodos também.

Palmadas não é espancamento. Tem uma GRANDE diferença entre abuso infantil e cinco dedos na bunda, muitas vezes por cima da roupa. Às vezes, é o choque, e não a dor. Eu não planejo usar palmada como "forma principal" de educar meus filhos, até, porque quando digo que levei palmada, não foi todo dia, toda hora. Mas que, se precisar, não me incomodo de recorrer à boa e velha palmada não!

Barbie Furtado disse...

Diego, o melhor que você pode fazer por você é procurar um psicólogo E um psiquiatra. Eu tenho transtorno Bipolar (e, veja só, minhas palmadas nem causaram isso!) e, desde que comecei a tomar estabilizador do humor a minha qualidade de vida melhorou MUITO. Sério mesmo. A minha psiquiatra falou que ninguém sabe extamente o que causa Bipolaridade, mas que geralmente é "ativada" por componentes genéticos, tipo de personalidade, e trauma. Por isso também é importante o acompanhamento psicológico, para ao mesmo tempo que você toma remédios pra acalmar a situação, tenta lidar com a bagunça interna.

Acho que a terapia te ajudaria bastante a não se isolar tanto e interagir mais com outras pessoas.

Boa sorte :)

Dayane Ok. disse...

É verdade Diego, por mais que tenham sido dolorosas as vezes que você apanhou do seu pai ( e creio que foram), seu transtornmo bipolar, problemas de auto-estima podem não estar ligados diretamente com isso. Eu tenho TOC e depressão, só melhorei de verdade após procurar ajuda psiquiátrica.

D. disse...

Eu moro na Suécia. O que me chamou atenção quando vim morar aqui foi o modo como as crianças são tratadas e como elas são levadas a sério. Nunca vi pais sequer gritando com os filhos publicamente, assim como NUNCA vi nenhuma criança fazendo pirraça. As crianças são calmíssimas e independentes. Elas são incluídas na vida social dos pais desde recém-nascidas, a gente vê crianças por todos os lados, em todos os tipos de atividade. Elas participam do mundo de forma democrática. Sabe aquele “cresce e aparece”? Então, não existe aqui. O resultado é esse, uma sociedade organizada, mais justa e com baixíssimos índices de violência...porque as pessoas se apegam à violência ainda diante dessas evidências? O texto explica tudo: elas apanharam tanto que ficaram burras e não conseguem raciocinas diante de fatos concretos, é tanta burrice que não conseguem enxergar as evidências! Eu apanhei e sofri vários tipos de humilhações apenas para reproduzir isso com minha irmã mais nova, coisa da qual me arrependo e que me entristece profundamente. Disso resultou um relacionamento distanciado. Tenho certeza absoluta que vários dos meus maiores problemas se originaram pela forma injusta, humilhante pela qual fui tratada.

D. disse...

Agora que li todos os depoimentos aqui no post, assim como a definição da lei que o Patrick postou, me lembrei que a questão para mim não era a dor. Minha mãe me bateu mais do que meu pai, mas aquilo do qual eu tenho mais mágoa dela não foram as chineladas nem as lambadas com vara, mas sua omissão e aceitação da forma como meu pai me tratava, que era a mesma pela qual ele a tratava, afinal. Eu amo profundamente minha mãe e compreendo hoje que ela também foi uma vítima daquela situação, e nossa relação melhorou quando eu saí do país há seis anos (e ela finalmente se livrou do traste do meu pai) porque fomos obrigadas a conversar frequentemente pela internet se quisessemos manter contato. Olha só, desenvolver o hábito da conversa, mesmo depois de adulta, foi o que me aproximou da minha mãe. Como é que não poderia ser diferente com uma criança?
Agora, pelo meu pai não sinto amor. Meu pai me bateu algumas poucas vezes, algumas deixaram marcas visíveis, mas eu dizia às minhas coleguinhas (que se gabavam de que seus pais nunca haviam lhes encostado um dedo) que preferia que meu pai me desse uma surra bem violenta, desde que permanecesse calado. Meu pai NUNCA conversou comigo, minha mãe também não, eles nunca me educaram no sentido de instilar valores morais. A atitude de meu pai sempre foi de desprezo e de demonstrar o quanto eu não importava, e de dizer coisas horríveis para me “educar”, como por exemplo, gritar que eu tinha que ir “dar o rabo na esquina”, enquanto me forçava a olhar para a cara dele enquanto dizia isso, para “aprender o valor das coisas”. O motivo? Uma discussão boba que eu tive com minha irmã aos 16 anos. E foram muitas outras humilhações, e eu acho que ele tinha prazer nisso, sim, porque ele demonstrava todo o seu orgulho em fazer isso em público, para mostrar aos outros o quanto ele mandava dentro de casa.

