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segunda-feira, 11 de março de 2019

AS LIGAÇÕES PERIGOSAS DE BOLSO COM AS MILÍCIAS VIRTUAIS

Hoje tenho várias notícias sobre a direita que cria e espalha ódio. Resta saber a conexão entre elas.
Um caso grave é o envolvimento de Jair Bolsonaro com as mentiras. Certo, todo mundo sabe que ele foi eleito graças às fake news do WhatsApp e que o Supremo deu carta branca pra que ele continuasse fazendo isso. Mas não podemos nos acostumar com isso. Não é aceitável que um presidente (ou seus filhos) coordenem uma rede profissional de calúnias e difamações.
Não consigo entender como o Twitter permite a ação de bolsobots. Se você não sabe o que são, são os robôs do Bolsonaro. Contas no Twitter com pouquíssimos seguidores, cheias de números no nome, geradas recentemente, e que surgem em massa para atacar desafetos ou divulgar mentiras. Se alguém ainda tem alguma dúvida, é só conferir que todas as hashtags pró-Bolso, sem exceção, entram nos Trending Topics de países que nem falam português, como Malásia e Ucrânia.
Bolsominions difamando deus
Obviamente o Twitter tem tecnologia para barrar robôs na sua rede. Provavelmente não o faz porque seus números cairiam muito (a quantidade de robôs é imensa,e é uma indústria, com firmas que criam e vendem milhares de perfis para inflar contas). Mas é intolerável que a inércia do Twitter permita que o exército de robôs de Bolso ataquem pessoas reais impunemente e dominem o debate.
Ontem os bolsobots lançaram e mantiveram no topo durante horas a tag #EstadaoMentiu (hoje substituíram por #AImprensaMente). 
Eu entrei e vi um monte de ofensas a uma jornalista, Constança Rezende, e, claro, ao jornal. Numa gravação em inglês com legendas em português que não combinavam muito com o que estava sendo dito, a repórter dizia que as investigações sobre Flavio Bolsonaro só foram noticiadas depois das eleições. Eu ouvi aquilo e pensei: ué, isso depõe contra a direita. Quer dizer que havia gente que sabia das falcatruas da famiglia Bolso, mas guardou as informações para que ele não perdesse as eleições. Os bolsominions encararam aquilo como conspiração internacional para derrubar o governo, como se as movimentações de Queiroz fossem uma ficção.
Bolsominions contra a
"impressa"
A origem da acusação contra a repórter surgiu no site Terça Livre, especializado em teorias da conspiração e fake news, como todos os canais da direita. Mas não foi só uma mentira. Foi uma montagem do áudio, com pausas e frases selecionadas (além de legendas que não batem). Pra piorar, Constança nunca falou com o jornalista francês que o Terça Livre coloca como autor da entrevista com ela. No dia 23 de janeiro, pelo que apurou o Estadão, ela conversou com um suposto estudante americano que disse estar fazendo um estudo comparativo entre Trump e Bolso.
Isso tudo já é bastante sério, mas o próprio presidente tuitou a mentira. Ele escreveu num tuíte que a repórter "diz querer arruinar a vida de Flávio Bolsonaro e buscar o impeachment do presidente", que ela é filha de um jornalista do Globo (ué, não pode?), e que "querem derrubar o governo com chantagens desinformações e vazamentos".
É irônico que um noticiário de direita que apoiou a eleição de Bolso seja chamado de comunista, mas esta é a sina de toda a mídia numa ditadura, ainda mais nos tempos de internet. A intenção da direita é desacreditar toda a imprensa. Pra Olavão e cia, Veja, Globo, Folha, enfim, todo mundo, é de esquerda e contra a direita. Eles fazem campanhas para que leitores deixem de assinar esses veículos e se "informem" apenas através de canais recomendados por Bolso. Canais que não somente são totalmente a favor de Bolso como também inventam um monte de fake news.
Outra notícia interessante é a que foi publicada ontem por um site de esquerda, o Diário do Centro do Mundo. O site teve acesso a um podcast gravado por Loen e Hiram, trolls bastante conhecidos no Twitter, que atacam a mim e a muitas outras pessoas de esquerda (principalmente feministas) há anos. No podcast, Hiram, que está morando na Suíça (ele trabalhava na TAM de Joinville mas foi demitido depois da empresa saber o que ele fazia na internet), conta como se encontrou com Bolso, Sérgio Moro, a comitiva toda, em Davos. Pra conseguir isso, ele entrou em contato por DM (direct message) com Eduardo Bolsonaro, que lhe deu acesso irrestrito.
