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sexta-feira, 27 de julho de 2018

HOMENS CRESCIDOS CHORAMINGAM PORQUE A NOVA SHE-RA NÃO É SEXY O BASTANTE

Meu querido Flavio Moreira, colaborador habitual do bloguinho, traduziu este texto publicado por Justin Rosario no Daily Blanter. E ainda comentou:
"Só posso me masturbar com
memórias da minha infância,
parte 347" (Lembra do Scooby?)
"Acho que vale a pena lembrar que, tanto no original quanto na dublagem em português, She-Ra invocava a 'honra de Greyskull' em sua transformação, enquanto He-Man bradava 'pelos poderes de Greyskull'. É uma escolha de palavras nada sutil, pois a mulher precisa ser a 'guardiã da honra' enquanto o homem detém 'os poderes' (o fato de estar no plural também é muito significativo). Em inglês, apesar do desenho ter por título She-Ra: The Princess of Power (A Princesa do Poder), ela também grita 'For the honor of Greyskull' (pela honra de Greyskull)".
O novo vale dos male tears (lágrimas masculinas)
"A nova She-Ra parece o
Tom Holland"
Eu não deveria estar escrevendo isso. Não posso acreditar que estou escrevendo isso. Por que, em nome de tudo que é mais sagrado, estou escrevendo isso? Homens crescidos estão tomando as redes sociais para dar chilique porque a personagem-título no reboot do incrível desenho dos anos 80 que foi She-Ra parece mais jovem e não um objeto de masturbação.
Sério, eu não estou inventando isso:
"O ultraje em relação à nova She-Ra parece estar relacionado [...] à ideia de que ela não é bonita, que ela supostamente tem quer ser bonita e sexy e que alguém destruiu o que antes era uma mulher linda e sexy. Algumas pessoas acreditam que a She-Ra reimaginada é desprezível".
Costumo ouvir o podcast de Anita Sarkeesian, Feminist Frequency. É útil para ter a perspectiva feminista sobre meios de comunicação de massa e cultura pop. E mesmo que elas tenham um gosto terrível para filmes, e que seus erros em relação à cultura geek me façam chorar às vezes, suas discussões sobre a cultura tóxica do fanboy (sobre o significado do termo e seu uso, veja este link) são iluminadoras.
O novo design de She-Ra, como babacas
que querem ver meninas menores de
idade sexy acham que o novo design
parece, como babacas querem que o
novo design de She-Ra se pareça
Sarkeesian foi uma das vítimas primárias (e “vítima” é a palavra certa a se usar) do Gamer Gate, que foi uma campanha massiva de abuso online executada pelo proto-alt-right [na época o ainda insipiente movimento de extremíssima direita dos EUA]. Desde então, ela tem lançado uma luz brilhante sobre os bebês chorões racistas, sexistas e entitled que acreditam ser os guardiões de toda a cultura geek.
É claro que eles têm um ódio visceral por ela. Mas esse novo surto em relação à She-Ra é apenas parte da mesma coisa. Eles são os mesmos joões-ninguém que piraram na batatinha porque Star Wars: O Despertar da Força tem um negro e uma mulher branca como protagonistas. 
Eles espumaram porque a personagem Rose Tico em O Último Jedi (não estou brincando) não usava maquiagem nem roupas que acentuassem suas curvas. A atriz Kelly Marie Tran de fato é bem atraente e possui curvas para exibir. Mas seu personagem é uma mecânica que trabalha nas entranhas de uma nave espacial. Quantos encanadores você conhece que ficam sexy no meio de seu dia de trabalho?
Ah, e eles ficaram ofendidos por ela ser asiática, porque de alguma forma isso é importante.
"Netflix claramente está com medo
que She-Ra seja uma mulher linda.
Óbvio. Veja como ela pode ser
assustadora"
Fanboys tóxicos são casos perdidos que ainda não engoliram a ideia de que mulheres e pessoas de cor também leem quadrinhos, jogam vídeo games e assistem filmes de ficção científica. A indústria do entretenimento finalmente se deu conta desse enorme e inexplorado público e começou a satisfazer os gostos dele também. Foi isso que provocou uma fúria branca abrasadora (ênfase em “branca”). Para eles todo esse universo geek pertence a eles e, como crianças mimadas, eles não querem dividi-lo.
O reboot de She-Ra é o exemplo perfeito. Está sendo lançado com um público bastante específico em mente: garotas jovens. Como qualquer programa dedicado a jovens garotas, as principais personagens terão idades mais próximas às delas para que haja mais identificação.
Ainda assim, homens adultos estão furiosos que um programa que não é para eles não satisfaça seus caprichos sexuais. Por quê? Porque She-Ra faz parte da cultura geek e a cultura geek “pertence” a eles.
Deus nos proteja se eles tivessem dado a She-Ra outra etnia!
"Lésbica masculina re-imagina She-Ra
como uma lésbica masculina. O total
egoísmo disso é espantoso"
Esse sentimento de “entitlement” é o que tem levado pessoas brancas a chamar a polícia para pessoas negras cuidando de sua própria vida em espaços públicos. Foi o que as levou a votar em um nacionalista branco imbecil. E é o que está levando-os a se comportar como babacas por causa de um desenho animado para crianças. É tudo parte do mesmo detestável sentimento branco (principalmente masculino) de que merecem tudo e qualquer coisa.
Pelo amor de Deus, gente! Se controlem!

