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segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

PRIVATIZA QUE DÁ CERTO

Ontem às 13h15 a mina 18 da Braskem rompeu sob a lagoa Mundaú, próxima ao bairro Mutange, em Maceió. Imaginem os prejuízos para a fauna e a flora no local. 

Esta é apenas uma das 35 minas que a Braskem mantém em Maceió, transformando a cidade num queijo cheio de buracos. A empresa, que extrai sal-gema, começou a funcionar nos anos 1970, durante a ditadura militar.

Desde 2018, a capital de Alagoas já teve 60 mil pessoas afetadas e 14 mil residências evacuadas. Cinco bairros inteiros sofrem com o que a mineração da empresa Braskem vem fazendo. 

É um crime ecológico e social sem precedentes, que atinge 20% da área urbana de Maceió. E não estamos falando de uma cidadezinha, mas de uma capital que é a 16a maior cidade do Brasil, segundo o Censo 2022. O escândalo da Braskem representa o maior desastre ambiental em área urbana do Brasil, e um dos maiores do mundo. 

Pra quem quiser saber mais sobre a tragédia planejada da Braskem, este documentário explica tudo. É revoltante. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

GARIMPO, INDÚSTRIA GENOCIDA

Verdade: não é um ou outro garimpeiro, é uma indústria que vive de exploração, destruição ambiental e genocídio indígena.

E o que a gente tá achando dos OVNIs?

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

COMO O CAPITALISMO CONSOME O NOSSO TEMPO

Tirado daqui. Muito obrigada pela tradução, Koppe querido!

sexta-feira, 29 de abril de 2022

NÃO TEM PICANHA NO McPICANHA

No topo à direita algo muito parecido com picanha. Mas só na foto

A piada da semana de como o Brasil virou uma terra de ninguém em que vale tudo foi o McPicanha. O McDonald's realmente achou que tava tudo bem colocar como o nome de um hambúrguer um ingrediente que não tem no hambúrguer!

Quem descobriu que o McPicanha não continha picanha foi a página Coma com os Olhos, que faz resenhas sobre lanches no Instagram. Ela descobriu que, inicialmente, o hambúrguer era feito com a carne pic, chamada assim internamente pela rede, mas que, a partir do início do mês, foi substituída pela carne 3.1, da linha "Tasty".  

A explicação do McDonald's foi ridícula: que esse nome visava "proporcionar uma nova experiência ao consumidor" e, para isso, o hambúrguer vinha com "a novidade do exclusivo molho sabor picanha (com aroma natural de picanha)". Ou seja, não tem nada de picanha no negócio. Nem o molho é de picanha, só de aroma artificial. 

Depois da repercussão, e depois do Ministério da Justiça pedir explicações, e do Procon-SP notificar, e do Conar repreender, o McDonald's decidiu tirar hoje os McPicanha do cardápio. Pode ser que haja "apreensão, suspensão e proibição do produto, multa ou até mesmo a cassação da licença do estabelecimento", segundo as notícias. Como o produto não existe mais, resta a multa ou a cassação -- que obviamente não vai acontecer.

Pior que a propaganda enganosa foi a nota da rede: "Pedimos desculpas se o nome escolhido gerou dúvidas". Ué, não gerou dúvida nenhuma! Se tinha picanha no nome, o consumidor pensava que o hambúrguer era feito de picanha. Ou, sei lá, pelo menos um tiquinho de picanha na composição da carne? E, no início, a linha tinha picanha. O McDonald's trocou o produto sem trocar o nome. Mentiu para o consumidor!

O McPicanha custava cerca de R$ 42, caro pacas. Eu não sou consumidora habitual do McDonald's ou de outras redes de fast food. A última vez que eu comprei um hambúrguer no McDonald's foi antes da pandemia, quando existia a promoção de dois x-búrguers por R$ 15, e aquilo era a coisa mais barata do aeroporto, disparado.