O DCM , que já havia publicado um perfil sobre Hiram dois anos atrás, em que afirmava que ele era um "Proud Boy" (uma organização supremacista), e dono da página "Antes e Depois da Federal", no Facebook, diz que ele foi o primeiro perfil a atacar a filha menor de idade de Maria do Rosário. Ela foi difamada em massa há dois anos, e comparada com os filhos de Bolso (que seriam modelos de ética, enquanto a deputada depravada só poderia criar uma filha degenerada). O DCM aponta que o 55chan fez alguns dos ataques. Mas eu acompanhava o Dogolachan na época e sei que ele também colaborou.
Eu ouvi esse podcast citado pelo DCM (no mesmo podcast, Loen conta que espalhou fake news sobre Jean Wyllys), e é aquele festival de misoginia, racismo e homofobia de sempre, marca registrada da direita. Não resta dúvida pra mim que tanto Hiram quanto Loen são channers e mascus. Eles usam o mesmo vocabulário de mascus e têm a mesma ideologia (mulher não presta, "travesti é melhor que mulher"). Ainda não sei se eles fazem parte também do Dogolachan. Num outro podcast de Hiram que escutei, ele se posicionava contra mulher poder votar e exercer cargos públicos.
Infelizmente, apenas Hiram ter se encontrado com Bolso em Davos e ser seguido por ele e seu filho Dudu no Twitter não é prova de que trolls são contratados por eles para perseguir e difamar inimigos políticos (e seus familiares). Mas é mais um indício dessas ligações perigosas. Afinal, se a famiglia Bolso tem conexões com as milícias de carne e osso, por que não teria com as milícias virtuais?
A outra notícia chegou até mim ontem à noite. Existe um filósofo e escritor muito bom, Henry Bugalho, que tem feito ótimos vídeos no seu canal no YouTube. Como ele tende à esquerda, alguns de seus vídeos são críticos (mas comedidos, coerentes, com fontes confiáveis) a figurinhas da direita, como Olavão, Nando Moura e, mais recentemente, um jovem "analista" da Joven Pan (emissora que virou um reduto tão reaça que estamos chamando de Jovem Klan), Caio Coppola. Ontem Henry divulgou esse print do Dogolachan (que está na Deep Web desde setembro):
É uma ação rotineira do chan: tentar incriminar alguém. No print, um mascu sancto diz que conseguiu o endereço de Henry (que mora na Espanha com a esposa Denise) com o "anão do embu" (como Nando Moura é conhecido; lógico que a palavra de um anônimo num chan não vale nada, mas os boatos de que Nando é channer e está envolvido com milícias virtuais já têm muitos anos). No fórum, os mascus compartilham ideias de como incriminá-lo: comprar espaço num site e pedir pra uma "dogoleira" gravar um áudio dizendo que foi molestada por ele (a Emma ainda existe? Pensei que ela estivesse internada). 
Minha solidariedade a Henry e Denise. Eles fizeram a coisa certa: além de registrarem queixa na delegacia, divulgaram as ameaças. Esta é uma eficaz arma de defesa. Como ele tem um canal que só cresce, muita gente já fica vacinada contra as prováveis mentiras que os sanctos vão espalhar sobre ele. Se reaças maiores ajudarem a divulgar essas mentiras, vale a pena processá-los. 
A quadrilha do Dogolachan não parece que vai parar, mesmo depois de seu líder, Marcelo, ter sido preso (em maio) e condenado a 41 anos de prisão (em dezembro). Falta prender o resto da quadrilha, que segue cometendo crimes e ameaçando. Eu continuo recebendo ameaças semanais nos comentários do meu blog ou por email. Faz dez dias, recebi este email:
Clique para ampliar
Veio assinado por um tal de Breno Alves, que festeja o crescimento do Dogolachan na deep web e promete que, "com a quantidade de doações que estamos recebendo, em breve vamos finalmente contratar algum pistoleiro em Fortaleza para matar você. Sim, você irá morrer ainda esse ano, em uma simulação de latrocínio, eu juro em nome de Deus e com a mão no túmulo do meu pai". 
