sexta-feira, 27 de julho de 2012

O PASSADO SEXUAL CONDENA (OS INSEGUROS)

Num post qualquer, um mascu qualquer deixou a seguinte observação (tudo sic):
"Lola, será que os tais homens, que vc diz, aceitam se relacionar com uma mulher 'experiente' somente por que hoje em dia a maioria é 'experiente'. Você não acha mesmo que a maioria dos homens realmente gostam de namorar uma mulher ou até mesmo se casar com uma mulher 'experiente', acha? Pois alem do fato de hoje boa parte dos casamentos terminarem em divorcio e a mulé levar a casa os filhos e o dinheiro do homem, o medo de levar chifre (que tipo de boçal gosta de levar chifre) ou o medo de a mulher ser uma interesseira do caramba, eu duvido que qualquer homem goste de saber que sua mulher tem má fama (de bitch) entre os conhecidos, ou até de pensar que a esposa possa ser uma 'pervertida'? Vc acha mesmo que um homem escolheria uma mulher 'experiente' se tivesse a opção de ter uma mulher 'conservadora'?"

Minha resposta (tampouco entendo por que respondo a mentecaptos machistas): Não sei como pensam a maioria dos homens. Você sabe? Sei que vivemos num mundo machista, em que muitos homens ainda separam as mulheres entre santas e p*tas, entre mulheres pra transar e mulheres pra casar, como seu tataravô já fazia. Pra boa parte das mulheres, essa divisão é, além de ridícula, insuportável. Tipo: não me considero p*ta. Nem quando tive muitos parceiros, nem quando estou monogâmica, como nas últimas duas décadas. Mas também nunca me considerei santa. Não acredito nesses rótulos, e duvido muito que você consiga defini-los. O que é, afinal, uma mulher "rodada”? (argh, que termo horrível). Quantos parceiros a mulher precisa ter pra ser considerada promíscua por você? (update: mascus têm um cálculo científico para determinar mulher rodada). Quem morreu e te nomeou deus?
E o que é uma mulher (ou um homem) experiente? É possível ter tido um parceiro só na vida e ter feito um montão de sexo com ele. Essa mulher não seria experiente? Essa também não serve pra você? Só virgem mesmo? E por que, se você exige uma mulher virgem, você não acha que você, como homem, deve ser virgem também? Tente responder essa pergunta sem recorrer a clichês como “homens e mulheres são diferentes” ou a mentiras absolutas como “mulher não gosta de sexo”.
Sobre boa parte dos casamentos terminar em divórcio, é verdade. Parece que 50% terminam em divórcio. Parece também que em 80% dos casos quem pede o divórcio é a mulher. Ou seja, em geral é ela a parte descontente do casamento. Sobre a mulher levar casa, filhos e dinheiro do homem, sim, na maior parte dos casos a mulher fica com os filhos. Sabe por quê? Porque já era ela quem cuidava mais dos filhos antes do divórcio. Porque, na maior parte dos casos, os pais não querem ficar com os filhos. Porque o machismo (não o feminismo) diz que cuidar de criança é coisa de mulher. Daí a mulher fica com os filhos, que precisam de dinheiro para comer e viver. Por isso a pensão. 
A pensão só sustenta a mulher se a mulher não trabalhava antes (e muitas vezes não trabalhava antes porque tinha que cuidar dos filhos, ou porque o casal fez um acordo para que ela não trabalhasse, ou porque o marido não permitia que ela trabalhasse). Se o homem ficasse com os filhos, a mulher também teria que pagar pensão. Não pra ele, mas pros filhos. E a casa não fica pra mulher. Se o casal casou em comunhão parcial de bens (90% dos casamentos no Brasil adotam esse sistema), considera-se que tudo que foi adquirido desde que o casal se juntou será dividido. Se a casa era da mulher ou do homem antes do casamento, esse bem continua sendo só daquela pessoa. Ou seja, você está mal-informadinho, hein? De onde você vem tirando essas informações, do DataFoda-se ou do Instituto de Pesquisa Mascu As Vozes me Disseram? E o que isso tem a ver com mulheres com muitos parceiros?
