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domingo, 22 de outubro de 2017

SERES HUMANOS FRUSTRADOS

Filmes pornô e Disney são responsáveis pelos seres humanos mais frustrados que conheço, diz cartunista
Onde diabos está o meu príncipe encantado, pergunta moça.
Onde diabos está minha prostituta insaciável, pergunta rapaz. 
E você, onde está? Concorda com o cartum? (às vezes eu falo furustarados, você não?)

terça-feira, 6 de setembro de 2016

GUEST POST: PORNOGRAFIA DA VINGANÇA NÃO É PORNOGRAFIA, É VIOLÊNCIA

É com grande prazer que publico o guest post da advogada Vitória de Macedo Buzzi. Ela é a autora de um dos primeiros livros em português sobre a pornografia da vingança. 
Recebi dois exemplares do seu livro no ano passado, e doei um exemplar pra biblioteca da UFC. Ele é excelente, e você pode comprá-lo aqui. Em abril, conheci Vitória pessoalmente em Floripa, pois compartilhamos uma mesa na UFSC. E faz tempo que venho cobrando um guest post dela, mas como o tempo é curto pra todxs, demorou. 
Um pouco depois Isabela Rangel, mestranda da UFF, me enviou um email, através de um professor que conheci na UFRN. Sua dissertação é sobre revenge porn. Por coincidência, ontem mesmo ela me mandou o trabalho em pdf, que ainda não está disponível online (assim que ela me enviar o link eu compartilho aqui com vocês).
E, mês passado, recebi o livro (que pode ser downloaded gratuitamente aqui) O Corpo é o Código: Estratégias Jurídicas de Enfrentamento ao Revenge Porn no Brasil, editado pela Internet Lab, e escrito por Mariana Valente, Natália Neris, Juliana Ruiz, e Lucas Bulgarelli. 
Ou seja, pornografia da vingança é um tema importante que está começando a ser pesquisado por aqui. E Vitória é uma das pioneiras. Eis seu post, exclusivo para o blog:

