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terça-feira, 2 de maio de 2023

CHEGA DE CRUELDADE RECREATIVA. PL 2630 PARA RESPONSABILIZAR AS PLATAFORMAS JÁ

Terça passada, a Câmara dos Deputados aprovou, por 238 votos a favor e 192 contra, a urgência do PL 2630, o projeto de lei das Fake News, que a extrema-direita chama de PL da Censura. Hoje a Câmara pode aprovar o PL.

Lógico que o que vimos durante a semana foi todo tipo de mentira para barrar o PL. Por exemplo, a Meta, empresa que controla o Facebook, Instragram e WhatsApp, criou e divulgou a fake news de que o PL proibiria versículos bíblicos

Mas o que aconteceu ontem ultrapassou qualquer limite: as big techs se uniram para censurar, manipular e mentir na cara dura contra o PL 2630. O Google, além de só direcionar para conteúdo (da direita) contra o projeto, também incluiu uma frase no site de busca, "O PL das fake news pode piorar sua internet". O Twitter removeu a hashtag PL 2630 pelas Crianças, não permitiu várias mensagens favoráveis ao PL, e ainda deslogou um monte de gente, que ficou um tempão sem conseguir acessar a plataforma com a sua própria conta. O Tik Tok derrubou vídeos em defesa do PL. E por aí foi.

O negócio foi tão absurdo que o ministro da Justiça Flavio Dino avisou que iria encaminhar o assunto para ser analisado pela Secretaria Nacional do Consumidor para ver se as empresas não estavam realizando práticas abusivas.

Orlando Silva (PCdoB-SP), relator do PL, disparou: "As artimanhas que essas big techs utilizam para combater esse projeto torna evidente a necessidade de regulação dessas empresas".

É um perigo a ação censora das plataformas. Se podem mentir para tentar derrubar um projeto de lei que corre no parlamento de um país, podem muito bem tentar fazer o mesmo para derrubar um governo democrático que vá contra seus interesses. Elon Musk é especialista nisso, aliás.

E por que o PL 2630 é tão importante? Bom, o Fantástico deu uma boa amostra no domingo ao exibir uma reportagem longa (quase 20 minutos; longa, pro padrão televisivo) e chocante sobre o aplicativo Discord, tão popular entre crianças e adolescentes. O que rola solto por lá? Automutilação, tortura e morte de animais, incentivo a massacres em escolas, todo tipo de ódio... 

Algo muito comum é meninas serem vítimas de doxxing (que é quando descobrem dados pessoais, endereço residencial etc) para em seguidas serem chantageadas a fazer o que um grupo de neonazis mirins mandam. Fica aqui a minha súplica desde já: por favor, garotas, desobedeçam! Falem com seus pais, professoras, procurem a polícia. Não sejam alvos e nem cúmplices da crueldade recreativa que impera nesses recintos.

O Fantástico entrevistou a advogada e professora da UnB Ana Frazão, que pontuou que o Brasil tem um estatuto que obriga a proteção da criança. Portanto, nenhuma interpretação das redes sociais pode fugir do dever de proteger a infância. 

Uma pesquisadora contou ao repórter do programa que muito desse conteúdo violento não nasce necessariamente no Discord, e circula impunemente em várias outras plataformas, como Twitter e Tik Tok. O Fantástico entrou em contato com o Twitter para pedir esclarecimentos e recebeu a resposta padrão de Elon Musk: um emoji de fezes. Esse símbolo da plataforma dialoga com o que é chamado de "shitposting", o conteúdo de ódio que os usuários juram que é brincadeira. 

Eu nunca tinha ouvido falar no Discord até o final de 2020. Foi quando constatei que algumas das ameaças por telefone que estava recebendo partiam de adolescentes de 13, 14 anos, não de adultos. Era uma nova geração de misóginos querendo ser aceita pela "velha guarda" através de ataques a uma inimiga em comum.

Eu nunca tinha ouvido falar, mas estudos provaram que o Discord foi o canal usado para organizar a marcha da extrema-direita em Charlottesville, Virgínia, em 2017, que uniu supremacistas brancos e neonazis. Sem o Discord, Charlottesville não teria existido.

