domingo, 5 de agosto de 2012

TENHO UMA HALTEROFILISTA DE 18 ANOS COMO ÍDOLA

A halterofilista inglesa Zoe Smith, de 18 anos, levantou 118 quilos nas Olimpíadas, o dobro de seu peso. Mas, como você pode imaginar, mulheres halterofilistas não têm vida fácil, já que força geralmente é sinônimo de masculinidade, e músculos numa mulher automaticamente a transformam numa ogra lésbica. No seu blog, Zoe respondeu aos tweets que chamavam seus músculos de não atraentes e não femininos (minha tradução): 
“Não levantamos peso para ficarmos gostosas, principalmente para os gostos de caras dessa laia. O que os faz pensar que nós sequer queremos que eles nos achem atraentes? Se vc acha, muito obrigada, estamos lisonjeadas. Mas se vc não acha, por que vc precisa dar sua opinião em primeiro lugar, e o que faz com que vc pense que nós damos a mínima que vc, pessoalmente, não nos acha atraentes? O que vc quer que façamos? Devemos parar de levantar peso, mudar nossa dieta para nos livrar dos nossos músculos 'masculinos', e nos tornar donas de casa na esperança que um dia vc nos veja favoravelmente e nós possamos ter uma chance com vc? Porque vc é claramente o homem mais gentil e mais atraente a engrandecer a Terra com a sua presença”. 
Brilhante, Zoe! E não preciso dizer que isso não vale só pra halterofilistas ou pra atletas em geral. Vale pra todas nós mulheres. Quem determinou que estamos aqui pra participarmos de concursos de beleza e adornar o mundo? Quem dá a mínima se você não me acha bonita e gostosa? Sua opinião não diz nada sobre mim. Diz sobre você.
E mais uma mensagem da sábia Zoe pros haters: “Eu acabei de completar as Olimpíadas. E vcs, trolls, o que têm feito da vida?”. Ídola!

GUEST POST: MARCHA PELA HUMANIZAÇÃO DO PARTO

Como este guest post da Luciana Fernandes, Gabriela Prado e Ellen Paes já está grande, não quero me estender. Só queria acrescentar que a resolução do Cremerj (que está bem explicada no post) representa, além de uma ameaça aos direitos da mulher, uma decisão ditatorial que ataca profissões exercidas por mulheres, como doulas e parteiras (curiosamente, esta é uma profissão em que a mídia nunca escreve doulos ou parteiros). Leiam e vocês entenderão a importância das marchas que estão acontecendo hoje por todo o país.  

