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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

MS., A REVISTA FEMINISTA QUE FEZ HISTÓRIA

O staff original da Ms. em uma de suas primeiras reuniões

Como eu já disse diversas vezes -– nunca para me vangloriar; apenas porque é minha experiência de vida -–, eu me considero feminista desde os oito anos. Uma das minhas influências, além das ideias dos meus pais, que acreditavam plenamente que mulheres e homens deveriam ter direitos iguais, foi a revista americana Ms. (pronuncia-se miz), que entrava em casa em meados dos anos 70. Meu inglês estava longe de ser fluente na ocasião, mas eu compreendia a mensagem geral e adorava as fotos e desenhos. Minha seção favorita? Uma que denunciava o machismo na mídia.
A Ms. foi a primeira revista feminista já feita, e completa agora quarenta anos de vida. Ela segue firme até hoje, mas sem a mesma força, pois atualmente várias outras publicações (e não apenas as voltadas para o público feminino) e sites e blogs protestam contra a discriminação, reivindicam direitos, e promovem o empoderamento (palavrinha horrível, mal traduzida do inglês empowerment, mas é a que temos) das mulheres.
E a Ms. foi também uma pioneira em ter uma redação inteiramente feminina, a primeira revista criada, mantida, e operada por mulheres, segundo a reportagem da New York Magazine. Nos anos que antecederam a Ms., as mulheres não podiam ter um cartão de crédito ou abrir uma conta bancária sem a autorização de um homem. Não havia delegacias das mulheres, nem abrigos para fugir de maridos violentos. Aliás, não havia nem termos como assédio sexual e violência doméstica. E se você não tem nem vocábulo pro problema, não vai poder referir-se a ele -- a um problema que obviamente já existia.
Em 1970, cerca de cem mulheres invadiram o escritório de uma tradicional revista feminina, a Ladies' Home Journal, e ocuparam o lugar (dirigido por homens) por onze dias. Naquele tempo, simplesmente não havia espaço para outros “assuntos femininos” que não fossem moda, culinária, maquiagem, cabelo, ser mãe -– basicamente o que várias revistas pra mulheres e suplementos femininos de jornais continuam mostrando ainda hoje. Essa ocupação simbólica foi fundamental para mostrar a força da mobilização das feministas.
O principal nome por trás da Ms. sempre foi o de Gloria Steinem, um dos ícones do feminismo. Em 1963, contrariando o preconceito infundado que feministas são bigodudas peludas, Steinem era suficientemente linda (dentro do padrão) para se disfarçar de coelhinha da Playboy, invadir a mansão de Hugh Hefner, e escrever sobre o que passou (leia aqui, em inglês). Era um tipo de feminismo de guerrilha que alguns viam com desdém. Gloria certamente sofreu preconceito por ser bonita. Por outro lado, ela também recebia mais destaque da mídia que outras feministas por causa de sua aparência.
Os títulos sugeridos para a revista foram “Toda Mulher”, “Irmãs”, “Fêmea”, “Lugar de Mulher”, “O Primeiro Sexo”, “A Maioria”, e “Lilith” (a primeira mulher de Adão; ao contrário de Eva, ela não veio da costela do macho, e recusou-se a ser subserviente a ele). Escolheram Ms. Ainda hoje, quem opta por essa forma de tratamento praticamente se declara feminista. Nos EUA, em 2008, lembro de ter preenchido formulários que perguntavam como eu queria ser chamada, Miss, Mrs, ou Ms. Pra quem não sabe, as mulheres que adotam Ms. não têm seu status matrimonial definido de cara –- ninguém precisa saber se você é Miss (senhorita, solteira), ou Mrs (senhora, casada). Afinal, não existem formas diferenciadas pra se dizer senhor, Mr. Por que importa saber se uma mulher é solteira ou casada?
Quando a revista foi lançada no início dos anos 70, um jornalista vaticinou: “Dou-lhes seis meses até que elas fiquem sem assunto”. Mas a Ms. foi um sucesso de vendas. O primeiro número, que trazia 53 nomes de mulheres que declararam ter feito aborto, se esgotou já na costa leste, antes de chegar a Califórnia. A maior dificuldade, porém, era conseguir anunciantes num mundo em que os chefes das empresas eram homens (e continuam sendo -– no Brasil, apenas 3% das quinhentas maiores empresas são chefiadas por mulheres). Por exemplo, as responsáveis pela Ms. iam a Detroit falar com os fabricantes de automóveis, e eles respondiam, “Ah, mulher não compra carro”. Elas mostravam pesquisas indicando que sim, compravam, mas eles ainda assim se recusavam a anunciar.
Outra dificuldade (muito menor) era que as feministas mais radicais não gostaram da Ms. Elas eram contra a maternidade e o casamento, e prefeririam uma revista com essa cara. Não era isso que Steinem queria. Desnecessário dizer que, comparada a outras publicações, não havia nada mais radical que a Ms. Mas uma feminista radical dizia que a revista promovia uma ideia sentimental de “irmandade” que escondia os conflitos políticos entre as mulheres, e que a Ms. não recrutava acadêmicas ou ativistas. A revista afirmava que as convidava, mas as radicais não aceitavam. O fato é que havia gente que considerava a revista uma inimiga do movimento feminista! (Algumas feministas liberais, ou seja, não-radicais, como Betty Friedan, autora-ícone da Mística Feminina, também odiavam Steinem).
Uma coisa é certa como água: toda vez que houver alguma feminista que tenha divulgação e uma certa popularidade, haverá feministas desqualificando aquela feminista e dizendo que ela representa um desserviço ao feminismo. Não falha nunca.
A Ms. também foi criticada por falar muito pouco de lesbianismo (apesar que já no primeiro número havia um artigo perguntando “Mulheres podem amar outras mulheres?”). Assim como outras feministas que queriam distanciar-se das lésbicas (preocupando-se que os detratores acham que feminista e lésbica são sinônimos), a Ms. repetiu o erro. Mas toda vez que perguntavam pra Steinem se ela era lésbica, ela respondia “Ainda não”. É uma excelente resposta. Vou adotar! Só que, pensando bem, poucos perguntam pra feministas se elas são lésbicas. Só dizem que são, e acabou.
Goste-se ou não da Ms. (e eu gostava, e muito!), não se pode negar: ela foi marcante.