Vitória de Macedo Buzzi
Quando comecei a estudar pornografia de vingança, em meados de 2013, não fazia a menor ideia das histórias -- muitas terríveis, e muitas empoderadoras -- que encontraria pelo caminho. Mesmo três anos atrás, a pornografia de vingança não era exatamente uma novidade: já em 2000, um pesquisador italiano notou a popularização, dentre os usuários da Usenet, de um novo “gênero de pornografia”, que se diferenciava dos marcadores tradicionais de hardcore e softcore por sua autenticidade e realismo total. Ele nomeou esse novo segmento de realcore pornography, ou, em português, pornografia amadora. 
Hoje, temos melhor noção de que o que até então foi entendido como pornografia amadora era, na maioria das vezes, pornografia não-consensual: vídeos e fotos de mulheres em situações íntimas ou sexualmente gráficas, gravadas ou compartilhadas por alguma pessoa sem a sua autorização. Sites e blogs inteiros dedicados à “pornografia amadora” surgiram ao redor do mundo, misturando vídeos simulados, filmados profissionalmente pela indústria da pornografia, e gravações reais, submetidas pelos usuários, muitas vezes (na maioria das vezes, na verdade) sem o consentimento das mulheres envolvidas.
Mas pornografia de vingança e pornografia não-consensual são a mesma coisa? Na verdade, não. Dá pra resumir dizendo que pornografia não-consensual é um gênero -- que vai desde gravar ou fotografar sem o consentimento da pessoa (como gravações escondidas ou gravações de agressões sexuais), até divulgar fotos e vídeos registrados com consentimento, mas divulgados sem consentimento. É neste último caso que se convencionou chamar de revenge porn -- ou pornografia da vingança, no português.
No Brasil, especificamente, a enorme maioria dos casos são de fotos e vídeos gravados com consentimento durante um relacionamento, mas que, após o término, são compartilhados com terceiros pelo ex-namorado/ ex-marido/ ex-companheiro como forma de humilhar e punir a mulher pelo fim do relacionamento,  pela recusa em reatar, por pedir pensão... As justificativas são várias (spoiler alert: nenhuma válida).
Dá pra perceber, assim, que o pornô de vingança é, infelizmente, uma prática bem popular já tem algum tempo, com casos que envolviam fitas VHS roubadas e enviadas para revistas de pornografia. O que mudou nestes últimos tempos foi a visibilidade que a mídia em geral tem dado aos casos (especialmente depois da prisão de figuras como Hunter Moore, nos Estados Unidos, que mantinha um site inteiro dedicado à pornografia da vingança), e também a facilidade de compartilhamento em massa trazida pelas redes sociais e pelos aplicativos de mensagens (sim, WhatsApp, estou falando de você!).
O problema é que a mentalidade do povo, em geral, não mudou muito. Ainda tem gente reproduzindo a mesma ladainha de que a culpa é das meninas e mulheres que gravam vídeos ou tiram fotos íntimas (muitas vezes, a pedido dos companheiros), de que mulher “de respeito” (muitas aspas aqui) não tira foto pelada, de que a única solução possível é todo mundo parar com essa história de mandar nudes.
Bom, não sei nem por onde começar. É óbvio que não tem nada de errado em gravar vídeos e tirar fotos íntimas -- errado é quem divulga isso sem autorização. E também é bastante óbvio que toda essa culpabilização das mulheres vem de construções sociais e papéis de gênero tão manjados que, em 1949, Simone de Beauvoir já tinha sacado isso: enquanto a sexualidade masculina é construída de forma pública, e suas demonstrações são incentivadas e celebradas, a sexualidade feminina é construída de forma condicionada à masculina, é privativa do companheiro, e só pode existir a serviço dele. 
Ou seja, só vale existir enquanto um ser sexual se for pra agradar o parceiro (único e fixo, de preferência). Caso aquela sexualidade (demonstrada no vídeo ou na foto) não pertença a ninguém (porque, após o término do relacionamento, não está mais a serviço do homem), ela é inaceitável. E o comportamento da mulher, por consequência, deve ser punido.