A Polícia Federal já tem o nome completo, cidade onde ele mora (Franca, SP), imagens dele. Eu enviei esses dados pra polícia quando Breno fez um vídeo em que dizia: "Kyo, meu confrade, que saudade de você, meu amigo. Mas por outro lado eu fico feliz e satisfeito com seu recente acto de ter aleijado aquela sapatona imunda e ter condenado ela a uma vida infeliz. Muito bom, meu irmão. Te abençoo aonde for que você esteja. Fique tranquilo, que em breve eu vou te acompanhar, e eu pretendo levar comigo a Lola, meu confrade, ela não vai te difamar e não vai difamar nenhum confrade mais. Isso eu prometo aqui, perante todos. Abraço, meu irmão". 
Kyo, ou André Garcia
Kyo, ou André Luiz Gil Garcia, foi um mascu sancto que esteve ao lado de Marcelo desde pelo menos 2011. Ele chegou a ser moderador do Dogolachan durante vários anos. Porém, quando Marcelo e Emerson (hoje foragido na Espanha) foram presos pela Operação Intolerância, Kyo (cujo nome real não conhecíamos na época) ficou livre, e continuou tocando o site de ódio. Um mês depois de Marcelo ser preso pela Operação Bravata, em maio de 2018, Kyo deixou uma mensagem no chan anunciando que iria se matar. Ouviu o mesmo de sempre: "Leve a escória junto". Ou seja, mate mulheres, feministas, negros, LGBT, e só depois se suicide, e vire ícone. Houve várias ofertas para comprar uma passagem só de ida para Kyo vir a Fortaleza me matar.
Na mesma noite, Kyo saiu às ruas da pequena cidade onde morava (ele tinha 29 anos e não estudava, não trabalhava, não namorava, morava com os pais), Penápolis, SP, e assediou duas moças que ele nunca tinha visto na vida. Elas saíram correndo, e ele usou sua arma calibre 22 para covardemente atirar numa delas pelas costas. Acertou a nuca de Luciana, 27 anos. Andou mais um quarteirão e se matou. Luciana aguentou vinte dias numa UTI, mas não resistiu e morreu em 5 de julho. Uma leitora me informou que Luciana estava com sua namorada quando foi abordada. Quando Breno gravou o vídeo, Luciana ainda estava viva.
Breno já tinha indiretamente aparecido na TV. Em 2017, ele vestia uma camiseta de Bolsonaro quando passou numa praça de Franca e bateu com seu capacete na cabeça de um rapaz negro que estava sentado num banco. Na maior cara de pau, Breno processou o rapaz que o acusou (e depois abandonou o processo). Você pode ver a reportagem aqui. Quer dizer, se houvesse qualquer interesse em prender a quadrilha, a PF poderia entrar em contato com o delegado da Polícia Civil do caso, e, no mínimo, chamar Breno para explicar as ameaças a mim (a PF tem o vídeo). 
Eu já disse e repito: os mais antigos apoiadores de Bolso à presidência (quando ele não passava de uma piada) são os misóginos. Eles já faziam campanha pra ele em 2010. E continuam muito fiéis. Sentem-se representados por ele. Fantasiam com o dia em que todos eles possam portar armas e criar mais "heróis" (homens frustrados que atirarão na "escória"). E isso vai acontecer, se a polícia não agir logo. Por outro lado, qual a vontade deste governo em investigar e prender seguidores do presidente?
Um jornalista pelo qual não tenho o menor apreço, Reinaldo Azevedo disse há poucos dias que seu site havia sido hackeado, e que, em quatorze anos fazendo oposição (virulenta) ao PT, ele nunca tinha passado pelo que está passando ao se opor ao governo de Bolso. Pois é. 
Cria corvos, imprensa, que te arrancarão os olhos. 

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

"ACREDITEI QUE MINHA EXISTÊNCIA ERA LIMITADA À APROVAÇÃO DOS OUTROS"

Vinicius Simões, colaborador frequente e querido do blog, enviou este ótimo artigo de Kelly Marie Tran publicado no New York Times.
Pra quem não sabe, a atriz foi muito atacada nas redes sociais por homens que não aceitam uma mulher asiática no filme Star Wars. Recentemente, após tantos xingamentos racistas e machistas, ela decidiu deletar seu Instagram. Um grupo de homens brancos online se declarou responsável pela "vitória" de fazer com que Kelly deletasse sua conta (o grupo também pregou boicote ao filme Pantera Negra, que já arrecadou US$ 1.3 bi). 
Esta é a primeira vez que Kelly fala sobre tudo isso. 
A atriz Kelly Marie Tran com a camiseta do filme
Não foi pelas palavras deles, foi por eu ter começado a acreditar nelas.