P.S.: Essa capa com a Bette Midler que coloquei mais em cima deve ser a que mais me lembro de toda a minha vida. Mas a Ms. teve inúmeras capas
que ficaram na memória. Esta mais recente comemorando a eleição do Obama é uma delas.

sábado, 28 de maio de 2011

MEU BLOG É UM SUCESSO E EU NÃO SOU UMA CANIBAL

A Suzana, muito querida, me enviou um printscreen (eu também sei fazer! Evoluí muito do começo do blog, em janeiro de 2008, pra cá. No início eu, ahn, literalmente tirava fotos da tela do computador, até que o Pedrinho, leitor que se auto-intitulava "meu melhor fã" antes de me abandonar, disse: "Por favor, diga pra mim que você não tirou uma foto da tela do computador". O quê?! Vai dizer que você nunca fez isso?) de um jornal carioca que publicou uma notinha sobre meu blog. É do Destak que, segundo a Suzana, é um “jornal ultra popular e megalido aqui no Rio -– tiragem de 100 mil exemplares que se esgota antes da 9h de toda manhã”. Legal, né? Infelizmente, isso não resultou em aumento de visitas pro blog, mas pelo menos o jornal não publicou nenhuma informação errada (tirando a que o blog tem espaço pra comentários, porque, se depender da vontade do Blogger ultimamente, não tem não. Mas não desistam, leitor@s querid@s! Voltou ao normal no meio da semana?).
Havia potencial pra ser muito pior. Vi um exemplo desse potencial num blog ou site ou tumblr (até agora não sei o que é, e não sei a diferença entre essas três categorias) que me faz chorar de rir. É a capa do Tails (Caudas, daquelas que se mexem, não as de colocar em cima da comida, porque aí seria com L). Não sei quem é Rachael Ray, mas ela foi capa desta revista sobre animais de estimação. A pessoa que fez a matéria achou que vírgula é uma futilidade, e escreveu: “Rachael Ray finds inspiration in cooking her family and her dog”. Com as vírgulas seria (porcamente traduzido): “Rachael Ray encontra inspiração em cozinhar, sua família, e seu cachorro”. Sem as vírgulas a pobre Rachael é uma canibal e o cão na capa é apenas uma breve lembrança.
Até que eu saí no lucro.

segunda-feira, 28 de março de 2011

FEMINISTAS MENTEM OU LIVRO MENTE SOBRE FEMINISMO?

