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segunda-feira, 7 de outubro de 2019

QUEM ESTÁ POR TRÁS DOS ATAQUES A GRETA?

Tive o prazer de conhecer Alexandre Araújo Costa quando saí pra jantar com o Pirulla e uma turma muito bacana em Fortaleza, em outubro do ano passado. 
Alexandre no meio
De lá pra cá Alexandre e eu já nos esbarramos em outras ocasiões (como num dos protestos em defesa da educação). Ele é professor da UECE e cientista do clima
Quis saber se ele já havia escrito sobre os ataques à ativista sueca Greta Thunberg, e ele me mandou alguns links pro seu Facebook. Publico um dos seus textos aqui. 
"Quem está por trás da Greta?"
Somos todxs globalistas satânicos
"Quem financia a Greta?"
"Quais os interesses por trás da Greta?"
Antes de você embarcar na nova onda de teoria de conspiração disfarçada de pensamento crítico, deixa eu lembrar a vocês uma coisinha...
Isto não é satânico
Eu enfrento há muitos anos um inimigo -- a indústria de combustíveis fósseis -- que é o mais poderoso e ardiloso que vocês possam imaginar. Ela é o coração energético do capitalismo e sabia de todo o caos climático muito antes da maioria que está me lendo agora ter nascido. Aliás, antes inclusive de EU ter nascido. 
Em 1968 o relatório Stanford, produzido por encomenda do próprio Instituto Americano de Petróleo, já mostrava os elevados riscos de continuar queimando combustíveis fósseis para o clima ("estamos conduzindo um experimento de escala planetária").
Nordeste 2019 está lembrando
Exxon Valdez 1989
Em 1978, cientistas de dentro da Exxon alertaram a direção da empresa, com detalhes impressionantes (incluindo o aquecimento muito maior no Ártico e seu degelo acelerado). A Exxon engavetou tudo, deu cala-boca geral e passou a montar uma estratégia de negacionismo climático. Documentos internos vazados dessa corporação monstruosa mostram toda a sordidez. 
"A vitória só será proclamada quando os defensores do Protocolo de Kyoto forem vistos pela opinião pública como fora da realidade". Promoveram e promovem, Exxon, Shell, irmãos Koch e outros facínoras, uma campanha de ataque à ciência que perdura até hoje. Não subestimem esses caras. Eles são capazes de destruir o planeta em nome do lucro, sim.
Posso estar errado? Posso. Mas queria chamar todo mundo aqui para PARAR e PENSAR. Aliás, eu quero mesmo é dobrar a aposta que existe uma campanha orquestrada pela indústria fóssil para desconstruir a Greta Thunberg e o movimento que ela inspirou. 
Acusaram a nós, cientistas do clima, de estarmos envolvidos em uma conspiração para "acabar com a economia mundial" (a favor, sei lá, da indústria de painéis solares ou dos fabricantes de bicicletas?). Isso porque alertamos incansavelmente, há décadas, para os riscos. E em larga medida, a indústria fóssil conseguiu nos neutralizar. Semeando a dúvida, incentivando um "doisladismo" fraudulento, apoiando charlatões que passam a ideia de um "debate aberto". A INDÚSTRIA FÓSSIL FARÁ DE TUDO PARA NEUTRALIZAR GRETA THUNBERG. ACORDEM!

terça-feira, 1 de outubro de 2019

A DIREITA DEVE DESCULPAS A GRETA THUNBERG. MAS NÃO VAI PEDIR

Greta Thunberg é uma ativista sueca de 16 anos que, por sua luta em defesa do meio ambiente, é chamada de "fantoche adolescente", "manipulada", "profetisa do apocalipse", "Justin Bieber da ecologia". E, óbvio, "idiota útil". Por isso e por outras barbaridades, principalmente barbaridades machistas, semana passada colocamos no Twitter a hashtag #DesculpaGreta. 