Sério, o que é “má fama”? Ter feito sexo com vários parceiros dá má fama? Numa sociedade machista, dá -- se você é mulher. Nós trabalhamos pra mudar essa mentalidade absurda. Vcs trabalham para perpetuá-la, quando não há lógica nenhuma nisso. Seria um mundo melhor pra tod@s se fazer sexo ou não fazer sexo não desse boa ou má fama a ninguém. Se sexo fosse uma coisa tão natural, tão bonita, tão legal, que nenhuma pessoa ficasse mal falada por fazê-lo. Não acha?
Não entendo a obsessão que vocês têm pelo passado da mulher. Um conhecido ditado machista é “Passado de mulher é igual a restaurante: se você conhecer, você não come”. 
Lindo, né? Mas o que o passado de alguém diz sobre a pessoa? Bom, eu acho que não perdoaria e, consequentemente, não aceitaria como parceiro, um homem que estuprou alguém. Mas um homem que fez sexo com cem mulheres? E daí? Ele fez, não está fazendo (isso se quisermos um relacionamento monogâmico, que está longe de ser a única alternativa). Mas ninguém está falando de homem. É a mulher que não é de confiança. É o corpo e a sexualidade da mulher que devem ser controlados e punidos a qualquer custo. Ignorar esse controle, que é feito há milênios, é bem desonesto. E além do mais, vcs caem em contradições o tempo todo. Afinal, segundo vcs (e só vcs), mulher não gosta de sexo. Então por que tanta obsessão em controlar a vida sexual da mulher?
É por isso que falamos em padrão duplo quando falamos em sexualidade. O que é aceito no comportamento sexual de um homem não é o que é aceito de uma mulher. Tem muito homem que considera a mulher “imprestável”, vadia, promíscua, se ela tiver tido cinco parceiros. Sabe, na vida!
Lembro bem de uma amiga minha, linda, inteligente, solteira. Ela tinha 35 anos quando conheceu um cara de sua idade que parecia interessante o suficiente pra casar (não que ela não tivesse conhecido outros caras interessantes antes). Só que o cara estava obcecado em descobrir o passado da minha amiga. Ela tinha 35 anos, ele também. O que ele esperava, que ela fosse virgem?! Se ela teve um parceiro por ano (um por ano! Super monogâmica!) dos, digamos, 17 anos (que parece ser a média com que as brasileiras têm sua primeira relação sexual) aos 35 anos, teriam sido dezoito parceiros ao todo! Puxa, que vadia! Foi um desfile de homem que passou pela cama dela!
Se fossem dezoito homens, teriam sido 18 homens que provavelmente o noivo atual nunca conheceria, ou vamos supor que conhecesse um deles: seria tão traumático cumprimentar um sujeito que, cinco anos atrás, transou com a sua noiva? Pô, ela deve ter tomado banho de lá pra cá! O carinha tinha um ciúme tão irracional do passado dessa minha amiga que eles passaram a brigar, e eventualmente terminaram o noivado. Eu só pude cumprimentá-la. Se o cara sentia ciúme do seu passado, imagina o ciúme doentio que sentiria do seu presente? Quiéisso, a mulher tem que ser fiel retroativamente? Tem que ser fiel a vc antes de saber que vc existe? Eu hein, parece coisa de O Exterminador do Futuro! Sujeitos como o ex-noivo da minha amiga são perigosos, veem mulher como posse. São esses que matam a mulher pra “limpar sua honra”.
Se mascus pregam o “desapego” e a indiferença (ou seja, não se apegar a nenhuma mulher, em suma, nunca se apaixonar), por que insistem em se apegar ao passado da mulher? Quanto o passado de uma pessoa vai afetar a sua vida? Isso vale pros dois lados, tanto pra quem teve muitos parceiros quanto pra quem não teve nenhum. Um homem ou uma mulher virgem que se relaciona com alguém pode ter dificuldades nas primeiras vezes, mas sexo não é Física Quântica, é? Com paciência, sabendo captar os sinais do outro, conversando, enfim, com um mínimo de intimidade, supera-se a falta de experiência.
Mas a ignorância em separar mulheres em santas e p*tas, em perpetuar um padrão duplo (homem com muitas parceiras = garanhão; mulher com muitos parceiros = vadia), em condenar pessoas pelo seu passado sexual -- isso parece ser insuperável para os que pararam na década de 50. Quando nem tinham nascido.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

