sexta-feira, 3 de agosto de 2018

TUITAÇO PELA VIDA DAS MULHERES

Já começou a audiência pública da APDF 442, que trará quase 50 especialistas para discutir a descriminalização do aborto. Você pode -- deve -- assistir a audiência aqui, ao vivo, ou na TV Justiça.
É um momento importantíssimo pra gente finalmente debater a questão da legalização do aborto. Como sabemos, a hipocrisia faz com que não falemos sobre aborto. 
Condena-se o aborto, apesar de uma mulher abortar a cada minuto no Brasil. Mas falar disso é tabu. 
E esse condenação é feita através de preceitos religiosos e morais, apenas. Num Estado Laico, não são esses preceitos que devem regular a lei. 
Divulgue! 

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

ESCOLHA SEU POR DO SOL

E o sol se põe em Icaraí do Amontada, Ceará

Pessoas queridas, faz três semanas que voltei da minha viagem de duas semanas. Estava com preguiça de escrever sobre essa viagem, mas agora vai! É bom até pra eu me lembrar depois de como foram minhas férias em 2018, pois essas devem ter sido as únicas no ano (mas vamos ver se dá pra aproveitar algum feriado mais pra frente).
Lolinha na pequena piscina da pousada em Luis Correia, Piauí
Desta vez o maridão e eu pegamos nosso Uno Mille e fomos pro Oeste do Ceará. Essas viagens indo de carro até cidades próximas são muito bacanas, e já fizemos várias vezes quando vivíamos no Sul (íamos de Joinville até Buenos Aires e Montevidéu, parando pelo caminho, lógico). E fizemos uma também em 2012, indo na direção leste, de Fortaleza até João Pessoa, que na época ainda não conhecíamos. Essas mais antigas a gente fez no módulo "sem destino" -- a gente sabia onde queria chegar, mas não onde ia parar no trajeto. 
Silvinho (vulgo maridão) abençoado por um raio de sol em Macapá, PI
Desta vez não. Foi tudo planejadinho, todas as pousadas reservadas com antecedência. Fizemos assim porque não estamos ficando mais jovens, porque eu não estou dirigindo mais (teria que renovar minha carteira, que venceu em 2011; não tenho vontade), porque eu não queria que o maridão dirigisse mais de 3 ou 4 horas por dia, e porque talvez seja mais barato reservar quarto antes, com promoções, do que chegar numa cidade que você não conhece e ter que encontrar um lugar (na nossa viagem de 2012, ao chegarmos em Natal, por exemplo, a cidade tava lotada).
Por do sol em Camocim, Ceará
O plano era conhecer lugares que ainda não conhecíamos, parar em Jeri, que amamos, e ir até o Piauí. E deu tudo certo. Foram quinze dias super lindos e agradáveis.
Por do sol em Jeri, CE
A primeira parada foi Lagoinha. Ficamos num hotel muito bom (o melhor café da manhã de toda a viagem foi lá) em frente à praia. Vários guias vieram oferecer seus serviços. A gente sabe que tá velhinha quando todos te oferecem passeio de buggy "sem emoção".
Hotel em Lagoinha em frente ao mar
Aproveitamos mais a piscina que o mar. Tinha restaurante no hotel, era bom (e caro). Na segunda noite pedimos uma pizza com a recepcionista do hotel, que recomendou uma pizzaria excelente. Demos a ela uma gorjeta de R$ 15 por isso.
Lolinha na piscina do hotel em Lagoinha
Segunda parada: Itarema. Não é um lugar muito famoso, então eu não imaginava encontrar nenhum paraíso. A entrada na cidade foi assustadora -- havia uma casa alugada com som tão alto que conseguia incomodar a todos. 
Em frente à praia em Itarema
Mas o hotel era bom (foi a piscina que o Silvinho mais gostou em toda a viagem), e tinha uma ótima pizzaria e churrascaria bem em frente. Fomos à praia mas não tivemos vontade de entrar na água (era bonito, mas não tínhamos tanto tempo).
