domingo, 14 de dezembro de 2008

EU JÁ FUI UM ZUMBI. MAS UM ZUMBI MEIGO

Eu pulando em cima da minha mãe, num raro momento deszumbido.

Então, domingo passado deixei vocês no maior cliffhanger (pendurados num abismo), loucos pra saberem a avaliação que recebi quando eu tinha apenas 4 anos. Leiam a primeira parte antes, por favor. Ok, vamos ao relatório individual (tudo sic, escrito pela minha professora, que não faço a menor idéia de quem tenha sido), escrito num papel amarelo de 1971. Lembrem-se que eu nasci em Buenos Aires e havia chegado ao Brasil há poucos meses:
“Lola sentiu alguma dificuldade em se adaptar à escola e entrosar com grupo; acreditamos ser esta dificuldade, decorrente do fato de não falar o português. No início, Lola retirava-se algumas vêzes da turma, para encontrar-se com a mãe e o irmão no maternal. Ficava observando as atitudes do grupo em sala e comunicava-se com a professora, mostrando o que queria. Aos poucos foi se familiarizando com o grupo; começou a participar das atividades, a brincar, às vezes, com algumas crianças do jardim e a se comunicar mais com a professora e com os colegas, falando sua língua.
Atualmente, Lola já emprega o português. Expõe com mais facilidade e espontaneidade suas experiências e seus pensamentos, embora ainda não se sente muito à vontade em dialogar com a professora no período da rodinha. Brinca com os amigos quando solicitada ou então convida-os para brincar. Dentre as unidades apresentadas, a que mais a entusiasmou foi Primavera, mostrando-se animada com os preparativos da festa das flôres. Escreve seu nome sozinha, tem boa coordenação motora. É observadora na aprendizagem das unidades e dos exercícios audio-visuais. Em relação aos jogos dirigidos, prefere observar a participar. Os seus desenhos e pinturas, encontram-se na fase da cena simples, isto é, tem noção do espaço, linha de base, relacionando suas vivências dentro do mesmo. Gosta do que faz e concentra-se muito em seus trabalhos, os quais, são criativos, com características muito pessoais; demonstrando possuir sensibilidade na escolha das côres. É responsável pelo o que faz e cuidadosa, prestativa com seus pertences. De nossa observação quanto ao comportamento e trabalho de Lola, podemos concluir que seu crescimento intelectual, emocional, social, está de acôrdo com sua idade cronológica.”
Ou seja, aparentemente, eu era um mini-zumbi. Um mini zumbi gringo, ainda por cima. Eu não brincava com ninguém, não falava com ninguém, nem com a professora, mas pelo menos eu gostava de flores, tinha boa coordenação motora, e já sabia desenhar meu nome. Imagino o grande consolo que isso representou pros meus pais! Aposto como serial killers recebiam avaliações melhores que essa minha quando eram crianças.No entanto, antes que meus pais dissessem “Queremos uma segunda opinião”, vem no relatório uma avaliação separada da professora de música (a Escolinha Girassol pensava em tudo):
“Lola participa pouco das atividades musicais, porém, sempre observa, com atenção, a participação de seus colegas e as diversas brincadeiras durante a aula de música, sendo que, uma das que muito gosta, e então participa, é a do movimento de corpo de cada uma, isoladamente, seguido por todos os colegas. Lola sempre participa dessa brincadeira, usando o corpo com muito desembaraço e criando movimentos os mais variados. Gosta muito de fazer parte da banda, sendo seus instrumentos preferidos o pandeiro e o reco-reco. Nas variadas marchas com instrumentos, Lola sempre está presente junto ao grupo. Tem muito rítmo, bôa coordenação motôra e distingue bem os diferentes sons e andamentos. Nas dramatizações, quase não participa, mostrando-se, ainda, um pouco inibida. Nem sempre canta, porém, acredito que memorize facilmente as melodias. Lola é uma menina muito meiga e criativa na aula de música”.
Tá, então, de acordo com esta segunda opinião, eu era um mini zumbi gringo que gostava de mexer o esqueletinho, é isso? Falando sério, essa última frase da professora não destoa de todo o resto? Parece ter sido colocada pra que meus pais não se sentissem muito mal por eu ser tímida, isolada, praticamente muda, mas não a internem ainda, ela é tão meiga e criativa! Sei. Pelo menos eu não batia com o reco-reco na cabeça de ninguém.
Ah, tadinha de mim. Não deve ser fácil a vida de uma menina recém-chegada de um outro país. Meus pais nunca aprenderam a falar português direito. Pior: meu pai esqueceu o espanhol rapidinho e passou a adotar o portunhol. Tinha mesmo que dar um parafuso na minha mente. Mas, do pouquíssimo que me lembro da minha infância, minha vida mudou e pude ser especial em alguma coisa quando comecei a escrever com alguma fluência, aos sete anos. Foi aí que pude começar a me expressar.Eu com meu papi coruja, não sei a data. Se você clicar aí embaixo no tag em Lolinha Precoce, aparecem os outros posts desta série.

