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segunda-feira, 23 de agosto de 2021

FAZ MEIO SÉCULO QUE VIM PARA O BRASIL

Esqueci! Deixei passar essa data tão importante: em julho, completei cinquenta anos de Brasil!

No dia 7 de julho de 1971, minha mãe, eu, com 4 anos de idade, meu irmão e minha irmã, com menos de 2 anos e apenas 4 meses, respectivamente, saímos de Buenos Aires e desembarcamos no Rio. Claro que não lembro nada disso! Estou me baseando apenas em documentos, que nem são muitos. 

A carteira de trabalho do meu pai de 1972 diz que ele chegou ao Brasil duas semanas antes da gente, em 24 de junho de 1971. Trabalhou como gerente de marketing da Companhia Carioca Industrial, no Rio, entre outubro de 1972 e maio de 1973, quando ganhava 8.500 cruzeiros mensais. Eu lembro disso por causa dessa foto: eu me equilibrando em latas de produtos da fábrica.

Em seguida ele foi empregado como "auxiliar administração extra quadro" no Banco Lar Brasileiro, que era o Chase Manhattan, entre dezembro de 1973 e maio de 1976, com salário de 6.500 cruzeiros. Não sei se o salário dele diminuiu comparado à Carioca Industrial, ou se teve alguma troca de moeda. Eu lembro que ele falava que odiava aquele emprego, que envolvia relações públicas, coquetéis, happy hours

Foi por detestar o emprego, pelo que eu entendi (mas quanto da vida adulta uma criança realmente sabe?), que meu pai largou o banco. Não tinha quase nada de dinheiro guardado, minha mãe não trabalhava fora, e ele imaginava que encontraria um outro emprego rapidamente. Não foi o que aconteceu. Levou meses, e nesse tempo não tínhamos como pagar aluguel, logo fomos despejados e passamos uns meses com a minha tia, e, depois, moramos de favor num prédio abandonado de três andares, com varanda para um enorme depósito de lixo (com direito a piolhos, besouros e batatas voadoras o tempo todo). 

Havia uma lojinha no térreo do prédio que vendia bugigangas, o 1,99 da época. Eu lembro porque eu economizei qualquer mesada que recebi e comprei presente de Natal pro meu irmão e minha irmã: um mini-telefone verde e uma Moniquinha, ambos de plástico. Foi a época mais pobre da nossa vida. E ainda assim, não chegamos a passar fome. Alguém (amigos dos meus pais, nunca soube quem) emprestou um prédio abandonado caindo aos pedaços pra gente viver lá.

Eu pensava que nossa era de vacas magras no prédio abandonado tinha durado mais, pelo menos até o início de 1977, mas não. A carteira de trabalho mostra que meu pai conseguiu seu melhor emprego no Brasil em 20 de dezembro de 1976. Portanto, foi pouco tempo de miséria: do final de maio até o final de dezembro de 1976. E em sete meses perdemos tudo! Tivemos que largar a escola, não conseguíamos pagar o aluguel... 

O ótimo emprego que meu pai tinha conseguido foi em São Paulo, e minha mãe não queria sair do Rio, mas a gente não queria ficar longe do nosso pai (o tempo que passamos longe durante o impasse foi triste demais). Finalmente nos mudamos, e nossa vida melhorou muito. Agora meu pai era chefe do departamento de pesquisas e serviços de marketing da Denison Propaganda, uma das dez maiores agências do país, na época. Ganhava 30 mil cruzeiros mensais. 

Ficou lá até abril de 1986, pouco depois do dono da agência morrer e os filhos assumirem. Os diretores de cada área saíram e abriram cada um sua própria agência, e convenceram meu pai a sair também e abrir seu instituto de pesquisa, a Tendência 

Olha o que era a inflação: em 1986, seu salário era de 22 milhões quatrocentos mil cruzeiros mensais. Impossível saber quanto isso é hoje! Uma das conversões que vi indica que os 22 milhões seriam referentes a mais de 13 mil reais hoje, mas é quase impossível calcular todas as mudanças de moedas antes do real. Tanto que hoje, pro cálculo de aposentadoria, só entra o emprego que você teve antes de 1994 pra calcular tempo de serviço, mas não valores.