Após  tentar uma retaliação ao médico paulista Jorge Kuhn  por ter emitido em rede nacional o apoio ao parto domiciliar, o CREMERJ lançou duas novas resoluções que dispõem sobre a assistência ao parto. Essas resoluções 265 e 266/12 desceram mal na garganta de muitas mulheres (e homens também).
Nelas o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro deixa claro, entre outras coisas, que o parto é um evento exclusivamente hospitalar e é um ato médico. Somente o médico está capacitado para dar a assistência necessária e decidir quem pode estar presente neste momento único de nossas vidas. Para o CREMERJ, o parto é tão seguro como uma bomba relógio, e a única assistência coerente para quem não quer se “arriscar” é estar com um médico dentro de um hospital e envolta de equipamentos e medicamentos.
O CREMERJ proibiu qualquer participação médica no SEU parto domiciliar. Sim, porque o parto é SEU, mulher. Enumerando riscos e responsabilidades com o bem-estar da sociedade, o CREMERJ VETOU qualquer participação médica em partos domiciliares, casas de parto, assistência imediata a neonatos nascidos em domicilio. Eles ainda estimulam o “denuncismo” dentro de sua própria classe, tal qual na ditadura, com o intuito de que nenhum médico tente burlar suas resoluções.
O CREMERJ proibiu a participação de doulas, obstetrizes e parteiras no SEU parto.
O Conselho institui o parto como um evento puramente médico-hospitalar e impõe que os partos, mesmo os de baixo risco, sejam realizados exclusivamente em ambientes hospitalares e que somente médicos podem estar presentes. Não importa o que mostram as evidências científicas, não importa o que diz o Ministério da Saúde (que é a favor de doulas, parteiras e obstetrizes). E o pior, não importa O DESEJO DA MULHER. Com a “desculpa” de pensar no que é melhor para VOCÊ, o CREMERJ mais uma vez tutela as mulheres e decide como deve ser o SEU parto.
Após a divulgação dessas resoluções as mulheres de todo o país começaram a se mobilizar. As que mais sofreram foram as que estavam prestes a parir (gestação já a termo) que precisaram entrar com liminares judiciais que garantissem a elas o direito de serem acompanhadas pelo profissional de SUA ESCOLHA e por SUA sua e SEU acompanhante. Nesse meio tempo, no RJ algumas mulheres acabaram ficando sem a assistência desejada. Assustadas, algumas mulheres se deslocaram para outros estados para poder parir da forma como ESCOLHERAM.
Além de impedir o direito de escolha da mulher, o CREMERJ está indo contra tudo que o governo, junto com o Ministério da Saúde, vem buscando para melhorar no atendimento às gestantes. O Ministério, instância maior em Saúde Pública no país, afirmou, na ocasião do lançamento da Campanha Nacional de Amamentação, que o governo apoia o direito de escolha da mulher, respaldado pela lei do acompanhante, de 2005, que permite que ela leve qualquer acompanhante de sua escolha -- sem restrição -- para estar junto a ela no momento do parto. O Ministério afirmou para a imprensa agora em agosto que reconhece o trabalho das parteiras e das doulas, garantindo, inclusive, dentro das ações desenvolvidas pelo programa Rede Cegonha, a capacitação e qualificação dessas profissionais para atendimento de parto humanizado pelo SUS.
No dia 30/07 o juiz federal Gustavo Arruda Macedo suspendeu as tais resoluções, devolvendo à mulher carioca a liberdade que o CREMERJ tentou arrancar-lhe há algumas semanas com sua ação covarde e ditatorial.  A má notícia é que o Conselho disse que iria recorrer na Justiça.
Vencemos a primeira batalha, mas ainda temos muito pelo que lutar! Se você deseja retomar verdadeiramente o protagonismo do seu parto, não fique aí sentada. Já não se trata só da luta para garantir melhores atendimentos e o direito a um parto humanizado, trata-se de um órgão que representa toda uma classe ter a pretensão de ir contra o governo, contra as evidências e principalmente contra O DIREITO DE ESCOLHA DAS MULHERES em relação a seus corpos, suas vidas, a vida de seus filhos, seus partos. SEUS!
A suspensão das resoluções é fantástica, mas ela não garante necessariamente o direito da mulher a ter quem quiser ao seu lado durante o parto. Por exemplo, a Maternidade de Campinas acaba de proibir doulas, e lá nunca houve resolução do CRM em vigor sobre isso. Eles alegam que “não há espaço para acomodar mais de um acompanhante”. Será? As mulheres de Campinas também estão desamparadas e revoltadas. Se essas medidas se espalharem pelo Brasil, como ficaram as mulheres, os partos, os nascimentos? A Casa de Saúde São José, no RJ, já proibia doulas em suas dependências. Temos que lutar pela garantia explícita deste direito, seja onde for!
O Conselho Federal de Medicina divulgou que se reunirá na segunda semana de agosto para discutir as resoluções do CREMERJ e os temas contemplados nelas. O CFM tem poder de deliberação no território nacional, do Oiapoque ao Chuí. Temos que mostrar o que desejamos e o que não vamos aceitar, para não deixar que novas resoluções estapafúrdias tentem cercear nossos direitos.
