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segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

BANCO É TUDO IGUAL?

Abri uma conta no Chase. Aparentemente há muito menos taxas que as cobradas pelos bancos brasileiros, ou assim espero. E dá pra “personalizar” seus talões de cheque. Você pode escolher entre quarenta modelos pra fundo de cheque, de Pernalonga e Mickey até águias e bandeiras, sabe, pra demonstrar seu patriotismo toda vez que comprar uma bugiganga made in China. Essa personalização custa US$ 4,24. Também dá pra incluir uma mensagem em cima da assinatura, tipo “Nunca esqueceremos 11 de setembro”, ou “Orgulho de ser hispânico”, ou “Com Deus tudo é possível”, ou “Amo meu cão”, ou “Pergunte-me sobre meus netos”. Acho que minha mensagem preferida é “Procure-me no jardim”. Apesar de não saber ao certo o que ela significa, deve ser lindo receber um cheque sem fundos com este recadinho enigmático. Mais gentil que “Vá ver se estou na esquina”. É divertido ler o contrato do banco, principalmente a seção de perguntas e respostas. Olha só o júbilo do capitalismo! Pergunta: “Menores de 18 anos podem abrir conta?” Resposta: “Definitivamente!” (com ponto de exclamação e tudo). Claro que nada bate a Política de Privacidade do Chase, que explica que o banco guarda seus (os do cliente) dados a sete chaves, mas pode compartilhá-los com empresas do grupo do banco, organizaçõs financeiras fora do grupo... ou seja, todo mundo. Aí a pergunta no próprio manual é: “Quais escolhas tenho para que o banco não compartilhe essas informações?” A resposta é um primor, algo nas linhas: “Você pode nos pedir pra não compartilhar as informações, mas nós vamos fazê-lo de qualquer jeito, como permite a lei”. Não tô inventando!

quarta-feira, 23 de julho de 2008

AS RECOMPENSAS DO BANCO

Acabei de ganhar 48 dólares. Bom, né? É que troquei os pontos de recompensa do meu banco nos EUA (Chase) por dinheiro. Tudo bem que isso seja em cima de mais de dez mil dólares que gastei com cartão de débito durante um ano da minha estada aqui em Detroit. E tudo bem que o banco cobra uma taxa de 25 dólares (não sei se anual ou única) pra te dar o cartão. Comparando com as recompensas que recebo nos supermercados brasileiros – algo como “ganhe uma caixa de Bis a cada 500 reais” -, até que não tá ruim. Sabe o Clube de Vantagens Angeloni, por exemplo? Uma vez eu fiz o cálculo. Acho que, com o que eu e o maridão gastamos em supermercado (até cem reais por semana, altíssimo!), levaria 35 anos pra trocar os pontos por um fogão quatro bocas.

No Chase a gente acabou com um saldo de 24 mil pontos. Havia algumas recompensas atraentes. Tipo: dá pra trocar 3,750 pontos por uma assinatura de um ano de alguma revista como a Rolling Stone ou a Esquire (quer dizer... O maridão deu pra receber a Rolling Stone de graça. Não sabemos porquê). É que revista aqui é muito barata. Alguns restaurantes e lojas trocam 11,500 pontos por 25 dólares. É o caso da TGI Friday's, Starbucks, Amazon, Barnes & Noble, e de steak houses (meio como churrascarias). Compensaria mais, portanto, pegar 50 dólares por 23 mil pontos. O problema é que isso me forçaria a gastar 50 dólares num só lugar. Prefiro receber 48 dólares livres pra poder fazer o que quiser com eles, inclusive guardá-los (o maridão corrigiu: “O problema pra você é essa palavrinha, gastar, sua pão-dura miserável”).

Outras coisinhas que me atraíram: travesseirinho pra segurar o pescoço durante uma viagem longa, 12 mil pontos (tá caro, mas algum dia vou precisar de um travesseirinho desses); um pedometer (não confunda!), aparelhinho que marca quantos passos (não puns) damos por dia, 13,500 pontos (acho que eu ficaria viciada num aparelhinho assim); 9,250 pontos podem ser convertidos em 25 dólares pra gastar numa rede de cinema (daria pra menos de duas idas entre eu e o maridão, que geralmente pagamos US$ 7,50 de ingresso cada um). E coisinhas que eu não preciso nem quero, mas, mesmo que quisesse, estariam além da minha capacidade pontual: um aparelho dvd Philips vale 30,500 pontos, e um i-Pod, 77 mil pontos (se estiver curioso/a, o catálogo de recompensas tá aqui). Vejamos, no meu ritmo de consumo, eu levaria mais de três anos pra acumular pontos pra trocar por um i-Pod. Melhor que os 35 anos do fogão, mas ainda assim... Três anos é um bocado de tempo.