Uma excelente matéria da Agência Pública aponta que, apesar do Brasil ser o segundo maior público do Discord no mundo, a plataforma não tem representação legal no país e, assim, demora ou ignora as notificações da Justiça. Além disso, como lembra Thiago Tavares, presidente da SaferNet, embora as 
regras do Discord proíbam discurso de ódio e pornografia infantil, não há moderação, muito menos em português. Respondendo à Pública, a plataforma alegou: “Qualquer tipo de conteúdo ou atividade que coloque em risco ou sexualize crianças é terrível, inaceitável e não tem lugar no Discord ou na sociedade”. Compare essa resposta com a reportagem do Fantástico.

Segundo o pesquisador Odilon Caldeira Neto, professor de História Contemporânea na Universidade Federal de Juiz de Fora e parte do Observatório da Extrema Direita (OEB), “Redes como o Discord têm sido utilizadas como plataforma para articulação de grupos neonazistas. Eles utilizam as redes não somente como meio de propaganda de seus ideais, mas também como meio de formação. Eu sempre insisto nisso: existe um percurso formativo do jovem neonazista, ele tem contato, ele dialoga, ele produz conteúdo, ele recebe conteúdo, ele traduz conteúdo e ele exporta conteúdo. Existe uma rede estruturada, uma rede onde esse indivíduo vai se encontrar e se formar”. O mesmo método utilizado para a formação de neonazis pode ser visto na formação de mascus.

Hoje, pela lei (o marco civil da internet), as plataformas não são responsáveis pelo conteúdo divulgado nelas. Só são obrigadas a remover algo do ar sob ordem judicial. O debate sobre regulamentação está longe de ser exclusividade no Brasil. E as big techs agiram dessa forma histérica como estão agindo agora quando a regulação foi votada na Austrália (elas perderam).

Após mais de três anos de discussão, com todas as plataformas e a extrema-direita contra, é hoje que a Câmara pode votar o projeto de lei que criminaliza as fake news de contas robôs, determina que as plataformas sejam transparentes quanto à moderação e seus algoritmos, e que elas sejam rápidas para remover e reduzir práticas ilícitas como terrorismo, crimes contra crianças e adolescentes, racismo, e violência contra a mulher. Não me parece pedir demais que essas empresas bilionárias atuem conforme manda a Constituição brasileira. 

terça-feira, 13 de setembro de 2022

KIWI FARMS, A FACE MAIS PERIGOSA DO TERRORISMO ONLINE


Ben Collins, repórter do NBCNews, escreveu uma thread longa e interessante sobre uma coisa na internet que eu ainda desconhecia: Kiwi Farms. Alguém traduziu:

Venho cobrindo partes ruins da internet há muito tempo.

Durante anos, surgiu um site que pesquisadores extremistas me alertaram para não cobrir porque publicá-lo seria perigoso.

Mas é hora das pessoas conhecerem o Kiwi Farms – e como seus usuários estão perseguindo inimigos políticos ao redor do mundo.

Kiwi Farms foi criado pelo ex-administrador do 8chan Josh Moon.

O fundador do 8chan, Fred Brennan, passou os últimos anos tentando remover o 8chan da internet pelos danos que causa. “O que Moon está fazendo é pior,” Brennan me disse. "Na verdade, ele está mirando em pessoas específicas."

Como o Kiwi Farms é pior que 4chan e 8chan?

Três pessoas visadas pelo site se suicidaram. Algumas são assediadas mesmo após sua morte pela máfia organizada do site, que briga com as páginas de mídia social de seus entes queridos.

Por que o Kiwi Farms é mais perigoso do que qualquer outro site?

Sua base de usuários de extrema-direita abusa de todas os vazamentos de empresas de dados privados acumulados na última década - depois os usa como arma contra inimigos percebidos.

Veja o último alvo: Clara Sorrenti, que teve que fugir do país no final de agosto.

O Kiwi Farms arquiva dados de inimigos políticos – frequentemente pessoas trans, muitas vezes cidadãos comuns – e os usa para criar terror.