Semana passada duas leitoras, a Camila e a Mariana, me pediram pra explicar um livro que acabou de ser lançado, Mulher sem Culpa, de uma tal de Carrie Lukas. Na realidade, a pergunta que as duas me fizeram foi “Que p#$/%!a é essa?!”. Porque, né, olha só a descrição do livro que está em todos os meios de divulgação:

O feminismo prometeu às mulheres que elas poderiam ter tudo: uma carreira maravilhosa, igualdade de condições com os homens, prazer e liberdade sexual sem compromisso. Disse a nós que os homens não eram assim tão necessários, e que a ideia de ser mãe e dona de casa era para as fracassadas profissionalmente. Porém, o que se observa é que a mulher está sobrecarregada, angustiada e confusa com seus desejos legítimos, que muitas vezes contrariam a "modernidade" da condição feminina atual. Neste livro (politicamente incorreto), a autora corrige as mentiras e os equívocos que as mulheres têm ouvido das alas feministas mais radicais, e finalmente dá um sopro de alívio para que a mulher possa fazer suas escolhas sem culpa, e ser feliz com elas na sociedade moderna.

Se alguém ler o troço, me avise, que não tenho vontade nenhuma. Esse discursinho eu conheço, sinceramente, desde que era adolescente. Até anotei num dos meus diários da época (devia ter 13 ou 14 anos) a reclamação de uma professora que eu gostava muito, mas que achava que eu tinha fixação (palavras dela) pelo feminismo. O que ela me disse não foi nada incomum: que as mulheres ganharam bastante com o feminismo, mas também perderam muito, pois ela, por exemplo, depois de trabalhar o dia inteiro, ainda tinha que chegar em casa e fazer a limpeza do lar (e imagino que ela tinha o privilégio de classe de ter empregada). E já naqueles tempos (anos 80) eu respondia: Mas a culpa dessa injustiça é de quem? Do feminismo ou do machismo que continua imperando na sociedade?
De lá pra cá, li e ouvi dezenas de vezes a mesma história (e inclusive já escrevi sobre isso). Geralmente é uma lamúria vinda das mulheres (de classe média, óbvio, pois mulher pobre sempre trabalhou). Elas dizem que bom mesmo era quando a gente não tinha tantas conquistas e podia ficar em casa cuidando dos filhos. E claro que tá cheio de homem que adora acreditar nisso. Sempre houve livros contra as feministas. Esse é um discurso reciclado que rende muito dinheiro. Uma americana conservadora, Phyllis Schlafly, fez toda uma carreira em cima de malhar o feminismo. Engraçado ver mulheres que pregam que o melhor pra humanidade é a mulherada cuidar da prole trabalhar tanto! Mas se é por uma boa causa, parece que pode.
Bom, gente, existe um livro enorme e muito interessante de ler chamado A Mística Feminina, da Betty Friedan. É um clássico feminista publicado em 63 (que pode ser lido grátis, em pdf, aqui). E o que Friedan fez foi conversar com centenas de mulheres americanas dos anos 50 e ver se, num dos períodos mais conservadores da história (em que o número de matrículas de mulheres nas escolas e faculdades caiu pela primeira vez em um século, porque era vendida a ideia que educação era só um hobby que a mulher fazia antes de arranjar marido e constituir família), perguntar se elas eram felizes. Sua conclusão, bastante alarmante, é que não, não eram, que faltava alguma coisa em suas vidas, que só aquele ambiente doméstico e restrito não era suficiente. Então, pra começar, esse conceito de que a mulher vivia num paraíso cai por água. Pra quem não acredita num amplo estudo como o da Friedan, e prefere se basear em testemunhos de gente que conhece, recomendo conversar com suas avós. Vejam a visão que elas têm do prazer e do sexo, por exemplo. É uma geração inteira que mal conheceu o orgasmo, e eu tenho um pouco de dificuldade em imaginar como alguém pode ser feliz sem algo tão importante como o prazer sexual.
