A Tania me enviou este email:
Primeiramente, admiro muito o seu trabalho e acompanho o seu blog. Tenho uma filha de 3 anos e depois que a minha filha nasceu, abri ainda mais os meus olhos para as questões de gênero, afinal, quero educá-la de uma forma diferente da educação que eu recebi. Sou grata a você por escrever informações tão valiosas para nós.
Tenho um blog materno onde abordo muitas questões polêmicas e escrevi um post sobre consumismo infantil. Lendo sobre o assunto na internet me deparei com um post antigo em outro blog que me deixou indignada, ao ponto de fazer um comentário.
Sei que você já escreveu sobre o assunto, mas nunca é demais lembrar que as mulheres são vítimas da publicidade.
Dizer que as mulheres são consumidoras compulsivas em potencial é uma afirmação um tanto quanto simplista e preconceituosa. Dizer que a mulher é consumista por natureza é um pensamento ultrapassado que faz parte do senso comum. A publicidade estuda o comportamento humano e detecta as motivações que levam uma pessoa a consumir. Isso é muito injusto para nós consumidores, que na correria do dia a dia, nem sempre prestamos atenção ao que nos motiva a fazer uma coisa. As estatísticas mostram que as mulheres consomem mais, porém, esses são dados quantitativos.
Se formos analisar os dados qualitativos, poderemos compreender melhor que as decisões de compra das famílias são delegadas às mulheres, porque são elas que administram os gastos familiares. As mulheres assumem muitos papeis e muitas vezes enfrentam uma jornada dupla, trabalhando e cuidando da família, por isso consomem produtos para elas mesmas e para toda a família.![]() |
| Velhos clichês sobre mulheres (e depressão) |
Para a maioria dos homens, o único papel que lhes é delegado é o de provedor, e às vezes este nem sequer precisa se preocupar em administrar o seu salário, deixando essa tarefa para a esposa.
Para o mercado, a criança é um consumidor em formação, que exerce forte influência nas decisões de compra da família. A criança ainda é imatura pra compreender as relações de consumo, por isso mesmo é o 'alvo' mais fácil e sofre um verdadeiro bombardeio publicitário. A maioria das mulheres passa muito mais tempo com os filhos do que os homens e acabam sofrendo as consequências desse bombardeio publicitário. Além de racionalizar suas decisões de compra, ainda lhes é atribuída a responsabilidade da educação dos filhos. No meu ver essa é uma carga pesada demais para carregar.
O problema do consumismo é mais grave e profundo do que se imagina e em muitos casos foge ao controle dos próprios consumidores. Na maioria das vezes se transfere a responsabilidade para os cidadãos, sem considerar que todos nós somos assediados pela publicidade em todos os ambientes que frequentamos, inclusive dentro de nossas próprias casas. Pode-se dizer que esse é um problema de ordem ética, econômica e social.
Meus comentários: Concordo com o que você escreveu. Mas, de fato, grande parte das mulheres (e dos homens, óbvio) é consumista. Como já dizia Germaine Greer nos anos 70, nós mulheres devemos deixar de ser as maiores patrocinadoras do capitalismo.
O capitalismo depende das compras das mulheres, e depende também de vender a ideia de que somos consumidoras descontroladas, dessas que se veem em comédias românticas quando alguma loja de sapatos faz liquidação. Sabe, uma moça batendo na outra pra disputar quem fica com o último par de sapatos de salto alto com potencial para deformar seus pés? Não tenho certeza de que na vida real isso existe -- pelo menos não com a frequência que a mídia quer nos fazer crer. E também não sei se isso é exclusividade feminina. Qualquer loja com promoção de forçar pessoas a fazer fila na entrada sabe que os homens tampouco são comportados nessas horas.
Todos nós humanos somos alvos da propaganda, e estamos sujeitos a sua influência (lógico que enganar e manipular crianças é muito mais fácil). O capitalismo sobrevive transformando produtos que não precisamos em coisas que não podemos viver sem. Cria uma necessidade imaginária para vender de tudo. E, com as mulheres, a propaganda ensina que existe um padrão de beleza, que estamos longe dele (porque é um padrão excludente e inatingível), mas que não há problema -- se a gente gastar muito, conseguirá se enquadrar, ou pelo menos morrerá tentando.