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

GUEST POST: STEVEN UNIVERSE, UM DESENHO REPRESENTATIVO E FEMINISTA

Carla, leitora assídua, estudante de veterinária e amante de animações, me enviou este texto:

Eu quero trazer à tona o desenho Steven Universe, que vem sendo chamado de “o desenho mais representativo de todos os tempos” “com a mais positiva imagem de sexualidade na TV” e “o herói animado feminista que precisávamos”. Não estranhamente, este é também o primeiro desenho no Cartoon Network criado por uma mulher, Rebecca Sugar.
No entanto, antes que eu posso falar sobre os pontos interessantes, e são muitos, tenho que explicar um pouco a história.
O desenho segue as aventuras de Steven Universe e sua três “mães adotivas”, as Crystal Gems, Garnet, Amethyst e Pearl, em uma Terra repleta de elementos fantásticos.
Steven é na verdade filho de Rose Quartz, uma alienígena e líder rebelde que salvou a Terra há muitos anos, e Greg Universe, um humano; o que faz de Steven um híbrido. Sua mãe faz parte de uma espécie alienígena conhecida como “Gems”, que podem ser definidas como “pedras polimórficas sencientes”, e para que ela pudesse ter um filho com um humano ela teve de abrir mão de sua forma física. Assim a criação de Steven recai sobre seu pai e ao que restou do grupo rebelde de sua mãe, as Crystal Gems. Seguimos então com Steven enquanto ele aprende mais sobre si mesmo, sobre o que é ser parte Gem e sobre o passado de sua família nada convencional.
Acho que o primeiro ponto interessante é justamente essa raça alienígena que protagoniza a série. Gems são o que o nome sugere, são pedras, gemas, que criam para si uma forma física. E, assim como pedras, são assexuadas, mas todos os membros dessa espécie são seres femininos, pois, embora não sejam fêmeas propriamente ditas, se identificam com pronomes femininos, sendo Steven a única exceção. Só isso já traz uma ótima discussão sobre a diferença de sexo e identidade de gênero, o que será para muitas crianças o primeiro contato com esses conceitos. 
Poucos questionam a falta de
mulheres entre os minions
No entanto, isso trouxe muito questionamento quanto à ausência de um Gem masculino e a decisão de criar uma raça exclusivamente feminina, cuja resposta muito bem dada fez uma comparação com os Smurfs, que são uma raça exclusivamente masculina cuja única exceção é a Smurfette, e ela não é protagonista da série. São vários exemplos -- há Minions, Smurfs, Muppets, todos quase exclusivamente masculinos, em que nós mulheres e meninas temos que tentar nos enxergar naquele único e estereotipado representante do nosso gênero, sem que ninguém reclame. Na vez em que se faz o contrário vem um monte de críticas.
O segundo ponto que eu quero comentar é nosso protagonista, até porque muitos podem questionar como um desenho pode ser feminista se segue a vida de um garoto. Mas é justamente o fato de ser um menino que mais enriquece o personagem. Steven não é um protagonista convencional, o típico “menino que se torna homem”, o clichê cansado de masculinidade juvenil. Ele é um rapaz sensível, emocional e romântico, que usa muito rosa, cor símbolo de sua mãe, e odeia machucar outros seres. 
E isso se reflete nas cenas de ação. Enquanto as outras Gems têm táticas ofensivas e usam armas poderosas, Steven está sempre na defensiva e a única arma que usa é seu escudo. Nas cenas de batalha ele é sempre um suporte, uma ajuda à suas companheiras de batalha mais experientes. Mesmo assim ninguém questiona sua sexualidade, não há nenhuma ofensa nesse aspecto, e quando ele se interessa por uma garota, não há qualquer indicio de que alguém possa ter pensado que ele era homossexual. 
Praticamente um petista
(reparou na camiseta?
Só não vê quem não quer!)
Ele é só um garoto sensível, e mesmo assim é o grande herói da história, sendo que por ser sensível, compreensivo e paciente é que ele consegue fazer coisas e resolver conflitos que as outras Gems, por vezes muito hostis e violentas, não conseguem. Imagine todos os meninos que estão crescendo assistindo isso, tendo este contraponto à masculinidade ligada à violência, que terão Steven como seu herói e a empatia como uma grande qualidade.