Outro fato importante é que a grande maioria dos conselhos regionais ainda não se pronunciaram a respeito do assunto, estão se fazendo de “surdos e cegos”. O próprio  CFM também ainda não o fez. Temos que sair às ruas para exigir posicionamentos oficiais destas entidades sobre o tema, de modo a respaldar @s profissionais que dão suporte às mulheres em suas escolhas sobre o local de parto em todo o país!
Enquanto os conselhos tentam proibir profissionais médicos e instituições de saúde de agirem de acordo com as melhores evidências e em favor de nossos direitos, nunca se posicionaram para regular ou punir as assombrosas taxas de cesárea ou proteger as milhares de mulheres vítimas de violência obstétrica cotidianamente em todo país. Violência obstétrica é crime de violência contra a mulher, e procedimentos invasivos desnecessários e sem prévio consentimento podem ser considerados agressões físicas. A protagonista do parto é a mulher. Que fique claro: a gestante. O papel da equipe -– incluindo o do médico -– é permitir que a mulher “faça” o parto: dilatando, se abrindo, expulsando o bebê e depois a placenta. A mulher fará esse trabalho melhor onde ela se sentir bem, e ao lado de quem faça bem a ela (não somos nós que inventamos isso -– a posição é da OMS!).
A mulher tem o direito de decidir o que será feito com o seu corpo. E o médico tem o direito de praticar a medicina baseada em evidências. A postura do CREMERJ proíbe o médico de realizar uma medicina baseada nas melhores evidências disponíveis atualmente, pois as evidências apontam que partos domiciliares de baixo risco são seguros tanto quanto partos hospitalares, e que a presença das doulas aumenta a satisfação materna e diminui as intervenções.
O Brasil ocupa a primeira colocação mundial em realização de cesarianas. As taxas desse tipo de cirurgia chegam a 52%, superando os 80% em hospitais privados e em alguns chegando a ultrapassar os 90%, em grande parte, sem uma real e justificável indicação clínica, quando o máximo recomendado pela OMS é de 15%. Diversos estudos demonstram que as altíssimas taxas de cesáreas em hospitais brasileiros não ocorrem a pedido das mulheres, uma vez que a maior parte delas demonstra preferência por parto normal, sendo conduzidas no decorrer da gestação a mudarem de opinião pelos próprios obstetras.
Por tudo isso que foi citado acima, as mulheres decidiram sair às ruas para marchar pela Humanizaçao do Parto. O movimento quer chamar atenção da sociedade para a importância da humanização da assistência obstétrica no Brasil. Mulheres a favor da humanização do parto realizarão um protesto hoje, na altura do Posto 9 da praia de Ipanema, RJ. A marcha vai receber caravanas de mulheres do todo o Brasil e também vai ser realizada em outras cidades brasileiras, entre elas Recife, Fortaleza, João Pessoa, Salvador, São Paulo, Ribeirão Preto, Araraquara, Florianópolis e Londrina. A expectativa é reunir pelo menos mil mulheres em prol da causa.
Este protesto foi idealizado a partir da indignação de mulheres nas redes sociais em todo o Brasil, que acreditam que os direitos sexuais e reprodutivos femininos devem ser respeitados. O objetivo principal é chamar atenção da sociedade civil para uma questão mais abrangente, que afeta toda e qualquer mulher que foi ou pretende ser mãe através do sistema de saúde brasileiro, seja público ou privado.
Reivindicações da Marcha
- Que a mulher tenha o direito de escolher como, com quem e onde deve parir;
- O cumprimento da Lei 11.108, de abril de 2005, que garante que a mulher tenha preservado o direito ao acompanhante que ela desejar na sala de parto;
- Que a mulher possa ter o direito de acompanhamento de uma doula em seu trabalho de parto e parto;
- Que a mulher, sendo gestante de baixo risco, tenha o direito de optar por um parto domiciliar planejado e seguro, com equipe médica em retaguarda caso necessite ou deseje assistência hospitalar durante o trabalho de parto;
- Que a mulher tenha o direito de se movimentar livremente para encontrar as posições mais apropriadas e confortáveis durante seu trabalho de parto e parto;
- Que a mulher possa ter acesso a métodos naturais de alívio de dor durante o trabalho de parto, que consistem em: massagens, banho quente, compressa, etc;
- Um basta em relação à violência obstétrica e intervenções desnecessárias que consistem em: comentários agressivos, direcionamento de puxos, exames de toque em demasia, episiotomia (corte na vagina), etc;
- Que haja fiscalização das altas taxas de cesáreas nas maternidades brasileiras e que as  ações cabíveis sejam tomadas no sentido de reduzir essas taxas;
- Que haja humanização também na assistência aos recém-nascidos, contra as intervenções de rotina;
- Que a mulher que optar pelo parto domiciliar (cuja segurança é comprovada por vários estudos) tenha direito ao acompanhamento pediátrico caso deseje ou seja necessário.
Vamos às ruas!