Gestar seu próprio negócio foi difícil, e nosso padrão de vida caiu bastante de novo. Era muito mais seguro ganhar um salário mensal fixo. Meu pai manteve seu instituto, a Tendência, até morrer, em abril de 1993. Eu cheguei a trabalhar lá quase dois anos como (única) secretária, com carteira assinada, em 1988. Usava uma máquina de escrever elétrica. 

Demorei pra me naturalizar, porque é um processo burocrático longo e trabalhoso, e também porque, sendo residente permanente no Brasil, eu tinha quase todos os direitos de uma cidadã brasileira. Certo, teve uma vez, nos anos 90, que eu queria jogar o campeonato feminino de xadrez, e fui impedida por não ser brasileira. Mas o principal motivo pra eu me naturalizar era um só: eu queria poder votar. Finalmente, em janeiro de 1998, quando eu já morava em Joinville, consegui me naturalizar. Lembro vagamente que tive que fazer um teste de português. Passei!

Quase todo mundo fica surpreso ao saber que não sou natural daqui porque não tenho sotaque. Mas também, eu vim pra cá com quatro aninhos, era um pinguinho de gente (e, pelos registros escolares, não foi tão fácil aprender português)! Tenho uma boa pronúncia em espanhol, só que falta vocabulário, conjugação verbal, essas coisas de quem nunca foi alfabetizada na língua materna. E certamente não sei escrever em espanhol! 

Quando vou pra Argentina, vou como turista, e entro com meu RG, não com meu passaporte argentino (que não é renovado faz tempo). Não tenho mais família lá há décadas. Eu me comunico bastante bem naquela capital que me lembra tanto meu amado pai (minha mãe era de Santa Fé, que nunca conheci). Os portenhos dizem que eu falo muito bem espanhol pruma brasileira, e às vezes fico com vergonha de dizer: "Ahn, no fundo eu sou argentina..."

Achei muito simbólico receber o título de cidadã cearense (bom, não recebi ainda, por causa da pandemia, mas algum dia vai haver uma cerimônia na Assembleia Legislativa do Ceará) bem no ano em que completo meio século de Brasil. Adoro este país, apesar de tudo, e tenho fé que conseguiremos reconstruí-lo e encontrar um rumo. Foi o país que meus pais escolheram pra viver, e que eu escolhi também, quando a gente já tem idade pra fazer escolhas. Minha vida é aqui, e não tenho vontade de morar em qualquer lugar que não seja o Nordeste!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

OBRAS PRIMAS DA LOLINHA CRIANÇA

É, faz tempo que fui criança, eu sei. Esse deve ser o poeminha que eu fiz quando era pequenininha de que mais me orgulho. Acho fofo e digno.

“Meu coração é teu.
Não chore e não tente.
Bato azar, tum tum.”

Eu gosto do tum tum, principalmente. Mas também do “não tente”. Não tentar o quê? Sei lá, mas melhor do que a canção sertaneja que ouvi ontem e que dizia algo como “você é a escada da minha subida”. Eu declamei essas linhas pro maridão e ele revirou os olhos.
Esse outro poeminha meu eu também gosto bastante. Não sei se é inspirado demais em Cecília Meirelles, que era minha musa na época.

“Patinhos que nadam no verde do mar.
Patinhos que querem ver o luar.
Que batem o coração tão forte,
coberto com penas tão fracas”.

Tá, é meio óbvio. Se rimasse mais, daria uma ótima canção sertaneja.
Este é bem melhor:

“Deixe de imaginar coisas.
Me dê sua mão,
E esqueça a imaginação.
Voe,
cante
e me ame.
Amanhã,
você vai para a escuridão.

Você canta,
você voa,
mas não me ama.
Você fez uma canção
mas não me deu
a sua mão.
Meu amor,
é porque você gosta
da multidão.”