Em agosto do ano passado, Greta sentou-se na frente do parlamento sueco com um cartaz escrito "greve escolar pelo clima". Ela tinha 15 anos. "Estou fazendo isso porque vocês adultos estão cagando no meu futuro", era um panfleto que Greta distribuía. Outros jovens passaram a fazer protestos parecidos, e a onda foi crescendo.
Recentemente Greta foi de veleiro movido a energia solar, do Reino Unido a Nova York. Ela evita viajar de avião pelo seu rastro poluente (285 gramas de dióxido de carbono por passageiro por hora).
"Eu não deveria estar aqui, deveria estar na escola", disse a jovem Greta na segunda-feira retrasada aos líderes mundiais na abertura do Encontro de Ação Climática, organizado pela ONU. "Como vocês se atrevem? Vocês roubaram meus sonhos e minha infância com suas palavras vazias" (aqui o link pro belo discurso de Greta). 
Além do que ela falou, o olhar de Greta para Trump se tornou icônico.    
Por conta do seu ativismo, Greta se tornou um dos símbolos em defesa do clima e da natureza, que gerou imensas manifestações pelo mundo. Antes mesmo de Nova York, uma deputada conservadora francesa resmungou: "Não é uma garota que abandonou a escola que vai dar lições aos adultos".
Com o sucesso da semana passada, Greta se tornou alvo de novas críticas. Por exemplo, Eduardo Jorge, que foi candidato a presidente pelo Partido Verde, lamentou que Greta trocou paixão por raiva em seu discurso. Ele pediu mais compaixão e menos ressentimento, baseando-se num tuíte de um outro cara que não gostou das expressões faciais e tom de voz de Greta.
A linguista Jana Viscardi descreveu bem esse desconforto do ex-candidato a presidente, ao lembrar como as meninas têm que ser doces sempre, sorrir, serem simpáticas. Ser "durona" vai contra a nossa feminilidade. Logo, Greta não pode ficar zangada.
A direita se encarregou de criar e espalhar montes de fake news contra Greta, assim como fez contra Marielle Franco, assim como fez contra Malala. Parece que ganhar Nobel da Paz ou ser indicada, como já foi feito com Greta, atiça o ódio da direita. Uma das notícias falsas é que Greta é financiada pelo bilionário George Soros. Fizeram uma montagem de uma foto de Greta com Al Gore, trocaram o rosto dele pelo de Soros, e inventaram que ela é neta de Soros. 
Outra montagem, esta distribuída pelo filho do presidente, o fritador de hamburguer que quer ser embaixador nos EUA, é de Greta comendo num trem. Na janela, crianças pobres observam. 
Outras fake news são que Greta vive com um terrorista do Estado Islâmico, que ela foi abandonada pelo pai, que seria um cientista social gay, e que sua mãe é uma lésbica satanista que ensina aborto para adolescentes. Greta, portanto, é apenas um "fruto do desajuste psicomoral causado por essa extrema esquerda vagabunda na família ocidental".   
A "família desestruturada" de Greta
A direita é sórdida! Não se cansa de espalhar mentiras contra qualquer mulher ou menina que tem voz. E sempre usando uma de suas principais armas, o machismo. 
Como escreveu Juliana Aguilera num ótimo artigo publicado no começo de setembro, quando uma colunista do Estadão criticou Greta por seus "olhos duros" e "rosto sem empatia" (um texto capacitista que foi denunciado por associações de autistas, que tiraram o blog do ar), uma universidade sueca começou o primeiro centro de pesquisa acadêmica do mundo dedicado a estudar o negacionismo da crise ambiental. 
Esse centro viu ligações inequívocas entre os negacionistas e a extrema-direita anti-feminista, e concluiu que "os temas comuns não eram sobre a ameaça do meio ambiente, e sim sobre uma certa sociedade industrial moderna construída e dominada por sua forma de masculinidade". Ou seja, qualquer coisa que se opõe ao estilo de vida do homem branco e à manutenção dos seus privilégios precisa ser combatida.  