MAIS UM MITO: OS HOMENS INVENTARAM TUDO

Em junho, o New York Times publicou um artigo falando de um caso de assédio sexual no Silicon Valley e dando tapinhas nas costas dos homens inventores (“Lawsuit shakes foundation of a man's world of tech”, ou “Processo balança fundação do mundo masculino da tecnologia”). 
O problema não estava na parte sobre o assédio sexual, e sim na suposição que toda a internet foi criada por homens (aqui tem uma boa refutação à "homens criaram a internet", que deveria ser corrigido para "homens são creditados por terem criado a internet"). Que é o mesmo argumento que os mascus fazem o tempo todo: se não fossem os homens, a gente ainda estaria no tempos das cavernas, pois tudo que temos hoje foi criado por uma brilhante mente masculina, e nós, feministas, nos aproveitamos de todos esses aparelhos e nem agradecemos os incríveis homens que nos proporcionaram todo esse conforto. Ou seja, como resumiu um troll meu num raro momento de inspiração, somos ingratas com o patriarcado.
Sempre que ouço esses argumentos (que são repetidos pelos mascus, sem exagero, pelo menos duas vezes por semana -– sério, deve ter um computador monitorando quantas vezes certas asneiras deles precisam ser repetidas), meu primeiro impulso é perguntar o que esses mascus que estão falando essas besteiras inventaram, além de vocábulos como mangina e guerreiros da real e teorias mirabolantes como aquela dos 20% dos homens pegarem 80% das mulheres. 
Aí eu penso também se esses manés já ouviram falar em contextualização histórica. Tipo assim, durante séculos, mulheres não podiam nem aprender a ler e escrever, daí ficava difícil ir pra faculdade, né? (no Brasil, as universidades abriram as portas pras mulheres 130 anos atrás, em 1879, mesmo ano da França, e um ano antes da Austrália e Canadá). Sem falar que, se é pra usar essa linha de raciocínio, foram os homens brancos que criaram tudo. E essa não seria uma colocação um tanto... racista?
Mas aí Violet Socks, da Reclusive Leftist, decidiu responder o artigo do NYT de uma maneira muito mais precisa do que eu poderia, num adorável post chamado “Patriarchy in action: the NYT rewrites history” (Patriarcado em ação: o NYT reescreve a história). Não vou traduzir tudo porque é longo, mas ela diz que é típico do patriarcado pegar o crédito pros meninos de tudo que é feito no mundo, e depois ficar reclamando por ter de compartilhar os brinquedos com as meninas.
“1) As mulheres inventaram todas as tecnologias originais que fizeram esta civilização possível. Isso não é um mito feminista; é o que os antropólogos de hoje acreditam. Mulheres inventaram cerâmica, a fazer cestas, tecelagem, tecidos, horticultura, e agricultura. É verdade: sem as invenções das mulheres, não seríamos capazes de carregar ou guardar ou amarrar coisas ou ir pescar ou caçar com redes ou empunhar uma lâmina ou vestir roupas ou produzir nossa comida ou viver em assentamentos permanentes. Chupe isso.
2) Mulheres continuaram a estar envolvidas na criação e na melhoria da civilização através da história, mesmo que vc não saiba. Escolha qualquer coisa -– uma tecnologia, uma ciência, uma forma de arte, uma escola de pensamento -– e comece a cavar o que está oculto. Você encontrará mulheres lá, eu garanto, fazendo contribuições e muitas vezes inventando a p*rra da coisa em primeiro lugar.
3) Mulheres fizeram essas contribuições apesar de barreiras incríveis. Barreiras como não poder ir pra escola. Barreiras como não poder trabalhar num escritório com homens, ou fazer parte de uma associação profissional, ou andar na rua, ou possuir propriedade. Exemplo: procure por Lise Meitner quando puder. Quando ela nasceu em 1878 era ilegal na Áustria que meninas frequentassem a escola depois dos 13 anos. Quando as leis finalmente deram uma aliviada e ela pôde ir à universidade, ela não foi autorizada a estudar com homens. Aí ela conseguiu uma posição na pesquisa mas não pôde usar o laboratório por causa de micoses femininas. A vida toda dela foi assim, mas ela ainda conseguiu descobrir a danada da fissão nuclear. Aí o comitê do Nobel deu o prêmio ao colega júnior dela e ignorou sua existência completamente.
4) Homens nas civilizações patriarcais, incluindo a nossa, têm trabalhado para diminuir ou negar as contribuições criativas das mulheres. Isso porque o patriarcado funda-se na crença que mulheres são para reprodução e homens são os únicos seres pensantes. A maneira mais fácil dos homens apagarem as contribuições femininas é simplesmente ignorar que elas aconteceram. Porque quando vc ignora alguma coisa, ela é esquecida. As pessoas da geração seguinte não ouvem falar naquilo, e então elas crescem pensando que nenhuma mulher já fez alguma coisa. E quando as mulheres na geração delas fazem coisas, as outras pessoas pensam “foi por acaso, nunca aconteceu antes na história da humanidade, ignore”. Então elas ignoram, e o negócio é esquecido.
5) Finalmente, e isso é importante: até as mulheres que não foram inventoras e intelectuais, até aquelas que realmente passaram a vida toda fazendo o estereotipado 'trabalho feminino' –- elas também construiram este mundo. O trabalho mundano da vida é o que faz possível todo o resto. Antes de poder ter cientistas e engenheir@s e artistas, você precisa ter um monte de gente (que geralmente são mulheres) que garantam o básico: cultivar e colher e cozinhar a comida, providenciar roupa e abrigo, buscar a lenha e a água, alimentar e cuidar, atender e ensinar. Toda e cada migalha de invenção e sonho e pensamento vem dessa fundação. Nunca se esqueça disso”.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