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

SITUAÇÕES ABSURDAS

Eu deveria estar escrevendo um post maiorzinho sobre um outro assunto, mas fiquei com preguiça. Então aproveito o excelente comentário da Letícia para tecer algumas provocações. 
E se, ao invés dos homens invisíveis no comercial da Nova Schin saírem por aí tirando o biquíni de banhistas e invadindo vestiários femininos pra bolinar mulheres, eles saíssem pra espancar velhinhos? Ou pra atear fogo em índios que eles pensassem ser mendigos? Ou pra (aproveitando a areia da praia) enterrar negros? Tudo feito com extremo bom humor, óbvio, já que a intenção da marca não é ofender ninguém! Mas e aí, a reação do pessoal dizendo “é só uma propaganda, vai encontrar uma louça pra lavar” seria igual? Ou essa reação só existe porque o comercial ataca as mulheres, e mulher foi feita pra receber desfeita?
Nosso protesto deve estar bem ruidoso, porque hoje a Nova Schin tirou o comercial do YouTube. Na quarta-feira, quando publiquei o post, o comercial não tinha muitos views, algo como apenas 14 mil (prum comercial veiculado nacionalmente há meses, é nada). E pouca gente havia votado se gostou ou não dele, mas, se não me falha a memória, havia uns 40 “gostei” pro vídeo e uns 15 “não gostei” na página do YouTube. A situação mudou bastante, devido a nossa indignação. Antes de tirar o comercial (ou situá-lo como "privativo", o que dá na mesma), havia 588 “não gostei”, contra 70 “gostei”.
A Exame também noticiou a movimentação numa matéria curta e fraca. Ela menciona o que falei ontem –- que o Conar já havia rejeitado no mês passado o pedido contra o comercial. Algumas leitoras que enviaram reclamação ao Conar receberam de volta este email: 
Prezado Sr(a). 
Sua queixa mereceu nossa melhor atenção.
O CONAR instaurou em 12/03/2012 a Representação de nº 062/12 relativa ao anúncio 'NOVA SCHIN – INVISÍVEL' , em razão de queixas de consumidores.
Apreciada a defesa do anunciante PRIMO SCHINCARIOL, a 1ª Câmara do Conselho de Ética, em sessão de 05/07 último, decidiu acolher por maioria de votos a recomendação de ARQUIVAMENTO da representação sob o fundamento que o comercial não foi considerado ofensivo à mulher, retratando uma situação absurda (alguém ficar invisível). Aliás, o personagem, ao final, é ignorado e desprezado pela modelo mulher.
Permanecemos à disposição.
Atenciosamente,
Edney Narchi
VP Executivo