O terceiro ponto é a forma como a equipe do desenho conseguiu explicar de forma simples e bem metafórica conceitos como relacionamentos abusivos, relacionamentos saudáveis e consentimento. Mas antes vou precisar explicar um conceito do desenho: as Gems são capazes de se fundir, literalmente formando um novo ser. Para a espécie isso era originalmente uma tática de batalha, um meio de tornar duas Gems fracas em uma forte. Entretanto, para que ocorra a fusão, elas devem ter certa coordenação e correspondência entre si, afinal, elas estão juntando a essência de seus seres numa única entidade. 
Os criadores do desenho conseguiram sabiamente criar vários paralelos entre fusões e relacionamentos, explicando que fusões boas vêm da junção de Gems que confiam uma na outra e que estão em harmonia, e que fusões baseadas em qualquer outra coisa podem até ser feitas, mas serão instáveis, difíceis de lidar e podem prejudicar as Gems envolvidas ou mesmo outros seres. 
Há também vários episódios dedicados ao porque o consentimento é tão importante, além de um lindo texto em um livro oficial do desenho fazendo a mesma comparação, acrescentando que as boas fusões ficam melhores quando há confiança, respeito, honestidade e constante comunicação.
O que nos traz ao próximo ponto, um dos que mais trouxe destaque ao desenho: a representatividade, tanto LGBT quanto de personagens não brancos. Começando pela LGBT, eles fazem um bom uso do conceito de fusão para nos mostrar um ótimo relacionamento entre duas Gems, que são claramente duas representações de mulheres. As duas possuem um dos melhores relacionamentos e algumas das cenas mais românticas. Houve muitas dúvidas, no início, até por preconceito, se o relacionamento delas era romântico de fato, mas isso foi se tornando óbvio. 
Há também a complexa relação de uma das Crystal Gems com a falecida mãe de Steven. Outro ponto interessante é quando Steven se funde com sua amiga e forma uma pessoa levemente andrógina, que chama a atenção tanto de homens quanto de mulheres. Inclusive algumas dessas cenas sofreram censuras em certos países.
Quanto à representatividade de personagens não brancos, temos alguns ao longo da trama, mas há duas escolhas de destaque: 
uma é Garnet, atual líder das Crystal Gems, que, embora seja alienígena e, portanto, de nenhuma etnia terrestre, é claramente a representação de uma mulher negra. Seus traços, sua cor de pele, e sua voz (no original a cantora Estelle) são todas escolhas conscientes para reforçar isso. 
O outro exemplo é o interesse amoroso de Steven e sua melhor amiga, Connie, uma garota indiana. Como uma personagem chave na trama, muito inteligente e menos emocional, Connie acaba sendo mais próxima do clichê “menino aventureiro” do que o próprio Steven, sem se tornar a típica “tomboy”.
O último ponto que quero ressaltar é a representação de família. Uma das primeiras coisas que chama atenção é a família não convencional de Steven, formada por um pai e três mães não biológicas. Seu pai já não mora mais com ele, mas está sempre presente e faz o possível para dar todo o suporte que Steven necessita. Vale notar que seria fácil fazer dele o estereótipo de pai inútil e incapaz, um Homer Simpson, mas resolveram fazer o contrário. 
Quanto às mães, ninguém nunca as chama assim, mas o papel que exercem na vida de Steven deixa óbvio que são suas mães. Há inclusive um momento em que um personagem se refere a elas como “suas irmãs”, e Steven nem entende sobre quem estão falando. 
Este é um um texto relativamente grande, eu sei, mas são tantos os pontos positivos do desenho, tantas lições e analogias, que quis tentar passar a maior parte delas. Acho um desenho fantástico, mas ainda não tão querido no Brasil, e quero trazer à tona os tantos temas que ele promove.

