domingo, 23 de agosto de 2009

EDUCAÇÃO MORAL E CÍVICA

Faz um mês, por aí, eu tava organizando uma papelada sem fim e encontrei uma prova de Educação Moral e Cívica. Foi do primeiro semestre de 82, então eu tinha 14 anos. Eu acho que não gostava da matéria, já que respondia algumas questões do teste com “O livro diz que...”. Vamos a uns exemplos de pergunta. Isso vale como registro histórico, já que essa disciplina fez parte do pacote da ditadura que toda uma geração recebeu.
“Faça um comentário sobre essa frase: 'vivendo e aprendendo'”.
"Coloque a letra A para valores efêmeros e B para os permanentes: ( ) Amor ( ) Beleza física ( ) Justiça ( ) Carro ( ) Honestidade
"O que é senso crítico?”
"Em relação aos objetivos da vida, o que fazem a inteligência e a vontade?”
"Por que a liberdade e a responsabilidade são inseparáveis?”
E dá-lhe várias perguntas sobre Rui Barbosa, a “Águia de Haia”. E sobre doença de Chagas. Ha ha, e “O que significa vulto nacional?”.
“Por que o homem é o único ser que pode fazer de sua vida uma obra de arte ou uma caricatura?” Aqui eu escrevi um manifesto de uma página, começando com “Eu não gosto muito dessa frase que diz que 'os seres humanos são os mais inteligentes na Terra'. Eu acho que os animais, as plantas, são tão ou mais inteligentes que nós. Eles matam apenas para comer, e não por qualquer besteira”. Ahn, eu não tinha gato naquela época. Depois de mais uma página de lamentações, escrevo: “Direi apenas que a pergunta está mal-estruturada, pois deveria ser 'É o homem o único ser que pode fazer da sua vida uma obra de arte ou uma caricatura?', em vez de 'por que é o homem o único...'. Esta pode ser a opinião do livro, talvez até a opinião da maioria das pessoas, mas decerto não é a minha opinião”. A professora, muito sábia, respondeu: “Concordo com você. É que nas Escolas existem matérias que 'tentam' condicionar os jovens às verdades convencionais. É 'útil' para a sociedade... Você tem todo direito de contestar”. E eu nem lembro que professora era essa, mas era das minhas. Eu lembro de todas as professoras de português que tive, e eu realmente gostava de todas. Eram muito queridas, e ensinavam bem também. Não sei se havia uma certa cumplicidade entre eu e elas. Muita gente considerava perda de tempo as aulas de português, história do Brasil, geografia brasileira, já que era uma escola americana, bem internacional. E havia gente, tanto entre os alunos quanto entre os professores, que estava no Brasil “de passagem”. Mas a escola também tinha que seguir o currículo brasileiro, e tinha tempo pra isso, pois aulas em escolas americanas são mais longas (começam às 8 da manhã, terminam às 15 horas). Eu era a revolucionária da classe, e nas aulas de português me sentia muito mais à vontade pra assumir meu papel. Sem falar que as professoras de português eram discriminadas na escola. Ganhavam menos que os professores americanos (mas suponho que ganhavam bem também). Muitas não falavam inglês, e como boa parte dos professores americanos só arranhava o português, não havia comunicação entre eles.
Nas aulas com a Dona Susan, que era a mais politizada de todas, a gente sempre tinha que levar um artigo de revista ou jornal, apresentá-lo à classe, e comentar sobre ele. Claro que as minhas apresentações eram sempre divertidas e as que mais rendiam altos debates. Geralmente eu falava de sexo. E sei que era muito crítica à Veja e aos jornais já naquela tenra idade.
Ahá! Achei uma prova sobre Casa de Pensão, do Aluísio Azevedo. Não tá escrito o ano, mas a professora era a Dona Maris, um amor, que me deu A+ e escreveu “É muito agradável a leitura dos seus textos!!”. Só que numa das questões (“Comente alguns costumes que você tenha achado interessantes”), eu comecei com “Como naquela época (e ainda hoje, é claro), o machismo existia em grande dose, e quase todas as famílias eram patriarcais, Vasconcelos queria fazer de Amânico um 'homem', um 'verdadeiro homem'.” Dona Maris circulou a palavra machismo e escreveu: “Que fixação nesse ponto, menina!!!”. Com três pontos de exclamação. Sinal de que a agradabilidade permitida pela leitura dos meus textos (dois pontos de exclamação) perdia pra fixação no tema (três pontos).
Fast-forward pros meus 21 anos. Eu cursava Publicidade e Propaganda na FAAP, em SP. Era 1988. Pro curso de Filosofia II, escrevi um texto chamado “O Homem, A Maior das Grandes Coisas”, onde questionava se esse conceito de ser racional ou irracional fazia muito sentido, elogiava os animais ditos irracionais, e afirmava que o ser humano criou Deus, não o contrário. O professor não gostou. Deu nota 5 e ainda escreveu: “Texto confuso, superficial e pretencioso [sic]. Que tal abdicar da condição humana e ir viver entre os animais?”. A gente já não vivia mais numa ditadura, não tinha mais Educação Moral e Cívica, mas ainda era proibido de pensar por conta própria. Espero que os tempos tenham mudado.