Eles fazem doxxing [encontrar dados privados de uma pessoa e divulgá-los para atacá-la] e swatting [isso não existe no Brasil. É mandar a Swat invadir a sua casa, inventando alguma acusação. O mais próximo por aqui é a busca e apreensão da polícia] com os inimigos. Identificam os amigos e chefes dos inimigos e os bombardeiam com acusações de pedofilia para que sejam demitidos.

Clara Sorrenti foi a vítima mais recente da cartilha Kiwi Farms.

Mês passado, ela abriu a porta e encontrou a arma de um policial apontada para o seu rosto. Um usuário do Kiwi Farms tinha enviado uma ameaça de um tiroteio em massa na prefeitura local em seu nome.

Sorrenti tinha seguidores e decidiu iniciar uma campanha para cortar a hospedagem do Kiwi Farms.

Ela foi a um hotel e tirou uma foto com seu gato, dizendo aos fãs que estava segura. Os usuários do Kiwi Farms identificaram seu hotel pelos lençóis da foto, e as ameaças aumentaram.

A essa altura, as contas do Uber de Sorrenti e de sua família mais próxima haviam sido invadidas por usuários do Kiwi Farms. Eles então tiveram acesso a cada movimento e endereço em que ela esteve por semanas. Sua família começou a receber chamadas automáticas como esta.

Percebendo que precisava fugir do país, Sorrenti voou para a Irlanda do Norte para evitar os swatting e as perseguições via stalking.

Em poucos dias, o Kiwi Farms e usuários do 4chan descobriram onde ela estava hospedada. Um deles tirou uma foto fora de casa. (Nota: troon é um insulto do Kiwi Farms para pessoas trans.)

A vida de Sorrenti, como a de muitas outras, foi virada de cabeça para baixo por este site.

Até os policiais que bateram na sua porta foram posteriormente alvos de doxxing e ameaças pelos usuários do Kiwi Farms.

Atualmente, não há recurso para parar esse tipo de terror fascista.

Estou escrevendo sobre Kiwi Farms agora porque sua cartilha de terror está sendo adotada por espaços de extrema direita da internet em toda a web.

O Hospital Infantil de Boston foi fechado devido a uma ameaça de bomba esta semana.

Kiwi Farms e usuários do 4chan entupiram uma linha direta de suicídio LGBTQ um dia depois.

O manual Kiwi Farms – usando nossos dados para aterrorizar inimigos políticos – é para onde a guerra cultural está indo em 2022 e 2024.

As pessoas trans são seus alvos atuais, mas Kiwi Farms estão ampliando sua lista de inimigos.

Como Brennan me disse, isso poderia "facilmente se tornar um banco de dados de agentes do FBI".

Na verdade, Marjorie Taylor Greene foi pega no fogo cruzado na semana passada.

A congressista foi assediada por duas noites seguidas por ligações. A pessoa que ligou, usando uma mensagem de voz automatizada semelhante, citou o Kiwi Farms.

Esta é a minha reportagem sobre o Kiwi Farms e como será o rosto do terror político em 2024. Estão usando seus dados para aterrorizar dissidentes políticos. E estão aumentando o que eles veem como inimigo todos os dias. Espero que vocês leiam.

Um update: Cloudfare, que hospedava o Kiwi Farms, parou de permitir que acessem seus serviços. Isso tornará difícil pra que eles fiquem online. Mas vão continuar. Muitos usuários já migraram pro Telegram. Mas seu arquivo gigante com doxxings e alvos será bem menos fácil de encontrar.

