terça-feira, 4 de junho de 2013

GUEST POST: COMPAIXÃO PELAS OUTRAS, NÃO POR MIM

M. é uma leitora muito querida. Eu só fiquei sabendo de tudo isso quando ela comprou meu livro, e me mandou um resumo da sua história. Aí eu pedi pra ela escrever mais.

Há cerca de um mês eu ia escrever um texto sobre minha cirurgia bariátrica. Enquanto eu escrevia o texto comecei a chorar muito. Não sabia como explicar por que eu tinha feito a cirurgia, por que eu era gorda, por que eu passei a vida toda me escondendo atrás de roupas grandes e da comida. Não sabia por que eu não confiava nas pessoas, não sabia por que eu me tratava mal, por que eu achava que qualquer homem só iria querer ter comigo uma noite apenas, e por que eu me submetia a isso. E enquanto eu escrevia, e tudo isso passava pela minha cabeça, depois de chorar muito tomei coragem e perguntei pra minha mãe: por que a gente não contou pra polícia?
Com 11 anos eu sofri abuso. Um amigo da família, de "confiança", às vezes dormia lá em casa. A gente morava num lugar isolado, então quando ele ia visitar, ficava por lá, mesmo. Mas à noite entrava no meu quarto e passava a mão em mim. Isso durou uns três meses. Era horrível, eu demorava a entender o que estava acontecendo, mas tinha medo de gritar, de fazer qualquer coisa, achava que a culpa era minha. Achava que eu estava provocando esse comportamento. Achava que ninguém iria acreditar em mim ou ficar do meu lado.
Uma vez, um ano antes, eu ouvi minha tia falando com minha mãe: você não pode deixar sua filha andar por aí desse jeito, ela não se comporta, esses pedreiros (a casa estava em reforma) ficam olhando pra ela, porque ela não usa sutiã, não tem modos.
Eu nem entendi o que ela quis dizer com isso. Eu não ligava se eles eram pedreiros, eles tinham cimento, pá e um carrinho de mão, e eu queria brincar. Mas aparentemente eu tinha que ter medo deles. Talvez tivesse que ter tido, mesmo. Um deles foi esse que ficou "amigo" da família, e fez isso comigo.
Tadinha da minha mãe, ficou arrasada com a minha pergunta, começou a chorar e pediu desculpas, ela também não sabia o que fazer. Tinha medo de me expor, de alguém questionar por que ele estava lá, por que eu demorei a contar. Ela tinha medo que alguém falasse que eu que provoquei.
Claro que era bem possível isso acontecer. Até hoje acontece. Nós morávamos no nordeste, muito machismo, ninguém falava dessas coisas, não tinha internet pra ajudar, pra explicar. Eu sou filha de mãe solteira, então não tinha um pai pra ajudar na decisão. Não porque só um homem poderia tomar a decisão, mas teria sido bom alguém pra ajudá-la, um companheiro. Ela só tinha minha avó. Que eu achei que tinha ficado decepcionada comigo, com vergonha. Mas depois dessa conversa, minha mãe disse que ela ficou arrasada, deprimida, porque ficava comigo em casa o dia todo e não tinha percebido como eu estava.
Nunca gostei de associar meus problemas de relacionamento, ou meu problema de ansiedade com a comida a isso. Eu achava que era frescura minha, que isso não tinha sido tão ruim, afinal, ele nunca me bateu, nunca me agarrou, ele só entrava no quarto e passava a mão em mim. Então eu achava que na verdade eu era mesmo preguiçosa e não tinha autocontrole, que eu estava arrumando desculpas. Fui a psicólogos duas vezes na minha vida. Nunca contei sobre o ocorrido. Eu tinha muito medo de ouvir alguém dizer: ah, isso não tem nada a ver, já passou muito tempo, essas coisas não causam traumas.
Nem eu levava a sério o que tinha me acontecido, até chegar no blog e ler tantos relatos que me fizeram chorar, me fizeram pensar: por que eu tinha tanta compaixão por essas moças, mas não tinha por mim?
A princípio minha decisão de fazer a cirurgia foi porque eu não aguentava mais ser gorda. Sério. 
Odiava sair na rua e as pessoas gritarem coisas maldosas pra mim. Odiava ter que encarar o olhar de desdém de vendedor de loja, de ter uma dor de cabeça, chegar no médico e ele falar que era por que eu estava gorda.
Aí as pessoas falam que dietas e exercício resolvem, mas eu sabia que não era isso. Eu precisava comer. Precisava preencher alguma coisa dentro de mim. Eu não comia porque gostava. Quantas milhares de vezes terminei de comer chorando? Minha relação com a comida não era de prazer, era de punição.
A cirurgia foi a solução que eu encontrei pro meu problema com a obesidade. Hoje, 34 quilos mais magra, me sinto bem comigo mesma. Além da saúde ter melhorado, não tenho mais vergonha de sair de casa nem de expor o que eu penso. Porque não importam nossos problemas internos, as pessoas são cruéis com você porque você não tem a aparência adequada. Ninguém quer saber de verdade a sua dor, elas só querem que você não as incomode com sua "feiura". E se você for "feia" e tiver opinião, aí tá pedindo pra virar saco de pancada.
A cirurgia foi fácil. Um mês na dieta líquida, só sopas, caldos, sucos etc. Depois a gente vira bebêzinho de novo, numa papinha mais sólida, mastigando com cuidado pra não colocar tudo pra fora. Não senti dor nenhuma vez; o remédio pra dor foi comprado e fechado ficou. Vomitei algumas dezenas de vezes, mas nada desesperador. Algumas pessoas até me procuraram pra pedir orientação sobre a cirurgia e fizeram também. Eu recomendo. Não é fácil, exige muita coisa, mas pra quem precisa, ajuda. Porque também não é nada fácil ser gorda nesse mundo, muito menos mulher gorda.
O fato é que eu passei seis meses me preparando pra cirurgia, mas a parte mais difícil foi contar isso aqui. A gente revive aquele tempo, aquele medo, volta tudo. Ao mesmo tempo liberta. Hoje com 27 anos, ainda dói quando eu lembro, dói não ter denunciado o cara, dói imaginar o sofrimento da minha mãe, dói ter vivido tanto tempo com essa culpa. Que no fim nem era minha.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