27 comentários:

Juliana Bittencourt disse...

1. Eu ODIAVA educação moral e cívica e nem me lembro porque

2. professor de redação que não consegue deixar a própria opinião de lado não deveria tentar ensinar ninguém a escrever. tive uma que me deu nota "baixa" numa redação por que meu ponto de vista era muito pessimista. ainda "corrigiu" coisas que não estavam erradas (tipo, trocou uma frase por outra semelhante. cadê o respeito ao estilo?)

3. babo muuuito quando vc fala que já era crítica tão novinha. acho sensacional.

4. a melhor coisa da escola americana no brasil é justamente seguir os dois currículos e o aluno ter mais bagagem e ser exposto às duas culturas, como alguém pode querer tirar ou achar ruim o português, língua do país onde se está? pior que isso foi só a ufsc ter tirado as literaturas em português, o latim e a fonética e fonologia do currículo do curso de inglês.

L. Archilla disse...

nossa, q professor babaca esse q te deu 5. se vc ainda tivesse q devolver a prova pra ele, podia escrever: "vindo de um professor q escreve pretensioso com C, devo considerar a crítica um elogio. quem será que é mais irracional aqui?"

draupadi disse...

Lolíssima, vc viu isto?
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u607561.shtml

emanuella disse...

lola!qurida!não tou conseguindo te mandar email!tá voltando os emails que mando!pq será?

Lolinha!

a noite de ontem foi ótima!adorei conhecer vc e as
meninas pessoalmente, foi muito agradável e divertido.espero que muitos
outros encontrinhos aconteçam qnd vc vier morar aqui(sim,eu estou
otimista!)é muito bom conhecer pessoas fofas e legais como vcs e poder
conversar assuntos de interesse comum e conhecer novos assuntos graças
as nossas diferenças,eu sou péssima com palavras mas acho que quero msm
dizer que eu espero que dê certo nosso passeio mais tarde pra gente
bater perna e se conhecer mais um pouco né?vc já marcou alguma coisa aí
cm as meminas?se sim me responde o email ou pede por favor pra vanessa
me avisar já que ela tem meu número ok?mas e vc?dormiu bem?acordou
disposta?espero que sim.estou aqui aguardando notícias espero que dê td
certo pra mais tarde.

bjs

Manu

emanuella disse...

ah esqueci!meu mail é manusnc@hotmail.com ok?bjs

Bárbara - Αφροδίτη disse...

Nunca tive essa matéria.

Lola quando eu crescer eu quero ser como você! *-*

Quantas 20 faculdades você tem? Ô_o auhuauhauhuha...

Eu também fico indignada com a 'repressão' em que vivemos, e eles o fazem de modo tão 'sutil' que nem percebemos mais... me dá até um negócio de pensar, de tanta raiva. hahaha...

Enfim, te adimiro muito, e gosto muito de ler o seu blog, pois me abriu muito a mente. Obrigada! ^^

:***

Rosa Lopes disse...

Na minha experiência eu passei por coisas semelhantes, me refiro aos períodos escolares; no 2* gráu os professores eram estimuladores, legais; já na faculdade eu me sentia como parte de uma máquina de montagem, acriticidade é detonada a todo momento, apesar de ser na universidade onde a maioria dos movimentos surgem e as pessoas se "descobrem", eu via aquilo como um cemitério de idéias!!!
Tanto q até pouco tempo, eu entendia a vida acadêmica como sinônimo de decrepcidade, tomei abuso.

Bau disse...