Os bancos também tentam pagar pra que o cliente deixe dinheiro na poupança, o que não é nada comum num país endividado até o pescoço como este. Se você autorizar que o banco tire pelo menos 25 dólares por mês da sua conta e os coloque numa poupança, dá pra ganhar até cem dólares. Mas se você tiver que mexer nesse dinheiro guardado antes de seis meses, o banco pega de volta os cem dólares que te deu. E às vezes os bancos não dão dinheiro, mas objetos pra quem abre conta com poupança automática. Um me ofereceu uma mini-filmadora. Presente como o que o Michael Moore relata em Tiros em Columbine - “abra uma conta e ganhe um rifle” - ainda não tive o prazer de ver. Deve ser no Texas.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

A ORIGEM DA MINHA PÃO-DURICE

Tem algo que você precisa saber sobre mim, se ainda não percebeu. Eu sou uma pessoa responsável economicamente. Pra muita gente, eu sou uma pão-dura miserável mesmo. Pra mim, sou alguém que nunca teve dívidas na vida e que sempre, desde o primeiro salário, gastou menos que ganhou e guardou dinheiro. Isso me permite ganhar pouco, mas viver bem. Se não gosto de um emprego, não tenho por que aturá-lo, e posso sair. Tampouco preciso trabalhar quarenta horas por semana. Como não gasto muito, não tenho necessidade de um salário alto pra bancar meu estilo de vida. Pra mim, isso é liberdade. Pra maioria das pessoas, no que se refere a consumo, liberdade é gastar tudo que quiser. Mas cada um vive como quer. Só que não sou muito solidária com uma pessoa de classe média que gasta os tubos e depois reclama de estar no vermelho (um americano, em suma). São escolhas que cada um faz.

Quando eu era coordenadora de uma escola de inglês em Joinville, às vezes tinha atritos com uma secretária. Ela gastava tudo que ganhava em roupas e viagens de fim de semana, e achava ridículo o meu modo frugal de viver. “Pra que guardar dinheiro?”, ela perguntava. “A gente nunca sabe se vai morrer amanhã”. Hoje perdi contato com ela, mas sei que ela casou e tem filho. Não sei se pensa igual ou se mudou de mentalidade.

Pra mim, planejar sempre foi importante. Não tenho filhos nem vou tê-los, mas penso na minha aposentadoria e na do maridão, que já tem 50 anos. Quando nos aposentarmos, vamos receber salário mínimo do governo. Ou seja, não vai dar pra manter nossa padrão classe média com essa renda. E me recuso a cometer os erros dos meus pais, que nunca pensaram no futuro. E sabe, não tem jeito. Uma nave espacial não vai pousar no meu quintal e me sustentar. Não vou receber herança. Não vou casar com marido rico.

Prefiro viver com um padrão de vida mais baixo, mas que dure até morrer, a ter um padrão alto numa época da minha vida, e depois ficar com saudades desse tempo. Mas a verdade é que tanto eu quanto o maridão temos tudo que queremos, e nunca queremos nada que não possamos ter. Ok, essa fala é do mezzo-vilão descrevendo a população em Admirável Mundo Novo, mas o que posso fazer se estou feliz com a minha vida? Se não preciso comprar bens materiais pra me sentir feliz? A maior parte das pessoas é condicionada a gastar, e a associar felicidade a consumismo. Algo deu errado no meu condicionamento, não só como pessoa, mas como mulher (que nunca teve ou usou jóias ou ligou pra roupas e maquiagem).

Sofri um baque quando tinha oito ou nove anos. Ainda vivíamos no Rio. Meu amado pai era relações públicas no Chase Manhattan Bank, e detestava seu emprego. Sem pensar pra frente, pediu as contas. Imaginava que iria conseguir um novo emprego rapidinho, mas levou meses. E, em pouco tempo, eu e meus dois irmãos tivemos que deixar a escola particular onde estudávamos. Pior: fomos despejados do apartamento onde morávamos, no Leblon. Vivemos uns meses com a minha tia, e acho que ela se cansou da gente (não sei os detalhes, ninguém nunca conta nada pra criança). Fomos viver na Tijuca, num prédio de três andares que estava pra ser demolido, e que uns amigos dos meus pais nos emprestaram. Lembro de muita coisa dessa época: do calor escaldante de um Rio 40 graus, do baruho perpétuo, por causa da construção de uma estação de metrô por perto, da maravilhosa novela Saramandaia na TV, de roubar uma barra de chocolate num supermercado, do nosso quintal, que dava pra um depósito de lixo, das frequentes baratas voadoras, de pegar piolho. E lembro que, embaixo do nosso prédio emprestado (e empestado), havia uma lojinha de bugigangas. Eu devia receber algum tipo de mesada, porque naquele Natal pobre comprei uma Moniquinha de plástico pra minha irmã, e um mini-telefone também de plástico pro meu irmão. Coisas que hoje devem valer 1,99, se tanto. Mas aqueles foram os únicos presentes de Natal daquele ano lá em casa.

Nossa fase de pobreza não durou muito. Acho, não sei, porque percepção de tempo é diferente pra criança, que ficamos três ou quatro meses naquele prédio. Meu pai finalmente conseguiu um novo emprego, como diretor de marketing numa agência de propaganda – em São Paulo. Minha mãe não queria se mudar. Ficamos nessa indecisão algum tempo, morrendo de saudades do nosso pai, vendo-o só nos finais de semana, até que venceu o bom senso e fomos pra SP. E lá o bom senso acabou num instantinho. Meus pais recomeçaram a gastar como se não houvesse amanhã. Foi como se todos aqueles meses agustiantes não tivessem existido.