Suas palavras pareciam confirmar o que crescer sendo uma mulher e uma pessoa não-branca já me ensinaram: que pertenço a margens e a espaços, válida apenas como uma personagem secundária em suas vidas e histórias.
Kelly no filme Star Wars:
os últimos Jedi
, como Rose
E aquelas palavras despertaram algo dentro de mim -- um sentimento que eu pensava ter superado. O mesmo sentimento que tive quando, aos 9 anos de idade, parei completamente de falar vietnamita porque estava cansada dos meus amigos caçoando de mim. Ou aos 17, quando, ao jantar com meu namorado branco e sua família, pedi um prato em um inglês perfeito, para a surpresa da garçonete, que exclamou “Uau, que fofo que vocês têm uma estudante de intercâmbio!”
Suas palavras reforçaram uma narrativa que ouvi minha vida inteira: a de que eu era “a outra”; que eu não pertencia; que eu não era boa o suficiente, simplesmente porque não era como eles. E esse sentimento, eu percebo agora, era, e é, vergonha. Vergonha pelas coisas que me fazem diferente; vergonha pela cultura da qual vim. E para mim, a coisa mais decepcionante foi que eu realmente a senti.
Porque a mesma sociedade que ensinou a algumas pessoas que elas eram heroínas, salvadoras, herdeiras do ideal do Destino Manifesto, ensinou que eu existo apenas no segundo plano de suas histórias, fazendo suas unhas, diagnosticando suas doenças, apoiando seus interesses amorosos e –- talvez o mais prejudicial -– esperando que elas me salvem.
E por um longo tempo, acreditei nelas. 
Acreditei naquelas palavras, naquelas histórias cuidadosamente fabricadas por uma sociedade construída para defender o poder de um tipo de pessoa -– um gênero, um tom de pele, uma existência.
Isso reforçou dentro de mim regras que foram escritas antes de eu nascer, regras que fizeram meus pais julgarem necessário abandonar seus nomes reais e adotar nomes americanos -– Tom e Kay -–, pois assim seria mais fácil para outras pessoas pronunciarem. Literalmente um apagamento de cultura que me dói no fundo.
E por mais que odeie admitir, comecei a me culpar. Eu pensava “Ah, talvez se eu fosse mais magra”, ou “Talvez se eu deixasse meu cabelo crescer” e, pior de tudo, “Talvez se eu não fosse asiática”. Durante meses entrei em uma espiral de auto-ódio nos recantos mais escuros da minha mente, lugares onde me despedaçava, lugares onde colocava as palavras dos outros acima da minha própria autoestima. 
E foi então que percebi que haviam mentido para mim.
Eu havia sofrido uma lavagem cerebral para acreditar que minha existência era restrita aos limites da aprovação de outras pessoas. Fui enganada para pensar que meu corpo não era meu, que eu só seria bonita se alguém acreditasse nisso, independentemente da minha própria opinião. Isso me foi dito e repetido por todo mundo: pela mídia, por Hollywood, por empresas que lucraram com minhas inseguranças, me manipulando para que comprasse suas roupas, sua maquiagem, seus sapatos, a fim de preencher um vazio que era perpetuado por eles, em primeiro lugar.
Sim, mentiram para mim. Para todas nós.
E foi nessa percepção que senti uma vergonha diferente -– não uma vergonha por quem eu era, mas uma vergonha pelo mundo no qual cresci. E uma vergonha por como o mundo trata qualquer um que é diferente.
Não sou a primeira pessoa a crescer assim. Assim é crescer como uma pessoa não-branca em um mundo dominado por brancos. Assim é ser uma mulher em uma sociedade que tem ensinado suas filhas que somos merecedoras de amor apenas se formos consideradas atraentes por seus filhos. Esse é o mundo no qual cresci, mas não é o mundo que quero deixar. 
Quero viver em um mundo em que pessoas não-brancas não passem suas adolescências inteiras desejando ser brancas. Quero viver em um mundo no qual mulheres não sejam submetidas a uma análise minuciosa sobre sua aparência, ou suas ações, ou suas existências em geral. Quero viver em um mundo em que pessoas de todas as raças, classes socioeconômicas, orientações sexuais, identidades de gênero e habilidades sejam vistas como elas sempre foram: seres humanos.
É esse o mundo no qual quero viver. E esse é o mundo pelo qual continuarei trabalhando.