Sempre achei que "moral e cívica" era uma expressão muito estranha...achava que moral era uma coisa que se aprendia em casa e civismo uma palavra atrás da qual se escondia o AI-5. Como eu não sabia o que fazer com aquilo e não conseguia decorar aquelas bobagens, sempre pedia à minha mãe que fizesse os trabalhos por mim. Apesar de não gostar também, ela sempre foi muito inteligente, e sempre tirava 10 (por mim) hehehehe. Na universidade tinha "Problemas Brasileiros". Lá ela foi pior, ficou com 9,5. HUAHUAHAUHUA! Que vergonha, Bau!

Jen disse...

Oi Lola,

Ler isso me fez lembrar muito meus tempos de Chapel. Apesar de ter entrado no high school soh em 1997 a D. Maris ainda dava aulas la! E essa coisa de professor brasileiro ser mais discriminado e ganhar menos continua sendo verdade. Engracado como o tempo passa e as coisas nao mudam....aulas de portgues, historia brasileira continuam nao sendo levadas a serio e sempre foram minhas favoritas! Sempre achei que os professores brasileiros eram mais cabeca aberta e tinham conversas mais interessantes que os americanos.

Abraco!

Luis Henrique disse...

Oi Lola,

Você teve aulas de OSPB?

Leila Silva disse...

Bonne chance demain.

Abraço

Marco - uma cena poética disse...

O Blog “Marco – uma cena poética” visa publicar o processo de montagem da CIA Rústico Teatral, contemplada no Edital de Incentivo à Cultura da Fundação Cultural de Joinville (FCJ) A peça "Marco" é baseada no “Livro de Marco” do escritor Flávio Carneiro e acontecerá suas apresentações nos 07 e 08 de novembro de 2009.

Faça uma visita.
CIA Rústico Teatral
Joinville-2009

Barbara disse...

Eu tambem vivia discutindo e discordando dos professores, principalmente quando o assunto eram animais e religiao (eu era ateia radical). Quando eu tiver filhos, vou tentar ensina-los a serem um pouco mais malomolentes - minha mae era radical demais quando eu era crianca.

Mas na boa, a gente bem que precisava de uma materia que ficesse a crianca pensar na relacao entre "liberdade e responsabilidade" ne? Parece que isso hoje esta em falta.

E estou na torcida do concurso tbm! Legal saber que vc foi tao bem.

Sheryda Lopes disse...

Lola, como você faz para agendar as postagens? Acho ótimo vc ter sempre o blog tão atualizado. Não é ridículo como vc disse,e sim invejável!

Um abraço! O encontro foi muito bom,já estou com saudade de vc! E muito pensamento positivo para o concurso.

Drixz disse...

Hahaha! Pensar por conta própria ainda é um tabu.

Ivana disse...

Ai Lola, que agonia! Mana, que hrs sai esse resultado do concurso?

Bárbara Reis disse...

Tô curiosa pra saber o resultado!!

:*

Fabiana disse...

Lola, cadê vc. Tô ficando apavorada.

Juliana Bittencourt disse...

Ai Lola, que agonia! que hrs sai esse resultado do concurso? [2]

Tô curiosa pra saber o resultado!! [2]

Lola, cadê vc. Tô ficando apavorada.[2]

Giovanni Gouveia disse...

EMC foi meu pesadelo, seja pela temática, seja pela qualidade dos professores babões da ditadura...

Tive ótimos professores de português, mas à época do 1º grau não nos entendíamos muito bem, especialmente quando tratávamos de interpretação de texto...

À resposta do professor de filosofia eu emendaria:
"Já faço isso, assistindo aulas de filosofia II..."

Giovanni Gouveia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Amanda disse...

Que tortura Lola!!! Volta aqui e conta logo pra gente esse resultado!!

Anônimo disse...

Lola, e o resultado? boa sorte!!!!

bjs,Carol

Tina Lopes disse...

Resultado???? Conta, Lola, Conta!

analia disse...

Lola, cadê vc???? A gente aqui aflito para saber o resultado e vc some!!!
Bjs,
Anália

bibi move disse...

veja que curioso: minha mãe lecionava na faap nesse ano, nesse curso. será que vc foi sua aluna?

jesus salva disse...

Tenho outro blog onde comento sobre o mesmo assunto, gostei muito do seu blog, muito rico em informações. Beijos.