Ah, pra uma menininha de 7 ou 8 anos, tava mais do que bom.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

CONVERSANDO SOBRE SEXO, EU E A MARTA

Nas aulas que tínhamos de História do Brasil na escola, havia um dia reservado para apresentações dos alunos sobre Atualidades. Cada um tinha que escolher um ou artigo de revista ou jornal e falar sobre ele com a classe. Pelo que me lembro, eu sempre pegava os tópicos polêmicos, que rendiam ótimos (e longos) debates. Acho que tinha uma preferência por falar de sexo, que, naqueles tempos longínquos (primeira metade da década de 80), era um assunto tabu. Era antes da Aids (que só apareceu pra opinião pública em 85, com a morte do Rock Hudson), e antes da educação sexual nas escolas, quando ainda se valorizava demais a virgindade feminina. Quem foi adolescente naquela época deve se lembrar bem do TV Mulher, em especial da Marta Suplicy que, muito antes de virar política, era sexóloga (veja a vinheta do programa, e um trechinho pouco característico). Era algo completamente sem precedentes ver alguém respondendo perguntas sobre sexo na televisão. A repercussão era imensa, e a briga pra censurá-la também. Bom, espero que lendo este meu artiguinho dê pra saber mais sobre o que estava acontecendo em 1983. Eu tinha 16 anos (mais tarde, no mesmo ano, eu e uma amiga escandalizamos a Feira de Ciências, ao tratar de anticoncepcionais). Notem, pelo tamanho do parágrafo introdutório, que sexo era um tema espinhoso. E depois me digam: mudou muito? Mudou alguma coisa? Mudou tudo?

Falarei sobre um assunto que eu acho interessante. Mas, além de interessante, é também importante. É, vou falar sobre sexo. Quando se menciona qualquer coisa do gênero aqui nesta classe, só se ouvem risos e comentários de baixo nível. Eu não entendo esse preconceito. Espero que até que eu entenda, o preconceito já tenha acabado. Mas, sinceramente, parece impossível se falar de sexo abertamente, sem preconceitos. Sexo é um assunto como qualquer outro. Eu poderia dizer que a culpa é dos pais. Por exemplo, a criança (ou adolescente, com eu) que tem pais liberais não vai temer em falar e discutir sexo. Mas os adolescentes com pais que evitam falar de sexo, pois consideram isso um assunto 'sujo', 'proibido', e 'indiscutível', vão ficar até bravos quando ouvirem sobre o assunto que falarei. Bom, de qualquer modo, vou falar de sexo. Pois sexo está longe de ser sujo. A sujeira está nos olhos de quem vê. Eu vou falar sem malícia alguma, sem preconceitos (ou pelo menos tentar). Mas não posso mudar as reações de pessoas maliciosas, que farão o possível para parecerem imaturas.
O melhor meio de falar sobre sexo é falar sobre uma pessoa que entende muito disso: Marta Suplicy. Marta Suplicy é sexóloga e fala sobre sexo todas as manhãs no TV Mulher, às 8:30 da manhã. Seu quadro se chama Comportamento Sexual. Cerca de 300 pessoas mandam cartas a cada mês, e isso faz de seu programa um sucesso. Marta Suplicy é casada, tem três filhos (o mais velho de 16 anos), e tem 38 anos. Seu marido, o deputado Eduardo Matarazzo do PT, confessa que estranhou quando ficou sabendo da carreira que sua mulher iria seguir. Foi em Stanford que ela decidiu ser sexóloga. O primeiro caso que ela tratou foi de um rabino que, casado há dois anos, não conseguia consumar o casamento. Depois do caso resolvido, Marta viu que continuaria com a profissão. Marta foi educada num colégio de freiras, e é incrível como uma pessoa com essa educação tão rígida possa falar de sexo com tanta facilidade. A sogra de Marta (74 anos) diz que vê o TV Mulher todo dia mas que é contra a posição de Marta sobre sexo antes do casamento. Mas Marta é mais do que uma sexóloga. Marta é também uma psicóloga. E agora ela lança um livro.
O livro tem 350 pag. e custa 2500 cruzeiros. O nome é Conversando sobre Sexo. O livro é interessante, a linguagem é simples (até demais) e retrata plenamente a desinformação sexual do brasileiro(a). São incríveis as coisas (besteiras) que você pode encontrar em algumas cartas. Ela escolheu algumas cartas e as pôs no livro. Abaixo de cada carta há comentários. O livro está escrito de uma maneira didática. Há muitos assuntos (abrange quase tudo): como conversar sobre sexo com os filhos, puberdade, adolescência, vivência da sexualidade, virgindade, intimidades no namoro, masturbação, anatomia sexual, anticoncepção, gravidez, disfunção sexual, sexo na meia idade, homossexualidade, doenças venéreas, a sexualidade do deficiente, drogas (como afeta o sexo), pornografia, erotismo, censura, e amor, entre outros. Sim, é interessante, mas o leitor(a) informado vai encontrar muitas banalidades. Mas o livro promete resolver pelo menos uma dúvida sobre sexo.
O livro, além de relatar a ignorância total com respeito a sexo, também demonstra padrões. Eu, quando li o livro, percebi que havia mesmo um comportamento sexual básico: o homem se preocupa com ele mesmo enquanto a mulher também se preocupa com ele. O homem se preocupa mais em se satisfazer do que satisfazer a companheira, enquanto a mulher se preocupa apenas em agradar o homem. Outro comportamento: o homem é sempre quem pede, e a mulher é quem nega. POR QUÊ? Difícil entender.
É por expressar essas idéias que Marta foi retirada do ar durante uma semana (em fins do ano passado). Sem falar do movimento das Senhoras de Santana, surgido em 1981, em nome da moral e dos bons costumes.
Marta Suplicy fala e escreve com uma simplicidade sobre o assunto que faz as pessoas se entusiasmarem, notarem que o mundo está mudando e é menos quadrado. Como disse Nilton Travesso, produtor do TV Mulher, antes as cartas eram tímidas e cheias de vergonha, enquanto hoje já são claras e corajosas.
Mas muita coisa ainda tem que mudar. É preciso falar de sexo abertamente, para que as pessoas aprendam mais sobre um assunto tão importante. É também muito necessário que as pessoas se questionem por que há um padrão de comportamento que diz que os homens devem se preocupar com o próprio corpo e as mulheres devem se preocupar com o que os homens acham de seu corpo. Ainda existem montes de erros. (Atualidades, 13/04/83).

