sábado, 24 de maio de 2008

A TRUTA TÁ LÁ FORA

Não é todo mundo que vai entender, então explico: o título acima refere-se ao famoso slogan do Arquivo X, “the truth is out there” (“a verdade está lá fora”). Cadastrei-me num site de notícias conservadoras. Como já recebo, inteiramente grátis, algumas publicações da direita cristã, quis ver a perspectiva de uma direita não necessariamente religiosa. Mas é difícil. Elas parecem gêmeas siamesas. Uma porta-voz dos conservadores é a jornalista Ann Coulter, que criou furor uns meses atrás quando disse que apoiaria a Hillary Clinton, ao invés do republicano John McCain. Agora deve ter se retratado, ou se calado, já que as chances da Hillary no momento são bastante irrisórias. Ann é autora de, entre outros, If Democrats Had Any Brains, They'd Be Republicans (Se Democratas Fossem Inteligentes, Seriam Republicanos). Não sei se o livro anda bem das pernas nas livrarias, já que posso adquiri-lo de graça através do site.

Outra oferta que me chegou foi “uma economia de 28 dólares”: é só pedir, que eles me mandam o livro The Truth about Muhammad: Founder of the World's Most Intolerant Religion (A Verdade sobre Maomé: Fundador da Religião mais Intolerante do Mundo). Minha dúvida é: será que os muçulmanos são mais intolerantes do que muitos cristãos americanos, que se pudessem transformar a América numa teocracia, como o Irã, executariam gays, adúlteros, e mulheres que cometem aborto, entre outros “criminosos”? O que eu gosto é como a vida é simples pra esse pessoal. É tudo branco e preto (até literalmente, porque são racistas pra chuchu), certo e errado, o bem contra o mal. Eles não têm papas na língua pra usar a palavra “verdade”. Como a gente sabe, a verdade é uma só. O resto é mentira. Não existem várias versões e opiniões, apenas verdades. Ou seja, o modo que os muçulmanos vêem Maomé só pode ser uma grande mentira. Veja só como começa o email que recebi: “Caro amigo conservador [fiquei nauseada já na introdução], a verdade é geralmente muito simples, mas, como tenho certeza que você vai concordar, encontrá-la na grande mídia [da qual a Fox News não faz parte, obviamente] é praticamente impossível. Mas eu tenho a cura”, e recomenda o tal livro. Que maravilha, poder ser vacinada contra as mentiras.

O curioso é que fundamentalistas cristãos e islâmicos têm muito em comum. E muitos dos cristãos americanos sabem disso. Uma das revistas religiosas que recebi diz que é horrível como a América está exportando sexo e valores de vida errados pro resto do mundo, e é por isso que o Islã quer acabar com ela, “e quem pode culpá-los?”, pergunta a revista. Realmente, quem?, se os EUA têm uma longa tradição de terroristas cristãos? Foram eles que bombardearam o edifício em Oklahoma em 1995, matando 168 pessoas. A revista explica direitinho que Jesus está pra voltar em breve e que, quando isso acontecer, os fiéis governarão ao lado dele na Terra. E não será uma democracia, já que isso de democracia não tá com nada, segundo a revista. Deus não é democrático. Nos tempos maravilhosos do Antigo Testamento não havia democracia. Por que os EUA devem insistir num sistema que dá tão errado, sendo que há homens que conhecem a verdade e podem conduzir os pecadores à felicidade eterna? Tá certo que, antes da segunda chegada de Jesus, de acordo com as profecias bíblicas, o apocalipse virá e eliminará bilhões de pessoas. Mas o “depois” será o paraíso terrestre – para a meia dúzia de sobreviventes. Sabe como esses fundamentalistas terminam cada artigo? Com as palavras “Acelere o processo, Senhor”. Eles estão contando os dias pra que uma terceira guerra mundial exploda e o planeta seja parcialmente destruído. E se puderem dar uma ajudinha, um pontapé inicial, digamos, não se acanharão. Tudo em nome da Verdade.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

AS ESTRÉIAS DA SEMANA, OU INDY, ME CHICOTEIA

- Embaixo de mim, I see dead movies.

Aqui nos EUA a única estréia da semana é Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Sério. Não tem mais nada. Só pra ilustrar, um dos dois multiplexes que vou sempre tem doze salas. Nessas salas estão passando apenas quatro filmes: Indy 4 (leia ou releia minha crítica aqui), Crônicas de Nárnia, Homem de Ferro e o insistente Speed Racer. E existe um cinema mais alternativo promovendo uma sessão de Pulp Fiction à meia noite. Não que a gente poderia ir, já que os ônibus encerram suas atividades lá pela uma da manhã.