Esses são os pensamentos que passam pela minha cabeça toda vez que escolho um roteiro ou um livro. Sei que a oportunidade que me foi dada é rara. Sei que hoje pertenço a um pequeno grupo de pessoas privilegiadas que conseguem contar histórias por profissão, histórias que são ouvidas e vistas e digeridas por um mundo que por muito tempo só experimentou uma coisa.
Sei o quão importante isso é. E não irei desistir.
Vocês devem me conhecer como Kelly.
Eu sou a primeira mulher não-branca a ter um papel de destaque na franquia Star Wars.
Eu sou a primeira mulher asiática a aparecer na capa da Vanity Fair.
Meu nome verdadeiro é Loan. E estou apenas começando.

domingo, 12 de agosto de 2018

A MORTE DA PM E A PROIBIÇÃO DE UMA PEÇA

Tem um mascutroll insistindo pra que eu fale de uma policial militar que foi assassinada em SP. Óbvio que o troll não tem nenhum interesse em saber sobre a PM em si. É só mais uma oportunidade pro cara que parte de premissas erradas -- "vc odeia a polícia e é hipócrita porque só dá valor a mulheres que são feministas" -- me xingar.
Há inúmeros motivos pra eu não destacar algum assunto aqui no bloguinho. Eu posso não saber que o tal assunto aconteceu. Eu posso não ter tempo em escrever sobre isso. Eu posso achar que não tenho nada além do óbvio para acrescentar ao assunto. Eu posso não escrever sobre um assunto justamente porque um mascutroll me cobrou pra escrever, e eu não gostar de seguir ordens de um ser repulsivo. Eu posso sugerir que a pessoa comece o seu próprio blog e lá escreva sobre tudo que achar importante. 
O caso de que só fiquei sabendo através da insistência do mascutroll foi o seguinte: Juliane dos Santos Duarte, ou Dudu Duarte (há dúvidas se era uma mulher cis lésbica ou um homem trans hétero), policial militar, foi assassinada numa favela em SP. Seu corpo foi encontrado quatro dias depois. Como a maioria dos PMs mortos, ela estava fora de serviço. 
Fiquei sabendo dessa notícia muito por cima, porque passei boa parte da semana passada em Brasília, participando de um colóquio internacional incrível sobre análise do discurso, onde tive a honra de dar a conferência de encerramento. Quando voltei, vi na minha timeline do Twitter muita indignação com uma matéria da Folha de S. Paulo, que falava do "intenso dia de férias" da PM antes de ser baleada. 
Como bem explica o Intercept, Juliane foi morta duas vezes: pelos criminosos que a mataram e pela imprensa. De fato, ao ler a notícia da Folha, vem a pergunta: 
se a vítima tivesse sido um homem cis hétero, haveria tantos detalhes sobre o que ele bebia e com quem ele saiu? Qual a necessidade de descrever fisicamente a mulher com quem a PM flertou? Como escreveu o Intercept: "Dizer que a PM viveu seus últimos momentos de vida com 'bebida, beijos e dança', em uma narrativa com chave erótica, foi a escolha mais desrespeitosa possível ao tratar de uma policial militar morta brutalmente e que tinha direito de se divertir como bem entendesse em seus momentos de folga". 
É lamentável o assassinato da PM. Lamentável o tratamento de parte da mídia sobre o assunto. E lamentável também a estupidez do troll em querer ditar sobre o que devo escrever.
Depois eu vi que toda a direita fez comparações cretinas entre a repercussão dada à execução da PM com à da vereadora Marielle Franco. A execução de Marielle foi política! E só pros reaças saberem: Marielle (e tantos ativistas de Direitos Humanos) dava amparo a familiares de PMs assassinados e lutava contra esse tipo de crime. A narrativa de que ativistas não se importam com a morte de policiais é uma ficção. 
JESUS DISSE: VAI TER PEÇA SIM
Aliás, aproveitando o domingo e o post curto, tem uma outra notícia que eu queria registrar: no final de julho, no 28o Festival de Inverno de Garanhuns, foi apresentada a peça Jesus, Rainha do Céu. Um desembargador, atendendo ao pedido da Ordem dos Pastores Evangélicos de Garanhuns, havia proibido o espetáculo por "retratar Jesus indevidamente". Motivo: quem interpreta Jesus é Renata Carvalho, uma atriz trans.
Isso, que eu saiba, tem nome: censura. Mas Renata e o pessoal de Garanhuns foi forte. Fez o espetáculo com recursos próprios, sob chuva, sem iluminação, com som cortado, desafiando um batalhão da PM que fora enviado para impedir a peça. Um grande sucesso de desobediência civil. Uma catarse.