terça-feira, 24 de novembro de 2009

ATEIA, NÃO À TOA

Campanha ateia em ônibus na Inglaterra: "Provavelmente deus não existe. Agora pare de se preocupar e curta sua vida".

Faz pouco tempo, participei de um conselho de leitores do jornal, todos muito simpáticos. Na hora de dizer alguma coisa, lá fui eu falar demais: disse que considerava muito democrático que o jornal tivesse entre seus colaboradores alguém tão pouco convencional como eu, feminista, de esquerda, ateia... Um leitor admirou a minha “coragem” (ele podia ter chamado de boca grande) em me admitir ateia para um grupo de desconhecidos. Afirmou que pouquíssima gente faria isso no Brasil, já que o ateísmo não é algo exatamente popular. E ele tem razão. FHC perdeu a eleição para prefeito de SP em 1985 porque não quis responder à pergunta de Boris Casoy (“o senhor acredita em Deus?”). Numa pesquisa recente, os ateus empataram com os usuários de drogas como a minoria que os entrevistados mais odiavam: 25% disseram sentir antipatia por ateus, e 17%, repulsa ou ódio. Outros estudos apontam que um ateu assumido jamais seria eleito presidente.
Bom, felizmente não estou me candidatando a nada, e como a Constituição garante liberdade religiosa, tenho o direito de não acreditar em Deus. Mas não fui sempre ateia. E tampouco houve algum trauma que me fez perder a fé. Meu pai era ateu, mas não fazia muita propaganda disso. Já minha mãe é católica, do tipo que vai a missas no natal, e que gosta de visitar igrejas em outros países (outro dia, pela primeira vez na minha vida, ela se disse ateia. Eu me surpreendi). Ela pôs meus irmãos e eu para estudarmos em escola católica. A escola era ótima, americana, com alunos de todos os cantos do mundo, mas a parte religiosa não era legal. Havia missas no colégio, e todos os alunos eram obrigados a ir. É ruim, pra uma criança ou adolescente, sentir-se tão diferente. Como não fomos batizados, não comungávamos. Nossos amigos iam lá na frente e colocavam a hóstia na boca. Tudo isso deve ter me influenciado para que, com treze anos, eu me tornasse ultra católica. Eu rezava na capela da escola todo dia, durante o almoço. Naquela época eu queria ser freira. Na realidade, acho que minha ambição era um pouco maior: eu queria ser santa mesmo. Eu fantasiava terremotos (no Brasil!) que derrubariam a estátua da Virgem Maria em cima de mim, e, como eu morreria rezando, e naquela idade era puríssima, facilmente seria canonizada. Olha só que pensamentos torpes pra uma menina de 13 anos!
Naqueles meus meses católicos, transformei a vida do meu pai num inferno. Eu o arrastava pra missa todo domingo. Como meu amado papi fazia qualquer coisa por mim, ele ia sem reclamar muito (minha mãe, a católica oficial da casa, não ia). Eu também fazia com que ele e meus irmãos rezassem antes de dormir. Mas as freiras da escola me aterrorizavam com histórias de que mesmo um bebê (símbolo máximo da pureza) não-batizado não vai pro céu. Isso poderia comprometer meus planos de virar santa. Só que pra ser batizada aos 13 anos não é fácil. Não só você tem que fazer um curso, mas seus pais também! Eu insistia muito pro meu pai fazer o tal curso, e ele, sabendo que minha fase iria passar logo, dizia sempre “Mañana, querida, mañana” (ele era argentino, mas era excelente pessoa).