cabanadeinverno disse...

Ah, por favor, todo e qualquer tipo de argumento que leve a um "mas nem dói" ou "é pra educar", se esquecem que se trata de agressão deliberada num sujeito que não têm resistência, força, nem maneira de se defender.

É, acima de tudo, agressão sem sentido.

Dar desculpas idiotas do tipo "Mas nem dói tanto" é o mesmo que dizer "Eu sei que fiz merda, mas nem tão merda, né?"

Caroline Cardoso disse...

Lola,
excelente reflexão!

Todos os seus argumentos em favor da não violência contra a criança, cometida pelos próprios pais e licenciada socialmente - a tal da palmada -, são ótimos, mas o melhor e mais convincente, ao meu ver, é o de que adultos NÃO podem/devem bater em adultos, logo NÃO podem/devem bater em crianças.

A criança, por muito tempo, foi um ser ignorado no seio familiar. Ela vivia em total anonimato. Essa ideia de que criança "não é gente, logo não tem direitos" vigorou até um pouco depois da Idade Média.

Depois disso, a criança passa a ser vista apenas como um ser inocente, pueril e, portanto, objeto de diversão dos adultos - boba da corte.

Séculos depois, acho que no XVIII-XIX, a criança passa a ser vista como um miniadulto, que servia aos interesses do Estado - mão de obra e exército, por exemplo.

Podemos perceber que a ascensão da criança a "ser humano" é histórica e social e é uma concepção que foi sendo construída junto com a noção de família e de escola. Mas, em boa parte do período histórico, a criança era objeto do adulto!

Com a sociedade que temos hoje, é inconcebível tratar a criança como boba da corte, miniadulto ou 'ser sem direitos'. Ela é um ser humano e precisa ser respeitada como tal. Os adultos não podem continuar imputando penas a elas com base no único argumento de que têm direitos individuais e, como pais, podem fazer o que bem entender com o ser "frágil, inocente, porém que precisa ser disciplinado!", até ferir os direitos delas!

Autoridade NUNCA deve ser confundida com autoritarismo. Muitos usam o argumento de que "apanharam tanto na infância e nem por isso viraram o que não presta ou rebeldes sem causa", que algumas pessoas acabam por ser convencidas de que isso é verdade. Também tem gente que critica duramente o ECA e isso virou até senso comum. GENTE! O ECA é superimportante. Uma evolução em termos de direitos. O problema é que ele não é cumprido nem pelos agentes públicos! Se fosse, as crianças e os adolescentes estariam no céu.

Outro problema em relação ao ECA é que ele deve ser apoiado pela implantação de políticas públicas - educação, lazer, trabalho, segurança, saúde, moradia - para crianças e jovens e suas famílias. O dia em que nossa sociedade acordar pras questões sociais, entender que isso é o mais importante a ser feito, e que isso não significa CARIDADE, mas respeito aos direitos básicos, aí a coisa fluirá.

Os tempos são outros. A sociedade é outra. Vamos combinar: ninguém precisa 'sair na porrada' hoje em dia pra resolver nada. Só sai quem quer. Hoje todo mundo (ou pelo menos boa parte das pessoas) têm acesso à informação e sabe que a violência é um erro. A violência nunca deve ser vista como solução pra nada. Inclusive a violência verbal. Temos, nós, adultos, de nos educar para lidar uns com os outros. Nós, adultos, é que estragamos as crianças com nossa arrogância de que sabemos tudo, temos direito a tudo e decidimos tudo.

Um livro bacana pra entender a história da infância é 'História social da infância e da família', do Phillipe Àries.