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

AS PLATAFORMAS SOCIAIS QUE CONHECEMOS VÃO ACABAR

Não estou no Instagram nem no Facebook, mas venho notando que, no Twitter, minha timeline muitas vezes não é composta pelas 189.500 pessoas que me seguem e nem das 13.400 que eu sigo. Tá cheio de gente estranha. Muitos têm reclamado da mesma coisa.
Pra entender melhor este fenômeno (uma decisão errada das plataformas), reproduzo este ótimo artigo publicado ontem na Folha pelo advogado Ronaldo Lemos, que também é diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

Na semana passada houve muita gente furiosa com as mudanças que o Instagram está implementando. A rede social que surgiu com fotos está cada vez mais tornando-se uma plataforma para vídeos curtos e ficando cada vez mais parecida com o TikTok. Após protestos de influenciadores importantes (como as irmãs Kardashian) o Instagram voltou atrás em algumas das mudanças. No entanto, as reclamações só atrasam o processo. A mudança do Instagram (e do Facebook como um todo) é profunda e inevitável.

Mais do que isso, a reconfiguração das plataformas da empresa tem o potencial de produzir impactos enormes não só sobre a indústria de tecnologia, mas para a sociedade como um todo. Por isso é importante entender exatamente o que está acontecendo.

O Instagram e o Facebook estão gradativamente abrindo mão do chamado social graph. O termo em inglês diz respeito às pessoas que você se conecta, que decidem seguir você e que você segue. Em um mundo em que as instituições coletivas estão cada vez mais enfraquecidas, a sua rede social é o que existe mais próximo no mundo digital de uma comunidade. É a sua tribo no mundo online, as pessoas que você decidiu acompanhar a vida e que decidiram acompanhar a sua.

É dessa comunidade que o Facebook e o Instagram estão querendo se livrar. A ideia é que quando você entrar nessas plataformas, o conteúdo que aparece para você não venha mais das pessoas que você decidiu seguir.

O algoritmo vai buscar conteúdos produzidos no mundo todo, por pessoas que você não sabe quem é e que podem nem viver no mesmo país, e mostrar aquele conteúdo para você caso determine que é algo que pode te interessar.

Em vez de comunidades, as pessoas vão se conectar com uma massa amorfa e abstrata, com a qual não têm nenhuma conexão direta. Para quem produz conteúdo isso torna o jogo totalmente diferente. Você não vai falar mais para uma plateia que é sua. Cada conteúdo que postar vai competir por atenção com outros conteúdos postados no mundo inteiro. Sabe-se lá onde seu conteúdo irá chegar e, na maioria dos casos, chegue somente para desconhecidos ou não chegue a lugar nenhum. Em outras palavras, é você contra o mundo.

Atualmente cerca de 20% dos conteúdos que já são mostrados para os usuários no Facebook e Instagram não vêm mais do social graph, mas diretamente da decisão do algoritmo onisciente que fica pinçando o que acha que você vai gostar. A ideia é subir esse percentual. Qual o teto? 60%? 80%? Hoje ninguém sabe.

As consequências sociais disso são profundas. Se o ocidente já vive uma crise de individualismo exacerbado, essas mudanças (que estão sendo puxadas pelo TikTok) têm a capacidade de aprofundar a atomização das pessoas. Elas dinamitam o último bastião de coletividade ainda possível no universo digital. Nossa tribo será uma só: o algoritmo. Vai importar cada vez menos quem você segue. O algoritmo vai gerar um broadcast incessante e probabilístico, baseado na medição dos nossos estados mentais mais subjetivos. Nuvens de conteúdos globais vão viajar como aves migratórias parametrizadas.

Nas redes ditas sociais você estará sozinho, relacionando-se principalmente com fantasmas e ilusões plantadas na frente dos seus olhos por um software onisciente.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

CORONEL SIQUEIRA NÃO MORREU (AINDA BEM)

1o update em 30/11, 21h. Dez minutos antes de eu publicar meu post, (leia antes, se estiver boiando nessa história), Coronel Siqueira publicou um texto na Carta Capital chamado "A quem interessa matar o Coronel Siqueira?". Primeiro tem uma introdução categórica da Carta: "Jamais alguém chamado Sergio Liotte enviou textos para a revista".

Em seguida o Coronel conta que mora na Espanha e que usou uma conta criada em dezembro de 2019 para estrear o personagem, mas que nunca quis se expor, apenas se divertir, e que sempre recusou pedidos de entrevistas e lives. Apenas aceitou escrever a coluna pra revista. 