EU JÁ FIQUEI DO LADO DAS GRANDES CORPORAÇÕES

Não chore sobre o café fervendo derramado

Venho aqui fazer um mea culpa. Eu já fui uma cretina que achava ridículos os processos judiciais milionários que rolam nos EUA. Eu já fui uma babaca que riu dos avisos de “Cuidado: este conteúdo está quente” colocado em vários copos de café nos EUA. Eu pensava: dããã, é óbvio que está quente, dá pra sentir que está quente, não precisa de aviso pra saber que está quente, e se você se queimar é porque você é burro, e se você processar a marca por ter se queimado e ganhar é porque o sistema é ridículo.
Pois é. Euzinha, uma pessoa que sempre foi de esquerda, que sempre fui bastante politizada e crítica, caí no conto do senso comum. E só me dei conta disso outro dia.
Não faço a menor ideia de como cheguei a um post sobre “casos que o McDonald's gostaria que você esquecesse”. Um deles me chamou a atenção: o de uma velhinha de 79 anos que, na década de 1990, derramou McCafé no seu colo e, por conta disso, recebeu uma indenização milionária. Eu me lembro. Eu me lembro como todo mundo -– eu inclusa -– chamava aquela senhora de demente, e ria de um sistema que a fez rica por um erro que ela mesma cometeu. 
Assim que li essas linhas, pensei: epa, tem algo de errado aí. O que me faz ficar do lado de uma grande corporação como o McDonald's e contra uma velhinha? Toda a nossa cultura individualista não deveria nos colocar do lado dos fracos e oprimidos? E aquela história de Davi e Golias que inspira tanta gente? Ela não se aplica quando se trata do McDonald's contra uma velhinha?  
Decidi começar a pesquisar um pouquinho e cheguei a um documentário de 2011 sobre o caso, chamado Hot Coffee (Café Quente). Eis o que aconteceu de fato: a velhinha não estava dirigindo quando tentou abrir o copo de café, e a tampa se rompeu e o líquido foi derramado em suas pernas. Ela estava parada num drive in. O café não estava apenas quente -– estava pelando, escaldante, impróprio para consumo (imagine tomar água recém fervida. Era nessa temperatura que o McCafé era servido). A velhinha não tomou apenas um susto quando o café escaldante caiu em cima dela. Ela teve queimaduras de terceiro grau. Precisou de enxertos de pele.
Ela decidiu contatar o McDonald's, que ofereceu a ela 800 dólares para cobrir despesas médicas que já ultrapassavam 10 mil. Ultrajada, ela entrou com um processo. E descobriu que já havia 700 casos de consumidores que tinham tido problemas com a temperatura do McCafé. Ela ganhou a ação, quase 3 milhões de dólares (você acha muito? É apenas o lucro de dois dias do McCoffee). A empresa recorreu, e a velhinha acabou recebendo bem menos (não sabemos quanto, porque ela é proibida de falar no assunto. Já a corporação pode falar à vontade). 
Ainda assim, seu caso foi usado como propaganda corporativa de ações absurdas contra as pobres empresas. Quando a velhinha morreu, em 2004, ela ainda era ridicularizada por gente que comprou a versão do McDonald's -– de que consumidores são muito frescos e sensíveis e processam empresas maravilhosas por qualquer coisinha.
Repito a minha pergunta: que ideologia faz com que a gente defenda as corporações e condene os indivíduos que porventura processem essas corporações?
O documentário mostra como o governo Reagan na década de 80 se posicionou oficialmente contra os processos judiciais. Um discurso do presidente na época ficou bastante famoso. Nele, Reagan condena a loucura da “indústria dos processos”. Ele cita o exemplo de um homem, na Califórnia, que estava falando numa cabine telefônica na calçada (não existia celular) quando a cabine foi atingida por um carro. O homem processou... a companhia telefônica, diz Reagan, injuriado. 
O que Reagan não conta é que a cabine estava localizada num lugar em que os acidentes eram constantes. Consumidores já haviam pedido para que ela fosse mudada de lugar. O homem, que perdeu as duas pernas na tragédia, viu o carro se aproximar e tentou sair da cabine, mas não conseguiu, porque a porta estava quebrada. Quebrada por causa de um acidente que tinha ocorrido pouco tempo atrás.