sábado, 26 de setembro de 2015

COMO SERIAM OS FILMES DA DISNEY SE FOSSEM BEM MAIS FEMINISTAS

Saiu no Buzzfeed, autoria de Gena-mour Barrett, e a Laura Prado traduziu (obrigada, Laura!). Depois vi que mudaram o título original para "Se filmes da Disney fossem mais fodões e precisos".

O primeiro é o da Branca de Neve, como você pode ver acima.
Não sou sua empregada, caralho
Depois de passear na floresta, colhendo flores e tal, Branca de Neve encontra sete anões.
"Venha ser nossa empregada! A gente cuida de você", dizem eles.
"Sai fora", ela responde.
Tô dormindo. Entendeu ou tá difícil? (ou: Qual parte de "Tô dormindo" você não entendeu?)
Ao toque dos lábios do príncipe, Aurora acorda de repente: "EI! Já falei que tô dormindo!"
Parece que estar dormindo não te dá liberdade e não significa consentimento, Príncipe Phillip.
Para de me perseguir, seu escroto
"ÉÉÉ, será que você pode me devolver a porra do meu sapato?", Cinderela disse. O príncipe se afasta, impressionado. Ninguém nunca o havia rejeitado antes.
Mulheres não deviam ler -- é o que os babacas acham
Bela rodopiou com a Fera a noite toda, contando a ele todas as coisas absurdas e misóginas que ela ouviu de Gaston na feira aquele dia. 
"As mulheres não deviam ler", ele disse. "Elas vão começar a ter ideias". "Afff, que babaca!", diz Bela.
"Sim, esse cara é um babaca", concorda a Fera.
"Depois a gente conversa sobre os seus problemas também", responde ela.
Como vou destruir o patriarcado sem uma porra duma VOZ?
Ariel sentou-se ao lado do príncipe e suspirou profundamente.
"Então, não posso abrir mão da minha voz", disse ela.
"Mas por quê?" perguntou ele, confuso. "A gente pode ter uma vida feliz juntos. Eu, você e o seu silêncio".
Ariel levantou as sobrancelhas: "Você já olhou bem pra mim? Eu sou uma puta duma sereia! Eu não preciso de você!"
Não vou te beijar NEM A PAU (foi mal, gato)
Tiana olhava para o horizonte de sua varanda, pensando em todo o dinheiro que ela ganhou com o sucesso de seu restaurante incrível. Repentinamente, seus sonhos de êxito foram interrompidos por um sapo, que pulou em sua sacada.
Tiana olhava para o horizonte de sua varanda, pensando em todo o dinheiro que ela ganhou com o sucesso de seu restaurante incrível. Repentinamente, seus sonhos de êxito foram interrompidos por um sapo, que pulou em sua sacada.