E que ontem recebeu um telefonema da sua mãe, assustada depois de ler que o criador do Coronel tinha morrido. Mandou email pra DCM, falou com o Fabrício que, segundo ele, insistiu em saber seu CPF. O Coronel diz que viu um pedaço da live até "a hora que a moça falou que a foto era de um tio. Ali vi que era realmente tudo uma farsa rocambolesca". E desativou todas as suas contas (o perfil @direitasiqueira voltou hoje, junto com o texto, mas ele disse que vai dar um tempo. E deixou um email de contato: 11coronelsiqueira11@gmail.com 

Bom, a mim ele convenceu e eu mudei de opinião de novo. É ele, alguém cujo nome real eu desconheço, e não o Liotte o Coronel Siqueira. Não concordo com o tom conspiratório do seu texto, como se o DCM quisesse derrubá-lo ou expô-lo ou ficar com seu perfil. Creio que o DCM quis fazer o que qualquer site jornalístico quer: dar uma notícia com exclusividade. Também discordo que ontem o Coronel foi "eleito o inimigo da esquerda punitivista, viciada em cancelamentos, agindo sempre como matilhas". O que toda a esquerda fez foi lamentar a morte do Coronel e destacar como ele fará falta. Isso não me parece exatamente um cancelamento. 

Ninguém o viu como inimigo. O personagem Coronel Siqueira é praticamente uma unanimidade -- todos da esquerda gostam. A dúvida era se Liotte, que de fato morreu, e que de fato era marido de Patrícia, era ou não o criador do perfil. E se quem estava continuando com o perfil era o verdadeiro e único Coronel ou um dos cinco colaboradores que a viúva disse que havia. Muita gente não acreditou nela e na versão do DCM. 

Acho também que talvez a situação pudesse ter se resolvido mais rapidamente e sem tanto drama se o Coronel e Fabrício tivessem conversado, se o DCM tivesse perguntado à viúva sobre a foto do perfil (afinal, aquilo é o mais estranho: ela não precisava ter contado a história elaborada do tio comunista), se o Coronel tivesse seguido com o perfil e se defendido, publicando uma versão do texto ontem mesmo, se a Carta tivesse dito ontem o que só disse hoje sobre nunca ter recebido textos do Liotte (a Carta, pra mim, mostrou a mesma dificuldade de se comunicar com os leitores que tem a grande imprensa). 

Pelo que vi, o DCM ainda não se manifestou depois do texto do Coronel. Vi apenas uns tuítes do Fabrício dizendo que estavam respeitando o luto de Patrícia e esperando que ela mostre as provas que disse ter. Meu palpite é que ela não vai mais querer falar disso, e sobrará pro DCM se explicar e, talvez, admitir a barrigada (um erro jornalístico que não é necessariamente resultado de péssimas intenções).

Eu fico feliz que o Coronel não morreu. 

A "MORTE" E OS MISTÉRIOS DO CORONEL SIQUEIRA

Ontem à noite a internet, ou a parte progressista da internet, entrou em polvorosa com a suposta morte de um perfil muito querido e admirado, o Coronel Siqueira. O @direitasiqueira, que existia desde meados do ano passado, divertia a esquerda (e enganava quem não entende ironia) ao fingir ser um bolsonarista fanático. Nas entrelinhas, era evidente que era um admirador do Lula e do PT. 

Ontem às 9 da manhã morreu de pancreatite aos 48 anos o advogado e mestre em Geologia Sergio Vicente Liotte. Eu não o conhecia, mas ele me seguia no seu perfil no Twitter. Às 14 horas de ontem, Patricia Liotte, viúva de Sérgio, escreveu no Twitter: "É com imensa dor e pesar que informo o falecimento do meu marido, Sergio Vicente Liotte, na data de hoje. Agradeço as manifestações de pesar de todos os amigos".

Quanto a isso não resta dúvida. Existiu um homem chamado Sergio que morreu ontem, muito jovem, lamentavelmente. Patricia era sua esposa e Jessica, sua filha. O velório e enterro acontecem hoje. Meus pêsames à família. 