Renata afirmou: "Desde que a peça estreou, há dois anos, em Londrina, sofremos perseguições. Esse ódio se deve à construção social, à folclorização e à criminalização dos corpos trans. Por isso, lutamos por representatividade trans. Queremos estancar a sangria. No Brasil, a vida média de uma trans é de 27 anos". 
Por coincidência, 27 anos era a idade da PM Juliane -- ou Dudu -- quando foi assassinada. 

sexta-feira, 4 de maio de 2018

ESTAMOS SEGURAS NA INTERNET?

Reproduzo aqui o artigo excelente (e muito completo) que Amanda V., Glênis Cardoso, Lizandra Tarsilla Gallindo e Kamila Braga, do grupo Górgonas, participantes do SaferLab 2018, publicaram no seu Tumblr.

O escândalo de vazamento de dados do Facebook para a consultoria de marketing político Cambridge Analytica pôs novamente no radar o debate sobre segurança na internet. O caso reacendeu o alerta sobre como estamos vulneráveis quando ficamos online.
A partir dessa discussão, nos perguntamos: quais são as questões de segurança online  que impactam a vida de mulheres? Encontramos quatro casos em que as regras da internet foram discutidas ou alteradas por colocarem privacidade e segurança em risco.
Lei Carolina Dieckmann
Em 2012, Carolina Dieckmann foi alvo de ataques cibernéticos: o computador da atriz foi invadido e 36 de suas fotos íntimas foram roubadas. Depois de tentar extorquir a atriz sem sucesso, os hackers divulgaram as imagens na internet.
As investigações sobre o caso identificaram quatro suspeitos por trás do ataque, todos homens, e conversas entre eles demonstraram a convicção de que permaneceriam impunes. Em certa parte da conversa, um dos hackers escreveu “Ela tinha que ter cuidado de apagar, né?”, se referindo às fotos de Dieckmann.
Além da óbvia misoginia e o desrespeito pela privacidade, os hackers não pareciam entender a gravidade de suas ações pelo fato de elas terem se dado pela internet. Até então, o Brasil não possuía nenhum tipo de lei específica para crimes cibernéticos. 
Devido à notoriedade de Dieckmann, entretanto, discussões sobre o assunto chegaram ao espaço público e, no mesmo ano, um projeto de lei que havia sido apresentado no ano anterior foi aprovado, um tempo curtíssimo quando comparado às décadas que muitas vezes são necessárias para a aprovação de uma lei.
A Lei 12.737 ficou conhecida como Lei Carolina Dieckmann devido ao caso envolvendo a atriz. Ela torna crime “invadir dispositivo informático alheio, conectado ou não à rede de computadores, mediante violação indevida de mecanismo de segurança e com o fim de obter, adulterar ou destruir dados ou informações sem autorização expressa ou tácita do titular do dispositivo ou instalar vulnerabilidades para obter vantagem ilícita.”
Em consequência da rapidez da aprovação e a geral falta de conhecimento sobre governança da internet, a lei apresenta diversas falhas, entre elas a imprecisão do que constituiria uma invasão de dispositivo informático e punições excessivamente brandas.
Uma questão que não foi diretamente abordada pela lei foi o caráter misógino do crime. Embora qualquer um possa ser vítima de ataque cibernético, situações em que fotos íntimas são usadas para chantagear ou expor pessoas ocorrem majoritariamente com mulheres. 
O caso de Dieckmann teve repercussão devido à fama da atriz, mas é importante lembrar que o “revenge porn” (“pornô de vingança”) acontece rotineiramente com mulheres comuns e não existe nenhuma lei específica para lidar com o problema. Uma pesquisa do Instituto Avon mostra que 59% dos homens brasileiros já receberam imagens de mulheres nuas enviadas sem autorização, e 28% declararam ter repassado esse tipo de conteúdo.
Dados da Safernet Brasil
Para além das leis, algumas empresas têm tomado medidas para tratar da questão. O Google, por exemplo, criou uma Política de Remoção de Conteúdo, que permite que, após o preenchimento de um formulário, páginas com conteúdo sexual divulgado sem consentimento não apareçam no mecanismo de busca. 
Assédio online e #TwitterTóxico
Segundo uma pesquisa do Pew Institute Research, 37% das mulheres estadunidenses foram assediadas online. A pesquisa também observou que homens e mulheres têm atitudes diferentes em relação ao assédio online. Para a maioria das mulheres (63%), a segurança é mais importante do que a liberdade de opinião, enquanto a maior parte dos homens defende (56%) que se expressar livremente é mais importante do que garantir um ambiente seguro para os usuários.
