Mostrando postagens com marcador música. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador música. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 10 de maio de 2023

RITA LEE, ÚNICA

Ontem perdermos uma de nossas maiores artistas: aos 75 anos, Rita Lee se foi.

Durante sua longa carreira de 60 anos (desde 1976 com o marido, o guitarrista Roberto de Carvalho), chegou a vender 55 milhões de discos.

Ela chamava seu tumor maligno de "Jair", mantendo seu belo senso de humor até o final.

Era ativista dos animais.

Ninguém nunca a superou como rainha do rock. 

E continuava hiper famosa para toda uma geração nativa em internet.

Embalou toda a minha adolescência e boa parte da minha juventude. Nunca vou me esquecer do trocadilho de "Flagra", de 1982: "Se a Deborah Kerr que o Gregory Peck". Acho que foi a primeira vez que ouvi falar desses dois astros de Hollywood.

Realmente foi uma mulher revolucionária e inigualável. Lula decretou três dias de luto oficial. 

Ontem, antes de termos a terrível notícia da morte de Rita Lee, ficamos sabendo da morte de David Miranda, o primeiro vereador negro e gay do Rio de Janeiro. Como suplente de Jean Wyllys na Câmara, David tornou-se um atuante deputado federal. Ano passado ele saiu do Psol e integrou o PDT. Em agosto, enquanto estava em campanha para a reeleição, foi internado com uma infecção gastrointestinal. Ficou na UTI nove meses. Ele iria fazer 38 anos hoje. Uma grande perda, tão jovem! Ele deixa o marido Glenn Greenwald e três filhos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

UM HINO PARA OS NOSSOS TEMPOS

No fim de semana estreou a fabulosa canção "'Hino' ao Inominável", uma música de protesto pra marcar algumas das falas mais hediondas dessa criatura que está na presidência. Com letra de Carlos Rennó e música de Chico Brown e Pedro Luís, trinta intérpretes -- entre eles Wagner Moura, Bruno Gagliasso, Lenine, Zélia Duncan, Chico César, Mônica Salmaso, Preta Ferreira, Paulino Moska, Marina Lima, Arrigo Barnabé, Leci Brandão, Thaline Karajá -- cantam e comentam discursos que não devem jamais ser esquecidos. 

É uma obra prima mas, sabe-se lá por que cargas d'água, um monte de ciristas a classificou como "o novo #EleNão". A música não menciona uma vez sequer o Lula (nem nenhum outro candidato, apesar de estar se referindo ao atual mandatário), e ainda assim vários ciristas ficaram bravos. Diz muito sobre o que eles acham da maior manifestação já organizada por mulheres na história do Brasil, e sobre qualquer tentativa de combate ao fascismo. Essa gente está do lado de quem, afinal?

Eu fico muito feliz de estar do lado certo da história. Um hino desses me orgulha e me comove. Espalhem o vídeo! Aqui vai a letra:

“Sou a favor da ditadura”, disse ele,

“Do pau de arara e da tortura”, concluiu.

“Mas o regime, mais do que ter torturado,

Tinha que ter matado trinta mil”.

E em contradita ao que afirmou, na caradura

Disse: “Não houve ditadura no país”.


E no real o incrível, o inacreditável

Entrou que nem um pesadelo, infeliz,

Ao som raivoso de uma voz inconfiável

Que diz e mente e se desmente e se desdiz.


Disse que num quilombo “os afrodescendentes

Pesavam sete arrobas” – e daí pra mais:

Que “não serviam nem pra procriar”,

Como se fôssemos, nós negros, animais.

E ainda insiste que não é racista

E que racismo não existe no país.


Como é possível, como é aceitável

Que tal se diga e fique impune quem o diz?

Tamanha injúria não inocentável,

Quem a julgou, que júri, que juiz?


Disse que agora “o índio está evoluindo,

Cada vez mais é um ser humano igual a nós.

Mas isolado é como um bicho no zoológico”,

E decretou e declarou de viva voz:

“Nem um centímetro a mais de terra indígena!,

Que nela jaz muita riqueza pro país”.


Se pronuncia assim o impronunciável

Tal qual o nome que tal “hino” nunca diz,

Do inumano ser, o ser inominável,

Do qual emanam mil pronunciamentos vis.


Disse que se tivesse um filho homossexual,

Preferiria que o progênito “morresse”.

Pruma mulher disse que não a estupraria,

Porque “você é feia, não merece”.

E ainda disse que a mulher, “porque engravida”,

“Deve ganhar menos que o homem” no país.


Por tal conduta e atitude deplorável,

Sempre o comparam com alguns quadrúpedes.

Uma maldade, uma injustiça inaceitável!

Tais animais são mais afáveis e gentis.


Mas quem dirá que não é mais imaginável

Erguer de novo das ruínas o país?


Chamou o tema ambiental de “importante

Só pra vegano que só come vegetal”;

Chamou de “mentirosos” dados científicos

Do aumento do desmatamento florestal.

Disse que “a Amazônia segue intocada,

Praticamente preservada no país”.