GUEST POST: SERÁ QUE É TÃO DIFÍCIL?

Infelizmente, eu não falo muito de ecologia aqui no blog, embora considere o assunto importantíssimo. Separar o lixo para coleta e reciclagem é uma forma bem pouco trabalhosa de ajudar o meio ambiente. A Shirley ensina como podemos fazer a nossa parte.

Esse guest post é um pedido de ajuda.
As pessoas falam muito em sustentabilidade, mas fazem pouco. Isso não é acusação, é fato. Eu mesma, falo muito e faço pouco. Acho que isso acontece porque falta informação sobre o papel de cada um nas questões da sustentabilidade.
Um exemplo claro é a destinação do lixo. Todo mundo fica chateado ao ler uma matéria sobre famílias que vivem nos lixões ou quando se depara com uma criança catando o lixo deixado na frente de prédios suntuosos, né? Mas, alguém já se perguntou o que pode fazer para evitar que essas cenas aconteçam?
Uma amiga minha fez isso e começou um movimento aqui na Região da Grande Vitória para mobilizar recicladores, poder público e a população para a questão do lixo.
Primeiro ela se uniu a outras pessoas e começou a pesquisar. Descobriu como os catadores trabalhavam e do que eles precisavam para desenvolver melhor o trabalho maravilhoso que já vinham fazendo. Sim, maravilhoso, porque ao dar destinação aos materiais recicláveis, os catadores ajudam a reduzir o volume de lixo direcionado aos aterros sanitários e, ainda, geram valor para suas comunidades.
A principal demanda dos catadores era bem simples: eles queriam que a população separasse o lixo seco (reciclável) do lixo úmido (não reciclável). A partir dessa constatação, esse grupo de pessoas desenvolveu um projeto para atrair a participação das prefeituras e dos moradores das cidades da Grande Vitória.
No site Separe seu lixo eles explicam a metodologia de separação em apenas dois grupos: lixo seco e lixo úmido. Trata-se de uma simplificação das primeiras propostas de separação de lixo que previam a segregação em cinco grupos (plásticos, vidros, papeis, metais e orgânicos), o que dificultava a adesão das pessoas e também a coleta seletiva.
Bom, lá no site tem bastante informação sobre isso. A estratégia já deu frutos, mas ainda são poucos.
De um lado, o poder público não dá prioridade ao assunto, como deveria.
Nem mesmo a aprovação da Lei 12.305, que formaliza a Política Nacional de Resíduos Sólidos, gerou mudança significativa.
Essa lei estabelece, entre outros itens, o prazo até agosto de 2012 para que as cidades brasileiras criem um Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos como condição para terem acesso a recursos da União. Ou seja, os prefeitos atuais e aqueles nos quais votaremos em outubro precisam agir e rápido. Ou correm o risco de ficar sem verbas federais.
Uma das ações principais é implantar coleta seletiva e promover a reciclagem dos materiais. Mas, estou convencida disso, eles só vão se mexer se nós, cidadãos, estivermos conscientes e tivermos força para cobrar.
Daí vem o outro lado: as pessoas têm preguiça até de falar em separação de lixo. A maioria alega que “não adianta separar, se depois tudo será misturado pelos lixeiros”. Bom, mais ou menos.
Na maioria das cidades brasileiras existem catadores de recicláveis que podem passar na sua casa e recolher o lixo seco. Nas cidades médias e grandes existe ao menos uma cooperativa de recicladores que pode recolher o lixo de um condomínio ou de uma rua se os moradores prometerem separar. É só ter um pouco de vontade que o seu lixo reciclável vai parar no lugar certo.
Mas o que desmonta esse raciocínio do “não adianta, blábláblá” é a constatação de que nas prefeituras que implantaram a coleta seletiva -– como Vitória (vejam aqui neste site), tem havido, primeiro, dificuldade de engajar a população na separação do lixo, e, segundo, quem se engaja não sabe separar direito e acaba contaminando os materiais.
Em média, 30% do material que chega aos recicladores da Grande Vitória vem contaminado com lixo úmido e não pode ser reciclado.
Ou seja, como disse lá no começo do texto, falta informação!
Então, eu decidi contribuir não só separando o meu lixo (o que faço há cerca de cinco anos), mas também ajudando esse grupo a alavancar o assunto na imprensa e entre os cidadãos. Minha tarefa é escrever sobre a separação do lixo para que eles possam publicar no site, no facebook, e no twitter.
Finalmente, o meu pedido, direcionado aos comentaristas do blog da Lola que moram ou moraram em países que já fazem, rotineiramente, a separação do lixo. Gostaria que vocês contassem para mim como se adaptaram, quais as dificuldades que sentiram, o que aprenderam, etc. Com esse material, eu vou redigir alguns textos contando essas histórias. A ideia é ajudar os brasileiros a enxergarem que não é tão difícil como parece.
Por favor, enviem as histórias para o e-mail separeseulixo@gmail.com. Se preferirem ficar anônimos, é só falar que eu não coloco o nome de vocês.
A todos os outros comentaristas, peço que leiam o material nos sites que indiquei e mandem-me perguntas ou sugestões.