Casal romântico em Itarema
Ah sim, é que ainda não falei: toda essa viagem foi durante a Copa do Mundo. E havia jogos que a gente queria ver. 
Por do sol em Lagoinha
Terceira parada foi Jeri, a linda e maravilhosa e badalada e cara Jericoacoara. Não tem jeito: um dos maiores atrativos de Jeri pra gente é a sorveteria que fica na praça central. A Gelato Grano deve ser a melhor do nordeste (vai abrir uma em Fortaleza, ueba!). 
Filhote de iguana andando alegremente em Jeri
Ficamos na pousada Papaya de novo, sempre ótima (mas a maior parte das pousadas em Jeri é, a concorrência é enorme). Tudo é mais caro que em outros lugares, mas encontramos o restaurante Sapão, com uma pizza incrível por 30 e poucos reais. 
Por do sol em Jeri
Perdemos nossa visita às lagoas desta vez. Tínhamos acertado com um guia (R$ 100) que nos levaria no nosso carro pra Lagoa Azul e a do Paraíso (o complexo turístico lá agora está cobrando R$ 20 por pessoa só pra entrar, o que acho um absurdo), mas era dia de jogo do Brasil, o guia se esqueceu da gente depois do jogo, e o maridão não tava cheio de energia pra ir. 
Preparativos para o por do sol em Camocim
Já sei o que faremos da próxima vez que formos pra Jeri: vamos ficar uma ou duas noites em alguma pousada mais próxima das lagoas, aí aproveitaremos as lagoas, e outras noites na vila de Jeri mesmo (certeza que é tudo caro de qualquer jeito).
Praia de Macapá, PI
E no dia seguinte chegamos ao Piauí, depois de uma estrada esburacada. Se nas estradas cearenses há placas por todo o canto, no Piauí há uma grande ausência de sinalização, o que faz falta. Mas chegamos ao menor litoral do Brasil (66 km, só conhecíamos Teresina), que é maravilhoso. Primeiro ficamos em Luis Correia, na Praia do Macapá, um deslumbre (e vazia, só tinha a gente). Foi o meu mar preferido em toda a viagem. 
Lolinha festejando a praia de Macapá só pra ela
Mas o lugar não tem muita infraestrutura. Ainda bem que fizeram jantar pra gente toda noite na pousada!
Aquele pontinho sou eu em Ponta do Anel, Luis Correia
Fomos muito bem tratados, mas... foi aí que começaram nossos problemas com sapos na viagem. Em Jeri havia um sapo na escada bloqueando o meu caminho, e tive de pedir pra alguém negociar com ele pra que eu pudesse passar. Mas não foi no nosso quarto. Já em Macapá... Pensa em abrir o vaso sanitário e dar de cara com um sapinho! Ok, tenho certeza que foi traumático pra ele também, tadinho. Mas pra mim foi mais! 
Lolinha desenhando hieróglifos com o pé nas areias de Macapá
Pensávamos que nossos problemas com sapos estavam terminados ao chegar no próximo ponto da nossa viagem, perto de Atalaia, também no Piauí, pois parecia uma pousada mais urbana, menos rústica, digamos. Mas eis que, depois de ver a derrota do Brasil pra Bélgica no quarto, abro a porta do banheiro e a primeira coisa que vejo é uma pererequinha na parede. E outras apareceram. 
Silvinho em Ponta do Anel, Luis Correia
O dono da pousada nos mudou de quarto, mas... no outro banheiro tinha pererecas também (pelo menos o banheiro era maior). Numa noite tinha quatro na parede do banheiro. Isso não foi nada legal. No final eu acabei tomando banho com uma perereca minúscula me olhando. Mas não é o que eu quero pra minha vida, com todo o respeito aos sapinhos!
No passeio de barco pela Delta do Parnaíba
Lá fizemos o passeio de barco pelo Delta do Parnaíba, que vale muito a pena! São quase cinco horas de passeio, com frutas, almoço e caranguejada (que dispensamos) inclusos, por R$ 70 por pessoa. Pegamos o barco do EcoAdventure no Porto dos Tatus, que pareceu ser menos barulhento do que os outros (estou falando da música). 
