sexta-feira, 9 de junho de 2017

MULHERES SÃO CONSUMISTAS?

A Tania me enviou este email:

Primeiramente, admiro muito o seu trabalho e acompanho o seu blog. Tenho uma filha de 3 anos e depois que a minha filha nasceu, abri ainda mais os meus olhos para as questões de gênero, afinal, quero educá-la de uma forma diferente da educação que eu recebi. Sou grata a você por escrever informações tão valiosas para nós.
Tenho um blog materno onde abordo muitas questões polêmicas e escrevi um post sobre consumismo infantil. Lendo sobre o assunto na internet me deparei  com um post antigo em outro blog que me deixou indignada, ao ponto de fazer um comentário.
Sei que você já escreveu sobre o assunto, mas nunca é demais lembrar que as mulheres são vítimas da publicidade.
Dizer que as mulheres são consumidoras compulsivas em potencial é uma afirmação um tanto quanto simplista e  preconceituosa. Dizer que a mulher é consumista por natureza é um pensamento ultrapassado que faz parte do senso comum. A publicidade estuda o comportamento humano e detecta as motivações que levam uma pessoa a consumir. Isso é muito injusto para nós consumidores, que na correria do dia a dia, nem sempre prestamos atenção ao que nos motiva a fazer uma coisa.  As estatísticas mostram que as mulheres consomem mais, porém, esses são dados quantitativos.
Se formos analisar os dados qualitativos, poderemos compreender melhor que as decisões de compra das famílias são delegadas às mulheres, porque são elas que administram os gastos familiares. As mulheres assumem muitos papeis e muitas vezes enfrentam uma jornada dupla, trabalhando e cuidando da família, por isso consomem produtos para elas mesmas e para toda a família.
Velhos clichês sobre
mulheres (e depressão)
Para a maioria dos homens, o único papel que lhes é delegado é o de provedor, e às vezes este nem sequer precisa se preocupar em administrar o seu salário, deixando essa tarefa para a esposa.
Para o mercado, a criança é um consumidor em formação, que exerce forte influência nas decisões de compra da família. A criança ainda é imatura pra compreender as relações de consumo, por isso mesmo é o 'alvo' mais fácil e sofre um verdadeiro bombardeio publicitário. A maioria das mulheres passa muito mais tempo com os filhos do que os homens e acabam sofrendo as consequências desse bombardeio publicitário. Além de racionalizar suas decisões de compra, ainda lhes é atribuída a responsabilidade da educação dos filhos. No meu ver essa é uma carga pesada demais para carregar.
O problema do consumismo é mais grave e profundo do que se imagina e em muitos casos foge ao controle dos próprios consumidores. Na maioria das vezes se transfere a responsabilidade para os cidadãos, sem considerar que todos nós somos assediados pela publicidade em todos os ambientes que frequentamos, inclusive dentro de nossas próprias casas. Pode-se dizer que esse é um problema de ordem ética, econômica e social. 