Mas, voltando ao livro de Carrie Lukas, perceba como a descrição já coloca no mesmo balaio “mentiras” do feminismo como carreira maravilhosa, igualdade, prazer sexual, inutilidade do homem, e o fracasso da dona de casa. Bom, sei lá, eu sou mulher e feminista e nunca considerei os homens desnecessários. O que o feminismo diz é que não há apenas um modelo de felicidade (casar e ter filhos), e que mulheres (e homens) devem ter liberdade para escolherem o que querem. Nunca vi uma feminista dizer que ser dona de casa é pra quem fracassa profissionalmente (aliás, em boa parte dos casos, donas de casa nunca tiveram uma carreira fora de casa, então como é esse fracasso de quem nunca tentou?). O que o feminismo diz é que é importante ser independente, e isso inclui o lado financeiro. Quem é independente não precisa suportar abusos, ué. Alguma mentira nisso?
Tem outra: muitos estudos indicam que uma sociedade em que a mulher trabalha e ganha tão bem quanto o homem automaticamente diminui a miséria dessa mesma sociedade. É pá-pum, automático mesmo, porque quando se eleva a condição de vida de uma mulher, eleva-se, por tabela, também a de seus filhos. É muito prejudicial prum país ter metade de sua população ganhando menos. Sabe-se que as mulheres no mundo têm apenas 10% da renda dos homens e só 1% de toda a propriedade. Ou seja, é um fato: as pessoas mais pobres do mundo são mesmo mulheres (por isso causa estranheza que autores falem das conquistas femininas como se já tivessem acontecido). Se as mulheres melhorarem de vida, a pobreza diminui. Não há nenhum mistério nesse cálculo.
Mas há ainda uma outra explicação para que tantas mulheres de classe média tenham que trabalhar. Até uma época, o “chefe de família” ganhava bem o suficiente para sustentar toda a casa. Com o achatamento de salários dos anos 80 (anos de governos reaças como o de Ronald Reagan e Margaret Thatcher), com a destruição de sindicatos, com o fim de vários auxílios estatais, a situação mudou. Para uma família de classe média manter seu padrão de classe média, só com dois adultos trabalhando. Fica a pergunta: isso foi culpa do feminismo ou de governos conservadores extremamente anti-feministas?
É adorável como a descrição do livro fala em “desejos legítimos” da mulher. Tipo, querer ser independente e ter condições iguais aos homens não é legítimo!
Daí o livro é definido como politicamente incorreto. Não precisava nem dizer. Politicamente incorreto virou sinônimo de “Senta que vamos voltar no tempo e defender as práticas mais fascistóides possíveis”. Quando ler que um livro/filme/peça/show/humor/autor/whatever é politicamente incorreto, prepare-se para ouvir opiniões machistas, racistas e homofóbicas, seguidas por um revisionismo histórico que coloque o homem branco hétero como o verdadeiro discriminado através dos tempos. Não falha.
Que mulheres possam fazer suas escolhas sem culpa é exatamente o que defende o feminismo. O livro de Carrie parece defender que mulheres tenham a única escolha de voltar pra casa pra fazer o trabalho doméstico. Escolha que nunca foi tirada pelo feminismo. E aí, quem está mentindo?
Finalmente, o livro quer ser um sopro de alívio para as mulheres angustiadas e sobrecarregadas. Sei. O livro quer é faturar uns trocados à custa de muitas mulheres que procuram um culpado por continuarem sobrecarregadas, ou infelizes por não alcançarem um padrão de beleza inatingível. Quando uma mulher precisa encontrar tempo para se matar numa academia de ginástica pra cumprir sua cota de sacrifício por ser mulher, ela vai culpar quem? Todo um modelo que lhe diz diariamente que ela é feia por não se enquadrar num padrão de juventude e magreza, ou o feminismo? Quando uma mulher chega em casa à noite depois de trabalhar duro e tem de limpar a casa e cuidar dos filhos, ela vai culpar quem? Uma estrutura que permite que o marido desabe no sofá vendo joguinho de futebol de terceira divisão sem ter que mexer uma palha nos afazeres domésticos, ou o feminismo? Ah, muito mais fácil culpar essa abstração chamada “ala mais radical do movimento feminista”. Seja lá o que for isso.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