Absurda é a resposta do Conar (por coincidência, o conselho que votou pelo arquivamento era só de homens). Muitas situações em comerciais são fantasiosas, ficcionais, absurdas. E nem por isso elas não passam mensagens. Vamos imaginar um comercial em que um coelho gigante andasse por bares chutando e socando casais gays (com muito bom humor!). Como a situação é absurda -– coelhos gigantes não existem, e a única espécie animal que é homofóbica é o ser humano -–, o Conar iria negar que o comercial incita violência contra os homossexuais.
Quanto ao personagem ser ignorado pela "modelo mulher" no final, já falei no último post: as mulheres no universo do comercial não desprezam o cara por ele ficar invisível, ou pela sua fantasia de ficar invisível e bolinar mulheres. A mensagem é que o único modo desse cara pegar mulher é sem o consentimento delas. Lembra uma palavrinha que começa com e e segue com s, t, u, p, r, o.
E isso de “modelo mulher” me remete a uma das besteiras mais sem noção que eu ouvi hoje: que a nova Schin não faz apologia ao estupro e que a situação não é de estupro porque as atrizes do comercial aceitaram estar lá! Gente, é sério que os problemas com interpretação de texto (qualquer texto) chegaram a esse nível?
Não sei até que ponto vale a pena insistir com um órgão corporativista e retrógrado feito o Conar, mas uma leitora, a Vivian, sugeriu uma carta. Eu já mandei. Entre no site, clique em contato, e copie na área de “mensagem” o texto da Vivian, muito completo.
A Flora pede que a Nova Schin inclua a seguinte frase em todos os veículos que o comercial estiver sendo veiculado. 

E, finalmente, porque tá tarde, um excelente vídeo em espanhol me foi recomendado por algumas leitoras. Além de terminar com a frase irônica "As coisas estão perfeitas como estão", ele explica por que publicitários não acreditam que mulher possa ser consumidora de cerveja. Ok, não de todas as cervejas. Nada de Nova Schin pra gente, meninas.
Outros blogs que não estão satisfeitos com a situação e escreveram ótimos posts a respeito da Nova Schin foram o Ativismo de Sofá, o Machismo Chato de Cada Dia, Blogueiras Feministas e a Fátima
E vamos às ruas! A Marcha Contra a Mídia Machista já está marcada para o dia 25/8, em Recife, BH, Porto Alegre, São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro, Campo Grande e Florianópolis. Por favor, divulgue, ajude na organização da marcha na sua cidade, e participe!