"Homem-lama" mostra caranguejo que acabou de pegar
Todos os passeios parecem incluir um "homem-lama", que demonstra como pegar caranguejos e distinguir o macho da fêmea (e, como a caça da fêmea é proibida, tem que denunciar se alguém te servir uma caranguejada de fêmeas). Ele nos contou que a maior parte dos caranguejos caçados vai pro restaurante Chico do Caranguejo, em Fortaleza.
Além dos caranguejos, não vimos muitos outros animais no percurso. O maridão queria muito fotografar um jacaré. Sem sorte. Vimos um pica-pau! Mas é um luxo poder nadar no mar do Maranhão de um lado e no rio do Piauí em outro. Tudo na mesma praia!
Lolinha no mar do Maranhão
Depois de cinco dias no Piauí, voltamos ao Ceará. Começava o nosso trajeto de volta pra casa. Então paramos em Camocim. E gente, por que é que o pessoal não fala que Camocim é linda de morrer? Olhem o cartão postal da cidade. 
Camocim é fantástica. Ficamos num belo hotel com chalés, em frente à praia. Acho que as melhores fotos de por de sol que o maridão tirou foram de lá. 
Por do sol em Camocim
Que lugar! Decidimos que, na nossa próxima viagem ao Oeste de Fortaleza, iremos até Camocim (sem o Piauí). Daí vai dar pra ficar mais tempo em cada local. E Camocim, que não é assim tããão longe de Jeri, passou a ser obrigatória. 
Rindo em Camocim
Depois eu vi que Camocim é muito grande, quase tanto quanto a cidade de SP, em quilômetros quadrados (1158). Tão grande que 10% do litoral cearense é Camocim!
Por do sol em Icaraí do Amaontada
Em seguida, fomos a um lugar que prometia muito (e cumpriu): Icaraí da Amontada. A pousada era bonita, também em frente à praia, uma praia que me lembrou a Praia dos Ossos, em Búzios, da minha juventude. Tinha vista praqueles moinhos de vento (energia eólica), o que não é bom, mas creio que não atrapalhou tanto assim.
Icaraí do Amontada
Deixa eu ver se consigo recriar um diálogo que eu e o maridão tivemos dentro do mar. Havia quatro turistas perto da gente, também no mar, e de repente só havia três. "Não eram quatro pessoas?", o maridão perguntou. Uma tinha mergulhado e logo reapareceu. Eu disse: "Se eu ficasse submersa e desaparecesse, o que você iria fazer?" E ele: "Bom, dizem que se deve aguardar 24 horas antes de reportar o desaparecimento de alguém". Ele levou alguns beliscões românticos. 
Casal velhinho rindo em Amontada
A pousada foi a única em que ficamos que não tinha TV no quarto. E então fomos a um bar para assistir França e Bélgica. Comemos deliciosos espetinhos. A cidade tem uma boa infraestrutura.
Apareceu uma pererequinha na parede do quarto, que o maridão conseguiu por pra fora colocando-a numa caixinha. Mas foi uma só em duas noites (mais tarde, quando Silvio contou a seus alunos nossos encontros imediatos com tantos sapinhos, ninguém fez cara de espanto). 
Indo para as dunas ver o por do sol em Jeri
E por último, Paracuru, que já conhecíamos. Lá nos deram o maior quarto de toda a viagem, um quarto duplo. Paracuru tem um centro agitado com muitas opções de restaurantes, mas a praia que fomos não é a melhor do mundo. 
Na piscina em Lagoinha
No total da viagem inteira, pagamos R$ 368 de gasolina, R$ 1.060 de comida (incluindo sorvetes), R$ 295 de tours e guias, e o mais caro, disparado, R$ 2.867 de pousadas e hotéis (para quinze noites, uma média de 191 por noite). Somando tudo, deu R$ 4.617. Certamente se fossemos a qualquer lugar de avião, gastaríamos bem mais. 
Este é de Camocim
E aí, escolheu seu por do sol favorito?