Por algum mistério, eu me tornei a única pão-dura da família.

terça-feira, 18 de março de 2008

ADORÁVEL CAPITALISMO SELVAGEM

Acabou de chegar pra mim, pelo correio, um cheque nominal no valor de US$ 9,25. Eu só tenho que ir ao banco e depositá-lo ou descontá-lo. Ah, pra isso tenho também que vender minha alma. É assim: ano passado, em outubro, comprei alguma passagem aérea e surgiu a chance de receber quinze dólares. Tudo que eu precisava fazer era me filiar a um clube de vantagens que dá bônus pra cartão de crédito e descontos em viagens. Pra que eles não cobrassem a anuidade (que eles não diziam quanto era), eu tinha dois meses pra ligar e cancelar. Ok, passou-se apenas um mês e apareceu um rombo de 50 dólares no meu cartão de crédito. Liguei pra empresa e exigi meu dinheiro de volta e o cancelamento imediato da minha anuidade. Pagaram e nunca mais ouvi deles. Até ontem. Se eu depositar esse tentador cheque nominal, vão me cobrar uma anuidade de US$ 140. A menos que eu cancele. Mas o detalhe genial é que eu tenho que cancelar todo ano, pro resto da vida. Esta pérola tá em letras miudinhas: “Não precisaremos pedir o seu número do cartão de crédito ou o seu consentimento para a cobrança”. Ou seja, por 9 dólares e uns trocadinhos eu posso arranjar um problemão pro resto da vida. Sabe o que é mais interessante? É que aqui nos EUA há várias leis, inclusive constitucionais, prometendo sigilo bancário. O curioso é que elas não se aplicam às empresas privadas (lembra do meu contrato com o Chase?). Essas leis foram feitas pra proteger o cidadão das garras do governo. Mas não existe nada pra proteger o consumidor incauto da sanha corporativista.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

“I'M GONNA GET MEDIEVAL ON YOUR ASS”

Odeio pessoas ricas. De uma maneira geral, elas são grossas, porque estão acostumadas a tratar todo mundo como serventes, ou porque sabem que, perante a lei, elas são mais importantes que as outras. Acabei de ser humilhada pelo dono do prédio onde moro em Detroit. O nome é Mr. Wolf, como o personagem do Harvey Keitel em Pulp Fiction, o que conserta as situações (por sinal, o título deste post, não pude resistir, é o que o personagem do Ving Rhames promete ao estuprador, “Vou fazer o seu c* medieval”, ou algo assim). A minha situação é que eu e o maridão estamos com passagens aéreas pra voltar ao nosso querido Brasil no dia 29 de julho. E, quando alugamos o apartamento, no comecinho de agosto do ano passado, pagamos um depósito de 385 dólares (o valor do aluguel). Como ele tem o depósito e a gente já notificou por escrito que vai embora dia 29, não esperava que teríamos que pagar o aluguel de julho – seria só ele ficar com o depósito. Mas não. O carinha quer que paguemos o aluguel de julho, e depois ele envia um cheque com o valor do depósito pra gente, pelo correio. Claro que descontar um cheque estrangeiro no Brasil (e vice-versa) custa dinheiro. Ainda não sei quanto. Só pra fazer transferência do banco americano pro banco brasileiro custa 40 dólares do Chase e mais 30 do Real. Pensei que, como fomos ótimos inquilinos (nunca atrasamos o pagamento; pelo contrário, pagamos os últimos três meses adiantados), e como as passagens estão na nossa mão, eles aceitariam ficar com o depósito.

Mas o jeito que aquele senhor rico me tratou foi o pior. Sabe aquela pessoa que não se dignifica a desviar os olhos pra olhar pra você? Esse tipinho. Sem me mirar, meu landlord – não é à toa que o nome seja o mesmo desde a Idade Média - perguntou por que estávamos indo embora. Respondi que nossa viagem era mesmo pra durar um ano, e estamos cumprindo o roteiro. Ele fez um ar de “e daí?”, e emendou com um “No seu país vocês têm casas com endereço?”. Detalhe que ninguém guardou que nosso país é o Brasil. O Leslie, o manager (zelador) do prédio, achava que era a Argentina, e a mulher dele continua pensando que é Colômbia. Mr. Wolf disse que muitos inquilinos pedem pra que ele abra mão do depósito, e que não pode fazer isso, porque é a lei, e a lei deve ser igual pra todos (é, a gente sabe como a justiça é cega). E pronto, encerrou o assunto. Passou a falar com o Leslie. Eu continuava lá, sentada. Aí, enquanto ele falava com o Les, também passou a dar bronca em alguém pelo celular. Ao encerrar a conversa no telefone, gritou “Asshole!”. Como eu voltei a falar, ele me cortou com um “Absolutely not”, e ainda emendou que, como ele é honesto, ele vai sim enviar o cheque pro nosso país, ao contrário de muitas firmas por aí. Uau, até então eu nem havia cogitado a possibilidade de não receber o dinheiro. Estava pensando só em todas as taxas bancárias. Quer dizer que existe essa chance, é?

Perguntei o que aconteceria se eu simplesmente não pagasse o aluguel de julho. Ele disse que, em uma semana, começariam os procedimentos legais (e os encargos com advogado ficam por conta do inquilino), e que eu ficaria com o crédito manchado e não poderia retornar aos EUA se quisesse, e que eu provavelmente seria despejada antes de terminar o mês. “Você não quer isso”, disse o Leslie, visivelmente constrangido. Pobre Les. Ele sempre fica muito diferente quando o patrão tá por perto. E Mr. Wolf aparece no prédio uma vez por mês, pra recolher o dinheiro.Bom, o que podia fazer? Paguei o aluguel de julho (que não se paga com dinheiro ou cheque, e sim com ordem de pagamento). No final, Mr. Wolf falou pro Les verificar como está nosso apartamento lá pelo dia 27, pra talvez nos devolver um cheque antes da nossa volta. “Não vou garantir nada,” disse ele ao Les, não a mim. Eu ouvi e tentei insistir pra que ele pelo menos fizesse isso, e lembrei que somos bons inquilinos. E ele: “Porque você é mulher”.