Portanto, a mídia ensina que nós mulheres devemos nos odiar, odiar nossos corpos, nossa aparência, e que seremos odiadas por quem mais importa numa sociedade patriarcal -- os homens -- por não estarmos no padrão desejado. É tudo mentira. Primeiro que dane-se o que os homens acham dos corpos das mulheres. Dane-se não conquistar um homem. Segundo que a esmagadora maioria das mulheres (e homens) no mundo está fora do padrão que a mídia vende, e nem por isso deixa de transar, namorar, casar. É só sair às ruas para ver que pouquíssimos casais parecem pertencer aos comerciais. O que se vê é uma gigantesca diversidade.
O capitalismo sempre está a serviço do patriarcado, e vice versa. Por exemplo: com o fim da Segunda Guerra, os países ricos precisavam mandar de volta a suas casas as mulheres que tinham trabalhado (e gostado) durante a guerra. E, mais ainda: precisavam fazê-las consumir sem parar, para sustentar os EUA, uma potência que só crescia. Para tanto, a mídia passou a veicular a ideia de que uma mulher realizada era aquela que tinha marido e filhos e cuidava do lar com esmero, sempre com a ajuda de eletrodomésticos. A propaganda valorizava imagens de donas de casa que posavam, orgulhosas, ao lado de seus fogões novinhos, geladeiras e máquinas de lavar. Elas estavam sendo patriotas ao comprar aqueles produtos (e também a casa própria).
Não foi muito diferente em 2001, quando os EUA foram atacados em casa. Qual foi o pedido de Bush Jr. aos americanos (tanto homens quanto mulheres) em seguida ao 11 de setembro? Foi: COMPREM.
Mudando só um pouquinho de assunto, esses dias ando revoltada porque a televisão da minha mãe, que tinha menos de quatro anos, quebrou. Eu sou da época que TV durava a vida toda, ou pelo menos algumas décadas, pô! Levamos ao conserto e o técnico disse que não valia a pena consertar, que ficaria caro demais, que o negócio era comprar outra e se conformar que hoje as TVs duram três anos em média.
Três anos?! Como que um trambolho daqueles pode durar tão pouco?! Imaginem os depósitos de lixo que estamos criando: TVs cada vez maiores com prazo de validade cada vez menor.
Fui a uma loja de departamento e compartilhei minha indignação com um vendedor muito sábio que me alertou que não eram só as TVs, não -- que hoje todos os eletros duravam três anos. E ele lembrou que não fazia tanto tempo que algumas marcas vendiam aparelhos com garantia de uma Copa do Mundo para a outra (ou seja, quatro anos!). Isso tudo acabou, disse ele.
Olha, sei que isso tem nome -- obsolescência programada, ou obsolescência planejada, que é justamente fazer produtos que durem pouco para que sejam descartados logo e o consumidor precise comprar outro (recomendo o documentário espanhol Comprar, Tirar, Comprar). Mas gente, três anos?! Que droga é essa? Eu não quero trocar de computador, TV, fogão, a cada três anos, catzo! É caro, é inútil, e causa danos irreversíveis ao meio ambiente. Como permitimos que produtos considerados duráveis durem tão pouco? E quando chegamos a essa loucura dos três anos?
Fugi um pouco do tema, eu sei. A questão é que o capitalismo vende produtos diferentes para homens provarem sua (frágil) masculinidade e para mulheres se alienarem na sua dita feminilidade. Estamos cada vez mais mergulhados no gendered marketing, ou marketing de gênero (brinquedos, por exemplo, estão muito mais divididos por gênero hoje do que há 50 anos). Lançam produtos quase idênticos pintados de rosa (lembram da caneta Bic For Her? Porque mulher aparentemente não pode usar uma caneta comum), vendidos como essenciais pras mulheres. E, pra piorar, esses produtos destinados a nós costumam custar muito mais.
Eu faço o possível pra não ser enganada. Pro capitalismo pegar meu dinheiro, tem que suar muito. Mas não sou uma eremita. Também gasto. Só não caio nos golpes que insistem que tenho que comprar aquilo porque sou mulher e mulher não vive sem isso. Eu vivo sem um monte de coisa, até sem celular. E definitivamente sobrevivo bem sem maquiagem e salto alto.
















