E assim negou e renegou o inegável,

As evidências que a Ciência vê e diz,

Da derrubada e da queimada comprovável

Pelas imagens de satélites.


E proclamou : “Policial tem que matar,

Tem que matar, senão não é policial.

Matar com dez ou trinta tiros o bandido,

Pois criminoso é um ser humano anormal.

Matar uns quinze ou vinte e ser condecorado,

Não processado” e condenado no país.


Por essa fala inflexível, inflamável,

Que só a morte, a violência e o mal bendiz,

Por tal discurso de ódio, odiável,

O que resolve são canhões, revólveres.


“A minha especialidade é matar,

Sou capitão do exército”, assim grunhiu.

E induziu o brasileiro a se armar,

Que “todo mundo, pô, tem que comprar fuzil”,

Pois “povo armado não será escravizado”,

Numa cruzada pela morte no país


E num desprezo pela vida inolvidável,

Que nem quando lotavam UTIs

E o número de mortos era inumerável,

Disse “E daí? Não sou coveiro”. “E daí?”


“Os livros são hoje ‘um montão de amontoado’

De muita coisa escrita”, veio a declarar.

Tentou dizer “conclamo” e disse “eu canclomo”;

Não sabe conjugar o verbo “concl…amar”.

Clamou que “no Brasil tem professor demais”,

Tal qual um imbecil pra imbecis.


Vigora agora o que não é ignorável:

Os ignorantes ora imperam no país

(O que era antes, ó pensantes, impensável)…

Quem é essa gente que não sabe o que diz?


Mas quem dirá que não é mais imaginável

Erguer de novo das ruínas o país?


Chamou de “herói” um coronel torturador

E um capitão miliciano e assassino.

Chamou de “escória” bolivianos, haitianos…

De “paraíba” e “pau de arara” o nordestino.

E diz que “ser patrão aqui é uma desgraça”,

E diz que “fome ninguém passa no país”.


Tal qual num filme de terror, inenarrável,

Em que a verdade não importa nem se diz,

Desenrolou-se, incontível, incontável,

Um rol idiota de chacotas e pitis.


Disse que mera “fantasia” era o vírus

E “histeria” a reação à pandemia;

Que brasileiro “pula e nada no esgoto,

Não pega nada”, então também não pegaria

O que chamou de “gripezinha” e receitou (sim!),

Sim, cloroquina, e não vacina, pro país.


E assim sem ter que pôr à prova o improvável,

Um ditador tampouco põe pingo nos is,

E nem responde, falador irresponsável,

Por todo ato ou toda fala pros Brasis.


E repetiu o mote “Deus, pátria e família”

Do integralismo e da Itália do fascismo,

Colando ao lema uma suspeita “liberdade”…

Tal qual tinha parodiado do nazismo

O slogan “Alemanha acima de tudo”,

Pondo ao invés “Brasil” no nome do país.


E qual num sonho horroroso, detestável,

A gente viu sem crer o que não quer nem quis:

Comemorarem o que não é memorável,

Como sinistras, tristes efemérides…


Já declarou: “Quem queira vir para o Brasil

Pra fazer sexo com mulher, fique à vontade.

Nós não podemos promover turismo gay,

Temos famílias”, disse com moralidade.

E já gritou um dia: “Toda minoria

Tem de curvar-se à maioria!” no país.


E assim o incrível, o inacreditável,

Se torna natural, quanto mais se rediz,

E a intolerância, essa sim intolerável,

Nessa figura dá chiliques mis.


Mas quem dirá que não é mais imaginável

Erguer de novo das ruínas o país?


Por vezes saem, caem, soam como fezes

Da sua boca cada som, cada sentença…

É um nonsense, é um caô, umas fake-news,

É um libelo leviano ou uma ofensa.

Porque mal pensa no que diz, porque mal pensa,

“Não falo mais com a imprensa”, um dia diz.


Mas de fanáticos a horda lamentável,

Que louva a volta à ditadura no país,

A turba cega-surda surta, insuportável,

E grita “mito!”, “eu autorizo!”, e pede “bis!”


E disse “merda, bosta, porra, putaria,

Filho da puta, puta que pariu, caguei!”

E a cada internação tratando do intestino

E a cada termo grosso e um “Talquei?”,

O cheiro podre da sua retórica

Escatológica se espalha no país.


“Sou imorrível, incomível e imbrochável”,

Já se gabou em sua tão caracterís-

Tica linguagem baixo nível, reprovável,

Esse boçal ignaro, rei de mimimis.


Mas nada disse de Moise Kabagambe,

O jovem congolês que foi aqui linchado.

Do caso Evaldo Rosa, preto, musicista,

Com a família no automóvel baleado,

Disse que a tropa “não matou ninguém”, somente

“Foi um incidente” oitenta tiros de fuzis…


“O exército é do povo e não foi responsável”,

Falou o homem da gravata de fuzis,

Que é bem provável ser-lhe a vida descartável,

Sendo de negro ou de imigrante no país.


Bradou que “o presidente já não cumprirá

Mais decisão” do magistrado do Supremo,

Ao qual se dirigiu xingando: “Seu canalha!”