Em outras palavras, lembram de uma pesquisa que saiu mostrando que muitos homens não usavam sacola de pano pra ir ao supermercado pois viam nisso algo "gay" ou "feminino"? Então. Ser másculo é usar sacola de plástico. É não pensar duas vezes em destruir a natureza.
A gente pode observar essa raiva dos homens brancos no discurso do jornalista Gustavo Negreiros. Visivelmente alterado, o sujeito de Natal disse na Rádio 96 FM, do Rio Grande do Norte, que Greta é uma histérica. “Sabe do que ela está precisando? Ela está precisando de um homem. É mal amada. Se não gostar de homem, que pegue uma mulher. Ela está precisando de sexo. Vá fumar seu baseado na Suécia”. 
O discurso de Gustavo é nojento não apenas por Greta ter 16 anos e ser autista. É um discurso misógino que é sempre usado contra mulheres. É aquilo de “falta de rola”, que usam contra qualquer mulher que tenha voz. Pense em todas as mulheres públicas, e veja se alguma vez esse ataque não foi usado contra elas. Não é que a mulher está exigindo direitos, é que ela é mal-amada. É cultura de estupro, porque quando se fala em “falta de rola”, está se falando de rola à força. A mulher ou menina deve ser “preenchida”, “punida”, “corrigida” pra aprender, pra se calar, pra voltar ao seu papel de mulher.
Além do mais, usar o termo “histérica” pra se referir às mulheres é muito antigo e ultrapassado. O termo vem da palavra grega que quer dizer “útero”. Ou seja, histeria foi durante milênios um distúrbio associado a mulheres. E muitas foram queimadas e mortas por esse “distúrbio” que, curiosamente, só acomete quem tem útero. Porque homens nunca ficam nervosinhos, entram em escolas e causam massacres, né? É coisa de mulher, essas histéricas com TPM.  
Gustavo também é (era -- foi desligado após a repercussão) comentarista da TV Tropical, que transmite a TV Record. Num programa, com a conivência do apresentador, ele disse as mesmas coisas que no rádio: Greta é “uma menina que tá afetada psicologicamente, você vê que ela tem algum problema que não é em relação ao clima mundial”. Também a chamou de vagabunda por não ir às aulas e disse que, se ela fosse filha dele, ele “aquecia as nádegas” dela. “Não tem problema não, da cintura pra baixo pode pegar havaiana e pode meter: pá! Faz bem, esquenta o couro, educa”. 
Bom, a repercussão aos comentários de Gustavo foi rápida. Em menos de 24 horas, três das quatro empresas que patrocinavam o programa no rádio, incluindo a Unimed, suspenderam os contratos. 
O jornalista escreveu em seu blog: 
“Arrependido de ter atirado uma pedra em quem não merecia, através de uma piada boba, pedi desculpas […] Os danos foram mais meus que da pessoa citada. À turma do mimimi que endossa o coro das críticas nas redes sociais informo que não merece qualquer respeito. Que meus ex, atuais e futuros patrocinadores, não temam a patota vermelha sanguessuga […]. Se tiverem que deixar de patrocinar o blog que seja pela falta de qualidade, mas nunca pelo furor das redes sociais. Errei em algumas palavras por segundos, e isso me custou caro.” Ele se disse perseguido pela esquerda por falar mal diariamente do governo de Fátima Bezerra.
Ele foi demitido da rádio. Só foi chamado ao ar para pedir desculpas, que foram francamente ridículas. Disse que fez um “comentário infeliz”, que antes de ir pra rádio estuda os assuntos, e pediu consideração por ter a “hombridade de reconhecer o erro”. Pra ele, o erro foi não saber que “a garota lá tem um problema de saúde”. Primeiro que ser autista não é um “problema de saúde”. Depois que, se Greta não tivesse Asperger, aí tudo bem dizer que ela é uma vagabunda histérica que deveria fazer sexo em vez de ativismo?