REVISTA PROMETE ENSINAR COMO AGARRAR MILIONÁRIO MAS NÃO CUMPRE

Como falávamos de príncipes encantados no mundinho Disney, uma leitora fez uma conexão relevante entre o que os contos de fada ensinam às meninas (seja passiva e pura que seu príncipe ― sempre rico ― vai aparecer) e o que as revistas femininas ensinam às mulheres (aí depende da revista. A Nova fala pra atacar seu chefe ou o noivo da melhor amiga. Outras ainda insistem na passividade. O recado é o mesmo: sem um pênis pra chamar de seu, amiga, você não é nada). Saiu uma matéria numa revista de finanças pra mulheres, a Elas & Lucros, que rendeu polêmica no Twitter, pelo que li. Ahn, polêmica no Twitter tem sobre qualquer coisinha, até sobre palavrão que o presidente fala, então não sei se é um bom parâmetro.
Há quem considere machista o próprio propósito de uma revista de finanças só pra mulheres ― por que nós mulheres não leríamos revistas de finaas pessoais em geral? Bom, eu não vejo machismo na ideia de uma revista de finanças pra mulheres. Primeiro porque seria achar que as revistas de finanças em geral são escritas pensando em homens e mulheres, o que não é verdade. O público-alvo é masculino; a enorme maioria de seus colunistas é homem. E mulheres realmente têm uma realidade econômica diferente da dos homens. Gastamos incomparavelmente mais em “manutenção física”, digamos. É um dos mandamentos da sociedade que mulher precisa se cuidar, e se cuidar custa caro (quanto mais caro, melhor. Imagina comprar um creminho de 8 reais, se tem um de 50? Obviamente aquele de 50 é melhor e vai impedir que a gente envelheça. Talvez até impeça a morte!). Mulheres também ganham menos que homens. E, enquanto existem milhões de mulheres que criam sozinhas os filhos (inclusive sem receber pensão do pai das crianças), são raros os casos de pais que criam sozinhos os filhos. E, quando homens têm filhos, suas carreiras não param. Pra mulher não é assim. Nós que engravidamos e damos à luz. Isso afeta as nossas finanças pessoais, assim como toda a nossa vida. Muito mais que a dos homens. Portanto, acho bom que haja publicações pro público feminino.
Porém, a capa da Elas & Lucros, que é tudo que o pessoal que está falando viu, é realmente péssima: uma loira com olhar de sonsa se apoia num homem sem rosto. E o título da matéria já diz tudo: “Como agarrar um milionário”.
Um blog citou a capa e deu pro seu post o título de “Feminismo Fail”. Ué, como assim, no quê o feminismo fracassou neste caso? Quem é feminista nessa história? A capa, a revista, a matéria, ou, hum, nenhuma das anteriores? Uma blogueira que fala de finanças pessoais comprou e leu a revista e disse que, pelo título, esperava o pior. Que não veio. Mas ainda assim não gostou do que leu. O blog da revista sabiamente resolveu disponibilizar a matéria online (eu não consegui abrir, tá tudo em código. Pedi pra que me enviassem o artigo por email e fui prontamente atendida), e lamentou a polêmica, dizendo tratar-se de ironia. Bom, a capa não tem nada de irônica. Mas a foto que abre a matéria de capa, tem. É esta aqui: Por que ela pode ser vista como irônica (e isso dependerá da leitura de cada um)? Porque usa a imagem de um filme pra lá de antigo, Os Homens Preferem as Loiras, de 1953, sugerindo que a ideia de fisgar seu homem é meio século passado. E até a cara da Jane Russell, cínica, e a da Marylin, entre surpresa e burrinha, indica algo não muito sério. Mas só a foto não serve para fazer o título da matéria, e muito menos a matéria em si, irônicos.
A matéria abre assim: “Quem não quer ser um milionário ou, melhor ainda, bilionário? O caminho para a riqueza, entretanto, não está aberto a todos. Principalmente às mulheres. Apesar do avanço feminino no mundo dos negócios e no mercado de trabalho, a fortuna construída pelas próprias mãos ainda é coisa rara entre nós. Dos 25 maiores bilionários do mundo da lista dos megaricos de 2009, publicada pela revista Forbes, só três são mulheres. Todas herdaram suas fortunas – duas nasceram em berço de ouro e uma casou–se bem, muito bem” [Duas são herdeiras da Wal-Mart, outra da L'Oreal]. Até aí, nada de errado, a meu ver. Apontar que o clube dos bilionários é um clube do Bolinha é mostrar a realidade. Das 20 mulheres mais ricas do mundo, apenas uma (uma espanhola) conquistou sua fortuna com trabalho. As outras tiveram a sorte de nascer em berço de ouro ou casarem-se com um cara rico. Lógico que a revista não problematiza essa realidade, mas essa é uma característica comum de publicações sobre finanças: não há críticas ao capitalismo. Elas partem da premissa que, se você está lendo sobre dinheiro, é porque você gosta da coisa. E, se você gosta da coisa, é porque deve estar vestindo uma camiseta do tipo “I [coraçãozinho] capitalismo”. Sei muito bem que euzinha aqui, que se preocupa com a aposentadoria e gosta de guardar dinheiro, mas ainda assim não considera o capitalismo ou a concentração de riqueza o melhor dos mundos, não sou uma leitora-padrão. Você jamais verá numa publicação de finanças uma defesa ao aumento de impostos pros ricos ou, deus proíba, não engasgue, um limite para a riqueza. Logo, a Elas & Lucros vai mencionar que é bastante improvável uma mulher se tornar bilionária, mas não vai dizer que o sistema fede por causa disso.