Mas acuado recuou do tom extremo,

E em nota disse: “Nunca tive intenção

(Não!) De agredir quaisquer Poderes” do país.


Falhou o golpe mas safou-se o impeachável,

Machão cagão de atos pusilânimes,

O que talvez se ache algum herói da Marvel

Mas que tá mais pra algum bandido de gibis.


Mas quem dirá que não é mais imaginável

Erguer de novo das ruínas o país?


E sugeriu pra poluição ambiental:

“É só fazer cocô, dia sim, dia não”.

E pra quem sugeriu feijão e não fuzil:

“Querem comida? Então, dá tiro de feijão”.

É sem preparo, sem noção, sem compostura.

Sua postura com o posto não condiz.


No entanto “chega! […] vai agora [inominável]”,

Cravou o maior poeta vivo, no país,

E ecoou o coro “fora, [inominável]!”

E o panelaço das janelas nas metrópoles!


E numa live de golpista prometeu:

“Sem voto impresso não haverá eleição!”

E praguejou pra jornalistas: “Cala a boca!

Vocês são uma raça em extinção!”

E no seu tosco português ele não pára:

Dispara sempre um disparate o que maldiz.


Hoje um mal-dito dito dele é deletável

Pelo Insta, Face, YouTube e Twitter no país.

Mas para nós, mais do que um post, é enquadrável

O impostor que com o posto não condiz.


Disse que não aceitará o resultado

Se derrotado na eleição da nossa história,

E: “Eu tenho três alternativas pro futuro:

Ou estar preso, ou ser morto ou a vitória”,

Porque “somente Deus me tira da cadeira

De presidente” (Oh Deus proteja esse país!”).


Tivéssemos um parlamento confiável,

Sem x comparsas seus cupinchas, cúmplices,

E seu impeachment seria inescapável,

Com n inquéritos, pedidos, CPIs.

………………………………………………………………

Não há cortina de fumaça indevassÁvel

Que encubra o crime desses tempos inci-vis

E tampe o sol que vem com o dia inadiÁvel

E brilha agora qual farol na noite gris.

É a esperança que renasce onde HÁ véu,

De um horizonte menos cinza e mais feliz.

É a passagem muito além do instagramÁvel

Do pesadelo à utopia por um triz,

No instante crucial de liberdade instÁvel

Pros democráticos de fato, equânimes,

Com a missão difícil mas realizável

De erguer das cinzas como fênix o país.


E quem dirá que não é mais imaginável

Erguer de novo das ruínas o país?


Mas quem dirá que não é mais imaginável

Erguer de novo das ruínas o país?

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

AÇÚCAR E AFETO PRO CHICO E PRAS FEMINISTAS

Foto de Leo Aversa pro Globo, 2004

Ontem saiu uma matéria no site Metrópoles dizendo que Chico Buarque não irá mais cantar "Com açúcar, com afeto". A segunda linha trazia a informação "A razão são as críticas do movimento feminista ao teor machista da letra". 

Tinha um link embaixo das palavras "movimento feminista", então qual foi a primeira coisa que fiz, antes mesmo de ler o resto da matéria? Cliquei lá. Queria muito saber quem era esse tal movimento feminista (que é tão plural) que considera a letra machista. Seria um grupo que fez um abaixo-assinado explicando os motivos? Algumas feministas que haviam se manifestado individualmente? Quais? Onde? Quando? 

Pois bem. Veja o que aparece quando você clica no link do "movimento feminista": 

"Foi mal! Não achamos essa página". E eu fiquei sem resposta às minhas perguntas. 

Pelo jeito eu fui uma das poucas a ter essas dúvidas, já que o link nunca funcionou. E assim, sei que não é todo mundo que desconfia de afirmativas dobre o "movimento feminista", mas você não fica nem com uma pulguinha atrás da orelha quando lê algo tão genérico sobre o movimento feminista? 

Uma velha tática machista é criar falsas polêmicas em nome do feminismo para deslegitimar os feminismos. Uns anos atrás circulou um texto sobre coisas ultrajantes ditas por uma feminista no programa do Jô Soares. Não me lembro o que ela falava nem o nome dela. O fato é que ela não existia. Haviam inventado uma personagem que seria uma famosa feminista brasileira pra falar altas bobagens. Não há qualquer registro nem da existência dessa feminista, nem do que ela falou, nem de um programa do Jô com ela.

Mascus adoram fazer isso. Lembro quando eles criaram um ato em que feministas iam à praia sem absorvente, com o sangue escorrendo pelas suas pernas, e como, segundo esse grupo feminista, todas as mulheres deveriam fazer o mesmo. Tudo mentira. Mas um monte de gente espalhou o texto, sempre com o propósito de provar como feminista é maluca.

Não estou dizendo que a matéria do Metrópoles seguiu esse roteiro. Ela é assinada por Guilherme Amado, um jornalista sério que eu admiro. E ela dá outros detalhes: Chico anunciou essa decisão na série O canto livre de Nara Leão, em que ele narra que a canção de 1967 foi encomendada por Nara, que pediu uma música de uma mulher sofredora. (Só que faltou dizer que Chico não canta a música há quase 40 anos. Não foi algo que ele decidiu anteontem. Foi até antes da internet!).