À noite, o Diário do Centro do Mundo (DCM) publicou uma matéria assinada por Fabrício Rinaldi dizendo que Sergio Liotte era o criador do Coronel Siqueira e havia morrido. A matéria cita Patricia, que explica que o Coronel estava no CPF do Sergio, que havia compartilhado o perfil com outros colaboradores para que eles também postassem "no estilo do Coronel": "Agora o Siqueira está mais democrático. Quem está postando mais é um pessoal de Porto Alegre. Eu estou com pouco tempo. Estou com minha mãe internada, caso grave".

Patricia também fala do rosto que aparece no perfil de Siqueira: "O rosto do Siqueira era o do meu tio, comunista doente, falecido em 2018 quando essa Bozo já tinha sido eleito. Tributo a um assistente social que trabalhou por 40 anos em creches municipais de SP". 

Antes, Fabrício trocou mensagens com quem ainda estava com o perfil do Coronel, pedindo para entrevistá-lo, avisando que fariam uma live na TV DCM com a viúva. Nesses tuítes, o Coronel diz que não conhece Sergio e que irá "processar quem quer que seja". 

Minutos depois do DCM publicar a matéria, o Coronel desmentiu a notícia: “Gente, que barrigada do DCM foi essa?” Eu caí. Fiz um tuíte afirmando que, se o Coronel Siqueira apareceu pra se dizer vivo, eu iria acreditar nele. Ele então me enviou umas três DMs (direct messages) dizendo estar chateado com aquilo tudo, sem saber o que estava acontecendo ou por que estavam fazendo isso. 

Em seguida, algum seguidor me enviou o link pra live do DCM, que trazia Patrícia em cores e ao vivo repetindo o mesmo que havia dito para Fabricio na matéria escrita. Ela, que também é advogada, falou que iria processar a pessoa que continuava usando o perfil. Os ânimos estavam acirrados na live. Fabrício e o diretor de redação do DCM, Kiko Nogueira, também falaram em processo e em investigar para descobrir quem continuava por trás do perfil, se passando pelo Coronel. 

Durante a live, duas coisas importantes ocorreram: primeiro, a Carta Capital publicou um texto não assinado afirmando que Siqueira "segue vivíssimo", e que "a pessoa por trás do perfil" foi pega de surpresa, não conhece Sergio, e que só ele é o criador e autor das postagens do Coronel Siqueira, sem colaboradores. 

A Carta, que tinha/tem o Coronel como colunista (provavelmente pago, então não tem como a revista não saber quem ele é), mencionou que Patrícia havia dito que a foto que ilustrava o perfil do Coronel era de um tio dela, mas mostrou um print de um email de março de Siqueira dizendo que a imagem era do site This Person Does Not Exist, que gera rostos através da inteligência artificial. Teria sido bem esclarecedor se o DCM tivesse questionado a viúva sobre essa ponta solta de sua história.

A segunda coisa importante que aconteceu durante a live é que o perfil Coronel Siqueira no Twitter foi tirado do ar. No Instagram também, ao mesmo tempo, o que desmonta a tese de que foi derrubado. Quem o removeu tem a senha e decidiu removê-lo. Agora, por quê? Se o perfil é seu, você fica e prova que é seu. Não o retira após ser ameaçado de processo. Pra mim e pra muita gente, soou como uma confissão de culpa. 

Aí eu fiquei pensando: eu acompanhava muito o Coronel no Twitter. Dava RT em vários de seus posts e ele nos meus (tínhamos/temos praticamente o mesmo número de seguidores, uns 175 mil). Muitas vezes respondíamos os tuítes um do outro. Nesses quase dois anos de convivência, sabem quantas DMs o Coronel me enviou? Zero. E aí ontem me envia logo três? Tudo bem que ele nunca tinha morrido antes, mas eu deveria ter desconfiado naquele instante. Depois outras pessoas vieram me contar que também receberam DM dele, antes de deletar o perfil (quando o perfil desaparece, as DMs também somem). 