Meus comentários: Concordo com o que você escreveu. Mas, de fato, grande parte das mulheres (e dos homens, óbvio) é consumista. Como já dizia Germaine Greer nos anos 70, nós mulheres devemos deixar de ser as maiores patrocinadoras do capitalismo.
O capitalismo depende das compras das mulheres, e depende também de vender a ideia de que somos consumidoras descontroladas, dessas que se veem em comédias românticas quando alguma loja de sapatos faz liquidação. Sabe, uma moça batendo na outra pra disputar quem fica com o último par de sapatos de salto alto com potencial para deformar seus pés? Não tenho certeza de que na vida real isso existe -- pelo menos não com a frequência que a mídia quer nos fazer crer. E também não sei se isso é exclusividade feminina. Qualquer loja com promoção de forçar pessoas a fazer fila na entrada sabe que os homens tampouco são comportados nessas horas. 
Todos nós humanos somos alvos da propaganda, e estamos sujeitos a sua influência (lógico que enganar e manipular crianças é muito mais fácil). O capitalismo sobrevive transformando produtos que não precisamos em coisas que não podemos viver sem. Cria uma necessidade imaginária para vender de tudo. E, com as mulheres, a propaganda ensina que existe um padrão de beleza, que estamos longe dele (porque é um padrão excludente e inatingível), mas que não há problema -- se a gente gastar muito, conseguirá se enquadrar, ou pelo menos morrerá tentando.
Portanto, a mídia ensina que nós mulheres devemos nos odiar, odiar nossos corpos, nossa aparência, e que seremos odiadas por quem mais importa numa sociedade patriarcal -- os homens -- por não estarmos no padrão desejado. É tudo mentira. Primeiro que dane-se o que os homens acham dos corpos das mulheres. Dane-se não conquistar um homem. Segundo que a esmagadora maioria das mulheres (e homens) no mundo está fora do padrão que a mídia vende, e nem por isso deixa de transar, namorar, casar. É só sair às ruas para ver que pouquíssimos casais parecem pertencer aos comerciais. O que se vê é uma gigantesca diversidade.
O capitalismo sempre está a serviço do patriarcado, e vice versa. Por exemplo: com o fim da Segunda Guerra, os países ricos precisavam mandar de volta a suas casas as mulheres que tinham trabalhado (e gostado) durante a guerra. E, mais ainda: precisavam fazê-las consumir sem parar, para sustentar os EUA, uma potência que só crescia. Para tanto, a mídia passou a veicular a ideia de que uma mulher realizada era aquela que tinha marido e filhos e cuidava do lar com esmero, sempre com a ajuda de eletrodomésticos. A propaganda valorizava imagens de donas de casa que posavam, orgulhosas, ao lado de seus fogões novinhos, geladeiras e máquinas de lavar. Elas estavam sendo patriotas ao comprar aqueles produtos (e também a casa própria). 
Não foi muito diferente em 2001, quando os EUA foram atacados em casa. Qual foi o pedido de Bush Jr. aos americanos (tanto homens quanto mulheres) em seguida ao 11 de setembro? Foi: COMPREM. 
Mudando só um pouquinho de assunto, esses dias ando revoltada porque a televisão da minha mãe, que tinha menos de quatro anos, quebrou. Eu sou da época que TV durava a vida toda, ou pelo menos algumas décadas, pô! Levamos ao conserto e o técnico disse que não valia a pena consertar, que ficaria caro demais, que o negócio era comprar outra e se conformar que hoje as TVs duram três anos em média. 
Três anos?! Como que um trambolho daqueles pode durar tão pouco?! Imaginem os depósitos de lixo que estamos criando: TVs cada vez maiores com prazo de validade cada vez menor.
Fui a uma loja de departamento e compartilhei minha indignação com um vendedor muito sábio que me alertou que não eram só as TVs, não -- que hoje todos os eletros duravam três anos. E ele lembrou que não fazia tanto tempo que algumas marcas vendiam aparelhos com garantia de uma Copa do Mundo para a outra (ou seja, quatro anos!). Isso tudo acabou, disse ele.
Olha, sei que isso tem nome -- obsolescência programada, ou obsolescência planejada, que é justamente fazer produtos que durem pouco para que sejam descartados logo e o consumidor precise comprar outro (recomendo o documentário espanhol Comprar, Tirar, Comprar). Mas gente, três anos?! Que droga é essa? Eu não quero trocar de computador, TV, fogão, a cada três anos, catzo! É caro, é inútil, e causa danos irreversíveis ao meio ambiente. Como permitimos que produtos considerados duráveis durem tão pouco? E quando chegamos a essa loucura dos três anos?
Fugi um pouco do tema, eu sei. A questão é que o capitalismo vende produtos diferentes para homens provarem sua (frágil) masculinidade e para mulheres se alienarem na sua dita feminilidade. Estamos cada vez mais mergulhados no gendered marketing, ou marketing de gênero (brinquedos, por exemplo, estão muito mais divididos por gênero hoje do que há 50 anos). Lançam produtos quase idênticos pintados de rosa (lembram da caneta Bic For Her? Porque mulher aparentemente não pode usar uma caneta comum), vendidos como essenciais pras mulheres. E, pra piorar, esses produtos destinados a nós costumam custar muito mais
Eu faço o possível pra não ser enganada. Pro capitalismo pegar meu dinheiro, tem que suar muito. Mas não sou uma eremita. Também gasto. Só não caio nos golpes que insistem que tenho que comprar aquilo porque sou mulher e mulher não vive sem isso. Eu vivo sem um monte de coisa, até sem celular. E definitivamente sobrevivo bem sem maquiagem e salto alto. 