Chico foi procurado pela reportagem mas não quis comentar quando tomou essa decisão e se ela envolveria outras de suas músicas. O que sabemos é o que ele diz na série: "Eu gostei de fazer [a canção]. A gente não tinha esse problema. É justo que haja, as feministas têm razão, vou sempre dar razão às feministas, mas elas precisam compreender que naquela época não existia, não passava pela cabeça da gente que isso era uma opressão, que a mulher não precisa ser tratada assim. Elas têm razão. Eu não vou cantar 'Com Açúcar com Afeto' mais e, se a Nara estivesse aqui, ela não cantaria, certamente". 

Bom, eu sou feminista desde os 8 anos de idade, sou autora de um dos maiores blogs feministas do país (esta semana completa 14 anos), e sempre adorei "Com Açúcar, com Afeto". Sempre cantarolei e não pretendo parar. Pra mim a música nunca foi machista. É uma denúncia a uma situação machista que, infelizmente, não ficou no passado. Muitas mulheres hoje ainda vivem a submissão daquela mulher da música. Muito menos mulheres hoje que há 54 anos, ainda bem. Graças a nós e a nossa luta.

Na canção temos uma mulher, o eu-lírico, narrando a sua experiência. Livros, filmes, peças, poemas, histórias em quadrinho, canções -- todas as obras podem incluir personagens machistas, racistas, LGBTfóbicos, capacitistas, etaristas, gordofóbicos etc. Seria até estranho se não incluíssem, já que nosso mundo está cheio de gente assim. E essas personagens podem ser protagonistas dessas obras. Podem ser narradoras. Criar um personagem preconceituoso não faz com que a obra ou o autor seja automaticamente preconceituoso.

E nem toda obra precisa ser empoderadora pra ser feminista. Alertar sobre opressão também é feminismo. Já vi feminista americana dizendo que o grande filme Thelma e Louise não é feminista porque não tem final feliz. Ué, isso importa? Toda a jornada e transformação daquelas duas personagens, a sororidade que formam entre elas, a libertação e o primeiro orgasmo de Thelma -- nada disso é válido? Mas perceba que é possível discordar de feministas sem atacá-las, sem chamá-las de lacradoras ou censoras ou, citando "Com Açúcar, com afeto", sei lá o quê.  

Mas olha só, quando você ouve/lê a explicação do Chico pra não cantar mais a música, no que você pensa que aconteceu para que ele tomasse essa decisão? 1) Uma horda de feministas enfurecidas ameaçaram boicotá-lo, cancelá-lo, deixar de amá-lo (posso dizer sem medo de errar que a maior parte das feministas somos apaixonadas pelo Chico), se ele não jogasse a canção no lixo? 2) Uma feminista mandou pro Chico um email com a foto de sua pistola calibre 45 e a mensagem "Cante essa música mais uma vez e você vai ver o que é bom pra tosse, seu comunista safado"? 3) Terríveis feministas peludas e bigodudas fizeram piquete em frente ao estúdio e foram a um show com cartazes de "Meu Açúcar, Meu Afeto"? ou 4) Ao longo dos anos, uma ou outra amiga feminista do Chico chegou pra ele e disse "Vem cá, você não acha que essa música tá um pouco datada?" 

Minha aposta é a alternativa 4. Então por que tanta gente tá reagindo xingando feministas? O PCO (Partido da Causa Operária), por exemplo, que há anos decidiu que o maior problema da esquerda, e quiçá do Brasil e do mundo, é o identitarismo, falou que as feministas finalmente conseguiram algo que nem a ditadura militar conseguiu: censurar o Chico! Uau, como essas feministas malvadas são poderosas! 

Na minha timeline, várias mulheres, imagino que muitas feministas, vieram manifestar sua revolta contra... as feministas. Uma disse que continuaria cantando "Com Açúcar, com Afeto" a plenos pulmões e mandou as feministas tomarem banho. (Dica: geralmente nos mandam lavar louça). Quem tá te impedindo de cantar, moça? Outra disse que daqui a pouco vamos querer cancelar "Mulheres de Atenas" e "Geni" (acho que não: a primeira é claramente irônica, e o alvo da segunda é quem joga pedra na Geni, nunca Geni). Outra disse que sempre se sentiu incomodada com essa música (arte também é feita pra incomodar). 

Outra disse: a gente vivendo o inferno de um governo fascista, com eleições pra este ano, e as feministas preocupadas com uma música?! Pois é, eu realmente duvido que muitas feministas estejam prontas pra pegar em armas por conta de uma canção de meio século atrás. Mas eu também posso perguntar: a gente vivendo o inferno de um governo fascista, com eleições pra este ano, e o pessoal descendo a lenha nas feministas, nos identitários? Será que esse pessoal não têm nada mais útil pra fazer não?