E mesmo que você, mulher, tenha ambições mais modestas, você ainda vai sair atrás (quem mandou nascer com uma vagina?). A matéria explica que, “em 2004, a média dos ganhos da mulher aposentada nos Estados Unidos era de 12 mil dólares contra 21 mil dólares dos homens”. 12 mil dólares?! É, falta um pouquinho pra chegar ao prometido bilhão. Nessas horas até um milhãozinho já tá de bom tamanho.
A matéria também entrevista um guru das finanças, um tal de Richard Paul Evans, que diz: “São tempos difíceis. Hoje a maior parte das pessoas não espera por um iate; elas estão rezando por um salva-vidas. Principalmente as mulheres”. Até porque as meninas são condicionadas a esperar por um príncipe (leia-se salva-vidas), ao mesmo tempo que aprendem que competir é coisa feia, e que iate é brinquedo de menino. Mas isso a matéria não diz. Richard cita uma fala de Marilyn Monroe em Os Homens Preferem as Loiras: “Você não sabe que um homem ser rico é como uma mulher ser bonita?”. Sim, a gente sabe. É triste, mas a fala de Marilyn continua atual, quase seis décadas depois. A sociedade ainda espera que a mulher seja bonita acima de tudo, bem acima de qualquer realização. E que o homem faça coisas que lhe resultarão em riqueza. Mas, novamente, não será uma revista que vai morder o sistema que a alimenta.
A matéria segue dizendo: “Ken Fisher reconhece que, hoje em dia, casar-se por dinheiro é abominável. Ele lembra, com uma ponta de ironia, que 'casar-se bem é arquetípico na literatura e na mitologia – o casamento da linda camponesa com o príncipe encantado'. O encanto do príncipe, além da figura garbosa, era seu rico patrimônio, claro: castelo, terras, jóias e pratarias. E as mentes românticas nunca viram conflito moral nestas estórias”. No parágrafo seguinte Ken diz que, como estratégia para felicidade, casar-se por dinheiro é legítimo. E menciona uma pesquisa de 2007 do Wall Street Journal, na qual dois terços das mulheres e metade dos homens responderam estar dispostos a se casar por dinheiro. Tadinhos dos homens. Se soubessem que existem tão poucas bilionárias no mundo, se satisfariam em casar-se apenas pela beleza da mulher.
A reportagem então aponta que uma mulher não precisa casar com um endinheirado pra enricar, e termina falando de uma bilionária, já morta, que fez sozinha sua fortuna com cosméticos, após largar uma empresa que preferiu promover um subordinado seu do que ela: “A rainha dos cosméticos, como era chamada, norteou sua vida e seus negócios pelas sábias palavras que ouvia da mãe, ainda criança, quando enfrentava situações novas: 'Você pode Mary Kay, você pode.' Você também”.
Yes we can, é isso? Pra mim, a matéria não é machista. É apenas confusa, sem rumo, sem foco, e com um título e uma capa absolutamente nada-a-ver. Imagine que você é uma garota influenciada pelos contos de fada. Sonha com seu príncipe, que está demorando pra aparecer, e vê uma revista que promete “como agarrar um milionário”. Você a compra correndo, pensando em adquirir dicas práticas de como fisgar seu personal?! É propaganda enganosa, né? Alguém me explica por que uma matéria com esse título precisa incluir um quadro de “como acumular um milhão de reais”. Não era que iam me ensinar a acumular um milionário, não um milhão? Pra quê eu vou querer um milhão de reais, a menos que eu seja um homem? E infelizmente há falhas até no quadro. O economista entrevistado que nos fala como atingir o primeiro milhão ainda usa cálculos de rentabilidade de 10% a 15% para a Renda Fixa, que foi a média anual nos últimos dez anos no Brasil. Pode apostar que não será a média da próxima década, que está mais pra 7% ou 8%, sem descontar a inflação. Portanto, depender dessas previsões pra fazer seu pé de meia é embarcar numa canoa furada. Claro que a Elas & Lucros não é a única a usar esses números. Todas usam (eu mesma, quando calculo rentabilidade, sempre penso no numerinho mágico dos 10% ao ano), porque é chato falar pra pessoa que, com juros de 5%, e guardando 10% do salário ao ano, talvez aquele sonhado milhão não chegue nunca. Melhor agarrar um milionário mesmo.