Uma rede de fast food iria colocar uma carne tão nobre no seu menu? Então não podia chamar o produto de McPicanha! Ano passado o preço da picanha aumentou 25%. E também no ano passado o brasileiro consumiu menos carne vermelha em 25 anos. Como informa a coluna de Victor Ximenes no Diário do Nordeste, a média foi de 26,5 quilos por habitante. Isso representou 40% a menos que em 2006, que registrou o consumo mais alto da história: 43 quilos por habitante. 

Ou seja: durante a era Lula o brasileiro nunca comeu tanta carne. Na era Bolso, não tem picanha nem no McPicanha.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

TOURO DE OURO, OURO DE TOLO

Terça-feira passada foi inaugurada no centro de São Paulo o "Touro de Ouro", uma enorme estátua feita pelo artista plástico e arquiteto Rafael Brancatelli sob encomenda para a B3 (que, fiquei sabendo agora, antes se chamava Bovespa). 

Um dos faria limers responsáveis pela instalação da estátua de uma tonelada em fibra de vidro tem um programa na Jovem Klan em que ele grita "Vai, tourinho!" quando a bolsa sobe, se eu entendi direito. Esse cidadão de bens vê a escultura como um presente para SP e diz que esculturas de touro "representam o otimismo com o mercado financeiro".

Otimismo de quem? Na Praça da Sé, a 350 metros da frente do edifício da Bolsa de Valores, famílias sem teto dormem em barracas. Na bolsa, agora adornada por um bezerro de ouro, homenageia-se o deus mercado.

Já que o touro é visto como símbolo do capitalismo, não tem como a estátua não representar a desigualdade econômica e social no país. No dia seguinte à inauguração, os movimentos Fogo no Pavio e Raiz da Liberdade colaram um cartaz escrito "Fome" na escultura. Segundo a integrante Tabata Luz, o protesto foi "um recado direto ao governo Bolsonaro e a toda a elite brasileira que sustenta o presidente". Em setembro, manifestantes do MTST (Movimentos dos Trabalhadores Sem Teto) e da Frente Povo Sem Medo já haviam protestado contra a fome, ocupando o saguão da Bolsa. 

Na quinta, o movimento Juntos fez um escracho, colando lambes de "taxar os ricos" na estátua e lançando a campanha "Nem a fome, nem os bilionários deveriam existir: taxar os ricos para combater a crise". À noite, a ONG SP Invisível distribuiu churrasquinhos em frente à estátua. 

Guilherme Boulos, candidato do Psol ao governo de SP, entrou com uma ação popular pedindo que a prefeitura retire o touro. Para ele, o espaço público está sendo usado indevidamente. Mesmo assim, a escultura tem autorização para ficar no local por apenas três meses. Até lá, suponho que seja palco de protestos diariamente.

Muita gente anda dizendo que o Touro de Ouro é uma cópia da famosa "Charging Bull" (touro em investida), colocada clandestinamente em Wall Street, Nova York, em dezembro de 1989 pelo escultor Arturo Di Modica (que morreu em fevereiro). Tanto que a família do escultor parece estar pensando em processar o escultor brasileiro. 

Para O Partisano, "Deve ser algum tipo de humor inglês, pois o boi brasileiro claramente não é uma réplica do estadunidense – como aliás o próprio Brancatelli faz questão de reforçar. Feito com estrutura de aço e fechamento de fibra de vidro pintada de dourado, o bicho de uma tonelada lembra mais um boneco de carrossel que o Charging Bull de Wall Street. Nada da sutil musculatura e as costelas visíveis produzidas pelo siciliano: em seu lugar uma massa amorfa. Os chifres estão na horizontal, ameaçando os olhos dos transeuntes; o rabo apoiado no costado – provavelmente por falta de estrutura – parece espantar moscas e não ensejar um ataque; os glúteos avantajados dão a entender que o animal era frequentador de alguma academia de Faria Limers; curiosas argolas próximas aos cascos, nas quatro patas, lembram mais uma tornozeleira da Polícia Federal que os mocotós de um bovino saudável; a feição apaspalhada de quem ouviu uma piada e não entendeu talvez remeta à mentalidade de seus idealizadores". 