Apesar de estar aqui tentando abordar o assunto de uma forma leve e descontraída, a pornografia da vingança não é nenhuma dessas coisas. Ela já causou o suicídio de muitas meninas, desesperadas e envergonhadas demais para pedir ajuda. Ela já destruiu a vida de muitas mulheres, que perderam seus empregos e a guarda dos filhos. Ela já fez com que adolescentes abandonassem as escolas e os sonhos do futuro por humilhação e preconceito.
É esse pensamento de que a culpa é delas, e não dos caras que compartilham esse conteúdo (e sim, a maioria das pessoas que compartilham são homens, como dizem as poucas pesquisas feitas sobre o tema), que continua destruindo a vida de muitas mulheres Brasil afora. E é urgente que nós comecemos a entender a pornografia de vingança como uma forma de violência de gênero, ou seja, uma violência perpetrada contra a mulher pela sua própria condição de existência enquanto mulher.
Pesquisando sobre pornografia da vingança, fica bem evidente que as mulheres figuram porcentualmente como as maiores vítimas deste tipo de violência. Mais do que isso, é uma forma de violência que só se realiza, e só têm êxito, pela qualidade de mulher da vítima. Uma gravação íntima pode vitimar um homem -- especialmente se ele não corresponde a um padrão sexual exigido dele -- mas nunca na mesma proporção que vitima uma mulher. Porque, como eu disse, a pornografia de vingança é uma violência que, para ser bem-sucedida, depende da condição de mulher da vítima -- e de toda a carga opressiva que cerca a sexualidade feminina.
O que eu quero dizer com isso? Que, se uma mulher fazendo sexo não fosse um tabu tão grande na sociedade, a pornografia da vingança provavelmente não existiria. Que, se vivêssemos em um mundo que não culpabilizasse as mulheres pelos erros do seu parceiro, o vídeo íntimo de alguém jamais poderia ser usado como forma de vingança, porque sexualidade de uma mulher não seria moeda de troca. Que, se todos esses valores que sustentam a ideia de um homem dono da sexualidade da parceira não existissem, um homem não se sentiria empoderado por expor e humilhar uma mulher dessa forma.
É importante termos consciência de que a pornografia da vingança não é um problema simples, um ato impensado, um rompante de raiva de um parceiro contrariado. O fenômeno da pornografia de vingança resulta de uma combinação de mecanismos sociais, históricos, culturais e inclusive legais que autorizam esse tipo de ação, porque legitimam valores como a subordinação da mulher, o direito do parceiro em defender o que acredita ser sua honra, a ilegitimidade da mulher em tomar qualquer decisão sobre sua vida, sobre seu relacionamento, sobre seu futuro, a falta de autonomia da mulher sobre sua própria sexualidade, dentre outros.
Mudar esse cenário depende de educar toda uma sociedade. E transformar mentalidades não é uma tarefa simples -- mas é uma tarefa possível. Se você for vítima, não tenha vergonha de pedir ajuda. Você não fez nada de errado, e pode encontrar pessoas ao seu redor que te ajudarão a lidar com a sua dor. Se você conhece alguma mulher vítima, dê suporte, se mostre presente, não julgue. Converse com seus amigos homens, conscientize eles de que a sexualidade feminina não é motivo de risadinhas desconfortáveis, e não existe só a serviço deles. Se ouvir alguém culpabilizando uma mulher vítima, interfira. 
É só entrar e comprar o
ótimo livro da Vitória
Aja, no dia a dia, de maneira a respeitar as mulheres e suas decisões -- isso inclui respeitar escolhas que você pode não concordar. Não resuma mulheres aos papéis de loucas e irracionais -- elas podem estar confusas e desorientadas, mas, na maioria das vezes, estão apenas discordando de você. Ofereça sua ajuda. Saiba aceitar um não. E nunca, jamais, repasse pornografia que você não sabe de onde vem. A maioria dos compartilhamentos de vídeos e fotos em grupos de mensagens é feita sem o consentimento das pessoas envolvidas. Ao apertar o play, você está violando alguém. Porque pornografia da vingança não é pornografia -- é violência. 