terça-feira, 2 de junho de 2009

PHOTOSHOP MANCHA A IMAGEM DO BRASIL

Recentemente o popular site Photoshop Disasters, que se dedica a apontar erros grotescos em retoques de fotos, dedicou dois posts pro nosso país. Primeiro este, por terem photoshopado os mamilos dos seios da Josi do BBB (quem?). Engraçado que o PD manda um recado pros editores: “Vocês trabalham no mercado de peitos. Se tirarem alguma coisa, alguém pode notar”. E este post, por... não sei por quê. Mas é meio assustador pra uma mãe ter uma Chucky nas suas costas. Algum comentarista do site imaginou a aflição: “Tira ela de mim! Tira ela de mim!”.E tem a capa da Veja, da qual a PD ainda não falou, mas é um caso sério: A revista de maior circulação do país aprontou uma capa com um grau de veracidade que combina com as notícias que fabrica: a mulher-alface. Se não bastasse a humilhação de estar vestida com uma folha de alface, a pobre modelo tem uma perna dobrada do mesmo tamanho da perna reta, e a grossura das coxas também varia. Mas gente, essas pernas simplesmente não têm como vir do mesmo quadril. A Greta já tirou sarro dessa “quebradinha de quadril”, vulgo fratura exposta.
Ah, emagrecer deve ser uma delícia mesmo! Acho que se eu fizesse como a revista e tivesse pernas removíveis, perderia uns trinta quilos na hora de guardá-las.
(E sou só eu que não consigo visualizar as palavras emagrecer, delícia e alface na mesma frase? Quando eu olho pra foto ao lado, me vem um slogan no ato: "Alface. Só os coelhos são felizes". Se eu soubesse photoshopar, transformaria a foto numa plantação de cacau).

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

“A SOCIEDADE É A ÚLTIMA A SE BENEFICIAR DO JORNALISMO”

O título deste guest post é a opinião da Marjorie, que além de ter um ótimo blog, é jornalista numa grande empresa de notícias.