Enquanto a pesquisa do Pew Institute Research coloca liberdade de expressão e segurança online como polos opostos e em conflito, um estudo da Anistia Internacional feito em oito países mostra que a falta de segurança online contribui para tolher a liberdade de expressão de minorias. 
As mulheres entrevistadas que sofreram abuso pela internet declararam ter mudado o modo como usam redes sociais. Entre elas, 32% deixaram de publicar conteúdo em que expressavam opiniões sobre um determinado assunto. 
A pesquisa integra o relatório #ToxicTwitter (#TwitterTóxico), que argumenta que a plataforma não adota políticas eficazes para combater abuso contra mulheres. Uma jornalista do Reino Unido entrevistada relatou ter denunciado 100 tweets abusivos, mas só dois foram deletados. 
Em 2016, a atriz Leslie Jones deletou sua conta na rede social após receber uma enxurrada de mensagens racistas e misóginas – uma reação ao mero fato de Jones ter estrelado um remake do filme Ghostbusters protagonizado por mulheres.
Em resposta ao relatório da Anistia Internacional, o Twitter disse que “não pode deletar ódio e preconceito da sociedade” e argumentou já ter feito 30 mudanças nos últimos 16 meses para aumentar a segurança dos usuários. Em dezembro do ano passado, o Twitter havia anunciado novas regras para combater comportamentos abusivos.
A pesquisadora americana Joanne St. Lewis, da Universidade do Sul da Califórnia, fala em “terrorismo de gênero” para se referir aos homens em redes formais ou informais que se organizam para atacar e silenciar mulheres. Aos que acusariam o termo de ser exagerado, St. Lewis rebate:
A escritora feminista Jessica Valenti nota que os textos com maior repercussão são justamente aqueles pelos quais ela recebe mais assédio. “Esse é um problema real para os veículos: quando seus escritores fazem um bom trabalho, eles são punidos”, relata.
Valenti é colunista do jornal The Guardian, onde ocupa o desconfortável primeiro lugar no ranking de autores que mais receberam comentários bloqueados pela moderação do site desde 1999. Todas as primeiras dez integrantes da lista são mulheres. “Estamos perdendo escritoras de comunidades marginalizadas porque elas não querem seguir uma carreira na qual receber assédio faz parte do trabalho”, diz Valenti.
Lei Lola
No Brasil, a Lei Lola (13.642), sancionada em abril deste ano, é um importante marco no combate ao assédio online contra mulheres. Criada pela deputada federal Luizianne Lins (PT-CE), a lei atribui à Polícia Federal a investigação de crimes de ódio contra mulheres pela internet.
Trata-se de uma homenagem à blogueira feminista Lola Aronovich, que desde 2011 recebe ameaças de morte e mensagens de ódio de grupos de homens masculinistas. Lola já havia feito onze boletins de ocorrência, mas a única ameaça investigada pela Polícia Federal foi a que poderia ser enquadrada como crime de terrorismo: um e-mail que prometia assassinatos em massa na universidade onde a ativista e professora leciona.
Segundo Lola, a Polícia Federal se recusou a investigar as outras denúncias, porque na época a instituição só poderia atuar nas áreas onde o Brasil é signatário internacional, como racismo e pornografia infantil. Misoginia não era uma delas. 
Changirls e os limites da liberdade de expressão
Com os conhecimentos corretos, é possível navegar pela internet quase sem deixar rastros. No site 4chan, essa característica ainda mais presente. Não é necessário criar uma conta para publicar nos fóruns e os conteúdos expiram após algum tempo no ar. A maioria dos usuários do 4chan são homens (70%), de 18 a 34 anos, dos Estados Unidos (47%), Reino Unido (8%) e Canadá (6%). O Brasil representa 1,5% de quem frequenta o site.
A efemeridade e o anonimato quase completos chamam a atenção de usuários que buscam desafiar tabus e leis. Com o aval de seu criador, Christopher Poole, conhecido como Moot, o site se tornou conhecido pela circulação de conteúdo carregado de pedofilia, racismo, misoginia, homofobia e desrespeito pelos direitos humanos.
As histórias das chamadas “changirls” são muitas. Meninas, em sua maioria adolescentes, acessavam o site em busca de aprovação masculina e popularidade. Essas garotas formam um grupo que tem, ainda hoje, legiões de “fãs” -– homens adultos que as enxergam como verdadeiras entidades, construindo uma espécie de religião a partir da presença online dessas garotas.