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A REPERCUSSÃO DO PROTESTO CONTRA NOVA SCHIN

Ontem publiquei um post sobre cultura de estupro, falando do caso da Prudence e, mais especificamente, do comercial hediondo da Nova Schin. Queria só comentar um pouquinho sobre a repercussão do post. O mais divertido até agora foi alguém escrever num vídeo do YouTube: "this video was linked in a popular brazilian communist-feminist blog".
O comercial me lembrou de uma frase de Barbara Kruger que vi aqui: "Toda violência é a ilustração de um estereótipo patético".
Faz todo sentido. O comercial da Nova Schin é uma violência contra a mulher, já que mostra abuso sexual como algo divertido e digno de confraternização entre amigo. E também é a ilustração de um estereótipo patético -- o de que homens são seres incontroláveis e brincalhões que não conseguem ver mulher sem pular em cima dela. Outro estereótipo, bem lembrado pelo Werner nos comentários (tem muito comentário excelente no post, só deixei alguns estúpidos pra provar o meu ponto de que a reação a textos sobre estupro é sempre a mesma), é o de que ver mulher nua em vestiário é brincadeira de menino. 
Ele faz uma pergunta interessante: "A fantasia de poder se tornar invisível e assim poder entrar no banheiro feminino é ideia de moleque. Num comercial de produto com alcool, ou seja direcionado a um público supostamente adulto. Pergunto, esse conteúdo decorre de uma infantilização do público adulto ou é indicativo de um direcionamento disfarçado a menores de idade no apelo publicitário?"
Os dois, certo? Infantilizar, ou melhor, imbecilizar os homens, é comum na mídia -- e, só pra deixar claro, isso nada tem de feminista. A última coisa que a maior parte das mulheres quer é ter que cuidar do parceiro como se ele fosse um bebezão. Mas também é comum da propaganda chamar a atenção das crianças, tentando assim fidelizar o consumidor. Quando é comercial de bebida alcoólica que faz isso, pior ainda.
Uma moça no Twitter (não vou identificá-la pra não expô-la e também porque não sei quem é) disse considerar falsa minha afirmação que o comercial faz apologia ao estupro. Segundo ela, o comercial objetifica as mulheres e "glorifica o assédio de rua". Mas, como os protagonistas não são modelos a ser seguidos e são apresentados como losers, "a 'apologia' se encerra no assédio de rua". E ela me critica por eu não saber diferenciar assédio de abuso. Nesse ponto eu fiquei confusa: ela estava falando do mesmo comercial do que eu?
Pra começar, eu não acho que a peça necessariamente objetifica as mulheres (prometo falar sobre objetificação em breve, noutro post), mas, se objetifica, este nem de longe é seu maior defeito. Segundo, o comercial não glorifica o assédio. Pelo contrário, ele mostra que assédio -- que só acontece no final, quando um dos amigos vai falar com duas jovens, que ignoram sua presença -- não funciona, e que o único jeito desses caras pegar mulher (pegar literalmente) é sem o consentimento delas, possivelmente através de violência (afinal, não vemos o que ocorre dentro do vestiário; vemos apenas as mulheres saindo correndo, aterrorizadas). 
Os amigos, ou pelo menos um deles, é pintado como fracassado. Mas não por querer ficar invisível e atacar mulheres. A parte em que eles se tornam invisíveis não é criticada pelo comercial. É o oposto: essa fantasia é elogiada e vista como o desejo de todos os homens (não de mulheres -- mulher não sonha em ter superpoderes. Pô, mulher nem bebe cerveja, a julgar pelos comerciais de cerveja). 
A leitora ainda escreveu: "vamos consultar o houaiss antes de encher a boca. Assédio é uma coisa, abuso é outra. Grata". É meio pedante mandar galera ler dicionário, principalmente quando a pessoa não faz ideia dos termos que quer definir. O comercial da Nova Schin só trata de assédio no fim. No resto do tempo, é abuso mesmo. Ou a leitora acha que bolinar mulheres (no mínimo! Não sabemos o que os homens invisíveis fazem dentro do vestiário) é assédio? Pela lei de 2009, é estupro.
Percebo que muita gente não entende bem o que é incentivo à violência ou apologia ao estupro. Desconfio que seja o mesmo pessoal que ache que racismo não é chamar um negro de macaco -- racismo seria apenas quando se espanca ou lincha um negro (tipo Ku Klux Klan). É o mesmo pessoal que acha que homofobia não é expulsar um casal gay que troca carinhos numa lanchonete -- homofobia seria apenas espancar esse casal. É o mesmo pessoal que acha que piada de "estuprador não merece cadeia, merece um abraço" não é misoginia -- misoginia seria matar uma mulher (nem espancar nem estuprar mulher conta como misoginia nos livros dessa gente). 
Por essa lógica, pro comercial da Nova Schin fazer apologia ao estupro, ele teria que tornar os caras invisíveis e fazê-los sair por aí violentando mulheres. Só beijar e apalpar corpos que não lhe pertencem não configura estupro, de acordo com o senso comum -- e dane-se o que diz a lei! Bom, gente, desculpe, mas tenho más novas pra vocês. Apologia ao estupro não é (só) motivar um cara a cometer estupro. É contribuir com a cultura de estupro de forma geral. É representar bolinar mulheres como uma grande diversão. É negar que isso seja estupro. É incentivar que um monte de cretinos deixe comentários dizendo "Se eu fosse invisível, faria isso também, êêê!". É banalizar o estupro como se fosse uma brincadeira de garotos pra cima de mocinhas mal humoradas que só estão fazendo charminho. 
Fico feliz que meu post esteja animando tanta gente a protestar. A UOL já noticiou a movimentação em sua primeira página. Estamos usando a hashtag #NovaSchinIncentivaEstupro no Twitter. O órgão que auto-regulamenta a propaganda no Brasil, o Conar, já havia recusado pedido contra o comercial. Mas acho que vale a pena continuar tentando (se bem que o Conar é corporativista e raramente acha alguma propaganda ofensiva). Podemos também escrever para ouvidoria@spmulheres.gov.br , e enviar mensagens para o twitter e facebook da marca. Tem uma página no FB pra dar munição. O fato é que já estamos mostrando nossa força e visibilidade. E vamos boicotar a Nova Schin. Mas aí temos um probleminha:
De todo modo... Retroceder nunca, render-se jamais. Quem tem que se render é a propaganda preconceituosa. 