22 comentários:

Masegui disse...

Algumas observações:

- Você era muito bonitinha e fofinha (acho que eu já disse isso!?);

- Você é a cara da Mamacita;

- Espero que suas professoras tenham, como você, aprendido português;

- Você já usou camisa do Flamengo (argh). Talvez isto explique algum trauma;

- Agora eu sei porque você fisgou o companheiro maridão, ele se parece com seu pai (as psicólogas de plantão sabem explicar...).

Uma perguntinha: essa última foto foi seu primeiro nú artístico?

Anônimo disse...

Lola que interessante:
De fato voce tem motivos para ser bonita pois seus pais são lindos.
Isto de os pais serem bonitos,às vezes não tem muito a ver, mas pode ajudar. Copiei o post e enviei
pro micro da minha filha, ela vai adorar sua vida na pré-escola.
Não há a menor dúvida que sua família lhe deu uma infância maravilhosa o que conta muito, para o nosso equilíbrio na vida adulta. Depois volto aqui, tô assando galinha. Bj da Fatima.

Mei disse...

fotos linda essas aí...e a do ouro post explicativo também !!! Eu queria ter um monte de fotos da minha infância, mas não tenho!!

E olha só, vc gostava de reco-reco e pandeiro. Podia ter tocado na festa hmmmm...ehhehehe.

Mei disse...

PS..acordei agora e não tou boa pra escrever direito.

linda = linda
ouro = outro

La Mamacita disse...

Que vida boa em Rio, né Lola? Adoro a Escolinha Girassol. Foi maravilhosa pra vocês três : aprenderam português, fizeram amiguinhos. A Escolinha continua igual até hoje : a mesma diretora, a mesma pedagogia. Visitei com o Victor,seu primo, em janeiro 2007. Igual: professor com rabo de cavalo, crianças com chinelo, tênis, sandália, descalças. Desconfio que o uniforme seja só pra as fotos. E a mesma acolhida carinhosa quando as crianças chegavam ( Era curso de férias) Escutei as mesmas músicas, e vim o mesmo tipo de pai e mãe deixando as crianças. Oh, Rio maravilhoso. E ainda tinham natação na piscina do Flamengo com um monte de crianças de outras escolas. Nelly

Denise Arcoverde disse...

OOOOOOhhhhhhhhhhhh que fofa!!! as fotos são tão lindas. Adorei a sua mãe, modernésima.

Beijocas

Marfil disse...

OFF POST: O Blog ESCREVA LOLA ESCREVA recebeu 2 indicações ao 6º Prêmio Spoiler de Cinema e Blogs 2008, conforme anunciou acessoria de imprensa, hoje cedo.

O site concorre como Melhor Publicação e Conceito Cinematográfico.

Parabéns aos Editores!

lola aronovich disse...

Mario Sergio, obrigada pelo “ERA muito bonitinha e fofinha”. Ah, não achei o português das minhas professoras ruins. Tirando umas vírgulas a mais, tá até bom. Eu morava no Rio. Todo mundo era Flamengo! O companheiro maridão não tem nada a ver com o meu pai! Vc é a primeira pessoa que vê alguma semelhança entre eles... E sobre o “nu artístico”, pra mim não era nu (eu não tinha peito pra esconder), nem artístico. A menos que vc considere a pose do meu pai um “nu artístico” também, ué.

lola aronovich disse...

Fátima, pois é, acho que meus pais eram lindos sim. Quer dizer, minha mãe tá vivinha da silva. Sobre minha infância ter sido assim tão maravilhosa, há divergências. Algum dia publico alguns outros posts... Toda família tem o seu dark side...


Mei, que chato! Deve ser frustrante pra uma fotógrafa não ter montes de fotos da sua infância. Eu não tenho um acervo infinito de fotos, não. Elas estão acabando. Mas minha mãe era a fotógrafa oficial da família, e ela realmente tirava lindas (e muitas fotos).
É mesmo, né? Eu já era um sucesso com reco-reco e pandeiro naquela época!

lola aronovich disse...

Mãe, ok, já tivemos essa conversa antes. Mesmo que todas as fotos da Escolinha Girassol de hoje mostrem crianças com uniformes, vc insiste que a Escolinha não adota uniformes! Porque vc foi lá e viu duas crianças sem uniforme... Tá. Prefiro acreditar no site da escola. Também não acho nada de mais em adotar uniforme. Tem o lado bom. Uniforme tem um quê de anti-consumo, a meu ver. E sobre morar no Rio... O Rio de trinta e cinco anos atrás era bem diferente. Hoje eu não gostaria de viver lá. E se eu tivesse filhos, preferia um lugar mais tranquilo pra criá-los.


Dê, vc também tem muitas fotos da sua infância, não tem?

Paola disse...