Sapo: Me dá um beijo!
Tiana: Não.
Sapo: Eu disse me dá um beijo!
Tiana: Não.
Sapo: ME BEIJA!
Tiana: *derruba o sapo da bancada com um peteleco* Sai pra lá, idiota.
Ego de macho
"Segura aí bem alto, querido", Megara diz. Depois murmura a si mesma: "porque eu é que não vou segurar!".
Mesmo assim não vou casar com você
"Peraí, se você não vai casar comigo, então aonde é que a gente tá indo, Jasmine?", perguntou Aladim.
"Nós vamos para um lugar mágico, onde as mulheres podem escolher quando e com quem vão casar, e os homens não têm nada a ver com isso", disse Jasmine.
"Ah...", respondeu Aladim, decepcionado. "Isso não tem a menor graça pra mim".
"Que pena, Al, se segura aí e curta o passeio".
Foda-se, vou é me salvar sozinha
"Mulan! Mulan" gritou Mushu. "Estamos em grande perigo! Apenas um homem pode nos salvar!"
"Eu posso nos salvar!" disse Mulan, confiante.
"Não, eles precisam de um homem!", respondeu Mushu. "Tive uma ideia genial: que tal você se vestir de homem? Aí todo mundo fica feliz!"
Mulan ficou calada e começou a arrumar as malas.
"M-Mulan?", disse Mushu. "Aonde você vai? A gente não vai conseguir fazer isso sem você!"
"Exatamente", disse Mulan. "Descansem em paz, vocês".
Pintos -- Pintos por todos os lados (ou: Pintos para além do horizonte)
"O que eles estão olhando, mamãe?", perguntou Nala.
"Eles estão idolatrando pintos, querida", respondeu a mãe.
"É por isso que a gente quase não aparece no filme, e que quase não tem significado na narrativa e por isso que a gente não fala nada?"
"Sim, meu amor, é por isso".
O olhar colonialista branco
"Você pensa que as únicas pessoas que são gente", canta Pocahontas, com seus cabelos esvoaçantes,"são as pessoas que se parecem e pensam como você..."
"Epa!", interrompeu John Smith. "Não é verdade! Deixa eu explicar uma coisinha pra você, pequena Ser-"
"JFC! John! Você não ouviu nenhuma palavra da minha música? Porra!"

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

GUEST POST: VALENTE, UMA NOVA PROPOSTA DE PRINCESA

Mãe (Rainha Elinor) e filha (Merida) nos traços de Raquel

Raquel Vitorelo fez sua pesquisa de iniciação científica pela PUC-SP sobre desconstrução dos estereótipos femininos em Valente (dá pra lê-la inteirinha aqui). Como ela é uma ilustradora de mão cheia, ela mesma enviou alguns desenhos.