E foi isso. Fui embora com o rabinho entre as pernas. Ele não levantou os olhos nem disse “Goodbye”.

O Daniel, vulgo Zed (outro personagem de Pulp Fiction), que tem uma loja de roupas vintage e paga aluguel também ao mesmo landlord, disse que Mr. Wolf tem muitos prédios em Detroit e em outras cidades e que é milionário (acho que ele disse bilionário, mas vamos nos contentar com os milhões). E que, apesar da fortuna, é profundamente infeliz. E que realmente multiplicou sua fortuna não com o mercado imobiliário, e sim com os investimentos nos bancos. Ele e outros no clubinho receberam informações privilegiadas de exatamente quando os EUA iriam iniciar a Guerra do Golfo, e puderam assim aplicar dinheiro na bolsa. Segundo Zed, Mr. Wolf lhe disse ter feito mais dinheiro em uma semana que na sua vida inteira. Mas meu landlord ainda finge acreditar que a lei é igual para todos.

Eu já tive inquilinos (e problemas com inquilinos), mas sempre os tratei com respeito. Não sei se, se eu fosse rica, desceria ao nível do Mr. Wolf e seus colegas milionários. E não sei se rico no país mais rico do mundo é mais asqueroso que rico em país pobre. Só sei que meu mantra de hoje vai ser “I hate rich people. I hate rich people. I hate rich people”.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

FAZ MEIO SÉCULO QUE VIM PARA O BRASIL

Esqueci! Deixei passar essa data tão importante: em julho, completei cinquenta anos de Brasil!

No dia 7 de julho de 1971, minha mãe, eu, com 4 anos de idade, meu irmão e minha irmã, com menos de 2 anos e apenas 4 meses, respectivamente, saímos de Buenos Aires e desembarcamos no Rio. Claro que não lembro nada disso! Estou me baseando apenas em documentos, que nem são muitos. 

A carteira de trabalho do meu pai de 1972 diz que ele chegou ao Brasil duas semanas antes da gente, em 24 de junho de 1971. Trabalhou como gerente de marketing da Companhia Carioca Industrial, no Rio, entre outubro de 1972 e maio de 1973, quando ganhava 8.500 cruzeiros mensais. Eu lembro disso por causa dessa foto: eu me equilibrando em latas de produtos da fábrica.

Em seguida ele foi empregado como "auxiliar administração extra quadro" no Banco Lar Brasileiro, que era o Chase Manhattan, entre dezembro de 1973 e maio de 1976, com salário de 6.500 cruzeiros. Não sei se o salário dele diminuiu comparado à Carioca Industrial, ou se teve alguma troca de moeda. Eu lembro que ele falava que odiava aquele emprego, que envolvia relações públicas, coquetéis, happy hours. 

Foi por detestar o emprego, pelo que eu entendi (mas quanto da vida adulta uma criança realmente sabe?), que meu pai largou o banco. Não tinha quase nada de dinheiro guardado, minha mãe não trabalhava fora, e ele imaginava que encontraria um outro emprego rapidamente. Não foi o que aconteceu. Levou meses, e nesse tempo não tínhamos como pagar aluguel, logo fomos despejados e passamos uns meses com a minha tia, e, depois, moramos de favor num prédio abandonado de três andares, com varanda para um enorme depósito de lixo (com direito a piolhos, besouros e batatas voadoras o tempo todo). 

Havia uma lojinha no térreo do prédio que vendia bugigangas, o 1,99 da época. Eu lembro porque eu economizei qualquer mesada que recebi e comprei presente de Natal pro meu irmão e minha irmã: um mini-telefone verde e uma Moniquinha, ambos de plástico. Foi a época mais pobre da nossa vida. E ainda assim, não chegamos a passar fome. Alguém (amigos dos meus pais, nunca soube quem) emprestou um prédio abandonado caindo aos pedaços pra gente viver lá.

Eu pensava que nossa era de vacas magras no prédio abandonado tinha durado mais, pelo menos até o início de 1977, mas não. A carteira de trabalho mostra que meu pai conseguiu seu melhor emprego no Brasil em 20 de dezembro de 1976. Portanto, foi pouco tempo de miséria: do final de maio até o final de dezembro de 1976. E em sete meses perdemos tudo! Tivemos que largar a escola, não conseguíamos pagar o aluguel... 

O ótimo emprego que meu pai tinha conseguido foi em São Paulo, e minha mãe não queria sair do Rio, mas a gente não queria ficar longe do nosso pai (o tempo que passamos longe durante o impasse foi triste demais). Finalmente nos mudamos, e nossa vida melhorou muito. Agora meu pai era chefe do departamento de pesquisas e serviços de marketing da Denison Propaganda, uma das dez maiores agências do país, na época. Ganhava 30 mil cruzeiros mensais. 

Ficou lá até abril de 1986, pouco depois do dono da agência morrer e os filhos assumirem. Os diretores de cada área saíram e abriram cada um sua própria agência, e convenceram meu pai a sair também e abrir seu instituto de pesquisa, a Tendência 

Olha o que era a inflação: em 1986, seu salário era de 22 milhões quatrocentos mil cruzeiros mensais. Impossível saber quanto isso é hoje! Uma das conversões que vi indica que os 22 milhões seriam referentes a mais de 13 mil reais hoje, mas é quase impossível calcular todas as mudanças de moedas antes do real. Tanto que hoje, pro cálculo de aposentadoria, só entra o emprego que você teve antes de 1994 pra calcular tempo de serviço, mas não valores.