quinta-feira, 8 de junho de 2017

GUEST POST: O DIA EM QUE A DOMINAÇÃO MASCULINA FOI DOMINADA

A jornalista Juliana me enviou em 2014 um texto que ficou perdido entre os meus emails. Eu só o vi faz uns poucos dias (que vergonha!), e pedi pra ela atualizá-lo. 
O excelente texto é sobre o escândalo do ex-diretor do FMI (que estava cotado para ser candidato a presidente da França) Dominique Strauss-Kahn, que foi acusado de estupro por uma camareira de hotel em Nova York, em 2011.
O que mudou de 2014 pra cá? Bom, primeiro que eu vi um filme que se baseou nessa história (com Gérard Depardieu interpretando o machistão). Até gostei do filme -- o que mais me marcou foi saber que Strauss-Kahn e a esposa alugaram um apartamento em NY por 60 mil dólares por mês durante o julgamento. Repito, US$ 60 mil mensais!
A outra coisa é que, toda vez em que se fala em falsa acusação de estupro, vem pelo menos um comentarista provar que isso existe sim. E o exemplo que ele dá é sempre o do pobrezinho Strauss-Kahn, tão injustamente acusado pela camareira má! 
Ahn, em que mundo o comentarista vive? Pois no mundo real, Strauss-Kahn pagou quase um milhão e meio de dólares para a camareira retirar a queixa. Se não tivesse havido o estupro (Strauss-Kahn admitiu ter feito sexo com ela, mas alegou ter sido consensual), ele pagaria tanto? 
Por isso o caso continua importante hoje -- porque ainda tem gente que comprou a versão que a camareira negra, imigrante africana, teria inventado tudo aquilo. Se este é o melhor exemplo que os misóginos podem oferecer de falsa acusação de estupro, vocês estão mal, hein?
Fica aqui o ótimo texto atualizado da Juliana de Amorim Rosas (e mais uma vez me desculpe por perder seu email, Ju!).