Quando entrei na empresa jornalística em que trabalho, quase me fizeram fazer voto de silêncio! Já na entrevista de emprego, foram logo me perguntando se eu tinha blog, se ia falar da empresa nele... Não larguei meu blog (nem largaria, ora!) mas evito escrever especificamente sobre a XXX pra não me demitirem (isso também daria um post sobre as censuras que a gente tem de enfrentar no dia a dia).
Mas tem muita coisa que a gente vê lá que é regra, que acontece em todas as redações. Essa de negligenciar as pautas de lugares "pequenos" é um costume. "Quem se importa com esse fim de mundo?", é o que se ouve. O sofrimento de uma família rica tem de ser preservado, já o da pobre pode ser escancarado. O caso Eloá é um bom exemplo: no começo do ano, sequestraram o filho do Maurício de Sousa e ninguém publicou uma palavra (sob ordens da polícia), para não prejudicar as investigações. Só noticiaram quando o menino foi solto. Agora, um sequestro na periferia é noticiado na hora e com destaque, falam com o sequestrador, não tão nem aí... E uma coisa que todo mundo aprende no primeiro ano da faculdade (qualquer faculdade!) é que não se noticia suicídio, sequestro (a não ser que a polícia julgue que isso vai ajudar), nem se revela nome de vítima de estupro. Mas parece que tudo o que a gente vê na faculdade não acontece no mundo real.
Outro costume é considerar pessoas como meros números. Quando morrem dois soldados americanos no Iraque, é notícia. Quando morrem 20 civis iraquianos (ou iranianos, indianos, cambojanos, etc etc), o pessoal fala "ah, acho que não vale noticiar isso... É pouco. Vamos esperar morrerem mais". Sim, desse jeito. O triste é que sempre morrem mais mesmo. Eles podem dizer que é uma questão de padrão, que nesses países sempre morre muita gente todo dia, mas você vê que as vítimas desses países não são tratadas de forma tão humanizada quanto as outras. Um soldado americano morto tem nome e sobrenome, idade, às vezes até nome da mãe e do pai. Iraquianos são apenas números.
O critério editorial aqui é: "essa notícia tem impacto no mercado financeiro? Se não, não precisa". Quando tava tendo genocídio no Zimbábue, o chefe daqui veio e disse: "vocês está dando notícia demais sobre o Zimbábue. Nossos clientes estão reclamando. Eles não investem lá". Então, eu não me iludo. Trabalho porque preciso, mas se pudesse não colaboraria com esse sistema. Tenho consciência de que, além do mercado, quem mais se beneficia do meu trabalho é o dono da empresa em que trabalho, que lucrou 17 bilhões de dólares no ano passado (enquanto os funcionários se acham super classe alta por ganhar 2 mil reais). A sociedade é a última a se beneficiar do jornalismo.
Acho que essa é a grande decepção de todo estudante - que a sociedade não se beneficia do jornalismo. Todo calouro de jornalismo diz que escolheu a profissão por sua função social. Quando a gente começa a trabalhar, vê que a função do jornalismo é manter o status quo. Ninguém na redação está pensando no leitor ao escrever ou bolar pautas. Quando trabalhava em revista, que é muito dependente de anunciante, as pautas eram pensadas de acordo com o tipo de anunciante que podiam trazer. Quando se faz uma matéria com um ranking sobre as melhores escolas de SP, o objetivo não é ajudar o leitor a dar uma boa formação pro filho, mas ver quantos daqueles colégios vão querer anunciar na revista. Pode reparar. Os anúncios sempre "combinam" com as matérias que tem nas revistas. Enfim, o jornalista escreve pensando em muita gente, antes de pensar na sociedade. Está pensando no chefe, no anunciante, no investidor... O público é o último da cadeia. Aliás, tem um blog muito legal sobre como os jornalistas agem em relação aos leitores.
Outro mito: que jornalistas são modernos, descolados, cabeça aberta... Nunca ouvi tantas declarações preconceituosas e conservadoras quanto nas redações. Mais um mito: jornalista tem de ser criativo. Tem nada. Toda criatividade é tolhida. Os editores se irritam com qualquer idéia fora do padrão "o que aconteceu, onde e com quem", o chamado lide. Por isso os textos no jornal são todos iguais, não têm alma...
Por essas e outras, estou considerando mudar de profissão. Vou terminar a faculdade porque já está acabando, mas não pretendo ser jornalista pro resto da vida. Fora que as condições de trabalho são péssimas. Jornalista ganha MUITO mal (o salário "piso" da Folha de S. Paulo é 1200 reais e a jornada não é nem full time, é full life!), tem de passar por vários perrengues (que se eu fosse citar, o comentário ficaria enorme), e vive sob pressão. Desse jeito, fica difícil produzir matérias de qualidade mesmo...

Leia outros guest posts: Cavaca explica como são as gorjetas em Portugal e narra alguns "causos", Cris diz como escapou da morte quando foi anoréxica, Patricia ri da cara das dietas, Vitor fala como foi ser garçom num hotel de celebridades no Havaí, Tina aponta o desrespeito, e Taia conta sua história de horror. Se quiser participar, este é um blog democrático, aberto a outras experiências.