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

NEM PRESA NEM MORTA

Esta semana começa uma grande mobilização pela descriminalização do aborto. Vamos usar a tag #NemPresaNemMorta e #LegalizeOAborto. É pela vida das mulheres!
Publico hoje com muito orgulho o texto da advogada feminista Rubia Abs da Cruz, do CLADEM Brasil (Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher). 

Esta semana terá início a audiência pública a respeito da ADPF 442 -- Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental -- ajuizada pelo PSOL com apoio do Instituto Anis. Seu foco é o questionamento dos artigos 124, 125 e 126 do Código Penal –- que tipificam o crime de aborto -– pois tais artigos ferem preceitos fundamentais da Constituição como o direito à saúde, à liberdade, à dignidade, ao planejamento familiar, à cidadania, que acabam por ser negados quando se impede ou se criminaliza o aborto. Assim como o crime de aborto não encontra respaldo nas Convenções Internacionais de Direitos Humanos ratificadas pelo Brasil.
Vivemos no país um contexto regressivo. Temos um Congresso extremamente conservador, onde a luta feminista tem se direcionado a conter retrocessos. Neste cenário, o movimento feminista apoiou o recente ingresso da ADPF 442.  
Este apoio tem respaldo no fato de que, do ponto de vista jurídico, verificam-se alguns avanços importantes no Supremo, como a ADPF 54, que possibilitou a interrupção da gravidez nos casos de feto anencéfalo e, especialmente, a decisão no Habeas Corpus –- HC 124.306, que conferiu interpretação conforme a Constituição aos artigos 124, 125 e 126 do Código Penal, para excluir de seu âmbito de incidência a interrupção voluntária da gravidez efetivada no primeiro trimestre, por compreender que a criminalização, nessa hipótese, viola diversos direitos fundamentais da mulher, mencionando também o princípio da proporcionalidade. Essas decisões trazem para a Corte Suprema a possibilidade de um debate racional, constitucional e humanitário a respeito de uma questão que é grave na sociedade. 
Sabemos que a criminalização do aborto é uma política de controle social do corpo da mulher, e que, no Brasil, esta criminalização afeta diretamente a saúde deste segmento da população, em especial as mulheres em condições de maior vulnerabilidade.
O momento é crucial e de impasse na batalha pelos direitos das mulheres. A ADPF 442 é uma ação jurídica, mas também política. Ela busca a descriminalização e garantia do direito à autonomia, gerando novas possibilidades para concretizar a história das mulheres, mas também é uma oportunidade de levar, com o debate que suscita, informação para a sociedade, disputando outros paradigmas e reflexões para além do bombardeio a que a sociedade está submetida com discursos preconceituosos ou de cunho religioso. 
CLADEM, a organização da qual faço parte, além de inúmeras outras organizações da sociedade civil e instituições públicas, jurídicas e de saúde, ingressaram com Amici Curiae (Amigo da Corte) para opinar durante o processo de julgamento da ADPF 442. Antes de iniciar o debate interno, a ministra relatora deste processo, Rosa Weber, agendou esta Audiência Pública que ocorre nos dias 3 e 6 de agosto. Nós que estamos no campo de defesa dos direitos das mulheres estaremos demonstrando outros caminhos possíveis relacionados ao aborto, para além das política de criminalização, e numa perspectiva democrática de condições muito melhores para a vida e saúde das mulheres. 
Organizações feministas estão desenvolvendo um amplo trabalho de comunicação e de organização do Festival Pela Vida das Mulheres -- #NemPresaNemMorta --, com eventos em várias cidades do país, e uma concentração grande em Brasília, entre os dias 3 a 6 de agosto.
Nossa luta pela vida das mulheres não iniciou com a ADPF 442 e nem se esgotará com ela. Entretanto, a importância está no debate jurídico-político instaurado na sociedade e na mais alta Corte de Justiça a partir desta ação. Atualizar e enriquecer o debate público, levar o tema à mídia é muito importante, pois abre caminhos e provoca vários atores a pensar na questão com melhores informações e argumentos. 
Nossa sociedade é desigual e precisamos de caminhos para acabar com esta política de criminalização que discrimina. São as mulheres pobres, em sua maioria negras, que sofrem com a falta de acesso a uma atenção de qualidade. Aquelas que têm melhores condições econômicas podem dispor com mais facilidade de medicações, clínicas e até viagens ao exterior onde o aborto é legalizado. 
Por outro lado, mesmo acreditando na evolução jurídica e política que se refletirá em toda a sociedade, neste processo de decisão do Supremo sobre a descriminalização do aborto, restará garantir, junto ao Executivo, a legalização do aborto através de políticas públicas de prevenção e de saúde. Esta não será uma tarefa fácil. 
O que vemos, na situação atual, é que mesmo onde o direito está garantido (no aborto por estupro, risco de vida da gestante e no caso de fetos anencéfalos) os obstáculos existem e são enormes.
Mas vivas nos queremos e para isso lutaremos!