Gustavo não foi o único, lógico. Um outro jornalista que eu nunca tinha ouvido falar, Luis Ernesto Lacombe, disse na TV Bandeirantes: “Eu não compro essa menina. Acho que essa menina tem um discurso alarmista, com frases de efeito. [...] Eu acho que a gente tem que ter um debate pesado sobre clima e de quanto o homem influencia na mudança climática". E espalhou a fake news de que ela é financiada por George Soros. 
Não é ato falho o jornalista ter usado a palavra "homem", não “humano” ou “pessoa”, na frase "quanto o homem influencia na mudança climática". Indica que seu incômodo é com a influência que uma mulher, uma menina, possa ter nesse debate. 
Na Jovem Klan, Rodrigo Constrangido chamou Greta várias vezes de retardada que tem síndrome do autismo. 
Outro reaça de marca maior, Roger, do Ultraje a Rigor, colocou uma imagem que diz "isso sim é destruir sonhos" . Embaixo, está escrito “A sueca da minha juventude” (uma loira vestida de enfermeira, como nos filmes pornôs), e “A sueca de hj” (Greta). É muito baixo. Além de sexualizar uma profissão nobre e imprescindível, a de enfermeira, sexualizam uma menina de 16 anos, que não parece nem ter 13. 
E óbvio ululante que não vai acontecer nada com o emprego de Roger, pois seu patrão Silvio Santos está promovendo concurso de miss para avaliar as pernas mais bonitas de meninas de dez anos.
Teve também um jornalista francês veterano, um pouco mais velho que Roger (o francês tem 84 anos), que reclamou que, na sua geração, os homens procuravam meninas suecas menos rígidas que as francesas. “Imagino nosso terror se tivéssemos abordado uma Greta Thunberg”.
A raiva do jornalista parece ser a impossibilidade de sexualizar Greta. Ela é uma menina de 16 anos, logo, deve ser colocada no papel que se espera de uma mocinha dessa idade (que é ser meiga e inocente ou atriz pornô disfarçada de enfermeira ou líder de torcida, como quer Roger).
Gostei muito da nota de repúdio da Associação de Juristas Potiguares pela Democracia e Cidadania, que chamaram o discurso de Gustavo de “fala misógina disfarçada de opinião”. “Não é mais tolerável que um comunicador que ocupe espaço em rádio e televisão de rede aberta por concessão pública se comporte de forma vil, classificando de 'vagabunda' e 'histérica' a ativista Greta […]. Tratar o ativismo e a movimentação social como 'vagabundagem' é demonstrar a verdadeira face do autoritarismo. Não há outra forma de buscar a regulamentação dos direitos que não seja através da luta social e política”. E também classificou o ataque contra Greta de  “violência de gênero”. 
Também gostei muito da sátira que um comediante fez: A linha de apoio Greta Thunberg, pra homens brancos furiosos com uma menina ligarem pra contarem suas angústias. "Se vc é um homem adulto precisando gritar com uma menina, a helpline está aqui para te tolerar". "Entendemos que crianças agindo como adultos fazem adultos agirem como crianças". "Porque quando falamos de mudanças climáticas, todos sabemos que Greta é o verdadeiro problema". 
Olha, eu vi também algumas pessoas de esquerda lançando teorias conspiratórias absurdas de que os ataques a Greta e ao cacique Raoni são tentativas de impedir que Lula leve o Nobel da Paz. Sério, pode? Nem tudo no mundo gira ao redor de Lula, gente. 
Mas é indiscutível que os maiores ataques a Greta são feitos pela direita, uma direita organizada, machista, negacionista de problemas ambientais, principalmente da crise climática. E por quê?
Porque Greta diz com todas as letras que o capitalismo global falhou. Ela expõe a masculinidade frágil. E são eles, não nós, que precisamos pedir desculpas.