O fato é que um cantor decidir não cantar mais uma música não é censura. Sting, outro divino e maravilhoso que sempre esteve ligado a causas progressistas, já contou como ficou horrorizado ao ver que a canção mais popular do Police, "Every breath you take" -- a história de um stalker obsessivamente vigiando alguém, provavelmente sua ex --, era vista por muitos como uma canção romântica, tocada em casamentos. Sting não parou de cantar a música porque ela representa um quarto de toda sua renda. Mas ele mesmo a problematizou! Ele está lacrando? Censurando sua própria música? (aliás, dá pra problematizar uma obra e continuar adorando? Depende de cada um. Pra mim dá). 

Teve gente que me informou que Madonna parou de cantar "Material Girl". Não sei. Sei que o Frank Sinatra detestava de coração "My Way", que é tipo a canção favorita de quase todo machista (ou, vamos dizer assim, o hino tocado no velório de tantos avôs). Ele achava que a música não o representava, embora tenha sido adaptada do francês pra ele, e também não aguentava mais cantá-la em cada show em Las Vegas (eu gosto da música, mas cada vez que a ouço, mais penso que ela é irônica, porque não é possível. A parte "devo dizer, não de um jeito tímido" a entrega). Sinatra não pôde deixá-la de lado porque seu público a exigia. Era lucrativa demais pra ser escamoteada.

Uma leitora, a Maria Gamboa, lembrou de outro caso: a banda mexicana Café Tacvba parou de cantar uma de suas músicas mais conhecidas, "La Ingrata", em 2017. O videoclipe de 1995 havia sido escolhido pela MTV como o melhor vídeo latinoamericano do ano. Mas 28 anos depois a banda desistiu daquela canção com uma melodia alegre e dançante que trata de um homem que ameaça e no fim mata sua ex ("Estarei com você no seu funeral", promete ele). Como alegou um dos membros da banda, "Éramos muito jovens quando compomos a canção e não estávamos sensibilizados como essa problemática [feminicídio] como estamos agora". Outro emendou, "Muita gente pode dizer que é só uma música. Mas músicas são cultura, e essa cultura é a que faz com que algumas pessoas se sintam com o poder de agredir, de causar dano". Perceba que demorou 28 anos pra banda se tocar. Nenhuma feminista censora malvadona exigiu. Perceba também que a MTV não viu nenhum problema com a canção na época. Nem a revista Rolling Stone, que elegeu o álbum o melhor da história do rock latinoamericano. 

Um dos primeiros sucessos de Sandy e Júnior, "Maria Chiquinha" (neste vídeo de 1992, as crianças cantam sobre Genaro, que desconfia que foi traído por Maria Chiquinha, e que promete que vai cortar sua cabeça e aproveitar o resto do corpo), ficou fora da turnê comemorativa da dupla em 2019. Durante um show em Fortaleza, o público puxou um coro da música enquanto um problema técnico era corrigido. A dupla cantou um pouquinho, mas Júnior discursou no final: "Com o resto [do corpo]? Para com isso. Isso não é mais aceitável, não são mais os anos 90. Não vou fazer nada com o resto, deixa em paz a Maria Chiquinha. A Maria Chiquinha faz o que ela quiser no mato. Não é muito melhor?" 

Pra ser sincera, eu nem vi feministas problematizando "Com Açúcar, com afeto". O que vi foi o pessoal problematizando o identitarismo em geral e as feministas em particular. Vi gente confundindo a decisão pessoal de um grande artista com censura. Chico tem quase 500 magníficas composições no seu repertório. Ele não tem como cantar todas as 500 em cada show. Escolhe as que quer. Nenhuma vai sumir do catálogo. É fácil encontrar qualquer uma no YouTube.

Existe um termo, snowflake (floco de neve, ou floquinho de neve especial), usado pejorativamente pra classificar gente sensível demais, que se ofende com facilidade (ou seja, pra xingar uma geração ou os identitários). Mas quem critica identitários também parece ser sensível demais, não? Afinal, basta alguém problematizar uma obra que os caras já gritam que é censura, cancelamento, linchamento, lacração! Problematizar, criticar, apontar os preconceitos de uma obra não é censura. Censura é proibir a obra. Ah, censura é também proibir a crítica à obra!

Bom, Chico, agradeço a confiança nas feministas. Por mim, você pode cantar "Com Açúcar, com Afeto" até o final de sua vida, que espero que seja eterna. E se precisar de alguém pra formar um dueto, tamos aqui pra isso. 

UPDATE em 5/2/22: Em entrevista à jornalista Regina Zappa publicada no Brasil 247, Chico conversou sobre a celeuma absurda: "O único feminista que criticou essa música fui eu. Eu disse que não cantava mais 'Com Açúcar, com Afeto', como de fato não canto há muitos e muitos anos. Para mim, essa música é meio datada. Agora, dizer que a cancelei, ou censurei, ou vetei é desinformação ou má fé. Devo ter mais de 400 músicas. Não posso cantar todas. Tem um samba que gosto muito e é uma pena não poder cantar que é o 'Pelas Tabelas'. Não canto mais porque fala 'Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela / Eu achei que era ela puxando o cordão'. Não dá mais. Era situada na época das Diretas Já. Ou seja, todo mundo batendo panela de camisa amarela, se eu cantar hoje... (risos). Ficou datada, não é? Não quer dizer que eu renegue a música. Só não canto mais". 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

MORRE A INIGUALÁVEL ELZA SOARES

Ontem morreu aos 91 anos uma grande inspiração, uma mulher formidável: Elza Soares. Reproduzo aqui um dos melhores textos que li sobre essa lenda, publicado há quase 3,5 anos. É de Adriana Lisboa (outro muito bom é este, de Euler de França Belém). E, como eu disse ontem no Twitter, apesar de tantas músicas feministas que Elza consagrou, eu vou me lembrar dela cantando "Façamos (Vamos Amar)" com o Chico. 