sexta-feira, 13 de maio de 2016

MASCU DEFENDE PORNOGRAFIA INFANTIL

Anteontem os mascus sanctos aprontaram mais uma. 
Um rapaz chamado Mallone David de Morais, de 24 anos, que vive com o pai em Santo Amaro, SP, pôs no ar novamente um vídeo de 13 minutos que ele havia publicado em março. É um vídeo asqueroso em que Mallone, de cara limpa, com total certeza da impunidade, fala coisas abjetas como (trigger warning, ou aviso que essas palavras podem trazer lembranças terríveis a sobreviventes de abusos): 
- "A pornografia infantil, infelizmente, ela é crime. [...] Se você não tá fazendo mal pra ninguém, eu acho que o cara devia ter o direito de ter uma pornografia infantil, uma novinha de 11, 12, 13 anos. Eu particularmente, cara, eu quando vejo uma menininha dessa pelada, sabe, eu fico louco, cara, louco, porque é muito gostoso". 
- "Como podem essas menininhas de [7 a 13 anos] serem tão sensuais, tão atraentes, muito mais do que muitas mulheres adultas por aí". 
Em março do ano passado, o mascu
Mallone foi acusado de racismo.
Preferiu se desculpar
- "Eu até agora não vi nenhum vídeo em que a menina ficava fazendo cara de triste, elas dão com gosto, cara, elas adoram, elas viram os olhinhos, aquela vozinha de menininha, brother, gemendo que nem uma cachorra, mano, aquilo me deixou louco, louco mesmo, cara, sem maldade". 
- "Quando você começa a consumir pornografia infantil você não quer parar mais, porque ela não te faz mal, não é que nem cigarro, bebida, esses são vícios maus que você não consegue desgrudar". 
Mallone em vídeo de 2015
- "Isso deixa qualquer homem louco. Eu não acho que seja doença você se atrair por aquilo ali. Você se atrair por uma criancinha de 3, 4 anos que tá brincando no playground lá, que tá exercendo sua inocência de criança, aí tudo bem, aí você falar que uma pessoa dessas é doente eu concordo, mas uma lolly, que são meninas de 6 a 13 anos, uma lolly que faz coreografia sexuais, que tira o shortinho, que mostra a x*ninha, você vai me desculpar, brother, mas não é nenhuma doença você sentir tesão, porque é algo extremamente erótico, aquilo tudo peladinho". 
- "Tem que quebrar esse tabu, brother, pornografia infantil não é coisa de monstro, não são pessoas doentes que consomem. Quem consome pornografia infantil são homens de bem, homens de caráter íntegro, homens honestos, homens honrados".