Entretanto, a religião criava conflitos com meu feminismo. Eu era bem chata com as freiras, pedindo explicações pros seus dogmas o tempo todo: essa história de Adão e Eva é pra ser literal? Tipo, Deus fez primeiro o homem, e aí, como um complemento, fez a mulher? E por que Deus é sempre representado como um senhor de barba branca? Por que Ele é Pai, Senhor, tudo no masculino? Aí tem... E como assim, freira não pode rezar missa? Hã, o que você disse? Freira não pode ser papa?! Cês tão de sacanagem comigo! (eu era ambiciosa, e pensava que, se a ideia do terremoto no Brasil não vingasse, sempre me sobraria um plano de carreira). Ninguém conseguia responder minhas dúvidas de forma convincente, e aos poucos fui me decepcionando com uma religião que me queria para massa de manobra, não para liderança. Uma religião que me discriminava diariamente, a cada leitura.
Daí foi um passinho pra eu perceber que deus não me criou. Fui eu que criei deus. Mas às vezes sinto falta de acreditar em alguma coisa, como na vida após a morte. É chato saber que minha vida será breve, que não vou me reencontrar com meu pai ou com meus bichinhos de estimação.
Mas eu sempre fui feliz, e percebi rápido que podia viver numa boa sem ter resposta pra tudo. Porque é isso que as religiões proporcionam, certezas. Não preciso delas. Já fui discriminada por ser ateia, talvez tenha deixado de conseguir um emprego pelo que escrevo no jornal, quase já fui agredida fisicamente e tal. Acho um sinal de ignorância grande quem pensa que ateus não têm valores ou morais. Pra quem pensa isso, apresento umas estatísticas provocativas:
- Entre católicos americanos, o divórcio acontece em 40% dos casais. Entre os evangélicos, 27%. Entre os ateus, 21%. Ateus se divorciam menos que religiosos, quem diria?
- Na população carcerária americana, apenas 0,2% dos prisioneiros se declara ateia ou agnóstica (na população em geral, ateus e agnóstiscos são cerca de 10%. No Brasil, mais ou menos 6%).
- Os países com menor índice de criminalidade são os que têm o maior número de ateus. Na Suécia, por exemplo, 85% da população é ateia ou agnóstica. E parece que o país continua se aguentando em pé.
Não estou querendo dizendo que ateus são melhores que pessoas com fé. Não acredito que sejamos melhores ou piores. E não sou anti-religiosa. Acho que a religião, qualquer uma, pode trazer conforto a muitos indivíduos. Mas, infelizmente, muito mais guerras são promovidas em nome de Deus do que pela falta de crença.
Uma leitora falou sobre orgulho em ser ateia. E não sei se tenho orgulho disso especificamente. Tenho orgulho da pessoa que sou, pelo conjunto da obra, digamos. Meu ateísmo é uma das minhas características, e claro que é importante. Eu me sinto muito, muito livre por não estar presa a dogmas religiosos. Mas meu ateísmo não me define.
Só que lógico que quando eu estava acabando de escrever este texto a minha internet desconectou, e um sapo invadiu a minha cozinha, o que obviamente põe meu ateísmo em xeque. Se aparecer uma barata, eu volto a acreditar. Porque seria o equivalente de “Deus, se você existe, jogue um raio na minha cabeça!” (e tá vendo? Não apareceu! Diga-me, se você fosse deus e alguém te desafiasse desse jeito, você não colocaria uma baratinha na minha frente, só pra abalar minhas estruturas?).
Mais aqui.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