E aí, já foi ver Indy 4? Gostou? Adorou? Ficou decepcionado(a)? Ontem li uma frase boa de uma crítica da Newsweek pra explicar o nosso desapontamento com Indy: “Como Norma Desmond em Crepúsculo dos Deuses, Indy continua grande. É só que, no contexto das franquias de filmes de ação de hoje, Caveira de Cristal parece menor”. Bem sensato, né? Em 1981, quando Caçadores da Arca Perdida foi lançado, não havia nada como ele. Até hoje Caçadores deve ser o modelo pros filmes de ação, já que é considerado o melhor de todos os tempos no gênero. Mas hoje, quando todos os arrasa-quarteirões se parecem tanto entre si, é mais difícil pra um se destacar. O problema é esse – a gente espera algo quase mitológico vindo de um Indiana Jones, e quando ele chega, é infinitamente superior a um Speed Racer, certo, mas não tanto melhor que um Homem de Ferro da vida. Pode apostar que, quando vier Indy 5, as expectativas serão menores, e as decepções também.

No momento, as expectativas só se mantêm pra que Indy 4 estoure na bilheteria. Segunda-feira próxima é feriado nos EUA, o que eles chamam de Memorial Day (dia de homenagear os soldados americanos mortos em suas guerras permanentes). Todas as ruas ficam cheias de bandeiras. Imagino que deve haver uma cláusula contratual exigindo que todo filme de ação americano tenha pelo menos uma imagem da bandeira tremulante dos EUA. Se for lançado no Memorial Day, então, não tem escapatória mesmo. Logo no início de Indy 4 uma bandeira ocupa a tela inteira. Mas o principal pra indústria não é o patriotismo, e sim o fato que este é um final de semana prolongado. O público terá três dias de folga pra lotar as salas. Desde Caçadores, toda aventura do Indy foi lançada no Memorial Day.

Eu chutei que os críticos americanos dariam nota 70 ao filme, e meio que acertei. O Metacritic deu 66, e os críticos do Rotten Tomatoes, sempre mais generosos, 79. Mas o que é um pouco chocante é a nota dos leitores do Metacritic (até o momento, há 160 deles): 57. É possível que os críticos estejam mais entusiasmados com Indy 4 do que o público?

No Brasil, foi cancelada a estréia de O Nevoeiro de novo. Acho que vai direto pra DVD mesmo (trailer aqui, mas eu não veria. Conta demais do filme). Me avisem quando for lançado, pra eu escrever uma crônica sobre este que é, pra mim, o melhor terror em sei lá quantos anos. Mas tem filme lutando pra não ser soterrado por Indy 4. Um deles é Cleópatra, do Júlio Bressane, com Alessandra Negrini como a própria, e Miguel Falabela como Júlio César. Outro é Control, um filme que esteve em várias listas de melhores do ano passado. Eu não tive a menor vontade de ver esta biopic (cinebiografia) do vocalista da Joy Division, Ian Curtis, que se suicidou aos 23 anos. Mas, se pra você Joy Division não soa como nome de videogame como soa pra mim, vai firme (trailer aqui). Outra estréia é Luz Silenciosa, aparentemente uma história de amor numa comunidade isolada que rejeita a tecnologia (veja o bonito trailer aqui). Ou seja, Indy 4 não passa lá. Essa vila não terá o prazer de ser chicoteada pelo herói de chapéu Fedora.

PESQUISA PARA LEITORES CINÉFILOS(AS) DE BLOGS

Ontem recebi email do Alexandre Inagaki, autor de um dos blogs mais visitados do Brasil, o Pensar Enlouquece... Pense Nisso. Conheci o Alexandre faz tempo, quando ele me mandou uma mensagem sobre cinema referente a minha coluna no Lost Art. Ele é sempre muito simpático. Aliás, quem quiser relembrar toda a trajetória do Indiana Jones, em ordem cronológica e tudo, deve ler seu texto mais recente. Mas reproduzo o email que recebi:

“Estou ajudando a divulgar uma enquete online voltada para leitores cinéfilos de blogs, porque o objetivo da empresa que me contatou é sondar terreno para ver se compensa a eles agitar promoções especificamente voltadas para blogueiros. Uma vez que o seu blog é ponto obrigatório para cinéfilos internautas, será que a senhorita não toparia divulgar essa pesquisa online lá? Eis o link”.