A escultura de Wall Street rapidamente se tornou uma atração turística. De tanto serem esfregadas, as bolas do touro já mudaram de cor. Alguma superstição promete que tocar os testículos de um boi traz prosperidade. Por aqui, já pipocam fotos de pessoas sem a menor vergonha com as mãos no saco do touro de ouro.

E lógico que o touro de Wall Street coleciona protestos anticapitalistas. Aliás, um dia antes da inauguração da estátua dourada em SP, o movimento Occupy Wall Street, que reuniu milhares de pessoas em vários lugares do mundo para protestar contra a ganância e corrupção, com aquele slogan bacana do "Nós somos os 99%", completou dez anos

Em 2019, ambientalistas jogaram sangue falso no touro de Wall Street, e uma manifestante do grupo Extinction Rebellion ficou de pé na estátua com uma bandeira verde. O protesto reproduziu um cheque de vinte bilhões de dólares, simbolizando como o mercado financeiro tem subsidiado a indústria petroleira.

Mas meu protesto favorito contra o touro nova-iorquino nem é um protesto de fato. 

Em 2017, na véspera do Dia Internacional da Mulher, surgiu em frente ao "Charging Bull", também ilegalmente e de surpresa, uma estátua de um metro de uma menina que ficou conhecida como "Garota Destemida". Di Modica não gostou nada da escultura feita por Kriten Visbal e disse que ela "distorcia a impressão" da sua arte. 

Apesar da beleza e simbologia da estátua da garota (uma corajosa menininha de um metro enfrentando um touro gigantesco), a Menina Destemida é uma peça publicitária do próprio mercado, criada por um empresa do ramo financeiro para incentivar a entrada de mulheres nos negócios. Ou seja, um exemplo do capitalismo se apropriando do feminismo. A estátua ficou treze meses encarando o touro, e depois foi recolocada a três quadra de distância -- já fazia três anos que ela não desafiava mais o touro. Sua licença expira agora, em 29 de novembro, e a prefeitura de NY ainda tem que decidir se vai deixá-la lá, colocá-la em outro lugar, ou despejá-la de vez.

Independente da intenção original de seus autores, estátuas representam coisas, pessoas, ideologias.  No Brasil de Bolsonaro, cada vez mais afundado na miséria, em que os pobres comem ossos e pés de galinha, uma cafona estátua dourada lembra demais o gado que idolatra o falso messias. 

Sem falar que este deve ser o pior timing possível para se fazer uma homenagem ao capitalismo. O planeta inteiro empobreceu com a pandemia (que ainda não acabou), mas a concentração de renda só aumentou. Os bilionários não faliram. Pelo contrário, lucraram com a desgraça alheia. No Brasil, o 1% mais rico era dono de 46,9% das riquezas do país antes da pandemia. Agora, é dono de 49,6%, praticamente a metade. É exatamente isso que o touro dourado celebra.

UPDATE em 24/11/21: O touro de ouro foi removido pela B3. A Comissão de Urbanismo de SP decidiu que a estátua era uma peça publicitária e não tinha licença para estar lá. A empresa Dmaisb, responsável pela peça, será multada. Que vexame, hein? A Bolsa de Valores mais uma vez pondo seus interesses como se fossem representativos do povo...

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

EXPLICANDO CAPITALISMO PARA ALIENÍGENAS

Este quadrinho inspirador (clique para ampliar) é do Existential Comics. A tradução é do meu querido leitor antigo Koppe.

E este muro foi uma leitora que mandou pra mim outro dia: "a única minoria perigosa são os ricos".