 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

CULTURA DE ESTUPRO? NÃO, IMAGINE!

Sempre que se fala em cultura de estupro, vem homens dizer que de jeito nenhum, isso não existe, é paranoia de feminista. Eu digo que cultura de estupro é quando temos uma sociedade que tolera e até incentiva o estupro, e que está sempre pronta pra culpar a vítima. Costumo dar alguns exemplos. Tipo: se você foi vítima de estupro e estiver procurando ajuda, será mais fácil encontrar na internet vídeos pornôs com simulações de estupro, mostrando estupro como algo excitante, do que instruções tratando de delegacias e exames de corpo de delito.
Cultura de estupro é comediante dizer que homem que estupra mulher feia não merece cadeia, merece um abraço, e metade da população rir e, diante dos protestos da outra metade, xingar quem se indignou com o chiste de mal amada, mocreia, sapatão, “nem pra ser estuprada vc serve”. Cultura de estupro é vender camisa (e muita gente comprar pra usar) com “fórmula do amor”, que equivale a embebedar a mulher para conseguir sexo sem resistência. Cultura de estupro é um programa de TV fazer rir em cima de um problema que acomete milhares de mulheres por dia (bolinações dentro de meios de transporte coletivo). Cultura de estupro é anúncio de preservativo brincar que sexo sem consentimento queima mais calorias.
Cultura de estupro é o comercial da Nova Schin estar passando na TV há meses sem que se veja qualquer problema. Não viu o comercial? Eu explico: um grupo de amigos, só homens e brancos, bebem na praia, quando um deles, ao observar mulheres, pergunta pros outros: “Já pensou se a gente fosse invisível?”. Corte pra latinhas de cerveja flutuando, representando que a fantasia virou realidade. E o que os homens invisíveis estão fazendo? Passando a mão na bunda de mulheres no mar. Sacaneando um cara que joga frescobol. Tocando o terror na praia. 
Até que entram num vestiário feminino. A câmera não mostra tudo, só as latinhas abrindo a porta, e mulheres correndo pra fora, aterrorizadas. O mais perverso é que, mesmo no “clima de humor” do comercial, a expressão no rosto das mulheres é de pavor. Na maior parte das vezes, quando homens fazem piadas de estupro, atenuam a violência fingindo que a vítima está gostando (esta também é uma mensagem perversa, claro). Aqui nem tentam isso. As mulheres saem correndo dos homens invisíveis com medo mesmo.
Publicitário é um bicho arrogante e egocêntrico (eu fui redatora publicitária em outra encarnação). Mas uma de suas funções é estar antenado com o mundo, saber o que acontece, conhecer outros produtos culturais. Daí eu imagino que os publicitários saibam que, desde 2009, as leis brasileiras deixaram de considerar estupro apenas quando há penetração vaginal. Hoje temos uma das leis mais abrangentes do mundo, e passar a mão também pode ser visto como estupro. Ou seja: o que os homens invisíveis do comercial da Nova Schin fazem, pela lei, é estupro. E eles morrem de rir disso. Se fosse com eles, seria engraçado? 