Em todo lugar, vemos princesas. Nas mochilas das crianças, nos brinquedos, em filmes para todas as idades. Parte dessa obsessão está provavelmente ligada ao sucesso da própria Disney -– quando se pensa em princesas e contos de fada, logo se pensa no estúdio. Muita gente não sabe, mas a Disney deve muito de sua fama a Branca de Neve: Branca de Neve e os Sete Anões foi o primeiro longa-metragem produzido pelo estúdio, lançado em 1937 com um êxito gigantesco. Um filme com uma excelência técnica impressionante, um marco na  história do cinema. E assim se criou um laço entre Disney e suas princesas que dura até hoje. 
E, em tanto tempo de relação e exposição, a verdade é que a imagem das princesas está desgastada. Embora continue sendo um sucesso comercial, principalmente com a criação da franquia Disney Princess em 2000, existe uma forte noção de passividade atrelada às princesas: sempre esperando para serem resgatadas. Em um mundo que começa a incentivar mulheres a serem independentes, uma princesa parece ser uma figura ultrapassada demais para nossas meninas. 
Até que surgiu no horizonte uma esperança ruiva e revoltada. Merida, a protagonista de Valente (2012), foi a primeira princesa da Pixar, comprada pela Disney em 2006. Aliás, mais do que isso: foi a primeira protagonista feminina da Pixar! Em quase 20 anos de filmes, a Pixar nunca tinha tido uma mulher ou menina como protagonista. Outra novidade é que a Pixar teria também sua primeira diretora mulher, Brenda Chapman, que desenvolveu toda a história de Valente inspirando-se na sua relação com sua própria filha. Desde o princípio, Valente tinha uma proposta promissora de subverter toda a imagem das Princesas Disney, e havia muitas expectativas em torno do lançamento do filme. 
Mas, é claro, houve alguns contratempos e várias polêmicas. Primeiramente, Brenda Chapman foi mais tarde afastada da produção de Valente por “divergências criativas”. Após o lançamento do filme, a Disney divulgou uma ilustração estilizada de Merida cheia de brilhos e maquiagem, completamente fora do personagem, o que enfureceu os fãs e a própria Chapman, que fizeram a Disney voltar atrás em uma petição. Outras discussões não envolvem a produção do filme, mas a recepção da mídia: alguns artigos especularam sobre a possibilidade de Merida ser lésbica. O que é interessante, porque todas essas discussões podem ser lidas e relidas através de autoras como Simone de Beauvoir e Judith Butler. 
Beauvoir fez sua célebre afirmação “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher” em 1949, e que até hoje continua muitíssimo atual. Dessa forma, é a cultura que constrói uma mulher, e não a biologia ou a economia ou o que quer que seja. É a civilização que faz com que a mulher seja entendida como o “Outro”, uma mera derivação passiva e fraca do homem, que por sua vez seria forte e perfeito. 
Já Butler é uma pensadora contemporânea que percebe que a cultura é tão determinista quanto a biologia. Gênero, então, seria uma performance. 
Tudo isso reflete e explica porque Merida, ao rejeitar tradições como o matrimônio e ter interesse por atividades físicas (que muitos consideram coisa “de menino”), seria um ponto fora da curva. Se Merida não quer se casar com seus pretendentes, se Merida quer ser uma arqueira, ela é mulher? Ela não é mulher? Ela é lésbica, ela é hétero? O que faz de uma mulher, mulher? Evidentemente, Merida é uma mulher –- ao menos uma jovem mulher, como entendemos neste filme -–, e toda essa confusão insinua o quanto a proposta de Valente foi, de fato, diferente e até progressista. Mas até que ponto? 
Foi então que decidi fazer uma análise, começando com mais questionamentos: o que é uma Princesa Disney? Como ela se constrói? Defini então as “Princesas Clássicas”: as três primeiras princesas da Disney são bastante semelhantes entre si, muito conhecidas na atualidade, e por isso definiram um modelo de princesa que ainda é seguido pela Disney. São elas: Branca de Neve (1937), Cinderela (1950) e Aurora (A Bela Adormecida, 1959). 