Bem-vindo a Nova York (Welcome to New York, 2014, EUA, FRA) teve estreia mundial em 2014 e, à época, trouxe à tona novamente um caso de grande repercussão anos antes. O filme foi inspirado no escândalo de Dominique Strauss-Kahn, ex-político francês, ex-ministro de Economia da França e ex-diretor-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI). À época do lançamento, Kahn apresentou queixa judicial contra o filme do diretor Abel Ferrara, obra de ficção claramente baseada na prisão do político nos EUA em 2011, acusado de estupro por Nafissatou Diallo, que trabalhava no hotel onde o ex-diretor se hospedava. 
O filme estreou mundialmente em maio de 2014, numa sala à margem de um dos mais importantes festivais de cinema do mundo. A obra não integrou a seleção oficial do Festival de Cinema de Cannes, mas foi exibida para alguns poucos jornalistas privilegiados e deu o que falar. Elogiado por grande parte da crítica, o filme protagonizado por Gérard Depardieu e Jacqueline Bisset é apresentado pelo cineasta como sendo uma ficção a partir de fatos reais e seria alvo de “uma queixa por difamação”, segundo anunciou o advogado de Strauss-Kahn.
Eu assisti ao filme apenas mais recentemente. Pessoalmente, não gostei. Por isso, não vou entrar no mérito cinematográfico, pois não é o propósito deste texto. Brevemente, digo que o “não gostei” foi meramente pessoal, não quer dizer necessariamente que o filme seja ruim. Justamente por isso, não teria condições de fazer uma apreciação crítica imparcial. O que não gostei foi o filme me parecer extremamente misógino e grotesco. Para mim, como mulher, assistir a várias cenas é de um desconforto e asco que nem todos poderiam entender.  
Após assisti-lo e não apreciar, resolvi dar uma olhada nas críticas. A maioria, positiva, bastante elogiosas, alçando o filme a um status de excelente. Após isso, fui tentar rever meus conceitos. Afinal, o filme é misógino ou retrata a misoginia? Com um protagonista com essa característica, é natural assim seja retratado. O filme não atenua, não suaviza, não usa eufemismos. Inclusive -- e principalmente -- nas cenas de sexo e assédio.
O caso - Após a acusação, Strauss-Kahn caiu em desgraça, sendo detido e depois chegado a acordo confidencial com a vítima no final de 2012. Logo em maio de 2011, demitiu-se do seu cargo. A sua carreira política sofreu um revés aparentemente irrecuperável numa altura em que era apontado como potencial candidato às eleições presidenciais de 2012, na França.
Parte deste texto provém de outro que havia escrito há algum tempo, na época da primeira acusação de Dominique Strauss-Kahn. O processo estava no início. Depois disso, muito aconteceu. Desde os desdobramentos do caso Strauss-Kahn (que até então negava o crime), à morte do ex-ditador líbio Muamar Kadafi. Houve a queda de um político poderoso, a morte de um ditador, porém, a violência contra a mulher ainda perdura. 
À época, eu havia assistido a uma reportagem televisiva em que uma matéria sobre violência doméstica procedia uma sobre a reviravolta no caso Strauss-Kahn. Não sou nem um pouco fã do status quo que representa o noticioso global Jornal Nacional, porém, aquela edição me surpreendeu. O francês havia sido detido em 14 de maio de 2011, em Nova York, EUA, sob acusação de agressão sexual a uma camareira em um hotel local. Submetido à prisão domiciliar e estrita vigilância, foi posto em liberdade cerca de duas semanas depois, após declaração da justiça estadunidense de que a acusadora havia “mentido deliberadamente” ao tribunal, pondo em risco sua credibilidade.
O tom da notícia, que registrava fortes acusações à camareira, deixava margem para uma mudança da opinião pública. A (a princípio) frágil camareira, mulher, em situação desigual, não poderia estar mentindo e era, de fato, uma vítima. Era a opinião dominante até então. Mas com as acusações de que seus depoimentos eram contraditórios, que ela havia ligado para um traficante logo após o suposto crime e de descobrirmos que ela é uma imigrante nos EUA, tende-se a mudar de pensamento.
Os sexistas ou desconfiados de plantão pensaram que a camareira deveria de fato ser uma aproveitadora mentirosa. Para minha surpresa, uma reportagem sobre violência doméstica veio logo em seguida. E desta vez, não deixava margem para a defesa do machismo (pelo menos não em uma mente sadia). 