Gestar seu próprio negócio foi difícil, e nosso padrão de vida caiu bastante de novo. Era muito mais seguro ganhar um salário mensal fixo. Meu pai manteve seu instituto, a Tendência, até morrer, em abril de 1993. Eu cheguei a trabalhar lá quase dois anos como (única) secretária, com carteira assinada, em 1988. Usava uma máquina de escrever elétrica. 

Demorei pra me naturalizar, porque é um processo burocrático longo e trabalhoso, e também porque, sendo residente permanente no Brasil, eu tinha quase todos os direitos de uma cidadã brasileira. Certo, teve uma vez, nos anos 90, que eu queria jogar o campeonato feminino de xadrez, e fui impedida por não ser brasileira. Mas o principal motivo pra eu me naturalizar era um só: eu queria poder votar. Finalmente, em janeiro de 1998, quando eu já morava em Joinville, consegui me naturalizar. Lembro vagamente que tive que fazer um teste de português. Passei!

Quase todo mundo fica surpreso ao saber que não sou natural daqui porque não tenho sotaque. Mas também, eu vim pra cá com quatro aninhos, era um pinguinho de gente (e, pelos registros escolares, não foi tão fácil aprender português)! Tenho uma boa pronúncia em espanhol, só que falta vocabulário, conjugação verbal, essas coisas de quem nunca foi alfabetizada na língua materna. E certamente não sei escrever em espanhol! 

Quando vou pra Argentina, vou como turista, e entro com meu RG, não com meu passaporte argentino (que não é renovado faz tempo). Não tenho mais família lá há décadas. Eu me comunico bastante bem naquela capital que me lembra tanto meu amado pai (minha mãe era de Santa Fé, que nunca conheci). Os portenhos dizem que eu falo muito bem espanhol pruma brasileira, e às vezes fico com vergonha de dizer: "Ahn, no fundo eu sou argentina..."

Achei muito simbólico receber o título de cidadã cearense (bom, não recebi ainda, por causa da pandemia, mas algum dia vai haver uma cerimônia na Assembleia Legislativa do Ceará) bem no ano em que completo meio século de Brasil. Adoro este país, apesar de tudo, e tenho fé que conseguiremos reconstruí-lo e encontrar um rumo. Foi o país que meus pais escolheram pra viver, e que eu escolhi também, quando a gente já tem idade pra fazer escolhas. Minha vida é aqui, e não tenho vontade de morar em qualquer lugar que não seja o Nordeste!

terça-feira, 12 de junho de 2018

A FUGA DO FACEBOOK QUE TUDO VÊ

Esses dias abri um sorriso porque mascus estavam reclamando da dificuldade cada vez maior de manter perfis fakes no Facebook. 
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E, sem fakes, como fariam para viralizar os sites de ódio que criam? (eles precisam dos fakes para entrar em páginas progressistas e escrever "Viram que absurdo?", com link pro site de ódio. Aí o pessoal desavisado espalha, crente que tá ajudando, quando está apenas divulgando ódio -- e, de quebra, trazendo vírus pro seu computador. Por isso, nunca divulgue links de ódio. Só denuncie!).
Apesar de eu não ter FB, sei que muitas ativistas reclamam contra censuras ridículas de imagens de mastectomias, por exemplo. Sei também que o FB é uma empresa privada, e que é perigoso uma companhia ter tanto poder. Por outro lado, pra mim -- como alvo constante -- é muito bom que o FB finalmente esteja sendo mais enérgico para coibir o ódio (gostaria que o Twitter fizesse o mesmo). 
Foi algo assim que escrevi no Tw no fim de semana. Um seguidor antigo, que entende muito mais de internet do que eu, disse que não dá pra confiar no FB e me recomendou um artigo publicado recentemente por um site português, Guilhotina. É longo, mas traz muita informação, e por isso reproduzo-o aqui, com algumas pequenas adaptações pro nosso português. 