terça-feira, 24 de julho de 2012

FALSIDADE IDEOLÓGICA


Do grande Colbert Report: "Gostaria de ler pra vcs o que Jesus disse sobre homossexualidade... Eu gostaria de ler, mas ele nunca disse nada sobre o assunto".

Diálogo entre o maridão e eu.
Eu: Um mascu veio dizer que eles não têm nada contra gay, eles só não gostam de algumas coisas que os gays fazem...
Maridão: Tipo respirar, né? Respirar realmente é uma coisa séria...
Eu: Ha ha ha, não, não, o mascu disse que não tem nada contra gays, mas isso de ficar fazendo cirurgia pra mudar de sexo e depois querer trocar de nome no RG é falsidade ideológica! Ahahahahauha!
Maridão: Esses seus amiguinhos... Vou te contar, viu.
Eu: Não são meus amiguinhos! São meus inimiguinhos.
Esta definição de homofobia parece ter sido feita sob encomenda pros mascus: "Homofobia: o medo de que homens gays te tratem da mesma forma que você trata as mulheres".

segunda-feira, 23 de julho de 2012

AS FEMINISTAS CONTRA HUGH HEFNER

A mídia vende Hugh Hefner, criador da Playboy, como um rebelde que lançou a revolução sexual contra uma América conservadora. Beatriz Preciado diz que Hefner se vê mais como arquiteto que como pornógrafo. A história real, segundo Gail Dines num excelente artigo do ano passado, é que Hefner se baseou nas ideias machistas dos anos 1940 e 50. Um dos bestsellers da época era Philip Wylie, que dizia que as mulheres eram egoístas, gananciosas, dinheiristas e burras, e que as mães e esposas americanas já tinham poder demais, e era hora dos homens recuperarem território (parece familiar?). O principal artigo do primeiro número da Playboy chamava-se “Miss Gold-Digger of 1953” (Miss Interesseira) e reclamava que, num divórcio, era sempre o homem que perdia e tinha que pagar. Ou seja, nada muito diferente do que mascus e demais machistas se queixam hoje. Puxa, já vivíamos numa sociedade b*cetista na década de 50?
Dines conta que, com o advento do feminismo, a Playboy precisava se reinventar, se não quisesse ser vista como uma relíquia macabra de tempos passados (que é a experiência que passa qualquer pessoa sensata ao ler qualquer coisa escrita por mascus de qualquer nacionalidade). Infelizmente, em 1970 vazou um comunicado de Hefner a uma secretária: “O que me interessa é a tendência altamente irracional, emocional, demente que o feminismo tomou... essas garotas são nossas inimigas naturais. Está na hora de combatê-las”. Só depois, com a grande ajuda da mídia mainstream, é que Hefner construiu uma imagem de alguém a favor da liberdade sexual e econômica das mulheres.
Esta é a imagem que aparentemente a série de TV The Playboy Club tenta transmitir. Eu só vi o piloto e não tive vontade de ver outro episódio. O que dizer de uma série em que Hefner comenta em narração em off: “As coelhinhas eram das poucas mulheres no mundo que podiam ser o que quisessem”? Parece que estamos vivendo um modismo de Sexismo Vintage, ou Machismo Retrô. Séries como Pan Am e Playboy Club são nostálgicas de um tempo –- primeira metade dos anos 60, pré-Revolução Sexual -- em que mulheres conheciam seu lugar (ha ha). Não incluo Mad Men nessa safra porque não é possível ver a série e pensar “Uau! Nessa época sim que as mulheres eram felizes!”