Até o apresentador William Bonner começou a cabeça da matéria num tom denunciador contra a violência: “Hoje, no Estado de São Paulo, quase acabou em tragédia uma história de violência silenciosa. Um caso daqueles em que a mulher agredida reluta em pedir ajuda ou não denuncia o agressor.” A matéria mostrava uma mulher que tinha sido espancada brutalmente e mantida presa em sua casa pelo ex-marido, tendo quase sido morta e enfim salva pela ação de policiais.
O agressor não admitia a separação e já a tinha violentado anteriormente. Ela havia prestado queixa, mas resolveu não seguir com o processo. A reportagem atentava para o fato de que as mulheres não deveriam fazer isso, que esse tipo de atitude empodera o agressor e fragiliza a vítima, abrindo margem para novas agressões, como foi o caso mostrado. Hoje, felizmente, com as mudanças na Lei Maria da Penha, o Ministério Público pode entrar com a ação penal em casos de violência doméstica mesmo que a mulher decida voltar atrás na acusação contra seu companheiro.
Dominação - Nós, pessoas comuns, podemos não perceber, mas fazendo um esforço não é difícil notar as evidências da dominação masculina no mundo. Até nas menores coisas, mesmo nas sutilezas. São séculos de dominação que ainda persistem e que, infelizmente, não desaparecerão de uma hora para a outra. No entanto, devemos prestar atenção para que não deixemos nossos anseios primitivos falarem antes de saber a verdade. O cotidiano privado e também o midiático está cheio de crimes de gênero e atrocidades que ainda se cometem contra as mulheres.
À época ainda vivo, o ditador líbio Muamar Kadafi estava sendo acusado pelo Tribunal Penal Internacional por usar o estupro como arma de guerra. A possibilidade de os militares terem recebido medicamentos como Viagra para aumentar a libido durante o combate, como parte de uma política oficial de estupros, está sendo investigada. O procurador do Tribunal, Luis Moreno-Ocampo, à época declarou: “Tivemos dúvidas no início, mas agora estamos mais convencidos de que Kadafi decidiu castigar mulheres mediante estupros”.
Esse fato, entre tantos outros de violência, castigos, crimes, etc contra as mulheres é execrável. Por que não nos inflamos a ouvir tal notícia? Por que não temos o mesmo desejo de justiça? Por que não ouvimos tais casos serem levados a tribunais, como no caso Strauss-Kahn?
Segundo o sociólogo francês Pierre Bourdieu, que inclusive é autor de um livro chamado A dominação masculina, tal dominação se mantém não só pela preservação de mecanismos sociais, mas pela absorção involuntária, por parte das mulheres, de um discurso conciliador.
Os pensamentos do sociólogo são sofisticados. Claro que tais ações estão recobertas pelo fino véu do cotidiano, por discursos escamoteados, por ações dúbias. Em casos como a falta de respeito às mulheres em alguns países do Oriente Médio, é simplesmente uma incivilidade de países com regimes não democráticos, que não respeitam seus habitantes como indivíduos, como iguais e muitas vezes nem como seres humanos. Não conseguiram a laicidade do Estado e mascaram práticas horrendas sob uma má interpretação da religião. Utilizam-se do discurso religioso para manipular as massas e justificar seu poder.
Pouco após as contestações de Strauss-Kahn, testes forenses haviam confirmado o encontro sexual entre o ex-diretor do FMI e a autora da acusação. Antes favorito nas pesquisas presidenciais francesas de 2012, Strauss-Kahn continuou respondendo por sete acusações baseadas em tentativa de estupro e violência sexual, passíveis de até 74 anos de prisão.
Em maio de 2012, Strauss-Kahn abriu um processo contra a camareira que o acusou de agressão sexual. Um ano depois da explosão do escândalo, o ex-aspirante à candidatura presidencial pelo Partido Socialista francês acusou Nafissatou Diallo de “difamação” e entrou com ação pedindo US$ 1 milhão. A equipe de defesa de Strauss-Kahn conseguiu arquivar o caso penal, mas Diallo iniciou um processo civil, que teve prosseguimento depois que o juiz negou a imunidade diplomática ao ex-diretor do FMI.
Não é somente a Sra. Diallo que causou dor de cabeça ao político francês. Outras acusações vieram à tona (por parte de outras mulheres) e Strauss-Kahn foi envolvido em um caso de uma rede de prostituição na França, apesar de ter insistido que não sabia que as mulheres com as quais se envolveu em orgias eram prostitutas.
Eu ainda falaria muito sobre a mente vil de Strauss-Kahn, que deve achar que pode satisfazer seus desejos como quiser, com quem quiser e não admite que mulher nenhuma possa destruir sua reputação. Ele é o mais puro exemplo de machismo dominante revelado por Bourdieu. Ainda bem que a árvore francesa não produziu apenas frutos funestos.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