A essa altura o Twitter já estava um pandemônio, apesar do UOL ter publicado uma matéria comprovando boa parte do que a viúva e o DCM disseram (menos sobre a tal da foto polêmica). Tinha gente aproveitando pra declarar que o DCM mente sempre (é impressionante como tem gente de esquerda que odeia o DCM e o Brasil 247), gente julgando a viúva e determinando regras de etiqueta sobre luto (basicamente: você não pode fazer uma live no mesmo dia em que seu marido morreu, mesmo que todo mundo esteja falando sobre ele), gente falando que deveríamos focar na votação sobre o orçamento secreto, gente especulando que o DCM quis acabar com o Coronel porque ele gostava do PCO (não me perguntem que eu também não entendi), gente muito chateada com o fim do perfil do Coronel... E isso que eu perdi o Spaces comandado pelo JairMeArrependi, outro perfil anônimo fabuloso (pô, por que a galera faz Spaces se o troço nem fica gravado?!).

Hoje de manhã uns três perfis bastante hostis vieram me dizer a mesma coisa: que eram amigos pessoais do verdadeiro Coronel (que não seria o Sergio) e que ele estava muito decepcionado comigo. Um me contou que o perfil sempre foi administrado da Europa, não de Porto Alegre, e acusou a viúva de delírio. Outro tentou responder a minha pergunta mais frequente: por que Patrícia mentiria? A resposta do "amigo (anônimo) do Coronel" foi que talvez Sergio tivesse mentido pra esposa e a filha (que foi bastante atacada e deletou seu perfil). Um outro justificou que o Coronel não tem que aparecer nem provar nada, porque senão seria marcado e perseguido. Pra mim, que sou marcada de morte e perseguida há mais de dez anos, é estranho ler algo assim. Parece que coragem é um item em falta no mercado.

Também agora de manhã, o DCM escreveu que a Carta Capital mentiu em sua matéria. Numa troca de mensagens (que o DCM infelizmente não conta entre quem), um jornalista da Carta escreveu ontem: "Morreu o criador da conta [do Coronel]. Tem outros cinco administrando, mas acabaram de derrubar a conta dele". A revista Fórum (outra publicação de esquerda, assim como o DCM, o Br247, a Carta) confirmou isso, mas depois publicou outra resposta da Carta: "nós nunca nos comunicamos com alguém de nome Sergio Liotte. Apenas com a pessoa que, até ontem, manteve acesso de fato ao perfil Coronel Siqueira. Os canais de contato que mantemos com essa pessoa desde o início da colaboração, no início do ano passado, seguem operantes”.

Se Sergio era de fato o criador do perfil e há mais de uma pessoa colaborando, como conta Patrícia, o que elas deveriam ter feito, a meu ver? Lamentar a morte do criador, e anunciar que o perfil (a criação) continuaria. E pronto, não haveria problema algum. Agora, se Sergio não tem nada a ver com a história, a viúva deveria se explicar. Algo me diz que ainda vamos ouvir falar bastante nesse imbróglio. Espero que não chegue aos tribunais. Ninguém merece isso.

O que me leva a refletir sobre a fragilidade das informações e dos relacionamentos na internet. Isso tudo me lembrou demais uma situação que vivi em 2012. Uma comentarista querida, inteligente e frequente do meu blog, a Niemi, "morreu". Só que pouco depois começaram a chegar desconfianças sobre a doença que a levou a sua morte. Depois concluiu-se que não existia uma Niemi com aquele nome. Mais tarde, que a foto que ela usava pertencia a outra pessoa. Mas eu só me convenci mesmo que Niemi não tinha morrido ao receber um email considerando desrespeitoso duvidar de sua morte. Mesmo que o email não estava assinado por Niemi, veio da conta dela! Putz, não teria sido tudo mais simples e menos melodramático se Niemi apenas tivesse deletado todos os seus perfis? 

Bom, agora tenho que preparar e dar aula, que a vida real não para aqui fora. Atualizarei o post com novas informações. Só que o primeiro update já ficou tão longo que vou colocá-lo num post separado, ou ninguém vai vê-lo (aqui, ó!).