MathGeometry disse...

Bem um tópico interessante que na realidade despertou depoimentos de pessoas reais que levaram palmadas e dizem o que sentem a respeito! A gente lembra de bem poucas coisas mas quase nunca esquecemos das "palmadas" que levamos principalmentes as sem motivos ou motivos que podessem ser compreendidos na época!

MathGeometry disse...

By the way crianças podem ler!

Barbie Furtado disse...

cabanadeinverno, uma PALMADA não é necessariamente uma "agressão sem sentido". Acho que muita gente aqui está, como se diz em inglês, "blowing it out of proportion", ou... pera... tá na ponta da língua... lembrei, fazendo a famosa tempestade num copo d'água. Eu fico vendo aqui os comentários como se palmada fosse espancamento, porrada, surra de cinturão.

Não acho que palmada deva ser o método primário de educação. Acho que conversa, castigo, e muitas outros artifícios podem ter o seu papel. Mas também não acho nada demais. Eu cresci numa casa cheia de amor, muitas gargalhadas, brincadeiras, e, diferentemente do que a Caroline Cardoso falou, eu sempre tive meu lugar na família, desde pequena. Sempre fui ouvida, minhas argumentações, minha dúvidas, meus desejos, sempre tiveram espaço. Eu sempre tive VOZ.

Agora, se uma vez ou outra, eu levei palmada, o que tem de mais? Eu sou realmente a única pessoa que não vê isso como problema? Não odeio minha mãe, não acho que ela me ama menos, não acho que isso faz dela uma pessoa violenta, sem argumentação, sem intelgência (pelo contrário, ela é genial).

Eu realmente, não entendo...

McTusk disse...

Eu não concordo com sua opinião. Principalmente quando você diz que não apanhou e não se tornou uma psicopata por isso. Provavelmente vc era um docinho, não uma diabinha que sai gritando e fazendo bagunça. Se fosse assim, e não tivesse sido corrigida, ai talvez se tornasse uma psicopata. Apesar de também ser ateu, discordo quando você relacionou religiosidade com punição física.

Inara Brito disse...

Fico emocionada quando alguém escreve algo tão bonito assim. Concordo com você e muito! Sou mãe e já tive a experiência de bater na minha filha e me arrependo muito, pois, não consegui educar e ainda a mantive longe de mim, pois ela tinha medo. Parei e me perguntei: - É isso que eu quero que minha filha sinta por mim? Medo? A partir daí consegui novos métodos (que funcionam de verdade) e não preciso partir para agressão. Acho que muitas pessoas que são a favor disso não têm filhos e não sabe o que é passar por isso de verdade. Muito fácil falar, também nunca apanhei e nunca fui uma revoltada e mimada. Digo NÃO a violência!

Anônimo disse...

Isso é um absurdo o que proclamam aqui,claro que é necessário dar umas palmadas sempre para corrigir,se você educa bem talvez não precise deste artifício,mas tem crianças que só faltam cagar na cara dos pais,isso porque os pais são tremendos imbecis que deixam a gurizada fazer o que quiser.Eu mesma apanhava da minha mãe de vez em quando,mas em compensação cresci e continuo bem educada,jogo meu lixo no lixo,sou honesta(embora essa sociedade seja uma puta vergonha que dá revolta agir corretamente),trabalho,pago minhas contas,respeito o próximo,enfim.Espancar realmente acho um absurdo,mas uma palmada ou outra não mata.Quando vejo uma criança fazendo birra em supermercados,filas de atendimento,etc,que começa a se espernear ou se jogar no chão ,como não posso fazer o papel da mãe,dá uma vontade enorme de diferir um belo tapão de mão cheia na cara,não da criança,mas da mãe ou pai(filhos da puta que cedem demais às suas horrorosas criancinhas,pois acham que ter filho é uma maravilha,lindo superlotar o mundo de mais e mais gente e que as pessoas tem que entender que seu filhinho faz birrinha porque é uma criança,portanto devem tolerar os choros irritantes e as manhas delas.Ainda não sou mãe,acho importante dar amor e carinho,mas eu prefiro dar a um cachorro,pois sei que sempre será reciproco.