Entre 2009 e 2011, ecoou pelo mundo ocidental um número sem fim de artigos de opinião que atribuíam a redes sociais como o Facebook e o Twitter as responsabilidades pela onda de revoltas que atingiu partes do Oriente Médio e da América Latina. O tom desses artigos misturava triunfalismo tecnológico e civilizacional: “Vejam como os nossos valores superiores finalmente chegaram a estes povos incultos e imundos graças às maravilhas tecnológicas da Internet.”
No entender destes escribas, estas redes sociais haviam permitido a uma nova geração tecnologicamente apta coordenar-se para exigir democracia e liberdade contra regimes opressores. Deixemos por agora de lado que análises posteriores mais sérias sobre o fenômeno tenham revelado que o uso destas redes sociais para fins de protesto foi grandemente exagerado. Ou que a verdadeira história é que há uma enorme quantidade de jornalistas que, na realidade, não estando no terreno, não falando a língua e não conhecendo a história dos locais sobre os quais escrevem, simplesmente iam ao Twitter e Facebook para roubar fotos e vídeos e aldrabar uma coisa qualquer sobre o que se passava.
Façamos antes a pergunta – qual o verdadeiro potencial de redes sociais como o Facebook para fins políticos radicais?
Em Portugal, durante o período das manifestações anti-austeridade que começou em 2011, foi visível, em eventos como o Que Se Lixe a Troika e os Cercos ao Parlamento, a velocidade estonteante a que os eventos associados de Facebook cresciam, com milhares de novas pessoas a cada hora. Independentemente de tal não se traduzir necessariamente em participação nas ruas, era um forte sinal de que se conseguia escapar da “bolha” em que a participação política habitualmente se limita, e chegar a uma audiência maior. Foi em parte o testemunho por parte dos membros e membras da Guilhotina deste poder do Facebook de chegar às pessoas que nos fez investir na plataforma.
Várias pessoas que viriam a formar a Guilhotina já administravam uma variedade de páginas no Facebook. Fazer crescer a audiência no pré-2014 era um desafio vastamente inferior ao que é hoje. O tempo e conteúdo que no passado gerava milhares de “gostos”, hoje tem sorte se gerar centenas e chega a um número muito mais reduzido de pessoas.
Tendo em conta que a Guilhotina foi lançada em finais de 2013, esta alteração de dinâmica em 2014 foi-nos particularmente óbvia na lentidão com que a página crescia, apesar de contar agora com trabalho colectivo mais prolífico.
O que aconteceu em 2014?
Antes de 2012, uma publicação era igual a uma visualização, desde que alguém tivesse dado "like" na página. O Facebook introduziu então o “alcance orgânico”, que restringe a quantidade de pessoas que inicialmente vêem uma publicação para cerca de 16% da audiência total da página. Dependendo da quantidade de interações que a publicação angaria (comentários, partilhas e likes), o algoritmo do Facebook poderá decidir mostrá-la a mais gente ou não. Em 2014, a porcentagem de alcance orgânico caiu para 6,5%.
Se os 16% já eram um desafio, os 6,5% parecem ter sido um marco não apenas quantitativo mas também qualitativo na dificuldade em chegar à audiência. O alcance orgânico tem continuado a cair desde então, encontrando-se hoje entre os 1 a 2%, dependendo de vários fatores; por exemplo, páginas pequenas que estão começando recebem um maior alcance orgânico, que vai diminuindo conforme crescem. Os primeiros 2.000 likes são notoriamente mais fáceis de obter do que aquilo que se segue, provavelmente numa tentativa de não desencorajar aqueles que estão investindo na plataforma recentemente e fazê-los sentir que, chegando a um certo ponto, mais vale continuar, apesar do retorno reduzido.
O Facebook justificou o alcance orgânico com a necessidade de aumentar a seletividade dos conteúdos, cada vez mais abundantes, que chegavam aos usuários. Claro que se existisse uma genuína preocupação com os usuários, o Facebook podia perfeitamente oferecer-lhes mais ferramentas de seleção, ao invés de lhes retirar poder sobre o que vêem e dá-lo ao algoritmo. Na realidade, estas alterações serviram obviamente para reforçar junto dos anunciantes a necessidade de pagar o dízimo ao Mark para que lhes fosse permitido atingir à sua audiência –- ou, melhor dizendo, aos seus consumidores.
Para páginas políticas, sejam elas ligadas a movimentos, coletivos de informação ou outros –- que não contam com recursos financeiros milionários para se “promoverem” -– este foi obviamente um passo em direção à irrelevância, enquanto o capital viu reforçada a sua hegemonia, apesar de ter de passar a pagar o imposto Zuckerberg.
Traição do Facebook aos seus princípios de espalhar a livre comunicação?
De modo nenhum. Só um jornalista de tecnologia, com o cérebro esburacado devido à sobre-exposição a citações inspiradoras do Steve Jobs, poderia pensar tal coisa. O objetivo do Facebook sempre foi a extorsão via monopólio, como qualquer startup tecnológica que se preze.
O primeiro passo: identificar um novo espaço de mercado por explorar, recentemente criado pela disseminação de novas tecnologias. Segundo passo: angariar capital de investimento e entrar a todo vapor para dominar o novo espaço (neste caso, expandir o número de usuários da rede social), mesmo que para tal se perca dinheiro, o que no caso do Facebook aconteceu até 2009 –- ou seja, queimou dinheiro durante cerca de 4 anos e meio.
Mas isso é esperado, porque é neste ponto que se lançam as sementes do monopólio que virá. Se existisse a preocupação de crescer lucrativamente desde o início, este crescimento seria muito mais lento. E depois quem poderia prever o que aconteceria? E se um gigante já estabelecido como a Apple, Microsoft ou Google dissessem “Boa ideia, vou roubar”?