Foi para comprar remédios para o filho recém-nascido que uma menina chamada Elza da Conceição Soares, então com 13 anos de idade, resolveu tentar a sorte cantando num programa de calouros da Rádio Tupi, no Rio de Janeiro. Arrancou gargalhadas da plateia quando subiu ao palco com duas tranças feitas em um cabelo mal arrumado e usando um deselegante vestido emprestado da mãe, cheio de alfinetes para se ajustar melhor ao seus poucos 33 quilos. Não era para ser levada a sério, aquela Elza. O deboche era incentivado pelo apresentador do programa, o compositor Ary Barroso, notório pela crueldade com que tratava os calouros.

Mas Elza Soares não era apenas uma caloura prestes a ser mandada embora do palco com suas esperanças destroçadas ao soar de um gongo. “O que foi que você veio fazer aqui?”, perguntou Barroso, ao que Elza respondeu: “Cantar.” “E de que planeta você vem mesmo?”, continuou o apresentador. E foi então que a menina sem graça obrigou a plateia a se calar ao responder: “Venho do mesmo planeta do senhor. O Planeta Fome”.

Diz Elza que, nesse momento, pensou na lata d’água que costumava carregar desde pequena equilibrada sobre a cabeça, na favela onde morava, e no zunzum do louva-a-deus que tanto amava. Ela sempre cantarolava alguma coisa enquanto caminhava levando água, e foi o que fez no programa da Rádio Tupi: soltou a voz como sabia, como era natural à menina com a lata d’água na cabeça, à menina que se inspirava no canto do louva-a-deus encontrado no mato – o inseto que lhe ensinou a técnica do scat bem antes que ela ouvisse falar no jazz norte-americano.

O gongo não soou, Elza cantou até o fim, e um transfigurado Ary Barroso anunciou, sob os aplausos da plateia, que acabava de nascer uma estrela.

Sete turbulentas e gloriosas décadas mais tarde, em 2015, Elza lançou ,"A Mulher do Fim do Mundo", seu 81º lançamento fonográfico, ganhador de um Grammy Latino em 2016. As canções, todas inéditas, foram escritas por compositores da cena contemporânea de São Paulo especialmente para ela, e inspiradas por ela. Um deles, Celso Sim, classificou o álbum como “samba punk”, mas um dos maiores fascínios de Elza Soares é sua recusa, desde o início, a caber em definições, como reiterou na conversa que tivemos por telefone. Ela ama o samba, o jazz, o rock, o hip-hop, e se sente inteiramente à vontade em todos esses gêneros (e suas interseções).

Talvez a melhor definição desse último álbum seja a do website Audiograma: "Elza nos dá um soco no estômago quando abre a boca". "A Mulher do Fim do Mundo" é, acima de tudo, o grito poderoso de uma mulher e de uma artista que vem se reinventando ao longo de mais de oitenta anos – sua data de nascimento é nebulosa – e que sobreviveu a relações abusivas e a muitas perdas terrivelmente dolorosas.

Elzinha, como é carinhosamente chamada pelos amigos, viu sua carreira posta em cheque no período de sua pior crise, no final dos anos 1980, mas ressurgiu das cinzas como a fênix que leva tatuada na panturrilha. E hoje, só faz uma única exigência, nos versos da canção que empresta seu título ao álbum recente: “Quero cantar até o fim.”

Um saxofone na garganta

Elza Soares nasceu na favela de Moça Bonita, Rio de Janeiro, filha de um operário e uma lavadeira. Logo a família se mudou para Água Santa, na mesma cidade. Aos 12 anos de idade, ela foi obrigada a se casar, após ser surpreendida no mato em meio a uma briga violenta com um menino cinco anos mais velho. Aos olhos de seu pai, a luta corporal era na verdade um estupro. “Eu nem sabia o que era sexo, queria mais era empinar pipa,” diz Elza, mas o casamento aconteceu assim mesmo, e os filhos começaram a chegar logo em seguida.

Seu marido sofria de tuberculose, o que a obrigou a procurar emprego muito cedo numa fábrica de sabão. Aos 21 anos, Elza já era viúva e tinha dado à luz sete filhos, dois dos quais morreram antes mesmo de ter nome, e um terceiro que foi doado.