Reagan tentou de tudo para proteger as indústrias de processos. A propaganda maciça, feita obviamente pelas empresas (disfarçadas de órgãos de consumidores), espalhava que os processos eram tantos, tão ridículos e tão caros, que estavam brecando a economia e aumentando o preço final dos produtos. Comerciais exibiam médicos alertando que teriam de parar de ser médicos por causa dos possíveis processos contra eles. O caso da velhinha contra o McDonald's foi uma das principais armas publicitárias. Quando o congresso aprovou um limite para as ações e seus valores, o presidente Clinton vetou. Disse que uma lei dessas não seria boa pros consumidores.
No entanto, com a eleição de George W. Bush, as corporações fizeram a festa. Bush, que já tinha favorecido as empresas quando governador do Texas, estendeu suas boas ações para todo o país. Ele -– que havia tido sua campanha patrocinada por essas mesmas empresas –- conseguiu não só instituir limites para as indenizações, como também tirou qualquer regulamentação que impedisse as empresas de financiar seus candidatos preferidos, incluindo os candidatos a juízes da Suprema Corte. Foi uma beleza. A US Chamber of Commerce realizou todo um planejamento dos juízes mais amigáveis a empresas que desejava eleger em cada condado. 
Aliás, no que você pensa quando ouve Câmara de Comércio dos EUA? Eu penso num órgão governamental. Mas não é. É uma organização privada, o maior lobby americano das grandes corporações, que abarca as gigantescas indústrias tabagistas, de bebidas, de saúde... O documentário mostra a campanha imensa que a Câmara fez contra um juiz (John Grisham escreveu o romance The Appeal baseado nessa história).
Ao mesmo tempo, as corporações começaram um outro grande negócio: uma tal de “arbitração mandatória”. Significa que você abre mão dos seus direitos de processar a empresa. Funciona assim: você recebe um telefone celular, um cartão de crédito. Pouco tempo depois, chega pelo correio uma mala direta com um monte de papelada, daquelas que ninguém lê. No meio dessa papelada encontra-se, em letras miúdas e em juridiquês, uma cláusula dizendo que, se você continuar usando o cartão, está subentendido que você aceitou as normas, e uma dessas normas é que você não pode processar a empresa. 
Isso vale para contratos trabalhistas também. Calcula-se que hoje nos EUA 30% da população tenha um desses contratos arbitrários, sem saber. Ou seja, há mais americanos que abriram mão de seus direitos trabalhistas do que americanos filiados a sindicatos. É o sonho capitalista se concretizando!
Um caso chocante é o de uma jovem que foi trabalhar no Iraque contratada pela empresa Halliburton (que tem lucrado os tubos para “reconstruir” o Iraque destruído pelos americanos). Sem saber, ela assinou um contrato que a impedia de processar a empresa. Chegando no Iraque, foi colocada num alojamento masculino. Como estava sofrendo assédio, pediu para ser transferida para o setor feminino, mas não foi atendida. Foi então drogada e estuprada por um colega. Levou quatro anos para poder levar seu caso a julgamento (e, quando finalmente conseguiu, perdeu. O júri acreditou na versão da empresa de que o sexo havia sido consensual). 
No final, o documentário entrevista advogados e professores que defendem direitos dos consumidores e dizem que os processos, ou a ameaça dos processos, são a razão pela qual os carros e brinquedos são minimamente seguros. Porque, se dependesse apenas da boa vontade corporativa, as empresas –- que lutam para não ter que arcar com suas responsabilidades -– não moveriam nem um dedinho. 
Segundo um especialista, processar é difícil, exige tempo, disposição e dinheiro. Exige que você conheça os seus direitos e que você tenha acesso a advogados. Por isso, deve ser visto como um ato heroico, não como um incômodo para a justiça e para as empresas. Até porque quando você ganha um processo, você não ganha só pra você. Ganha pras outras pessoas também. 
Ai, ai... Pensar que eu já acreditei nas mentiras corporativas e fiquei contra uma velhinha! E você?