Não, é preciso garantir que quando chegar a hora da verdade, a utilização do produto seja tão disseminada que nem seja possível aos usuários considerarem uma alternativa, nem exista espaço para a competição crescer. Não entrar no Facebook? Mas como, agora que todos os nossos amigos e família só se comunicam por lá, agora que todos os eventos são filtrados por lá? Querem ser ostracizados? Entrem, é gratuito e sempre será. Ok, entraram e descobriram que é um tédio, e agora? Sair do Facebook? Todo mundo que conhecem está lá. Todos os interesses, todas as fotografias, todas as conversas. Impensável, suicídio social.
E é neste ponto, onde a vida sem o Facebook se torna inimaginável, onde este já estava no bom caminho de atingir os seus atuais 2.234 milhões de usuários (janeiro 2018) e capturar a maioria do mercado das redes sociais -– apesar de ter caído de um pico de cerca de quase 90% para 65% atualmente (abril 2018) -– é neste ponto que se erguem os muros.
Eis que chega o terceiro passo: exercer o poder de monopólio. Como a Google com a publicidade nos motores de busca (91% do mercado em abril de 2018) e a Microsoft com os sistemas operativos (81% nos computadores de escritório em abril de 2018), o Facebook reina incontestado no campo das redes sociais, e isso significa que é o Facebook que dita os preços e os termos. Daí a sua riqueza fabulosa, devido à competição dos anunciantes para conseguir chegar aos sumarentos consumidores no interior da rede social. O Facebook possui a vantagem, possivelmente ainda mais que a Google, de ser uma plataforma onde os próprios usuários fazem todo o trabalho de se auto-segmentar através de todas as informações íntimas que partilham com o Mark, pensando que partilham com amigos e família. Em termos de marketing, é uma dádiva sem preço poder conhecer os seus alvos com tal clareza, ou poder escolhê-los com tanta precisão.
Esta passagem do segundo passo –- expansão -– para o terceiro –- monopólio –- torna-se assim a marca de água das possibilidades políticas do Facebook, preso entre o momento onde precisa que todo mundo entre a bordo –- e portanto coloca menos restrições à comunicação -– e o momento onde atingiu a audiência necessária para começar a apertar com quem nele publica conteúdo, independentemente de ser comercial ou não.
Consequentemente, o Facebook é hoje um enorme centro comercial. Um local onde as pessoas se reúnem, conversam, namoram, realizam atividades lúdicas, mas em que todo este componente social não passa de uma isca para o verdadeiro objetivo de arrastar todo mundo para dentro de uma franquia qualquer e fazê-las consumir. As marcas pagam renda ao Facebook pelo direito a um espaço no todo-poderoso centro comercial mundial do Mark Zuckerberg.
E como um centro comercial, não é um espaço pensado para o livre debate político. Por trás da fachada brilhante estão os longos corredores de cimento que vão dar às salas de vigilância onde os seguranças podem seguir todos os nossos movimentos através de mil olhos no teto; onde os marqueteiros tomam nota de cada olhar, cada passo, cada compra; onde departamentos de contabilidade fazem as contas de quantos centavos vale cada um dos nossos reais.
Claro, como em qualquer centro comercial, os visitantes podem-se reunir tranquilamente para discutir as vantagens e desvantagens da ditadura do proletariado nos confortáveis sofás do Starbucks local. Mas experimentem começar a ser demasiado barulhentos, a distribuir panfletos, a organizar, e cedo aparecerão 4 seguranças e 2 polícias para perguntar qual é a ideia e por favor para dar no pé que o capital tem mais que fazer que aturar vocês.
O ambiente ideal desejado pelo Facebook é um de agressiva normalidade e centrismo, onde nem os consumidores se sentem importunados, nem os anunciantes precisam se preocupar com a possibilidade dos seus conteúdos aparecerem ao lado de cadáveres na Síria e Palestina.
A forma como o Facebook constrói esse ambiente, para além do já mencionado imposto para chegar à audiência, assenta também em mecanismos de censura opaca.
Mecanismos de censura
O primeiro destes é a pseudo-democracia da denúncia, usando a lógica de que se um suficiente número de pessoas sentirem que algo é ofensivo, provavelmente é. Os possíveis abusos de tal lógica são fáceis de prever, e é frequente tanto a extrema esquerda como a direita verem regularmente as suas páginas derrubadas como parte de guerras de denúncias mútuas.
Este cartum do Latuff derrubou várias
páginas de esquerda só por ter uma
suástica
Mas que 10 ou 10.000 racistas denunciem e derrubem uma página pelos direitos negros ou que 10 ou 10.000 machistas façam o mesmo a uma página feminista não torna o processo mais ou menos democrático, até porque a palavra final sobre algo ser removido ou não é dos censores do Facebook. O processo de denúncia apenas dá justificativa ao Facebook para se livrar de tudo aquilo que possa assustar consumidores e anunciantes. E sempre que uma página é derrubada de forma permanente, é preciso reconstruir quase do zero, garantindo que nunca se sai do gueto da pequena audiência.
Ao mesmo tempo, não é preciso grande ciência para adivinhar que, mesmo que reuníssemos 1 milhão de usuários para denunciar a Raytheon por fabricar armas usadas para matar civis inocentes, bem podíamos esperar sentados para que a sua página fosse derrubada.
Apesar da Guilhotina só por uma vez ter sofrido este tipo de censura, quando publicamos as fotografias dos violadores da Queima das Fitas em 2017, conhecemos também a experiência de uma página maior -– que não será nomeada devido a ter sido vendida e subsequentemente transformada num saco de lixo –- que era recorrentemente derrubada, especialmente quando publicava sobre a Turquia, país com um setor de trolls particularmente desenvolvido.
Um aparte sinistro: depois de um desses ataques, todos os administradores e ex-administradores da página tiveram suas contas bloqueados com a justificativa que tinham nomes de usuários incomuns e possivelmente falsos (o que não era de todo o caso), exigindo o envio ao Facebook de documentos de identificação oficial para que as contas fossem destrancadas.