A música, apesar dos pesares e das dores, nunca a abandonou. Ao longo dos anos, Elza reafirmaria que em muitos momentos cantava para não enlouquecer. Começou a gravar samba e bossa nova no início dos anos 1960, em discos como o antológico "A Bossa Negra". Viria a ser considerada uma das grandes renovadoras do samba no Brasil, permanecendo por quinze anos na gravadora Odeon.

Na ocasião da Copa do Mundo de 1962, a nova estrela da música brasileira foi convidada para ser madrinha da seleção brasileira de futebol, e acompanhou o time até o Chile. Ali cantaria o hino nacional e chamaria atenção de ninguém menos do que Louis Armstrong, também presente.

O divertido encontro dos dois é relembrado até hoje com carinho por Elza. 

Após ouvir a cantora brasileira no palco, Armstrong a convidou para ir até o seu camarim, e pediu que lhe dissessem que ela era sua filha, já que se valia com tanta naturalidade e talento da difícil técnica do scat, cuja paternidade é atribuída a ele. Sem saber uma palavra de inglês, a brasileira ouviu dizerem daughter, pensou que a estavam chamando de doutora, e tratou de esclarecer: "Não sou nenhuma doutora não, eu sou a Elza!". Explicado o mal entendido, pediram a ela que fosse “fazer um carinho naquele armário, um baita negão,” ela recorda, e que dissesse a ele: "My father". Duas palavras que em português soam perigosamente próximas de "me fode", or "fuck me", e uma constrangida Elzinha achou que não seria boa ideia.

Ao fim, Louis Armstrong de fato se tornou uma espécie de pai espiritual seu. Foi ele quem disse, ao tentar explicar aquela voz rouca, rascante e potente, que Elza tinha um saxofone na garganta.

Elza e Garrincha

No final dos anos 60, quando lançava uma trinca álbuns com o cantor Miltinho ("Elza, Miltinho e Samba", divido em três volumes e grande sucesso de público e crítica), Elza Soares se casou com o célebre jogador de futebol Manuel Francisco dos Santos, o Mané Garrincha, apelido que vinha do nome de um passarinho e que o acompanhava desde menino. Os dois também tinham se conhecido no Chile, e começado a viver então um relacionamento amoroso clandestino.

Para alguns o melhor jogador de futebol de todos os tempos, Garrincha trazia a herança de um passado de miséria e privação. Neto de escravos e vítima da pólio, tinha as pernas tortas para um lado e uma coluna vertebral retorcida (o que lhe valeria a alcunha de “Anjo das pernas tortas”), além de um pai alcoólatra.

Ele próprio também penava com o alcoolismo, coisa que Elza não sabia ao conhecê-lo. Um atleta que bebia uma garrafa de cachaça por dia – em dias de jogo, inclusive – e que acabaria por morrer, em 1983, de uma cirrose hepática, sozinho e sem um tostão. Ainda assim, como o autor uruguaio Eduardo Galeano sublinhou, “em toda a história do futebol ninguém mais fez tanta gente feliz”: outro dos apelidos de Mané Garrincha era “A alegria do povo.” Conquistara duas Copas do Mundo para os torcedores brasileiros, em 1958 e em 1962; com ele e Pelé jogando lado a lado, o Brasil jamais foi derrotado numa partida.

Mas a alegria ainda era efêmera para Elza, que foi casada com o jogador durante 17 anos, numa relação conturbada. Ela chegava a percorrer os bares pedindo que ninguém servisse bebida a Garrincha. "Era uma criança", diz. Seu “neném”. E como o craque desfizera um casamento anterior para viver com ela, a cantora recebia acusações de ser “inimiga do lar” e “danosa ao casamento” pelos conservadores. As mulheres, parece, tinham medo dela – “Cuidado com a Elza,” diziam. Elza também angariava a antipatia dos torcedores do Botafogo, clube carioca no qual Garrincha jogava, para os quais era a “bruxa” responsável pela decadência do jogador. Ela desabafou numa entrevista à Rolling Stone: “Ser livre, naquela época, foi difícil. E se minha história com Mané se passasse agora, com os jogadores ganhando milhões, não sei se eu seria a mulher dele. Conheci um Garrincha pobre e nosso amor era verdadeiro.”

Uma das tragédias que marcaram a vida da cantora nessa época foi a perda da mãe num acidente de carro em 1969 na rodovia Presidente Dutra, que liga as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Ao volante, Garrincha, embriagado. Elza também estava no radar da ditadura militar, tendo feito um show com Geraldo Vandré, um dos principais opositores ao regime, além de ter gravado um jingle para uma campanha de João Goulart – em 1964, o então presidente Goulart foi deposto pelo golpe de estado perpetrado pelas Forças Armadas Brasileiras com o apoio do governo estadunidense, inaugurando 21 anos de feroz repressão. Os militares invadiram certo dia a mansão que Elza havia comprado no bairro nobre do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, e ela partiu com Garrincha para uma breve temporada de exílio na Itália sem saber ao certo o motivo da perseguição.

“Minha vida é assim,” diria Elza. “A cada cinco minutos, um desafio.” Foi na Itália que o jogador começou a beber mais, segundo ela – deprimido, sem ter sido convocado para integrar a seleção que foi à Copa do México em 1970, cujos jogos assistia de um quarto de hotel em Roma.