domingo, 2 de junho de 2013

LIVROS E LUTAS

Esta lindeza é a Olivia, filha da Marilia

Pessoas queridas, tenho vendido vários livros nas palestras e na faculdade, mas muito menos do que eu queria através do blog. Ô gente, faz o favor! Vendi cem livros em um mês, mas tenho mais 150, no mínimo, pra vender. Compre, que por menos de R$ 30 vc recebe o livrinho em casa com uma linda dedicatória.
E depois, se vc quiser, vc ainda manda uma foto e aparece aqui no blog (certo, certo, pode comprar o livro sem aparecer, mas minhas leitoras e leitores são tão bonitxs e simpáticas que não têm nada que se esconder). 

Marilia, advogada, funcionária pública, paulistana, leitora compulsiva, casada com um colega de faculdade, mãe de uma menina de 1 aninho, e feminista: "Recebemos os livros! Obrigada! Já comecei a ler e estou adorando! A Olívia também, como vc pode ver. Ela só pediu pra que o próximo seja mais colorido e com figuras".
Brunna, quase 15 anos, baiana, feminista, mochileira das galáxias e fã minha e do maridão, com Kika: "Lolinha! (Posso chamar assim? Nah, claro que posso. Ganhei esse direito sendo sua fã número um e leitora fiel). Que emoção, sinto que posso morrer feliz agora mesmo. Que dedicatória mais fofa, ow. Podexá que não vou parar de escrever.
Vou contar como foi minha reação quando o livro chegou.
Estava estudando toda na paz e escuto o carteiro chamar, 'Oi? Tem coisa pra chegar hoje?', mas enfim né. Fui toda feliz porque sou dessas que amam receber encomendas (e quem não?)
Então, venho num daqueles pacotes amarelos que de segurar cê nota que tem plástico bolha dentro, a pessoa aqui ficou entretida com o plástico bolha e não olhou de quem era o pacote (!)
Já no quarto, peguei a tesoura pra abrir o pacote e tal, daí meus olhos captam o nome Lola Aronovich.
'AI MEU DEUS, AI MEU DEUS, AI MEU DEUS...' (repete por cinco minutos)
Calma. Respira. Pronto.
Abre o pacote, tira o livro.
Ai meu deus, emoção, emoção.
E não é que a pessoa aqui fica emocionada a ponto de derrubar umas lágrimas quando começa a ler a dedicatória? 
A Lola disse que escrevo bem, gent. Já posso morrer feliz.
Enfim, morram de inveja todxs vocês.
(Esse ser peludo tentou tomar o livro de mim. Motivo? Larguei ela pra ir atender o correio e a ignorei por vários minutos. Olhem o olhar dela pro livro rs)
Vish, falei demais. Mas sou assim mesmo, desculpe. Já dei uma folheada no livro e várias crônicas eu já tinha lido e as reli, as gargalhadas com seus trocadilhos (pra lá de infames rs). Vou devorar esse livro rapidinho, pode ter certeza. Abraços e beijos de uma ingrata com o patriarcado pra outra =* "
Maridão, vulgo Silvinho, para delírio das fãs.