Lola,
Vou pular os elogias às fotos, elas estão lá e dá prá ver.
Me chama atencão o relatório, um tanto ácido, não? Estão a relatar sobre uma criança de 4 anos!
É um relatório carregado demais, imagino que essa escola foi uma das primeiras a se arriscar nesse território...
Acho que ainda hoje, muita coisa não precisaria ser escrita, registrada, acho que muita gente não sabe escrever sobre os alunos, e hoje, há um outro elemento, a CENSURA! Sim, querida amiga, hoje, as diretoras e coordenadoras, mais que apontar caminhos, corrigem os textos, mudam o sentido, inventam, douram a pílula, acho que é o caso d última frase da professra de música.
Me parece que esse relatório tinha um roteiro um tanto engessado, e seu caso não cabia no modelo pré-definido!

Beijo

PAola

Juliana Bittencourt disse...

Que interessante essa avaliação. Seria muito fácil julgar que a criança tem problemas porque é tímida, não interage, sei lá. Hoje em dia tudo fica meio reduzido a umas coisas extremas. Se a criança é agitada, é hiperativo, leva pro médico. Você como pedagoga vai poder me dizer se estou certa ou não, mas me parece que falta preparo por parte dos professores hoje em dia de realmente avaliar a personalidade de cada um e educar de acordo com as individualidades.

Também adorei as fotos. E que bom que vc encontrou na escrita uma maneira de se expressar.

Não tenho uma avaliação assim minha, mas acho que eu era uma criança que iteragia bem até demais, porque tiveram que me trocar de turma no Jardim porque a turma não obedecia à professora, mas a mim, hahahha

lola aronovich disse...

Marfil, obrigada pelas indicações. Deixei um recado no seu blog. Conta como a gente faz pra votar, por favor.


Paola, vc achou o relatório ácido? Um pouco seco, talvez. Eu achei sincero. E concordo muito com o que vc diz sobre as coordenadoras pedirem pra “dourar a pílula”. Eu já fui coordenadora de uma escola de inglês e a gente emitia report cards depois de cada prova (ou seja, no mínimo dois por semestre). E os que iam pra menores de 18 anos precisavam ir traduzidos em português, pros pais poderem ler. Se os comentários do professor eram muito ásperos, eu mandava reescrever sim. Até porque, com aluno-problema (indisciplinado, por exemplo), a gente se comunicava regularmente com os pais. Não precisava que todos os podres fossem escritos num report card.
Mas pode ser sim que esse relatório da escolinha tivesse um roteiro engessado. Hoje, sei que a Escolinha Girassol tem vários alunos estrangeiros (tá no site), mas na época, vai que eram poucos...

lola aronovich disse...

Ju, pois é, isso de hiperatividade tá na moda. Acho que na minha época não existia, ou era muito raro. Imagino que meu maior problema na época desse relatório é que eu ainda não falava português mesmo. Uma criança pequena, num país estranho, sem saber a língua... Os primeiros meses devem ter sido difíceis. Depois, bem depois, acho que me tornei meio líder, meio mandona, em algumas patotinhas. Mas não na escola. Pensando bem, na escola eu estava sempre em desvantagem verbal. Porque pouco depois de aprender o português me puseram pra aprender o inglês... E claro que a criança fica mais tímida se não conhece a língua! E aí, como estão as coisas aí em Detroit? Finalmente a Comcast instalou a internet rápida?! Tomara que não falhe com vcs. Se vc vir algum esquilo por aí mande um abraço por mim. (talvez vc não veja nenhum pelos próximos quatro meses?).

Andrea Cristina disse...

Você era uma fofa e nem era mini zumbi viu! Só pq vc nao interagia no início nao indica que era excluída, mas sim, estava tentando adaptar-se.

E o comentário "observadora na aprendizagem das unidades e dos exercícios audio-visuais" já indicava aí uma pontinha de interesse pelo cinema. uahuaha

=***

Anônimo disse...

Lola as fotos estão todas muito bonitas mas esta em que vc é bem bebê, e está chorando, é a coisa mais linda do mundo.Fatima.

Débora disse...

Que fotos lindas!
E que zumbi que nada, larga mão e publica mais das suas historinhas de criança. Adoro.

lola aronovich disse...

Pode ser, Andrea, mas a impressão que me deu é que eu era um mini zumbi. Mas tudo bem, eu gosto de zumbis. Sou até casada com um!
É verdade isso da “observadora na aprendizagem das unidades e dos exercícios audio-visuais”! A professora olhou pra mim e pensou: “taí uma crítica de cinema!”.

lola aronovich disse...

Fá, eu não sei porquê, mas toda vez que olho essa foto do bebê chorão (moi), me lembro sabe de quem? Do Marlon Brando! Não sei a conexão.


Débora, que bom que vc gostou. Tô ficando sem fotos e sem historinhas pra contar da minha infância... Mas vou ver o que ainda consigo arranjar.

Anônimo disse...

Flamenguista desde pequenina!Ehhhhhhhhhh!

Anônimo disse...

Flamenguista desde pequenina!Ehhhhhhhh!

Gi disse...

Lola, que lindas as fotos. Olha, acho que você tem o ascendente em Gêmeos além de ser geminiana (Sol em Gêmeos). Que horas vc nasceu? Você tem toda a feição de ascendente em Gêmeos.