Uma versão deste texto foi publicada hoje no The Intercept Brasil. E vejam meu vídeo no Fala Lola Fala.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

AMAZÔNIA, A TERRA ARRASADA POR BOLSONERO E SALLES

O biólogo, ambientalista e articulista André Aroeira deixou uma thread muito didática e cheia de dados para mostrar a incompetência fenomenal deste desgoverno no que se refere a tudo, quero dizer, ao meio ambiente. Compilei aqui seus tuítes:

Enquanto o Bolsonaro choraminga na tevê e na live que tá difícil arrumar dinheiro pra segurar a bomba que ele armou na Amazônia, eu vou contar pra vocês como o Ricardo Salles queimou BILHÕES que nem estavam no orçamento federal e podiam ir para nossas florestas.
Programa de conversão de multas: maior legado do Sarney Filho, transformou o desastre da arrecadação de multas (menos de 4% das sanções) em um programa voluntário no qual os devedores pagavam com desconto. Se previa mais de 1 bi para as bacias do São Francisco e o rio Paraíba
Isso só em 2019. Em poucos anos, seriam 4 bi, mais de uma década de orçamento do MMA (Ministério do Meio Ambiente).
Salles disse que era dinheiro pra ONG e paralisou tudo. Em seguida promoveu um desmonte no Ibama e criou um núcleo de conciliação onde ele mesmo teria que dar aval a cada uma das 14 mil multas anuais.
Fundo Amazônia, que tem 1,5 bilhão em caixa sem destinação e não pode mais operar. O dinheiro tá parado porque Bolsonaro extinguiu o Conselho gestor no início do ano. Desde então, Salles desconversa e diz que "está analisando". O fundo bancava operações do Ibama e de combate a incêndios.
O Fundo Amazônia também bancava as mais importantes atividades de "dinamismo econômico" e "iniciativas capitalistas" em floresta tropical do planeta. As duas expressões são recorrentes na retórica vazia do ministro enquanto a Amazônia se desfaz sob seus oclinhos.
Fim do fundo Amazônia também representa impossibilidade de arrecadar dinheiro no futuro. De cara já perdemos R$ 300 milhões. Pra quê?
Apenas porque o Salles quis usar o dinheiro para indenizar fazendeiros e tentou mudar o conselho pra poder controlar tudo.
Quantos bilhões deixamos de ganhar em longo prazo?
Links: Noruega suspende repasse de R$ 133 milhões para o Fundo Amazônia. Alemanha vai suspender investimento de R$ 155 milhões na Amazônia. Noruega e Alemanha resistem a mudança no conselho do Fundo Amazônia.
Fundo Verde do Clima: esse é um fundo dentro do acordo de Paris que deve trazer US$ 100 bilhões por ano a partir dos próximos anos. Temos três instituições no Brasil capazes de captar grana de lá, mas o governo ameaça sair do acordo, o ministro diz que é discussão acadêmica e Bolsonaro ainda em 2018 pediu pra não sediar a Conferência Mundial do clima (COP), que seria no BR. 
Perdemos a chance de pautar o assunto, alavancar bilhões, protagonizar os acordos e ser o maior beneficiário -- já que temos a Amazônia, cuja importância o mundo mostrou que reconhece.
Paradoxalmente, enquanto pensava se ficava no acordo, Ricardo Salles dizia que o acordo era ruim e o mundo deveria pagar para o Brasil preservar. Simultaneamente, Bozo extinguiu o braço do Itamaraty que conduzia as negociações climáticas e se preparava para captar dinheiro nesse fundo, o GCF.
Links: Governo extingue órgãos que lideravam negociações do Brasil sobre mudanças climáticas. Janeiro: Salles quer que o Brasil seja compensado por outros países por preservação ambiental. 
Um PS: com a crise da semana passada, Salles disse que aguarda (cair do céu) os US$ 100 bilhões cujas condições de acesso o governo destruiu ao chutar o Fundo Amazônia, mandar a COP pro Chile e destruir a diplomacia climática do Itamaraty e do MMA. 