É tão absurdo o que Mallone diz que fico na dúvida se ele tem algum distúrbio mental, se é um psicopata sem nenhuma empatia pelas vítimas de abuso sexual infantil, ou se gravou isso apenas para "gerar lulz" (uma gíria conhecida entre channers, frequentadores de fóruns anônimos na internet, que significa chamar a atenção falando ou fazendo besteiras para poder rir dessa atenção). 
Material de pornografia infantil
encontrado na casa de Mallone
no final do ano passado
Eu ouvi falar desse projeto de fracasso pela primeira vez no ano passado, no chan do Marcelo. Marcelo, como eu já contei algumas vezes, é um mascu criminoso que me ameaça de morte desde 2011, porque eu denuncio os inúmeros sites de ódio que ele cria. Nesses sites, Marcelo defende a legalização do estupro e da pedofilia, o assassinato de mulheres, gays, negros e esquerdistas, e o estupro corretivo para lésbicas, além de fornecer guias de estupro para diversas universidades.
Marcelo, em foto "erótica" que enviou
a seu amigo Gustavo Guerra
Marcelo e seu comparsa, o neonazista e fã de Bolsonaro Emerson Rodrigues, foram presos em março de 2012, ficaram presos em Curitiba e lá foram julgados e condenados a 6,5 anos de prisão, mas saíram em maio de 2013 e, desde então, voltaram a fazer o que faziam antes, principalmente Marcelo. 
Em 2014, após ser expulso de outros chans (e olha que todos esses chans são tão misóginos que tratam as mulheres como "depósitos de p*rra"), Marcelo criou seu próprio chan, e enviou o link pra mim várias vezes, para que eu possa acompanhar as ameaças contra mim e meus familiares. 
Gustavo Guerra atacando uma menor
de idade ontem
O chan reúne vários homens problemáticos, alguns dos quais gravam vídeos com seus rostos, como o próprio Emerson Rodrigues (ele fez mais de 25 vídeos me difamando), Robson Otto (outro difamador nojento), Kyo (que revelou sua identidade após se apaixonar por uma moça no FB; sim, misóginos também se apaixonam -- aliás, geralmente pela primeira mulher que fala com eles), um tal de Cangaceiro (que fez um vídeo dando fortes socos em si mesmo, e que Marcelo quis inventar que era meu filho), Gustavo Rizzotto Guerra (um neonazista de Caxias do Sul que já foi internado várias vezes e que, a julgar pelos posts de necrofilia e pedofilia, está pior do que nunca), e Arthur Lopes (que disse num vídeo que foi abusado por mim [!] e pichou suásticas nos muros de Aracaju). 
Arthur, pra competir com Mallone, decidiu lançar ontem um novo vídeo, em que ele diz: "O que deveria ser feito é matar e estuprar todas as mães solteiras, seus filhos também deveriam ser mortos e queimados, porque, diferente da viúva, a mãe solteira é uma mulher promíscua, uma mulher imoral, uma mulher rodada". Pra gerar ainda mais lulz, Arthur fez questão de gravar com uma estrela do PT ao fundo, fingindo ser de esquerda, quando é na realidade um reaça de carteirinha (como todos os mascus).
Porém, Arthur certamente não vai atingir o feito de Mallone, que conseguiu quase 180 mil visualizações ao seu vídeo antes de seu canal ser retirado do ar. Enquanto eu recebia várias mensagens bem intencionadas de gente pedindo pra denunciar o vídeo (mas que acabavam ajudando a divulgá-lo), Mallone se vangloriava por ter viralizado seu vídeo. 
Mais tarde, um reaça mais conhecido fez um vídeo contra Mallone, incorretamente associando-o à esquerda. Hoje, o programa Brasil Urgente, do Datena, fez uma (péssima) matéria sobre pornografia infantil (a matéria parecia ter como intenção elogiar um senador fundamentalista cristão). 
Ontem também, ao ver que o vídeo de Mallone estava sendo tão bem sucedido em chamar a atenção "do gado" (todos nós que não somos channers), Marcelo ofereceu R$ 200 se Mallone fizesse outro vídeo, desta vez dizendo que eu o apoiava, já que o alvo número um do Gologolo sou sempre euzinha. Alguém ofereceu mais 500 se ele topasse. Outros disseram que Mallone tinha que, no mínimo, gravar um vídeo vestindo uma camisa do PSOL ou PCdoB, para atrair a ira dos coxinhas. 
Clique para ampliar
Mallone voltará a ser preso em breve. No final do ano passado ele já foi levado a uma delegacia depois de divulgar um vídeo (comparativamente muito mais suave que este de agora) elogiando a "sensualidade" de uma funkeira mirim, MC Melody, de 8 anos (em seu vídeo recente, Mallone admitiu:
"Eu inclusive já fui detido com pornografia infantil, uma lei ridícula que você não pode nem ter a liberdade no seu computador de baixar o que quiser"). Em janeiro, Mallone pagou fiança e foi liberado, não sem antes dizer à imprensa que não iria parar e nem ser preso. 
Agora vai, Polícia Federal?
Espero que desta vez ele tenha que permanecer alguns meses na cadeia. E já passou da hora de seus outros amiguinhos voltarem pra lá também. Eu quis transcrever as palavras hediondas de Mallone para mostrar que não se trata de opinião. O que ele e outros mascus fazem é crime mesmo. E devem ser punidos por isso.
Esta charge do Malvados parece feita sob encomenda para os covardões da internet
 