SEXO HÉTERO COMO SINÔNIMO DE PENETRAÇÃO, ENQUANTO A MAIORIA DAS MULHERES GOZA PELO CLITÓRIS

Reproduzo aqui um texto muito bacana e bem humorado que li no Clitóris Livre (que tem gifs legais também). 

Quando a gente fala “sexo com consentimento” será que a gente tem realmente escolha do que acontecerá numa relação sexual?
Apesar da grande maioria das mulheres não atingir o orgasmo (e muitas nem sentirem prazer) com a penetração, será que a gente tem liberdade e os homens/sociedade teriam abertura caso quiséssemos nos relacionar com eles sem o coito da forma como é imposta/dada como natural?
Com 7 bilhões de pessoas na terra, não transamos mais para garantir que através da reprodução vivípara nossa espécie não seja extinta.
Pra que (e a quem) serve o sexo? Será que esse sexo que conhecemos é simplesmente uma regra divina que obedece a anatomia dos corpos, afinal pinto e perereca encaixam, ou se trata de uma doutrinação social, cultural e política dos corpos?
…Porquê encaixar por encaixar pinto e cu também encaixam, então todos os homens podiam era transar entre eles próprios.
A sociedade não impõe apenas como devemos transar, mas com quem devemos transar. desde criança todos somos educados como se a única forma possível e certa de se relacionar fosse com alguém do sexo oposto.
Apesar de sentir atração pelos dois sexos, nunca tive um relacionamento (nem um affair mais prolongado) com uma mulher e sou bem iniciante no rolê sapatão.
Aí outro dia uma amiga me explicava que existem lésbicas ativas e passivas, e que tem mulher que não gosta nem que encoste na perereca.
– E elas gozam do mesmo jeito, miga?
– Do mesmo jeitinho.
Meu coração quase explodiu quando a resposta foi dada segundo o que eu imaginava.
– Ninguém sai metendo a mão na perereca de ninguém sem pedir autorização não, amiga.
Enquanto ela me contava isso, me vinham na cabeça imagens do quão diferente isso é quando se trata de uma relação heterossexual.
Como o cara já pressupõe que vai enfiar o pinto em você, o mais comum é que depois de cinco minutos ele já chegue enfiando a mão na sua calcinha, ainda que você claramente esteja longe de co-me-çar a ficar estar excitada. na verdade, eles acham que é isso que vai te excitar, coitados. -.-
Na cama, homens e mulheres tem funcionamentos bem diferentes. enquanto qualquer coisa excita um homem e qualquer coisa o faz gozar (a famosa “vou te dar trabalho a noite inteira” mas não guenta uma rebolada mais forte)…
…Uma mulher demora a entrar no clima e diferentemente do homem que gozou-geralmente-acabou-morreu, a mulher tem a potencialidade de gozar muitas e muitas vezes em sequência.
Vejo vários homens reivindicando títulos de feministas, e falando que apoiam a causa, se importam com o bem estar feminino, etc, etc, etc, mas tenho certeza que nem 1% destes está disposto a rever, dentre outros, essa suposta obrigatoriedade da penetração nas relações sexuais.
Em uma pesquisa recente onde foram entrevistadas mais de 25 mil mulheres, 86% das mulheres lésbicas afirmaram gozar todas as vezes, contra 65% das mulheres heterossexuais.
Apesar do fetiche falocêntrico que ainda paira sobre a nossa sociedade, cada dia mais cai a ficha de que ninguém precisa de pinto pra gozar (ainda mais que as mulheres que gozam com penetração existem em muito menor grau do que as que o fazem com estimulação clitoriana).
Como fica cada dia mais claro o caráter de * acessório * do pinto – ou seja, é legal mas longe de ser imprescindível – e cada dia mais nos guiamos pela pessoa e não pelo órgão sexual que existe entre as pernas na hora de escolher alguém para se relacionar, seria prudente se homens começassem a se abrir para outros modos se ser e estar numa cama, assim como em todos os demais aspectos da vida.
Sexo é muito mais que penetração, e ó, muito provavelmente se for só penetração, vai ser uma grande bosta. PESSOALMENTE, sou da igreja adventista da massagem do sétimo dia, e acho que a dança é uma das melhores preliminares da vida. Mas isso varia de pessoa pra pessoa, cada um que vá atrás de descobrir do que gosta.

terça-feira, 6 de junho de 2017

MEIO SÉCULO DE VIDA!