Após a censura da denúncia, surge a censura dos vagos padrões de comunidade do Facebook, que são pau para toda a obra e dão uma cobertura moral à censura, visto que os conteúdos são sempre eliminados com o pretexto de proteger os usuários de algum tipo de trauma, tal como o gerado pela visualização de mamilos femininos. Obviamente que há conteúdos genuinamente censuráveis publicados por cérebros doentes, mas a expressão destas regras na política à esquerda é o impedimento de trazer à luz do dia a tradução no mundo real de conceitos como o racismo, imperialismo e machismo.
Filmaram a polícia matar um negro indefeso? Filmaram crianças destroçadas por bombas no Oriente Médio? Filmaram mulheres sendo apedrejadas na Arábia Saudita? Lamentamos mas publicar tal violência viola os padrões de comunidade, banidos todos. Mas só se forem um pequeno jornalista, ativista ou uma testemunha do momento. Se forem o New York Times, o Washington Post, a CNN ou a BBC, nenhuma atrocidade, por mais gráfica que seja, está fora do cardápio se ajudar a dar cobertura para lançar novas intervenções militares.
Este processo de deslegitimação de tudo quanto não são interesses do capital só acelera à medida que toda a estupidez à volta das fake news -– conjurada por Trump mas empoderada pela cúpula do Partido Democrata americano para justificar a derrota patética de Hillary Clinton –- descambou num processo de russofobia no Ocidente que está a servir de pretexto para impor um maior controle da informação. A Google tomou a iniciativa com a delistagem (remoção do motor de busca) ou deranking (dar menos prioridade no motor de busca, atirando os resultados para o fundo de uma longa lista) de uma série de sites independentes, especialmente aqueles com posturas anti-imperialistas e céticos das narrativas oficiais que apontam o dedo a Putin sempre que alguém entorna café em Washington.
Agora será o Facebook a estabelecer o seu próprio sistema de censura mais descarada, já tendo anunciado uma parceria com o Conselho Atlântico para decidir o que são notícias verdadeiras ou falsas.
O Conselho Atlântico, lembrem-se, é um think tank financiado por conhecidos campeões da paz, democracia e liberdade tais como: 
Emirados Árabes, Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi, Airbus, Carnegie Corporation, Chevron, Ministério do Negócios Estrangeiros do Reino Unido, NATO, Grupo Blackstone, Google, HSBC, Lockheed Martin, Raytheon, Rockefeller, Departamento de Estado dos EUA, ExxonMobil, JPMorgan Chase, Corporação Petrolífera Turca, Pfizer, Bank of America, Boeing, BP, Deloitte, Banco de Investimento Americano, Northrop Grumman, Shell, Statoil, quatro dos cinco ramos das Forças Armadas americanas (força aérea, exército, fuzileiros e marinha), Walmart e os Ministério da Defesa da Noruega, Suécia, Japão, Letônia e Lituânia. Uma pequena seleção dentre muitos, muitos outros grandes nomes do humanismo e progresso civilizacional.
Não que coisas peculiares dentro do âmbito dos interesses do imperialismo não tivessem já acontecido. Na Guilhotina denunciamos o desaparecimento pela calada da nossa publicação sobre os Capacetes Brancos, que só descobrimos por acaso quando a tentamos encontrar para deixar como referência noutra publicação. Nunca recebemos qualquer notificação de que o conteúdo havia sido removido no ano e quatro meses que passaram desde a sua publicação original. Fica a suspeita de que o motivo porque as ferramentas de pesquisa cronológica do Facebook foram ficando piores com o passar do tempo se deve à plataforma estar a pensar fazer edições ao passado. Esta publicação dos Capacetes Brancos foi reposta pouco tempo depois da primeira descoberta do seu desaparecimento, mas entretanto voltou a sumir.
Ou aquela vez em que o Facebook insistia que “houve um erro” quando tentávamos publicar sobre a invasão turca de Afrin que estava acontecendo no momento, mas permitia a publicação de tudo o resto. Experimentamos publicar as imagens da ofensiva turca com um texto diferente que não mencionava a Turquia, Erdogan, curdos, Afrin, etc e eis que o “erro” sumiu. 
Foi também por volta dessa época que muitas páginas ligadas à causa curda foram purgadas desta rede social. O momento midiático dos curdos como heróis e heroínas que combatem o ISIS havia passado, e era agora a hora do realpolitik e de dar espaço a um dos principais membros da NATO para poder levar a cabo uma limpezazinha étnica.
Enfim, não era esperado que uma plataforma da dimensão do Facebook conseguisse para sempre evitar jogar um papel mais ativo no campo da política, tendo em conta que o capital não pode permitir a poderes propagandísticos de tal dimensão andarem por aí à solta.
E o que significa tudo isto para nós?
A realidade é que é o Facebook não é abandonável, pelo menos por agora. Há infelizmente demasiada gente enfiada “lá dentro” para ser possível simplesmente virar as costas à plataforma. Mas é certamente verdade que a falsa promessa que um dia fez, de chegar a novas audiências, está praticamente morta e enterrada. Neste momento, investir no Facebook como plataforma é um erro. O Facebook, para quem não paga o imposto Zuckerberg, não passa de um sistema de lembretes para uma audiência que já nos conhece, e mesmo essa nos vê cada vez menos. Lembrete: publicamos um artigo novo. Lembrete: vai haver um evento assim ou assado. Lembrete: saiu o novo jornal Mapa.
E só vai ficar pior daqui pra frente. É portanto imperativo que todos os coletivos políticos que queiram ter voz a longo prazo criem as suas próprias plataformas online o mais brevemente possível, invistam em múltiplas redes sociais e pensem em novas formas de chegar a audiências no mundo real, enquanto continuamos a utilizar o Facebook de forma utilitária. Porque um dia desses alguém vai apertar a tecla que diz que somos todos fake news e será o fim da macacada no centro comercial do Mark.