Um dos casos mais emblemáticos é o da jovem Loli-chan, hoje com 25 anos. Aos 12, Loli começou a postar no tópico “aleatório” do 4chan. Pouco tempo depois, começou a se relacionar com homens mais velhos. Um deles conseguiu convencê-la a enviar fotos nuas, que logo foram divulgadas sem consentimento.   
Loli-chan chegou ao ponto de ser admitida em uma instituição psiquiátrica e nunca foi capaz de retomar uma vida social normal – hoje, ela precisa se submeter a vida de “camgirl” para pagar as dívidas da internação, e ainda recebe presentes de homens que ainda são verdadeiramente obcecados pela persona online da jovem, embora ela tenha caído em relativa obscuridade. 
“Não acredito que eu mereça ser idolatrada, então não estou chateada ou magoada porque as pessoas não gostam mais de mim. Acho que meu pai está certo, e só gostavam de mim porque eu era uma criancinha e eles eram todos pedófilos. Então é algo que eu nunca deveria ter feito”, disse Loli em uma entrevista para o Miami New Times
E ainda que seja irreal esperar que os vários usuários da internet possam ser completamente “controlados”, é trabalho dos administradores de sites e fóruns refrear o conteúdo ofensivo e criminoso veiculado nesses espaços. Mas isso não é, exatamente, uma visão compartilhada por todos.
O debate do respeito aos direitos humanos frequentemente vai de encontro com o  direito à liberdade de expressão –- para alguns que não compreendem o significado de tais direitos e que, por conta de diferentes privilégios não são afetados pelo desrespeito a eles. É claro que a liberdade de expressão é um direito humano! Mas se expressar não pode ser confundido nunca com o desrespeito ao outro ou o desrespeito a qualquer lei. 
Um dos pontos mais controversos sobre o 4chan é justamente a deturpação da noção do que é o direito de expressão, e seu fundador, antes de vender o site, nunca foi responsabilizado por não retirar do ar os conteúdos criminosos que o site abrigava. 
Para Moot, preservar a liberdade proporcionada pelo 4chan era a prioridade. Em uma palestra do Ted Talks, o criador defendeu o site: “Para tantas coisas boas que saem desse ambiente, há algumas ruins. Há pouquíssimos lugares, agora, onde você pode ir e não ter identidade, ser completamente anônimo e dizer o que quiser. E dizer o que quer, acredito, é poderoso. Fazer o que quiser é, agora sim, cruzar uma linha. Acho que é importante ter esses lugares. Quando recebo e-mails, as pessoas dizem ‘obrigada por me dar esse lugar, esse canal, onde chego depois do trabalho e sou eu mesmo’”
Ainda que o conteúdo do 4chan seja altamente efêmero, uma vez na internet, sempre na internet. E os rastros de destruição que o conteúdo veiculado lá causou na vida de diversas mulheres resiste até hoje.
Embora o anonimato seja um direito muito importante no mundo virtual, especialmente para ativismos como o hackeractivism, é urgente a responsabilização de sites e administradores pelo conteúdo que é veiculado em seus websites.
Se o fundador do Facebook está respondendo –- talvez não judicialmente, mas certamente social e economicamente -– pelo erro grotesco de seu site, que permitiu que a empresa Cambridge Analytica roubasse dados de usuário da rede social, o mesmo deve acontecer com plataformas como 4chan, Twitter, Snapchat. Este último, inclusive, recentemente perdeu milhões por ter veiculado um anúncio que banalizava a violência doméstica da qual a cantora Rihanna foi vítima, assim como o Instagram precisou retirar, por um tempo, a ferramenta de utilização de gifs em stories por veiculação de conteúdo racista.
A segurança virtual e a garantia dos direitos humanos é um ganho para todos os usuários da internet, mas grupos marginalizados e minorias precisam ainda mais da certeza que terão seus direitos respeitados, por serem vítimas com maior frequência das violências que se expressam online e offline.

Portanto, é necessária uma pressão da sociedade civil e dos governos para que sites e aplicativos fortaleçam suas políticas a fim de que usuários sejam punidos em ambas as esferas. Liberdade de expressão, ao contrário do que advogava o então fundador do 4chan, não é ter direito de falar o que quiser e, assim, cometer crimes. Retirar da internet esse tipo de conteúdo criminoso não será, nunca, censura. E sim justiça.