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

UM PATROCÍNIO INGRATO PARA AS JOGADORAS DE XADREZ

A mãe de um aluno de xadrez do maridão, uma leitora frequente do blog, me pediu pra escrever sobre isso, então lá vai. 

Você quer a boa ou a má notícia antes? Vamos começar pela boa: a FIDE (Federação Internacional de Xadrez, em francês) fechou o maior contrato de sua história com uma empresa para patrocinar o xadrez feminino. A FIDE já determinou que 2022 será "o ano das mulheres no xadrez".

Maravilha, né? Agora a má notícia: o contrato é com a Motiva, uma empresa que lida com aumento dos seios e implantes de silicone, através de cirurgias plásticas. 

Obviamente, várias jogadoras (anônimas) criticaram a medida no site Lichess. Uma delas questionou: "O xadrez, um jogo que depende do cérebro em vez dos peitos, não deveria se distanciar dessa linha de pensamento misógina e reducionista?" Outra declarou: "Nojento". Uma jogadora afirmou ao jornal britânico The Guardian: "A FIDE não tem um bom histórico em empoderar mulheres e eu acho degradante e humilhante que uma atividade como o xadrez, que é tão cognitiva, seja patrocinada por uma empresa que lucra com a insegurança das mulheres. Eu realmente duvido que a FIDE traria uma empresa de aumento peniano para patrocinar o Campeonato Masculino". 

Concordo! Mais uma jogadora apresentou um ótimo argumento: "Já vi comentários online de gente dizendo que espera que a premiação para eventos femininos agora inclua aumento dos seios. Vi piadas citando nomes de jogadoras que 'melhorariam' se fossem contempladas. O xadrez sempre tem lidado com o machismo, e essa nova medida não ajuda em nada a brecar isso". 

Já a jogadora norueguesa Sheila Barth Stanford defende que "Nós desesperadamente precisamos de patrocínio. Já jogamos por muito menos dinheiro que os homens. Espero que este patrocínio facilite que as mulheres possam jogar profissionalmente". 

O primeiro torneio feminino com patrocínio da Motiva já aconteceu, na Espanha. Uma jogadora de Luxemburgo, Fiona Steil-Antoni, apontou que o único material promocional distribuído pela empresa foram panfletos mostrando como fazer o auto-exame mamário. A Motiva também gosta de reforçar que implantes de silicone são usados não apenas esteticamente, mas para reconstrução de mamas de quem passou por uma mastectomia.

Pros leigos que não entendem como um jogo mental (e também físico) como xadrez precisa ser separado em mulheres e homens, a resposta é bastante simples. Primeiro que a maioria dos torneios é "absoluta", ou seja, pessoas de qualquer gênero e idade podem jogar. Porém, assim como há campeonatos por idade (sub-4, sub-8, sub-12, sub-18 etc), também há torneios só para mulheres. Isso porque há muito mais homens que jogam xadrez do que mulheres, principalmente em nível profissional. Só pra saber: existem 1.694 grandes mestres (a titulação mais alta no xadrez) no mundo (14 são brasileiros). Desse total, apenas 38 são mulheres. Uma diferença gigantesca!

Ah, mas xadrez não tem a ver com inteligência? Claro, mas não só isso. Tem a ver com interesse também. O que a gente vê muito é que, além de meninos serem encorajados a jogar muito mais que meninas, quando chega a adolescência várias garotas são direcionadas a adotar outras atividades mais "femininas". Sem falar que clubes de xadrez muitas vezes são ambientes machistas. Como atesta o maior campeão da atualidade, o norueguês Magnus Carlsen, “Clubes de xadrez não têm sido muito gentis com mulheres ao longo dos anos”.