Maria Luiza, publicitária: "ADOREI! Seu livro é assim: vc abre, aí lê uma página e pensa q só vai ler mais uma, e depois só mais uma e quando vê, leu tudo de uma vez. Sempre que eu quero ver um filme abro ele... Já pode começar a pensar em outro livro, hein? Eu compro e ajudo a divulgar."
Aproveitando o post, não se esqueçam que quarta e quinta agora estarei em Santa Catarina! 
Será minha primeira volta a esse estado adorável desde que me mudei pra Fortaleza, em janeiro de 2010. Quarta dia 5/6, às 16 horas, na sala 04 do CCJ (Centro Ciências Jurídicas), darei o minicurso "Feminismos são Direitos Humanos: Importância e Desafios", na IV Semana de Direitos Humanos da UFSC, que começa amanhã. 
E quinta, 6/6, também às 16 h, participarei do 6o Congresso do Sinjusc, em Balneário Camboriú. Apareça, por favor!
Ontem estive em Juiz de Fora no 2o Congresso Nacional da Anel - Assembleia Nacional dos Estudantes - Livre. Só encontrei uma foto até agora da nossa mesa sobre opressões (eu sou a terceira da esquerda pra direita). 
É muito, muito legal que um movimento estudantil organize uma mesa assim. Um dia inteiro assim, porque na parte da manhã tivemos várias oficinas dedicadas às cotas, feminismo, movimento LGBT etc. 
Na minha oficina com a linda Camila, do MML (Movimento Mulheres em Luta), quarenta pessoas se inscreveram pra falar. Além de muitos debates interessantes, alguns dos depoimentos foram comoventes (eu e no mínimo meia sala choramos). 
Também foi muito bacana ver um monte de homens lá. E na mesa da tarde. Acho que nunca falei pra tanta gente. Foi no campo de futebol da UFJF, então havia uma grande parte da arquibancada lotada, mais de 500 duas mil pessoas. Mas olha só que mesa: duas representantes do movimento feminista, dois do movimento LGBT (um deles, Wilson, também do Quilombo Raça e Classe), duas transexuais (uma delas, a Bruna, também integrante do MML; a outra, Virginia, do grupo feminista Pão e Rosas), uma estudante divina, a Dina, que precisa se eleger pra um cargo público (ela é do coletivo Negração). 
E o público foi um show à parte. Interagia com xs palestrantes, cantava gritos de guerra, na maior animação. Eu senti que todo mundo ali era feminista. Com essxs estudantes, machismo, racismo, homofobia e transfobia não têm vez. Me encheu de esperança ver jovens tão engajadxs. Amei mesmo.

sábado, 1 de junho de 2013

GUEST POST: VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER, PIADA ATÉ ENTRE A ELITE ACADÊMICA

Patricia, engenheira em SP, me enviou este relato.