Olá, pessoas queridas! Só um post curtinho pra deixar registrado que hoje é meu aniversário.
E não é um aniversário qualquer. É hoje que comemoro cinquenta anos. Nossa, é muito tempo! 
Nem sei o que dizer, sinceramente. É só um ano a mais. Por outro lado, a gente só faz meio século uma vez. 
Não tive crise aos 20, nem aos 30, nem aos 40, então não vou ter agora. Eu já disse antes: minha hipótese é que, pra gente que não tem filhos, o tempo não passa, ou pelo menos a gente não sente o tempo passar. 
Quero dizer, o tempo passa voando, como pra todo mundo, mas quem tem filhos acompanha os guris crescendo, e a gente não tem esse parâmetro. Eu não me sinto muito diferente de dez anos ou mesmo vinte anos atrás. E pergunta pro maridão, que em setembro celebra outro número redondo (60!), se ele se sente sexagenário? Ele nem nota!
Meu papi tinha 43 anos quando eu
nasci, em 1967. Amanhã ele
faria 93 anos
Já me falaram que 60 é o novo 50, que 50 é o novo 40, essas coisas. Sei lá. Minha vida é ótima, e é por isso que gostaria de viver muito ainda. Mas talvez todos nós já nasçamos com um prazo de validade, e pode ser que o que gente faz ou deixa de fazer afete pouco esse prazo. Nenhum dos meus avós está vivo há décadas (creio que nenhum chegou aos 80), meu amado pai morreu jovem, aos 68, a única tia que tenho que viveu um monte morreu mês passado, com 97. Minha única esperança é a minha mãe, que continua com excelente saúde aos 82. 
Mas, calculando tudo, se eu chegar aos 75, eu fico feliz. Ok, quando eu tiver 70 e poucos a gente volta a conversar -- tenho certeza que vou mudar de discurso. Mas ainda acho que tenho um quartinho de século pela frente (e espero que o maridão também, porque queremos ficar juntos até o fim dos nossos tempos). 
Cortando o bolo no domingo
Celebramos meu aniversário discretamente, pra variar, neste domingo, com uma torta de chocolate (receita aqui) e outra de frango, não nessa ordem. E depois fui trabalhar, que tinha uma palestra. Esta semana dou um minicurso de quatro horas no Curta o Gênero e outra palestra na Psicologia de uma faculdade particular em Fortaleza (elas pediram pra falar de algum filme com violência contra a mulher, eu sugeri falarmos da incrível série Big Little Lies, elas toparam), além de todas as aulas, reuniões e entrevistas de sempre. Está sendo uma semana puxada...
Um lindo vaso redondo
Pros mascutrolls e haters reaças de plantão, eles já devem ter visto que não adianta colocar meu nome na boca do sapo, porque sou uma versão melhorada do "vaso ruim não quebra" (eu sou vaso bom). Estou bem de saúde, melhor que há dois anos. Aliás, minha saúde sempre foi boa. Conto nos dedos de uma mão quantas vezes tive que faltar ao trabalho por motivo de doença desde que comecei a labutar (aos 18 anos). 
Lógico que, com o avanço da idade, o ideal é não facilitar. Quero chegar aos 55 melhor que agora. Pra isso, preciso me exercitar. Minha alimentação melhorou muito (tomo suco verde todos os dias e aumentei o consumo de legumes), mas continuo dependente do meu único vício, chocolate. Bom, eu sei o que fazer. Agora é só fazer. 
Toda a querida equipe aqui em casa
em janeiro
Deixo vocês com um documentário realizado pelo estudante de cinema da UFC Jairlos Marques. Ele e sua equipe me entrevistaram no início de janeiro, e o filme ficou pronto agora. 
E olha que louco: nesses 50 anos, quase uma década eu dediquei a este bloguinho. Em janeiro do ano que vem ele faz 10 anos -- que, em termos cibernéticos, é uma eternidade.