Pense num país sem tradição no xadrez. A chance de sair um campeão mundial de um país como o Brasil, por exemplo, é infinitamente menor que a Rússia produzir um campeão, já que lá xadrez é jogado por boa parte da população. Quanto mais gente joga, mais gente vai se destacar. Por isso é tão importante a excelente série da Netflix O Gambito da Rainha. Ela incentiva meninas (e meninos também) a jogarem. A série, junto com a pandemia, que faz as pessoas ficarem mais confinadas em casa, causaram um boom internacional no xadrez. 

E é por isso também que a FIDE ter escolhido como patrocinadora uma empresa de implante de silicone é tão irresponsável. A FIDE deveria aproveitar a popularidade da série O Gambito da Rainha para atrair mais meninas. Fazer meninas e mulheres pensarem criticamente no seu corpo faz exatamente o contrário: pode afastá-las dos esportes e de atividades intelectuais. 

Já contei sobre um estudo que foi feito nos EUA em 1998 (aliás, tem vários parecidos) com 72 universitárias. Cada uma era chamada individualmente a um vestiário. Metade da amostra ouvia que daqui a pouco teria que provar um maiô. A outra metade ouvia que teria que provar um suéter. Enquanto esperava, cada moça respondia um teste de matemática. Adivinha quem se saiu muito melhor no teste? As mulheres que iriam provar um suéter. As que iriam provar um maiô ficaram ansiosas com seu corpo, preocupadas demais sobre como se sairiam num maiô, e isso afetou suas habilidades matemáticas.  

E aí? Não será que associar jogadoras de xadrez a aumento dos seios possa causar uma ansiedade parecida? 

Silvio, meu marido, que dedica sua vida ao xadrez faz meio século (desde os 13 anos), lembra outro detalhe. 

Digamos que um fabricante de armas de fogo quisesse patrocinar o xadrez. Armas têm muito mais a ver com o jogo/ arte/ esporte que implantes de silicone, certo? Afinal, o xadrez é sempre comparado a uma batalha, uma guerra, uma luta, um embate. Mesmo assim, a FIDE deveria aceitar ter uma empresa armamentista como patrocinadora?

E a indústria tabagista? E a de álcool? E se uma firma de acompanhantes de luxo quisesse patrocinar os torneios femininos? Ou patrocínio é patrocínio e o que importa mesmo é que entre dinheiro para o esporte? 

sexta-feira, 18 de junho de 2021

A CLASSE MÉDIA LAMBE AS BOTAS DOS RICOS

Eu sempre me dei conta que a classe média de países não muito avançados como o nosso detesta os pobres e idolatra os ricos. Mas algo que reparei nos últimos anos é como a classe média está muito mais próxima de quem ganha um salário mínimo pra baixo do que de quem ganha, sei lá, 100 mil reais por mês pra cima. Ela sempre se identifica com os ricos. Adora bilionários, crê em meritocracia, e pensa que o pobre é pobre por ser preguiçoso. Quando algum governo ameaça aumentar impostos para os muito ricos, a classe média é a primeira a ser contra essa pouca vergonha. 

Enfim, o cartum do Gilmar resume perfeitamente esse pensamento. 

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

APAGÃO NO AMAPÁ PROVA QUE PRIVATIZAR É PÉSSIMO PARA O POVO

Em plena pandemia, o Amapá está um caos. O apagão que tomou o Estado já chegou ao décimo dia. Imagine o que é não ter acesso à luz, água, internet etc durante tanto tempo! Imagine também que o resto do país levou um tempão para registrar essa catástrofe!

No dia 3 de novembro à noite, um incêndio atingiu a subestação de energia elétrica localizada na Zona Norte da capital Macapá, deixando 13 cidades sem energia elétrica. O Ministério de Minas e Energia se pronunciou na segunda, dia 9, dizendo que a situação está normalizada, mas é mentira. Em vários bairros de Macapá, não há nem energia de seis em seis horas. Os bairros ricos, óbvio, não sofrem com o racionamento. 