UM EXEMPLO BOM E UM PÉSSIMO DE PROFESSORA

Isso é do meu Yearbook (livro registrando os alunos e professores de cada ano), mas juro que não fui eu que fiz esses rabiscos.

O Dia da Professora (vamos admitir, a enorme maioria das pessoas nessa profissão é mulher) passou e eu nem pra me lembrar dele. Mas, em homenagem posterior (eu ia escrever póstuma), vou lembrar de duas professoras que tive.
Lembrar numas, porque desta primeira que vou falar não me lembro nadinha. Nem nome, nem rosto, alguma característica marcante, nada. Lembro apenas que eu tinha sete anos e estudava na Escola Parque, no Rio. Hoje sempre que ouço falar na escola vem junto uma descrição, “escola de elite”, mas na época, obviamente, eu não sabia disso. E imagino que a escola deve ter mudado muito, porque nos anos 70, quando estudei lá, ela só ia até a sexta série. O lugar era lindo, cheio de árvores. O que mais lembro são as jacas. Sempre tinha jaca caída no chão. Enfim, um dia a professora levou a turminha pra uma aula ao ar livre, no meio da natureza da escola, e pediu pra que a gente desenhasse alguma coisa. Não sei se era homenagem à árvore, à natureza... Triste, até recentemente eu sabia contar essa história com mais detalhes. Mas o que lembro é que disse pra professora que eu não sabia desenhar direito, e perguntei pra ela se podia escrever um poema. E ela fez o que uma excelente professora deve fazer: não seguiu regras inflexíveis; pelo contrário, disse “Sim, fique à vontade”. Eu escrevi um poema, ela gostou, mostrou pra todo mundo, e esse foi o início da minha longa carreira poética, que durou até os meus dezenove anos, quando publiquei um livro, e depois, nunca mais. Se ela houvesse respondido algo como “Deixa de ser fresca, menina, e faz um desenho aí”, é bem provável que eu teria tomado gosto pela escrita do mesmo jeito—eu recebia muito incentivo em casa. Mas que esse foi um belo empurrão, não há dúvida. E tudo começou com um simples sim.
Agora o contraponto, e deste eu me lembro muito mais. Depois que a gente se mudou pra SP e tivemos uma ou outra experiência mal-sucedida com escolas particulares rígidas (o oposto da Escola Parque), minha mãe decidiu que deveríamos estudar numa escola americana. E fomos parar logo numa escola católica, a Chapel, que de liberal não tinha nada (mas a essa altura do campeonato ter contato diário com o inglês tava no topo das prioridades maternas). Não vou reclamar, porque depois, principalmente no high school, a escola revelou-se ótima, e era uma maravilha fazer amigos de tantas nacionalidades diferentes. Mas, se eu tivesse filhos, eles não estudariam lá. Primeiro porque a escola é caríssima, e eu não teria nem como pagar (sem falar que meus filhos estudariam em escola pública, porque acredito que educação de qualidade é um direito do cidadão). E segundo porque, ahn, se a família não é religiosa, por que colocar os filhos pra sofrer em colégio católico?
Mas eu divago. A Chapel (apelido pra Mary Immaculate School, capela, em português) tinha umas nove freiras quando entrei, acho. Todas davam aulas (uma até de Ciências, e ela era boa), e lembro que foi uma revolução quando, no final do meu tempo na escola, entrou uma freira brasileira, da Teologia da Libertação, e levou várias pra conviver com crianças pobres na favela, mas eu dr. jivago de novo. Eu lembro de uma freira louquinha, a Sister Benjamin, e de como um dia ela deu um tapa num menino que estava balançando a cadeira, e ele caiu pra trás. Mas o terror de todo o elementary school (séries iniciais, até a sexta série) não era ela, e sim a Sister Agatha. Havia duas sextas séries, uma com a Mrs. Crane, e outra com a nazi nun, a freira nazista, que foi o apelido carinhoso que eu dei pra Sister Agatha. Ela era americana-polonesa e