Estou longe de ser uma feminista. Recuso-me a me dar este título, pois não conheço a causa feminista. Não estudei a sua história. Até alguns dias não sabia nem da existência deste blog que aborda esses temas, e não consegui parar de ler desde então.
Eu acabei conhecendo este blog através de uma situação pra lá de chata, pra dizer o mínimo.  Uma amiga me chama no chat do Facebook para dizer que não sabia da posição “reaça” de um conhecido em comum. Segue imagem de toda a discussão que aconteceu (as cores representam as pessoas; clique para ampliar): 
Eis um resumo do que aconteceu: 
1) Mestre Verde posta uma tirinha sem graça nenhuma sobre violência doméstica
2) Doutoranda Amarelinha diz que a tirinha é uma generalização e mostra sua postura contra os comentários anteriores que assumem que recorrência da violência é culpa da mulher. Em uma tentativa de mostrar outro ponto de vista ao debate, ela se expõe contando que já foi quase agredida (se não tivesse se defendido).
3) Doutoranda Rosa pergunta à primeira se depois da quase agressão sua autoestima melhorou. Vamos parar por aqui.
Nesse momento eu tive que reler algumas vezes esse comentário para acreditar no que estava lendo. E mais ainda, me convencer de que alguém tinha sido capaz de fazer um comentário desses.
Pausa para meu relato pessoal: Eu já fui agredida. Eu não denunciei. Contei o ocorrido para pouquíssimas pessoas. Estou escrevendo sobre isso pela primeira vez. Eu não denunciei porque achava que não ia conseguir nada. Não tinha ficado com marcas, ele disse que eu que estava errada já que estava na casa dele, enfim... Para mim o assédio moral foi muito, mas muito mais dolorido do que a dor física de alguns apertões nos meus pulsos, braços e cintura. E foi medo de mais assédio moral que me impediu de denunciar. Covardia mesmo. 
Se eu contasse isso para alguém e essa pessoa me perguntasse se minha autoestima tinha melhorado, no mínimo eu ia achar que a pessoa estava fazendo uma brincadeira para quebrar a tensão. Mas não. Não foi nada disso.
Acredito que só quem sofreu sabe o quando sua autoestima vai no chinelo depois de uma situação dessas. Acho que o que eu passei não foi grave, pelo menos não fisicamente. Mas mesmo assim eu sentia nojo de mim mesma... Eu sentia sua mão apertando meus pulsos, seus braços me prendendo enquanto eu chorava e tentava escapar mesmo dias depois. Eu me culpava por estar calada. Eu me culpava por ter deixado que isso acontecesse comigo. Na verdade ainda me culpo. Se estivesse vendo a situação de fora, saberia que a mulher não teve culpa nenhuma. Eu não sei explicar o porquê, mas eu me culpo por tudo o que aconteceu. Sou vaidosa e fiquei um tempo sem pintar as unhas, passar maquiagem... Eu só queria me esconder do mundo.
Esse simples post no Facebook escancara um milhão de verdades e questionamentos que merecem ser discutidas individualmente. Então, com o intuído de não alongar mais ainda meu texto, vou escrever alguns pensamentos que não saem da minha mente. E talvez deixar que alguém mais qualificado fale sobre esses assuntos.
Eu acho extremamente curioso como a agressão nunca é representada em uma linda casa no campo com personagens de classe alta. Sempre é tratado como algo marginal. Sim, que acontece às margens da sociedade. Fui agredida em uma bela casa por um homem super bem vestido e educado. Em minha opinião isso ajuda a formar a imagem que as pessoas tem de que isso acontece pouco, com gente que “deixa”. Só do meu restrito círculo de amizades, três amigas confidenciaram ter passado por uma situação parecida.
A força policial aparece como defensora que aparece sem ser chamada e resolve na hora. Alguém já viu alguma coisa assim? Ou será que tudo depende da coragem da mulher? Não só de denunciar, mas de aguardar com medo todo o inquérito? A humilhação das perguntas, desconfianças e exame de corpo de delito? O medo de ser agredida novamente assim que o sujeito descubra a denúncia? Ou vocês acham que tudo funciona como um episódio e Law and Order SVU onde tudo acontece na hora, o sujeito é detido e a vítima recebe proteção policial? Pfffff!
Será que as pessoas acham que a dominação financeira e emocional da mulher pelo homem acabou quando ganhamos direito ao voto? Ou será que sabem que muitas mulheres temem por seus filhos, por passar fome, por não ter onde dormir? 
A parte que mais me enoja. Sim, é isso que sinto: nojo. Uma mulher coloca a culpa da agressão doméstica na mulher. 
Isso é o equivalente a culpar a mulher vítima de estupro por usar saia curta. Ou apontar a mulher que decide pelo aborto por não ter apoio governamental, familiar, educacional... Ou ainda culpar a menina por "se deixar" ser explorada sexualmente pelos pais. Será que SEMPRE é culpa da mulher? Independente da situação ou contexto? Esse pensamento me enoja. Como disse para minha amiga, esse é o pensamento que pessoas que acham que matar todas as pessoas que cometem algum tipo de crime resolveria o país.
A minha amiga é tomada como radical. Eu acho lindo isso. Se todos fossem radicalmente contra a violência acho que teríamos um país muito melhor.
Termino dizendo eu não quero ofender ninguém que publicou/comentou neste post. Eu e minha amiga só resolvemos publicar (escondendo os nomes, claro) porque estávamos com dor de estômago de não poder fazer nada. Ela também não denunciou a agressão. Talvez a “coragem” de mandar nossa indignação para o Lola -- mesmo os envolvidos sendo nossos conhecidos -– seja um grito silencioso sobre o que sofremos e como nos sentimos quando outras pessoas passam pelo mesmo.