segunda-feira, 28 de março de 2016

PORNOGRAFIA EXISTIRIA NUM MUNDO SEM ESTUPRO?

Escrevi este texto em 2009, quando estava estudando literatura canadense pra um concurso. Ficou num arquivo, nunca o publiquei, esqueci completamente dele. 
Semana passada, procurando um ponto de concurso que eu precisava rever pra uma disciplina, me deparei com o texto. Provavelmente eu devia estar lendo Andrea Dworkin na época, porque a pergunta inicial é dela

Pornografia existiria num mundo sem estupro?
A primeira experiência sexual que um garoto tem geralmente é com a pornografia. Pense: adolescentes e pré-adolescentes sabem quase nada sobre sexo. Ou os pais não ensinam, ou as escolas ensinam mal, mas o fato é que as buscas que chegam do Google (em que dia pode-se transar sem engravidar etc) mostram essa ignorância (e isso é a elite que tem acesso à internet!). 
Vivemos numa sociedade sexualizada, com imagens de mulheres semi-nuas a todo momento, mas ao mesmo tempo sexo permanece um tabu. O sexo que vemos está relacionado sempre a comércio, nunca à intimidade. Intimidade não vende. Ok, agora imagine um garoto de 13 anos, cheio de hormônios, querendo descobrir o que é sexo. E seu único contato é com a pornografia. O que ele aprende? 
E sabemos que eles acreditam piamente no que vêem. Se não, não se preocupariam tanto por seu pênis não ser do tamanho do do astro pornô. Mas o que ele aprende sobre mulheres? Que elas estão sempre dispostas. Não só a ter um parceiro, mas três ou quatro ao mesmo tempo. Que elas gostam inclusive de violência. Que elas adoram transar com tudo que aparece pela frente -- cabo de vassoura, outras mulheres, animais, tudo. 
Há estatísticas que mostram que, quando há zoofilia num filme pornô, ela geralmente ocorre com mulheres não-brancas. Por quê? Porque machismo está ligado a racismo, homofobia e outros preconceitos, pois machismo envolve achar que o ser mais importante numa sociedade é o homem branco, hétero, sem deficiências físicas. 
A gente não aprende apenas a ser machista. A gente aprende outras toneladas de mentiras também. Por exemplo, os mitos sobre os negros -- que homens negros são animais selvagens, muito sexuais, que têm pênis gigante, e agressivos, prontos para estuprar. Que mulheres negras querem sexo o tempo todo e seduzem os pobres homens brancos, tão indefesos. Esses mitos vêm da época da escravidão, e eram usados pra justificar o estupro sistemático que os senhores da senzala submetiam às negras. Isso faz parte de um discurso de dominação. Se vemos os negros como inferiores, como animais, é mais fácil maltratá-los. Nossa consciência dorme tranquila. A gente sabe como trata os animais mesmo.
Mas é ridículo achar que esse discurso morreu com a abolição da escravidão. A mídia continua perpetuando esses mitos. Tipo: qual notícia merece mais destaque, uma em que um grupo de jovens brancos atacam uma negra, ou uma em que um grupo de jovens negros atacam uma branca? Em 1989, houve um caso de grande repercussão nos EUA. Uma mulher branca foi estuprada por uma gangue de adolescentes negros no Central Park. Notícia em todos os jornais [um documentário foi feito sobre o caso em 2012, The Central Park Five; os rapazes condenados foram inocentados, após anos na cadeia). Dois dias depois, uma mulher negra foi estuprada por uma gangue branca, que ainda a jogou do sétimo andar. Ninguém ficou sabendo. Não é importante. Não interessa ao sistema divulgar isso.
Não quer dizer que homens negros não estuprem. Estupram sim. Se existe algo universal, é o estupro. Em todas as culturas em que o homem é dominante, em todas as classes sociais, em todas as raças, homens estupram mulheres, porque faz parte da cultura masculina. Em compensação, estupro é raríssimo em sociedades igualitárias, em que o homem não é considerado superior à mulher.
Outro mito é que, quando há abuso sexual de menores, isso é obra de homossexuais. Grande mentira. A enorme maioria dos abusos sexuais cometidos contra crianças, tanto meninas quanto meninos, é cometida por homens héteros. Mas a mídia vive nos dizendo que os gays querem “recrutar” crianças, que gays são pedófilos, que gays são perigosos. Quando se estupra crianças, usa-se o mesmo princípio do estupro de mulheres: são seres inferiores, sub-humanos, merecem ser dominados.
Há gente que estuda estupro. Gente que entrevista estupradores na cadeia e sobreviventes. E o que mais chama a atenção é a diferença de discurso. Os estupradores não acham que estupraram. Não acham que fizeram algo de errado. Lembre-se que quase 90% dos casos de estupro [em universidades americanas, nos casos de abuso infantil, e também na Índia] acontece por meio de conhecidos (pais, irmãos, padrastos, namorados, maridos, paqueras, amigos, chefes). Não são tantos os que ocorrem na rua. Se 42% das mulheres já sofreram algum tipo de abuso sexual, o que isso significa? 
Que não é apenas uma minoria. Que você mesmo conhece mulheres que sofreram abuso sexual, e que você muito provavelmente conhece homens que cometeram abuso sexual. 
Mas os homens tendem a pensar que não é com eles. Aqui existe outra diferença gritante. Pras mulheres, a ameaça de estupro rege nossas vidas. Deixamos de sair à noite. Calculamos como, quando e com quem iremos voltar pra casa. Evitamos andar por tal rua. Pensamos se podemos usar tal roupa. Toda hora. E vemos um homem na rua, à noite, como uma ameaça. Qualquer homem. 
Não temos como saber quem é um estuprador e quem não é. Não vem uma plaquinha escrito. Então suspeitamos de todos, vivemos paranoicas, porque não queremos ser estupradas. Mas os homens imaginam que um estuprador seja um monstro desconhecido, não um deles. Se um homem fica sabendo de um amigo acusado de estupro, automaticamente assume que a mulher está mentindo. Que aí tem truta. Que ela que quis, e agora o acusa injustamente. 
Constantemente realizam-se pesquisas com universitários homens nos EUA. As perguntas quase sempre são as mesmas. Uma top é “Você estupraria uma mulher se não fosse punido?”. Entre 15 e 27% respondem sim. Mas isso não é tudo. Quando se reformula um pouco a pergunta, veja o que temos: “Você forçaria uma mulher a ter sexo contra a vontade dela se não fosse punido?”. Aí 60% dizem sim! Os homens ignoram que “forçar alguém a ter sexo contra a vontade” e “estupro” são exatamente a mesma coisa!
Homens não gostam nem de ouvir falar de estupro. Uma das minhas lembranças dos anos 80 é de quando Acusados foi lançado, em 88. Apesar de não ser um grande filme, ele fez relativo sucesso, Jodie Foster ganhou seu primeiro Oscar, e ele colocou vários homens no banco dos réus. O que eu mais me lembro, porém, nem é tanto do filme em si, mas de quando a Kelly McGillis (que faz a advogada da vítima) declarou ela mesma ter sido estuprada
Eu lembro da hostilidade que sua declaração recebeu por parte dos jornalistas e críticos (todos homens). Eles a odiaram por falar de estupro, a chamaram de oportunista, de querer divulgar um filme em cima de uma coisa pessoal, íntima, e que deveria permanecer íntima. A julgar pela reação dos homens quando ouvem a palavra estupro (indignação que alguém esteja falando disso em público, desconfiança), não resta dúvida: os estupradores são todos marcianos. Eles vêm à Terra apenas para estuprar “nossas mulheres”.