tinha uma aparência hiper rigorosa de gente que não sorria nunca. E pequenos óculos nazistas, à la Caçadores da Arca Perdida (sabe o nazista que pega o medalhão, e a mão dele fica em carne viva?). Como ela tinha reputação de bater nos alunos, e como eu, com a minha sorte, não fui parar na turma da Mrs. Crane, meu pai foi falar com a direção da escola logo que soube que eu teria a Sister Agatha como professora. E avisou que, se a Sister encostasse um só dedo cristão em mim, ele a colocaria pra fora e processaria a escola. Ou algo do gênero. É muito, muito estranho escrever essas linhas com naturalidade, dizer “ela batia nos alunos” e ninguém fazer nada, e ela traumatizar turma após turma de crianças da sexta série e continuar lá. Imagino que hoje em dia bater em alunos não seja mais permitido. E não é por nada não, mas se você é pai, tá pagando uma grana preta pra escola, e vê que sua filha vai passar um ano inteiro tendo uma jararaca como professora, você não levaria a menina pra estudar em outro lugar? Não, porque ter contato diário com o inglês estava acima de tudo. Mas aquele ano foi um inferno. Aliás, encontrei um texto que escrevi pra algum curso no Chapel mesmo, já no high school (no início do high school, espero, porque o texto tá elementar, meu caro watson). Como minha memória estava mais fresca naquela época, vou traduzi-lo aqui:
Meu pior ano escolar. Acho que meu pior ano escolar foi na sexta série. Aquele ano foi difícil para mim e para meus colegas, principalmente por causa da professora. A professora era a Sister Agatha, e ela fez com que gostar das suas aulas fosse impossível. Toda vez que passávamos pela porta éramos tomados por um sentimento de medo. O que ela vai dizer sobre a maneira como estou vestida? Ela vai começar o dia brigando só porque esqueci um livro no meu locker? [armário que cada aluno tem, que fica do lado da sala]. Quem ela vai escolher pra brigar hoje? Portanto, íamos à aula sem nenhum interesse. Ela adorava matemática, então tínhamos que estudar matemática durante metade do dia. Ela odiava qualquer um que não entendesse o que ela explicava. Ela adorava humilhar as pessoas. Lembro que todo mundo chorou na classe dela. Ela tratava todo mundo tão mal que todos nós tínhamos medo e a odiávamos também. Lembro de uma vez, quando eu não entendi um problema de matemática. Ela começou a gritar comigo, a me insultar. E eu chorei. Por que ela tinha que humilhar as pessoas? Às vezes ela tentava bater em alguns alunos. Esse foi meu pior ano, mas também foi o pior de todo mundo que passou pela sua aula”.
O professor, corporativista, escreveu na minha redação: “Acho que não foi, porque alguém escolheu este ano como um bom ano de aprendizado porque a pessoa teve que estudar tanto”.
Eu não sou adepta do estilo exército de que pra se aprender alguma coisa é preciso sofrer. Sinto muito, acho que dá pra aprender tendo prazer, com paz e amor. Tenho a impressão até que se aprende mais num ambiente pacífico que num campo de concentração.
Bom, não sei o que aconteceu com a Sister Agatha. Ela torturou aluninhos durante mais alguns anos (meu irmão, inclusive, calhou de cair na classe dela também), e depois se aposentou, ou foi trabalhar numa penitenciária, sei lá.
Ah, mas só pra terminar este texto quilométrico num tom pra cima, vou relatar uma das piores perguntas que se pode fazer a uma turma de alunos. Não é piada. Essa eu presenciei num estágio de quinta série, de uma professora de inglês numa escola municipal em Joinville. Prestem atenção à pérola que ela disparou a seus alunos, após uma explicação: “Todo mundo entendeu tudo ou tem alguém aqui que não entendeu e eu vou ter que explicar tudo de novo?”. Sério, o que essa professora espera da vida? Que algum aluno levante a mão?