A Justiça determinou que a situação volte à normalidade, mas o prazo venceu ontem e o caos continua, o que indigna a população. Já houve mais de quarenta protestos. As eleições municipais de domingo foram adiadas no Estado.

A responsabilidade pelo apagão é da empresa privada espanhola Isolux. E, lógico, do governo e sua sanha privatista. Pra variar, quando uma empresa particular que vende caro o que deveria ser um direito (a energia elétrica!) causa estragos, quem tem que resolver o problema não é a empresa, mas o governo! 

O Amapá possui quatro hidrelétricas. Sua importância para o funcionamento do Brasil é gigantesca. E no entanto os amapaenses pagam a conta de luz mais alta do Brasil. E estão há mais de dez dias na escuridão e no abandono.

Um laudo concluiu que não foi raio, não foi acidente. Foi negligência! Falta de investimentos, de manutenção dos transformadores de fiscalização. Apesar desse exemplo ilustrativo de que privatizar não é a solução pra problema algum, o governo genocida de BolsoGuedes insiste em querer vender a Eletrobras pros estrangeiros. Pros mesmos que estão promovendo o caos na vida de mais de 700 mil brasileiros neste exato momento!

Privatizar a energia elétrica em todo o Brasil vai dar certo sim! Vai vendo!

Pedi para a psicóloga amapaense Regina Salvador (Kaialamê) relatar como está a vida no seu Estado. Leia aqui, e use as hashtags #SOSAmapa e #AmapaPedeSocorro para ajudar a visibilizar o que está acontecendo no Amapá e a se posicionar contra a privatização. O próximo a passar por isso pode ser o seu Estado!

Eu queria começar esse desabafo com um "bom dia", mas as lágrimas não me permitem. Estamos no décimo dia de apagão! No início disseram que havia sido ocasionado por um raio, porém um laudo preliminar da Polícia Civil apontou que foi incêndio por falta de manutenção da empresa privada responsável.

Eu estou moída, cansada, sofrida, é assim que enxergo quando me olho no espelho, envelheci meus 40 anos nesses 10 dias.

Passamos os primeiros 6 dias no completo abandono, sem energia elétrica, sem água potável, sem comunicação, sem dignidade.

As comidas compradas para o mês que estavam na geladeira e freezer foram jogadas fora. Doeu na minha alma assistir meu caçula chorar enquanto ajuda o meu mais velho a embalar as carnes podres. Meus filhos sabem o quanto damos duro para todo os dias termos uma refeição decente.

Até o sétimo dia ficamos sem dormir nas madrugadas, com medo de invasão a nossa casa, pois a telefonia não funcionou nem para uma chamada de emergência. A comunicação pela internet está muito difícil e só dá para saber o que acontecia pelo rádio do carro, escutando a CBN, a única com transmissão.

Quatro dias atrás começou o rodízio de energia. No meu bairro, o Buritizal, o horário que temos energia é das 6 ao meio-dia e depois das 18 à meia-noite. 

Mas não é uma certeza, anteontem meus vizinhos sem aguentar mais de 16 horas sem energia e água, protestaram incendiando pneus e pedaços de pau. Nesse dia a energia foi reestabelecida em 15 minutos.

Hoje, no décimo dia, foi a primeira manhã que acordei mais disposta, talvez por ter conseguido extravasar ontem na manifestação todo o meu ódio pelo que estamos vivendo, pois não tenho outro sentimento.

Precisamos de visibilidade, pois o governo federal mente anunciando que a energia já foi reestabelecida em 70%. Não foi!

Estamos padecendo. 

Ontem um senhor paciente de hemodiálise faleceu pois seu tratamento dependeu do horário do racionamento. O Hemocentro local perdeu todo seu estoque de sangue e plasma. O Banco de Leite Materno teve também todo o seu estoque estragado. Vidas perdidas pela negligência. 

Eu peço ajuda para termos visibilidade! 

O povo Tucuju não merece passar pelo o que está passando, temos o direito a dignidade!