Mesmo que os publicitários não conheçam a lei, eles definitivamente conhecem O Homem Sem Sombra, filme de 2000 do Paul Verhoeven. Nesse thriller, Kevin Bacon faz um cientista que descobre a fórmula da invisibilidade, e a testa nele mesmo. Ele vai ficando cada vez mais obcecado com esse poder, até que decide estuprar uma vizinha que ele espia pela janela. A cena é terrível (você pode vê-la aqui, e aqui a continuação, com o comentário do diretor explicando que tiveram que suavizar o estupro), mas mais chocante ainda é o número de comentaristas no YouTube fazendo piadinhas (“ela vai ter um filho invisível?”) e afirmando que, na pele do cientista, fariam exatamente a mesma coisa -– estuprariam mulheres.
E eles não estão brincando. Não tenho tempo para encontrar todas as pesquisas que já li mostrando que, se estupro não fosse crime, muitos homens estuprariam. Margo Paine fez um estudo com universitários americanos, e os números, publicados em Body Wars, não são bonitos. 30%  dos entrevistados responderam que estuprariam se não houvesse consequências legais. 8% revelaram já ter estuprado ou ter tentado estuprar. 83% concordaram com a expressão “Algumas mulheres parecem que estão pedindo para ser estupradas”. Diante de resultados assim, você ainda quer manter sua certeza de que apenas psicopatas estupram? De que não vivemos numa cultura de estupro?
Um dos problemas é que boa parte dos homens não faz ideia do que seja estupro. Estupro, pra eles, é só o que acontece num beco escuro à noite entre um psicopata e uma mulher que, pelas roupas, “estava pedindo”. E tem que haver muita violência física para que esses mesmos homens encarem aquilo como estupro. Para esses cidadãos, não passa a ideia de que estupro é pura e simplesmente sexo sem consentimento. Nesse mesmo estudo de Paine, quando a palavra estupro foi substituída por “sexo forçado”, 54% dos entrevistados disseram que “forçariam sexo”. Quer dizer... Muitos homens não veem forçar sexo como estupro! Assim como a Prudence não vê sexo sem consentimento como estupro. Assim como a Nova Schin não vê agarrar mulheres nuas como estupro.
É exatamente isso que a cultura de estupro faz com a sociedade: ensina que mulher faz charminho, que quando ela diz não ela no fundo está dizendo sim, que é totalmente normal pruma mulher, que obviamente nem gosta de sexo, “vender caro seu passe”, fingindo refutar o macho incontrolável para assim se valorizar. E que homens são eternos brincalhões, boys will be boys.
Acho que nunca publiquei um só post sobre estupro sem que viesse algum sujeito dizer que aquilo é besteira, que somos paranoicas, que não deveríamos dar importância pra aquilo, que deveríamos estar falando da corrupção do governo ou salvando criancinhas na África. Ou sem que viesse algum cara dizer que o caso narrado simplesmente não aconteceu, que a mulher está mentindo, que aquilo não é estupro de jeito nenhum, que as mulheres gostam, que imagina se aquela propaganda faz apologia do estupro!, que nós é que não temos senso de humor. O que eu leio em todas essas frases é apenas um recado vindo de homens: “Não quero saber de assuntos de mulheres, mas quero continuar podendo rir deles”.
Que tal trocar o disco? Que tal assumir sua responsabilidade nesta cultura de estupro? Temos basicamente dois times: um que luta pelo fim do estupro e pela liberdade das mulheres; outro que luta para manter o privilégio de encarar estupro como piadinha e manter as mulheres com medo. Em que time estão os publicitários e a mídia em geral? Em que time você está?

Leia sobre a repercussão deste post. E sobre respostas e ações.