Eu já participei da pesquisa. Leva uns dois minutos, e isso pra mim que sou lenta. Pergunta quantas vezes por mês, em média, a gente vai ao cinema, e a cidade e Estado onde mora. Só. Vão lá e participem, por favor.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

NOSSA MÚSICA-TEMA

Amo o Chico acima de todas as coisas. Uma de suas canções, "Samba e Amor", diz: "Eu faço samba e amor até mais tarde / e tenho muito sono de manhã". Eu e o maridão nos identificamos muito com ela. Bom, pelo menos com a parte do “tenho muito sono de manhã”. O quê? Já é 50% - suficiente pra adotá-la como nossa música-tema.

Ouça a música aqui:
Chico Buarque - samba e amor


DA VEZ QUE ESCAPEI DE UM LINCHAMENTO – PARTE 3 - FINAL

(Pra não boiar, leia os dois posts anteriores antes, aqui e aqui).

A crônica “Receita de Biscoito” foi o meu jeito de tentar encerrar o escândalo por eu ter escrito sobre o estágio. Acho que não deu muito certo, porque no dia em que ela foi publicada eu estava na minha classe, durante o intervalo, lendo um livro calmamente, quando ouvi muito barulho vindo do lado de fora. Vozes, gritos, vaias. Uma colega entrou na sala, olhou pra mim e disse, em pânico: “Não se preocupe que não vamos deixar eles entrar!”. Outra, uma gordinha, chegou despenteada e assustada: “Ahhh! Eles pensaram que eu era você e tentaram me pegar!”. Àquela altura vi que não daria pra ignorar os acontecimentos, e quis saber “Ahn, eles quem?”. “Eles” era a turma inteira do semestre anterior de Pedagogia reunida no corredor do lado de fora da minha sala, organizando um linchamento, gritando palavras de ordem como “Lola, Xô, Fora!”, e me xingando. Professoras e seguranças tiveram de dissipar a turba enraivecida, e eu, claro, fui chamada novamente à diretoria.


Coordenadora do curso: “Tá vendo o que você fez? Mais um texto seu e a gente vai ter que te expulsar mesmo!”.
Eu: “O que eu fiz? Um grupo de futuras professoras se organiza pra linchar alguém por causa de um texto de jornal e você tá preocupada comigo? O pior é que essa turma me conhece. Eu dei uma palestra de história política pra elas”.
Ela: “Pois é, o desapontamento delas deve ser maior ainda”.


Naquele dia uma colega amiga me acompanhou até o carro. E eu decidi, mais tarde, tirar meu adesivo do Lula do carro, pra evitar que ele fosse identificado e, quem sabe, vandalizado. Depois a coisa morreu, felizmente, e eu pude terminar meu curso sem grandes problemas. Se bem que tive de refazer em outra escola todo meu estágio da primeira série porque a professora retratada na crônica (a que me pediu pra descascar um abacaxi – é só isso que eu falo dela!) se recusou a assinar meus documentos de estágio. Ela disse, seriamente, que quase teve de ser internada por uma crise de nervos após a publicação do texto, mas que graças a Deus ganhou a solidariedade de todas as suas colegas, então conseguiu superar este trauma terrível na sua vida. Note que na crônica “Estágio Sabor Abacaxi” não há qualquer menção ao seu nome ou à escola. Mas certamente ela deve ter sido a única professora primária na história da humanidade a fazer uma salada de frutas com seus aluninhos, e por isso a identificação foi tão fácil.
Menos de um ano depois de todo esse escândalo, fui fazer o Provão de Pedagogia e reencontrei minhas ex-colegas da Univille. Todas me cumprimentaram como se fossemos grandes amigas. Ao mesmo tempo, a versão que corria era que eu havia sido expulsa da Univille. Não é que eu me transferi pra outra faculdade pra economizar tempo e dinheiro, sabe? Eu fui expulsa! E até compreendo que as turmas quisessem clarificar publicamente, através de cartas de jornal, que eu não representava o grupo. Mas não gostei de ter sido descrita nas cartas das duas turmas como “esse tipo de aluna”. “Esse tipo de aluna” não queria seguir carreira em Pedagogia, mas não atrapalhava ninguém e até ia bem no curso. Me senti levemente vingada quando “esse tipo de aluna” tirou a maior nota de Joinville no Provão de Pedagogia. Ironias do destino.
Mas juro que não guardo rancor de ninguém. Sempre que me encontro com ex-colegas de qualquer uma das faculdades, o papo de “Tudo bem? Há quanto tempo! Como vai?” é sincero. Porque imagino que praticamente todas as colegas, individualmente, teriam vergonha daquela reação exagerada a um texto de jornal. O problema é a histeria coletiva. Quando um grupo todo se junta, sai de baixo. Seria ótimo se esse poder de mobilização fosse usado pro bem, não seria?