O Fundo de Compensação Ambiental, mecanismo que arrecada indenizações de grandes obras e aplica em ações ambientais, também foi destravado por Sarney Filho após anos em gavetas dos ministérios. Toda grande obra paga compensações, que no Brasil nunca são aplicadas. Apenas o RJ tem um mecanismo para tal, o Fundo da Mata Atlântica. Em meu estado, MG, o ex-governador Anastasia capturou o dinheiro para pagar servidores da saúde, deixando o meio ambiente do estado em calamidade.
Quando o Brasil finalmente destravou os recursos de âmbito federal, Salles assumiu. Em um de seus primeiros atos, dissolveu a câmara de compensação ambiental, que elegia os projetos que seriam financiados. De partida eram R$ 1,8 bilhões, paralisados desde então, equivalentes a seis anos de orçamento do MMA (fora os custos fixos etc).
Estima-se que a compensação seja a mais promissora ferramenta de financiamento da conservação. Desde 2000, entretanto, não se conseguia fazer sua operacionalização. 2019 seria o primeiro ano...
Costa Rica
Pagamento por serviços ambientais (PSAs): a Costa Rica é um país que vive de turismo e PSA. Cobra uma pequena taxa de carbono, outra de água, outra de ecoturismo -- são serviços que a natureza provê de graça, é só não botar fogo em tudo. Deu tão certo que o país saiu de um dos maiores desmatadores do mundo para o maior reflorestador. Foi de 30% para 70% de florestas no território, bancado por quem usufruía de seus serviços ambientais.
O modelo é muito promissor no Brasil, que exporta chuvas, captura carbono, controla o clima mundial. Bastaria proteger a Amazônia com eficiência, precificar os serviços e ir cobrar dos usuários -- o planeta todo. O momento é oportuno, quando o mundo inteiro desperta para os serviços ambientais, e as negociações climáticas não deixam alternativa a ninguém. Essa é a ideia por trás do fundo Amazônia e do mencionado GCF.
Poderíamos ter BILHÕES todo ano para o Brasil iniciar o projeto de lideranca que é de fato a sua verdadeira vocação.
Não vou deixar de mencionar que o Salles, ao invés de ir pra Costa Rica, foi aprender sobre PSA com ruralistas: ao invés de captar grana pro Brasil, defende usar dinheiro público para pagar ruralistas que protegem vegetação em suas propriedades (que é obrigação, by the way).
Enfim, tangenciando tudo isso, o acordo do clima tem previsão de vários mecanismos de PSA que o Brasil poderia aproveitar: acordo de mitigação da aviação civil, mercado de crédito de carbono, REDD, etc. Mas agora que viramos pária ambiental, não temos qualquer chance de pautar.
"No contexto das iniciativas internacionais, se preveem a estruturação de mecanismos de mercado que deverão operar, no mínimo, pelos próximos 10 a 15 anos. O Brasil certamente é um dos países com maior potencial para atrair estes investimentos".
Enfim, são imensas e inúmeras as oportunidades, mas temos um IMBECIL no ministério e um ignorante obtuso na presidência. O Brasil literalmente incendeia sua grande chance de ser protagonista no mundo, pelo contrário, se torna pária internacional. E o presidente recorre ao discurso fácil que o dinheiro acabou. Bem, possibilidades esse governo teve como nenhum outro.
Vale lembrar que Salles é do Partido Novo, que se proclama eficiente, austero, economicamente responsável. Os autointitulados liberais destruíram o financiamento da conservação da Amazônia.
Não só isso, os indicadores mostram a paralisia do MMA de Salles: servidores recebem para não fazer porra nenhuma, fiscais que não fiscalizam porque não podem, órgãos acéfalos incapazes de atuar.
Finalizo aqui e deixo vocês com os métodos do "gestor" que o partido Novo -- supostamente o partido da gestão -- tem como mais proeminente integrante: Ricardo Salles.