Talvez a maior característica das Princesas Clássicas seja o fato de elas serem marcadamente sonhadoras: é um atributo ressaltado em diversos momentos, quando as personagens expõem os seus desejos e frustrações, geralmente conversando com seus amigos animais. A importância dessa característica se expressa até hoje em alguns filmes de princesa: no website oficial de Enrolados (2010, Disney), Rapunzel é descrita como uma sonhadora que deseja aventuras. Claro que não há nada de errado em sonhar, pelo contrário; mas há uma diferença entre ser caracterizada como sonhadora ou determinada, e muitas vezes sonhar significa apenas desejar, sem necessariamente ter algum tipo de esforço em direção a esse sonho. 
E o maior problema das Princesas Clássicas seria, possivelmente, as outras personagens femininas, em especial as vilãs. Embora personagens secundárias não sejam o foco mais óbvio da pesquisa, as relações de amizade e poder entre os personagens são um fator importante que compõem uma história. Pois bem, é fácil notar que o antagonista desses filmes é invariavelmente uma mulher.
Todas são caracterizadas como vaidosas e poderosas, embora de formas diferentes. No caso de Branca de Neve e Cinderela, as vilãs são figuras maternas que invejam as filhas. Em A Bela Adormecida, por outro lado, a mãe de Aurora mal tem voz e sequer tem um nome, enquanto Malévola só amaldiçoou a princesa para atingir o rei (além de render um filme estrelado por Angelina Jolie ­-– afinal, contos de fadas ainda são muito rentáveis). 
Claro, há as fadas: presentes em Cinderela e A Bela Adormecida, elas são sempre senhorinhas atrapalhadas, mas boas. E, enfim, há os finais felizes, sempre selados por um casamento real, que garantem o verdadeiro amor e ascensão ou manutenção do status social da princesa. 
Esses são os principais pontos que Valente escolhe subverter, e na minha opinião, o faz de forma bem sucedida: o casamento não só é questionado o filme inteiro, como é completamente eliminado do final feliz. O final feliz é a relação restaurada entre mãe e filha, e tudo o que aprenderam uma com a outra. O casamento arranjado e a mãe severa representam a tradição opressiva que Merida questiona; por outro lado, tudo só se resolve quando Merida assume suas responsabilidades e reata o relacionamento com sua mãe, a Rainha Elinor, que acabamos conhecendo tão bem quanto a princesa. 
Mas algo a se criticar em Valente é que os conflitos são mais colocados como a diferença entre a tradição e a renovação, do que como uma questão de gênero. Ao olharmos para a sociedade do filme, vemos mulheres que servem como criadas, cozinheiras e dançarinas, além da Bruxa Carpinteira que vende um feitiço para Merida após muita insistência da menina. 
Já os participantes dos jogos do torneio, os líderes dos clãs, bem como os integrantes de suas respectivas comitivas, são todos homens. Assim, há uma clara distinção dos papéis sociais dos homens e das mulheres. Contudo, o fato de Merida rejeitar a obrigação do casamento e gostar de atividades que, em sua cultura, são vistas como masculinas, é entendido como uma questão apenas individual, e não coletiva. Merida consegue ser compreendida no final do filme, mas apesar de seu poder político enquanto princesa, nada faz para mudar a situação de outras mulheres do reino. 
É evidente que essa é uma opção de abordagem e que portanto é válida. Mas quando olhamos para outros filmes de animação, como por exemplo Como Treinar o Seu Dragão e sua sequência (2010 e 2014, Dreamworks), temos uma temática muito parecida -– o questionamento de tradições -– em uma sociedade cujos guerreiros são homens e mulheres. Embora Dragão seja protagonizado por um menino, o protagonista passa por situações análogas a de Merida por não corresponder às expectativas de sua sociedade, que neste caso se baseia em violência, um traço tido como masculino no nosso próprio mundo. 
Enfim, considero Valente um filme renovador, mas tampouco condeno as Princesas Clássicas, já que suas protagonistas são esforçadas e bondosas, e seus filmes tiveram sua importância. Mas felizmente é perceptível que o público tem um grande interesse por histórias protagonizadas por mulheres mais ativas. Apenas sugiro aqui que se problematize a questão de gênero como um todo, e não só como algo subjetivo e pessoal, porque não é. E que elejamos novas princesas sempre.