Um bom relato de uma moça que trabalhou no Playboy Club de verdade em 1978, quando ela tinha 17 anos, diz que a série de TV terá que fabricar muitas histórias picantes para proporcionar uma temática sexual: “Trabalhar num restaurante renderia histórias de trabalho mais saborosas”. Mas claro que o relato da ídola Gloria Steinem, feminista que se infiltrou no Playboy Club em 1963 e registrou sua experiências em Memórias da Transgressão, continua imbatível.
Steinem, aliás, pediu que as mulheres boicotassem a série de TV. Nora Ephron, na sua ironia habitual, respondeu: “Estou boicotando tantos programas de TV atualmente que talvez não tenha tempo de boicotar mais um”.
A grande roteirista e cineasta Ephron, que zeus a tenha, faleceu agora em junho, de leucemia. Ano passado ela escreveu um artigo chamado “Por que a Playboy não morre?” Ela questiona por que alguém ainda fala do Hugh Hefner ou o cita como se ele fosse um visionário importante: “Tudo que Hugh Hefner fez -– a revista, os clubes, a filosofia, as camisetas, as chaves, os adesivos, a marca –- foi depositado na loja de lixo da vida do século 20, onde pertence. As ações despencaram. A circulação da revista caiu. Os clubes foram fechados, um a um”.
É verdade, mas não dá pra negar a popularidade da revista no seu auge. Nos anos 70, um quarto de todos os alunos de universidades americanas lia a Playboy. Ainda hoje, o símbolo da empresa continua popular, um dos logotipos mais famosos do mundo. Ele é usado em inocentes estojos e cadernos escolares para meninas, como se fosse só um... coelhinho de gravata. Para protestar contra esse condicionamento de garotas de dez anos, existem divertidos protestos feministas como o Bin the Bunny (Jogue Fora o Coelhinho), que também faz vídeos de coelhos gigantes perseguindo Hefner.
Talvez isso nem seja mais necessário nos dias atuais, já que, por causa da disponibilidade da pornografia grátis e muito mais hardcore, os números do império despencaram. Dois anos atrás a revista cortou 25% de sua equipe e anunciou um preju de mais de 10 milhões de dólares só em três meses. A revista foi posta à venda (calcula-se que por 300 milhões de dólares). Segue sendo a maior revista masculina dos EUA, mas a circulação hoje é de apenas 3 milhões de cópias por mês (era 7 milhões em 1972). Até a distribuição gratuita para anunciantes foi cortada, dos 2,6 milhões para 1,5 mi. As edições por ano foram reduzidas de doze para dez (não sei se no Brasil seguem sendo doze).
Aí fica a dúvida do que vai cair antes: a Playboy como um todo ou a imagem do seu criador como grande visionário e aliado da Revolução Sexual?