No início dos anos oitenta, a carreira de cantora já estava sendo posta de lado em nome dos cuidados com o marido e o filho único do casal, Manoel Francisco dos Santos Filho, o Garrinchinha. Elza chegou a se apresentar em circos, e pensou em abandonar o canto para trabalhar numa creche, a fim de garantir o sustento do menino.

Nesse momento crucial, em que sua fé na música balançou, o amigo Caetano Veloso veio em seu socorro, convidando-a para cantar sua composição “Língua”. Décadas mais tarde, Caetano diria ao jornal "O Globo": “Ela é uma potência criadora. É um esteio para o Brasil. Desde que apareceu, já apareceu com aquela afirmação do talento, da personalidade, com uma visão de mundo aguda. Então, poxa, isso não se joga fora.”

Mas o grande golpe que quase destruiu Elza Soares viria em 1986, três anos após a morte de Garrincha. Ao regressar de sua primeira viagem à terra do pai – em Magé, município do estado do Rio de Janeiro – Garrinchinha, então com oito anos de idade, morreu num acidente de carro. Em certa ocasião, Elza declarou que perdeu com essa tragédia 99,9% do que era. E que só seguiu adiante movida pelo medo – e por um amor incondicional pela música. Acabou deixando o país algum tempo depois. Passou nove anos cantando nos Estados Unidos e na Europa, sem condições de viver no Brasil após uma perda de tamanha magnitude.

Rosas nos ombros

O hiato nas gravações chegou ao fim em 1997, quando, regressando enfim ao Brasil, Elza Soares lançou um álbum composto exclusivamente de sambas, "Trajetória". Veio em seguida um trabalho gravado ao vivo, "Carioca da Gema". E, por fim, a consagração internacional ao ser eleita a cantora do milênio pela BBC de Londres.

Nesse ínterim, um acidente no palco de uma casa de shows no Rio de Janeiro: com o facho de um canhão de luz ofuscando-lhe os olhos, Elza sofreu uma queda de uma altura de dois metros, que anos depois a obrigaria a realizar uma série de cirurgias na coluna e começar a cantar sentada, no palco. Que, ainda assim, ela nunca mais pensou em abandonar. “Coluna é coluna, voz é voz”, afirma.

O álbum que finalmente selou o seu triunfante regresso foi "Do Cóccix até o Pescoço", de 2002. Com ele, recebeu sua primeira indicação ao Grammy Latino. Contando com a direção artística e a parceria fundamental de José Miguel Wisnik, um dos compositores que a acompanham também em "A Mulher do Fim do Mundo", o disco teve o grande mérito de “devolver Elza Soares ao lugar que sempre lhe pertenceu, mas que andou se confundindo com o esquecimento: a excentricidade” (Folha de São Paulo). Ali há de tudo um pouco – samba, funk, rap, tango – e Elza passeia pela obra de grandes compositores brasileiros.

Hoje [setembro de 2018], Elza vive seu mais glorioso momento artístico. Mostra que é uma potência de vida em "A Mulher do Fim do Mundo", derramando sua voz sempre magnífica em canções que abordam a violência doméstica contra a mulher (na poderosa “Maria da Vila Matilde,” ela canta: ”Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”), e questões de gênero e raciais. Reafirma ser a “rainha dos gays” e canta, na belíssima “Benedita,” a história de uma transexual viciada em crack. E Elza “nunca soou tão negra”, comentou Silvio Essinger no jornal "O Globo" – logo ela que foi recusada por uma gravadora, no início da carreira, pela cor da sua pele: “Ah, que pena, ela canta muito, mas é negra,” relata ter ouvido, na ocasião. Lamenta que o Brasil seja, ainda, um país tão racista. “O Brasil e o mundo,” diz.

Atualmente, ela não tem feito planos. “My name is now”, diz. Não menciona novos projetos, deixando-se embalar ainda pelo fabuloso sucesso do álbum recente. As roupas ainda são sexy, decotadas, justas no corpo; os cabelos sempre coloridos e a maquiagem carregada. Volta e meia, novas tatuagens, como as rosas nos ombros e nas costas – uma homenagem ao grande compositor brasileiro Lupicínio Rodrigues, que certa vez lhe ofereceu um buquê de rosas na boate Texas Bar, no Rio de Janeiro, onde ela cantava (a mocinha Elza não reconheceu Lupicínio, num primeiro momento, e recusou o buquê). Sua vida pessoal, sempre ousada e controversa, até recentemente incluía namorados 45 anos mais jovens, mas hoje ela afirma estar feliz casada, finalmente, consigo mesma.

Elza é a musa brasileira rebelde, não a dócil Garota de Ipanema da bossa-nova, que se deixava acompanhar pelos olhos dos homens ao balanço das ondas do mar. Ela é a fúria criativa de uma mulher que é dona da própria voz, do próprio corpo e da própria vida. E se passou sete décadas cantando para não enlouquecer, o “soco no estômago” que desfecha em seu último álbum é um grito de sanidade num mundo delirante.